Open-access Intervenção educativa com cartilha sobre sífilis para mulheres em situação de vulnerabilidade sexual: estudo quase-experimental2

Objetivo:  avaliar o conhecimento de mulheres ribeirinhas sobre sífilis antes e após intervenção educativa com uso de cartilha.

Método:  estudo quase-experimental, comparativo, com delineamento antes e depois, realizado com 40 mulheres ribeirinhas por meio de roda de conversa com leitura compartilhada da cartilha. Para análise dos dados, utilizou-se o teste não-paramétrico de Wilcoxon.

Resultados:  a maioria das mulheres tinha de 18 a 29 anos, era casada ou estava em união estável e tinha o ensino fundamental. A maioria já ouviu falar sobre sífilis por meio dos profissionais de saúde. Realizaram exame para detecção de sífilis e já realizaram tratamento anterior para sífilis. Ao comparar as pontuações do pré-teste e do pós-teste imediato, observou-se aumento do conhecimento sobre sífilis. Ao analisar a fase pós-teste imediato com o pós-teste 7 dias, não houve diferença significativa, ou seja, o conhecimento adquirido se manteve o mesmo após 7 dias da intervenção educativa. Ao analisar a fase pré-teste e a fase pós-teste 7 dias, observou-se melhora do conhecimento.

Conclusão:  a intervenção educativa por meio de roda de conversa com leitura compartilhada da cartilha mostrou-se eficaz na aquisição de conhecimento sobre sífilis entre mulheres ribeirinhas, evidenciada pela melhora significativa do conhecimento nos resultados do pós-teste.

Descritores:
Mulheres; Populações Vulneráveis; Vulnerabilidade Sexual; Sífilis; Estudo de Intervenção; Enfermagem.


Destaques:

(1) As mulheres apresentaram aumento e manutenção do conhecimento sobre sífilis. (2) A intervenção com a cartilha e roda de conversa foi eficaz no aumento do conhecimento. (3) A cartilha é uma tecnologia facilitadora do processo ensino-aprendizagem. (4) A roda de conversa com leitura compartilhada da cartilha aumentou o conhecimento.

Objective:  to assess riverside women’s knowledge about syphilis before and after a booklet educational intervention.

Method:  a quasi-experimental, comparative study with a before-and-after design was conducted with 40 riverside women through a discussion group with shared reading of the booklet. The nonparametric Wilcoxon test was used for data analysis.

Results:  most women were between 18 and 29 years old, married or in a stable relationship, and had completed elementary school. Most had heard about syphilis from health professionals. They had been tested for syphilis and had previously undergone syphilis treatment. Comparing the pre-test and immediate post-test scores, an increase in knowledge about syphilis was observed. When analyzing the immediate post-test phase with the 7-day post-test, there was no significant difference; that is, the knowledge acquired remained the same after 7 days of the educational intervention. When analyzing the pre-test phase and the 7-day post-test phase, an improvement in knowledge was observed.

Conclusion:  the educational intervention through a booklet discussion circle with shared reading proved effective in acquiring knowledge about syphilis among riverside women, evidenced by the significant improvement in knowledge in the post-test results.

Descriptors:
Women; Vulnerable Populations; Sexual Vulnerability; Syphilis; Intervention Study; Nursing.


Highlights:

(1) The women showed increased and maintained knowledge about syphilis. (2) The intervention with the booklet and discussion group was effective in increasing knowledge. (3) The booklet is a technology that facilitates the teaching-learning process. (4) The discussion group with shared reading of the booklet increased knowledge.

Objetivo:  evaluar el conocimiento de mujeres ribereñas sobre sífilis antes y después de una intervención educativa con uso de cartilla.

Método:  estudio cuasiexperimental, comparativo, con diseño antes y después, realizado con 40 mujeres ribereñas mediante una rueda de conversación con lectura compartida de la cartilla. Para el análisis de los datos se utilizó la prueba no paramétrica de Wilcoxon.

Resultados:  la mayoría de las mujeres tenía entre 18 y 29 años, estaba casada o en unión estable y tenía educación primaria. La mayoría ya había oído hablar de la sífilis por medio de profesionales de la salud. Se realizaron pruebas para la detección de sífilis y ya habían recibido tratamiento previo para sífilis. Al comparar las puntuaciones del pretest y del postest inmediato, se observó un aumento del conocimiento sobre sífilis. Al analizar la fase postest inmediato frente al postest a 7 días, no hubo diferencias significativas, es decir, el conocimiento adquirido se mantuvo igual tras 7 días de la intervención educativa. Al comparar la fase pretest y la fase postest a 7 días, se observó una mejora del conocimiento.

