Open-access “Retém o instante, desconfia da memória”: a crítica genética de Telê Ancona Lopez

“Retain the moment, distrust memory”: Telê Ancona Lopez’s genetic criticism

RESUMO

Entende-se por “crítica genética” um método de trabalho crítico inicialmente produzido pela expansão do espaço hermenêutico textual de modo a abrigar os vestígios do seu processo de criação: manuscritos, anotações, planos, esboços - chamados de “pré-textos”. O desenvolvimento de tal concepção deriva de um conjunto de processos históricos, plurinacionais e, com frequência, independentes. Este artigo busca identificar e debater a decorrência de tais processos no Brasil por meio do pensamento e da atuação de Telê Ancona Lopez, reconhecendo ao mesmo tempo suas contribuições para uma genética francesa e sua leitura de teóricos estrangeiros como brecha para a transformação dos pressupostos locais.

PALAVRAS-CHAVE
Crítica genética; historiografia literária; circulação da teoria.

ABSTRACT

Genetic criticism, initially defined as a critical methodology that extends textual hermeneutics to encompass “pre-texts” - manuscripts, notes, plans, and sketches - emerged from diverse historical processes occurring across multiple nations, often independently. This analysis examines the evolution of these processes within the Brazilian context, particularly focusing on the work of Telê Ancona Lopez. It acknowledges the contribution of French genetic criticism and the role of foreign theorists in prompting a reevaluation of local assumptions.

KEYWORDS
Genetic criticism; literary history; circulation of theory.

A consideração da crítica genética como teoria plurinacional, sujeita às especificidades locais, transforma o modo de se pensar a sua história; a crítica genética nasceu, afinal, mais de uma vez. Embora sua origem seja recorrentemente apontada como francesa, descendente direta da fundação, em 1982, do Instituto de Textos e Manuscritos Modernos de Paris2 , é possível identificar um conjunto de histórias paralelas ou mesmo prévias ao desenvolvimento francês do trabalho metodológico sobre a escrita nos estudos literários3. A valorização progressiva dos processos de escrita em contexto crítico se dá de maneiras distintas em espaços intelectuais distintos.

Se na França os manuscritos de Heinrich Heine desencadeiam tal processo de expansão do campo hermenêutico, no Brasil é com Antonio Candido, primeiro, e sobretudo com Telê Ancona Lopez, mais tarde, que a disciplina se enraíza, a partir de um horizonte metodológico próprio.Mesmo na França, deve-se notar, Michel Espagne já destacava uma genealogia consistente e mapeável a partir do pensamento alemão - o que Louis Hay, um dos grandes expoentes do pensamento genético europeu, rejeita enfaticamente. Se para Espagne (1992, p. 31; p. 32 - tradução minha) “as categorias epistemológicas que permitiriam classificar os manuscritos de escritores [...] só poderiam ser emprestadas da filologia antiga ou medieval”, assim como “uma série de instrumentos epistemológicos de crítica genética estavam disponíveis na própria França há mais de um século, para não falar das pesquisas estrangeiras, em especial a alemã e a italiana”, para Hay (1994, p. 11 - tradução minha) “não sabemos bem o que é a crítica genética, mas nos lembramos da sua data de nascimento”- Hay insiste, portanto, na sua novidade. Diante das ideias de que a crítica genética seria um retorno à história pela recusa da filologia (Graham Falconer), ou justamente um retorno à filologia e aos seus princípios (Jean-Yves Tadié), um “retorno digno aos trabalhos tradicionais” (Antoine Compagnon), ou ainda uma simples “bravata teórica” (Jean Molino), Hay (1994, p. 13 - tradução minha) recupera “o velho conflito entre história e estrutura”, afirmando ainda que, ao precisar defender mais de uma frente, a genética se vê obrigada a lutar por motivos que não são os seus - “a filosofia da literatura ou a história”, ele diz - e por isso a disciplina corre o risco de “tropeçar”. As acusações e as resistências que a rodeiam teriam, todavia, o mérito de identificar a necessidade de elucidações e retrabalhos; ao encontrar objeções, a crítica genética poderia buscar melhor definição de si própria, assim como refinar as perguntas que ela faz aos textos e a si mesma.

A intenção aqui é sublinhar a diversidade epistemológica da crítica genética, com base na história e nos pressupostos da disciplina tal como ela se desenvolveu no Brasil; da lógica local ao contato com a genética francesa. Não se pensa, portanto, em termos de influência, mas de convergência, insistindo ainda que o uso de uma crítica genética gestada em contexto europeu, quando empregada como instrumento de trabalho com documentos não europeus, pode provocar uma leitura disjuntiva; recuperar uma teoria desenvolvida com base em pressupostos locais (ou ao menos plurais) pode oferecer outras possibilidades ao trabalho com documentos e processos de criação dissonantes. Nesse sentido, um retorno à história da crítica genética no Brasil sugere uma alternativa teórico-metodológica à falsa universalidade da crítica genética francesa.

