Resumo
Objetivo: analisar as propriedades psicométricas da versão brasileira do Incivility in Nursing Education - Revised survey com estudantes de graduação em enfermagem.
Método: estudo metodológico, realizado em uma escola de enfermagem paulista. Trata-se da análise das propriedades psicométricas (fidedignidade e validade de construto) dos itens do INE-R survey - versão brasileira. A validade de construto foi realizada por Análise Fatorial Confirmatória e a fidedignidade pelo teste-reteste, para verificação da estabilidade do instrumento, calculada pelo Coeficiente de Correlação Intraclasse e por meio da consistência interna dos itens, segundo os coeficientes alfa de Cronbach, alfa ordinal e ômega de McDonald.
Resultados: houve ajuste ao modelo proposto da análise fatorial confirmatória com dois fatores (baixa e alta incivilidade), com sugestão de exclusão de um item para estudantes. A maioria dos valores de ajustes para os itens dos estudantes e a totalidade para os professores atenderam às referências estabelecidas pela literatura; os valores para os Coeficientes de Consistência Interna foram maiores que 0,80 e os Coeficientes de Correlação Intraclasse, maiores que 0,75.
Conclusão: a versão brasileira do Incivility in Nursing Education - Revised Survey encontra-se validada para o contexto estudado, apresentando fidedignidade satisfatória e validade, pela análise fatorial, que confirmou o modelo original com dois fatores, com 23 itens retratando comportamentos de estudantes e 24, de professores.
Descritores:
Enfermagem; Incivilidade; Estudos de Validação; Educação; Estudantes de enfermagem; Professores
Destaques: (1) A incivilidade é um fenômeno global e crescente no ensino superior. (2) O ambiente incivil interfere na aprendizagem e nos indicadores de saúde. (3) Apresenta-se um survey validado para medir a incivilidade no ensino de enfermagem.
Abstract
Objective: to analyze the psychometric properties of the Incivility in Nursing Education - Revised Survey - Brazilian version with undergraduate nursing students.
Method: methodological study conducted in a nursing school in São Paulo state. It is the analysis of the psychometric properties (reliability and construct validity) of the items in the INE-R survey - Brazilian version. Construct validity was performed by Confirmatory Factor Analysis, and reliability by test-retest in order to verify the instrument’s stability, as calculated by the Intraclass Correlation Coefficient and the Internal Consistency of the items according to Cronbach’s alpha, ordinal alpha and McDonalds’s omega coefficients.
Results: Confirmatory Factor Analysis fitted the proposed model with two factors (low and high incivility), with a suggestion to exclude one of student items. Most of the fitting values for the student items and all of the faculty-member items complied with the references established in the literature; the values for Internal Consistency Coefficients were greater than 0.80, and Intraclasss Correlation Coefficients were greater than 0.75.
Conclusion: the Brazilian version of the Incivility in Nursing Education - Revised Survey is validated for the studied context, as it has shown satisfactory reliability and validity by means of factor analysis, which has confirmed the original two-factor model, with 23 items addressing student behaviors and 24 items applied to faculty behaviors.
Descriptors:
Nursing; Incivility; Validation Studies; Education; Students, Nursing; Teachers
Highlights: (1) Incivility is a global and growing phenomenon in higher education. (2) An uncivil environment interferes with learning and health indicators. (3) A validated survey to measure incivility in nursing education is presented.
Resumen
Objetivo: analizar las propiedades psicométricas de la versión brasileña del Incivility in Nursing Education - Revised Survey con estudiantes de graduación en enfermería.
Método: estudio metodológico, realizado en una escuela de enfermería del estado de São Paulo. Se trata del análisis de las propiedades psicométricas (confiabilidad y validez de constructo) de los ítems del INE-R Survey - versión brasileña. La validez de constructo fue realizada por Análisis Factorial Confirmatorio y la confiabilidad por el test-retest, para verificación de la estabilidad del instrumento, calculada por el Coeficiente de Correlación Intraclase y por medio de la consistencia interna de los ítems, según los coeficientes alfa de Cronbach, alfa ordinal y omega de McDonald.
Resultados: hubo ajuste del modelo propuesto del análisis factorial confirmatorio con dos factores (baja y alta incivilidad), con sugerencia de exclusión de un ítem para estudiantes. La mayoría de los valores de ajustes, para los ítems de los estudiantes y la totalidad para los profesores, atendió las referencias establecidas por la literatura; los valores para los Coeficientes de Consistencia Interna fueron mayores que 0,80 y los Coeficientes de Correlación Intraclase mayores que 0,75.
Conclusión: la versión brasileña del Incivility in Nursing Education - Revised Survey se encuentra validada para el contexto estudiado, presentando confiabilidad satisfactoria y validez, por el análisis factorial que confirmó el modelo original con dos factores, con 23 ítems, retratando comportamientos de estudiantes y 24 de profesores.
Descriptores:
Enfermería; Incivilidad; Estudios de Validación; Educación; Estudiantes de Enfermería; Maestros
Destacados: (1) La incivilidad es un fenómeno global y creciente en la enseñanza superior. (2) El ambiente incivil interfiere en el aprendizaje y en los indicadores de salud. (3) Presentamos una survey validada para medir la incivilidad en la enseñanza de enfermería.
Introdução
Por mais de quatro décadas, o ambiente do ensino superior, incluindo-se o da Enfermagem, tem sido cenário de comportamento incivil, isto é, comportamento que não atende ao cumprimento de regras sociais para a convivência social1. Incivilidade é qualquer comportamento que atrapalhe o processo de aprendizagem e interfira no ambiente de aprendizagem cooperativa.
