Open-access Fragilidade física e a demanda de cuidados em pessoas idosas hospitalizadas: estudo transversal*

Objetivo: analisar a relação entre demanda de cuidados de enfermagem e a condição e os marcadores de fragilidade física em pessoas idosas hospitalizadas.

Método: estudo transversal analítico com amostra de 400 pessoas idosas. Para coleta de dados, empregou-se questionário sociodemográfico, testes do fenótipo de fragilidade física e escala de avaliação de complexidade assistencial. Aplicou-se o teste exato de Fisher, Kruskal-Wallis e teste de Dunn, considerando-se significância estatística para p≤0,05.

Resultados: houve predomínio dos pré-frágeis (48,7%), seguidos dos frágeis (35,8%) e não frágeis (15,5%). A maioria dos frágeis exigiu cuidados de alta dependência (44,8%). A demanda de cuidados mínimos foi de 80,6% para os não frágeis, 60,5% para os pré-frágeis e 14% para os frágeis. Os frágeis demandaram assistência superior aos não frágeis nas áreas: estado mental, oxigenação, motilidade, deambulação, eliminação e terapêutica (p<0,001). Houve associação entre demanda de cuidado mínimo a intensivo e redução da força de preensão manual (p<0,001), redução da velocidade da marcha (p<0,001), fadiga/exaustão (p<0,001), redução do nível de atividade física (p<0,001) e perda de peso não intencional (p<0,019).

Conclusão: a maior demanda de cuidados de enfermagem associou-se à pior condição e aos marcadores de fragilidade física. A avaliação da fragilidade física é indispensável para identificar necessidades específicas e direcionar cuidados.

Descritores:
Cuidados de Enfermagem; Hospitalização; Fragilidade; Cuidado de Enfermagem ao Idoso Hospitalizado; Idoso Fragilizado; Estudos Transversais


Destaques:

(1) Os níveis de cuidados de enfermagem variam entre as condições de fragilidade física. (2) Pessoas idosas frágeis demandam assistência de enfermagem superior aos não frágeis. (3) A necessidade de cuidados é proporcional à condição e aos marcadores de fragilidade. (4) Avaliação da condição de fragilidade física na admissão hospitalar é fundamental. (5) Deambulação, cuidado corporal e eliminações exigem maior cuidado entre os frágeis.

Objective: to analyze the relation between nursing care demand and frailty condition and markers in hospitalized older adults.

Method: analytical cross-sectional study with a sample of 400 older adults. Data collection used a sociodemographic questionnaire, frailty phenotype tests, and a nursing care complexity assessment scale. Fisher’s exact test, Kruskal-Wallis test and Dunn’s test were applied, considering statistical significance for p≤0.05.

Results: there was a predominance of pre-frail (48.7%), followed by frail (35.8%) and non-frail individuals(15.5%). Most frail older adults required high-dependency nursing care (44.8%). The minimum nursing care demand was 80.6% for non-frail, 60.5% for pre-frail, and 14% for frail older adults. Frail older adults required higher nursing care level than the non-frail in the areas: mental state, oxygenation, motility, ambulation, elimination, and therapy (p<0.001). There was association between minimal to intensive nursing care demand and reduced hand grip strength (p<0.001), reduced gait speed (p<0.001), fatigue/exhaustion (p<0.001), reduced physical activity level (p<0.001), and unintentional weight loss (p<0.019).

Conclusion: higher nursing care demand was associated with worse frailty condition and markers. Frailty assessment is indispensable to trace specific needs and support nursing care planning.

Descriptors:
Nursing Care; Hospitalization; Frailty; Nurses Improving Care for Health System Elders; Frail Elderly; Cross-Sectional Studies


Highlights:

(1) Nursing care levels vary between frailty conditions. (2) Frail older adults require higher nursing care level than the non-frail. (3) Nursing care demand is proportional to frailty condition and markers. (4) Frailty condition assessment at hospital admission is fundamental. (5) Ambulation, body care and eliminations require higher nursing care level among the frail.

Objetivo: analizar la relación entre demanda de cuidados de enfermería y la condición y los marcadores de fragilidad física en adultos mayores hospitalizados.

Método: estudio transversal analítico con una muestra de 400 adultos mayores. Para la recopilación de datos, se utilizó un cuestionario sociodemográfico, pruebas de fenotipo de fragilidad física y una escala de evaluación de la complejidad asistencial. Se aplicaron las pruebas exacta de Fisher, Kruskal-Wallis y Dunn, considerando una significancia estadística para p≤0,05.