Conclusión:  la intervención educativa mediante una rueda de conversación con lectura compartida de la cartilla se mostró eficaz para la adquisición de conocimiento sobre sífilis entre mujeres ribereñas, evidenciada por la mejora significativa del conocimiento en los resultados del postest.

Descriptores:
Mujeres; Poblaciones Vulnerables; Vulnerabilidad Sexual; Sífilis; Estudio de Intervención; Enfermería.


Destacados:

(1) Las mujeres presentaron aumento y mantenimiento del conocimiento sobre sífilis. (2) La intervención con la cartilla y la rueda de conversación fue eficaz para incrementar el conocimiento. (3) La cartilla es una tecnología facilitadora del proceso de enseñanza-aprendizaje. (4) La rueda de conversación con lectura compartida de la cartilla aumentó el conocimiento.

Introdução

A sífilis é uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST) considerada como um problema de saúde pública por ser uma afecção de magnitude global1. Apesar dos avanços no acesso ao diagnóstico por meio de testes rápidos, que facilitam a identificação e o tratamento, a redução de casos da doença ainda não tem sido observada, o que aponta para lacunas nas estratégias de controle e prevenção2.

Diante desse cenário, a persistência dos casos de sífilis ressalta a necessidade urgente de ações de combate para que as metas estabelecidas na Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), quanto à redução de IST, entre elas a sífilis, sejam alcançadas3-4. Nesse contexto, as iniciativas de enfrentamento devem ir além do diagnóstico e tratamento, precisando ser fundamentadas no movimento social e no planejamento em saúde5. É fundamental que essas ações sejam especificamente direcionadas às comunidades e populações vulneráveis que enfrentam acesso dificultado à saúde.

Essa dificuldade de acesso, característica de populações como as ribeirinhas, é amplificada nos vastos e complexos territórios brasileiros, como na Amazônia. Nessas regiões, as grandes distâncias geográficas e a desigualdade social perpetuam a transmissão da sífilis entre os adultos2,6, sendo a falta de conhecimento sobre as IST identificada como um dos fatores que contribuem para a infecção pelo Treponema pallidum, o agente etiológico da doença2.

Dentro desse contexto de vulnerabilidade ampliada, as populações ribeirinhas da Amazônia, foco deste estudo, têm sua rotina moldada pela influência dos rios. A economia, baseada na pesca, no extrativismo vegetal e, por vezes, em atividades turísticas, convive com uma infraestrutura precária. Essa realidade é marcada pela falta de saneamento básico, acesso limitado à energia elétrica e acesso restrito a serviços de saúde e políticas públicas6-7.

Embora caracterizadas pela centralidade da presença feminina e pelo papel essencial da mulher na organização da comunidade, as mulheres ribeirinhas da Amazônia enfrentam vulnerabilidades sociais significativas8. Tal cenário, somado ao baixo conhecimento e comportamentos sexuais de risco, as torna particularmente suscetíveis a desfechos desfavoráveis à saúde, especialmente no que tange à saúde sexual6,9-10.

Sendo assim, o estilo de vida e o cenário dessas populações exigem uma resposta diferenciada no enfrentamento da sífilis, distinta da abordagem para a população em geral. Logo, deve-se garantir o acesso dessas populações vulneráveis à informação de qualidade, por meio de ações de promoção à saúde e prevenção à sífilis realizadas pela equipe de saúde6.

Para que essas ações sejam verdadeiramente eficazes, é imperativo que atendam às peculiaridades regionais, bem como aos comportamentos e atitudes2 dos moradores de diferentes contextos vulneráveis do Brasil, sejam eles dos campos, rios ou florestas. A equipe de saúde deve, portanto, realizar atividades de educação em saúde, em grupo ou individualmente, utilizando uma linguagem acessível e direcionada às características comportamentais locais10.