Algumas vezes descrita como abuso do poder sobre outros2, a incivilidade pode ser expressa por comportamentos direcionados a outra pessoa, desde formas menos agressivas, como insultos, desacordos e conflitos, ou por formas mais sérias de comportamentos agressivos, tal como a violência física entre indivíduos. A incivilidade pode também representar qualquer diálogo, interação ou atitude que atinge desfavoravelmente o bem-estar de estudantes ou docentes, enfraquecendo as relações profissionais, bloqueando o processo de ensino-aprendizagem e interferindo na qualidade da saúde física e mental3.
Se permitidos, os comportamentos incivis podem suscitar um processo em cadeia, no qual geram-se cada vez mais incivilidades. Nesse sentido, professores, tutores e gestores acadêmicos devem ser aptos a reduzir esses comportamentos nos distintos ambientes educacionais, evitando que incivilidades impactem negativamente as relações e o aprendizado, tanto teórico como prático, comprometendo a formação do futuro enfermeiro4)-(5.
A presença de incivilidade, tanto no ambiente de ensino como no de prática de enfermagem, é um fenômeno global6, constatado por estudos realizados em distintas culturas, como no Irã7)-(8, Emirados Árabes6, Afeganistão9, Canadá10, Itália11, China12, Indonésia13, Coreia14, Turquia15 e Estados Unidos da América16)-(17, dentre outros. Embora global, um estudo multicêntrico recente, com docentes de enfermagem de 10 países, identificou ser este um fenômeno percebido diferentemente entre os países que participaram do estudo18.
Os atos incivis, ou outras formas de agressão, ocorrem tanto nas relações presenciais como nas relações virtuais, que frequentemente tratam das comunicações em redes sociais ou atividades acadêmicas remotas. Na enfermagem, observou-se o crescimento de comportamentos incivis no ensino online19. Trata-se de um processo complexo e multidirecional em que estudantes, professores e preceptores podem contribuir para um clima de desrespeito, um pelo outro ou pelo processo de aprendizagem, empregando comportamentos relacionados ao gênero20, o não comparecimento às aulas21, respostas desnecessárias22 e atos impulsivos e agressivos exibidos online23, dentre outros.
Estudos apontam a correlação positiva entre estresse e comportamentos de incivilidade4),(23)-(24. Na vigência da pandemia de COVID-19, um período em que aulas remotas foram potencializadas, pesquisas reportaram o aumento de estresse, ansiedade e depressão referidos por estudantes de enfermagem16.
Como destacado no modelo conceitual de incivilidade em educação de enfermagem25, a partir da percepção da presença de comportamentos incivis, sobretudo de professores, os estudantes respondem com a possibilidade de se manterem na instituição e se conformarem conforme esperado (loyalty), de desafiarem o status quo e se esforçarem para mudar tais comportamentos na instituição (voice), ou de deixarem a escola (exit). As respostas emocionais, expectativas e decisões são dependentes do suporte que o estudante venha a receber, o que contribuirá para o sucesso da conclusão do curso25.
As quebras das normas acordadas para o ambiente escolar, presencial ou remoto, pelos estudantes ou professores, agridem o processo de ensino-aprendizagem e devem ser identificadas, assim como seus fatores causais, para que possam ser manejadas e enfrentadas.
Um dos instrumentos criados para medir comportamentos não civis é o Incivility in Nursing Education Survey (INE). Ao construir o INE e em suas sucessivas revisões, a autora buscou identificar as percepções de estudantes e profissionais sobre os comportamentos que representariam a amplitude do fenômeno incivilidade. Estudos desenvolvidos em distintas culturas ou com profissionais e estudantes de diferentes tipos de programas de enfermagem apontam similaridades nesses comportamentos. Evidências usadas para desenvolver e revisar o INE-R3 descrevem a base para inclusão de comportamentos específicos de estudantes e professores. Tais comportamentos retratam um continuum, denominado Continuum of Workplace Aggression26, que caracteriza uma estrutura confiável com uma série de comportamentos incivis, compreendendo desde comportamentos disruptivos ou de baixo nível de incivilidade até comportamentos mais sérios, como violência física ou tragédias. Quando relacionados aos estudantes, tais comportamentos contemplam distrações ou desrespeitos em sala de aula, desrespeito pelo outro ou, ainda, desinteresse geral pela aula27.
O INE-R, desenvolvido em 2004, é composto pela definição de incivilidade, por dados de identificação do respondente, por um conjunto de itens em que constam os comportamentos incivis praticadas por professores e por outro conjunto de itens com comportamentos incivis praticados pelos estudantes, além de questões avaliativas. O processo de elaboração do INE e os de suas revisões estão descritos na literatura28)-(29. Em 2014 o INE-R original foi revisado e renomeado como Incivility in Nursing Education - Revised (INE-R) Survey, no qual alguns itens foram revisados e duas questões adicionadas com espaços em branco para o registro discursivo sobre as experiências dos respondentes com incivilidade acadêmica e modos de prevenir e enfrentar o problema. A versão INE-R foi validada entre estudantes e professores de enfermagem norte-americanos e obteve resultados adequados de sua estrutura e fidedignidade3),(7.
O INE-R3 foi também validado com estudantes coreanos14 e árabes30 e, diante dos êxitos das investigações que o empregaram e da importância de se ter instrumento válido e confiável para se medir comportamentos incivis, figurou como objeto do presente estudo, cujo objetivo foi analisar as propriedades psicométricas da versão brasileira do Incivility in Nursing Education - Revised Survey com estudantes de graduação em enfermagem.
Método
Tipo de estudo, local e período
Estudo metodológico, referente às etapas de verificação da validade segundo análise da estrutura fatorial e da fidedignidade, realizado em uma instituição pública de ensino superior em enfermagem de uma cidade do interior do estado de São Paulo, Brasil, de junho de 2021 a março de 2022. Preliminarmente à etapa do estudo ora descrita, procedeu-se à adaptação cultural e a avaliação semântica do INE-R31.