Resultados: hubo un predominio de los prefrágiles (48,7%), seguidos de los frágiles (35,8%) y no frágiles (15,5%). La mayoría de los frágiles requirió cuidados de alta dependencia (44,8%). La demanda de cuidados mínimos fue del 80,6% para los no frágiles, del 60,5% para los prefrágiles y del 14% para los frágiles. Los frágiles requirieron asistencia superior que los no frágiles en los factores: estado mental, oxigenación, motilidad, deambulación, eliminación y terapéutica (p<0,001). Se observó una asociación entre la demanda de cuidados mínimos a intensivos y la reducción de la fuerza de agarre manual (p<0,001), reducción en la velocidad de la marcha (p<0,001), fatiga/agotamiento autoinformados (p<0,001), reducción del nivel de actividad física (p<0,001) y pérdida de peso no intencionada (p<0,019).

Conclusión: la mayor demanda de cuidados de enfermería se asoció con la peor condición y con los marcadores de fragilidad física. Evaluar la fragilidad física es esencial para identificar necesidades específicas y dirigir los cuidados.

Descriptores:
Atención de Enfermería; Hospitalización; Fragilidad; Nurses Improving Care for Health System Elders; Anciano Frágil; Estudios Transversales


Destacados:

(1) Los niveles de cuidados de enfermería varían según las condiciones de fragilidad física. (2) Los adultos mayores frágiles demandan asistencia de enfermería superior a los no frágiles. (3) La necesidad de cuidados es proporcional a la condición y a los marcadores de fragilidad. (4) La evaluación de la condición de fragilidad física al ingreso hospitalario es esencial. (5) La deambulación, el cuidado corporal y las eliminaciones requieren mayor cuidado entre los frágiles.

Introdução

À medida que as pessoas envelhecem, verifica-se a ocorrência de multimorbidades, declínio funcional, sarcopenia, declínio cognitivo, desnutrição e fragilidade, fatores associados ao aumento das taxas de hospitalização ( 1 ).

A fragilidade física na pessoa idosa é um estado clínico, caracterizado por aumento da vulnerabilidade, além de ser um dos principais fatores associados ao declínio funcional e à mortalidade precoce quando expostos a um estressor ( 2 ). Constitui fator preditivo de dependência funcional, decorrente da redução da força muscular, resistência e desempenho físico. O fenótipo da fragilidade permite classificar a condição de fragilidade como não frágil, pré-frágil e frágil, mediante os marcadores: redução da velocidade da marcha (VM), redução da força de preensão manual (FPM), perda de peso não intencional, redução do nível de atividade física e autorrelato de fadiga/exaustão ( 3 ).

A avaliação dos marcadores do fenótipo da fragilidade torna-se imprescindível no contexto hospitalar, tendo em vista que os frágeis apresentam maior risco de complicações, não relacionadas ao motivo inicial da hospitalização ( 4 ). Portanto, as intervenções de enfermagem devem ser planejadas conforme as demandas específicas decorrentes da condição de fragilidade.

A identificação das necessidades de cuidados constitui requisito essencial para o planejamento da assistência de enfermagem, sendo reconhecido que a demanda por cuidados em idosos hospitalizados é superior à observada em outras faixas etárias ( 5 ). O Sistema de Classificação de Pacientes (SCP) elaborado por Fugulin ( 6 ) é amplamente utilizado pela capacidade de analisar múltiplas dimensões do cuidado de enfermagem, oferecendo uma abordagem sistemática e abrangente para identificar necessidades específicas que norteiam a assistência de enfermagem ( 7 ).

A relação entre a demanda de cuidado e a condição e os marcadores de fragilidade física em pessoas idosas hospitalizadas ainda é pouco explorada em estudos nacionais e internacionais. A crescente prevalência da fragilidade física com o processo de envelhecimento ressalta a necessidade de identificar as demandas e necessidades de cuidados desse segmento populacional hospitalizado. Essa investigação contribui para a elaboração e estruturação de intervenções direcionadas (mediante sistematização da assistência) e de planos de cuidados específicos.

Considerando o exposto, este estudo teve como objetivo analisar a relação entre a demanda de cuidados de enfermagem e a condição e os marcadores de fragilidade física em pessoas idosas hospitalizadas.

Método

Para a construção sistematizada do estudo, foi utilizada a ferramenta de orientação do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) ( 8 ).

Delineamento do estudo e local

Estudo de corte transversal e analítico, realizado com pessoas idosas em um hospital de média complexidade, referência para idosos, localizado na região Sul do Brasil.

