Open-access Conhecimento, atitude e prática de puérperas adolescentes após intervenção educativa sobre minipílula anticoncepcional *

Objetivo avaliar a efetividade de uma intervenção educativa no conhecimento, na atitude e na prática de puérperas adolescentes sobre minipílula como método de contracepção no pós-parto.

Método: estudo quase experimental com pré e pós-testes realizado com 139 puérperas adolescentes em quatro maternidades públicas, utilizando-se um instrumento com questões sociodemográficas/gineco-obstétrica e um inquérito direcionado chamado Conhecimento, Atitude e Prática. Na análise, foram usados: software Statistical Package for the Social Sciences , versão 20.1 para Windows ; nível de significância de 5%; intervalo de confiança de 95%; teste Shapiro-Wilk para testar normalidade dos dados e teste t pareado.

Resultados os escores médios do instrumento Conhecimento, Atitude e Prática mostraram-se inadequados antes da intervenção educativa; após a intervenção, permaneceram inadequados, mas com discreta melhora; a atitude mostrou-se com inadequação acentuada. Tal instrumento, antes da intervenção, associou-se com idade, escolaridade, número de gravidezes e ter feito pré-natal; após a intervenção, além destas, teve associação com outras variáveis, como local de residência, estar estudando e ter usado método contraceptivo. Os três domínios tiveram associação entre si antes e após intervenção.

Conclusão a intervenção educativa, mediada pela enfermeira, foi efetiva para promoção de conhecimento, atitude e prática das puérperas adolescentes no uso adequado da minipílula como contracepção pós-parto.

Descritores:
Adolescente; Período Pós-Parto; Contracepção Hormonal; Aleitamento Materno; Enfermagem; Tecnologia Educacional


Destaques

(1) Associação estatística significativa nas variáveis sociodemográfica e gineco-obstétricas.

(2) As puérperas tinham conhecimento, atitudes e práticas inadequadas sobre a minipílula.

(3) Após dois meses, observou-se aumento do conhecimento e prática das puérperas.

(4) Os escores médios Conhecimento, Atitude e Prática antes da intervenção e após 60 dias se mantiveram inadequados.

(5) A tecnologia usada à intervenção educativa é eficaz na promoção dos domínios Conhecimento, Atitude e Prática.

Objective to evaluate the effectiveness of an educational intervention on the knowledge, attitude and practice of adolescent puerperal women regarding the mini-pill as a method of contraception in the postpartum period.

Method: a quasi-experimental study with pre- and post-tests carried out with 139 puerperal adolescents in four public maternity hospitals, using an instrument with sociodemographic/gyneco-obstetric questions and a targeted survey called Knowledge, Attitude and Practice. The following were used in the analysis: Statistical Package for the Social Sciences software, version 20.1 for Windows; 5% significance level; 95% confidence interval; Shapiro-Wilk test to test data normality and paired t-test.

Results the average scores for the Knowledge, Attitude and Practice instrument were inadequate before the educational intervention; after the intervention, they remained inadequate, but with a slight improvement; the attitude was markedly inadequate. This instrument, before the intervention, was associated with age, education, number of pregnancies and having had prenatal care; after the intervention, in addition to these, it was associated with other variables, such as place of residence, being in school and having used contraception. The three domains were associated before and after the intervention.

Conclusion the educational intervention, mediated by the nurse, was effective in promoting the knowledge, attitude and practice of puerperal adolescents in the proper use of the mini-pill as postpartum contraception.

Descriptors:
Adolescent; Postpartum Period; Hormonal Contraception; Breast Feeding; Nursing; Educational Technology


Highlights

(1) Statistically significant association between sociodemographic and gynecological-obstetric variables.

(2) The puerperal women had inadequate knowledge, attitudes and practices about the mini-pill.

(3) After two months, there was an increase in the puerperal women’s knowledge and practice.

(4) The average Knowledge, Attitude and Practice scores before the intervention and after 60 days remained inadequate.

(5) The technology used in the educational intervention is effective in promoting the Knowledge, Attitude and Practice domains.

Objetivo: avaliar la efectividad de una intervención educativa en el conocimiento, la actitud y la práctica de puérperas adolescentes sobre minipíldora como método de contracepción en el posparto.

