Open-access Além da universalidade: confrontando as teorias de enfermagem com as realidades do cuidado às condições crônicas

As condições crônicas tornaram-se um problema significativo para os sistemas de saúde em todo o mundo. Independentemente da localização, os enfermeiros estão cada vez mais responsáveis pelo cuidado de indivíduos, famílias e comunidades que lidam com problemas de saúde contínuos1. Embora os diagnósticos médicos possam ser semelhantes em diferentes países, a experiência de viver com uma doença crônica varia amplamente. Desigualdades sociais, dinâmicas familiares, estrutura dos sistemas de saúde, práticas culturais e recursos disponíveis influenciam profundamente a forma como o cuidado às condições crônicas é vivenciado na vida cotidiana1-2.

Essa crescente dissonância entre as características clínicas globais e as realidades locais do cuidado levanta uma questão fundamental para a ciência da enfermagem: como as teorias de enfermagem são compreendidas e aplicadas para explicar e orientar adequadamente o cuidado às condições crônicas tal como ele é efetivamente realizado na prática?

Os limites da universalização no cuidado às condições crônicas

Por décadas, as teorias de enfermagem aspiraram à universalidade2. As grandes teorias e, posteriormente, as teorias de médio alcance buscaram identificar conceitos e relações aplicáveis a diferentes contextos, populações e culturas2-3. As teorias de médio alcance representam um avanço significativo ao captar fenômenos que atravessam diferentes condições crônicas, embora possam se beneficiar de desenvolvimentos adicionais que incorporem contextos clínicos e relacionais específicos2.

Em contraste, teorias universais e muito abstratas tendem a funcionar melhor em situações de relativa estabilidade e com fenômenos claramente definidos, condições que raramente são encontradas no cuidado às condições crônicas1-2. A diferença entre as ideias teóricas e as realidades do cuidado torna-se especialmente evidente em contextos nos quais as condições crônicas são influenciadas por desigualdades sociais e por uma forte dependência do cuidado informal.

Na América do Sul, por exemplo, o cuidado às condições crônicas frequentemente ocorre em ambientes marcados por desvantagens estruturais, incluindo acesso desigual aos serviços de saúde, desigualdades socioeconômicas e territoriais, e forte dependência das redes familiares4-5. Em países de alta renda, o envelhecimento populacional e a migração geram desafios diferentes, mas igualmente complexos2. Apesar dessas realidades diversas, os modelos teóricos frequentemente pressupõem ambientes estáveis, indivíduos autônomos e processos de cuidado lineares3.

Essa tensão revela um desafio epistemológico. Quando as teorias buscam aplicabilidade universal, podem sacrificar a sensibilidade ao contexto e às dinâmicas relacionais. No cuidado às condições crônicas, isso frequentemente resulta em lacunas explicativas: por que intervenções têm sucesso em um contexto e falham em outro, por que indivíduos com diagnósticos semelhantes apresentam desfechos divergentes, ou por que recomendações “baseadas em evidências” são adotadas de forma inconsistente na prática.

O cuidado às condições crônicas como um fenômeno fundamentalmente relacional

Para além dos limites da universalização, o cuidado às condições crônicas revela outro ponto cego persistente na teoria de enfermagem: o individualismo. Muitos referenciais teóricos ainda se concentram principalmente no paciente individual como principal unidade de análise1-2. Conceitos como autocuidado, adesão ao tratamento e manejo de sintomas são frequentemente operacionalizados como capacidades ou responsabilidades individuais3,5. Entretanto, o cuidado às condições crônicas raramente é um empreendimento individual.

Na prática cotidiana, o manejo da doença crônica ocorre por meio de relações. Familiares e cuidadores informais observam sintomas, discutem escolhas terapêuticas, oferecem apoio emocional e ajudam a lidar com limitações funcionais2-3. Cuidadores informais frequentemente preenchem lacunas deixadas pelos sistemas de saúde, especialmente em contextos de recursos limitados4. Consequentemente, o cuidado às condições crônicas é influenciado por interações contínuas entre pacientes, cuidadores, profissionais de saúde e instituições2-5.

O cuidado às condições crônicas desafia, portanto, a teoria de enfermagem a tornar-se não apenas mais contextual, mas também mais explicitamente relacional.

