Objetivo: analisar o perfil de utilização e o conteúdo das mensagens da Comunidade de Prática de Enfermagem da Região das Américas da Organização Pan-Americana da Saúde como ferramenta voltada ao compartilhamento de experiências, conhecimentos e oportunidades para enfermeiros e enfermeiras.
Método: estudo descritivo e qualitativo, cujo objetivo foi analisar as mensagens publicadas nos fóruns da Comunidade de Prática. Os dados foram analisados por meio de análise de conteúdo.
Resultados: a Comunidade de Prática permitiu a participação de 1765 profissionais de 20 países, com 4001 mensagens publicadas. Os temas analisados (educação, emprego, liderança e prestação de serviços) foram abordados na perspectiva de profissionais de diferentes países, apresentando os desafios que enfrentam e os suas reflexões sobre a situação da Enfermagem na Região.
Conclusão: a plataforma permitiu que profissionais de diferentes países e áreas interagissem e debatessem temas relevantes para o ensino e a prática da Enfermagem na Região das Américas. Através da Comunidade de Prática, espera-se aumentar o compromisso, a cooperação e a solidariedade para a aprendizagem coletiva e o desenvolvimento de capacidades, maximizando a contribuição dos enfermeiros com os serviços e sistemas de saúde.
Descritores:
Enfermagem; Recursos Humanos de Enfermagem; Tecnologia da Informação; Liderança; Informática em Enfermagem; Fóruns de Discussão
Destaques:
(1) A plataforma tem permitido a troca de experiências, conhecimentos e oportunidades.
(2) A participação de diferentes atores aumenta o compromisso e a cooperação.
(3) É um recurso útil para discutir temas importantes no contexto da Enfermagem.
Objective: to analyze the use profile and content of the messages posted in the Community of Practice for Nursing in the Region of the Americas of the Pan American Health Organization as a tool intended to share experiences, knowledge and opportunities for nurses.
Method: a descriptive and qualitative study aimed at analyzing the messages posted in the Community of Practice forums. The data were analyzed by content analysis.
Results: the Community of Practice has allowed the participation of 1,765 professionals from 20 countries, with a total of 4,001 posts. The topics analyzed (education, employment, leadership and service delivery) were addressed from the perspective of professionals from different countries, presenting the challenges they face and their reflections regarding the situation of nursing in the region.
Conclusion: the platform allowed professionals from different countries and performance scopes to interact and discuss relevant topics for nursing education and practice in the Region of the Americas. Through the Community of Practice, the expectation is to enhance commitment, cooperation and solidarity for collective learning and skills development, thus maximizing nurses’ contributions to health systems and services.
Descriptors:
Nursing; Nursing Staff; Information Technology; Leadership; Nursing Informatics; Discussion Forums
Highlights:
(1) The platform has allowed exchanging experiences, knowledge and opportunities.
(2) The participation of different actors enhances commitment and cooperation.
(3) It is a useful resource to discuss important topics for the nursing context.
Objetivo: analizar el perfil de uso y el contenido de los mensajes de la Comunidad de Práctica de Enfermería en la Región de las Américas de la Organización Panamericana de la Salud como herramienta destinada a compartir experiencias, conocimientos y oportunidades para las enfermeras y los enfermeros.
Método: estudio descriptivo y cualitativo, destinado al análisis de los mensajes publicados en los foros de la Comunidad de Práctica. Los datos se analizaron mediante análisis de contenido.
Resultados: la Comunidad de Práctica ha permitido la participación de 1765 profesionales de 20 países, con 4001 mensajes publicados. Los temas analizados (educación, empleo, liderazgo y prestación de servicios) se abordaron desde la perspectiva de profesionales de distintos países, presentando los retos a los que se enfrentan y sus reflexiones sobre la situación de la Enfermería en la Región.
Conclusión: la plataforma permitió a profesionales de diferentes países y ámbitos profesionales interactuar y debatir temas relevantes para la educación y la práctica de Enfermería en la Región de las Américas. A través de la Comunidad de Práctica se espera aumentar el compromiso, la cooperación y la solidaridad para el aprendizaje colectivo y el desarrollo de capacidades, maximizando así la contribución de las enfermeras y los enfermeros a los servicios y sistemas de salud.