População, participantes, critérios de inclusão e exclusão

Pessoas idosas hospitalizadas em enfermaria constituíram a população do estudo. Os critérios de inclusão foram: ter idade maior ou igual a 60 anos, estar hospitalizado em enfermarias clínicas ou cirúrgicas, ter a demanda de cuidado avaliada durante a hospitalização e apresentar capacidade cognitiva, rastreada pelo Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) ( 9 ), considerando-se o nível de escolaridade para os pontos de corte ( 10 ). Os critérios de exclusão foram: apresentar indicação de internamento em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e estar em precaução de gotículas. Os critérios de inclusão do acompanhante foram: ter idade igual ou superior a 18 anos e acompanhar o idoso há pelo menos três meses; para os acompanhantes com idade maior ou igual a 60 anos, foi realizado rastreio cognitivo por meio do MEEM ( 9 ), com pontos de corte adotados segundo a escolaridade ( 10 ).

Cálculo da amostra e coleta de dados

Utilizou-se o cálculo amostral para população com idade ≥ 60 anos, representativa dos internamentos no ano de 2019 (n=4.146). Foram fixados o nível de confiança de 95% com erro amostral de 5%. Considerados os valores para cada parâmetro, obteve-se o tamanho amostral mínimo de 350 indivíduos. Neste estudo, adotou-se como tamanho da amostra 400 participantes, a fim de atingir um erro amostral inferior a 5%.

Previamente à coleta de dados, com o intuito de padronizar a execução e minimizar vieses de coleta, foram realizados treinamentos teóricos e práticos com a equipe de examinadores, membros do grupo de pesquisa. A equipe foi constituída por discentes de graduação e pós-graduação de uma instituição federal de ensino superior. Os dados foram obtidos a partir de março de 2022 até março de 2023. O tempo médio de aplicação dos instrumentos de coleta foi de aproximadamente 30 minutos.

Inicialmente, realizou-se o rastreio cognitivo mediante a aplicação do MEEM ( 9 ), validado para o português do Brasil, e foram definidos os pontos de corte distintos conforme o nível de escolaridade dos participantes. Para indivíduos analfabetos, estabeleceu-se o ponto de corte em 13 pontos ou menos. Para aqueles com escolaridade entre um e oito anos incompletos, o ponto de corte adotado foi de 18 pontos ou menos. Já para os participantes com oito anos ou mais de escolaridade, o escore limite foi fixado em 26 pontos ou menos ( 10 ). Foram excluídos os participantes cujos escores do MEEM ficaram abaixo dos pontos de corte específicos para o nível de escolaridade, por indicarem possível déficit cognitivo, com o objetivo de selecionar as pessoas idosas aptas para responder aos questionários do estudo e assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Quando a pessoa idosa apresentou alteração cognitiva, o acompanhante foi convidado a responder às questões na presença da pessoa idosa e assinar o TCLE. Nos casos em que o acompanhante, presente no momento da entrevista, não se sentisse seguro para responder às questões, a equipe aguardava a substituição pelo acompanhante principal, com quem o contato era retomado presencialmente em visita subsequente. Tal procedimento visava assegurar a fidedignidade dos dados. O TCLE era então assinado pelo acompanhante entrevistado.

A coleta consistiu na aplicação de questionário sociodemográfico que incluiu: sexo, idade, cor da pele, escolaridade e renda familiar. Os testes preconizados pelo fenótipo da fragilidade física foram aplicados aos seguintes componentes: FPM e VM, fadiga/exaustão, perda de peso não intencional e nível de atividade física. Seguindo os critérios de Fried, a pessoa idosa que apresentou três ou mais marcadores foi considerada frágil; um ou dois, pré-frágil; e nenhum, não frágil ( 3 ).

A FPM aferiu-se por meio de dinamômetro hidráulico Jamar em quilograma/força (Kgf). A pessoa idosa foi orientada a permanecer sentada em uma cadeira com os pés apoiados no chão, cotovelo flexionado a 90 graus, com braço firme contra o tronco e punho em posição neutra. Ajustou-se a empunhadura da mão dominante ao dinamômetro, de modo que a segunda falange do segundo, terceiro e quarto dedos tocassem a curva da haste do dispositivo. Ao comando, o examinado realizou três preensões, intercaladas por um minuto para retorno da força, e considerou-se a média das três aferições. Os valores da FPM foram ajustados segundo o quartil do Índice de Massa Corpórea (IMC) e sexo, e aqueles que compreenderam o quintil mais baixo de força foram considerados frágeis para este marcador ( 3 ).

Para a VM, a pessoa idosa foi orientada a caminhar, de maneira habitual, em superfície plana, sinalizada por fita métrica de 6,6 metros. Os participantes que dependiam de dispositivos de auxílio à mobilidade ou à marcha realizaram o teste com o uso desses equipamentos. Quando a pessoa idosa estava acamada, foi atribuído o valor zero para este componente.