A pré-história do pré-texto

Na edição de número 3 da revista uruguaia Lo que los archivos cuentan, publicada em 2014, Sergio Romanelli (2014, p. 70), no artigo “Uma gênese da crítica genética no Brasil: 1984-2014”, afirma, peremptório: “Tudo começou com a publicação no Folhetim do dia 29 de abril de 1984 do artigo ‘O prototexto: edição crítica e gênese do texto’ de autoria de Philippe Willemart”. Para esse autor, que segue Willemart, ainda não havia interesse universitário pelos processos de criação em literatura. A mudança - ele escreve - “aconteceu em 1982, quando o ITEM (Institut des Textes et Manuscrits Modernes) organizara o Seminário intitulado ‘Do documento ao manuscrito’” (ROMANELLI, 2014, p. 70). Para ele - que fala ainda em “inédita visão do texto literário”, “nova epistemologia” e “nova forma de fazer pesquisa” (ROMANELLI, 2014, p. 69; p. 70; p. 74) -, a origem da crítica genética estaria em uma resposta de Paulo Francis (1984a; 1984b) ao artigo de Philippe Willemart,o que teria levado o professor da USP a escrever outro texto, que daria maior precisão conceitual à disciplina: “Ainda o prototexto - argumentos para um novo campo de pesquisa. Desvendando os fundamentos do processo poético”. A cada resposta de Francis, Willemart daria, no mesmo Folhetim, maior apuro conceitual às suas exposições. Romanelli justifica:

Poucos talvez saibam ou lembrem hoje desta polêmica de 1984, mas me pareceu importante partir desse fato “histórico”, não só porque marca o início dos estudos genéticos no Brasil, pelos quais devemos agradecer ao Philippe Willemart, mas também porque inaugura uma nova forma de fazer pesquisa no Brasil [...]. (ROMANELLI, 2014, p. 74)

Romanelli (2014, p. 74) observa ainda uma “identidade específica à crítica genética brasileira, muito mais plural e, de alguma forma, ousada do que a ‘mãe francesa’”.

É possível, no entanto, refinar o percurso histórico pela disciplina no Brasil. Em um curso ministrado em 1959 na Faculdade de Ciências e Letras de Assis, Antonio Candido introduz uma série de noções a partir das quais se torna viável uma revisita à crítica literária a partir de bases filológicas4. O empreendimento do professor se estrutura sobre três eixos: 1) A obra; 2) O autor; e 3) O tempo. Cada um dos eixos, ou “partes”, divide-se em subeixos: 1) “O texto manuscrito”, “O texto impresso”, “A autoria”, “O destino da obra”; 2) “A biografia”; e 3) “Fatores do meio e da época”, “Períodos e gerações literárias”, “Cronologia comparativa”. De março a novembro de 1959, consagrou um mês para cada tópico, com uma interrupção no mês de julho. Candido propõe ali um panorama das possibilidades do trabalho com o texto por meio da filologia: partindo dos métodos de filólogos como Karl Lachmann e Giorgio Pasquali, ele se concentra nos manuscritos como suporte documental da criação, destrinchando caminhos para um trabalho crítico com tais documentos por meio da transposição dessa consciência filológica, comparativa e historicizante. Também sistematiza a nomenclatura e os eixos para a construção de edições críticas competentes, sinalizando a centralidade das variantes e as variações no trabalho com autógrafos e apógrafos. Embora tenha em seu centro um conjunto instrumental essencialmente filológico, o crítico faz o movimento em direção a uma crítica da criação; se no princípio menciona seu horizonte como a “análise dos elementos que dão à obra individualidade material e estudam a sua gênese e duração no tempo” (CANDIDO, 2005, p. 14-15), em seguida aponta que,

[...] embora o estudo sistemático da literatura não parta necessariamente de originais, estes constituem um dos seus campos de estudo [e] as modificações do texto manuscrito, variantes ou versões, podem ter grande importância para conhecer os intuitos de um Autor e, através dele, de todo o processo criador. (CANDIDO, 2005, p. 19; p. 37).

O professor se concentra nas obras modernas para apontar o lugar que as variantes ocupam na leitura crítica de um texto, sublinhando que elas abrem, quando seus originais sobrevivem acessíveis, “perspectivas sobre o processo de criação, permitindo avaliar o seu sentido profundo, bem como a evolução estética de um Autor” (CANDIDO, 2005, p. 35).

