Open-access Práticas Integrativas e Complementares no Sistema Único de Saúde: avanços e desafios

O artigo de Melo et al.1 publicado no volume 26 desta revista mostrou que a musicoterapia, uma das Práticas Integrativas e Complementares (PIC) recentemente inserida no Sistema Único de Saúde (SUS)2, foi significativa na redução da ansiedade de pacientes crônicos. No tocante ao cuidado de enfermagem com musicoterapia, o número de pesquisas é limitado, entretanto o uso da musicoterapia pela enfermagem, bem como de outras PIC, têm sido incentivados nacional e internacionalmente1,3.

Apesar da recomendação local e global da oferta das PIC, nos sistemas nacionais de saúde4, o tema ainda é bastante controverso, com defensores e detratores. No Brasil, desde 1985, documentos, resoluções e eventos marcaram o processo de regulamentação dessas práticas e em 2006; após intenso trabalho de diferentes agentes individuais e institucionais, foi publicada a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC)5. Antes da sua publicação foi realizado um diagnóstico situacional sobre as PIC ofertadas no SUS nos municípios brasileiros, para identificação das Práticas mais comuns e de maior viabilidade de implantação. Dessa maneira, em 2006, tornaram-se parte do SUS: Racionalidade Médica Homeopática, Racionalidade Médica Tradicional Chinesa/Acupuntura, Racionalidade Médica Antroposófica, Fitoterapia/plantas medicinais e Termalismo.

Ao longo desses 12 anos o processo de institucionalização da PNPIC foi dificultado pela falta de coordenação nacional oficial da Política no âmbito do Ministério da Saúde e pela inexistência de dotação orçamentária para a sua implantação e implementação. No dia 12 de março passado o Ministro da Saúde criou a coordenação nacional da PNPIC no âmbito da Diretoria de Atenção Básica, da Secretaria de Assistência à Saúde. Trata-se de uma realização histórica, porém com pouco para ser comemorado, dado o fato de que até o momento a coordenação nacional não foi regulamentada e se observam muitas lacunas de informação sobre, por exemplo, o processo de inclusão de 14 Práticas em março de 20172)e a inclusão de outras 10 Práticas em março de 2018.

Sabe-se que dados do Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ) são citados para justificar a implantação dessas 24 práticas, porém não há nova diretriz na atual edição da PNPIC5que detalhe os critérios preconizados naEstrategia de la OMS sobre medicina tradicional 2014-20234. Os desafios da implementação das PIC nos sistemas de saúde não são exclusividade brasileira; além disso, uma pesquisa realizada em 39 países europeus mostrou que 70% deles não possui regulamentação específica sobre as PIC6.

O compromisso com a pluralidade terapêutica no SUS e sua oferta segura, eficaz e de qualidade leva-nos a questionar a forma e o conteúdo da inserção das novas práticas no SUS. O suposto avanço recente da PNPIC parece mais uma ameaça às PIC e nesse contexto revestido de desafios observa-se a necessidade política e científica de discutir a implementação em curso e a relevância das PIC como modelo de cuidado integrativo no SUS.

Referências bibliográficas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    2018

Histórico

  • Recebido
    25 Abr 2018
  • Aceito
    28 Maio 2018
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