Objetivo: compreender a percepção de professores e profissionais de saúde sobre o uso do Programa Brincar Legal para pais/cuidadores para a prevenção da violência contra crianças.
Método: estudo qualitativo, descritivo e exploratório realizado por meio de três grupos focais com vinte professores da educação básica e profissionais da atenção primária à saúde que aplicaram o Programa para pais/cuidadores, em 2022. A análise de discurso de linha francesa orientou a análise de dados à luz da teoria de Urie Bronfenbrenner.
Resultados: a partir da percepção dos participantes, emergiram três categorias: inovação e utilidade: aplicabilidade da teoria na prática; ressignificando atitudes de austeridade e impaciência contra a criança; disciplinar a criança e não punir: dilemas e desafios. Os depoimentos evidenciaram que o Programa é inovador, de acesso rápido, linguagem clara e de fácil aplicabilidade na prática para pais/cuidadores.
Conclusão: o uso do Programa agregou conhecimento e propiciou atitudes positivas para o desenvolvimento do sistema bioecológico quanto ao enfrentamento e prevenção da violência contra a criança.
Descritores:
Proteção da Criança; Maus Tratos Infantis; Responsabilidade Parental; Educação Infantil; Atenção Primária à Saúde; Desenvolvimento Sustentável
Destaques:
(1) Fortalece o desenvolvimento sustentável, protegendo a criança da violência.
(2) O programa promove a paz e instituições mais eficazes na proteção infantil.
(3) Percepção do Programa: inovador, aplicável à prática, breve e de fácil linguagem.
(4) Ferramenta relevante para profissionais que atuam na atenção à criança e sua família.
(5) Fomenta ações assertivas para prevenção da violência contra crianças.
Objective: to understand the perception of teachers and health professionals regarding the use of the Play Nicely Program for parents/caregivers in the prevention of violence against children.
Method: a descriptive and exploratory qualitative study was conducted through three focus groups with twenty primary school teachers and primary health care professionals who implemented the Program for parents/caregivers in 2022. The data analysis was guided by French discourse analysis, interpreted through the lens of Urie Bronfenbrenner’s theory.
Results: three categories emerged from the participants’ perceptions: innovation and utility; theory applicability in practice; reinterpreting attitudes of austerity and impatience towards children; disciplining rather than punishing children: dilemmas and challenges. The testimonies highlighted that the Program is innovative, easily accessible, clear in language, and easy to apply in practice for parents/caregivers.
Conclusion: the use of the Program added knowledge and fostered positive attitudes toward the development of the bioecological system in addressing and preventing violence against children.
Descriptors:
Child Welfare; Child Abuse; Parenting; Child Rearing; Primary Health Care; Sustainable Development
Highlights:
(1) Strengthens sustainable development by protecting children from violence.
(2) The program promotes peace and more effective institutions in child protection.
(3) Program perception: innovative, applicable to practice, concise, and easy to understand.
(4) A relevant tool for professionals working with children and their families.
(5) Encourages assertive actions for the prevention of violence against children.
Objetivo: comprender la percepción de docentes y profesionales de la salud sobre el uso del Programa Brincar Legal para padres/cuidadores para prevenir la violencia contra los niños.
Método: estudio cualitativo, descriptivo y exploratorio realizado por medio de tres grupos focales con veinte docentes de educación básica y profesionales de atención primaria de salud que aplicaron el Programa para padres/cuidadores en 2022. El análisis del discurso francés guió el análisis de los datos a la luz de la teoría de Urie Bronfenbrenner.
Resultados: a partir de la percepción de los participantes surgieron tres categorías: innovación y utilidad: aplicabilidad de la teoría en la práctica; resignificar actitudes severas e impacientes hacia los niños; disciplinar al niño y no castigarlo: dilemas y desafíos. Las declaraciones revelaron que el Programa es innovador, de rápido acceso, con lenguaje claro y fácil de aplicar en la práctica para padres/cuidadores.
Conclusión: el uso del Programa aportó conocimiento y promovió actitudes positivas para el desarrollo del sistema bioecológico para enfrentar y prevenir la violencia contra los niños.
Descriptores:
Protección a la Infancia; Maltrato a los Niños; Responsabilidad Parental; Crianza del Niño;Atención Primaria de Salud; Desarrollo Sostenible
Destacados:
(1) Fortalece el desarrollo sostenible, protegiendo a los niños de la violencia.
(2) El programa promueve la paz e instituciones más efectivas en la protección infantil.
(3) Percepción sobre el Programa: innovador, aplicable a la práctica, breve y con lenguaje simple.