Descriptores:
Enfermería; Personal de Enfermería; Tecnología de la Información; Liderazgo; Informática Aplicada a la Enfermería; Foros de Discusión
Destacados:
(1) La plataforma ha permitido el intercambio de experiencias, conocimientos y oportunidades.
(2) La participación de diferentes actores aumenta el compromiso y la cooperación.
(3) Es un recurso útil a fin de debatir temas importantes para el contexto de la Enfermería.
Introdução
Na Região das Américas existem cerca de sete milhões de profissionais de enfermagem, representando 56% da força de trabalho em saúde ( 1 ) . Estes profissionais estão na linha da frente da prestação de serviços e desempenham um papel importante na prestação de cuidados centrados na pessoa e na comunidade. Em muitos países, atuam como líderes ou membros-chave de equipes de saúde multidisciplinares e interprofissionais. Apesar disso, ainda é necessário investir para fortalecer e otimizar esta categoria profissional ( 2 ) .
Reconhecendo o contexto de mudanças e a complexidade do processo de tomada de decisão em saúde e propondo discussões de alto nível sobre temas relevantes para o contexto da Enfermagem na Região das Américas, desenvolveu-se a Comunidade de Prática de Enfermagem na Região das Américas da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).
A Comunidade de Prática (CdP) considera a Diretriz estratégica para a enfermagem na Região das Américas ( 3 ) e a Orientações estratégicas mundiais para enfermeiros e parteiras 2021-2025 da Organização Mundial da Saúde (OMS) ( 4 ) ; e está alinhada à visão compartilhada e colaborativa e à necessidade de investir e fortalecer os recursos humanos para a saúde, especificamente a Enfermagem.
A CdP visa reunir enfermeiros e enfermeiras, como assim também outros interessados, potenciar a troca de experiências, informações e conhecimentos e fortalecer a liderança dos enfermeiros em seus espaços profissionais ( 5 ) . Por meio da comunidade, por meio de uma plataforma online , espera-se proporcionar um espaço de interação e troca de conhecimentos e experiências entre enfermeiros/as da Região das Américas, além de fortalecer de forma colaborativa os sistemas e serviços para o acesso universal à saúde, a cobertura universal da saúde e o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
O conceito de Comunidade de Prática não é novo: foi proposto por primeira vez em 1998 com o propósito de reunir um grupo de pessoas que compartilham interesses comuns, através do diálogo e da reflexão coletiva, para trocar conhecimentos e analisar propostas de soluções práticas para problemas comuns ( 6 ) .
Os objetivos de uma CdP podem ser orientados para a resolução de problemas, criação de ideias, distribuição de conhecimento, divulgação de aprendizagens e reflexões coletivas ( 7 ) .
Assim, recorrendo às Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) através de fóruns online , de fácil acesso e flexíveis em termos de espaço e tempo, é possível: construir redes de apoio ( networking e associações); aprender com outras experiências e propor soluções práticas; analisar criticamente a prática e maximizar as respostas; compartilhar materiais e recursos atualizados; e compartilhar oportunidades de desenvolvimento profissional, como eventos e possibilidades de treinamento.
Foram identificadas experiências de utilização de comunidades de prática entre professores ( 8 - 9 ) , pesquisadores ( 10 ) , profissionais de saúde ( 11 - 12 ) e profissionais de enfermagem ( 13 ) , mas nenhuma com o alcance e a proposta da CdP apresentada neste estudo.
Diante do exposto, o presente estudo tem como objetivo analisar o perfil de utilização e o conteúdo das mensagens da Comunidade de Prática de Enfermagem da Região das Américas da Organização Pan-Americana da Saúde como ferramenta destinada ao compartilhamento de experiências, conhecimentos e oportunidades para enfermeiros(as).
Método
Tipo de estudo
Estudo qualitativo e descritivo, realizado segundo as diretrizes do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ) ( 14 ) , que teve como objetivo analisar o perfil de utilização e conteúdo das mensagens da Comunidade de Prática de Enfermagem na Região das Américas da Organização Pan-Americana de a Saúde, criada em agosto de 2022.