Ao publicar a transcrição do seu curso, Antonio Candido faz uma menção nada casual a Telê Ancona Lopez. A pesquisadora, aluna do curso de 1959, integrou e liderou por décadas a Equipe Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP). Seu trabalho desdobrou uma primeira iniciativa do antigo professor de se debruçar, já em 1962, sobre a marginália e a biblioteca do autor de Macunaíma (ANDRADE, 1928). Embora toda a obra crítica de Telê orbite o gesto criativo de Andrade, a pesquisadora, ao apresentar seu primeiro vínculo com o escritor como espécie de desfecho da relação com Antonio Candido, disseca a investigação original: “Procurávamos entender aquela conjunção de modernidade e valores do passado que nos surpreendia, em nosso exame dos livros e revistas”; detalha ainda que “percebíamos caminhos do polígrafo, nas áreas e nos autores que facetavam a biblioteca; buscávamos elos e projetos incrustados na marginália. Transpareciam, nesse grande leitor, elementos do método de trabalho do escritor” (LOPEZ, 2011, p. 54). O projeto de pesquisa de Telê, àquela altura em nível de mestrado - na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH/USP), sob orientação de Candido -, recebeu a primeira bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo para estudantes de ciências humanas. Em agosto de 1968, o Governo do Estado comprou o acervo de Mário de Andrade (muito por esforço de Antonio Candido e do então diretor do Instituto de Estudos Brasileiros, José Aderaldo Castello), entregue desde então à guarda do IEB/USP (LOPEZ, 2011, p. 54-55).

No percurso da pesquisadora diante da obra de Mário, colocaram-se sob análise os “interesses de leitura, adstritos a certos anos ou períodos, vinculados ou não a notas marginais, levando em conta datas de edições, testemunhos em cartas ou crônicas e mesmo cartões-postais ou faturas de compra encontrados no interior de alguns volumes” (LOPEZ, 2011, p. 55). O gesto de Telê inaugura alguns movimentos críticos; em especial, desdobrando o olhar de Antonio Candido para o manuscrito, faz da biblioteca um bastidor estrutural do processo de escrita, entendendo que “quem percorre a biblioteca de um escritor encontra, concreta e virtualmente, nos autores ali enfileirados, textos desse mesmo escritor”, uma vez que “nas estantes quedam-se obras in statu nascendi, isto é, fragmentos ou textos inteiros, materializados na marginália, e indícios de obras editadas ou inéditas, começos ou parcelas que se escondem em leituras sem anotações do lápis ou da caneta” (LOPEZ, 2011, p. 62).

A pesquisadora produz, em contexto brasileiro, uma passagem do estudo esporádico do processo criativo à crítica genética institucional; tratando do legado de Mário de Andrade, sistematizaram-se caminhos de trabalho com os materiais de criação. O movimento de Telê Ancona Lopez fabrica um espaço que agrega, ao longo dos anos, uma série de investigadores interessados pelo trabalho com os papéis de Mário de Andrade. O envolvimento posterior com a crítica genética se dá, em grande medida, nesse mesmo contexto do IEB - embora o Instituto abrigue coleções de autores como Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa, cabe notar como apenas a obra de Mário de Andrade suscita um trabalho organizado, sistemático, por uma equipe de investigação5. É fundamental perceber o movimento de inquietação que se produz anos antes da formação do grupo liderado por Louis Hay em torno dos manuscritos de Heinrich Heine, em Paris. Lá como cá, configuraram-se instrumentos para tratar de um objeto; lá como cá, entraram em cena os processos criativos, projetos intelectuais, rastreados pelos manuscritos autógrafos.

Em 1970 - ano da defesa da sua tese, Mário de Andrade: ideologia e cultura popular, também sob orientação do autor de Formação da literatura brasileira (CANDIDO, 2009) -, Telê Ancona Lopez publica “A margem e o texto: contribuição para o estudo de ‘Macunaíma’” no Boletim Bibliográfico da Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Ali, o fascínio exercido pela narrativa andradiana ganha contornos críticos - já sugeridos pelo título do ensaio - a partir das “margens” de Mário. A primeira seção do texto, “‘Macunaíma’ e marginália”, mergulha no universo referencial do autor de modo a buscar as peças que deram origem, por meio de um procedimento criativo bricoleur ou, justamente, rapsódico - montagem, transposição, aproveitamento -, à narrativa do “herói da nossa gente”.

Telê toma como objeto de análise a recolha de lendas feita por Theodor Koch-Grünberg, publicada em vários tomos sob o título Vom Roroima zum Orinoco: Ergebnisse einer Reise in Nordbrasilien und Venezuela in den Jahren 1911-1913, cujo segundo volume, “especialmente dedicado aos mitos e lendas dos taulipangs e arecunás”, apresenta a saga de Macunaíma e serve portanto para destrinchar o esquema da obra de Mário. A ensaísta percebe as anotações marginais do escritor paulista - por vezes apenas “um traço à esquerda ou à direita” - como indicações dos fragmentos que seriam aproveitados na redação da obra. Segundo ela, tais anotações podem “servir de ponte para unir o romance já realizado a uma parcela do seu planejamento, [...] revelando elementos estruturais da obra” (LOPEZ, 1970a, p. 12). Insinua-se aqui - isto é: sem deixar indicação explícita, literal - um novo método de trabalho.

