Open-access Infecções Sexualmente Transmissíveis não virais em gestantes na Atenção Primária: prevalência e fatores associados*

Objetivo: analisar os fatores associados à ocorrência de Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae, Mycoplasma genitalium e Trichomonas vaginalis em gestantes acompanhadas na Atenção Primária à Saúde.

Método: estudo transversal com 302 gestantes com idade entre 15 a 49 anos. Foram coletadas amostras de secreção vaginal para detecção por biologia molecular de clamídia, gonorreia, mycoplasma e tricomoníase; aplicado questionário estruturado com dados sociodemográficos, comportamentais, antecedentes obstétricos e clínicos, resultados de testes rápidos (Vírus da Imunodeficiência Humana, Sífilis, Hepatite B e C). Análise realizada no software STATA 15.0.

Resultados: as prevalências encontradas foram: Chlamydia trachomatis (11,6%), Mycoplasma genitalium (9,6%), Neisseria gonorrhoeae (1,7%) e Trichomonas vaginalis (3,6%). A idade inferior a 25 anos (odds ratio ajustado=2,06), presença de sintomas (odds ratio ajustado=1,99), ausência de parceiro fixo ou até um ano de relacionamento (odds ratio ajustado=2,64) aumentou a chance de ter pelo menos uma infecção.

Conclusão: este estudo descreve a alta prevalência global de infecções sexualmente transmissíveis curáveis em gestantes na Atenção Primária à Saúde. Conhecer a prevalência destas infecções em gestantes e os principais determinantes são essenciais para reorganização do cuidado pré-natal e redução de complicações gravídico-puerperal e fetais.

Descritores:
Gestantes; Infecções Sexualmente Transmissíveis; Cuidado Pré-Natal; Atenção Primária à Saude; Rastreamento; Prevalência


Destaques:

(1) Alta prevalência de IST não virais em gestantes. (2) As IST estão associadas às características sociodemográficas e comportamento de risco. (3) Necessário ações de educação em saúde voltadas à prevenção de IST. (4) Subsidiar a elaboração de protocolo de triagem de IST não virais na atenção pré-natal.

Objective: to analyze the factors associated with the occurrence of Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae, Mycoplasma genitalium and Trichomonas vaginalis in pregnant women followed up in Primary Health Care.

Method: a cross-sectional study of 302 pregnant women aged between 15 and 49 years. Vaginal secretion samples were collected for molecular biology detection of chlamydia, gonorrhea, mycoplasma and trichomoniasis; a structured questionnaire was applied with sociodemographic, behavioral, obstetric and clinical data, and results of rapid tests (Human Immunodeficiency Virus, Syphilis, Hepatitis B and C). Analysis was carried out using STATA 15.0 software.

Results: the prevalence rates found were: Chlamydia trachomatis (11.6%), Mycoplasma genitalium (9.6%), Neisseria gonorrhoeae (1.7%) and Trichomonas vaginalis (3.6%). Age under 25 (adjusted odds ratio=2.06), presence of symptoms (adjusted odds ratio=1.99), absence of a steady partner or up to one year of relationship (adjusted odds ratio=2.64) increased the chance of having at least one infection.

Conclusion: this study describes the high global prevalence of curable sexually transmitted infections in pregnant women in Primary Health Care. Knowing the prevalence of these infections in pregnant women and the main determinants are essential for reorganizing prenatal care and reducing pregnancy, puerperal and fetal complications.

Descriptors:
Pregnant People; Sexually Transmitted Diseases; Prenatal Care; Primary Health Care; Screening; Prevalence


Highlights:

(1) High prevalence of non-viral STIs in pregnant women. (2) STIs are associated with sociodemographic characteristics and risk behavior. (3) Health education actions aimed at preventing STIs are needed. (4) To support the development of a screening protocol for non-viral STIs in prenatal care.

Objetivo: analizar los factores asociados con la ocurrencia de Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae, Mycoplasma genitalium y Trichomonas vaginalis en gestantes atendidas en la Atención Primaria de Salud.

Método: estudio transversal con 302 gestantes de 15 y 49 años. Se recolectaron muestras de secreción vaginal para detección por biología molecular de clamidia, gonorrea, mycoplasma y tricomoniasis; se aplicó un cuestionario estructurado con datos sociodemográficos, conductuales, antecedentes obstétricos y clínicos, y resultados de pruebas rápidas (Virus de la Inmunodeficiencia Humana, Sífilis, Hepatitis B y C). El análisis fue realizado con el software STATA 15.0.

Resultados: las prevalencias encontradas fueron: Chlamydia trachomatis (11,6%), Mycoplasma genitalium (9,6%), Neisseria gonorrhoeae (1,7%) y Trichomonas vaginalis (3,6%). La edad inferior a 25 años (odds ratio ajustado=2,06), la presencia de síntomas (odds ratio ajustado=1,99), la ausencia de pareja estable o una relación de hasta un año (odds ratio ajustado=2,64) aumentaron la probabilidad de tener al menos una infección.

Conclusión: este estudio describe la alta prevalencia global de infecciones de transmisión sexual curables en gestantes en la Atención Primaria de Salud. Conocer la prevalencia de estas infecciones en gestantes y sus principales determinantes es esencial para reorganizar la atención prenatal y reducir las complicaciones del embarazo, puerperio y fetales.