Cenário
A Comunidade de Prática foi desenvolvida com o apoio técnico de um especialista no desenvolvimento de plataformas digitais de aprendizagem. A comunidade está organizada em uma página pública ( https://comunidadenfermeria.paho.org/ ), com informações sobre a iniciativa, espaço para divulgação de eventos, publicações e recursos adicionais e conexão com a Comunidade Mundial de Prática de Enfermagem e Obstetrícia da OMS; além dos fóruns, disponíveis aos participantes cadastrados na plataforma Campus Virtual de Saúde Pública (CVSP/OPAS). Portanto, para acessar a plataforma, o participante deve se cadastrar como usuário no CVSP, sem incorrer em nenhum custo ou necessitar de aprovação prévia.
A plataforma oferece fóruns abertos para apresentação e interação dos membros sobre temas de interesse da Enfermagem (educação, emprego, liderança e prestação de serviços), acessíveis a todos os participantes, bem como fóruns de acesso restrito, sujeitos à aprovação do moderador de grupos específicos: Projetos da OPAS, Chefes de Enfermagem e Grupo de Profissionais de Enfermagem da América Central e do Caribe (GPECC).
Os fóruns são espaços que permitem a interação entre os participantes, compartilhando ideias, percepções, reflexões, experiências, conhecimentos, dúvidas e oportunidades. Além de mensagens, é possível compartilhar documentos técnicos, artigos, eventos e outras oportunidades. Em cada fórum, os participantes podem propor uma nova discussão ou responder a perguntas e comentários previamente feitos por outros participantes.
Na CdP também são realizadas atividades de formação, espaço que permite participar em atividades como questionários, webin ário s e reflexões. A estrutura e os recursos da Comunidade de Prática são apresentados na Figura 1 .
Guia de navegação da Comunidade de Prática. Washington, DC, Estados Unidos da América, 2023
Período e coleta de dados
Foram analisadas todas as mensagens publicadas entre agosto de 2022 e setembro de 2023 nos fóruns abertos da plataforma (educação, emprego, liderança e prestação de serviços) realizadas pelos usuários, considerados participantes deste estudo. As mensagens foram extraídas da plataforma CdP por meio da ferramenta de emissão de relatório de participação e organizadas em editor de texto para posterior análise.
Ressalta-se que o relatório de participação foi extraído pela pesquisadora principal, que possui perfil de gestora da plataforma, utilizando ferramenta própria da plataforma para exportar as mensagens do fórum para um arquivo .csv. Não houve contato entre os pesquisadores e os participantes, não havendo possibilidade de influência ou interferência no conteúdo por parte dos pesquisadores. Como as mensagens dos participantes foram extraídas na íntegra, a garantia de confiabilidade não depende de feedback ou validação dos participantes.
Para analisar o perfil de utilização da comunidade, considerou-se o número de participantes, país de origem, sexo, idade, profissão, nível de escolaridade e local de trabalho.
Processamento e análise de dados
Os registros de mensagens foram anonimizados e os participantes foram identificados com um código alfanumérico (P1, P2, P3, ...). Os dados foram analisados por meio de análise de conteúdo, com análise lexical e semântica de conteúdo ( 15 ) . As categorias de análise foram identificadas e definidas previamente (categorias a priori ), adotando-se os seguintes codificadores: educação, emprego, liderança e prestação de serviços, pois são os quatro eixos estratégicos das Orientações estratégicas mundiais para enfermeiros e parteiras 2021-2025 da OMS ( 4 ) . Não foram criadas subcategorias.
Os dados foram analisados por uma pesquisadora e validados por outra. Para o gerenciamento dos dados foi utilizado o software Nvivo, versão 14, que dá suporte ao processo analítico e permite organizar os dados e realizar a análise lexical, semântica e de ocorrência/frequência de termos.