São os elementos oferecidos pelas notas marginais que viabilizam uma articulação crítica dos processos de composição do escritor; até por essa razão, Telê toma como ponto de partida inevitável uma descrição dos pré-textos6. E, tão importante quanto a sistematização do gesto criativo por meio da descrição dos materiais, ela revela que, “uma vez redigida e publicada a obra, Mário de Andrade destruía os originais, passando a fazer alterações para nova edição em seu exemplar de trabalho” (LOPEZ, 1970a, p. 12). Insiste ainda que os originais dos livros que Mário de Andrade publicou em vida nunca poderão ser consultados: “seu método de trabalho só pode ser avaliado através das obras que deixou planejadas em fichas, rascunhos, indicações e notas, mas nenhuma redação final” (LOPEZ, 1970a, p. 12). Importante destacar, nesse sentido, que muito daquilo que Mário decidiu conservar tornou-se parâmetro para o modo como a crítica genética se constituiu no Brasil.

É na segunda seção do ensaio - “A margem e o texto: anotações de Mário de Andrade em ‘Mitos e lendas dos índios Taulipangs e Arecunás’” - que a pesquisadora se dedica ao trabalho sistemático com as anotações: postos os eixos de leitura do romance, ela propõe uma justaposição comparativa do texto indígena ao texto andradiano, de modo a “captar as razões das semelhanças e transformações acusadas” (LOPEZ, 1970a, p. 23). Nota-se portanto a preocupação com o texto em movimento.

Figura 1
Reprodução de página de Vom Roroima zum Orinoco, de Koch-Grünberg (1924), anotado por Mário de Andrade (LOPEZ, 1970a, p. 57)

A sistematização das notas, sobrepostas ao trabalho criativo do escritor, se dá do seguinte modo: Telê indica o número da lenda no inventário de Koch-Grünberg ao lado do seu título (“Lenda nº 1: ‘Der Weltbaum und die grosse Flut’”), ajuntando também a sua tradução (“A árvore do mundo e as grandes águas”) e a fonte da narrativa (“Relatado por Arekuna Akuli”). Em seguida, transcreve o fragmento original aproveitado em Macunaíma (“Erfand der Baum Wasaká, der alle guten Früchte trug, die es gibt”) e sua tradução (“Encontrou a árvore Wasacá que tinha todos os frutos que há”), assim como a anotação de Mário de Andrade na margem do trecho (“verbo grifado e correção à margem: troca do verbo do presente para o passado, com a anotação: ‘que havia’”) e o trecho incluído no romance (“Cap. V - ‘Piaimã’ - p. 63: ‘Por detrás do tejupar do regatão vivia a árvore Dzalaúra-Iegue que dá todas as frutas, cajus, cajás [...], todas essas frutas e é mui alta”). Por fim, a pesquisadora acrescenta um comentário crítico, que muitas vezes se desdobra em um gesto ensaístico que transcende a análise dos fragmentos listados.

Figura 2
Fragmento da análise de Telê Ancona Lopez (1970a, p. 54-55) em “A margem e o texto”

O procedimento se repete exaustivamente; no artigo, apontam-se dezoito lendas anotadas, às vezes mais de uma vez, pelo escritor. Há ocorrências em que a anotação de Mário, por vezes simples cruz ou sublinhado (“Três cruzes à margem do título”; “Palavra grifada” etc.), se estende e se desdobra, passando à criação de fato. É o caso, por exemplo, da lenda nº 9, “Macunaíma no laço de Piaimã”, quando o escritor escreve: “Macunaíma pensou: /Então/ (riscado //) mas será mesmo que Piaimã imagina que sou mulher! Cai fora, senvergonha!” (LOPEZ, 1970a, p. 33) - Telê aponta a rasura, deve-se notar -; ou então da lenda nº 50, “Kalawunseg, o mentiroso”, em que o escritor anota: “Maanape percebeu chegou bem rente de Macunaíma e perguntou: - Você foi na caça. - Fui. - O que você caçou? - Um veado. - Teve medo? - Não. - Então Maanape fez um grande gesto, Macunaíma teve medo e confessou que era tudo mentira” (LOPEZ, 1970a, p. 52). O fragmento aparece quase idêntico no romance (Cap. XVI). Algo semelhante se dá no caso do comentário crítico, que por vezes se estende e se aprofunda, saindo da mera sistematização do projeto criativo para uma elaboração ensaística do gesto andradiano.

É nítida a duplicidade crítica do gesto de Telê Ancona Lopez: por um lado, esmiúça os materiais do escritor, sistematiza suas notas, cartografa suas fontes; por outro, parte desse trabalho material para acrescentar dimensões de significação ao texto literário. E mais importante: o que se vê é a formação metodológica da pesquisadora a partir e ao longo desse trabalho - simultaneamente deformação metodológica, pois desloca os horizontes da crítica corrente, e autoformação metodológica, pois não recorre explicitamente a amparos exteriores. A ensaísta não volta a manuais de filologia ou a pensadores da criação literária (Goethe ou Novalis, Poe ou Valéry, aos quais os críticos franceses recorreriam alguns anos mais tarde) para esboçar seu projeto; responde, antes, às exigências impostas pelos materiais trabalhados. A publicação de Ramais e caminho (1972) e a edição de Macunaíma: a margem e o texto (1974) consolidam o trabalho crítico da pesquisadora a partir da marginália, da bibliografia (como o fichário analítico), da biblioteca e da correspondência andradianas.