Participantes e critérios de seleção
Foram convidados para participar do estudo todos os estudantes de graduação (n= 440) em enfermagem regularmente matriculados na instituição, exceto os do primeiro ano letivo, considerando-se que os participantes deveriam ter previamente pelo menos 12 meses de vivência no curso para responderem ao INE-R3. Dos elegíveis, isto é, todos estudantes do curso de graduação, exceto os do primeiro ano, 60% aceitaram participar do estudo. Não houve solicitação de desistência durante o preenchimento do instrumento.
Coleta de dados e instrumentos utilizados
O recrutamento e a coleta de dados foram realizados após a aquiescência da instituição e do colegiado responsável pelo ensino de graduação. O convite e o fornecimento do consentimento informado e dos instrumentos de coleta foram feitos por uma das autoras a cada estudante, durante os intervalos das atividades acadêmicas. Nessas ocasiões, foram informados de que poderiam ser sorteados para a fase de pós-teste, prevista para ocorrer aproximadamente em 15 dias, conforme recomendações da literatura32.
Na sequência, cada estudante preencheu o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e, a seguir, o INE-R Survey - versão brasileira, individualmente, na presença do pesquisador. Para a análise da estabilidade do instrumento, 60 estudantes foram sorteados para responderem novamente o survey.
O original INE-R Survey3) é autoaplicável, organizado em seções, iniciando pela conceituação de incivilidade e de ambiente acadêmico, seguindo-se dos dados demográficos do respondente (estudante ou professor), que serão determinados a critério do estudo em desenvolvimento, tais como gênero, idade, origem étnica/racial, anos de formação, programa ao qual o respondente pertence, posição/cargo do docente ou semestre letivo do estudante, dentre outros. No presente estudo foram considerados a idade, as identidades de gênero e étnico-racial e o semestre letivo do respondente.
A seção seguinte apresenta uma lista de 48 itens divididos em dois grupos, sendo um com 24 itens relativos a comportamentos de estudantes e outro com 24 itens relacionados a comportamentos de professores. Ambos apresentam dois fatores - alta incivilidade e baixa incivilidade - compostos por nove e quinze itens, respectivamente. Cada item é avaliado por uma escala Likert que corresponde ao nível de incivilidade que o comportamento representa ao respondente, com alternativas entre 1 e 4, a saber: não incivil; pouco incivil, moderadamente incivil e altamente incivil. Cada item também é avaliado quanto à frequência do comportamento nos últimos 12 meses, com quatro alternativas de respostas (escala de 1 a 4) correspondendo respectivamente a: nunca; raramente; às vezes e frequentemente. Duas questões completam a segunda sessão, abordando como o respondente percebe a magnitude do fenômeno na instituição (avaliada dentre quatro alternativas, desde não é problema até ser problema muito sério) e como cada respondente percebe a probabilidade de participação de professores e estudantes em atos incivis (avaliada com as alternativas: muito maior de professor, maior de professor, ambos, maior de aluno e muito maior de alunos)3.
A última seção apresenta um conjunto de questões e um espaço narrativo, para o respondente descrever situações, opinar sobre incivilidade na educação em enfermagem, comportamentos incivis de estudantes e professores, nível de civilidade na instituição, priorização de estratégias para elevar nível de civilidade, bem como causa e consequência de incivilidade acadêmica3.
Tratamento e análise dos dados
Os dados das diferentes variáveis foram inseridos, em dupla digitação, em uma planilha eletrônica do aplicativo Excel, constituindo um banco de dados estruturado. Para as variáveis semestre letivo, etnia e gênero, utilizou-se estatística descritiva; para a variável idade, como medida de tendência central, foram estabelecidas a média e a mediana, e como medida de dispersão, o desvio-padrão.
Foram realizadas as análises das propriedades psicométricas (fidedignidade e validade de construto) dos itens do INE-R Survey - versão brasileira. Preliminarmente, a normalidade dos dados foi verificada pelos valores absolutos de assimetria (Sk) e de curtose (Ku)33. A validade de construto foi realizada por Análise Fatorial Confirmatória e a fidedignidade pelo teste-reteste, para verificação da estabilidade do instrumento, calculada pelo Coeficiente de Correlação Intraclasse (ICC) e por meio da consistência interna dos itens, segundo coeficientes alfa de Cronbach, ordinal e ômega de McDonald32. A razão do número de participantes por número de itens do instrumento limitou outras análises.
A Análise Fatorial Confirmatória foi realizada pelo software R (R Core Team, 2021), versão 3.4.2, e uso do pacote Latent Variable Analysis (LAVAAN)34. Para estimação dos parâmetros foi utilizado o método de mínimos quadrados ponderados diagonalmente (Diagonally Weighted Least Squares - DWLS)35.
Em relação à análise da qualidade do ajuste do modelo, os índices de ajuste absoluto, índices de ajuste incremental e índices de discrepância populacional são tomados como alternativas para a verificação do ajuste35. O índice de discrepância populacional investigado foi a Raiz do Erro Quadrático Médio de Aproximação (Root Mean Square Error of Approximation - RMSEA), que estima se os parâmetros do modelo reproduzem a covariância populacional e nessas condições, o RMSEA tende a ser igual a zero. Também se avaliou a Raiz do Erro Quadrático Médio Residual (Standardized Root Mean Square Residual - SRMR), ou seja, a diferença padronizada entre a correlação observada e a prevista. Valores inferiores a 0,10 indicam ajustamento aceitável para RMSEA e inferiores a 0,08 são considerados aceitáveis para SRMR35.
Em relação aos índices de ajustes incrementais, foram utilizados o Índice de Ajuste Normalizado (Normed Fit Index - NFI), o Índice de Ajuste Comparativo (Comparative Fit Index - CFI) e o Índice de Tucker-Lewis (TLI). Os valores de NFI e CFI, assim como o TLI, podem estar entre zero e um e valores acima de 0,90 indicam um ajuste aceitável35.
