A produção de um artigo científico é um processo complexo e depende de vários elementos inter-relacionados, envolvendo os autores, o conteúdo do texto elaborado, o periódico selecionado, o processo de editoração sob a responsabilidade da equipe de secretaria da revista e dos editores e o produto final, a publicação propriamente dita. O presente editorial relata a experiência de alguns editores com os artigos científicos da área de conhecimento de Enfermagem.
A decisão dos autores de elaborar um texto científico para a submissão a um periódico inicia o processo. Para a redação desse texto buscam, além da originalidade na construção do objeto do estudo, a utilização de guidelines, com o objetivo de aumentar o potencial de publicação, auxiliando na produção de textos mais precisos para dar suporte à reprodutibilidade e à utilidade do estudo realizado(1); além disso, deve-se ter uma análise estatística acurada nos estudos quantitativos(2) e os pressupostos ancorados em referenciais epistemológicos para estudos qualitativos e mistos(3-4).
Cabe aos autores, também, as providências de ordem técnica, porém não menos trabalhosas, tais como o pagamento de taxas e a submissão do manuscrito com a inclusão dos documentos exigidos pelo periódico selecionado. Após esse processo, a espera pelo retorno dos pareceres, por vezes longa, pode lhes provocar angústia e estresse; para a equipe da secretaria, resulta em demandas relacionadas ao acompanhamento do fluxo dos manuscritos, conferindo os links necessários caso seja a exigência da revista, o número de páginas, a afiliação dos autores, entre outras questões e o texto é, em geral, inserido no sistema informatizado adotado pelo periódico. Esta etapa pode ser mais ou menos demorada, dependendo do cumprimento de todas as exigências, uma vez que o manuscrito pode retornar aos autores para ajustes de normas e completude de documentos.
Quando o manuscrito atende às normas do periódico e a documentação está completa, ele é encaminhado aos editores principais [em geral Editor Científico Chefe (ECC) e/ou seu suplente] que, após análise sobre a relevância do tema; avanço na prática clínica, ensino, gestão e políticas públicas; originalidade; coerência interna e rigor metodológico; principais resultados e conclusões, decidem se o manuscrito continuará, ou não, no processo de avaliação. Esta etapa também exige um tempo maior de análise, inclusive para submeter o texto a um software revisor de similaridades, buscando identificar plágios e/ou sua possível reciclagem.
Após o cumprimento das etapas anteriores, o texto científico é encaminhado a um dos Editores Associados (EA) do periódico. Nesta etapa, atentando-se às questões da ciência aberta(5-6), em geral os autores já tomam conhecimento de quem é o EA designado para acompanhar a tramitação do artigo. O EA analisa o texto científico e encaminha-o aos revisores cadastrados no banco de dados de avaliadores e, em geral, seleciona três pareceristas cadastrados, obedecendo sempre à seguinte lógica: o avaliador é especialista no tema e/ou no método adotado no texto. Além desses avaliadores, são igualmente selecionados três outros suplentes, obedecendo à mesma lógica para esta seleção. A depender da característica do texto científico, pode-se, também, enviá-lo a um profissional de estatística, geralmente vinculado ao periódico. Os cuidados dos editores em relação ao texto submetido incluem, também, a conferência em bases de registro como, por exemplo, as exigidas aos ensaios clínicos, a identificação da veracidade da declaração do Comitê de Ética em Pesquisa, o reconhecimento do seguimento das boas práticas em pesquisa, entre outros aspectos. Esta etapa requer tempo e cuidadosa revisão, pois uma série de problemas pode comprometer o tempo de avaliação.
Quando o manuscrito retorna ao EA, ele geralmente coloca no sistema o seu parecer, acrescido ou não da avaliação estatística e/ou de caráter qualitativo, avalia as observações e comentários dos pareceristas, coloca a sua avaliação final e devolve todos os textos ao ECC, para a reconfirmação de sua decisão. Após esta segunda avaliação do ECC, o texto é reenviado aos autores com todas as sugestões e/ou rejeitado. Caso seja reenviado, o periódico delimita o número de dias para a devolução e aguarda a resposta dos autores. O retorno do manuscrito com as sugestões acatadas e/ou justificadas é novamente reavaliado pelo EA e reenviado aos pareceristas para a constatação de sua adequação. Ao final, após a manifestação dos avaliadores, o texto retorna ao EA, que recomenda (ou não) ao ECC a sua publicação.
Caso seja aprovado, o texto deve ser submetido à certificação do idioma de submissão e traduzido para os outros idiomas, conforme as normatizações do periódico.
Embora os autores, o periódico e o processo de editoração tenham responsabilidades claras, conforme foi mencionado, vários fatores podem comprometer esse processo e alargar o prazo previsto. Entre eles estão a desistência dos autores de reenviar o manuscrito sem aviso prévio, reformulações extensas do texto, atrasos na ressubmissão e desacordo com as avaliações dos revisores, do EA e/ou do ECC, o que pode levar às réplicas.