(4) Es una herramienta importante para los profesionales que trabajan en el cuidado de los niños y sus familias.
(5) Promueve acciones asertivas para prevenir la violencia contra los niños.
Introdução
A violência contra a criança impacta negativamente seu desenvolvimento físico, cognitivo e socioemocional, trazendo consequências graves desde a infância até a idade adulta(1). Sua prevenção está listada como uma das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que, para o Brasil, prevê “proteger todas as crianças e adolescentes do abuso, exploração, tráfico, tortura e todas as outras formas de violência”(2).
O número de casos notificados no mundo não reflete a realidade devido à subnotificação, ocultando essa crise global, possivelmente ligada à fragilidade da rede de proteção(3). Situação que agravou durante a pandemia de covid-19, ao expor crianças e adolescentes a mais violência doméstica, por serem obrigados a conviver por mais tempo em casa e afastados de ambientes protetores, como as escolas(4-5).
Segundo a teoria bioecológica de Urie Bronfenbrenner, a linguagem, os símbolos, a interação pessoa-pessoa e pessoa-contexto, ao longo do tempo (cronossistema), também os aspectos biológicos, cognitivos, emocionais e comportamentais, influenciam o desenvolvimento humano e familiar. O processo de interação ocorre em contextos distintos presentes em sistemas que são dinâmicos e se inter-relacionam, sendo eles o microssistema, mesossistema, exossistema e macrossistema. Portanto, o processo, pessoa, contexto e tempo explicam o dinamismo sistêmico da teoria bioecológica, que pode ser utilizada para compreender que a criança que sofre violência terá alterações no seu desenvolvimento, percepção de mundo e comportamento(6). Como, por exemplo, vítimas de violência na infância frequentemente manifestam comportamentos agressivos, aumentando o risco de perpetração desse comportamento(7).
Portanto, urge capacitar os envolvidos na proteção dos direitos das crianças para prevenir, identificar e intervir precocemente(3). Programas parentais podem trazer benefícios a curto e longo prazo(8), configuram-se uma estratégia na prevenção de maus-tratos, embora sejam escassos no Brasil em comparação com países desenvolvidos como Canadá e Estados Unidos (EUA)(9-10). No Tennessee-EUA, no Vanderbilt University Medical Center, foi desenvolvido o Play Nicely Program: The Healthy Discipline Handbook pelo pediatra Seth Scholer, um programa universal de intervenção breve que apresenta práticas parentais para mitigação da violência física contra a criança menor de onze anos, composto por um guia e uma multimídia interativa educacional(11).
O guia do Play Nicely Program: The Healthy Discipline Handbook, traduzido e adaptado transculturalmente para o Brasil, mediante etapas metodológicas de traduções independentes, retrotradução, avaliação por especialistas e pré-teste, passou a ser denominado “Programa Brincar Legal: o guia de disciplina saudável”(12). Ele permanece vinculado à Vanderbilt University, estando disponível gratuitamente para fins educacionais e de pesquisa(13).
O Programa apresenta cinco passos para realizar ante atos de agressão contra a criança e problemas comportamentais, como a reprodução de atos/símbolos de violência física contra seus colegas na escola, sendo eles: I-ensine seu filho a não ser uma vítima; II-aprenda formas de agir frente aos comportamentos/desafiadores; III-diminua a exposição à violência e à mídia em excesso; IV-demonstre amor; V-seja firme(11). Ensina práticas disciplinares saudáveis para pais, professores e profissionais de saúde, exemplificando 20 opções para lidarem com crianças, indicando quais ações são boas opções e quais não são recomendadas, visando que não haja atitudes punitivas gerando outro tipo de violência como a psicológica, física ou ambas(11).
Estudos que avaliaram pré-intervenção e pós-intervenção utilizando o Programa identificaram diminuição no uso do castigo físico contra a criança, ocasionado pelos pais(8,14-16). Também, pais afirmaram que, após aprenderem com o Programa, modificaram suas atitudes de disciplina, para mais conversa/explicação, mais redirecionamento, mais paciência/escuta e menos raiva/gritos(15-16). Um estudo que avaliou pré e pós-treinamento usando o Programa para capacitar profissionais de saúde identificou uma melhora significativa na capacidade de aconselhar os pais a respeito de estratégias disciplinares apropriadas, desencorajando o uso de agressão física(17). Essas pesquisas foram realizadas em outros países, visto que o presente estudo é o primeiro a utilizar o Programa no Brasil.