Descriptores:
Personas Embarazadas; Enfermedades de Transmisión Sexual; Atención Prenatal; Atención Primaria de Salud; Cribado; Prevalencia


Destacados:

(1) Alta prevalencia de ITS no virales en gestantes. (2) Las ITS están asociadas con características sociodemográficas y comportamientos de riesgo. (3) Es necesario implementar acciones de educación en salud orientadas a la prevención de ITS. (4) Subsidia la elaboración de un protocolo de tamizaje de ITS no virales en la atención prenatal.

Introdução

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem estimado mais de 1 milhão de novas infecções sexualmente transmissíveis (IST) curáveis diariamente, em pessoas de 15 a 49 anos, e em 2020, estimou 374 milhões de novas infecções nesta população ( 1 ). Entre mulheres em idade fértil, a prevalência estimada globalmente entre 2009 e 2016 foi de 3,8% para clamídia, 0,9% para gonorreia e 5,3% para tricomoníase ( 2 ).

Ainda que essas IST possam provocar sinais e sintomas como corrimento vaginal ou uretral, presença de úlceras e dor ao urinar, a maioria dos casos permanece sem sintomas, o que dificulta tanto a identificação quanto o tratamento adequado, especialmente quando se utiliza a abordagem sindrômica, cuja sensibilidade e especificidade são limitadas ( 3 ).

Durante a gestação, alterações fisiológicas, hormonais e imunológicas tornam as gestantes mais vulneráveis a complicações obstétricas e fetais decorrentes dessas infecções, como parto prematuro, ruptura precoce das membranas, aborto, infertilidade, gravidez ectópica, natimorto, infecções congênitas, perinatais e puerperais, conjuntivite neonatal e baixo peso ao nascer ( 3 - 9 ).

Em alguns países desenvolvidos, testes moleculares para o rastreamento de IST curáveis em gestantes já são empregados de forma universal ou direcionada a populações de risco, incluindo mulheres com menos de 25 anos ( 10 - 12 ). No Brasil, embora os testes moleculares para detecção de Chlamydia trachomatis (CT), Neisseria gonorrhoeae (NG), Mycoplasma genitalium (MG) e Trichomonas vaginalis (TV) ainda não estejam incorporados ao Sistema Único de Saúde (SUS), o protocolo nacional de atenção às pessoas com IST já recomenda a triagem de CT e NG em gestantes com menos de 30 anos na primeira consulta do pré-natal ( 3 ).

Ao considerar a limitação de acesso a exames etiológicos, a ausência da obrigatoriedade de notificação dessas infecções e a fragmentação dos dados disponíveis, os estudos de prevalência tornam-se fundamentais para conhecer o cenário dessas IST na população ( 13 ). No Brasil, as pesquisas já realizadas com gestantes descreveram prevalência de CT entre 9%-12% ( 14 - 18 ), 0,6%-1,5% para NG ( 14 , 18 - 19 ), e 5,0%-6,7% para TV ( 14 , 18 ).

O primeiro estudo nacional de rastreamento de MG em gestantes refere uma prevalência de 7,8% nesta população ( 18 ). Assim, o presente estudo tem como objetivo analisar os fatores associados à ocorrência de Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae, Mycoplasma genitalium e Trichomonas vaginalis em gestantes acompanhadas na Atenção Primária à Saúde.

Método

Desenho do estudo

Pesquisa de corte transversal, originada de um projeto-piloto do Ministério da Saúde (MS) ( 18 ) para implantação de teste molecular para detecção qualitativa de CT, NG, TV e MG em serviços de pré-natal no âmbito do SUS, compreendendo as cinco regiões do país.

Local do estudo

O estudo foi realizado nos serviços de pré-natal do SUS de 17 unidades básicas de saúde (UBS) distribuídas geograficamente entre os doze distritos sanitários (DS) do município de Salvador-BA, Brasil.

Período do estudo

Em dezembro de 2021, profissionais de saúde (médicos e enfermeiros) participaram de um treinamento no qual foram apresentados os objetivos da pesquisa, o questionário padronizado a ser utilizado na entrevista das gestantes, e aspectos relativos à coleta, acondicionamento e transporte de amostras de secreção vaginal para o laboratório onde foram processadas, bem como o tratamento das IST quando resultado positivo. Após o treinamento, iniciou-se a coleta de dados em 10 de janeiro de 2022 e encerrou em 08 de fevereiro de 2023.

População do estudo e critérios de seleção

Participaram 302 gestantes com idade entre 15 e 49 anos, convidadas pelo pré-natalista, durante a consulta de pré-natal na atenção primária à saúde (APS). Foram excluídas as gestantes que fizeram uso de qualquer classe de antibiótico auto referido nos últimos três meses que antecederam a coleta.