O marcador fadiga/exaustão foi identificado por autorrelato. As pessoas idosas foram questionadas quanto à frequência das seguintes situações na última semana: (A) sentiu que teve que fazer esforço para dar conta de suas tarefas de todos os dias e (B) sentiu que não conseguiu levar adiante suas coisas. As respostas foram categorizadas em 0 – raramente ou nenhuma parte do tempo (<1 dia); 1 – uma parte ou pequena parte do tempo (1-2 dias); 2 – quantidade moderada de tempo (3-4 dias); ou 3 – na maioria das vezes. Uma resposta “2” ou “3” para qualquer uma das perguntas categorizou o idoso como frágil para este componente ( 3 ).

Para avaliação da perda de peso não intencional, foi utilizada uma balança digital do tipo plataforma e estadiômetro. Mensurou-se pelo IMC, calculado a partir de medidas antropométricas, associada ao autorrelato do idoso em resposta a duas questões: (A) “O senhor(a) perdeu peso nos últimos meses?” e (B) “Quantos quilos?”.

O nível de atividade física foi avaliado pelo Minnesotta Leisure Activity Questionnaire, validado para idosos brasileiros ( 11 ). Realizaram-se perguntas relacionadas à frequência e ao tempo de atividades realizadas nas últimas duas semanas. Para o valor em quilocalorias, utilizou-se a multiplicação da intensidade de cada atividade em Metabolic Equivalent Tasks pela constante 0,0175 e o peso do indivíduo em quilogramas, e o valor total foi dividido por dois para se obter o gasto energético médio por semana. Seguindo o critério de Fried ( 3 ), após ajuste para sexo, a pessoa idosa que apresentou valores no menor quintil foi classificada como frágil para este marcador.

A demanda de cuidados foi avaliada pela da escala de Fugulin ( 6 ), que analisa 12 dimensões do cuidado: estado mental, oxigenação, sinais vitais, motilidade, deambulação, alimentação, cuidado corporal, eliminação, terapêutica, integridade cutaneomucosa/comprometimento tecidual, curativo, tempo utilizado na realização de curativo. Cada dimensão apresenta quatro indicadores, que recebem pontuação de um a quatro, de acordo com a dependência da assistência de enfermagem. A graduação final da escala de Fugulin varia de 12 a 48 pontos, sendo que, quanto maior o escore, maior é a necessidade de assistência e cuidados de enfermagem. Foram considerados cuidados mínimos os escores de 12 a 17 pontos, cuidados intermediários os escores de 18 a 22 pontos, cuidados de alta dependência de 23 a 28 pontos, cuidados semi-intensivos de 29 a 34 pontos e cuidados intensivos acima de 34 pontos ( 6 ).

Análise e tratamento dos dados

Construiu-se um banco de dados em planilhas do software Microsoft Excel 2016. A digitação foi realizada com dupla checagem dos dados. Para a análise descritiva, utilizou-se médias, medianas, tabelas de frequência e proporções com seus respectivos intervalos de confiança (IC) de 95%. As comparações entre os grupos de pessoas idosas frágil, pré-frágil e não frágil ( 3 ) foram realizadas pelo teste exato de Fisher, para variáveis categóricas. Para variáveis numéricas e categóricas, a comparação foi realizada pelo teste de Kruskal-Wallis, seguido do teste de Dunn para comparações múltiplas. Nas análises estatísticas, considerou-se o nível de significância de p ≤0,05.

Aspectos éticos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná e pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Secretaria Municipal de Saúde, parecer no 5.055.260. A assinatura do TCLE pela pessoa idosa e/ou acompanhante foi realizada previamente ao início da pesquisa, em conformidade com a Resolução nº 466/2012. Da mesma forma, respeitou-se o sigilo e a confidencialidade dos dados, nos termos expressos nas Resoluções nº 510/2016, nº 580/2018 e demais resoluções do Conselho Nacional de Saúde vigentes na data deste estudo.

Resultados

Na Tabela 1, apresentam-se os resultados relativos às características sociodemográficas dos 400 participantes do estudo. Destes, 55,8% (n=223) são do sexo feminino, 70,85% (n=283) se autodeclaram brancos, 36,5% (n=146) têm idade acima de 80 anos, 51,5% (n=206) não concluíram o Ensino Fundamental e 39,8% (n=159) recebem de 1 até 3 salários mínimos.

