Open-access O fenômeno da segunda vítima na América Latina: uma revisão de escopo

Objetivo: mapear as evidências existentes sobre o fenômeno da segunda vítima em países latino-americanos.

Método: realizou-se uma revisão de escopo segundo as diretrizes do Joanna Briggs Institute, incluindo estudos sobre a segunda vítima entre profissionais e estudantes da área da saúde na América Latina. A busca foi conduzida nas bases Scopus, PubMed, EBSCO, ProQuest, Journal Storage, Biblioteca Virtual em Saúde e Google Scholar. Foram considerados estudos quantitativos, qualitativos, mistos, editoriais e relatos de caso, publicados entre 2014 e 2025, em inglês, espanhol e português.

Resultados: incluíram-se 25 estudos, a maioria conduzida no Brasil (52%). Os estudos concentraram-se em diversos profissionais de saúde e estudantes. As principais consequências psicológicas foram culpa, pensamentos recorrentes e distúrbios do sono. Observou-se a ausência de estudos sobre programas de apoio estruturados na América Latina.

Conclusão: o fenômeno da segunda vítima é frequente na América Latina, com predomínio do impacto psicológico entre profissionais da saúde. Ressalta-se a falta de intervenções regionais e a necessidade de programas de apoio específicos. Enfatiza-se a importância das estratégias de enfrentamento e do apoio institucional para fortalecer o bem-estar, a retenção e a cultura de segurança do paciente.

Descritores:
Estresse Psicológico; Pessoal de Saúde; Eventos Adversos; Segurança do Paciente; América Latina; Revisão de Escopo


Destaques:

(1) Segunda vítima é o profissional que se vê afetado por um evento adverso inesperado. (2) As alterações são psicológicas, físicas e no desempenho profissional. (3) As medidas de apoio provêm de colegas, supervisores e ações institucionais. (4) As estratégias de enfrentamento auxiliam na recuperação das segundas vítimas. (5) Não há publicações sobre programas de apoio a segundas vítimas na América Latina.

Objective: to map the existing evidence on the phenomenon of second victims in Latin American countries.

Method: an exploratory review was carried out according to guidelines from the Joanna Briggs Institute, including studies on the second victim phenomenon among health personnel and health students in Latin America. The search was performed on the Scopus, PubMed, Ebsco, ProQuest, Journal Storage, Virtual Health Library and Google Scholar databases. Quantitative, qualitative, mixed, editorial, and case reports published between 2014 and 2025 in English, Spanish, and Portuguese, were considered.

Results: 25 studies were included, most of them conducted in Brazil (52.0%), which focused on a range of healthcare professionals and students. The main psychological consequences included guilt, recurrent thoughts and sleep disturbances. The lack of studies on structured support programs in Latin America is a highlight.

Conclusion: the second victim phenomenon is frequent in Latin America, predominantly impacting psychological aspects on health personnel. Lack of regional interventions underscore the need for specific support programs, highligthing the importance of coping strategies and institutional support to strengthen patient well-being, retention, and safety culture.

Descriptors:
Psychological Stress; Health Personnel; Adverse Events; Patient Safety; Latin America; Scoping Review


Highlights:

(1) The second victim is the professional affected by an unexpected adverse event. (2) The alterations are psychological, physical, and related to professional performance. (3) Support measures are provided by colleagues, supervisors, and institutional actions. (4) Coping strategies contribute to the recovery of second victims. (5) There are no publications on support programs for second victims in Latin America.

Objetivo: mapear la evidencia existente sobre el fenómeno de segunda víctima en países latinoamericanos.

Método: se llevó a cabo una revisión exploratoria según lineamientos de Joanna Briggs Institute que incluyó estudios sobre la segunda víctima en personal sanitario y estudiantes de salud en Latinoamérica. La búsqueda se efectuó en las bases Scopus, PubMed, Ebsco, ProQuest, Journal Storage, Biblioteca Virtual de Salud y Google Scholar. Se consideraron estudios cuantitativos, cualitativos, mixtos, editoriales y reportes de casos, publicados entre 2014 y 2025 en inglés, español y portugués.