Aspectos éticos
O estudo segue diretrizes éticas internacionais para pesquisas relacionadas à saúde em seres humanos ( 16 ) . Devido à utilização de dados de acesso público, o estudo está dispensado de submissão ao Comitê de Ética. Contudo, foi preservada a privacidade e o anonimato dos participantes. Vale salientar que a comunidade distribui conteúdos às vezes fornecidos por terceiros e/ou por seus usuários; portanto, as opiniões, recomendações, declarações e conteúdos expressos ou disponibilizados na Comunidade de Prática são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente o posicionamento da OPAS.
Resultados
Perfil de uso
A Comunidade de Prática é composta por 1765 participantes de 20 países das Américas. A maioria dos participantes são do Equador (41,8%) e Peru (30,3%), mulheres (87,8%), com idade entre 26 e 35 anos (29,9%), profissionais de enfermagem (87,1%), com formação universitária (57,9%) e trabalham em instituições hospitalares (30,5%), conforme Tabela 1 .
Caracterização dos participantes da Comunidade de Prática (n = 1765). Washington, DC, Estados Unidos da América, 2023
No período analisado, foram publicadas 4001 mensagens na CdP, das quais 524 foram realizadas nos fóruns em análise, a saber: educação (n=163), emprego (n=104), liderança (n=124) e prestação de serviços (n=133), sendo que cada fórum contém as mensagens e opiniões na interação dos participantes em um contínuo de comunicação.
As mensagens em análise foram realizadas por 176 participantes de diferentes localizações geográficas, em diferentes dias e horários e majoritariamente em espanhol. Também foram utilizados fóruns para compartilhar artigos e outros materiais.
As mensagens tiveram extensão média de 81,4 palavras, e entre os termos mais frequentes destacam-se: formação, profissionais, trabalho, liderança, oportunidades, qualidade e fortalecer, como pode ser visto na nuvem de palavras da Figura 2 , que representa visualmente os termos mais frequentemente utilizados nas 524 mensagens publicadas nos fóruns da CdP em análise.
Nuvem de palavras dos fóruns da Comunidade de Prática. Washington, DC, Estados Unidos da América, 2023
A análise de conteúdo temático é apresentada a seguir.
Educação
No que diz respeito à educação, os participantes destacaram a importância da formação do enfermeiro ajustada às necessidades de saúde e de um modelo de cuidados centrado na promoção de saúde e prevenção de doenças. Também consideram oportuno alterar o atual paradigma de ensino, centrando-se nos determinantes sociais da saúde e na atenção primária.
É preciso que os programas de Enfermagem oferecidos opções ajustadas à realidade social do país (P6).
A formação em Enfermagem exige compreensão dos determinantes socioeconômicos e culturais dos processos saúde-doença, implica o estudo constante da relação entre educação e trabalho, para que a prática pedagógica promova a nova forma de pensar (P54).
É enfatizada a necessidade de investir na educação de forma permanente, com oportunidades de formação nos diferentes níveis de cuidados de saúde e ao longo da vida profissional.
É preciso também dar continuidade à educação em serviço, fortalecendo a prática dos enfermeiros que estão nos serviços dos diferentes níveis de atenção (P18).
Para tanto, embora a incorporação de tecnologias de informação e comunicação seja considerada um desafio, entende-se que esses recursos são essenciais para ampliar o alcance das ações e estratégias de formação e desenvolvimento profissional por meio da virtualidade.
É importante que o enfermeiro tenha oportunidade de formação virtual, pois o horário em que estamos trabalhando não permite sair e treinar presencialmente (P78).
Um dos desafios e oportunidades são as tecnologias de informação e comunicação (P120).
Além disso, é necessário aumentar a oferta de vagas e o acesso aos cursos de pós-graduação, com maior investimento em pesquisas, desenvolvendo novos conhecimentos e competências, bem como possibilitar a formação de professores e ampliar a capacidade de formação de novos recursos humanos em Enfermagem.
Um dos desafios é a formação acadêmica, principalmente no que diz respeito à obtenção de um diploma de nível superior em Enfermagem como os mestrados; são poucos e seu acesso também é limitado (P156).
Falta muita coisa na área de ensino de novas técnicas ou avanços que incentivem a pós-graduação ou o doutorado, e que possam ser realizados dentro do país (P150).