Definição da amostra

O tamanho da amostra foi definido a partir da estimativa do quantitativo de gestantes no município em 2021, que resultou do somatório do número de nascidos vivos no ano anterior (2020) acrescido de 10%, totalizando 33.143 gestantes. O cálculo foi realizado conforme orientado pelo anexo III da Portaria que instituiu a Rede Cegonha ( 20 ). A partir da infecção por CT, que é a IST de maior frequência (12%) ( 17 ) esperada nesta população, com limites de confiança em 5% e intervalo de confiança de 99%, ficou estabelecido uma amostra de 278 gestantes que, acrescida de 10% relativos às possíveis perdas, resultou em um n igual a 306 gestantes. Entretanto, 313 mulheres grávidas aceitaram participar da pesquisa. Destas, 11 foram excluídas do estudo em decorrência do uso de antibiótico nos últimos três meses (07) e incompletude do questionário (04), resultando em uma amostra de 302 mulheres, mantendo um n superior ao mínimo necessário (278). Os cálculos amostrais foram realizados no softwareOpen Epi versão 3, de domínio público.

Coleta de dados

A coleta de dados ocorreu durante consulta de pré-natal ou em momento previamente combinado para esta finalidade, sendo realizada pelo profissional de saúde (médico ou enfermeiro), que aplicou questionário estruturado com dados sociodemográficos; obstétricos; clínicos; investigação de COVID-19; comportamentais; e resultados de testes rápidos (Vírus da Imunodeficiência Humana/HIV, Sífilis, Hepatite B e C). Foi realizada coleta de amostra vaginal com kits Aptima da empresa Hologic para detecção de NG, CT, TV e MG. São testes de amplificação de ácidos nucléicos (NAAT), neste caso ácido ribonucleico - RNA (amplificação mediada por transcrição), capazes de detectar patógenos diferentes em uma mesma amostra. Também foram ofertados testes rápidos do tipo DUO para detecção simultânea de anticorpos circulantes específicos para HIV 1/2 e Treponema pallidum para todas as gestantes participantes do estudo que não haviam realizado ou já tinham mais de três meses da realização do exame.

Variáveis do estudo

Os dados sociodemográficos, obstétricos, clínicos e comportamentais foram considerados variáveis preditoras. As variáveis Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae, Mycoplasma genitalium, Trichomonas vaginalis foram consideradas desfechos de interesse (sim/não).

Análise de dados

Explorou-se a frequência absoluta e o percentual de cada uma das variáveis de interesse, sendo as contínuas expressas em médias com os respectivos desvios-padrão. Na análise bivariada, foi realizada a distribuição percentual das variáveis independentes em relação a cada variável desfecho, utilizando o teste Qui-Quadrado ou Teste Exato de Fisher. Todas as variáveis que apresentaram p≤0,20 foram selecionadas para a regressão logística multivariada, e identificação dos fatores associados aos desfechos de interesse, estimando-se a Odds Ratio (OR) como medida de associação. Para construção do modelo final (ajustado), utilizou-se a estratégia backward, permanecendo no modelo final as variáveis com nível de significância de p≤ 0,05. Para verificar o ajuste do modelo foi utilizado o teste de Hosmer-Lemershow (p≥ 0,05) e a Curva Característica de Operação do Receptor (ROC). A análise dos dados foi realizada no software STATA, versão 15.0.

Aspectos éticos

O estudo foi realizado de acordo com as diretrizes da Resolução 466/2012, da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa do Conselho Nacional de Saúde (CONEP/CNS) ( 21 ) e submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da Universidade do Estado da Bahia, com aprovação em 21 de dezembro de 2021, CAAE 53868121.5.0000.0057. A participação das gestantes no estudo foi condicionada à assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) quando maior de 18 anos ou o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (TALE) para as menores de 18 anos. Neste caso, os responsáveis também assinaram o TCLE. As entrevistas foram realizadas em ambiente protegido para preservar a privacidade das participantes. Os resultados dos exames foram entregues apenas às participantes, e os casos positivos tratados conforme o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) de atenção às pessoas com IST.

Resultados

Participaram do estudo 302 gestantes (100%), predominando aquelas com idade igual ou superior a 25 anos, negras (pretas ou pardas), com ensino médio, ainda que incompleto, e renda familiar de até 1,9 salários-mínimos. A maioria das grávidas vivia em relação estável, com dois ou mais anos de relacionamento, e referiram ter tido até cinco parcerias sexuais durante a vida e um único parceiro nos últimos 12 meses. Cerca de 4,6% (14) relataram que o parceiro atual já esteve preso. Em relação às características obstétricas ginecológicas, história de aborto espontâneo foi relatada por 19,9% (60) das entrevistadas, e 13,9% (42) nunca realizaram exame citopatológico do colo de útero. Sintomas de IST foram identificados por quase um terço das gestantes (99), como corrimento vaginal, dispareunia e disúria. Quanto às características comportamentais, 16,9% (51) referiram consumo de álcool, ainda que de forma eventual ou nos finais de semana, enquanto 3,3% (10) relataram utilizar drogas ilícitas não injetáveis – maconha, inclusive o uso concomitante com cocaína (30,0% ambas as drogas) (Tabela 1).

Tabela 1-
Características sociodemográficas, obstétricas/ginecológicas e comportamentais das gestantes acompanhadas em unidades básicas de saúde (N* = 302). Salvador, BA, Brasil, 2022-2023

As maiores prevalências de infecção foram encontradas para CT (11,6%) e MG (9,6%). Das 302 gestantes, cinco apresentaram amostra de secreção vaginal positiva para NG (1,7%) e 11 para TV (3,6%). A prevalência de pelo menos uma destas IST nas gestantes entrevistadas foi de 21,5% (65) (Tabela 2).