Método: estudio cuasi experimental con pre y post-tests realizado con 139 puérperas adolescentes en cuatro maternidades públicas, utilizando un instrumento con preguntas sociodemográficas/gineco-obstétrica y una encuesta dirigida llamada Conocimiento, Actitud y Práctica. En el análisis, se utilizaron: software Statistical Package for the Social Sciences , versión 20.1 para Windows ; nivel de significancia del 5%; intervalo de confianza del 95%; prueba Shapiro-Wilk para probar la normalidad de los datos y test t pareado.

Resultados: los puntajes medios del instrumento Conocimiento, Actitud y Práctica resultaron inadecuados antes de la intervención educativa; después de la intervención, permanecieron inadecuados, pero con discreta mejora; la actitud mostró una inadecuación acentuada. Dicho instrumento, antes de la intervención, se asoció con edad, escolaridad, número de embarazos y haber realizado prenatal; después de la intervención, además de estas, tuvo asociación con otras variables, como lugar de residencia, estar estudiando y haber usado método contraceptivo. Los tres dominios tuvieron asociación entre sí antes y después de la intervención.

Conclusión: la intervención educativa, mediada por la enfermera, fue efectiva para promover conocimiento, actitud y práctica de las puérperas adolescentes en el uso adecuado de la minipíldora como contracepción posparto.

Descriptores:
Adolescente; Periodo Posparto; Anticoncepción Hormonal; Lactancia Materna; Enfermería; Tecnologia Educacional


Destacados

(1) Asociación estadística significativa en las variables sociodemografica y gineco-obstétricas.

(2) Las puérperas tenían conocimiento, actitudes y prácticas inadecuadas sobre la minipíldora.

(3) Después de dos meses, se observó un aumento del conocimiento y la práctica de las puérperas.

(4) Los puntajes medios Conocimiento, Actitud y Práctica antes de la intervención y después de 60 días se mantuvieron inadecuados.

(5) La tecnología utilizada en la intervención educativa es eficaz para promover los dominios Conocimiento, Actitud y Práctica.

Introdução

O Brasil apresentou, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), uma das maiores taxas de gravidez na adolescência da América Latina em 2016, sendo 68,4 nascidos vivos a cada mil meninas de 15 a 19 anos ( 2018 ) . Apesar de o percentual de gestações na adolescência ter diminuído ao longo dos anos em todas as regiões do mundo (ainda que de maneira desigual), a reincidência de gestações permanece estável – em torno de 20% ( 2020 - 2020 ) .

Em 2010, quase 20% de todos os nascimentos no Brasil eram de parturientes adolescentes, enquanto em 2019 a proporção foi de 14,72%. A maior diminuição se deu na faixa etária de 15 a 19 anos. As adolescentes mais jovens, de 10 a 14 anos, apresentaram proporções abaixo de 1% e com tendência à diminuição mais discreta ( 2018 ) .

Um estudo de geoprocessamento que analisou a variação espacial da gravidez na adolescência no Brasil evidenciou que as Regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste apresentaram medianas mais elevadas de fecundidade na adolescência em mulheres de 15 a 19 anos ( 2021 ) . Na Região Nordeste, em 2020, o Maranhão foi responsável por 23.132 partos de mães adolescentes; destes, o município de São Luís registrou 1.932 nascimentos e São José de Ribamar 498 partos de mães com idade entre 10 a 19 anos ( 2023 ) .

A falta ou a prática deficiente do planejamento reprodutivo na adolescência tem se constituído como uma forte aliada para o retardo na diminuição dos percentuais de gestações na adolescência e na instabilidade da reincidência de gravidez ( 2020 ) , entretanto, as dificuldades relacionadas à adesão, no que se refere ao uso dos métodos contraceptivos pelas mães adolescentes, representam alguns dos fatores que mantêm as taxas de gravidez elevadas, especialmente no que tange à reincidência ( 2020 , 2022 - 2023 ) .

Em relação ao conhecimento específico sobre os métodos de contracepção hormonais, as adolescentes reconhecem que a pílula anticoncepcional não previne Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), porém elas não sabem distinguir a ação dos anticoncepcionais orais, incluindo a minipílula. As minipílulas inibem a gestação exclusivamente por meio de efeitos progestacionais e são recomendadas durante a amamentação ( 2021 - 2021 ) .