Nesse sentido, o uso de tecnologias validadas e de fácil acesso, como as cartilhas, mostra-se fundamental, pois, além de auxiliar no empoderamento do indivíduo, permite que este atue como multiplicador, apresentando o material a outros indivíduos da comunidade. Dessa forma, as cartilhas são materiais úteis para descrição de assuntos relacionados à saúde, sendo possível sua utilização como instrumento de promoção da saúde, facilitador do processo educativo e melhoria do conhecimento11.

Tendo em vista a necessidade de estratégias de educação em saúde para populações vulneráveis, e reconhecendo a eficácia de tecnologias educativas validadas, este estudo teve como objetivo avaliar o conhecimento de mulheres ribeirinhas sobre sífilis antes e após intervenção educativa com uso de cartilha.

Método

Delineamento do estudo

Este é um estudo quase-experimental, comparativo, com delineamento antes e depois (pré e pós-teste). Os participantes serviram como seus próprios controles, sendo avaliados antes e depois da atividade educativa. O estudo segue a lista de verificação do Transparent Reporting of Evaluations with Nonrandomized Designs (TREND)12.

Este estudo é parte do macroprojeto “Diagnóstico Situacional das Infecções Sexualmente Transmissíveis no Contexto Amazônico”. A pesquisa foi embasada em duas etapas prévias do projeto: 1- Desenvolvimento e Validação de Cartilha em estudo anterior13: A cartilha educativa “Vamos falar sobre sífilis” foi desenvolvida com linguagem e expressões da comunidade ribeirinha para abordar transmissão, sintomas, diagnóstico, tratamento e prevenção14. 2- Construção e Validação do Questionário15) “Avaliação do conhecimento de mulheres ribeirinhas sobre sífilis” que está em processo de publicação. Ambos os materiais foram submetidos à validação semântica com mulheres ribeirinhas da Ilha do Combu, Belém, Pará, e à validação de conteúdo por especialistas.

Dessa forma, o presente estudo realizou a intervenção educativa através da roda de conversa com leitura compartilhada da cartilha.

Local e período do estudo

Realizado na Estratégia Saúde da Família (ESF) da Ilha de Cotijuba, que está inserida no município de Belém, Pará. Possui distância de aproximadamente 22 km da capital belenense, tendo como principal acesso a via fluvial. A ilha tem uma população estimada de 9.000 habitantes e ocupa uma área de 16 km2. A população da ilha vive das atividades comerciais, da pesca artesanal, da agricultura familiar, do agroextrativismo e do turismo16. O estudo ocorreu entre os meses de abril a maio de 2024.

Participantes

A população do estudo foi composta por mulheres ribeirinhas da Ilha de Cotijuba, Belém, Pará.

Critérios de seleção

Mulheres ribeirinhas com idade maior ou igual a 18 anos, sem limite superior de idade, moradoras permanentes da Ilha de Cotijuba e alfabetizadas. O critério para inclusão de participantes alfabetizadas foi a autodeclaração, seguida da comprovação da capacidade de ler e assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) no momento do recrutamento. Os critérios de exclusão foram mulheres visitantes ou trabalhadoras não residentes da Ilha de Cotijuba.

Definição da amostra

As mulheres foram selecionadas de forma aleatória conforme a demanda, sendo, portanto, uma amostragem consecutiva, durante uma ação em saúde realizada pelos enfermeiros da ESF da Ilha de Cotijuba. O tamanho amostral foi estimado em 40 mulheres a partir da fórmula baseada no teste de Qui-quadrado de McNemar, utilizado em estudo prévio11. Nenhuma mulher negou participar do estudo.

Para o cálculo, adotou-se os seguintes parâmetros: coeficiente de confiança de 95%, poder estatístico de 80%, proporção de pares que não sofreria alteração com a aplicação da intervenção educativa de 50% (adotou-se este valor por se considerar o desconhecimento deste parâmetro) e uma mudança de proporção de pelo menos 20% entre pares de observações para se rejeitar a hipótese de nulidade (ou seja, não haver diferença entre as proporções antes e após o desenvolvimento da intervenção educativa), onde Zα = 1,96; Zβ = 80%; PA = 0,2; qA =0,8; PD= 0,5. Após os cálculos, a amostra foi estimada em 40 participantes.