Um total de 13 (4,3%) gestantes tiveram presença simultânea de duas IST (06 gestantes com CT/MG, 02 com CT/NG, 02 com NG/MG e 03 com MG/TV), e apenas uma gestante apresentou resultado positivo para três IST concomitantemente (CT/TV/MG). Não houve gestantes com infecção para TV/NG ao mesmo tempo. Nenhuma gestante apresentou teste rápido positivo para HIV, e 24 (7,9%) tiveram teste rápido positivo para sífilis (dados não demonstrados em tabela).

Na análise bivariada foram encontradas as possíveis associações entre cada IST investigada e as variáveis independentes, conforme descrito na Tabela 3. A infecção por pelo menos uma IST pode ter associação com as seguintes variáveis preditoras: faixa etária entre 15 e 24 anos (p-0,008); dois ou mais parceiros sexuais nos últimos 12 meses (p-0,000); nunca ter realizado preventivo (p-0,016); presença de sintomas de IST (p-0,046); uso de álcool (p-0,003); não ter parceiro ou tempo de relacionamento inferior ou igual a um ano (p-0,001); e parceiro com história de prisão (p-0,031). Nenhuma das IST diagnosticadas apresentou possível associação com as variáveis raça/cor, renda familiar e o número de parcerias sexuais durante a vida (Tabela 3).

Tabela 2-
Prevalência de infecção por Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae, Mycoplasma genitalium, Trichomonas vaginalis em gestantes acompanhadas em unidades básicas de saúde (N* = 302). Salvador, BA, Brasil, 2022-2023
Tabela 3-
Prevalência de infecção Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae, Mycoplasma genitalium, Trichomonas vaginalis e características sociodemográficas de gestantes acompanhadas em unidades básicas de saúde (N* = 302). Salvador, BA, Brasil, 2022-2023

Na análise de regressão logística múltipla, os resultados sinalizaram maior chance de infecção por CT entre gestantes com idade entre 15 a 24 anos quando comparado àquelas com idade igual ou superior a 25 anos ( Odds Ratio ajustado/ORa= 5,39; Intervalo de Confiança/IC95% - 2,23- 13,00); grávidas com sintomas de IST (ORa= 2,65; IC95% - 1,15- 6,07); gestantes sem parceiro ou tempo de relacionamento igual ou inferior a um ano (ORa= 2,48; IC95% - 1,07- 5,72); e mulheres grávidas de parceiro com história de prisão (ORa= 6,81; IC95% -1,77- 26,25) ( Tabela 4 ).

No que se refere à infecção por NG, não ter parceiro ou tempo de relacionamento igual ou inferior a um ano (ORa= 13,02; IC95% - 1,25- 135,47) e uso de drogas ilícitas não injetáveis (ORa= 31,83; IC95% - 3,62- 279,79) estiveram significativamente associados. Por outro lado, gestantes que referiram uso de álcool apresentaram três vezes mais chances de infecção por MG (ORa= 3,41; IC95% -1,46- 7,93); gestantes que nunca realizaram preventivo (ORa= 2,62; IC95% - 1,04- 6,59) e que tiveram mais de uma parceria sexual no último ano (ORa= 3,80; IC95% - 1,41- 10,22) também apresentaram associação significativamente estatística ( Tabela 4 ).

Foi identificada chance significativamente maior de infecção por TV em grávidas com até nove anos de escolaridade (ORa= 7,75; IC95% - 1,98- 30,37), única variável estatisticamente associada. No que se refere à infecção por pelo menos uma das IST, tal aspecto esteve significativamente associado às gestantes mais jovens, idade entre 15 e 24 anos (ORa= 2,06; IC95% - 1,16- 3,67), presença de sintomas de IST (ORa= 1,99; IC95% = 1,10- 3,60), não ter parceiro ou tempo de relacionamento menor ou igual a um ano (ORa= 2,64; IC95% - 1,45- 4,78) ( Tabela 4 ).

Tabela 4-
Análise multivariada (modelo final ajustado) dos fatores associados à infecção Chlamydia trachomatis , Neisseria gonorrhoeae , Mycoplasma genitalium , Trichomonas vaginalis e ter pelo menos uma IST*, entre gestantes (N = 302) acompanhadas em unidades básicas de saúde. Salvador, BA, Brasil, 2022-2023

Discussão

Este estudo evidenciou uma elevada prevalência de IST não virais e curáveis (CT, NG, MG e TV) em gestantes. Aproximadamente 21,5% (65) das participantes apresentaram pelo menos uma dessas infecções. A literatura internacional relata variações expressivas na sua prevalência em gestantes. Na Holanda, um estudo registrou uma taxa de 2,4% ( 22 ), ao passo que na Tanzânia, 12,5% das grávidas estavam infectadas ( 23 ). Na África do Sul, uma pesquisa identificou prevalência de 27,0% em gestantes soronegativas para HIV e 40% entre as que viviam com o vírus ( 24 ). Já no sul do Brasil, estudo realizado com gestantes atendidas na Santa Casa e em unidades básicas do SUS apontou prevalência acumulada de IST (incluindo CT, NG, TV, sífilis e HIV) de 23,5% ( 14 ).