Expansão e circulação da crítica genética brasileira

A presença da crítica genética cresce, enquanto problema teórico, no percurso de Telê Ancona Lopez. Se nas primeiras leituras de Mário de Andrade, que a consolidam como especialista na formação intelectual do escritor, prevalece a análise das margens como mapeamento das fontes criativas, aos poucos passa a haver uma teorização do método empregado. Dado o vínculo da pesquisadora com seu objeto, não é surpreendente que sua concepção da crítica genética tenha sido constantemente pautada pela relação possível entre o método e os pré-textos andradianos. A teorização da genética, nesse sentido, passa a ser espécie de consequência das demandas materiais; nota-se o avanço simultâneo do seu projeto crítico e da sua concepção do trabalho sobre os bastidores da criação: cresce a preocupação com os processos de escrita, com as concepções de autoria que amparam o texto publicado. Em “Textos, etapas, variantes: o itinerário da escritura” (LOPEZ, 1990, p. 151), publicado na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, surge enfim, consolidada, a menção à crítica genética e a localização do seu projeto na disciplina: “A crítica genética e a crítica textual referendam, portanto, a existência de etapas ou lições em uma única versão, detectando ali, na mesma folha, não apenas um texto, mas vários”.

O aparecimento da “crítica genética” não leva Telê Ancona Lopez, todavia, ao débito com a crítica francesa; pelo contrário: não há referência explícita ao projeto crítico parisiense - embora ela mencione os manuscritos de Balzac, Proust, Zola e Flaubert, o que anuncia o contato com os trabalhos do ITEM. Mantendo ainda as linhas de força do seu trabalho anterior - “as notas de margem comportam-se como sementes dos manuscritos, alicerçando textos na ficção, na poesia e no ensaio mariodeandradianos” (LOPEZ, 1990, p. 148), ela revisita, renovando conceitualmente, a sua leitura de Macunaíma, na seção “Notas, esquemas, esboços. O paratexto” (espécie de retrabalho do pré-texto de Bellemin-Noël). Interessa-lhe aqui “a função do que antecede a redação integral do texto, ou dá base a modificações posteriores à publicação” (LOPEZ, 1990, p. 148).

O paratexto configura-se pela sua estruturação móvel, pelo seu dinamismo inevitável; são os fichamentos, os esquemas, as explicações. São folhas avulsas, pedaços de papel, alguns até mesmo rasgados, cadernos de bolso: “Lembretes, esboços, sínteses, desgarrados ou não do manuscrito principal, comprimidos nas entrelinhas, na margem de textos impressos; usando trechos de cartas, programas, volantes, o verso de outro trabalho, recortes, páginas arrancadas de livros” (LOPEZ, 1990, p. 149). E arremata:

[...] o paratexto anuncia o texto além da intenção abstrata de escrever e concretiza certas mudanças na obra publicada [...] ao mesmo tempo que supõe a mesa onde o autor arquiteta mais detidamente o texto através de fichamentos, esquemas acompanhados de explicações, apazigua a premência, acolhe o “insight”, a eclosão de uma ideia; retém o instante, desconfia da memória. (LOPEZ, 1990, p. 151; p. 150).

Conceitua sem perder a prática de vista; seu horizonte, sempre crítico, não abriga noções vazias, descoladas do material sob escrutínio. Faz as menções a Zola, a Flaubert, a Guimarães Rosa e, claro, ao próprio Mário; são exemplos da concretude que a pesquisadora confere aos aspectos teóricos do seu projeto. Estudar a criação é, portanto, manter-se leal aos materiais; não à toa, ela cita o paratexto como “primeiro marco na gênese da escritura” (LOPEZ, 1990, p. 151) - o paratexto, portanto: reconfiguração regional do “prototexto”, deslocado e epistemologicamente relocalizado.

Telê Ancona Lopez se dedica ainda a conceituar noções incontornáveis ao estudo dos processos de criação. Gesta desde 1970, mas, sobretudo aqui, uma orientação particular, local, da crítica genética. “Manuscrito, hoje, no sentido amplo, é toda e qualquer configuração física que visa ao produto texto. Provindo do lápis ou da caneta, é o autógrafo em que a letra avaliza a autenticidade, mas pode ser o ditado ou a cópia” - e mais: “É manuscrito ainda quando age sobre o texto impresso de uma edição, renovando-o para outra. Todos [...] testemunham, nas rasuras, as etapas do redigir” (LOPEZ, 1990, p. 151).