Resultados: se incluyeron 25 estudios, la mayoría conducidos en Brasil (52,0%). Los estudios se centraron en diversos profesionales sanitarios y estudiantes. Las principales consecuencias psicológicas fueron la culpa, pensamientos recurrentes y alteraciones del sueño. Destacó la falta de estudios de programas de apoyo estructurados en Latinoamérica.

Conclusión: el fenómeno de segunda víctima es frecuente en Latinoamérica, con predominio del impacto psicológico en el personal sanitario. Resalta la falta de intervenciones regional y la necesidad de programas de apoyo específicos. Se subraya la importancia de estrategias de afrontamiento y apoyo institucional para fortalecer el bienestar, la retención y la cultura de seguridad del paciente.

Descriptores:
Estrés Psicológico; Personal de Salud; Evento Adverso; Seguridad del Paciente; América Latina; Revisión de Alcance


Destacados:

(1) Segunda víctima es el profesional que se ve afectado por un evento adverso imprevisto. (2) Las alteraciones son psicológicas, físicas y en el desempeño profesional. (3) Las medidas de apoyo están dadas por colegas, supervisores y acciones institucionales. (4) Las estrategias de afrontamiento ayudan a la recuperación de las segundas víctimas. (5) No hay publicaciones de programas de apoyo a segundas víctimas en Latinoamérica.

Introdução

Prevê-se que, até 2030, haverá um déficit estimado de 18 milhões de trabalhadores da saúde, predominantemente em países de baixa e média renda(1-2). Esse problema é atribuído principalmente ao envelhecimento populacional, ao aumento da demanda por cuidados e ao crescimento das doenças crônicas(3). Ademais, a escassez de profissionais foi agravada pelas 115 mil mortes de trabalhadores da saúde ocasionadas pela pandemia de COVID-19 e pela migração internacional desses profissionais para países de alta renda, perpetuando desigualdades no acesso e na qualidade da assistência em regiões de menores recursos, como a América Latina(1-2). Em países de média e baixa renda, os sistemas de saúde frequentemente operam sob condições laborais precárias, que incluem sobrecarga de trabalho, baixos salários e ambientes inseguros, fatores que agravam a escassez e a rotatividade do pessoal quando comparados a países de alta renda(1-2). Assim, nesses contextos, é fundamental promover a formação de profissionais de saúde e oferecer melhores condições de trabalho, como remuneração justa, ambientes seguros, apoio emocional e oportunidades de desenvolvimento profissional, de modo a favorecer sua permanência nas funções(1-2).

O reconhecimento do fenômeno da segunda vítima (SV) desempenha papel crucial na retenção de profissionais da saúde, já que diversos estudos demonstram que ser uma SV prediz significativamente o absenteísmo e o aumento da intenção de deixar o trabalho(4-5). O termo refere-se ao profissional que vivencia alterações emocionais e/ou físicas após envolver-se em um evento adverso (EA)(6-8). As principais manifestações incluem distúrbios do sono, vergonha, culpa, depressão e desejo de abandonar a profissão(7-9), podendo evoluir para quadros mais graves, como estresse pós-traumático(10-11), ideação suicida(7 , 12) e uso excessivo de substâncias(13-14). Apesar dos múltiplos esforços implementados para prevenir EA durante a assistência à saúde(15), eles continuarão a ocorrer, e é essencial conhecer a prevalência e as características desse fenômeno a fim de elaborar estratégias que promovam a resiliência dos profissionais e evitem o abandono da prática.