Para analisar a confiabilidade, utilizou-se a consistência interna determinada pelo coeficiente alfa (α) de Cronbach. Tal indicador permitirá comparar os resultados obtidos com os demais estudos que validaram o instrumento. Complementarmente, também foram analisados os valores dos coeficientes alfa ordinal e ômega de McDonald (ω), para cada domínio do instrumento (alto e baixo nível de incivilidade) em cada grupo de itens (os relativos a comportamentos de estudantes e os de professores). Os valores de α de Cronbach, de alfa ordinal e ômega de McDonald variam entre zero e um e, neste estudo, valores iguais a ou maiores que 0,70 foram considerados aceitáveis32.
Para verificação da estabilidade da medida, procedeu-se ao teste-reteste com obtenção do Coeficiente de Correlação Intraclasse (ICC) à semelhança dos demais estudos que validaram esse instrumento. Nesta análise foi considerado o nível de significância de 5% (α= 0,05). Os valores do ICC entre 0,70 e 0,90 são considerados bons e os maiores que 0,90 são considerados excelentes32.
Aspectos éticos
Os participantes foram convidados, sendo-lhes assegurada total privacidade de suas informações. A pesquisa somente foi iniciada após a aprovação da Comissão de Ensino e do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEP), ambos da instituição na qual o estudo foi realizado (Parecer CEP: 3.635.814 e Certificado de Apresentação de Apreciação Ética-CAAE 18508919.4.0000.5393).
Resultados
Participaram do estudo 264 estudantes. Em relação às identidades de gênero e étnico-racial, 222 (84,1%) identificaram-se como mulheres, 40 (15,2%) como homens, um (0,4%) como ambos e outro (0,4%) como nenhum; 180 (68,2%) declararam-se brancos, 57 (21,6%) pardos, 22 (8,3%) pretos e 4 (1,5%) amarelos, enquanto 01 (0.4%) denominou-se indígena. Dos estudantes, 177 (67,0%) eram dos anos intermediários (terceiro ao sexto semestre letivo) e 87 (33,0%) eram dos anos concluintes (sétimo semestre em diante).
Os valores médios, respectivos desvios-padrão, assimetria (Sk) e curtose (Ku) dos níveis de incivilidade de comportamentos quando emitidos por estudantes e por professores, segundo os participantes (n = 264), estão apresentados na Tabela 1. Ao se considerarem os valores referentes à assimetria e curtose de cada item, estes são inferiores a três e sete, respectivamente, para todos os itens, comprovando a não violação da normalidade, pressuposto para realização da AFC.
Estatística descritiva (médias, desvio-padrão, assimetria e curtose) dos níveis de incivilidade de comportamentos quando emitidos por estudantes e por professores, segundo os participantes (n = 264). Interior do estado de São Paulo, Brasil, 2021-2022
Ao se considerarem os domínios, as médias do nível de incivilidade dos comportamentos de estudantes foram: Domínio Baixa Incivilidade = 2,76; dp = 0,53; Domínio Alta Incivilidade = 3,39, dp = 0,97; e para os professores foram: Domínio Baixa Incivilidade = 3,22; dp = 0,69; Domínio Alta Incivilidade = 3,58; dp = 0,89. A mediana dos itens de incivilidade atribuídos aos estudantes para o Domínio Baixa Incivilidade foi 3 e para o Domínio Alta Incivilidade foi 4; e a atribuída aos comportamentos de docentes para o Domínio Baixa Incivilidade foi 3; e para o Domínio Alta Incivilidade foi 4.
Em relação à frequência de comportamentos incivis nos últimos 12 meses, as médias e respectivos desvios-padrão para os itens relativos a comportamentos de docentes foram: Domínio Baixa Incivilidade = 2,04; dp = 0,49; Domínio Alta Incivilidade = 1,46, dp = 0,35; e para os relativos aos dos estudantes foram Domínio Baixa Incivilidade = 2,43, dp = 0,53; Domínio Alta Incivilidade = 1,54, dp = 0,49. As medianas, valores mínimos e máximos para todos os itens foram iguais para estudante e professores (mediana = 2; mínimo = 1; máximo = 4), baixa e alta incivilidade.
Na AFC, dentre os comportamentos de estudantes, todos os itens do Domínio Alta Incivilidade apresentaram cargas fatoriais elevadas, variando de 0,734 a 0,999. Para o Domínio Baixa Incivilidade, três itens (3, 4 e 8) apresentaram cargas variando de 0,304 a 0,396 e os demais demonstraram valores variando de 0,613 a 0,825, exceto os itens 1, 5 e 15 que apresentaram carga fatorial < 0,300. O item 1- expressar desinteresse, tédio ou apatia sobre o conteúdo do curso ou assunto - apresentou carga fatorial 0,149, IC[95%]: [0,105; 0,192]; o item 5- usar computador, celular ou outros dispositivos eletrônicos durante uma aula, reunião ou atividade para fins não relacionados - apresentou carga fatorial igual a 0,290, IC[95%]: [0,249; 0,332] ; e o item 15- exigir provas substitutas, extensões de prazos ou outros favores especiais - apresentou carga fatorial de 0,299; IC[95%]: [0,259; 0,338] (Tabela 2).
Quanto aos comportamentos de professores, a menor das cargas fatoriais dos itens foi 0,596 (item 18), que pertence ao Domínio Baixa Incivilidade, e as maiores (itens 20, 22, 23 e 24) pertencem ao Domínio Alta Incivilidade; portanto, todos os itens tiveram cargas fatoriais satisfatórias (Tabela 3).