Emprego
Quanto ao emprego, reforça-se a intersecção dos sectores econômico e social, apontando a necessidade de uma posição política perante os diferentes atores e líderes políticos.
Além disso, a questão do emprego é altamente complexa e depende do contexto político e social de cada país, onde existe uma diversidade de interesses entre aqueles que participam na tomada de decisões (P54).
O gênero foi um dos pontos que mais repercutiu entre os participantes, especialmente a disparidade salarial entre mulheres e homens em cargos semelhantes e a necessidade de mais mulheres em cargos de liderança.
É muito claro que abordar as questões por detrás das disparidades salariais tem um impacto que vai além do aumento do salário das mulheres: é uma das formas mais importantes de combater a discriminação baseada no sexo no local de trabalho e de promover a igualdade de gênero (P55).
Além do gênero, também foram constatadas outras formas de discriminação baseadas em situações de vulnerabilidade.
As desigualdades de gênero continuam sendo um tema de discussão e, embora persistam, deve-se reconhecer que em alguns países está sendo feito trabalho sobre a questão para minimizar os riscos, especialmente em grupos mais vulneráveis, como mulheres indígenas, afrodescendentes, lésbicas, gays e bissexuais, transgênero e intersexuais (LGBTI) e migrantes, por isso acredito que devemos trabalhar duro em estratégias educacionais para mudança em comunidades e instituições com pensamento crítico para culturalizar e melhorar a dinâmica social (P22).
Também foi abordada a problemática salarial da profissão, com debates sobre a incompatibilidade entre salários e níveis de formação e experiência, a recomendação de estabelecimento de pisos salariais e as repercussões negativas dos baixos salários.
Ter um salário que corresponda ao nível de formação, mas muitas vezes isso não é cumprido e os profissionais que investem tempo e dinheiro em cursos de pós-graduação o fazem mais pela satisfação pessoal do que para obter algum tipo de reconhecimento (P80).
Foram destacadas as diferenças salariais entre os setores público e privado, bem como nos diferentes modelos de contratação, com flexibilidade laboral, subemprego, falta de garantias de emprego e pouca estabilidade no emprego. Este debate foi relacionado à temática das condições de trabalho e do trabalho digno.
Há uma certa disparidade nos salários e na forma de contratação, inclusive são oferecidos salários inferiores ou iguais aos de um Auxiliar de Enfermagem (P6).
O trabalho da enfermagem deve obedecer às características do Trabalho Decente, o que implica acesso a: salários justos, segurança social, formação profissional, igualdade de género, livre de riscos e direitos laborais em igualdade de condições para todos (P133).
Liderança
Em relação à liderança, os participantes reconhecem a sua importância para o alcance dos objetivos e melhor desempenho das suas atividades, mesmo que isso represente um desafio.
A prática profissional traz consigo novos desafios todos os dias, sobretudo na consolidação do que foi aprendido e na formação, atualização e preparação para responder às necessidades que surgem (P58).
Dado o papel que os enfermeiros desempenham nos serviços de saúde, destaca-se a necessidade de que tenham mais espaço para a liderança, especialmente nos serviços de nível primário.
Não há espaços para líderes de enfermagem no primeiro nível de atenção à saúde, a título de verba, então eles assumem esse papel, fazem isso pela profissão, mas sem reconhecimento econômico ou administrativo, e isso, ao invés de motivar pode desmotivar, já que liderar uma equipe implica muito mais responsabilidades (P147).
Também não há espaço para líderes de enfermagem no primeiro nível de atenção à saúde, reconhecemos o trabalho que a enfermeira realiza nesse nível de atenção; é a espinha dorsal de um estabelecimento de saúde, liderando a equipe de saúde no cuidado ao indivíduo, à família e à comunidade com liderança, dedicação, perseverança em áreas remotas e às vezes até geograficamente inacessíveis (P21).
Para isso, é necessário melhorar a formação do pessoal de enfermagem, em termos de conhecimentos e competências, com oportunidades formais de desenvolvimento de liderança.