A literatura sobre SV está concentrada majoritariamente na Ásia(16-18), nos Estados Unidos da América (EUA)(8-9 , 19-20) e na Europa(6 , 8 , 11 , 21-22), onde a prevalência varia entre 25% e 45,2%(8 , 23). Na América Latina, região com uma das maiores carências de pessoal de saúde(2), não se identificam revisões que sintetizem as evidências disponíveis sobre o tema. Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), as desigualdades no acesso e na qualidade da atenção geram ambientes de trabalho que intensificam as dificuldades enfrentadas pelos sistemas de saúde(24). Em consonância, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) destacou recentemente que a escassez crônica de profissionais na região é agravada por precariedade laboral, ausência de apoio psicossocial e limitada segurança psicológica no trabalho, fatores que comprometem a retenção dos profissionais(25). O absenteísmo e o abandono decorrentes do fenômeno da SV(4) ampliam ainda mais a escassez de trabalhadores qualificados, agravando os desafios operacionais dos sistemas de saúde latino-americanos. Nesse cenário, tornar visível esse fenômeno no contexto sociocultural local é um passo essencial para gerar dados oficiais sobre sua magnitude, subsidiando políticas voltadas à retenção de profissionais e à criação de ambientes de trabalho com maior segurança emocional e psicológica. Além disso, uma busca preliminar nos registros internacionais de protocolos de revisão, Open Science Framework (OSF) e PROSPERO, não identificou estudos publicados ou registrados com enfoque semelhante. Este fato evidencia a ausência de antecedentes sistematizados e justifica a relevância desta revisão. O objetivo do estudo é mapear as evidências existentes sobre o fenômeno da segunda vítima em países latino-americanos. Assim, espera-se identificar lacunas de pesquisa e oferecer subsídios para a formulação de políticas e programas de intervenção mais precisos e contextualizados.

Método

Tipo de estudo

Realizou-se uma revisão de escopo conforme o guia do Joanna Briggs Institute (JBI)(26) e o relatório PRISMA-ScR 2020 (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews)(27). As revisões de escopo, ou scoping reviews, buscam mapear e resumir a evidência, identificando lacunas de conhecimento ou de pesquisa(26), sendo uma metodologia adequada para avaliar, compreender e mapear a extensão de um determinado corpo de conhecimento. Este estudo buscou apresentar a evidência do fenômeno de SV no contexto latino-americano. O protocolo desta revisão foi registrado na OSF sob o título: “Second victim in Latinoamérica“(28).

Pergunta de pesquisa

A pergunta foi estruturada com base no modelo população, contexto e conceito (PCC)(26). Em relação à população (P), foram incluídas publicações que abordaram profissionais de saúde afetados por um EA ou erro médico não intencional, atuantes em qualquer área do sistema de saúde, incluindo também estudantes. O contexto (C) restringiu-se a publicações cujos participantes eram da América Latina, ou seja, países do continente americano que utilizam línguas derivadas do latim (espanhol, português ou latim)(29). O conceito (C) de SV adotado nesta revisão foi o proposto pelo grupo ERNST (The European Researchers’ Network Working on Second Victim), ou seja, qualquer trabalhador da assistência que apresente impacto negativo por estar envolvido, direta ou indiretamente, em um evento adverso imprevisto, erro médico involuntário ou lesão do paciente(30). Assim, a pergunta que orientou esta revisão foi: que evidência existe na literatura sobre o fenômeno da segunda vítima em profissionais e estudantes das ciências da saúde em países latino-americanos, segundo a definição proposta pelo grupo ERNST?

Critérios de elegibilidade

Incluíram-se estudos quantitativos, qualitativos, de métodos mistos, editoriais e relatos de caso. Também foram consideradas teses quando continham coleta de dados em campo. Excluíram-se relatos de conferências, resumos de congressos e sínteses de notícias. As revisões prévias identificadas não foram incluídas como fontes primárias de dados, pois o objetivo era mapear a literatura original. Seguindo as diretrizes do JBI(31), essas revisões foram utilizadas apenas como insumo complementar para a discussão e para verificar referências de estudos potencialmente relevantes não detectados na busca inicial. O período de análise compreendeu publicações entre 2014 e 2025, escolhido de modo a abranger um marco temporal suficientemente recente para garantir a inclusão da literatura mais atual e pertinente sobre a temática investigada.

Estratégias de busca

A estratégia de busca seguiu o enfoque de três fases recomendado pelo JBI(31). Primeiramente, realizou-se uma busca inicial limitada em bases de dados relevantes (PubMed e Scopus) com o objetivo de identificar palavras-chave e termos de indexação. Em seguida, desenvolveu-se uma segunda fase que ampliou a busca incorporando esses termos em todas as bases de dados mencionadas. Por fim, procedeu-se a uma terceira fase que consistiu na análise das listas de referências dos estudos recuperados, a fim de localizar fontes adicionais.