Entre as IST avaliadas, a infecção por CT foi a mais prevalente neste estudo, com taxa de positividade de 11,6% (35). Entretanto, a taxa de infecção por CT apresenta grande variabilidade global. Pesquisas com gestantes na China relataram prevalência de 6,7% ( 25 ), enquanto no Irã os índices foram mais altos, alcançando 15,5% ( 6 ). Na América do Sul, estudo em Córdoba (Argentina) identificou taxa de 6,9% ( 26 ), inferior à observada em dois hospitais de Lima, no Peru (10,0%) ( 27 ).

No contexto brasileiro, o estudo realizado com gestantes de Manaus, Amazonas, apontou prevalência de CT semelhante ao encontrado (11%) ( 15 ). Em Coari, também no Amazonas, uma pesquisa recente com gestantes acompanhadas na APS revelou prevalência de 18%, com variação conforme o tipo de amostra utilizada: 15% na urina e 11% nas coletas cérvico-vaginais, analisadas por RT-PCR (reação em cadeia da polimerase em tempo real) ( 16 ). Os achados são coerentes com o do presente estudo, que também utilizou amostras vaginais e testes moleculares com elevada sensibilidade, considerados padrão-ouro pela OMS ( 28 - 29 ).

Ainda no Norte do país, o estudo com parturientes atendidas em maternidade pública de Belém (Pará) encontrou prevalência de 18% em amostras de urina do primeiro jato ( 30 ). No Sul do Brasil, em Pelotas, a infecção por CT foi identificada em 12,3% das gestantes com até 29 anos ( 17 ), enquanto em Porto Alegre, entre as gestantes atendidas na Santa Casa e em UBS, a taxa foi de 9,0%; ambas pesquisas utilizaram amostras vaginais ( 14 ).

A infecção por NG apresentou prevalência de 1,7% ( 5 ) neste estudo, resultado semelhante ao de investigações conduzidas em países como Japão, Quênia, Botswana, Gâmbia, Irã, Congo e também no Brasil, que relataram taxas entre 1,0% e 1,8% ( 6 , 12 , 14 , 31 - 34 ). Em algumas regiões, contudo, a detecção foi inferior a 1% ( 22 , 35 ), inclusive com ausência de gestantes com amostras vaginais positivas, conforme estudo realizado no Nepal e na França ( 36 - 37 ). Em contrapartida, taxas elevadas foram encontradas em Papua Nova Guiné (11,2%) e na Etiópia (4,3%) ( 38 - 39 ).

As informações sobre MG em gestantes ainda são escassas, reflexo da ausência de triagem sistemática para esse agente, mesmo em países com políticas consolidadas de rastreamento para CT e NG no pré-natal, como os Estados Unidos ( 40 - 41 ) e da escassez de pesquisas que investiguem esta IST em gestantes. Neste estudo, a prevalência de MG foi de 9,6% (29), inferior ao identificado em dois estudos norte-americanos com gestantes jovens (13–29 anos), nos quais foram observadas taxas de 17,0% e 18,0% ( 41 - 42 ).

Na África do Sul, estudo conduzido na Cidade do Cabo revelou prevalência de MG de 12% entre gestantes HIV negativo, percentual que duplicou naquelas vivendo com HIV ( 43 ). Ainda na África do Sul, foram encontradas taxas de 13,3% em grávidas soronegativas e 22,2% entre as HIV positivas ( 44 ). Em Papua Nova Guiné, a frequência observada foi semelhante, com 12,5% das gestantes testando positivo para MG ( 45 ). Resultados discrepantes foram encontrados na Tanzânia (2,1%) ( 23 ), na França (0,8%) ( 37 ), e em uma meta-análise realizada na China (4,9%) ( 46 ).

Em um estudo realizado com mulheres em uma universidade pública de Maringá, no estado do Paraná, Brasil, a prevalência encontrada de MG foi 0,5% ( 47 ). Recentemente, a primeira pesquisa brasileira de rastreamento de MG em grávidas descreveu prevalência de 7,8% ( 18 ). Em uma revisão sistemática, foi descrita variação de 0,1 a 19,2% na prevalência de MG em mulheres, com grande parte dos estudos em população de risco, com ou sem sintomatologia, atendidas em clínicas de IST ou vivendo com HIV ( 40 ). Assim, mais pesquisas são necessárias para determinar a prevalência e os fatores associados a esta infecção entre as gestantes.

A taxa de TV obtida no grupo estudado foi 3,6% ( 11 ), inferior ao observado em pesquisas na África, cuja prevalência tem variado entre 5,0 e 7,4% ( 23 - 24 , 33 - 34 ). A grande maioria destes estudos adotou o PCR como técnica laboratorial, o que assegura elevada sensibilidade e especificidade na detecção dos agentes infecciosos. No Sul do Brasil, foi relatada prevalência de TV de 5,0% em gestantes ( 14 ), valor similar ao encontrado em países africanos.