A partir das estimativas pontuais e por intervalos das cargas fatoriais dos itens da versão brasileira do instrumento, sugere-se uma organização estrutural dos itens com dois fatores, alta incivilidade e baixa incivilidade, semelhante à estrutura original, com a exclusão do item 1 para os estudantes, que apresentou IC95% para a carga fatorial incluindo somente valores inferiores a 0,30.
Os resultados da Análise Fatorial Confirmatória em relação às cargas fatoriais dos itens relativos a comportamentos de estudantes, com a exclusão do item 1 para estudantes, estão apresentados na Tabela 4.
Frente aos resultados apresentados na Tabela 4, com a exclusão do item 1, e pelas justificativas anteriormente apresentadas, a opção foi pela manutenção de todos os demais 23 itens para os estudantes.
Para avaliação de construto, a partir da Análise Fatorial Confirmatória, as medidas adotadas de ajuste do modelo à população, testado para os itens que retratam comportamentos de estudantes e de professores, respectivamente, foram: Qui quadrado (χ2 = 815,609 e 491,440); Graus de Liberdade (GL= 229; 251); (χ2/GL = 3,56 e 1,96); p-valores (< 0,001; < 0,001); Índice de Ajuste Comparativo (CFI = 1,000; 1,000); Índice de Tucker-Lewis ou Índice de Ajuste Não Normalizado (TLI = 1,000; 1,000); Índice de Ajuste Normalizado (NFI =1,000; 1,000); Raiz do Erro Quadrático Médio de Aproximação (RMSEA = 0,092; 0,044); Intervalo com 95% de Confiança para RMSEA (0,083; 0,101) e (0,035; 0,055) e Raiz do Erro Quadrático Médio Residual (SRMR = 0,107; 0,053). A maioria dos índices para estudantes e todos os índices para os professores indicam um ajustamento aceitável.
As representações dos Domínios Baixa Incivilidade e Alta Incivilidade e de seus itens do INE-R - versão brasileira, com suas respectivas cargas fatoriais, da Análise Fatorial Confirmatória, estão apresentadas na Figura 1. A estrutura é apresentada para professores, conforme proposto no modelo original do instrumento, e para estudantes, respeitadas as justificativas constantes na discussão sobre os itens.
Diagramas de caminhos dos Domínios Baixa incivilidade e Alta incivilidade do Incivility in Nursing Education - Revised Survey versão brasileira, considerando-se a estrutura fatorial original. Interior do estado de São Paulo, Brasil, 2021-2022
*It =itens; †BxInv = Baixo nível de incivilidade; ‡AltInv = Alto nível de incivilidade
A fidedignidade do INE-R Survey - versão brasileira foi avaliada pela consistência interna e pela reprodutibilidade. A consistência interna, avaliada pelos coeficientes Alfa de Cronbach, alfa Ordinal e ômega de McDonald, está apresentada na Tabela 5.
Consistência interna do Incivility in Nursing Education - Revised Survey versão brasileira, segundo o grupo de comportamentos incivis, as dimensões de incivilidade e itens que os compõem (n = 264). Interior do estado de São Paulo, Brasil, 2021-2022
A consistência interna pode ser considerada altamente satisfatória tanto para os itens que avaliam os comportamentos dos estudantes como para os dos professores, para ambos os domínios de incivilidade, evidenciando adequada fidedignidade na amostra estudada.
Quanto à análise da reprodutibilidade do instrumento, dos 60 estudantes sorteados para essa fase, somente 29 participaram. Em relação ao nível de incivilidade a estabilidade, analisada pelo Coeficiente de Correlação Intraclasse, foi considerada com concordância boa com valor de ICC em relação aos itens para os comportamentos de estudantes (ICC = 0,612, IC [95%]: [0,330; 0,796] e p-valor < 0,0001) e moderada para os comportamentos dos professores (ICC = 0,598 IC[95%]:[0,301; 0,789] e p-valor < 0,0001).
Para a estabilidade dos itens que retratam a frequência dos comportamentos incivis observados nos últimos 12 meses, nas fases de pré- e pós-teste, a concordância foi considerada moderada para os estudantes (0,474, IC [95%]: [0,148; 0,710] e p-valor = 0,003) e boa para os professores (ICC = 0,615, IC [95%]: [0,332; 0,789] e p-valor < 0,0001).
Discussão
No presente estudo analisaram-se as propriedades psicométricas da versão brasileira do INE-R Survey3. O INE-R survey tem sido útil para identificar as percepções de atos incivis de alunos e de professores de enfermagem18, permitindo estabelecer as distinções das percepções dos dois grupos7.
Em relação ao instrumento, a variável do estudo é uma variável latente, mensurada por meio de opções de respostas em escala do tipo Likert, que variam de 1 a 4, portanto, não simétrica (inexiste ponto neutro equidistante dos extremos) e não homogênea em relação ao número de itens, pois cada domínio tem, respectivamente, nove e 15 itens36.
O período da coleta de dados deu-se na vigência da pandemia da COVID-19, ocasião em que as atividades de estudantes e de docentes se apresentavam em fase de ajustes, com introdução de ensino online. Tal situação retratou sobrecargas de demandas e dificuldades de acesso e manuseio de dispositivos37. Segundo a literatura, mudanças nas percepções de frequência ou nível de incivilidades de comportamentos de estudantes e professores foram identificadas no período de pandemia38)-(39.
No presente estudo, os itens correspondentes aos comportamentos de estudantes e de professores foram avaliados apenas por estudantes. O estudo original norte-americano validou o instrumento por professores e estudantes e para os conjuntos de itens de comportamentos de estudantes e de professores3. Os demais validaram o instrumento inteiro apenas com estudantes14) ou somente os itens relativos aos comportamentos de estudantes30. O instrumento pode ser avaliados para cada um dos sujeitos-foco (estudantes ou professores) ou conjuntamente3.