Entre setembro e outubro de 2024, com atualização em julho de 2025, realizou-se a busca em sete bases de dados eletrônicas: Scopus, PubMed, EBSCO, ProQuest, Journal Storage (JSTOR), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Google Scholar. Os descritores utilizados foram “segunda vítima” AND “evento adverso” OR “erro médico”. Em todos os casos, adicionou-se o contexto para restringir a busca às publicações latino-americanas. Por meio da afiliação dos autores, foram aplicados os termos “Latinoamerican” e, com o operador OR, cada um dos nomes dos países estudados: Argentina, Chile, Uruguai, Brasil, Colômbia, Bolívia, Paraguai, Peru, Equador, Venezuela, Costa Rica, Cuba, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá, Porto Rico, República Dominicana e México. Finalmente, a busca foi limitada a publicações entre os anos de 2014 e 2025. A estratégia de busca está apresentada na Figura 1.

Figura 1
Estratégias de busca empregadas. Buenos Aires, Argentina, 2025

Seleção dos artigos

Os resultados da busca foram importados para a plataforma Covidence. Este é um software de colaboração baseado na web que agiliza a produção de revisões sistemáticas e de outro tipo de literatura(32). Três pesquisadores de forma independente checaram os títulos e resumos tendo em conta os critérios de inclusão. Posteriormente, dois pesquisadores de forma independente avaliaram os textos completos selecionados com base nos critérios estabelecidos. Quando os pesquisadores estiveram em desacordo, um terceiro revisor deliberou uma solução. Os três avaliadores contavam com formação na metodologia utilizada, além de ter antecedentes de pesquisa sobre o fenômeno de SV e contar com experiência assistencial prévia e conhecimento dos sistemas de saúde. A informação foi compilada no diagrama PRISMA-ScR(27).

Extração de dados e síntese

Usando a plataforma Covidence, os dados foram extraídos de forma independente por dois revisores. A extração de dados incluiu a seguinte informação: Informação geral (ano, país onde se desenvolveu o estudo, tipo de publicação, tipo de estudo, objetivo geral), além de dados do contexto da publicação (participantes-número e características: profissão, âmbito de exercício profissional), as consequências nos profissionais, as medidas de suporte recebidas e as estratégias de enfrentamento reportadas. Todos os artigos incluídos passaram pelo processo de extração de dados. Não se realizou uma análise de qualidade dos artigos incluídos, de acordo com a metodologia estabelecida pelo JBI para revisões de alcance(26). Os resultados estão resumidos nas Tabelas 1 e 2 e na Figura 3 e se apresentam utilizando uma abordagem narrativa para dar resposta ao objetivo desta revisão.

Aspectos éticos e uso de Inteligência Artificial

Esta pesquisa seguiu os princípios da Declaração de Helsinki para pesquisa. Os autores declaram o uso de ChatGPT-4 para a ordem das referências, segundo as instruções da revista, e para resumir alguns parágrafos muito extensos. A criação e edição de todo o manuscrito é exclusiva dos autores.

Resultados

Foram importados 254 artigos, dos quais 39 foram eliminados por serem duplicados. Examinou-se título e resumo dos 215 documentos restantes, sendo excluídos 177 por não cumprirem os critérios de inclusão. Posteriormente, realizou-se a leitura em texto completo dos artigos restantes e foram excluídos 13, sobrando finalmente 25 estudos. A Figura 2 apresenta o fluxograma de seleção dos estudos.

Figura 2-
Fluxograma da seleção dos estudos. Buenos Aires, Argentina, 2025

Características dos estudos

A Tabela 1 apresenta as características gerais dos estudos: 52% deles foram conduzidos no Brasil (n=13)(33-45). A população de estudo caracteriza-se principalmente por incluir diferentes profissionais de saúde no mesmo trabalho (36%; n=9)(36 , 41 , 46-52) ou exclusivamente pessoal de enfermagem (40%; n=10)(35 , 37-39 , 42-44 , 53-55), e dois estudos enfocam estudantes de enfermagem como SVs(40 , 45). Observa-se um aumento de publicações a partir de 2022 (Tabela 1).