Tabela 1-
Distribuição de frequência das características sociodemográficas das pessoas idosas da amostra. Curitiba, PR, Brasil, 2024

Observa-se na Tabela 2 o predomínio de pessoas idosas pré-frágeis, 48,7% (n=195); os frágeis atingiram 35,8% (n=143); e os não frágeis totalizaram 15,5% (n=62). Em relação à necessidade de cuidados de alta dependência, as porcentagens para as pessoas idosas frágeis, pré-frágeis e não frágeis foram as seguintes, respectivamente: 44,8% (n=64), 10,8% (n=21) e 3,2% (n=2), p<0,001. Houve uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos em relação à demanda por cuidados mínimos (p<0,001), indicando que a proporção de pessoas idosas que necessitam de cuidados mínimos varia de forma relevante conforme a condição de fragilidade física. A demanda por cuidados mínimos foi observada em 80,6% dos não frágeis, 60,5% dos pré-frágeis e 14% dos frágeis, sugerindo que a redução da fragilidade física está associada à menor demanda por cuidados mais complexos.

Tabela 2-
Associação entre condição de fragilidade física e demanda de cuidados das pessoas idosas da amostra. Curitiba, PR, Brasil, 2024

Visualiza-se na Tabela 3 a associação da pontuação de cada área do cuidado às diferentes condições de fragilidade. As pessoas idosas classificadas como frágeis (n=143) exigiram assistência de enfermagem superior aos não frágeis nas áreas de cuidado: estado mental, oxigenação, motilidade, deambulação, eliminação e terapêutica (p<0,001). Quando comparados aos pré-frágeis, os frágeis tiveram maior pontuação em todas as áreas do cuidado, comprometimento tecidual (p=0,031), curativo (p=0,004) e tempo utilizado na realização dos curativos (p<0,001). Os pacientes pré-frágeis alcançaram pontuações maiores que os pacientes não frágeis nas áreas de deambulação (p<0,001), cuidado corporal (p<0,001) e eliminação (p<0,001). Quando comparadas as pontuações totais de Fugulin ( 6 ), entre os três grupos de pacientes, todos os grupos foram diferentes entre si, e as pontuações médias foram maiores com o aumento da fragilidade (p=0,001).

Tabela 3-
Associação entre pontuação média das áreas de cuidado e fragilidade física das pessoas idosas da amostra. Curitiba, PR, Brasil, 2024

Verifica-se que as pessoas idosas em cuidados intensivos apresentaram redução da FPM, da VM e autorrelato de fadiga/exaustão (100%), e 85,7% tiveram diminuição do nível de atividade física e perda de peso não intencional. Naquelas em cuidados mínimos, 7,4% foram identificadas com redução da FPM, 3,2% com redução da velocidade da marcha, 25,5%, tiveram diminuição do nível de atividade física, 37,8% apresentaram perda de peso não intencional e 43,1% relataram fadiga/exaustão. Verifica-se uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos em relação a todos os marcadores do fenótipo de fragilidade, conforme indicado pelos valores de p, evidenciando associação entre maior necessidade de cuidados e pior desempenho nos marcadores de fragilidade (Tabela 4).

Tabela 4-
Associação entre demanda de cuidados e os marcadores do fenótipo de fragilidade das pessoas idosas da amostra. Curitiba, PR, Brasil, 2024

Discussão

Dos 400 participantes do estudo, houve predomínio de mulheres, cor da pele branca, com idade igual ou superior a 80 anos, ensino fundamental incompleto e com renda familiar de 1 a 3 salários mínimos. O quantitativo de mulheres no cenário hospitalar reflete o processo de feminilização do envelhecimento, representando 51,5% da população idosa do país ( 13 ).

Neste estudo, a representatividade de octogenários foi de 36,5%. Dado semelhante foi encontrado no estudo conduzido em São Paulo (Brasil), com 865 idosos hospitalizados, que identificou o sexo feminino em 53,9% e longevos 64,6% ( 14 ). A maior parcela dos participantes apresentou baixa escolaridade (fundamental incompleto), notadamente 18% de analfabetos. Esse percentual é semelhante ao índice nacional registrado no Brasil (16%) ( 13 ).

O predomínio de pré-frágeis (48,8%) seguido pelos frágeis (35,8%) contrasta com o identificado em revisão sistemática, a qual objetivou identificar a prevalência de fragilidade em 467.779 idosos hospitalizados, com idade maior ou igual a 65 anos. Os resultados apontaram 47% de frágeis e 26% de pré-frágeis. Entretanto, os autores indicam a imprecisão na definição operacional da fragilidade nas pesquisas como um ponto a ser discutido ( 15 ).