A violência contra a criança caracteriza-se pela sua ocorrência na infância, seja ela ocasionada por adultos, seja por outras crianças, reconhecidamente classificadas nos tipos física, psicológica, sexual, negligência e institucional(18). Considerando essa problemática mundial e a inexistência neste país de programas gratuitos de intervenção breve para prevenção da violência física contra a criança, este estudo contribui apresentando uma ferramenta para orientar práticas disciplinares saudáveis aos pais, colaborando na prevenção da violência. O Programa pode ser uma alternativa para auxiliar as políticas brasileiras de proteção da criança e fortalecer o cumprimento dos ODS nos espaços de cuidado educacional e saúde que atendem crianças e suas famílias. Neste sentido, este estudo objetiva compreender a percepção de professores e profissionais de saúde sobre o uso do Programa Brincar Legal para pais/cuidadores para a prevenção da violência contra crianças.
Método
Delineamento do estudo
Trata-se de um estudo qualitativo, descritivo e exploratório, que atendeu às recomendações dos Critérios Consolidados de Relato de Pesquisa Qualitativa (COREQ).
Cenário
Estudo realizado em um município no norte do Estado do Paraná, Brasil, em três instituições: Centro Municipal de Educação Infantil (CEMEI), que atende crianças na faixa etária de seis meses a quatro anos; Unidade Básica de Saúde (UBS) e; o Centro de Referência da Assistência Social (CRAS), que atende famílias em situação de vulnerabilidade social e inseridas em um Programa do governo federal intitulado “Criança Feliz”, cujo objetivo é acompanhar e fortalecer o desenvolvimento integral das crianças na primeira infância, estimulando o vínculo familiar e comunitário(19).
Período
A pesquisa foi realizada nos meses de fevereiro a abril de 2022.
População
Profissionais de saúde e de educação.
Critérios de seleção
Os critérios de inclusão para os profissionais da educação foram ser professor(a) da educação básica e/ou pedagogo(a), atuando com crianças na faixa etária de um a dez anos. Para os profissionais de saúde, os critérios foram atuar diretamente com famílias compostas por pelo menos um filho na faixa etária referida anteriormente, sendo os pais/cuidadores alfabetizados e não terem deficiência visual ou cognitiva. Todos os profissionais precisariam participar das duas etapas da pesquisa. Os critérios de exclusão para os profissionais foram estar usufruindo de férias ou licenças.
Participantes
A amostragem foi por conveniência e o recrutamento foi realizado pela pesquisadora principal, que conversou presencialmente com a coordenação de cada equipe. Posteriormente, a coordenadora do CMEI, por meio do aplicativo WhatsApp, convidou os dez professores da instituição. Na UBS, a coordenação sugeriu abordar diretamente os profissionais, e nove foram convidados individualmente. No CRAS, a coordenadora fez uma reunião com os seis profissionais e explicou sobre o estudo. Todos os profissionais aceitaram participar, mas no segundo encontro houve perda de cinco pessoas: no CEMEI, um professor por rescisão contratual, e na UBS participantes desistiram por não aplicarem o guia do Programa.
Coleta de dados
A coleta de dados foi conduzida apenas pela pesquisadora principal, que durante o estudo tinha titulação de mestre, atuava como docente na graduação em enfermagem em universidade pública, com experiência na técnica de grupo focal, não possuía nenhum vínculo com as instituições, nem conhecia os participantes previamente à pesquisa. Utilizaram-se distanciamento, máscara e álcool gel, recomendados para evitar a disseminação e contaminação da covid-19(20).
A coleta de dados foi realizada em dois momentos com os mesmos participantes, em cada local de trabalho (CMEI, UBS, CRAS), por meio de grupo focal. Os encontros ocorreram em salas que possuíam mesas retangulares com cadeiras, janelas e poucos ruídos externos. A privacidade se deu pelo uso de portas fechadas e ambiente arejado, estando presentes apenas os participantes e a pesquisadora.
Não foi realizado teste-piloto. No primeiro encontro ocorreram: a explanação do objetivo do estudo; explicação do termo de consentimento livre e esclarecido; coleta das assinaturas; preenchimento individual de um questionário sociodemográfico; realização do grupo focal para conhecer a percepção dos profissionais acerca da violência contra a criança; explicação e a entrega do material para uso do Programa na rotina diária. Neste primeiro momento, o grupo focal teve maior duração, visto que foram necessários 30 minutos para a explanação sobre o programa.