O que interessa aqui é sobretudo a sua aproximação dos manuscritos andradianos - com que já tinha enorme familiaridade - a partir do instrumental recém-forjado, trabalhado e retrabalhado pelo olhar da pesquisadora. O contato com a crítica genética francesa se dá, nesse sentido, de modo a transformar um trabalho já em andamento; o gesto crítico de Telê Ancona Lopez, amadurecido durante décadas, floresce no contato com outros gestos críticos. Com o contato, transformam-se tanto o seu trabalho quanto a crítica genética que chega e, portanto, passa a ser outra.

Em 2005, com Crítica genética e psicanálise, Philippe Willemart esboça uma história da crítica genética colocando a América Latina como centro, sem todavia desconsiderar a presença desigual de ideias nacionais na constituição de uma disciplina transnacional; ao tratar da origem da genética, escreve que “três países favoreceram sua eclosão de maneira desigual: a Alemanha, a França e o Brasil” (WILLEMART, 2005, p. 8). Além disso, observa, também àquela altura, que a crítica genética “foi percebida ou revelada” na França e no Brasil, cujas ideias locais convergiram paraas de Schlegel e Novalis, e não que a genética tenha necessariamente “nascido” (WILLEMART, 2005, p. 11): daí emerge a “crítica genética que conhecemos”.Ao mesmo tempo, os projetos de pesquisa desenvolvidos no IEB mantêm um diálogo constante com a genética francesa enquanto buscam, a partir dos problemas colocados pelos manuscritos de escritores como Mário de Andrade, explorar novos caminhos críticos. Cabe notar, ainda, que Antonio Candido, Telê Ancona Lopez e Philippe Willemart são todos professores eméritos da USP: essa institucionalização do indivíduo por meio do título é também indício da relação da crítica genética com a universidade.

É também em direção à virada do século que orientandos de Telê e Philippe começam a defender suas teses e dissertações7; essa “segunda geração”, formada a partir das lógicas locais atravessadas pelo estrangeiro, reconhece as origens plurais da crítica genética e sinaliza um afastamento epistemológico deliberado.

A crítica genética contra a critique génétique

Em 1991, Almuth Grésillon publica na Revista de Estudos Avançados - é o primeiro texto francês de crítica genética traduzido ao português - o artigo “Alguns pontos sobre a história da crítica genética”. A certa altura, vangloriando-se da influência global do ITEM, ela escreve que “Seminários públicos e coletâneas coletivas se multiplicam e certos países estrangeiros que, como a Hungria ou o Brasil, descobrem, perplexos, seu patrimônio literário sem saber como protegê-lo ou explicá-lo, se dirigem aos especialistas franceses para pedir conselho e colaboração” (GRÉSILLON, 1991, p. 14 - grifos meus). A longa revisita ao trabalho de Telê Ancona Lopez nas décadas de 1960 e 1970 - antes da fundação do ITEM, devo ressaltar - denuncia a indiferença (no melhor dos casos) de Grésillon àquilo que se produz longe da Europa. Um afastamento deliberado do pensamento e da enunciação monológicos dos críticos franceses se produz (ou se acentua) não apenas no Brasil, mas na América Latina.

Em 2007, Claudia Amigo Pino e Roberto Zular publicam o volume Escrever sobre escrever: uma introdução crítica à crítica genética, em que Philippe Willemart e Cecilia Almeida Salles surgem como introdutores de um novo pensamento genético no Brasil, e em que a crítica genética europeia (representada por menções a Louis Hay e Jean-Louis Lebrave) é atravessada por pensadores como Cornejo Polar e Édouard Glissant, sem deixar de lado histórias brasileiras da circulação dos textos, como aquelas desenhadas por Antonio Candido e João Adolfo Hansen. Alguns anos depois, em “Crítica genética: o que interpretar?” (2014), Pino apontaque a concentração excessiva no documento, característica de certa genética, é ponto de afastamento entre tradições no trabalho crítico com os processos de criação; “na própria França”, escreve Pino, “alguns pesquisadores que trabalham com manuscritos (mas não são contratados pelo ITEM, o Instituto de Textos e Manuscritos Modernos) têm manifestado seu incômodo em relação a essa excessiva concentração no documento”, afinal, “para pensar a criação, é necessário levá-los em conta, mas também ir além. Muitas vezes, eles não funcionam como portal e até fecham as portas para um pensamento mais amplo sobre o processo de criação” (PINO, 2014, p. 265-266 - grifos meus).

Roberto Zular, por sua vez, dilata a reflexão genética a um pensamento mais geral sobre as práticas de escrita, por meio das quais aproxima tanto uma vertente genética quanto uma vertente materialista do estudo da criação. Ele insiste: “A despeito do interesse que a crítica genética desperta na concepção de uma teoria das práticas de produção escrita, a eficácia de sua realização depende do afastamento de critérios anacrônicos muitas vezes tidos como universais”; e detalha: “a ênfase que a crítica genética dá ao fazer literário pressupõe um cuidado com a especificidade dos modos de produção” (ZULAR, 2007, p. 39).