Tabela 1-
Características dos estudos. Buenos Aires, Argentina, 2025

Dos estudos incluídos, 44% (n=11) correspondem a pesquisas de enfoque quantitativo. Dos 11 estudos quantitativos(36 , 41 , 43-44 , 46-50 , 53 , 55), sete utilizaram o instrumento SVEST (Second Victim Experience and Support Tool) como ferramenta de coleta de dados(35 , 40 , 44 , 46-47 , 53 , 55), outros dois desenvolveram instrumentos ad hoc e os dois restantes(43 , 48) adaptaram instrumentos preexistentes para fins próprios(49-50). Dez dos 11 estudos quantitativos investigaram o autorrelato do próprio profissional de saúde como SV(40 , 43-44 , 46 , 48-49 , 52-53 , 55), o outro abordou a experiência de terceiros no ambiente de trabalho(50). Encontrou-se uma publicação que oferece um Guia Nacional(52) para o atendimento às SVs e não foi identificado nenhum estudo que relatasse programas de atenção destinados a elas.

Segunda vítima: consequências, estratégias de enfrentamento e apoio percebido

Os resultados dos estudos são apresentados em três dimensões: as consequências nas segundas vítimas, as estratégias de enfrentamento e as medidas de apoio percebidas pelos profissionais. A Figura 3 mostra os artigos incluídos nesta revisão.

Figura 3
– Descrição dos artigos segundo país, ano, autor, tipo de publicação, abordagem, objetivo, população, tamanho da população e principais resultados. Buenos Aires, Argentina, 2025

Como mencionado, sete artigos empregaram o SVEST como instrumento de mensuração objetiva do fenômeno de SV(36 , 41 , 44 , 46-47 , 53 , 55). Um deles apenas relata dados de validação do instrumento e não inclui estatísticas descritivas(41). O relatório dos resultados descritivos dos cinco estudos restantes que utilizaram o SVEST encontra-se na Tabela 2, faltando um estudo que não apresenta média por dimensão(44). Em todos os casos predominam as consequências psicológicas, como culpa e vergonha. Nas medidas de suporte, nos estudos do Chile, o apoio dos colegas ocupa o primeiro lugar(47 , 53). A intenção de absenteísmo e abandono apresenta as menores pontuações médias em todos os estudos que aplicaram o SVEST, em relação às demais dimensões (Tabela 2). Destaca-se que, em um desses estudos, 80% dos participantes não conheciam o termo segunda vítima(53).

Tabela 2-
Relato das pontuações do SVEST* dos estudos. Buenos Aires, Argentina, 2025
Consequências nas segundas vítimas

Entre as consequências apresentadas pelas SVs encontra-se o dano emocional-psicológico, relatado em todos os estudos. Os sentimentos predominantes são culpa e angústia(35 , 41-44 , 46 , 49-50 , 56-57). Nos relatos que utilizam o SVEST, predomina o impacto psicológico, e a culpa é um dos itens dessa dimensão que prevalece em vários estudos(44-47 , 53). A culpa surge pelo possível dano que o paciente poderia ter sofrido(42 , 57), bem como pela ausência de ação para prevenir o erro(34). Os sentimentos de culpa também aparecem quando o incidente envolve a equipe, devido ao senso de responsabilidade coletiva(42). Sentimentos negativos em relação ao processo de judicialização decorrente do EA também são relatados(34). Ademais, observam-se pensamentos recorrentes(37 , 51 , 53), insegurança para realizar tarefas rotineiras(42-43 , 48 , 51 , 57), sensação de incapacidade para continuar trabalhando(57) ou se concentrar(42 , 49), medo de cometer novo erro(43 , 50-51), incerteza laboral(43 , 56) e profissional(42 , 49). Destaca-se ainda o medo de estigmatização(42 , 51 , 57), que leva os profissionais a temerem perda de prestígio(50) e a adotarem medidas adicionais de segurança nas tarefas diárias(51). Manifestações físicas, como alterações do sono (insônia ou pesadelos), também foram relatadas(51 , 57) .