Neste estudo, aproximadamente 50% das pessoas idosas necessitavam de cuidados mínimos, e cerca de 20%, de cuidados intermediários e de alta dependência. Um estudo retrospectivo avaliou 161 prontuários de idosos em um hospital universitário do Maranhão (Brasil). Da amostra, 63,4% necessitavam de cuidados mínimos, 15% cuidados intermediários, 14,2% alta dependência, 5,6% cuidados semi-intensivos e 1,8% cuidados intensivos ( 7 ).

Outro estudo nacional, conduzido na emergência de um hospital, objetivou classificar o grau de dependência dos admitidos. Dos 783 indivíduos avaliados, 40,8% apresentavam idade maior ou igual a 60 anos. Observou-se que 37% precisavam de cuidados mínimos, 31,7% exigiam suporte intermediário, 22,8% necessitavam de cuidados de alta dependência, 7,4% tinham necessidade de uma assistência semi-intensiva e 1,3% requeriam cuidados intensivos ( 16 ). Esses resultados, quando comparados aos deste estudo, apresentam a mesma sequência de classificação, com diminuição de 10% em cuidados mínimos e aumento de 10% em cuidados intermediários. Essas diferenças podem ser atribuídas às variações no perfil das pessoas idosas, bem como às distintas características dos ambientes hospitalares.

O maior quantitativo por demanda de cuidados de enfermagem está associado à maior fragilidade. Dos frágeis, respectivamente, os resultados dos que apresentaram cuidados de alta dependência, semi-intensivos e intensivos foram os seguintes: 44,8%, 18,9% e 4,9%. Dos pré-frágeis 60,5% apresentaram cuidados mínimos; 27,7%, cuidados intermediários; e 10,8, cuidados de alta dependência. Por sua vez, dos não frágeis, 80,6% demandavam cuidados mínimos e 16,1%, cuidados intermediários. Constatou-se expressiva lacuna de estudos na literatura nacional e internacional sobre a relação entre os níveis de cuidados de enfermagem e a condição de fragilidade física em pessoas idosas hospitalizadas. Sendo assim, destaca-se o estudo transversal que foi conduzido em uma Instituição de Longa Permanência (ILPI), na China. Os dados apontaram para associação entre fragilidade e as necessidades de cuidados (OR 3,06, IC 95%; 2,06-4,55, p<0,01). Para os pesquisadores, existe relação linear entre fragilidade e necessidades de cuidados. Conforme o crescente grau de fragilidade, as necessidades de cuidados de longa duração dos idosos aumentam drasticamente ( 17 ).

Foram identificadas dessemelhanças entre as pessoas idosas nas condições não frágeis, pré-frágeis e frágeis em todas as áreas avaliadas. Pessoas idosas frágeis exigem maiores cuidados e intervenções de enfermagem quando comparados aos pré-frágeis, expressados nas áreas estado mental, oxigenação, motilidade, deambulação, alimentação, cuidado corporal, eliminação, terapêutica e comprometimento tecidual. Nas pessoas idosas frágeis, destacaram-se as incapacidades de motilidade (movimentação com auxílio ou incapaz de se movimentar), deambulação (restritos ao leito ou acamados), cuidado corporal (banho no leito e higiene corporal realizados pela equipe de enfermagem), eliminação (uso de comadre ou eliminações no leito). Essas incapacidades foram consideradas como as mais limitantes e as que expressavam maior necessidade de cuidados da enfermagem (p<0,001). A fragilidade física pode ser considerada como fator pré-incapacitante ( 2 ), que dificulta a realização de atividades básicas de vida diária, está associada ao comprometimento cognitivo, aumento da propensão a quedas ( 18 ), além de elevar a susceptibilidade ao risco de a pessoa idosa sofrer violência ( 19 ).

Em relação aos marcadores do fenótipo da fragilidade física, houve aumento na prevalência à medida que crescia a demanda de cuidados. Os marcadores redução VM e FPM, autorrelato de fadiga/exaustão foram identificados em 100% das pessoas idosas com necessidades de cuidados intensivos. Houve associação entre os cuidados requeridos por elas e os marcadores do fenótipo de fragilidade física.

A síndrome da fragilidade é um precursor fisiológico da incapacidade, caracterizada por fraqueza, diminuição da resistência e desempenho lento. Esses aspectos centrais da fragilidade afetam, principalmente, as funções dependentes de energia e velocidade, como a mobilidade ( 3 ). Um estudo com pessoas idosas hospitalizadas identificou a fragilidade como fator preditor de diminuição de mobilidade ( 20 ). Intervenções direcionadas podem interromper, desacelerar ou reverter esse declínio ( 2 ). Os resultados deste estudo indicam que, com o aumento da necessidade de cuidados – de mínimos a intensivos –, observa-se um incremento proporcional na fraqueza muscular, evidenciado por maiores limitações funcionais.