Dados compatíveis com os do presente estudo foram identificados na Etiópia e em Burkina Faso, com prevalências de 3,1% e 3,2%, respectivamente. Na Etiópia, as amostras vaginais foram analisadas por PCR, enquanto em Burkina Faso, utilizou-se a microscopia de urina e de esfregaços vaginais ( 39 , 48 ). Observa-se expressiva frequência de TV em Papua Nova Guiné, onde as prevalências foram de 37,6% ( 38 ) e 20,1% ( 45 ), no Haiti, com 27,7% ( 49 ) e na África Subsaariana (13,8%) ( 50 ), evidenciando importantes disparidades regionais no perfil epidemiológico dessa infecção. Ressalta-se que boa parte das pesquisas que investigam este agente etiológico em grávidas estão concentradas na África, havendo informações limitadas no restante do mundo, inclusive no Brasil.

Neste estudo, a única variável com poder preditivo para a TV foi o nível educacional. Gestantes com até nove anos de escolaridade apresentam chance sete vezes maior de infecção. Achado semelhante foi reportado em pesquisa nacional, na qual mulheres grávidas com ensino fundamental incompleto demonstraram o dobro de chance de contrair IST ( 14 ). A limitação no acesso à educação pode comprometer o entendimento sobre os mecanismos de transmissão e prevenção dessas infecções. A menor escolaridade frequentemente se associa a renda reduzida, o que, por sua vez, pode influenciar negativamente nas condições de vida e no acesso aos serviços de saúde ( 51 ). No presente estudo, observou-se que 78,8% (238) das gestantes pertenciam à faixa de renda de até 1,9 salários mínimos. No entanto, não foram realizadas análises estratificadas por subgrupos econômicos menores, tampouco consideradas fontes de renda exclusivas de programas sociais.

Em relação à sintomatologia, 56,9% (37) das gestantes que testaram positivo para alguma IST estavam assintomáticas e, se avaliadas apenas pela abordagem sindrômica, não teriam sido diagnosticadas nem tratadas adequadamente, acarretando riscos para a saúde materna e fetal. Em contrapartida, 71 mulheres (30,0%) sem infecção e com sintomas sugestíveis de IST, sob abordagem sindrômica, seriam equivocadamente tratadas. Cenário semelhante foi descrito em estudo na África do Sul, onde 70% das gestantes HIV negativas e 76% das HIV positivas apresentavam IST sem manifestação clínica ( 24 ).

No Sul do Brasil, cerca de 59% das grávidas infectadas também eram assintomáticas ( 14 ). Já na República do Congo, observou-se que mulheres sem infecção apresentavam mais sintomas do que aquelas efetivamente infectadas, o que resultaria em tratamento desnecessário para 110 gestantes com exames negativos, enquanto 65% das infectadas permaneceriam sem tratamento por ausência de sinais clínicos ( 31 ).

No presente estudo, apesar da predominância de casos assintomáticos entre as gestantes positivas para IST, verificou-se associação estatisticamente significativa entre a presença de sintomas e a positividade para IST, alinhando-se com a literatura científica que aponta a presença de corrimento vaginal, dor à micção, dispareunia e outros sintomas ao aumento da probabilidade de infecção entre gestantes ( 39 , 52 ). Neste estudo, a presença de sintomatologia aumentou duas vezes a chance de infecção por CT ou de pelo menos uma IST.

A juvenilização das infecções, relatada em muitos estudos ( 14 , 22 , 35 , 53 ), também foi observada nesta pesquisa. Ter idade entre 15 e 24 anos aumentou em duas vezes a chance de ter IST, e em cinco vezes a positividade de infecção por CT que acometeu 22,6% das mulheres na faixa etária de 15 a 24 anos. Nos EUA, a prevalência de CT foi de 7,4% em puérperas no Centro do Alabama e quase duplicou (14,6%) quando estratificado por idade inferior a 25 anos ( 53 ). No Canadá, as gestantes apresentaram prevalência de CT baixa (2,0%), no entanto, elevou-se para 9,8% entre as menores de 25 anos ( 35 ). Na Holanda, grávidas na faixa etária de 18 a 30 anos obtiveram prevalência de CT de 1,8%, e 12,5% entre aquelas com até 20 anos ( 22 ). No Sul do Brasil, a positividade geral de CT foi 9,0%, e 16,0% entre gestantes com 18 a 24 anos ( 14 ).

A literatura aponta que a idade da gestante inferior a 25 anos é a principal preditora para infecção por CT em várias populações no mundo ( 22 , 27 , 30 , 35 , 53 - 54 ). A ectopia cervical, condição comum em mulheres jovens sexualmente ativas, também tem sido associada ao aumento da susceptibilidadae às infecções por CT ( 55 - 58 ).

Em relação à vulnerabilidade às IST, características sociais e de gênero ocasionam a baixa percepção de risco. A existência de parceiro fixo e relacionamento estável causam às mulheres sensação de proteção, associando as IST a comportamento sexual promíscuo. Além disso, a dificuldade de negociar o uso do preservativo em decorrência de questões sociais e econômicas expõem ainda mais as mulheres às IST ( 59 - 60 ).