Programas de liderança devem ser estabelecidos ou organizados para incentivar o desenvolvimento de líderes entre os jovens profissionais de Enfermagem (P18).
Isso inclui a adoção de ferramentas de gestão, o reforço do pensamento crítico e o aumento da capacidade de gerar, analisar e utilizar dados para a tomada de decisão.
A formação em liderança deve começar nas aulas; o pensamento crítico, a pesquisa e a inovação devem ser fortalecidos; devemos incentivar a ampliação do nosso conhecimento (P63).
Por fim, na perspectiva do desempenho da liderança, foi destacada a ampliação do papel dos enfermeiros e enfermeiras, através da implementação do papel do Enfermeiro de Práticas Avançadas, com atuação autônoma e independente.
Acredito que fortalecer a prática avançada dos profissionais de Enfermagem que estão no dia a dia com os sujeitos e as populações que necessitam de cuidado contribuiria para melhorar essa capacidade de liderança na sua área de atuação prática (P177).
Prestação de serviços
No que diz respeito à prestação de serviços, destacou-se a capacidade resolutiva dos sistemas de saúde, especialmente do primeiro nível de atenção em rede com outros serviços de saúde, para que os profissionais de enfermagem possam atuar de forma adequada para atender as necessidades de saúde da população.
A capacidade de resposta dos sistemas de saúde envolve enfrentar diversos desafios, como mudanças socioeconómicas e políticas, modificações no perfil epidemiológico, surtos de doenças e alterações climáticas (P3).
Relativamente à questão da referência e contrarreferência, existem limitações no primeiro nível de cuidados de saúde devido à infraestrutura inadequada e à limitada capacidade de resolução de alguns Estabelecimentos de Saúde (P21).
A escassez de recursos humanos para a saúde, especialmente de profissionais de Enfermagem, foi destacada como fator limitante para a prestação de serviços de saúde, o que gera impactos negativos nas condições de trabalho e na saúde mental dos profissionais. Da mesma forma, foram abordadas dificuldades relacionadas à estrutura de atendimento, com recursos financeiros e materiais limitados, e impacto negativo na segurança do trabalho.
A falta de recursos humanos nos impede prestar cuidados de melhor qualidade, produzindo uma sobrecarga de trabalho, razão pela qual a Saúde Mental é afetada, há défice de sistemas informáticos, falta de equipamentos e mobiliário e infraestruturas inadequadas (P448).
A verba destinada à saúde deve ser aumentada porque, devido à falta de insumos nas unidades de saúde, é difícil prestar cuidados de qualidade (P135).
Por fim, abordou-se a regulação, destacando a necessidade de revisão dos marcos regulatórios para atualizar aspectos como âmbito de atuação, carga horária e remuneração, além da garantia de direitos dos trabalhadores de Enfermagem.
Principalmente padronizar horários de trabalho, cargas horárias e funções, para que o trabalho da Enfermagem seja reconhecido como um centro de muitos profissionais (P61).
Políticas, normas, legislação, e, mais do que tudo, uma regulamentação no cumprimento em relação à carga horária e ao incentivo que cada profissional recebe, o reconhecimento da profissão e mudanças de paradigma do sindicato da saúde em relação à atividade profissional dos trabalhadores na área (P47).
Discussão
Os resultados desta análise reforçam a utilidade da Comunidade de Prática como plataforma de intercâmbio de informações e opiniões relevantes para o contexto da Enfermagem na Região das Américas.
Os fóruns têm permitido a interação de diferentes profissionais, considerando seus contextos locais, expressando-se sob diferentes perspectivas, expressando suas opiniões e compartilhando experiências e sugestões. Alinhados com as orientações estratégicas da OPAS ( 3 ) e da OMS ( 4 ) , os temas concentram-se em áreas que requerem mais investimentos para o avanço da Enfermagem na Região das Américas.
A CdP proporciona um espaço seguro e acolhedor para interações, incentivando a participação e a inclusão, promovendo a inovação e a adaptabilidade e reduzindo o isolamento profissional, à medida que os membros desenvolvem um sentido de conexão, confiança mútua, reciprocidade e valorização de opiniões diferentes, tornando-se em uma importante ferramenta para profissionais de saúde ( 17 - 18 ) .