Instrumento utilizado para a coleta das informações

Utilizou-se o questionário15 validado intitulado “Avaliação do conhecimento de mulheres ribeirinhas sobre sífilis”, desenvolvido pela pesquisadora como parte de sua dissertação. O questionário é composto por perguntas abertas e fechadas, estruturado em três partes: dados sociodemográficos (idade, escolaridade e estado civil), seis questões dicotômicas sobre fatores comportamentais e dez questões sobre o conhecimento acerca da sífilis. Esta última seção está subdividida em quatro tópicos principais: aspectos gerais da infecção, diagnóstico e prevenção, tratamento, e sífilis gestacional e congênita.

Coleta de dados

O estudo foi conduzido em quatro etapas sequenciais: (i) Pré-teste, (ii) Intervenção educativa com a realização da roda de conversa com leitura compartilhada da cartilha “Vamos falar sobre Sífilis”, (iii) Pós-teste imediato, e (iv) Pós-teste 7 dias. As atividades foram conduzidas em locais protegidos e previamente acordados com as participantes, garantindo um ambiente seguro e confidencial para a discussão e a troca de experiências.

Inicialmente, 40 mulheres foram convidadas a participar do estudo na ESF da Ilha. Neste momento, a pesquisadora perguntava o nível de escolaridade das mulheres para avaliar se elas seriam capazes de ler o material educativo. Após a assinatura do TCLE, as participantes responderam a um questionário impresso (etapa i), com duração de 20 minutos, para avaliar o conhecimento prévio sobre a sífilis e caracterizar seu perfil sociodemográfico. As participantes foram orientadas a responder o questionário de acordo com seus conhecimentos prévios em relação a sífilis e que não poderiam fazer quaisquer tipos de consultas ou compartilhar as respostas com as demais. Cada questionário foi codificado para assegurar a rastreabilidade das respostas.

Na etapa ii, cada participante recebeu uma cópia impressa da cartilha “Vamos falar sobre Sífilis” e foi orientada a folheá-la e lê-la individualmente por 15 minutos. Em seguida, a pesquisadora enfermeira conduziu uma roda de conversa com a leitura compartilhada e manuseio da cartilha, bem como o esclarecimento de dúvidas. A duração total da roda de conversa foi de 30 minutos por grupo, sendo a mesma duração padronizada para os três grupos. Vale destacar que, durante a roda de conversa, algumas mulheres se sentiram à vontade e compartilharam experiências próprias e de amigos/familiares que foram diagnosticados e realizaram o tratamento para sífilis.

Na etapa iii, imediatamente após a intervenção, o mesmo questionário foi reaplicado para avaliar o conhecimento adquirido (pós-teste imediato), com 20 minutos para preenchimento. Ao final dessa etapa as cartilhas foram entregues às participantes para consulta em domicílio.

Por fim, a etapa iv consistiu na reaplicação do questionário via contato telefônico, sete dias após a intervenção11,17, com o objetivo de verificar a retenção do conhecimento. Apenas uma participante não foi localizada, resultando em uma amostra de 39 mulheres para esta fase do estudo.

Tratamento e análise dos dados

Os dados coletados foram armazenados em uma planilha no Microsoft Excel® , versão 2019, e a análise estatística foi realizada no software BioEstat® , versão 5.0 e Minitab® . Inicialmente, realizou-se análise descritiva das características sociodemográficas e fatores comportamentais das mulheres ribeirinhas, descritas por meio de frequências e porcentagens.

Os dados do conhecimento foram analisados inicialmente por estatística descritiva, com frequências absolutas e relativas e medidas de tendência central. Para avaliar se houve diferença na pontuação entre os grupos antes e após a intervenção, utilizou-se o teste de Shapiro-Wilk para identificar a normalidade das variáveis. Após o resultado demonstrar uma distribuição não normal, utilizou-se o teste não-paramétrico de Wilcoxon para comparar o conhecimento das mulheres ribeirinhas na fase pré-teste, pós-teste imediato e pós-teste 7 dias. Foi considerado p-valor significativo ≤ 0,05. O gráfico de box-plot foi utilizado para demonstrar a análise de significância estatística entre os grupos.

Considerações éticas

Este estudo faz parte da última etapa de um macroprojeto aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Ciências da Saúde (ICS) da Universidade Federal do Pará (UFPA) sob CAAE nº 10821819.0.0000.0018 e parecer nº 6.301.468. O TCLE, por meio escrito, foi obtido de todas as participantes envolvidas no estudo.