Nesse primeiro momento, o grupo participou ativamente da discussão e o tempo foi mensurado por um cronômetro, sendo 47 minutos no CMEI, 67 minutos na UBS e 59 minutos no CRAS. Os participantes foram orientados a utilizar o Programa por 35 dias, mas não havia um número mínimo de atendimentos determinado. Foi solicitado para os professores aplicarem em sala de aula com as crianças no CMEI e para os profissionais do CRAS e da UBS orientarem os pais/cuidadores sobre as estratégias de disciplina saudável para lidar com as atitudes de desobediência e indisciplina de seus filhos.
O segundo momento aconteceu após o término do período de uso do material. Realizou-se um grupo focal em cada local utilizando um roteiro semiestruturado, contendo as seguintes perguntas: o que significou para você utilizar o guia Brincar Legal? Você já tinha ouvido sobre disciplinas saudáveis? Se sim, conte-me mais sobre isso. Quais foram as contribuições que o guia trouxe para sua prática profissional? Qual sua percepção em relação ao seu conhecimento prévio e ao conhecimento adquirido após a utilização do guia? Houve dificuldades na aplicação do material? Se sim, quais foram?
O grupo focal teve duração de 28 minutos no CMEI, 30 minutos na UBS e 25 minutos no CRAS. Nessa etapa, houve perda de cinco participantes, mas os demais colaboraram ativamente na discussão.
Em ambos os momentos de grupo focal, as entrevistas coletivas foram gravadas por dois aparelhos de áudio, transcritas na íntegra por uma equipe especializada e não foi utilizado o diário de campo. As transcrições foram disponibilizadas aos participantes, mas nenhum quis lê-las para tecer comentários ou correção. Os resultados não foram apresentados aos participantes.
Tratamento e análise dos dados
Os dados foram analisados e explorados a partir da análise de discurso de Michel Pêcheux sob o olhar de Eni Orlandi(21), sem a utilização de software, e discutidos à luz da teoria bioecológica do desenvolvimento humano de Urie Bronfenbrenner(6). Esse tipo de análise foi escolhido por considerar o que não está transparente, sendo o sujeito dotado de ideologias e marcas históricas, de modo que o real é afetado pelo simbólico e a pessoa não tem o controle e a consciência do quanto sua linguagem e história são afetadas.
Foi realizada a dessuperficialização do corpus, ou seja, do material bruto (superfície linguística) resultante da transcrição. Esta etapa consiste na análise linguística do material, como, por exemplo, quem diz, como diz e em que circunstâncias ele diz, e durante ela foram realizadas as marcações textuais de sinonímias, gerando 103 codificadores. A partir deles, ocorreu a passagem da superfície linguística para o objeto discursivo, o qual é afetado por memórias e experiências que estão implícitas no discurso. A terceira etapa é a passagem do objeto discursivo para o processo discursivo, ou seja, o movimento de compreensão e de formação ideológica, na qual emergiram as categorias (Figura 1).
Aspectos éticos
O estudo atendeu às normas de ética e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com parecer número 3.970.750. Visando não expor os participantes, eles foram identificados pela letra P e um número, foram feitas correções ortográficas e retirados os vícios de linguagem, sem alteração do fluxo.
Resultados
Dos 20 participantes, a totalidade foi do sexo feminino, a idade variou entre 23 e 56 anos, a maioria era casada, com filhos em idade de um a 40 anos e com ensino superior completo, sendo, nove professoras, três assistentes sociais e três pedagogas, duas enfermeiras, uma agente comunitária de saúde, uma técnica de enfermagem e uma psicóloga. O tempo de profissão variou de três meses a 20 anos.
Com base na concepção de que a linguagem não é transparente e que todo discurso é interpelado pela história e pela ideologia do sujeito, buscou-se, no processo de análise, a compreensão da língua fazendo sentido. Dessa forma, o processo discursivo mostrou, por meio do conhecimento intrínseco e extrínseco de cada pessoa, a percepção de que o uso do guia do Programa representou para eles inovação, utilidade, aplicabilidade, formas de agir diante de comportamentos desafiadores, dilemas e desafios.
Categoria I – Inovação e Utilidade: aplicabilidade da teoria na prática
O guia se apresentou como uma nova ferramenta de aporte científico e inovadora no ambiente de trabalho. Tem potencial de proporcionar melhorias práticas e somar às que já existem para prevenção ou combate à violência física contra a criança:
[...] você tem mais coisa, mais material para elaborar atividade, para elaborar orientação para os pais, é um material que veio a somar no nosso trabalho (P1); abre um leque de opções, a gente não fica numa opção só, agora a gente tem mais opções para procurar mais conhecimento (P18).