Movimento semelhante de afastamento deliberado se dá na vizinhança: na Argentina, Élida Lois escreve que nós, latino-americanos, devemos nos perguntar sobre a característica dos estudos genéticos em nossos países, afinal há, na América Latina, “uma permanente tensão dialética entre as peculiaridades na nossa realidade histórica e o impacto dos aportes de alguns países centrais, sobretudo da escola do ITEM-CNRS de Paris” (LOIS, 2012, p. 987). Graciela Goldchluk, por sua vez, ainda mais enfática, insiste que

[…] los modos de existencia de la crítica genética en América Latina no están desvinculados del trabajo de archivo ni del de conservación, sino que sólo son posibles en un diálogo interdisciplinario y colaborativo [...]. Parte de la desconfianza que aún hoy provoca la crítica genética en América Latina tiene que ver con que rompe las barreras entre trabajo manual y trabajo intelectual, algo que aparece bien diferenciado en la escuela francesa [...]. (GOLDCHLUK, 2020, p. 130).

É notável que Telê Ancona Lopez se faz presente em todas as etapas do trabalho com os manuscritos de Mário de Andrade: da identificação e transcrição dos manuscritos ao esforço para aquisição institucional dos materiais (para a qual contribui também Antonio Candido); seu projeto crítico está atravessado pelo “trabalho manual” de que a pesquisadora argentina fala. No mesmo sentido, Willemart funda uma associação e passa a organizar congressos para a difusão das discussões locais; apenas em 1997, e por iniciativa sua, a USP, com o Núcleo de Apoio à Pesquisa em Crítica Genética, passa a ter presença maior na mediação dos debates. A crítica genética brasileira - sobretudo essa gestada por Telê - funciona, durante décadas, a partir de regras próprias - pautadas, em geral, pelas exigências materiais.

Goldchluk escreve, com Delfina Cabrera, que “nós não transportamos a crítica genética aos nossos arquivos como se se tratasse de ‘aplicar’ a teoria e a metodologia genéticas ao estudo dos manuscritos latino-americanos, que se parecem tão pouco com aqueles canonizados pela cultura europeia” (CABRERA; GOLDCHLUK, 2020, p. 2-3 - tradução minha). Nesse sentido, a distância teórico-metodológica que passa a existir nas pesquisas brasileiras - e latino-americanas como um todo, embora um todo não homogêneo - com relação às bases francesas leva à renovação dos horizontes críticos da disciplina. Apontar o enraizamento - isto é, a origem e a difusão - da disciplina no Brasil é reconhecer que o estudo da teoria em circulação esbarra sempre na centralidade do elemento nacional; ou seja, não existe possibilidade de colocar em debate a presença global do pensamento sem tratar das hierarquias históricas entre espaços críticos, que reproduzem em alguma medida as hierarquias políticas e econômicas entre os espaços nacionais.

Nora Catelli (2017, p. 11 - tradução minha), por sua vez, escreve em “Asymmetry: specters of comparativism in the circulation of theory”, que “os latino-americanos [...] estamos acostumados a pensar em dois ou três mundos ao mesmo tempo, intervindo no nosso - o particular, o mundo de nossas línguas e suas hierarquias, trazendo a ele referências externas de diversas naturezas e origens”. Ela lembra que “nas nossas Américas, na politicamente turbulenta segunda metade do século XX, as universidades não eram os únicos centros de produção e circulação de pensamento crítico e teoria” (CATELLI, 2017, p. 15 - tradução minha), e que “o comparatismo sempre foi um mal-entendido e, em parte, somos os objetos desse mal-entendido”. Assim,

[...] não há leitura que não seja simultaneamente uma localização e sobretudo uma data. Nesta era de literatura mundial, a tradução comparada da teoria é uma condição fundamental e histórica da particularização. Trata-se simplesmente de torná-la mais visível: quando notamos que certas localizações e sobretudo certas datas nos levam à consciência de uma pluralidade necessária, enquanto outras continuam a existir na feliz inconsciência de uma centralidade serena: são os novos pastores de um rebanho imenso. Há mais de uma maneira de escapar dessa multiplicidade invisível que parece ser nosso destino. Entre nossas comunidades latino-americanas, tendemos a insistir na natureza paródica ou caótica de nossos ataques às tradições teóricas do centro. (CATELLI, 2017, p. 24 - tradução minha).