As percepções referidas sobre comportamentos de professores, no presente estudo, dizem respeito às experiências com docentes de uma instituição pública, secular (não religiosa), que majoritariamente trabalham por longos períodos na mesma instituição. A literatura cita um estudo realizado na África do Sul40, em que o tempo de trabalho na mesma instituição apresentou associação com aumento da incivilidade, e um outro estudo que menciona haver níveis aumentados de incivilidade na academia41. Tais aspectos podem ter gerado impacto na expressão de comportamentos incivis.
Portanto, o tipo prolongado de vínculo do professor na instituição40, o fato de a coleta de dados ter ocorrido durante um período de ajustes a novas demandas impostas pela pandemia16) e o aumento do uso de tecnologias remotas para as aulas38),(42 durante ou nos semestres anteriores à realização do estudo podem ter impactado a resposta dos estudantes, ou seja, a percepção de frequência ou do nível de comportamentos de incivilidades.
Em relação ao número de participantes, ao se empregar um instrumento como o descrito, há indicação para que, ao se realizar análise fatorial, sejam computados de 5 a 10 respondentes por questão do instrumento. Contudo, ao se usar um modelo de equações estruturais, há literatura que recomenda de 10 a 15 participantes por variável no modelo36. No presente estudo, o tamanho amostral de 264 atendeu à primeira condição, mas impossibilitou a análise da invariância fatorial do modelo. No estudo original, a amostra foi de 310 estudantes norte-americanos3; o estudo que validou o instrumento para a cultura coreana teve 284 participantes14 e a árabe, 389 participantes30. Todos empregaram análise fatorial em suas análises.
Em relação à análise descritiva do instrumento em tela, optamos por apresentar a percepção dos participantes sobre o nível de incivilidade e a sua frequência por meio de mediana, ainda que tivéssemos descrito a média para efeito de comparação com os estudos que validaram ou empregaram esse instrumento em outras culturas14),(30. Tal indicador (média) pode não representar a variação da amostra com clareza por se tratar de escala tipo Likert, portanto, uma escala qualitativa ordinal, segundo o nível de mensuração36.
A título de comparação dos níveis de incivilidade, para os comportamentos de estudante, o presente estudo teve média geral igual a 3,0, enquanto nos estudos coreano e árabe, estas foram = 3,11 e = 3,45, respectivamente14),(30; e, para os comportamentos de professores, nossos resultados foram = 3,35 e os do estudo coreano = 3,1714. As médias das frequências de ocorrência dos comportamentos nos últimos 12 meses, referidas em nosso estudo para os comportamentos dos estudantes e de professores, foram 2,10 e 1,82, respectivamente, enquanto no estudo árabe a média geral para os itens dos estudantes foi 1,9930.
Ainda, a análise descritiva dos dados do presente estudo aponta aspectos que merecem considerações. Um deles diz respeito à distribuição das respostas. Foi identificado o efeito teto-piso (ceiling/floor effect) para vários itens do INE-R Survey - versão brasileira. Isso indica que a distribuição dos escores é assimétrica, ou seja, retrata a percentagem dos participantes que pontuaram os mais baixos ou elevados níveis da medida32. Em estudo que usou o INE, também se observou o efeito teto-piso, havendo mais de 15% de frequência para a percepção de comportamentos de estudantes e professores em ambos os polos da escala utilizada29.
Sabe-se que comportamentos disruptivos são mais prevalentes que os incivis de alta incivilidade29. E é mais provável verificarem-se comportamentos não verbais rudes e declarações de comentários humilhantes do que comportamentos ameaçadores ou atos violentos3.
A tendência identificada de os participantes atribuírem maior nível de incivilidade a um mesmo comportamento, quando este é realizado por professores do que quando realizado por estudantes, também já havia sido descrita em um estudo que analisou o efeito moderador da hierarquia social em comportamentos incivis no trabalho43), mostrando que a incivilidade percebida foi maior entre os atos incivilizados perpetrados pelos gerentes em comparação com a incivilidade percebida se perpetrada por um colega.
Em relação à validade e à confiabilidade, a literatura aponta distintas alternativas para análise das propriedades psicométricas, a depender da natureza da variável, forma de medida, tamanho amostral e características dos dados obtidos36. Ainda, dado já existir uma análise exploratória feita pelas autoras do instrumento3, buscamos confirmar tal proposta na população de estudantes brasileiros, por meio da validade de construto empregando a AFC, uma técnica adequada para testar (confirmar) se a estrutura empírica observada no conjunto de itens apresenta as mesmas evidências do construto teórico de interesse na população analisada44.
O estudo árabe com estudantes de enfermagem verificou, a partir dos resultados da análise de tendências e com validade de face realizada por quatro peritos, que alguns itens retratavam intensidades distintas de incivilidade em relação à proposta original norte-americana; e na validade de construto, por meio de Análise Fatorial Exploratória, obteve cinco fatores para a escala com comportamentos de estudantes. O estudo não teve como objeto a escala com itens sobre comportamentos de docentes30. Tal aspecto foi abordado em estudo mais recente, utilizando os mesmos procedimentos, com 225 professores, e que confirmou o modelo de 4 domínios para a escala que trata de comportamentos dos professores45.
Já o estudo coreano, também com estudantes, identificou que a escala com itens de comportamentos de estudantes apresentava, por meio de AFE, quatro fatores, e que a de professores apresentava dois fatores à semelhança da proposta teórica original norte-americana14.
O percurso percorrido e os resultados descritos em nosso estudo indicam ser a proposta teórica3 válida para a população estudada, em especial a existência de dois domínios (alto nível e baixo nível de incivilidade) e a pertinência de todos os itens atribuídos aos comportamentos de professores.