Resultados

Quanto aos dados sociodemográficos, houve prevalência de mulheres ribeirinhas na faixa etária de 18 a 29 anos (n=14; 35,0%), casadas e/ou em união estável (n=23; 57,5%), com ensino fundamental (n=21; 52,5%).

A maioria das mulheres já ouviu falar sobre sífilis (n=37; 92,5%) por meio de profissionais de saúde (n=25; 67,6%) ou assistiram a palestras (n=23; 57,5%). Já tinham feito exame (n=27; 67,5%) para diagnóstico de sífilis em algum momento, sendo o teste rápido (n=14; 51,9%) o método mais citado. Observou-se também o relato de tratamento anterior para sífilis (n=14; 35,0%) e a não utilização de preservativo durante as relações sexuais (n=23, 57,5%).

Quanto à avaliação do conhecimento sobre sífilis, a Tabela 1 apresenta o número de acertos referentes ao conhecimento sobre sífilis das mulheres ribeirinhas no pré-teste, pós-teste imediato e pós-teste 7 dias, considerando o total de 10 questões por teste. Destaca-se que na fase pós-teste 7 dias houve a participação de apenas 39 mulheres. Estes dados mostram que houve maior acerto sobre a temática nos dois momentos de pós-teste quando comparados com o pré-teste realizado no momento anterior à intervenção educativa com uso da cartilha.

Ao comparar as medidas de tendência central dos acertos das mulheres, observou-se que a média no pré-teste foi de 6,25 (Mediana: 6,0; Desvio-Padrão: 1,46; Mínima: 3,0 e Máxima: 9,0), no pós-teste imediato foi de 8,95 (Mediana: 9,0; Desvio-Padrão: 0,87; Mínima: 7,0 e Máxima: 10,0) e no pós-teste 7 dias foi de 8,89 (Mediana: 9,0; Desvio-Padrão: 0,94; Mínima: 7,0 e Máxima: 10,0). Ressalta-se, assim, melhora na aquisição e na retenção do conhecimento sobre sífilis após a intervenção educativa.

Quanto ao conhecimento sobre sífilis, de acordo com as dimensões de análise no pós-teste imediato, a mediana foi maior que no pré-teste, com significância estatística em todas as dimensões (p ≤ 0, 05), de acordo com a Tabela 2.

Ao realizar a comparação do conhecimento sobre sífilis, de acordo com as dimensões de análise, entre os dois momentos de pós-teste, observou-se que houve retenção de conhecimento mesmo após 7 dias da intervenção, conforme a Tabela 3.

A Tabela 4 demonstra a comparação do conhecimento sobre sífilis no pré-teste e pós-teste 7 dias de acordo com as dimensões de análise. Observa-se significância estatística em todas as dimensões, o que sugere aumento do conhecimento de tais aspectos.

As mulheres ribeirinhas que participaram da intervenção educativa sobre sífilis com a cartilha obtiveram aumento do conhecimento sobre sífilis (p = 0,0001) no pós-teste imediato (Figura 1) e, ao se analisar o pós-teste imediato com o pós-teste 7 dias, observou-se que o conhecimento sobre sífilis adquirido se manteve por 7 dias. Na comparação do pré-teste e o pós-teste 7 dias, observou-se melhora e fixação do conhecimento (p = 0,0001).

Tabela 1
Número de acertos das mulheres ribeirinhas em relação ao conhecimento sobre sífilis, nos momentos pré-teste (n = 40), pós-teste imediato (n = 40), pós-teste 7 dias (n = 39). Belém, PA, Brasil, 2024

Tabela 2
Comparação do conhecimento sobre sífilis das mulheres ribeirinhas (n = 40) no pré-teste e pós-teste imediato de acordo com cada questão do questionário. Belém, PA, Brasil, 2024
Tabela 3
Comparação do conhecimento sobre sífilis das mulheres ribeirinhas no pós-teste imediato (n = 40) e pós-teste 7 dias (n = 39) de acordo com cada questão do questionário. Belém, PA, Brasil, 2024
Tabela 4
Comparação do conhecimento sobre sífilis das mulheres ribeirinhas no pré-teste (n = 40) e pós-teste 7 dias (n = 39) de acordo com cada questão do questionário. Belém, PA, Brasil, 2024

Figura 1
Análise de significância estatística entre os grupos no pré-teste, pós-teste imediato e pós-teste 7 dias

Discussão

As mulheres participantes da intervenção educativa, jovens, com ensino fundamental e casadas ou em união estável, reflete o perfil de outras comunidades ribeirinhas do Brasil6,18. O conhecimento prévio limitado identificado no pré-teste entre as participantes (Mediana = 6 acertos) associado ao não uso de preservativos evidencia uma vulnerabilidade comportamental que eleva o risco de aquisição de IST.