O aconselhamento contraceptivo é uma estratégia importante, e as diversas tecnologias (oficinas, cartilhas educativas, álbum, telefone) devem ser utilizadas para facilitar o compartilhamento de troca de informações e experiências, oportunizando o conhecimento, para a adesão ao método contraceptivo consciente ( 2020 ) . O enfermeiro pode utilizá-las com criatividade em educação e saúde, a fim de alcançar seus objetivos para adoção de comportamentos saudáveis, identificando deficiências e fragilidades e contribuindo para o conhecimento e as práticas saudáveis ( 2022 ) .

Dentre as tecnologias educacionais, destaca-se o álbum seriado, formado por páginas sequenciais com ilustrações, mapas, mensagens únicas e diretas, utilizado em palestras, reuniões e no auxílio de aulas. Tal recurso tem se mostrado um excelente meio de divulgar o conhecimento a todos os públicos (adultos jovens e adolescentes), sendo muito adequado para a realização de ações educativas, sem prejudicar a interação entre o educador e seu público ( 2020 ) .

É importante, pois, a realização de estudos que testem a efetividade de tecnologias educativas, como o álbum seriado aqui elucidado, e, assim, garantir informações seguras, de modo a repercutir positivamente no conhecimento, na atitude e na prática contraceptiva de puérperas adolescentes.

Dado o cenário exposto, objetivou-se, neste estudo, avaliar a efetividade de uma intervenção educativa no conhecimento, na atitude e na prática de puérperas adolescentes sobre minipílula como método de contracepção no pós-parto.

Método

Desenho do estudo

Trata-se de um estudo avaliativo, do tipo conhecimento, atitude e prática (CAP) ( 2010 ) , com desenho quase-experimental com grupo único, do tipo antes e depois ( 2019 ) , de corte transversal ( 2015 ) , com utilização do álbum seriado.

Período e local

A coleta de dados foi realizada no período de abril a julho de 2022, em quatro maternidades públicas, sendo três no munícipio de São Luís (MA) e uma no município de São José de Ribamar (MA). Duas maternidades eram caracterizadas como alta complexidade para atendimento de gestante de riscos e as outras duas para atendimento de gestante de risco habitual. Essa opção permitiu identificar o CAP de puérperas assistidas em maternidade com perfis diferentes.

População e amostra

Optou-se por incluir adolescentes de 10 a 19 anos, conforme a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), que circunscreve a adolescência à segunda década de vida. Tais adolescentes, independentemente do tipo de gravidez ou parto, encontravam-se internadas no alojamento conjunto. Não foram incluídas puérperas adolescentes que sofreram quaisquer tipos de violência no período gravídico puerperal e/ou que se encontravam em área de isolamento por doença infectocontagiosa. A amostra, composta por 139 puérperas adolescentes que responderam o pré e o pós-teste após participação da intervenção educativa, foi obtida por amostragem não probabilística consecutiva. O pré-teste foi realizado com puérperas que passaram por no mínimo 12 horas pós-parto e o pós-teste com até 6 semanas de puerpério.

O estudo foi organizado em quatro fases:

  • Fase I – organização do álbum seriado, com conteúdo selecionado a partir do Caderno de Atenção Básica do Ministério da Saúde sobre saúde sexual e reprodutiva e de Cartões de Aconselhamento sobre Métodos Contraceptivos para adolescentes, referentes ao uso da minipílula. O álbum seriado configura-se como um material educativo embasado em conhecimento científico utilizado como ferramenta em atividades de orientação e educação em saúde. Após a adaptação, o álbum foi testado com a participação de um grupo de adolescentes puérperas, as quais não foram incluídas na pesquisa, com o objetivo de avaliar sua aplicação, possibilitando ajuste que favorecesse à melhor compreensão das participantes.

  • Fase II – recrutamento das participantes e aplicação do pré-teste, utilizando-se instrumento com questões sociodemográficas (relacionadas a idade, residência, escolaridade) e gineco-obstétricas (sobre uso de contraceptivo, número de gravidez, pré-natal), além do inquérito CAP (questões sobre conhecimento, atitudes e práticas relacionadas à contracepção por meio do uso da minipílula).

  • Fase III – aplicação da intervenção educativa utilizando o álbum seriado e esclarecimento de dúvidas sobre as questões do pré-teste.