Estratégias de enfrentamento ou reações das segundas vítimas

Um dos resultados marcantes é a aprendizagem após o EA(51 , 57). Autores(42) mencionam que, após se envolverem em um EA, os profissionais relataram necessitar tempo para refletir, período útil para aliviar o questionamento interno e recuperar a confiança, evitando novos incidentes semelhantes. Outros autores destacam que os gestores valorizaram a formação das SVs como estratégia de apoio(37), mediante educação continuada e análise de incidentes, o que oferece oportunidades de aprendizagem. Na Argentina, relata-se a experiência das SVs como um processo em que os profissionais se mobilizam para remediar a situação, aprender com o evento e apoiar colegas em situações semelhantes(51,57).

Medidas de apoio relatadas

O apoio familiar e de pessoas próximas é apontado como importante(46). Observa-se também que grande parte do suporte laboral(43 , 46 , 55-56), proveniente de colegas, superiores ou da própria instituição, é de grande ajuda para enfrentar o evento(54). O apoio entre colegas foi o mais valorizado pelos profissionais no Chile que utilizaram o SVEST(47 , 53). No Brasil, informa-se que o apoio individual ocorre muitas vezes entre colegas e parece ser facilitado por vínculos prévios, promovendo acolhimento e reduzindo o sentimento de julgamento(36). Em alguns casos, contudo, o apoio de chefias não foi bem recebido(54), havendo tentativas de ocultar o erro. Assim, algumas medidas institucionais são consideradas inadequadas ou insuficientes(36 , 43) e em certos casos foram relatadas ações punitivas(40 , 43).

O ambiente laboral está imerso em uma cultura institucional(35 , 57). Em um estudo brasileiro, estudantes perceberam cultura educativa deficiente e falta de formação em segurança do paciente(40). Outro trabalho ressalta que a cultura de segurança é pilar fundamental para estratégias de apoio às SVs(39). Sentimentos de culpa também podem ser reforçados pela cultura institucional(42).

Quando não há apoio institucional, sentimentos negativos tendem a perdurar(38 , 42). Os estudos relatam necessidade de apoio estruturado com protocolos ou procedimentos definidos(37), e até a possibilidade de suporte em saúde mental externo à instituição(38). O desenvolvimento de um programa de atenção às SVs foi altamente valorizado pelos participantes de um estudo argentino, que destacaram acolhimento, escuta e espaço de reflexão(36).

No Brasil, gestores de serviço reconheceram a condição emocional decorrente do erro como passo essencial para construir estratégias de apoio nas instituições(39). O acolhimento ocorre quando o gestor reconhece a dimensão emocional da SV e busca compreender o ocorrido mediante diálogo, escuta ativa e entrevista(40), baseando-se na empatia e em enfoque sistêmico orientado à solução, e não à culpabilização(40). Também se valoriza a busca de apoio psicológico por parte dos supervisores(39). Outros autores relatam que os participantes ressaltaram a importância de poder recorrer a ajuda profissional após um EA(48-49). Por outro lado, alguns sentiram-se desprotegidos por instituições e associações profissionais(35).

Discussão

A evidência sobre o fenômeno da SV na América Latina mostra semelhanças e diferenças importantes em comparação com outras regiões do mundo. Quanto às semelhanças, os estudos incluídos nesta revisão identificaram que o pessoal de saúde da região experimenta predominantemente sentimento de culpa, pensamentos recorrentes e alterações do sono, o que concorda com achados descritos na Ásia(16 , 18-19), nos EUA(8 , 20) e na Europa(8 , 21-22). No entanto, diferentemente dessas regiões, na América Latina não se encontrou evidência sobre o desenvolvimento e a avaliação de programas de intervenção destinados a apoiar as SV, o que reflete uma lacuna regional relevante.

Nesta revisão também se destaca que a maior quantidade de estudos sobre SV na América Latina foi desenvolvida no Brasil, o que pode ser explicado porque a maioria das pesquisas no campo da segurança do paciente nos últimos 20 anos se concentrou nesse país(58).