Para que algo se torne útil, é necessário satisfazer uma realidade local, que apresente vantagens e seja proveitoso. Os participantes perceberam o uso do material em sua realidade diária, desde a sua abrangência e prioridades, conteúdos, linguagens e orientações:
[...] abordagens simples de entender, fácil, uma linguagem fácil que a gente pode estar passando para os pais de uma maneira que eles entendam e que não ofenda (P3).
O guia foi destacado como um conjunto de conhecimentos, de procedimentos que priorizam orientações aos pais/cuidadores em suas ações cotidianas e relacionadas ao processo disciplinar. Além disso, apresentou um conteúdo útil na elaboração de atividade indireta, ou seja, na impossibilidade de um contato direto com os cuidadores, como em casos de pandemia, ao poder ser utilizado para atendimento em ambientes virtuais.
Foi feito um panfleto de orientação, de forma abrangente, para todos, e foi entregue para cada família, e então, depois nos atendimentos remotos, vamos fazendo o feedback (P1).
A utilização do guia possibilitou novos caminhos para orientações desafiadoras no dia a dia em sala de aula:
[...] quando a criança morde, bate na outra, foi muito útil aqui a gente saber o que, como a gente deve lidar (P8); Eu utilizei, porque as minhas crianças têm dois aninhos, eles batem no amiguinho, ficam mordendo, então é, agora eu sei como chegar, conversar, agir (P14).
Tido como um material que veio para somar no trabalho diário, o guia apresentou outros desdobramentos, como exemplo a possibilidade de novas ideias na abordagem de outros tipos de violência, por meio de vídeos, músicas, confecção e orientação de panfletos:
Tiramos até ideias…a gente não tinha essa ideia de mandar atividade assim, mas depois do guia! Tem um vídeo que mostra, uma musiquinha, mostrando quem pode relar no corpo da criança, então a gente nunca tinha pensado nisso, depois do livrinho a gente está procurando (P4).
Uma das atividades do Programa é também abordar pessoas que foram pais/cuidadores de crianças sobre a violência e permitiu dialogar e entender a maneira de educar das gerações passadas:
Eu achei interessante, eu falei com uma avó e eu até achei que ela fosse responder de bater também, porque ela teve essa educação, mas não...dela não querer passar para menina, a maneira que ela foi criada (P19).
Quanto ao processo de aprender e apreender algo, o guia do Programa foi considerado de fácil aplicação, propiciou um novo olhar para implementar ações no processo de educar, uma fonte de conhecimentos específica e com base científica de como e quando realizar:
O conhecimento que eu tinha, era da teoria. A gente não sabe como colocar aquilo ali na prática a hora que você tiver diante de alguma situação. O guia traz, de forma mais prática, sugestões de como fazer. Dá exemplos das situações que a gente pode estar vendo e como conduzir. Eu acho que essa é a grande diferença desse material (P1).
Durante o uso do guia do Programa pelos profissionais, uma das ações foi a de trabalhar diretamente com as famílias de maneira gentil e sem constranger os pais/cuidador, o que auxiliou em como falar, sugerir e orientar. Além disso, o acesso imediato ao material impresso para consulta sempre que necessário facilitou a utilização cotidiana.
Alguns profissionais de saúde abordaram pais/cuidadores sobre “bater em seu filho” durante o atendimento, surpreendidos com as respostas de que não puniam seus filhos para educá-los:
Eu me surpreendi também com as respostas das mães que eu entrevistei. A gente sempre tem aquela mentalidade de que a maioria das pessoas é conivente com bater e gritar para educar a criança (P8).
Por outro lado, o profissional de saúde pode vivenciar a contradição na resposta da mãe em detrimento da criança, quando ela afirmou não punir e seu filho referiu que era punido fisicamente por ela:
Eu perguntei para a mãe e a criança estava perto, e aí a mãe falava que não batia, e a criança falava “não, a mãe bate sim”. Então aquela controvérsia, quer dizer, a criança realmente está falando a verdade. Aí eu perguntei para ela, ela falou assim: “ah, de vez em quando a gente tem que bater, não tem como, não tem” (P18).
Categoria II - Ressignificando atitudes de austeridade e impaciência contra a criança
Quanto ao conteúdo, destacou-se que, por orientar os pais/cuidadores em como proceder nos casos de agressão de seus filhos por meio de uma abordagem legal, bem como o fato de considerar a criança como um ser humano integral e em desenvolvimento, o guia também favorece a empatia e humanização:
O guia traz pontualmente como falar diante de tal situação, a forma de conduzir, então é mais fácil, ele dá exemplos das situações que podemos encontrar e como proceder (P1).