  • Fase IV – pós-teste, realizado utilizando-se como ferramenta o telefone celular para a aplicação do inquérito CAP.

O álbum seriado é composto por três folhas, ilustrado com figuras femininas, como, por exemplo, uma puérpera adolescente dialogando com a enfermeira. A primeira folha contém perguntas e respostas referentes ao conhecimento sobre o uso correto da minipílula para contracepção no pós-parto, de modo que a troca de informação é feita de forma lúdica. Na segunda folha, o diálogo expressa o papel ativo da puérpera na tomada de decisão para o uso correto da minipílula, como forma de receber o primeiro feedback do conhecimento adquirido. A terceira folha trata da prática dessa puérpera adolescente após a intervenção educativa realizada pela enfermeira, ao demonstrar a compreensão sobre a temática e a prática do uso adequado da minipílula. Nessa folha do álbum, só aparece a figura da puérpera adolescente como protagonista de suas escolhas, ou seja, de suas práticas adequadas sobre o método.

Coleta de dados

Para a coleta de dados, realizada em dois momentos distintos, o pré e o pós-teste, a pesquisadora contou com auxílio de bolsistas devidamente treinados. O pré-teste ocorreu de forma presencial, durante a internação no alojamento conjunto, de acordo como o momento sugerido, de modo que fosse evitado o período de visitas, para priorizar a individualidade. No primeiro contato, apresentou-se a proposta, a dinâmica da intervenção educativa, as etapas da coleta de dados e o esclarecimento para melhorar o conhecimento sobre o uso correto da minipílula anticoncepcional, visando à prevenção da reincidência de uma gravidez não planejada.

Após a aplicação do pré-teste, as instruções para a etapa subsequente relacionada ao pós-teste foram entregues às puérperas, com utilização do telefone celular até 6 semanas após o parto ( 2016 ) .

Inicialmente, a pesquisadora apresentava o álbum seriado para as puérperas e informava que ali estavam as mesmas questões que elas já tinham respondido no pré-teste. As puérperas as observavam atentamente durante 5 minutos, conferindo já as respostas que tinham acertado ou errado. Após as explicações, tiravam suas dúvidas. As orientações eram realizadas na sequência, do conhecimento à prática, com duração de 20 minutos, quando realizada de modo individualizado, e 40 minutos, quando era possível a roda de conversa entre elas e a pesquisadora.

No segundo momento, aplicou-se o pós-teste, incluindo o CAP. Para conduzir essa etapa, organizou-se uma planilha com os dados de cada participante, incluindo contato telefônico, data do parto e da aplicação do pré-teste. A chamada telefônica para as participantes seguia com a identificação da pesquisadora, da atividade que iria ser realizada e da lembrança do pré-teste que foi realizado no momento da internação, seguida das perguntas do pós-teste (inquérito CAP). Foram feitas até três tentativas, quando a ligação não era atendida na primeira vez. Cada conversa durava de 10 a 15 minutos. As respostas eram marcadas em um novo instrumento identificado como pós-teste, com a respectiva data, sendo registradas em planilha para a organização do banco de dados.

Instrumento utilizado

Utilizou-se o instrumento de inquérito CAP visando à avaliação das três dimensões (CAP) ( 2019 ) , aplicado em dois momentos: antes e após a intervenção educativa, para mensurar o desfecho principal referente aos três domínios (CAP) ( 2018 - 2018 ) das puérperas adolescentes quanto ao uso da minipílula anticoncepcional.

O conhecimento era considerado adequado se a participante respondesse sobre a minipílula: “a pílula indicada para a mulher que está amamentando é a minipílula”; “se a mulher apresentar vômitos e/ou diarreia durante mais de 24 horas, deve fazer uso da camisinha até o próximo ciclo menstrual”; “alguns medicamentos interferem no efeito da minipílula”; “se a mulher vomitar dentro de 1 hora após tomar a pílula, é preciso tomar outra pílula”; “a pílula deve ser tomada todos os dias, no mesmo horário”; “para começar a tomar a pílula, é preciso consultar e ter a prescrição médica”; “quando uma cartela de comprimidos termina, a mulher deve iniciar logo uma nova cartela, sem intervalo”; “a minipílula não deve ser iniciada desde o primeiro dia de pós-parto”; “tomando a minipílula, a menstruação pode ter alguma alteração”. O instrumento foi considerado adequado se tivesse sete a nove correlações corretas e inadequado se tivesse menos de sete correlações corretas.