Ao se analisar as cargas fatoriais dos itens em cada domínio de comportamentos de professores, identifica-se ajuste de todos os itens com cargas elevadas de contribuição para composição dos domínios. Em contrapartida, ao se examinar os itens que retratam os comportamentos de estudantes, três itens não alcançam o valor 0,30, indicando sua exclusão46. Mas, para dois deles, itens 5 e 15, em ambas AFCs, com e sem o item 1, os resultados estatísticos indicam IC com limites superiores maiores que 0,30 e a opção foi pela manutenção de ambos. Reforça-se ainda que, quando existe justificativa de ordem teórica, um item com baixa carga fatorial pode ser mantido ou reformulado46.
Entretanto, os baixos pesos fatoriais, no limite do ponto de corte de 0,30, observados podem estar associados ao tamanho da amostra em questão, pelo que, a manutenção desses itens, 5 e 15, na versão brasileira para estudantes necessita de mais estudos com amostras diferentes.
Os dados das medidas de ajustes do modelo testado para os comportamentos de estudantes (respectivamente, CFI = 1,000; 1,00; TLI = 1,000; NFI = 1,000; 1,000; RMSEA = 0,092; SRMR = 0,107) evidenciaram que os todos os índices indicam um ajustamento aceitável, exceto o SRMR. Para os professores todos os índices foram aceitáveis.
Dentre os comportamentos frequentes relatados na literatura3) e concordantes ao enunciado teórico25),(28 encontram-se aqueles contidos nos itens que apresentaram baixa carga fatorial no presente estudo. Destaca-se que um estudo norte-americano, realizado durante a pandemia, com 675 estudantes de graduação e 35 professores de enfermagem39, identificou que os itens 1 e 5 foram os mais frequentes; igual resultado observou-se no estudo com 155 estudantes e 40 professores em Omã47.
Os comportamentos relacionados aos itens 1, 5 e 15, pertencentes ao domínio Baixa Incivilidade, foram percebidos como incivis pelos participantes do presente estudo, com as seguintes médias, considerando-se os escores variando de 1 a 4: item 1 ( = 2,76); item 5 ( = 3,12); e item 15 ( = 2,21). Ainda, quando se perguntou sobre a frequência de sua ocorrência, medida pelos mesmos parâmetros, apresentaram-se as seguintes médias: item 1 ( = 3,06); item 5 ( = 3,40) e item 15 ( = 2,27).
Esses resultados mostram que os alunos observam tais comportamentos com relativa frequência, o que apoia a manutenção dos itens na escala, uma vez que eles são geralmente considerados incivilizados com base nos estudos anteriores referidos.
Quanto a usar um telefone celular ou outro dispositivo para fins não relacionados à atividade da aula (item 5), considerado como desrespeito para com o outro28, apesar de os estudantes perceberem o comportamento como incivil, permaneceram em contato com outras pessoas ou com websites, a exemplo de resultados de outros estudos realizados em diferentes culturas30),(48)-(49. Um estudo recente sobre comportamentos de estudantes, como o desenvolvido no Canadá com professores, também aponta ser esse comportamento considerado disruptivo (para cerca de 80% dos participantes) e um dos mais frequentes (para cerca de 60% dos participantes)50. Em nosso estudo, 54,5% dos estudantes consideraram que ele ocorre frequentemente e 33,3% que ele ocorre às vezes. Quanto ao nível de incivilidade, foi predominantemente considerado moderadamente incivil (46,2%) ou altamente incivil (35,6%). Tais aspectos reforçam a manutenção desse item no presente estudo.
Em relação ao item 15 (exigir novas provas e ampliação de prazos), comum nas situações de desinteresse em que não se está preparado para as atividades escolares28, o impacto da dinâmica das atividades remotas empregadas no período de realização do presente estudo pode ter interferido nas expectativas dos alunos frente às situações de aprendizagem serem passiveis de mudança ao longo do tempo e poderem ser mais flexíveis, em especial durante a pandemia. O item refere-se a exigir algo ou a não aceitar uma resposta negativa a um favor especial solicitado e, nesse contexto, trata-se de comportamento incivil. Este item, considerado pela maioria dos estudantes como baixo nível de incivilidade (27,3% não incivil e 37,9% pouco incivil), foi relatado como ocorrendo raramente (33,7%), nunca (26,5%), às vezes (25,8%) ou frequentemente (14%).
Dentre os estudos que analisaram os efeitos da pandemia no ensino de enfermagem, um apontou que as expectativas não realísticas e dificuldades de comunicação interferiram negativamente na aprendizagem nesse período, com desânimo e sentimento de inadequação42; outro mencionou ser o aprendizado online nesse período estressante e relacionado à baixa satisfação em aprender51. Ainda, o estudo já referido apontou correlação entre aumento do estresse e comportamentos incivis nesse período39.
Tal contexto também pode ter interferido nas respostas emitidas, nas relações entre professor e estudante e na motivação para assistir ou participar das atividades educacionais, aspectos considerados como distrações ou desrespeitos em sala de aula28 e retratados nos resultados do presente estudo por meio das respostas ao item 1 do survey (item 1- expressar desinteresse, tédio ou apatia sobre o conteúdo do curso ou assunto). Para os estudantes, esse item é observado predominantemente às vezes (43,2%) ou frequentemente (33,7%), e é considerado prioritariamente como moderadamente incivil (47,3%) ou altamente incivil (18,6%), reforçando a pertinência de sua inclusão no instrumento. Tais aspectos apontam a existência do comportamento e a percepção do nível de incivilidade relativo ao item para estudantes na amostra.
Os dois estudos que analisaram a validade de construto de estudantes utilizaram a análise fatorial exploratória, por considerarem a inexistência de estudos de validade na cultura árabe, bem como a eventual influência cultural no instrumento30, ou por não confirmarem o modelo original proposto de dois domínios em população coreana14. Ambos mantiveram todos os itens, tanto para os professores como para estudantes.