Os profissionais também destacaram alguns temas e opções de orientações que o guia oferece, tais como a desobediência e a mentira:
O que escuto bastante é a mãe reclamando da criança desobediente. Então, talvez no ponto que fala da desobediência, da criança mentir, dê para a gente trabalhar mais coisas nesse sentido (P5).
O entendimento do “não” como uso frequente para interrupção dos momentos de desobediência da criança e o estabelecimento de regras claras, curtas e firmes também foi mencionado:
[...] aquela disciplina do não, não basta falar “não” para a criança, você tem que explicar o porquê do não. Achei bem interessante. É uma coisa simples que faz a diferença (P8).
O guia mostrou o caminho e deu maior direcionamento de como lidar com as situações, além de despertar um olhar mais atento aos pais/cuidadores no momento do atendimento, facilitando o diálogo com o cuidador da criança. A estratégia de redirecionar o comportamento está representada na fala a seguir:
Tem uma parte que eu achei interessante, é de como usar o nosso corpo, por exemplo a mão, a criança foi lá e bateu, não, vamos usar a mãozinha para fazer outra coisa. Aí chutou um amigo, não pera lá, o seu pé é feito para chutar a bola, vamos chutar a bola, jogar um futebol, pular uma amarelinha… (P4).
Os entrevistados trouxeram a estratégia de preocupar-se com os sentimentos dos outros, proporcionando maior empatia:
[…] ela colocou como primeira opção “perguntar ao seu filho como a outra criança se sente”, a única que respondeu, a única que teoricamente passaria por parte da humanização, da empatia, do ser humano (P16).
Alguns conteúdos destacados do guia remetem à demonstração de amor e de assegurar um tempo de qualidade com os filhos. Nesse sentido, foi abordada a escassez da presença dos pais/cuidadores, muitas vezes relacionada ao tempo despendido no trabalho, gerando estresse e comprometimento das relações.
Foi ressaltada a visibilidade que o guia proporcionou acerca da importância dos cuidadores terem uma mesma linguagem com a criança e saberem abordar sem assustá-la, pois muitos pais/cuidadores “gritam” no ato disciplinar, podendo resultar no insucesso da disciplina, bem como afetar a sua segurança emocional.
O controle do tempo diário das mídias e as práticas esportivas no processo educativo da criança também foi destacado pelos profissionais:
Achei legal da televisão, do tablet, que precisamos colocar um limite, a gente sabe que é melhor, e o guia fala sobre práticas esportivas também como opção. Bem legal, achei interessante (P15).
Categoria III – Disciplinar a criança e não punir: dilemas e desafios
Os entrevistados também trouxeram os dilemas vivenciados no processo educativo, as dificuldades em estabelecer outras regras de disciplina, como deixar no quarto, tirar o celular, ou seja, como utilizar outros meios de educar:
A mãe diz que conversa bastante, mas sempre pune. Não bate, mas coloca de castigo e faz a criança refletir. Bater ela é contra, geralmente deixa no quarto, tira celular, enfim, alguma coisa faz (P19).
O “bater em determinadas situações” ainda foi citado como um dilema, situações que dependem do senso de justiça e injustiça, defesa e ataque, que se relacionam com valores pessoais e familiares:
[...] se a outra criança bater na minha filha, eu bateria na minha filha, porque alguma coisa ela fez, então vou educar ela, batendo nela (P20).
Houve ainda dúvidas em relação à questão de revidar ou não quando acontece uma agressão:
Uma mãe falou para mim que ela incentiva a filha dela a revidar, porque o filho dela mais velho, de 15 anos, foi “saco de pancada” na escola e ela não quer que aconteça a mesma coisa com a menina dela, que tem 8 anos hoje, então ela ensina que qualquer coisa que fizer é para a menina fazer a mesma coisa (P19).
Outro dilema no processo da educação parental foi como ter paciência, pois a educação é um processo longo e repetitivo, já que a criança não entende tudo na primeira vez:
Eu acho que a dificuldade é sempre estar ali batendo na mesma tecla, porque às vezes é uma palavra, igual com meu filho que não é acostumado a ouvir, daí você tem que estar sempre batendo na mesma tecla, até eles entenderem (P9).
Em relação aos desafios, os profissionais relataram dificuldade durante o atendimento para abordar o tema violência antes de explicar o guia e também em interferir quando se iniciava uma discussão sobre práticas disciplinares não recomendadas.