Apesar da maioria dos periódicos possuir bancos de dados com os nomes dos revisores e/ou ter como consultar uma lista de experts - por exemplo por meio do Web of Science Reviewer Recognition Service -, muitas vezes há dificuldades de encontrar-se um desses especialistas para fazer a revisão. A avaliação por pares pressupõe credibilidade, bem como contribuição com os autores; alguns dos desafios da revisão relacionam-se aos riscos de viés, demanda de longo tempo para avaliar e a qualidade da avaliação. Para selecionar revisores, é importante adotar uma estratégia de diversificação desses especialistas e ter um banco de dados de revisores confiáveis(7).
Ocasionalmente, os revisores selecionados não fazem a revisão, declinando desta tarefa por numerosas razões. Tal condição atrasa e muito o processo de tramitação do texto científico no periódico. Cabe lembrar aos autores que seus manuscritos precisam de revisores e eles precisam também ter disponibilidade para avaliação de manuscritos de outros pesquisadores. Ainda, há os aspectos relacionados a estes avaliadores que às vezes querem impor a sua análise e o seu estilo no texto avaliado. Atrasos no processo todo muitas vezes ocorrem em decorrência de atividades simultâneas dos revisores; às vezes acontece, também, que distintos editores podem sobrecarregar um único revisor, enviando mais que um texto científico para sua avaliação.
Outros aspectos gerais que demandam atenção são, por vezes, a submissão do texto científico ao periódico com falhas gramaticais, discordantes da linguagem culta exigida a um artigo científico, o que costuma ser pontuado pelo editor. Outra questão refere-se ao objetivo do estudo, havendo discrepâncias na redação do objetivo do resumo em relação ao do corpo do texto. Quanto à conclusão que deve remeter ao alcance do objetivo, constata-se, muitas vezes, que ela não permite ao leitor conhecer se o objetivo foi (ou não) alcançado. Um outro problema observado é que os autores, responsáveis pelos seus textos, costumam não realizar a conferência das versões finais aprovadas, que podem retornar com equívocos. Eles encaminham o artigo aprovado às empresas de tradução recomendadas pelos periódicos, mas nem sempre têm o hábito de conferir o que lhes foi devolvido. Esse fato favorece uma morosidade em todo o sistema, que fica no aguardo da versão final correta para efetivar a publicação.
Identifica-se que, em processos de editoração de artigos, falhas podem ocorrer em todas etapas, o que amplia o tempo entre a submissão e a publicação dos artigos, comprometendo o índice de imediatez do periódico.
Na ciência da Enfermagem, urge que tenhamos cada vez mais artigos valiosos, robustos, que mereçam ser lidos e tenham repercussões positivas na comunidade acadêmica em geral. Para isso, também, necessitamos ter um processo ágil, mas sem erros, com a ativa e consciente participação dos autores, secretaria técnica, revisores e editores, neste importante processo de divulgação do conhecimento.
Referências bibliográficas
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» https://www.equator-network.org/about-us/equator-network-what-we-do-and-how-we-are-organised/ - 2. Fávero LP, Belfiore P. Manual de Análise de Dados: Estatística e Machine Learning com Excel®, SPSS®, Stata®, R® e Python®. 2. ed. Barueri: Editora GEN LTC; 2024. 1288 p.
- 3. Paula MC, Ramos MG, Lima VMR. Métodos de Análise em Pesquisa Qualitativa. 1. ed. Porto Alegre: Editora EdiPUCRS; 2019. 293 p.
- 4. Creswell J, Clark VLP. Pesquisa de métodos mistos. 2. ed. Porto Alegre: Penso; 2013. 288 p.
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5. Heinz M, Miranda A. Ciência Aberta: argumentos e desafios para sua legitimação científica. Em Quest. 2024;30:e-135618. https://doi.org/10.1590/1808-5245.30.135618
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6. Silva FCC, Silveira L. O ecossistema da Ciência Aberta. Transinformação. 2019;31:e190001. https://doi.org/10.1590/2318-0889201931e190001
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7. Pinto JMS, Carmo ACF. Compartilhamento de experiências na gestão de periódicos. In: 7th ABEC Meeting [Internet]; 2023 Nov 21-23; Foz do Iguaçu, PR. Botucatu: ABEC Brasil; 2024 [cited 2024 July 30]. Available from: https://www1.abecbrasil.org.br/painel/uploads/www/eventos/00070/23-11-Workshop-Juliana-Maria-de-Sousa-Pinto.pdf
» https://www1.abecbrasil.org.br/painel/uploads/www/eventos/00070/23-11-Workshop-Juliana-Maria-de-Sousa-Pinto.pdf
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Como citar este artigo
Robazzi MLCC, Lima RAG, Zanetti ML, Galera SAF. Scientific publishing in nursing: the role of authors, the journal and the publishing process. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2025;33:e4572 [cited]. Available from: . https://doi.org/10.1590/1518-8345.0000.4572