Teorias de médio alcance e teorias específicas de situação como respostas complementares

Enfrentar a complexidade do cuidado às condições crônicas não exige abandonar a teoria, mas sim alinhar os níveis de abstração teórica à natureza do fenômeno estudado2. Nesse sentido, as teorias de médio alcance e as teorias de enfermagem específicas de situação oferecem respostas complementares e orientadas para a prática às limitações das grandes teorias3,5.

As teorias de médio alcance são particularmente adequadas para fenômenos que atravessam múltiplas condições crônicas, como adaptação, autocuidado, cuidado informal e trajetórias de doença2. Elas fornecem uma linguagem conceitual compartilhada que possibilita comparação e acúmulo de conhecimento entre diferentes diagnósticos, mantendo ao mesmo tempo um nível de abstração que permanece significativo para a prática1-2.

As teorias de enfermagem específicas de situação são especialmente eficazes em condições crônicas ou situações de cuidado específicas porque estão fundamentadas em populações, contextos e configurações relacionais definidos. Isso lhes permite explicar como fatores clínicos, sociais, familiares, culturais e relacionados ao sistema de saúde interagem nos processos de cuidado, ao mesmo tempo em que oferecem insights conceitualmente rigorosos diretamente vinculados à tomada de decisão clínica e ao desenho de intervenções2,5.

No cuidado às condições crônicas, esses dois níveis teóricos não devem ser vistos como concorrentes, mas como mutuamente reforçadores. As teorias de médio alcance oferecem coerência ao amplo panorama da cronicidade, enquanto as teorias específicas de situação traduzem essa coerência em modelos sensíveis às trajetórias específicas das doenças e às realidades concretas do cuidado2.

De uma perspectiva transnacional, as teorias específicas de situação promovem diálogo, em vez de fragmentar o conhecimento em enfermagem, ao conectar diferentes contextos por meio de experiências compartilhadas de cuidado, permitindo comparação, refinamento e construção cumulativa de teorias fundamentadas na complexidade do mundo real.

Implicações para a ciência, a prática e a educação em enfermagem

Adotar um uso articulado de teorias de médio alcance e teorias específicas de situação no cuidado às condições crônicas traz importantes implicações1-2. Para a pesquisa, essa abordagem incentiva desenhos de estudo que priorizem variáveis contextuais, desfechos relacionais e processos longitudinais. Em vez de perguntar se uma intervenção “funciona” de forma geral, a ciência da enfermagem pode perguntar de maneira mais significativa para quem, sob quais condições e por meio de quais relações ela funciona, por exemplo, por meio do uso de abordagens estatísticas direcionadas.

Para a prática, as teorias específicas de situação fornecem ferramentas conceituais imediatamente interpretáveis pelos enfermeiros clínicos1-2,5. Elas apoiam intervenções que são adaptáveis, em vez de prescritivas, sensíveis às dinâmicas familiares e responsivas às restrições sociais5.

Para a educação, ensinar teoria de enfermagem por meio de referenciais de médio alcance e específicos de situação ajuda os estudantes a compreender a teoria como um recurso vivo e orientado para a prática, e não apenas como um requisito abstrato2. Isso posiciona os enfermeiros não apenas como consumidores de teoria, mas também como produtores legítimos de conhecimento contextualizado1.

Um chamado para uma teorização coerente, situada e relacional no cuidado às condições crônicas

A carga global das condições crônicas exige abordagens teóricas capazes de capturar a complexidade sem sacrificar a coerência1. A teoria de enfermagem voltada ao cuidado às condições crônicas deve, portanto, ir além da busca pela universalidade e avançar em direção à coerência conceitual entre diferentes níveis de abstração2.

Ao articular teorias de médio alcance e teorias específicas de situação, a ciência da enfermagem pode refletir com maior precisão como o cuidado às condições crônicas é realmente vivido, negociado e sustentado3,5. O desafio da produção teórica contemporânea em enfermagem não é criar teorias que apaguem as diferenças, mas teorias que aprendam com elas.

No cuidado às condições crônicas, as teorias de enfermagem não podem ser preservadas apenas como herança intelectual; elas precisam ser continuamente confrontadas com os fundamentos clínicos e sociais do cuidado, sob risco de se tornarem conceitualmente elegantes, porém cientificamente irrelevantes.

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  • Como citar este artigo:
    Almeida OP Neto, Vellone E, Riegel B, Rabelo-Silva ER, Zeffiro V, Della-Bella V. Beyond universality: confronting nursing theories with the realities of chronic care. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2026;34:e4994 [cited ano mês dia]. Available from: URL. https://doi.org/10.1590/1518-8345.0000.4994

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026
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