Para alguns profissionais que trabalham diretamente com as famílias participantes de um programa social de maneira voluntária, houve receio em utilizar o guia em sua totalidade de maneira inicial por temerem sua saída. Trata-se de um tema delicado e, dependendo da abordagem, os pais/cuidadores podem interpretar como uma atitude invasiva na forma como educam e punem seus filhos:
*A gente não tem como interferir muito, sabe? Esse informativo (panfleto) foi feito de forma abrangente, para todos, como orientação. Se a família percebe que a gente está querendo palpitar ou falar que ela está fazendo errado, não gostam e falam: “oh,* não quero mais você aqui” (P1).
Em contrapartida, alguns entrevistados trouxeram também as dificuldades em lembrar tudo na hora de aplicar e não conseguir aplicar na prática o que aprenderam:
Não dá para gente lembrar tudo, mas um pouco dá para gente continuar aplicando, o livro a gente tem que ler, reler e ler de novo, a gente sempre vai consultando (P9).
Mesmo diante da pontuação destes dilemas, afirmaram gostar do guia, considerando-o “legal” e “interessante”, válido para orientar os pais/cuidadores. Houve também uma boa aceitação dos pais/cuidadores participantes durante o uso do guia pelos profissionais, e demonstraram muito interesse pelo material.
Discussão
Os programas que auxiliam os pais a desempenharem o papel parental são centrais para cumprir os objetivos dos serviços de proteção à criança, sendo recomendados como estratégias relevantes para prevenir o abuso infantil(10,22). Também estimulam práticas parentais saudáveis, colaboram para a mitigação da violência e fortalecem o objetivo 16 dos ODS, que visa à promoção da paz, justiça e instituições eficazes(2).
No Brasil, crianças em situação de desigualdade social enfrentam riscos de violência devido a fatores como baixo status socioeconômico, privação de educação, alimentação e saúde(23). Nesse estudo, o Programa mostrou-se inovador no cotidiano de trabalho e a linguagem fácil favoreceu o seu uso com famílias vulneráveis atendidas no CRAS. Um ensaio clínico em Nashville (EUA) também evidenciou resultados semelhantes com famílias de baixa renda(15).
Houve aprendizado sobre os tipos de violência e como abordá-los, redirecionando comportamentos agressivos para positivos, como usar o pé para chutar uma bola em vez de um colega. Atos como morder, empurrar, puxar cabelo e bater são relacionados à imaturidade e devem ser moldados para a regulação emocional da criança(24). Os pais, como moduladores do comportamento, devem auxiliar a autorregulação da criança(25). Ensiná-las amavelmente sobre as suas atitudes aumenta as chances de sucesso educativo(11), interferindo diretamente na relação do microssistema(6), promovendo uma mudança que pode resultar em atos saudáveis. Pois, desobedecer, mentir, gritar, morder e agredir podem evoluir para um transtorno de comportamento antissocial, violência interpessoal e a criminalização na adolescência(26-27).
Os profissionais do presente estudo destacaram sobre explicar o “por que não”, entendendo que a criança está em desenvolvimento e precisa desse diálogo. Essa atitude educadora alinha-se à literatura, que recomenda o uso de respostas curtas durante o momento disciplinar da criança, visto que o seu desenvolvimento cerebral é gradativo e o córtex pré-frontal, responsável por comportamentos de controle cognitivo, atinge a maturidade somente na vida adulta(28). Deve-se fornecer uma declaração específica e simples da ação esperada, dizendo claramente o que fazer, em vez do que não deve fazer(11,29).
Os profissionais destacaram a importância de “perguntar como a outra criança se sente” em casos de agressão entre crianças, ensinando empatia. A empatia é crucial para a autorregulação e o desenvolvimento socioemocional saudável(25). Pais devem ter estilos parentais consistentes, pois diferentes graus de controle podem impactar negativamente o desenvolvimento da empatia e favorecer comportamentos antissociais(30-31). Segundo Bronfenbrenner, no microssistema, as relações frequentes e contínuas são essenciais para um desenvolvimento saudável, reproduzindo o apreendido no mesossistema(6).
O tempo de exposição às mídias foi um tema do guia que chamou a atenção dos profissionais e está diretamente associado às dificuldades de autorregulação emocional durante o desenvolvimento da criança(32). A exposição a videogames violentos eleva o risco de dessensibilização à violência, pode aumentar a agressividade e diminuir o comportamento pró-social(33). Neste sentido, outros pesquisadores evidenciaram também que o uso problemático de mídias sociais está diretamente relacionado com os baixos níveis de proximidade entre pais e filhos(34). Além disso, na teoria bioecológica do desenvolvimento humano, todos os sistemas influenciam a formação de uma pessoa. Eles são moldados no ambiente onde a criança se encontra e se relaciona, seja direta ou indiretamente(6).