A atitude foi considerada adequada se a puérpera adolescente referisse: “ter intenção de usar um método contraceptivo e/ou a minipílula enquanto estiver amamentando e a pílula posteriormente”; “afirmar que vai consultar um profissional de saúde para iniciar o uso da minipílula/pílula”; “iniciar o uso da minipílula 6 semanas após o parto”. A atitude foi considerada inadequada se a participante referisse não ter intenção de usar a minipílula por qualquer motivo.

A prática foi considerada adequada se a puérpera adolescente afirmasse que ia “usar a minipílula só após consulta médica e com prescrição”; “iniciar a tomar a minipílula após 6 semanas de pós-parto, tomando todos os dias sempre no mesmo horário”; “se esquecer de tomar uma pílula, tomar a esquecida logo que lembrar e a pílula seguinte no horário de costume”; “quando terminar de tomar uma cartela de minipílula, iniciar uma nova sem intervalo”. A prática foi considerada inadequada se a adolescente falasse que “não vai usar a minipílula ao iniciar as atividades sexuais após o parto, ou começar a tomar por contra própria”.

Análise

Para a análise dos dados, aplicou-se estatísticas descritivas com variáveis dependentes (CAP) acerca da minipílula e variáveis independentes (variáveis sociodemográficas e obstétricas) para estabelecer os tipos de atividades realizadas, associadas à adoção de comportamento indesejado. Após a coleta, os dados foram codificados e armazenados em planilha do Excel , versão 20.1. Inicialmente, realizou-se as análises descritivas (frequência, média, desvio-padrão, mínimo e máximo) das variáveis, os resultados foram apresentados, e a análise estatística foi elaborada no software Statistical Package for the Social Sciences , versão 20.1 para Windows , atribuindo-se nível de significância de 5% e intervalo de confiança de 95%. O teste de Shapiro-Wilk foi utilizado para testar a normalidade dos dados e o teste t foi pareado para verificar diferenças do CAP antes da intervenção e após a intervenção, considerando valor de p menor ou igual a 0,05.

Aspectos éticos

Os aspectos éticos referentes à pesquisa com seres humanos foram todos respeitados como determina a resolução 466/12 do Ministério da Saúde e suas complementares ( 2013 ) . A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão (protocolo 4.988.517).

Resultados

Durante a coleta, 151 puérperas adolescentes realizaram o pré-teste, entretanto, na etapa da aplicação dos pós-teste, houve a perda de 12 participantes, somando 139 puérperas adolescentes na amostra total.

Os dados antes da intervenção mostraram que o conhecimento, a atitude e a prática foram considerados adequados, com 33,81%, 15,82% e 19,42%, respectivamente, com escore médio entre os três domínios de 32 para “adequado” ( Tabela 1 ).

Tabela 1
- Conhecimento, atitude e prática das puérperas adolescentes antes da intervenção educativa. São Luís e São José de Ribamar, MA, Brasil, 2023

Após a intervenção, observou-se aumento entre os três domínios CAP. Houve diminuição da média de adequado para 51, entretanto, quando se analisou isoladamente o domínio atitude, observou-se aumento no número de participantes com atitudes inadequadas ( Tabela 2 ).

Na associação do CAP adequado, com as variáveis sociodemográficas e gineco-obstétricas, antes da intervenção, houve associação estatisticamente significante para as variáveis idade, escolaridade, estar estudando, local de residência, número de gravidez e realização de pré-natal (p=0,05), como se pode ver na Tabela 3 .

Já na variável “usou algum método contraceptivo”, só houve associação com o domínio atitude, nas variáveis idade, escolaridade, número de gravidez, se fez pré-natal, local de residência e estar estudando ( Tabela 4 ).

Na associação entre os domínios conhecimento, atitude e prática, antes da intervenção, houve associação estatisticamente significante entre a atitude e a prática (p<0,05). Após a intervenção, houve associação significante entre os três domínios: a prática com o conhecimento (p<0,05) e a atitude (p= 0,05) ( Tabela 5 ).