Os resultados encontrados evidenciam que não ter parceiro, ou tempo de relacionamento de até um ano, aumenta em duas vezes a chance de infecção por CT e em 13 vezes por NG. Em outro estudo brasileiro, o tempo de relacionamento inferior a um ano esteve associado ao aumento da chance de infecção por CT/IST ( 14 ). No Japão, um estudo demonstrou associação entre ausência de parceiro e infecção por CT ( 54 ).

Por outro lado, outros autores relatam que ter tido dois ou mais parceiros no último ano foi a principal associação com a positividade para CT ( 16 ), e também esteve associado à infecção por NG ( 19 ). Aqui, a existência de dois ou mais parceiros nos últimos 12 meses esteve associada à maior chance de infecção por MG, em quase quatro vezes. Essa associação também foi relatada em um estudo de revisão com mulheres sexualmente ativas ( 40 ). O cenário das relações afetivas-sexuais revela que o uso de preservativo não parece ser uma escolha consistente, independente do tempo de relacionamento e do número de parcerias sexuais.

Em relação a infecções em grávidas cujo parceiro possui histórico de prisão, observa-se seis vezes mais chance de infecção por CT. Em investigação conduzida com mulheres parceiras de detentos das três maiores unidades prisionais do estado do Paraná, a partir de informações autorreferidas quanto ao diagnóstico médico atual e/ou prévio de qualquer IST, verificou-se uma prevalência de 41,2% ( 61 ). Embora elevado, esse percentual pode representar uma estimativa conservadora da real magnitude do problema, uma vez que as participantes não foram submetidas a exames laboratoriais para detecção de IST durante a coleta de dados, e estas poderiam cursar com infecções assintomáticas, impossibilitando o diagnóstico com base na percepção individual.

Ainda que o relacionamento com parceiro apenado pareça aumentar a vulnerabilidade de mulheres às IST, não foram encontrados outros estudos que descrevam a associação com mulheres grávidas. Assim, pesquisas futuras devem aprofundar a investigação da situação prisional do parceiro com a positividade para IST em grávidas.

Supõe-se que o consumo de álcool e/ou outras drogas pode comprometer a capacidade de julgamento, reduzindo a percepção dos riscos associados ao comportamento sexual, como a não utilização de preservativos, o que favorece a exposição às IST. Nesta pesquisa, o uso de álcool e de substâncias ilícitas não injetáveis mostrou-se como fator preditivo para infecção por MG e NG, respectivamente. A ingestão de bebidas alcoólicas está associada a um aumento de três vezes na probabilidade de infecção por MG, enquanto o uso de drogas como maconha e/ou cocaína eleva em 31 vezes a chance de infecção gonocócica. Em outro estudo, apesar da maior prevalência de NG entre gestantes usuárias de drogas injetáveis (4,6%) em comparação às não usuárias (1,4%), a associação não foi estatisticamente significante ( 19 ). Outra pesquisa apontou três vezes maior positividade para NG entre gestantes que consumiam álcool ( 62 ). Não foram identificadas evidências na literatura que explorem diretamente a relação entre o uso de álcool ou outras drogas e a infecção por MG ( 40 , 42 - 44 ).

Outro achado relevante do presente estudo foi a associação entre a infecção por MG e a ausência do exame citopatológico do colo uterino. Constatou-se que 42 gestantes (13,9%) nunca haviam realizado o exame de Papanicolau. A não realização periódica desse exame, conforme recomendado pelas diretrizes de saúde pública, pode indicar barreiras de acesso aos serviços de saúde ou falhas na organização da Atenção Primária à Saúde (APS), a qual, muitas vezes, adota um modelo centrado na demanda espontânea. Nesse contexto, a iniciativa de procurar o serviço recai sobre a própria mulher, seja para prevenção, detecção precoce ou promoção da saúde, deixando mais vulneráveis aquelas com menor acesso e vínculo com os serviços de saúde, diminuindo a probabilidade de receber diagnóstico e tratamento oportuno para IST.

Este estudo se diferencia por investigar a prevalência de IST curáveis entre gestantes acompanhadas na APS. A maioria das pesquisas internacionais sobre os patógenos CT, NG, MG e TV concentra-se em populações específicas, como pessoas atendidas em serviços especializados para IST, indivíduos sintomáticos, ou que vivem com HIV. Há escassez de estudos que incluam como população-alvo gestantes em acompanhamento de rotina no pré-natal nas unidades básicas de saúde, independentemente de sintomatologia, ou histórico de IST, o que torna este perfil um importante proxy da população geral.

A utilização, neste estudo, de métodos laboratoriais que detectam os quatro agentes infecciosos a partir de uma única amostra garantiu maior efetividade no diagnóstico, tratamento adequado; e permite identificar infecções em gestantes assintomáticas que, em contextos onde o manejo é exclusivamente sindrômico, não seriam diagnosticadas, aumentando o risco de desfechos gestacionais e neonatais adversos, amplamente descritos na literatura ( 4 , 8 , 39 , 63 ).

Na atual política pública de saúde brasileira, a triagem pré-natal no SUS contempla exames para sífilis, HIV e hepatites virais ( 64 ), porém não inclui testes moleculares para os agentes etiológicos analisados neste estudo. A elevada frequência de IST curáveis identificada reforça a necessidade de ampliar o escopo dos exames oferecidos às gestantes com o intuito de evitar complicações no período gestacional e neonatal.