Em relação às consequências do fenômeno da SV, os estudos incluídos nesta revisão mostram um predomínio do impacto psicológico nos profissionais de saúde da América Latina após enfrentar um EA. Os sintomas que mais comumente se geram depois de um EA nos profissionais são culpa(35 , 38 , 46 , 50 , 53) e pensamentos recorrentes(35 , 39 , 51 , 57). Esse resultado é similar ao relatado por outras investigações em outros países(8 , 59-60), nos quais predominam a culpa e a angústia como sintomas das SV. Uma metanálise encontrou ansiedade e preocupação (76%, IC 95% = 33-95), assim como ira (75%, IC 95% = 59-86), entre os sintomas mais frequentes das SV(8). Do mesmo modo, o medo, a vergonha e a culpa também predominaram em mais de 50%(8). A razão disso pode residir no profundo senso de responsabilidade ao ter pacientes sob seus cuidados. Por exemplo, um estudo qualitativo destaca que, quando a responsabilidade pelo erro é do próprio profissional, maior é a percepção de gravidade do EA(61). Esse sentimento de culpa pode ser gerado pela empatia que naturalmente se desenvolve no cuidado(35 , 45 , 51), assim como porque os profissionais são formados sob a premissa do princípio da não maleficência(62).

Os pensamentos recorrentes como um sintoma persistente podem afetar a segurança do paciente, já que reduz a autoeficácia profissional e favorece novos EA(35 , 39 , 51 , 54). Isso coincide com revisões anteriores em outros contextos geográficos. Assim, uma metanálise demonstrou que as lembranças perturbadoras predominavam em 81% dos participantes dos estudos incluídos(8). Além disso, uma revisão sistemática determinou que, em enfermeiras de UTI, 20% demoravam mais de um ano para se recuperar do fenômeno de SV, ou não se recuperavam completamente(60). Em consequência, alguns autores recomendam que, após um EA grave, os profissionais sejam temporariamente afastados das funções clínicas para reduzir a probabilidade de novos erros(63).

Em relação aos sintomas físicos, nesta revisão identificou-se a perturbação do sono como o sintoma mais prevalente(36 , 43-44 , 53), o que também foi documentado em outras investigações internacionais(8 , 59). A falta de sono pode agravar ainda mais os sintomas psicológicos do fenômeno de SV, intensificar a ansiedade(64), afetar a concentração e tornar-se um fator de risco adicional para novos EA(64).

Quanto às estratégias de enfrentamento, os estudos latino-americanos destacam o papel do apoio dos pares como um recurso-chave para superar o fenômeno(38-39 , 47 , 53), refletindo que os profissionais buscam a aprovação de seus colegas após um EA(38 , 54). De maneira complementar, uma revisão de escopo evidencia que, ao implementar estratégias organizacionais de enfrentamento, as instituições demonstram um compromisso com o bem-estar do pessoal de saúde e, com isso, o fortalecimento de uma cultura orientada à segurança do paciente(20).

Em relação aos programas de apoio às SV, esta revisão destaca que, na América Latina, não foram encontrados esforços concretos de implementação de programas de suporte. Esboçaram-se guias(52), mas sua efetividade ainda não foi avaliada. Em contrapartida, nos EUA e na Europa, não apenas foram avaliadas a estrutura e o impacto dos programas de apoio às SV(20 , 65), como também foi demonstrada sua eficiência econômica para os sistemas de saúde. Por exemplo, um estudo realizado na Alemanha evidencia que o programa de suporte entre pares pode gerar uma economia anual de mais de 6 milhões de euros para o hospital, ao reduzir custos associados ao absenteísmo e à rotatividade do pessoal(66). Por outro lado, nos EUA, as pesquisas mostram que o sucesso de um programa de suporte às SV reside na fidelização dos voluntários e na sustentabilidade do programa ao longo do tempo(65 , 67). No entanto, vários estudos mencionam a importância do apoio institucional como parte da recuperação das SV(38-39 , 47-48 , 53).