Tabela 2
- Conhecimento, atitude e prática das puérperas adolescentes após intervenção educativa. São Luís e São José de Ribamar, MA, Brasil, 2023

Tabela 3
- Associação do conhecimento, da atitude e da prática com variáveis sociodemográficas e gineco-obstétricas de puérperas adolescentes antes da intervenção educativa, por análise de correlação. São Luís e São José de Ribamar, MA, Brasil, 2023

Tabela 4
- Associação do conhecimento, da atitude e da prática com variáveis sociodemográficas e gineco-obstétricas de puérperas adolescentes após intervenção educativa, por análise de correlação. São Luís e São José de Ribamar, MA, Brasil, 2023

Tabela 5
- Associação entre os domínios conhecimento, atitude e prática de puérperas adolescentes antes e após a intervenção educativa. São Luís e São José de Ribamar, MA, Brasil, 2023

Discussão

O puerpério é um momento do ciclo gravídico puerperal oportuno para prevenir, identificar e tratar alterações que comprometem a saúde da mulher ( 2022 ) , a exemplo da reincidência da gravidez não planejada na adolescência.

O presente estudo mostrou que a distribuição dos escores relacionados às médias dos domínios conhecimento, atitudes e prática quanto ao uso da minipílula antes da intervenção educativa foram baixos, evidenciando o conhecimento inadequado em relação aos métodos contraceptivos e à vulnerabilidade das puérperas adolescentes, dentre eles, a minipílula como método de prevenção de reincidência de gravidez no pós-parto. Um estudo qualitativo realizado na Tailândia com adolescentes, ao discorrer sobre a reincidência de gestação, identificou que as motivações foram: falta de anticoncepcional, ausência de conhecimentos e de consciência sobre os métodos, avaliados por meio das categorias saber como usar, mas não usar, e por pretender usar e não usar ( 2023 ) .

Outro estudo nacional realizado em Pernambuco também destaca o preservativo masculino como o mais conhecido, seguido dos contraceptivos orais, mas as participantes não sabiam qual o tipo de pílula utilizar, quando e como utilizá-las ( 2022 ) , tal dado coincide com o presente estudo e demonstra fragilidade na atitude desses adolescentes em colocar seus conhecimentos em prática devido à falta de informação.

O domínio atitude da puérpera adolescente, após a intervenção educativa, aumentou o escore médio de inadequação em relação aos outros domínios que se mantiveram inadequados, porém apresentando melhoras. Acredita-se que a intervenção realizada elevou o conhecimento das participantes sobre o uso adequado da minipílula, porém não foi suficiente para a mudança de atitude na realização de uma prática adequada. É importante complementar o cuidado com intervenções educacionais de modo a melhorar o conhecimento, conforme observado em estudo que utilizou um vídeo educativo, na Tailândia, como complemento ao método tradicional de aconselhamento em consultório, o qual aumentou significativamente o conhecimento sobre o método anticoncepcional e, consequentemente, contribuiu para a preferência pelos métodos apresentados ( 2022 ) .

Ao analisar a associação entre as variáveis sociodemográficas com o conhecimento, a atitude e a prática adequadas das puérperas antes da intervenção educativa, verificou-se que as variáveis idade e escolaridade apresentaram associação significativa nos três domínios. Em outras palavras, no domínio conhecimento, tem-se que a maior faixa etária associada à variável “estar estudando” são indicadores que favorecem a capacidade para compreender e melhorar o conhecimento, a atitude e a prática adequada das participantes. Após a intervenção, percebeu-se que, além da idade e da escolaridade, outras variáveis estudadas – como o local de residência – tiveram associações significativas nos três domínios. Nesse contexto, certamente, o uso do álbum seriado, na forma impressa, mediado pela enfermeira na relação interacional com as participantes foi muito importante, configurando uma tecnologia educacional que serve para facilitar a aquisição do CAP das puérperas adolescentes sobre o uso do método contraceptivo em questão ( 2020 ) .

A pesquisa voltada ao conhecimento, atitudes e práticas contraceptivas entre adolescentes revelou lacunas que necessitam de atenção para prevenir gravidez não planejada na adolescência, as quais ocorrem frequentemente no pós-parto e podem acontecer no puerpério tardio (11º a 45º dia) ( 2023 ) . Ressalta-se, ainda, a importância da orientação dos pais acerca da contracepção antes do início da vida sexual, bem como o papel dos profissionais de saúde, para discutir, de forma proativa, a contracepção por meio da comunicação individualizada e confidencial ( 2023 ) .