Embora os dados desta pesquisa tenham evidenciado maior prevalência de IST em mulheres com menos de 25 anos, com sintomas, sem companheiro ou com menor duração de relacionamento, recomenda-se a disponibilização universal desses exames para todas as gestantes. Essa abordagem pode ser mais eficaz, tanto em termos clínicos quanto econômicos, ao prevenir complicações futuras que gerariam maiores custos ao sistema de saúde.

Adicionalmente, observou-se elevada aceitação do rastreamento por parte das participantes. Estratégias seletivas, baseadas em marcadores sociais e comportamentais, além de apresentarem risco de estigmatização de subgrupos considerados de maior risco, podem reduzir a adesão ao cuidado. Assim, a oferta universal durante as consultas de pré-natal se mostra como a estratégia mais apropriada, viabilizando a detecção precoce das infecções, o tratamento oportuno das gestantes e de seus parceiros, contribuindo para a interrupção da cadeia de transmissão.

Não foi observada associação estatisticamente significativa entre IST e variáveis como histórico de aborto espontâneo, estado civil, renda familiar e número de parceiros sexuais ao longo da vida. Entre as limitações do estudo, destacam-se a ausência de estratificação de renda inferior a 1,9 salários mínimos, a não coleta de dados sobre recebimento de benefícios sociais, a falta de informações sobre o uso de preservativos e a impossibilidade de seguimento longitudinal das participantes para avaliar desfechos perinatais adversos.

Em contrapartida, o estudo apresentou particularidades importantes, ao descrever a prevalência e os fatores associados à infecção pelos quatro patógenos curáveis em gestantes de uma capital nordestina; ao incluir participantes de todos os distritos sanitários da cidade de Salvador, ampliando a representatividade da amostra; ao excluir gestantes com histórico de uso de antibióticos nos três meses anteriores, o que reduziu o risco de resultados falso-negativos; e ao empregar testes diagnósticos reconhecidos pela alta sensibilidade. Esses achados colaboram para dar maior visibilidade às IST curáveis no período gestacional e podem subsidiar o desenvolvimento de políticas públicas voltadas ao rastreamento e controle dessas infecções entre mulheres grávidas.

Conclusão

Os achados do presente estudo retratam a alta prevalência de IST não virais curáveis em gestantes, sobretudo entre as mulheres jovens, e está associada às características sociodemográficas e comportamentais.

O estudo evidencia a necessidade de ações de educação em saúde voltadas à prevenção de IST, o que possibilitaria à mulher mais conhecimento, maior capacidade de decisão e mudanças de comportamento, como maior adesão ao uso do preservativo. Este estudo se diferencia pela especificidade dos locais de estudo, da população estudada e traz a importância da atuação dos profissionais da APS para melhoria da saúde global das gestantes.

Considerando a morbimortalidade de gestantes e neonatos em consequência dessas infecções não tratadas durante o período gestacional, há necessidade de políticas públicas de saúde que incorporem, na Atenção Primária, um programa de rastreamento de IST curáveis para todas as gestantes, disponibilizando aconselhamento, tratamento, prevenção, estímulo ao autocuidado, empoderamento feminino, discussões sobre questões de gênero e aspectos sociais que aumentam a vulnerabilidade das mulheres às IST.

Recomenda-se que sejam realizados outros estudos epidemiológicos nacionais para ampliar o conhecimento da prevalência e dos fatores de riscos para IST curáveis, e também dos resultados adversos maternos e fetais que não estão plenamente elucidados. Espera-se que esta pesquisa possa subsidiar a elaboração de protocolos de triagem de IST não virais na atenção pré-natal.

Agradecimentos

Agradecemos às enfermeiras da Atenção Primária à Saúde pela colaboração na fase da coleta de dados; a Leilane Grazziela Nascimento Almeida pela conferência e digitação dos questionários; a Olivete Borba dos Reis e Eneida Alves dos Santos pela logística do transporte e acondicionamento das amostras coletadas no Laboratório Central de Salvador; a Maria Luiza Bazzo e Marcos Schörner pela análise laboratorial das amostras coletadas e disponibilização dos resultados e a Angélica Espinosa Barbosa Miranda pelas valorosas contribuições como membro externo da banca examinadora da defesa da dissertação de mestrado.

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  • Declaração de Disponibilidade de Dados
    Todos os dados gerados ou analisados durante este estudo estão incluídos neste artigo publicado.
  • *
    Artigo extraído da dissertação de mestrado “Infecções sexualmente transmissíveis não virais em gestantes do município de Salvador: prevalência e fatores associados”, apresentada à Universidade do Estado da Bahia, Salvador, BA, Brasil. Apoio financeiro do Ministério da Saúde e Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), processo nº 22021/SCON2021-00018, Brasil.
  • Como citar este artigo
    Souza DS, Figueiredo MAA, Travassos AGA. Non-viral Sexually Transmitted Infections in pregnant women in Primary Care: prevalence and associated factors. Rev. Latino-Am. Enfermagem. [cited]. Available from: https://doi.org/10.1590/1518-8345.7592.4695

Editado por

  • Editor Associado:
    Omar Pereira de Almeida Neto

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Dez 2024
  • Aceito
    27 Maio 2025
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