Dos temas discutidos, no que diz respeito à educação, é importante destacar que a Região possui uma formação heterogênea de profissionais de Enfermagem, e que são necessárias mudanças no paradigma educacional que considerem o modelo de atenção centrado nas necessidades de saúde da população e enfatizem o fortalecimento sistemas de saúde com foco na atenção primária ( 19 ) .
Outra questão relacionada com a educação foi o investimento na formação de professores, um tema relevante, pois foi observado que alguns professores de países da Região não receberam qualquer capacitação pedagógica para o seu trabalho ( 20 ) .
Desta forma, investir em cursos de pós-graduação é uma estratégia para ampliar a capacidade de formação dos enfermeiros(as), sendo uma das ações para enfrentar a escassez de profissionais ( 21 ) . Além disso, os enfermeiros e enfermeiras com doutorado contribuem para melhorar o atendimento ao paciente e desenvolver políticas de saúde ( 22 ) .
Investir nesse nível de formação também terá impacto no desenvolvimento de pesquisas, especialmente relacionadas com temas que contribuam para a saúde universal, formando enfermeiros e enfermeiras capacitados para a análise situacional e o uso da melhor evidência para propor soluções aos problemas de saúde que se apresentem ( 23 ) .
Neste contexto, resolver a lacuna na oferta de formação de doutorado é um desafio para a Região, uma vez que muitos países da América Latina e do Caribe não oferecem programas de doutorado e 65% desses programas estão no Brasil ( 2 ) .
A formação de doutorado e a formação docente podem beneficiar-se da Comunidade de Prática ( 24 ) , como espaço informal de desenvolvimento profissional contínuo, aumentando a capacidade destes profissionais ( 17 ) , bem como o potencial de parcerias entre pesquisadores e profissionais como forma de produzir conhecimentos relevantes para a prática ( 6 ) .
Nesse contexto, além de discutir problemas e soluções para a formação em Enfermagem, a Comunidade de Prática se destaca como um espaço de aprendizagem dinâmico e colaborativo no qual são compartilhados conhecimentos e oportunidades de aprendizagem ( 13 ) .
No que diz respeito à liderança, entende-se que os enfermeiros devem ser considerados no desenvolvimento e aplicação das políticas governamentais e que devem estar presentes nos cargos de decisão nas organizações do sistema de saúde e nos departamentos governamentais. Dessa forma, são essenciais estratégias formais para estimular o crescimento e o desenvolvimento dos novos profissionais de Enfermagem ( 2 ) . Neste contexto, sabe-se que as interações que ocorrem na CdP são úteis para a prática profissional e para reforçar a identidade e o papel profissional ( 25 ) .
É importante destacar que, os temas discutidos nos fóruns estão alinhados com a “Política sobre a força de trabalho em saúde para 2030: fortalecendo os recursos humanos em saúde para alcançar sistemas de saúde resilientes”, aprovada pelo 60º Conselho Diretor da OPAS em setembro de 2023, que propõe ações prioritárias: a) Reforçar a governança e promover políticas e planos nacionais de recursos humanos em saúde; b) Desenvolver e consolidar mecanismos regulatórios relacionados com os recursos humanos em saúde; c) Fortalecer a formação e a implementação de equipes interprofissionais em redes integradas de serviços de saúde baseadas na atenção primária à saúde; d) Melhorar o desenvolvimento e reforçar as capacidades do pessoal de saúde para abordar as prioridades das populações e para a preparação e resposta a emergências de saúde pública; e e) Promover condições de trabalho dignas e a proteção física e mental dos trabalhadores da saúde, além de uma provisão adequada de recursos humanos para a saúde através de financiamento e regulamentação ( 26 ) . Assim, a política apresenta elementos e contextualiza as questões discutidas na CdP, servindo de subsídio para que tomadores de decisão e demais atores de diversos setores proponham ações estratégicas voltadas às mudanças necessárias nos sistemas de saúde, a fim de fortalecer os recursos humanos para a saúde.