Sabe-se que o uso inadequado ou a ausência de preservativos é um fator de vulnerabilidade individual que deve ser abordado pelas equipes de saúde por meio de tecnologias educativas e uma linguagem acessível10,19. Além disso, embora algumas soubessem responder a determinadas perguntas sobre a doença, não souberam responder a questões mais específicas, o que reforça a necessidade de maior investimento em educação em saúde.

Após a intervenção educativa, a mediana de acertos aumentou significativamente para 9 no pós-teste imediato e se manteve no pós-teste 7 dias. Essa aquisição de conhecimento é fundamental para a prevenção e a adesão ao tratamento da sífilis, uma vez que o desconhecimento pode intensificar a problemática da doença, dificultando a prevenção e a cura11.

A eficácia da intervenção educativa com roda de conversa e leitura compartilhada da cartilha foi confirmada pela comparação entre o pré-teste e o pós-teste imediato, com aumento no número de acertos das questões, ressaltando a melhoria do conhecimento sobre sífilis. Um estudo quase-experimental11, que avaliou os efeitos do conhecimento, atitude e prática de gestantes antes e após uma intervenção educativa com leitura de cartilha sobre sífilis gestacional, identificou uma melhora estatisticamente significativa nesses três domínios após a leitura do material. Outros estudos quase-experimentais20-22 verificaram aumento no número de acertos das questões e do nível de conhecimento sobre determinada doença após intervenção educativa com atividades em grupo e vídeo educativo.

Nossos achados estão alinhados com estudos internacionais que também verificaram a eficácia de intervenções educativas em contextos vulneráveis. Em Moçambique, um ensaio clínico randomizado controlado com mulheres em risco de HIV/AIDS utilizou uma intervenção didática psicossocial que resultou em um aumento significativo do conhecimento sobre os fatores de risco da doença e maior adesão a práticas preventivas23.

Em áreas rurais do Peru, intervenções com programas de educação nutricional familiar demonstraram um efeito positivo no nível de conhecimento e na adoção de hábitos alimentares mais saudáveis24. Tais resultados, em diferentes contextos geográficos, reforçam que as intervenções educativas são ferramentas eficazes para a promoção da saúde em comunidades vulneráveis.

Embora o período de acompanhamento tenha sido curto (7 dias), a manutenção do conhecimento sobre sífilis após a intervenção sugere que a cartilha tem potencial para promover a retenção de informações, o que é um resultado promissor. Um estudo, que objetivou avaliar a efetividade de uma intervenção educativa sobre adesão ao tratamento e conhecimento sobre sífilis em puérperas com resultado positivo para a doença, identificou que o pós-teste revelou melhorias no conhecimento acerca da sífilis, com a pontuação pós-teste de 30 dias associada à melhor adesão ao tratamento25. Outro estudo sobre sífilis em gestantes verificou um aumento do conhecimento após a intervenção com cartilha, tanto no pós-teste imediato quanto no 7º dia11.

A transmissão vertical da sífilis continua a ser um desafio de saúde pública26, com barreiras como a situação social desfavorável e a falta de conhecimento27. Diante disso, ações educativas voltadas para populações vulneráveis são estratégias eficazes para incentivar a adoção de práticas de promoção da saúde e colaborar para um maior controle da doença28.

Portanto, a implementação de estratégias como o uso de tecnologias acessíveis e intervenções educativas têm se mostrado eficaz para melhorar o conhecimento e os cuidados de saúde11,19,25. Acredita-se que intervenções educativas multimodais, com metodologia e materiais validados, podem melhorar o conhecimento e o autocuidado, especialmente entre os mais vulneráveis29.