Estudos nacionais e internacionais evidenciaram a associação da reincidência da gravidez na adolescência com características socioeconômicas e demográficas da população; isto é, mulheres solteiras; de baixa renda; com escolaridade inadequada para a idade e dificuldade de acesso às ações de planejamento reprodutivo, especialmente no período pós-parto, reiteram as desigualdades sociais existentes entre a população. Nesse contexto, destaca-se o acesso desigual da população feminina ao planejamento reprodutivo ( 2022 ) . Cabe destacar que a gravidez na adolescência está associada ao aumento de complicações maternas e fetais e também é responsável pelo aumento da incidência de abortos inseguros e da mortalidade materna. Assim, é importante conscientizar sobre os métodos eficazes de contracepção pós-parto para prevenir a gravidez nessa fase da vida ( 2022 ) .

Na análise da associação entre as variáveis gineco-obstétricas com o conhecimento, a atitude e a prática adequadas das puérperas, antes da intervenção educativa, verificou-se que as variáveis “número de gravidez” e “ter feito pré-natal” apresentaram associação significativa nos três domínios. Após a intervenção, além das duas variáveis mencionadas, o uso de método contraceptivo teve associação significativa no domínio atitude. Esse resultado mostra que a intervenção educativa foi profícua, no sentido de possibilitar a compreensão sobre o método, favorecendo a adesão à prática do uso adequado da minipílula.

Os resultados de outro estudo realizado com adolescentes e mulheres jovens em Guiné revelaram fatores individuais e comunitários associados à necessidade não atendida de contracepção. Os autores sugerem que, além das campanhas de educação sexual e conscientização por meio da mídia e dos locais onde as mulheres se reúnem, o aconselhamento individual em serviços de saúde deve ser melhor direcionado para esse público, considerando suas características individuais e contextuais ( 2023 ) .

Tais indicadores, associados com os fatores socioeconômicos, provavelmente influenciaram positivamente no despertar da atenção da puérpera para aprimorar seu conhecimento, principalmente sua atitude para uma prática adequada do uso da minipílula como método contraceptivo no pós-parto ( 2019 ) .

Ao se analisar a articulação entre os três domínios, verificou-se associação significativa na relação da atitude com a prática adequada, sendo possível inferir que a tomada de decisão da participante para a prática do método apresentado se correlaciona com os conhecimentos adquiridos previamente e por suas próprias necessidades de usar algum método preventivo. Dessa forma, é possível afirmar que a prática se torna mais efetiva quando há conhecimento, evidenciando uma relação de dependência entre os três domínios. Em adolescentes africanos, foram observadas barreiras relacionadas às concepções equivocadas sobre os efeitos colaterais da contracepção, principalmente a crença de que esta pode causar infertilidade permanente, além do estigma associado ao seu uso e à atividade sexual antes do casamento, assim como a falta de assistência à saúde voltada às necessidades para o uso de contraceptivos ( 2022 ) .

Neste estudo, o conhecimento do uso da minipílula como método contraceptivo no pós-parto para a puérpera adolescente tornou-se mais consistente por ter sido mediado pela enfermeira e pelo uso do álbum seriado. Como uma tecnologia educacional, o álbum é uma ferramenta essencial no processo de educação e saúde, em que se almeja um ensino criativo e que desperte o senso crítico do público-alvo ( 2022 ) . O uso de tecnologia educacional favorece a melhoria do conhecimento evidenciado em estudo realizado com adolescentes tailandeses utilizando vídeos educativos para aconselhamento, os quais demonstraram efetividade para melhorar o conhecimento contraceptivo em adolescentes pós-parto ( 2016 ) .

Em adolescentes norte-americanas, identificou-se que a tomada de decisões contraceptivas foi influenciada pelas redes sociais e pela comunidade, incluindo os pais e os amigos. As mães desempenharam papel fundamental na transição dos adolescentes para ganharem mais autonomia sobre suas decisões reprodutivas. Os provedores devem apresentar consistentemente aos adolescentes opções contraceptivas abrangentes como um componente dos cuidados de saúde preventivos ( 2022 ) .