O uso do guia do Programa Brincar Legal aprimorou e contribuiu para fixar conteúdos, colocados em prática no cotidiano dos profissionais nos diferentes cenários de cuidado da criança e família. Este guia também foi considerado prático e de fácil aplicabilidade para pais colombianos, bem como houve redução significativa no uso de castigo físico e diminuição na crença de que o castigo é a melhor alternativa para educar e controlar o comportamento das crianças(8).
Os dilemas foram destacados pelos profissionais no que se refere ao processo de disciplinarização de crianças, pois ensinar a elas como se comportar é um contínuo de orientação que acontece durante meses e anos, exigindo muita paciência. Nesse contexto, evidencia-se na literatura que a maneira de educar é influenciada pelas experiências, contexto sócio-histórico-cultural, ideologia e ambiente(6). Em meio à complexidade do processo de educar uma criança, é prudente considerar a transmissão de atitudes saudáveis para que o comportamento violento não se perpetue. Para tanto, a abordagem parental positiva pode ser utilizada para o fortalecimento de fatores de proteção(35).
Em relação às dificuldades encontradas no processo de abordagem dos pais/cuidadores pelos profissionais para manejar a discussão do guia, elas podem estar relacionadas com a necessidade de maior apropriação e habilidade com o tema. Idealmente, desde o período da graduação até a educação permanente nas instituições em que atuam, a violência contra a criança ainda é um dos maiores agravos na nossa sociedade e urge implementar diferentes ações para romper a cadeia de violência.
A intolerância à violência manifestou-se nos resultados de pesquisa nacional que identificou aumento de denúncias no Disque 100, no ano de 2021, registrando 186.862 casos de violações de direitos de crianças no ambiente doméstico, sendo elas maus tratos, exposição, lesão corporal, tortura psíquica, ameaça, feminicídio, bullying, entre outras(23).
Em face da escassez de programas parentais no país voltados para a prevenção da violência contra a criança(23), destaca-se a contribuição do presente estudo. Considerando a voz de profissionais de educação e saúde sobre o guia de um programa factível para ser aplicado aos pais/cuidadores, vislumbra-se mitigar a violência contra seus filhos e, por conseguinte, ajustar atitudes intergeracionais que ainda toleram a punição física, psicológica, entre outras, para educar ou disciplinar uma criança.
Além disso, é preciso oferecer novas possibilidades para haver interrupção dos ciclos de violência que têm se perpetuado ao longo das gerações e, assim, promover a cultura da paz como estabelecido nos objetivos do desenvolvimento sustentável.
As limitações do estudo referem-se à necessidade do uso do Programa Brincar Legal em outros cenários, com novos delineamentos de pesquisa para maior aprofundamento e avaliação da sua efetividade. Pode-se tomar como exemplo a população de pais/cuidadores no contexto dos seus lares, impossibilitada no momento deste estudo devido às restrições referentes à pandemia de covid-19.
Conclusão
O Programa Brincar Legal foi visto pelos profissionais como uma ferramenta inovadora, útil, prática e com fácil linguagem. Agregou conhecimento, aprimorou práticas e facilitou a disseminação entre pais/cuidadores nos cenários de educação e saúde. Destacou-se por abordar indiretamente o tema, evitando constrangimento e promovendo uma visão educacional ampla. A principal dificuldade foi lembrar e aplicar todo o conteúdo, superável com a incorporação do guia no cotidiano.
A obtenção de um programa breve e abrangente possibilita aos profissionais obter maior segurança em suas ações, colaborando para que as instituições em que atuam sejam mais efetivas na proteção infantil, por exemplo, na atenção primária, durante as consultas de puericultura e no cuidado à saúde do escolar, visando a prevenção da violência.
Por conseguinte, o Programa contribui para a população geral e a criança, pois as práticas parentais saudáveis podem exercer influência positiva no desenvolvimento do sistema bioecológico. Sendo assim, ele também fortalece o desenvolvimento sustentável, protegendo a criança da violência, promovendo paz e instituições eficazes.
Agradecimentos
Agradecemos ao Dr. Seth J. Scholer, professor do Vanderbilt University Medical Center , pelo desenvolvimento do Play Nicely: The Healthy Discipline Program , por autorizar e nos auxiliar na tradução e adaptação transcultural desse importante programa para o Brasil.
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Como citar este artigo
Begui JR, Souza ALDM, Polita NB, Merino MFGL, Zani AV, Pimenta RA. Play Nicely Program in the prevention of violence against children: strengthening sustainable development. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2025;33:e4434 [cited ano mês dia]. Available from: URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7320.4434
Editado por
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Editora Associada:
Andrea Bernardes