Reitera-se que a intervenção educativa demonstrou ser eficaz ao melhorar o conhecimento sobre a sífilis entre as mulheres ribeirinhas, com resultados positivos mantidos por 7 dias. No entanto, a persistência de alguns erros no pós-teste sugere que o aprendizado é um processo contínuo e que são necessárias intervenções periódicas. Portanto, o papel da equipe de saúde é crucial para estabelecer um vínculo com a comunidade, facilitando a adoção de comportamentos saudáveis e garantindo que o conhecimento adquirido se traduza em ações concretas de prevenção e autocuidado, contribuindo para o controle da doença11,25,27.

Na prática, a intervenção com a cartilha mostrou-se mais eficaz quando realizada em formato de roda de conversa e leitura compartilhada. Essa abordagem facilitou a interação, permitindo que as mulheres ribeirinhas se sentissem à vontade para relatar suas experiências e esclarecer dúvidas, o que reforça a importância de um método participativo. A intervenção teve baixo custo e a eficácia observada neste estudo justifica a realização de pesquisas futuras para explorar sua replicação e adaptabilidade em outros contextos, tanto em áreas rurais quanto urbanas.

Como limitações do estudo, destaca-se o número amostral da intervenção educativa e sua realização em uma única comunidade, o que limita a capacidade de generalização. Dessa forma, torna-se relevante a realização de estudos futuros que possam ampliar o tamanho amostral de mulheres de diferentes comunidades ribeirinhas, assim como a realização de um estudo randomizado controlado para identificar o efeito da cartilha educativa na mudança de conhecimento sobre a sífilis.

A principal contribuição do estudo é a evidência científica da eficácia da intervenção educativa, mediada pelo enfermeiro, com roda de conversa e leitura compartilhada da cartilha em uma população específica e pouco estudada devido especialmente à dificuldade de acesso. Ademais, isso não apenas aprimora as estratégias de educação em saúde para populações vulneráveis, mas também ressalta o potencial da enfermagem para liderar e implementar soluções de baixo custo e com impacto social, possibilitando a adesão a práticas preventivas e no enfrentamento de problemas de saúde pública como a sífilis.

Conclusão

A intervenção educativa conduzida em formato de roda de conversa, com a leitura compartilhada da cartilha “Vamos falar sobre Sífilis”, mostrou-se eficaz na aquisição de conhecimento sobre sífilis entre mulheres ribeirinhas, evidenciada pela melhora significativa nos resultados do pós-teste. A manutenção do conhecimento por sete dias sugere o potencial da cartilha em atuar como um recurso de apoio duradouro. A linguagem clara e acessível do material, combinada à dinâmica da roda de conversa, demonstrou ser uma ferramenta valiosa para o processo de ensino-aprendizagem. A cartilha tem aplicabilidade comprovada e pode ser adaptada e utilizada por diversos profissionais da saúde e em diferentes contextos, tanto em comunidades rurais com acesso limitado quanto em áreas urbanas, auxiliando na prevenção da sífilis e na promoção do autocuidado.

Agradecimentos

Agradecemos às mulheres ribeirinhas que participaram do estudo e à equipe de enfermagem da Estratégia Saúde da Família da Ilha de Cotijuba por ter participado e auxiliado na execução da pesquisa.

Declaração de Disponibilidade de Dados:

Os conjuntos de dados relacionados a este artigo estarão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.

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  • 2
    Artigo extraído da dissertação de mestrado “Intervenção educativa com cartilha sobre sífilis para mulheres ribeirinhas amazônidas: estudo quase-experimental”, apresentada à Universidade Federal do Pará, Belém, PA, Brasil. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) - Código de Financiamento 001, Brasil. A publicação deste artigo na série temática “Escopo de prática de Enfermagem na Atenção Primária à Saúde” se insere na atividade 2.2 do Termo de Referência 2 do Plano de Trabalho do Centro Colaborador da OPAS/OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Brasil.
  • Como citar este artigo:
    Estumano VKC, Nunes PPS, Ramos AMPC, Nascimento MHM, Sá GGM, Botelho EP, et al. Educational intervention with a booklet on syphilis for women in situations of sexual vulnerability: a quasi-experimental study. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2026;34:e4807 [cited mês ano dia ]. Available from: URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.8010.4807

Editado por

  • Editor Associado:
    Omar Pereira de Almeida Neto

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    26 Abr 2025
  • Aceito
    16 Set 2025
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