Outra medida aplicada ao instrumento, com sua estrutura original de itens, foi a verificação da consistência interna que se mostrou altamente confiável para a amostra estudada. Os valores obtidos para os comportamentos de estudantes (α = 0,937) e de professores (α = 0,973) são considerados como correlação quase perfeita. Os valores obtidos no estudo norte-americano foram maiores que 0,96 para estudantes e 0,98 para professores3. No estudo árabe30, o alfa foi 0,877 e no coreano, 0,940 para os itens de estudantes relacionados ao nível de incivilidade14. Pode-se afirmar que o instrumento adaptado - versão brasileira apresentou consistência interna para seus domínios de baixa e alta incivilidade para os comportamentos de estudantes e de professores, com valores altos também encontrados para alfa ordinal e ômega de McDonald.
Em relação à reprodutividade, pode-se dizer que o instrumento apresentou reprodutibilidade adequada, verificada após 15 dias, com 29 estudantes. O número de participantes pode ser considerado aceito como satisfatório para tal análise, dado que uma amostra de tamanho n = 20 já pode ser considerada suficiente para obter um resultado de ICC adequado52.
Ao realizarem o teste-reteste com 10 alunos, os autores do estudo coreano obtiveram coeficiente de estabilidade 0,73 para nível de incivilidade de estudantes e 0,64 para o de professores14. Em nosso estudo, os itens referentes aos estudantes apresentaram estabilidade boa (ICC = 0,612) e os relativos aos professores, moderada (ICC = 0,598). Já, em relação à estabilidade dos itens que retratam a frequência dos comportamentos incivis observados nos últimos 12 meses, esta foi considerada moderada para os estudantes (ICC = 0,474) e boa, para os professores (ICC = 0,614).
Embora este estudo tenha sido desenvolvido apenas com estudantes, a percepção da presença do fenômeno incivilidade no ambiente acadêmico merece reflexão, reforça a necessidade de se implantarem processos que estimulem as relações interpessoais e o diálogo sobre tal existência, as formas de enfrentamento e, sobretudo, como apontado em um estudo28, a assunção da responsabilidade de ambas as partes. Quando professores e estudantes buscam construir ambiente educacional mais respeitável, o resultado é o crescimento da civilidade28. Experiências educativas exitosas, com estímulo da cultura da civilidade, incluindo-se o uso de aplicativos, têm sido reportadas53.
Quanto à relevância do estudo, cabe destacar que há pertinência do uso do INE-R - versão brasileira para a população estudada, considerando a confiabilidade e estabilidade do survey, adequação integral à proposta teórica do instrumento original quanto ao número de domínios, aos itens relacionados com os comportamentos de professores em sua totalidade e parcialmente em relação aos itens relacionados aos comportamentos dos estudantes. A disponibilização de um survey validado no contexto estudado colabora com a ciência da Enfermagem ao permitir identificar tal fenômeno ou comparar os resultados em nível internacional.
Por fim, a percepção dos estudantes participantes deste estudo sobre a existência dos comportamentos abordados no instrumento em análise reforça a pertinência de se empregar o INE-R - versão brasileira para diagnosticar e intervir nessa realidade, nos diferentes ambientes do ensino. A correlação negativa entre comportamentos de incivilidade vividos por estudantes e valores atribuídos à profissão, identificada em um estudo iraniano, soma-se a essa preocupação54.
Buscou-se realizar a presente pesquisa observando-se as recomendações para estudos dessa natureza; contudo, foram identificadas limitações, como a característica da amostra de ser de conveniência, de uma única instituição pública, e o número de participantes, visto que este inviabilizou a análise da invariância dos dados em amostras aleatórias ou grupos discriminantes. Tal número e o longo tempo de coleta podem ser decorrentes da pandemia ocorrida durante a realização do estudo. Cabe lembrar que o critério de inclusão ao estudo exigia a vivência do estudante por um ano no ambiente escolar; para alguns, esse prazo deu-se predominantemente com atividades remotas, fato que pode ter potencializado a percepção do nível e da frequência de atos incivis.
Sabe-se que o processo de validação de uma escala para culturas distintas é longo e demanda testes em vários contextos55; diante disso, espera-se que esta estrutura seja ainda submetida à análise psicométrica em novos estudos, com amostras de maior dimensão e mais generalizáveis para a realidade brasileira e, então, a decisão pela exclusão ou não dos itens 5 e 15, referidos na versão para estudantes poderá ser tomada.
Este estudo foi desenvolvido apenas com estudantes; torna-se necessário validar o instrumento com professores caso haja interesse em empregá-lo nessa população.
Conclusão
O INE-R Survey - versão brasileira encontra-se validado para o contexto estudado, com fidedignidade, descrita pelo ICC, alfa de Cronbach, alfa ordinal e ômega de McDonald e validade de construto reiterada pela AFC, com o modelo ajustado para dois domínios, de alta e baixa incivilidade, como previsto em sua versão original. Em relação aos itens referentes aos comportamentos de professores, houve confirmação de todos em relação ao modelo teórico. Para os itens relacionados aos comportamentos de estudantes, os resultados apontam para a exclusão, por ora, do item 1 e a sugestão de novos testes psicométricos da versão para estudantes, sem o referido item, em diferentes contextos.
O INE-R Survey - versão brasileira permite apoiar estudos e estratégias que necessitam medidas de percepção ou de frequência de comportamentos incivis no ambiente de ensino superior de enfermagem.
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Artigo extraído da tese de doutorado “Adaptação cultural, avaliação semântica, análise descritiva e propriedades psicométricas do Incivility in Nursing Education - Revised (INE-R) Survey com estudantes brasileiros”, apresentada à Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Centro Colaborador da OPAS/OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Ribeirão Preto, SP, Brasil.