Uma revisão recente identificou que os programas e serviços de apoio, presentes em 37 estudos (implementados predominantemente nos EUA e na Espanha), caracterizam-se por oferecer acompanhamento imediato e estruturado aos profissionais após um EA. Entre os mais destacados figuram o forYOU, que oferece apoio em três níveis segundo a gravidade do impacto; o Medically Induced Trauma Support Services (MITSS), uma organização sem fins lucrativos que fornece assistência emocional e jurídica; e o Resilience in Stressful Events (RISE), que utiliza equipes multidisciplinares para oferecer suporte no próprio local de trabalho(21). Em conjunto, essas iniciativas priorizam a intervenção precoce, a confidencialidade e o apoio entre pares, contribuindo para reduzir o estigma e o absenteísmo e favorecendo a retenção laboral. A mesma revisão assinala que, no Brasil, não foram encontrados estudos que abordassem estratégias de apoio para as SV, o que reforça a ausência de estudos latino-americanos sobre programas de atenção às SV(21). Outra revisão acrescenta que os programas incluem também ferramentas para a comunicação com pacientes e famílias e um enfoque explicitamente não punitivo(61). Embora o apoio entre pares seja um aspecto muito valorizado pelos programas, mostra-se insuficiente como solução única(21 , 63). A cultura institucional é um fator mediador crítico, pois a percepção de apoio organizacional influencia a participação e a recuperação(65). Assim, uma revisão constatou que o apoio institucional mostrou melhorias significativas nos estudos que utilizaram o SVEST para medir a eficácia das intervenções propostas(65).

Esses achados contrastam com a ausência de intervenções estruturadas na América Latina e reforçam a urgência de adaptar esses modelos, considerando as limitações de recursos que predominam na região. Isso pode ser explicado pelo fato de que a América Latina enfrenta desafios adicionais para garantir suporte aos profissionais de saúde, devido à falta de recursos e às condições de trabalho mais precárias(43), e porque o fenômeno de SV foi estudado de forma mais tardia. Nesse sentido, o primeiro estudo relatado na América Latina data de 2018(55), quando, já em 2013, autores haviam apresentado uma revisão com estudos primários de SV em países europeus, nos EUA e em Israel(59).

Este estudo se destaca por seu enfoque regional, pela metodologia rigorosa e diversidade de fontes, preenchendo uma lacuna importante na literatura e identificando outras lacunas de pesquisa existentes. A qualidade metodológica dos estudos incluídos não foi avaliada formalmente, em conformidade com o proposto pelo guia do JBI para revisões de escopo. Por outro lado, entre as limitações, destaca-se que, devido ao fato de o conceito de SV ser um termo relativamente novo na literatura, é possível que exista evidência não capturada pela estratégia de busca utilizada ou artigos não incluídos devido à restrição de idiomas aplicada nesta revisão. Além disso, é importante assinalar que alguns dos estudos incluídos corresponderam a pesquisas de validação do instrumento SVEST, portanto, os dados foram gerados em contextos projetados principalmente para avaliar propriedades psicométricas do instrumento, e a informação obtida a partir desses estudos deve ser interpretada com cautela. Finalmente, a heterogeneidade da população incluída nos estudos, juntamente com a ausência de informação sobre a área de especialidade dos profissionais, limita a possibilidade de identificar com precisão as particularidades do fenômeno nas diferentes profissões e especialidades da saúde. No entanto, os achados evidenciam que se trata de uma realidade presente em todos os âmbitos da atenção em saúde.

Conclusão

Este estudo fornece uma visão integral do fenômeno de SV na América Latina, destacando o predomínio do impacto psicológico significativo no pessoal de saúde, assim como em outras regiões do mundo. Apesar da falta de estudos de intervenção na região, os achados ressaltam a necessidade urgente de desenvolver e adaptar programas de apoio específicos. A implementação de estratégias de enfrentamento eficazes e o fortalecimento do apoio institucional são cruciais para melhorar o bem-estar e a retenção do pessoal de saúde, o que não implica maior endividamento do sistema, mas sim a capacidade de organizar as equipes para oferecer o suporte necessário às SV e gerar um ambiente de segurança psicológica que favoreça a contenção e uma melhor cultura de segurança do paciente.

Agradecimentos

Agradecemos à Biblioteca da Faculdade de Ciências Biomédicas da Universidade Austral pela sua colaboração na aquisição dos artigos e nas estratégias de busca empregadas.

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  • Declaração de Disponibilidade de Dados
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  • Como citar este artigo
    Brunelli MV, Fajreldines AV, Catalán L, Kappes M. The second victim phenomenon in Latin America: a scoping review. Rev. Latino-Am. Enfermagem. [cited]. Available from: https://doi.org/10.1590/1518-8345.7978.4828

Editado por

  • Editora Associada:
    Maria Lúcia Zanetti

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    25 Mar 2025
  • Aceito
    04 Out 2025
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