Participantes do estudo qualitativo realizado na Tailândia indicaram falta de conhecimento sobre contracepção. Embora conheçam os métodos, muitos não têm consciência sobre eles. Além disso, apesar de saberem usá-los, não os utilizam, mesmo expressando a intenção de fazê-lo. Nesse sentido, as usuárias necessitam de aconselhamento na tomada de decisão para escolher o método contraceptivo mais adequado e, assim, evitar gravidezes não planejadas ( 2022 ) .

Para o aconselhamento, vale recorrer às diversas alternativas para a prevenção de gravidez na adolescência, como as tecnologias educacionais, capazes de potencializar a promoção, a assistência e o cuidado com a saúde, que se tornam úteis na perspectiva de alcançar as adolescentes de forma mais assertiva. Aqui, destaca-se o álbum seriado, recurso didático, atraente e motivador que pode facilitar a construção do conhecimento pelas puérperas adolescentes sobre o uso adequado da minipílula anticoncepcional no pós-parto ( 2020 ) .

Nesse sentido, cabe ao profissional de enfermagem intervir na vivência e nas necessidades de cada adolescente durante a consulta puerperal, não se limitando somente aos protocolos estabelecidos ( 2022 ) .

Destaca-se como limitação do estudo a dificuldade em estabelecer contato telefônico com as participantes para aplicação do pós-teste, embora a pesquisadora tenha utilizado a estratégia de realizar três tentativas para manter contato. Destaca-se, ainda, a desvantagem atribuída ao desenho quase experimental pelo potencial de generalização reduzido, com resultados menos conclusivos.

O estudo traz contribuição para a enfermagem na discussão do papel do enfermeiro na orientação sexual do adolescente relacionada aos métodos contraceptivos, contribuindo para a prevenção da gravidez não planejada ou para a reincidência, tão comum no período da adolescência. Portanto, o enfermeiro, inserido nesse contexto, tem papel de educador, ou seja, sua atuação também se dá nas práticas educativas e contribui para a prevenção de ISTs, a exemplo da HIV, tanto quanto colabora na prevenção de gravidez não panejada, entre outras necessidades do grupo de adolescentes.

Conclusão

As puérperas adolescentes apresentaram, antes da intervenção educativa, conhecimentos, atitudes e práticas inadequadas quanto ao uso da minipílula como método de contracepção pós-parto. Após a intervenção, elas apresentaram melhora significativa nos domínios conhecimento e prática, porém a média do domínio atitude, considerado inadequado, aumentou.

Na associação dos domínios com as variáveis sociodemográficas e gineco-obstétricas antes da intervenção, detectou-se associação estatisticamente significante com as variáveis idade, escolaridade, estar estudando, número de gravidez e pré-natal. Após a intervenção, além das variáveis mencionadas, o local de residência, o conhecimento, a atitude e a prática também apresentaram relevância. A idade, a escolaridade, o local da residência, o número de gravidez, ter feito pré-natal e o uso do método contraceptivo foram fatores que influenciaram no uso adequado da minipílula pelas puérperas adolescentes.

Evidencia-se que a tecnologia empregada para a intervenção educativa é efetiva para promoção do conhecimento, da atitude e da prática na prevenção da gravidez e na sua reincidência, usando-se a minipílula como contraceptivo indicado no pós-parto. Entretanto, é necessária sua associação com outras tecnologias, bem como com a rede de apoio familiar e social.

As puérperas adolescentes têm conhecimento, porém ele não é suficiente para a tomada de decisão de uma prática adequada, provavelmente pela precocidade da idade ou pela falta da rede de apoio familiar e social.

Referências bibliográficas

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  • Todos os autores aprovaram a versão final do texto.
  • *
    Apoio financeiro do Programa Nacional de Cooperação Acadêmica na Amazônia (PROCAD/AMAZÔNIA), Processo n°88881.200531/2018-01, Brasil.
  • Como citar este artigo
    Costa AC, Pinheiro AKB, Fonseca LMB, Guedes TG, Corrêa RGCF, Ferreira AGN. Knowledge, attitude and practice of puerperal adolescents after an educational intervention on the mini contraceptive pill. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2024;32:e4350 [cited ano mês dia].Available from: URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7227.4350

Editado por

  • Editora Associada:
    Andreia Catia Jorge Silva da Costa

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Out 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    13 Dez 2023
  • Aceito
    22 Jun 2024
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