Dessa forma, entende-se que os participantes da CdP demonstram consciência dos problemas práticos dos recursos humanos para a saúde e a enfermagem, trocam opiniões e buscam soluções para esses problemas. A relevância e complexidade dos temas discutidos reforçam a importância da CdP como espaço de interação, com forte relação dialógica.
Apesar dos resultados positivos obtidos em um ano de aplicação da CdP e seus potenciais usos, entende-se que o comprometimento e a sustentabilidade dos debates e o uso das TICs se consolidam como limitações.
Envolver os participantes e manter as discussões é um desafio. Entende-se que, a CdP é “fornecedora de respostas” e, para isso, é necessário que haja questionamentos. Consequentemente, é importante incentivar a continuidade dos debates, alimentando o grupo com reflexões, questionamentos e esclarecimentos e valorizando seus comentários ( 8 ) . Por outro lado, existem ainda barreiras comuns à utilização de tecnologias digitais, incluindo infraestruturas, tempo, competências, formação, apoio e familiaridade com os recursos digitais ( 27 ) . Isto requer ações que visem a literacia digital e o desenvolvimento de competências em TICs. Apesar destes desafios, entende-se que a CdP constitui uma ferramenta importante para os profissionais da Região. Assim, espera-se ampliar o alcance e a participação de mais enfermeiros.
A contribuição deste estudo é analisar e divulgar o perfil de utilização e os conteúdos discutidos em uma Comunidade de Prática de Enfermagem. Com base nos resultados desta análise, os profissionais de Enfermagem podem conhecer e integrar esta ou outras comunidades. Os investigadores podem adotar uma análise semelhante das ferramentas de comunicação baseadas em plataformas digitais; e os decisores e outras partes interessadas podem propor e incorporar a utilização das TICs no campo da prática, educação e investigação em enfermagem.
Como limitação, entende-se que as mensagens foram analisadas sem uma abordagem complementar para explorar os temas com os participantes. Contudo, considera-se que a participação de enfermeiros de diferentes países e a relevância dos temas explorados contribuem para a análise e reflexão de temas relacionados à educação e prática de enfermagem na Região das Américas.
Conclusão
Este estudo teve como objetivo analisar o perfil de utilização e o conteúdo das mensagens da Comunidade de Prática de Enfermagem na Região das Américas da OPAS.
Os participantes da CdP, provenientes de 20 países, são majoritariamente mulheres, com idades compreendidas entre os 26 e os 35 anos, profissionais de enfermagem, com formação universitária e que trabalham em instituições hospitalares. Os resultados mostram que a plataforma online permite a utilização de fóruns de discussão de fácil acesso e flexibilidade de espaço, tempo e idioma, além da construção de redes profissionais e do intercâmbio de experiências, materiais, recursos atualizados e oportunidades de desenvolvimento profissional.
Os temas analisados (educação, emprego, liderança e prestação de serviços) foram abordados na perspectiva de profissionais de diferentes países, apresentando os desafios que enfrentam e suas reflexões sobre a situação da Enfermagem na Região. Através da Comunidade de Prática, foi possível debater temas importantes para o contexto da Enfermagem na Região e aumentar o compromisso, a cooperação e a solidariedade dos profissionais de Enfermagem para a aprendizagem coletiva e o desenvolvimento de capacidades, maximizando as contribuições dos enfermeiros para os serviços e sistemas de saúde.
Assim, espera-se que mais enfermeiros(as) e outros interessados possam aderir à Comunidade de Prática e contribuir de forma colaborativa para o avanço da Enfermagem na Região das Américas.
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Todos os autores aprovaram a versão final do texto.
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A publicação deste artigo na Série Temática “Saúde digital: contribuições da enfermagem” se insere na atividade 2.2 do Termo de Referência 2 do Plano de Trabalho do Centro Colaborador da OPAS/OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Brasil.
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Como citar este artigo
Dias BM, Díaz-Pérez JM, Cassiani SHB. Community of Practice for Nursing: connecting nurses in the Region of the Americas. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2024;32:e4401 [cited]. Available from: . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7254.4401
Editado por
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Editora Asociada:
Sueli Aparecida Frari Galera