O predomínio dos marcadores de fragilidade física, como a redução da VM, a redução da FPM e o autorrelato de fadiga/exaustão, nas pessoas idosas que demandaram cuidados intensivos, indica uma perda substancial de força muscular e resistência, identificada pelas áreas de necessidade de cuidados. Esses marcadores são indicativos de provável sarcopenia, que é a perda progressiva e generalizada de massa e força e/ou função muscular ( 21 ). A sarcopenia e a fragilidade física são condições prevalentes em idosos hospitalizados ( 22 ).

O autorrelato de fadiga/exaustão foi o marcador mais prevalente entre as pessoas idosas em cuidados mínimos e intermediários. Desse modo, a referência pelas pessoas idosas desse marcador isolado antecipa nelas o surgimento da fragilidade física. Em estudos, frequentemente ele se mostra predominante, quando comparado aos outros marcadores. Dados de estudo transversal desenvolvido em um hospital do Irã apontaram o marcador exaustão presente em 83% dos idosos hospitalizados ( 23 ). Em outro estudo transversal, os idosos pré-frágeis sem sinais clínicos de exaustão experimentavam menor força de preensão, maior fadiga autopercebida e níveis mais baixos de vitalidade em comparação aos robustos (p<0,001) ( 24 ).

Outro marcador com percentuais expressivos foi a perda de peso não intencional, autorrelatada em 43% das pessoas idosas hospitalizadas. Estudiosos em fragilidade física aconselham os profissionais da área da saúde a identificarem as causas tratáveis de perda de peso ( 2 ). Indivíduos com perda de peso não intencional (≥4,5 kg em um ano) e indivíduos com perda não intencional de 25% do peso corporal, ao longo de um ano, são considerados a população em risco do diagnóstico de enfermagem – “risco de” ou “síndrome da fragilidade do idoso” ( 25 ). No processo de perda de peso, ocorre não apenas a redução do tecido adiposo, mas também a diminuição acelerada da massa magra, sendo este um dos principais fatores para o desenvolvimento da sarcopenia ( 21 ). Ressalta-se que esta variável corresponde a uma informação autorreferida, cuja acurácia depende da preservação das funções cognitivas e do nível de consciência das pessoas idosas.

A redução da VM atingiu 41% da amostra e foi observada em 96,6% dos indivíduos com necessidades de cuidados de alta dependência e 100% naqueles em cuidados semi-intensivos e com percentual menos expressivo em cuidados mínimos (3,2%). A velocidade da marcha diminuída afeta as áreas de cuidado como: motilidade, deambulação, cuidado corporal e eliminação ( 26 ). Idosos frágeis apresentam piora na marcha e no desempenho de tarefas simultâneas (motoras e cognitivas) ( 27 ).

O marcador de fragilidade redução da FPM foi o que atingiu menor percentual (23%), no entanto, esteve presente na totalidade (100%) das pessoas idosas em cuidados intensivos. A manifestação deste marcador parece ter relação com o estímulo dado pelas atividades manuais que os idosos ainda realizam, até mesmo naqueles acamados. Corrobora o percentual aquele encontrado no estudo realizado na Espanha, que totalizou 20,4% de redução da FPM, e este marcador associou-se à menor probabilidade de recuperar a não fragilidade. Os autores acrescentam que tal marcador de fragilidade, frequentemente, é o último a se manifestar ( 28 ). O uso mais frequente dos membros superiores em atividades diárias mantém a força e resistência muscular desses membros em pessoas idosas.

A condição de fragilidade física identificada na amostra expressa necessidades de cuidados de enfermagem em adição aos cuidados das morbidades, as quais motivaram a hospitalização. Nesse acréscimo aos cuidados, destaca-se a importância da identificação precoce dos marcadores e a necessidade de incorporar a avaliação da fragilidade na admissão hospitalar ( 29 ). Alguns estudos identificaram a necessidade de aprimorar as habilidades dos enfermeiros no reconhecimento e manejo da condição de fragilidade ( 30 - 31 ), por serem os profissionais que estão em contato direto e frequente com a pessoa idosa hospitalizada ( 32 ).

Essa abordagem permite direcionar intervenções de enfermagem voltadas para a promoção do autocuidado, com ênfase no fortalecimento das habilidades funcionais, em vez de concentrar-se nas limitações dos indivíduos ( 33 ).

Este estudo demonstra que a fragilidade física compromete a mobilidade, a eliminação, o cuidado corporal e a adesão terapêutica. Ressalta-se a importância da identificação precoce dessa condição em idosos hospitalizados para subsidiar intervenções direcionadas, otimizar o dimensionamento da equipe e qualificar o plano de cuidados, visando desacelerar, interromper ou reverter a progressão da fragilidade no contexto hospitalar. A educação em saúde direcionada à pessoa idosa e à família, aliada ao fortalecimento do apoio familiar e à promoção do conhecimento sobre a condição clínica e adesão ao tratamento, configura-se como estratégia relevante no âmbito do cuidado de enfermagem ( 34 ).

Considera-se como um cuidado inicial, mas que fornece direção para os cuidados a serem estabelecidos, com os objetivos de se evitar os efeitos negativos da transição da fragilidade para condições superiores, no período de hospitalização. Para tanto, é necessário que a equipe de enfermagem e a equipe multiprofissional elaborem planos de cuidados integrados, baseados na prática de exercícios físicos de força, resistência e aeróbicos, nutrição com suporte proteico e calórico, prescrições de suplementação de vitamina D e redução da polifarmácia ( 2 ).

Este estudo contribui para a enfermagem geriátrica ao demonstrar a associação entre marcadores de fragilidade (redução da força de preensão manual, diminuição da velocidade da marcha e fadiga) e o aumento da dependência funcional durante a hospitalização. A identificação precoce desses marcadores pela equipe de enfermagem possibilita intervenções individualizadas, favorecendo a manutenção da funcionalidade e prevenindo desfechos adversos, como imobilidade, delirium, quedas e perda de autonomia.

Além disso, o estudo subsidia a prática clínica da enfermagem geriátrica ao propor a incorporação da avaliação da fragilidade física como ferramenta sistemática no momento da admissão hospitalar. Essa abordagem subsidia o planejamento do cuidado com base em evidências e contribui para o dimensionamento adequado da equipe, alocação racional de recursos e elaboração de planos terapêuticos mais efetivos. Ao reconhecer a fragilidade como uma condição potencialmente reversível, esta pesquisa também reforça a importância de estratégias de cuidado centradas na reabilitação funcional, educação em saúde e promoção da autonomia, alinhando-se aos princípios do envelhecimento ativo e da humanização do cuidado hospitalar à pessoa idosa.

Como limitação, destaca-se o uso do instrumento SCP, que requer avaliações mais abrangentes, incluindo aspectos sociais e psicológicos, além da escassez de estudos que relacionem fragilidade física e demanda de cuidados, o que restringiu a discussão dos resultados. A utilização de dados autorreferidos, como fadiga, exaustão e perda de peso, também constitui limitação, embora esse viés tenha sido minimizado por meio de rigor metodológico, treinamento dos entrevistadores, calibração dos instrumentos e apoio estatístico. O viés de observação foi reduzido com o desenvolvimento de um protocolo padronizado de coleta e análise. Como ponto positivo, destaca-se a representatividade da amostra, proveniente de hospital vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Conclusão

A condição de fragilidade física está associada ao aumento da demanda de cuidados de enfermagem em pessoas idosas hospitalizadas. Verificou-se que idosos frágeis apresentaram maior necessidade de cuidados de alta dependência, enquanto os pré-frágeis e não frágeis demandaram predominantemente cuidados mínimos. As áreas de maior comprometimento entre os idosos frágeis hospitalizados incluíram deambulação, cuidado corporal e eliminação, evidenciando limitações funcionais que requerem intervenções específicas da equipe de enfermagem.

Nesse contexto, destaca-se a relevância da avaliação sistemática da fragilidade física na admissão hospitalar, com foco nos marcadores clínicos como a redução da velocidade da marcha e da força de preensão manual e o autorrelato de fadiga/exaustão. A identificação precoce desses indicadores pode subsidiar o planejamento individualizado da assistência, otimizar o dimensionamento da força de trabalho e favorecer a implementação de estratégias direcionadas à manutenção ou recuperação da funcionalidade, contribuindo para a qualificação do cuidado.

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  • *
    Artigo extraído de dissertação de mestrado “Demanda de cuidados de enfermagem em idosos hospitalizados na condição de fragilidade física: estudo transversal analítico”, apresentada à Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) - Código de Financiamento 001, Brasil.
  • Como citar este artigo
    Kraus R, Lenardt MH, Cechinel C, Rodrigues JAM, Marques DMS, Guedez JBB. Frailty and nursing care demand in hospitalized older adults: a cross-sectional study. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2025;33:e4716 [cited]. Available from: . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7747.4716
  • Declaração de Disponibilidade de Dados
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Editado por

  • Editora Associada:
    Rosalina Aparecida Partezani Rodrigues

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    06 Nov 2024
  • Aceito
    23 Jun 2025
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