Não há, na genética brasileira, uma “natureza paródica ou caótica de nossos ataques às tradições teóricas do centro” (CATELLI, 2017, p. 24 - tradução minha). Até por essa razão, é tão relevante revisitar a história da consciência crítica dos processos criativos no Brasil de modo a compreender a complexidade da “tradução comparada da teoria” de que fala Catelli. Desde o final dos anos 1950, o fortalecimento de uma tradição de trabalho com os manuscritos - fortemente derivada da filologia, como o curso de Antonio Candido sugere - prepara o terreno para um recebimento crítico, parcial, da genética francesa. Goldchluk e Cabrera (2020, p. 3; p. 2 - tradução minha), ao se referirem ao caso argentino, mencionam também uma “uma recepção marcada por uma apropriação singular, isto é, uma incorporação criativa e atenta às condições e temporalidades locais”, o que abriria uma “possibilidade inédita de desenvolver uma forma de pensamento singular com os manuscritos argentinos e latino-americanos”. A universalidade da crítica genética se mostra cada vez mais inviável, para não dizer impossível. Max Hidalgo Nácher, em “Cais brasileiros da desconstrução: etnocentrismo e diferença colonial”, lembra que “não existe, até o dia de hoje e de forma articulada, uma história intelectual transnacional da teoria literária. O que se chama, às vezes, de teoria literária francesa provém de uma combinação específica [...] para produzir um novo espaço de inteligibilidade”, assim como “Não poderíamos, pois, continuar a pensar nas relações em termos de ‘centro’ e ‘periferia’, ou em termos de ‘Norte’ e ‘Sul’, como se o ‘Norte’ fosse o centro (a origem) e o ‘Sul’ fosse um mero destino (a cópia)” (NÁCHER, 2024, p. 48; p. 54). Exige-se, nesse sentido, o reconhecimento da particularidade dos casos como composição do campo: a normatividade impositiva se vê impotente diante da proliferação de manifestações individuais da disciplina8 .

A circulação do pensamento genético se dá, portanto, de modo desigual entre países. Se o pensamento francês passa a circular no Brasil no início dos anos 1990,como atestam as primeiras traduções de Almuth Grésillon na revista Estudos Avançados, de Amos Segala e de Giuseppe Tavani, na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros9, além do já mencionado texto de Jean Bellemin-Noël (1972) e dos comentários ao pensamento de Louis Hay (1994) e Almuth Grésillon (1994), o contrário não é verdadeiro: as publicações de Telê Ancona Lopez em território francês são tão tardias quanto limitadas10. Na revista Genesis, inclusive, apenas algumas edições dedicam espaço a estudos desenvolvidos na América Latina, e ainda assim confinados a edições temáticas - casos, justamente, da edição n. 18, de 2002, “La critique génétique au Brésil”, em que figura artigo de Telê, e n. 33, de 2011, “Afrique-Caraïbe” em que aparece o artigo da argentina (África? Caribe?) Élida Lois. As teorizações sobre a genética - como nos números 30 e 31 da Genesis (2010), “Théorie: état des lieux” e “Composer”, respectivamente - são restritas, em geral, aos investigadores europeus e norte-americanos. Philippe Willemart (2010), inserido linguisticamente em certa tradição, alcança maior espaço, embora sempre tratando de autores franceses.

Considerações finais

A retomada diacrônica da pluralidade teórico-metodológica da crítica genética, por meio do caso de Telê Ancona Lopez, oferece lastro material para o debate sobre a autonomia de orientações dentro da disciplina. O projeto crítico de Telê dissolve o ímpeto de apontar a crítica genética brasileira como consequência da eclosão da disciplina em Paris; no mesmo sentido, reafirma a existência de lógicas críticas análogas, e prévias, à crítica genética - como afirmavam Espagne (1992), Lois (2012) e Goldchluk (2020). A convergência entre correntes críticas é, por outro lado,inegável. Importante aqui é notar, portanto, que aquilo a que chamamos de crítica genética é, hoje, produto de um processo múltiplo e plurinacional, dificilmente rastreável a “anos-chave” ou a “acontecimentos-chave”. Sergio Romanelli (2014), por exemplo, esquece de uma parte da história da crítica genética no Brasil, mas diagnostica a identidade específica, mais plural e “ousada”da genética brasileira. Este artigo buscou, assim, sanar algumas lacunas na percepção histórica da crítica genética no Brasil, assim como sublinhar, a partir desse reconhecimento cronológico, a pluralidade epistemológica da disciplina: Telê Ancona Lopez navega metodologicamente; ao encontrar o pensamento francês, transforma sua lógica sem, contudo, entregar-se por completo às ideias europeias.

Nora Catelli (2015; 2017)indica a capacidade de, a partir da América Latina, pensar em dois ou três mundos ao mesmo tempo para produzir a tradução comparada da teoria; Delfina Cabrera e Graciela Goldchluk (2020) apontam a recepção da genética, em contexto latino-americano, marcada pela “incorporação criativa” e transformada pelas condições e temporalidades locais. Insisto, por fim, ao lado do debate histórico, na condição epistemológica da crítica genética no Brasil. Os gestos pioneiros de Telê Ancona Lopez, ou mesmo aquele esboço crítico de Antonio Candido, em 1959, refratam a história posterior da teoria no país, isto é, produzem condições para tal recepção criativa, ousada, excêntrica do pensamento francês, mais de uma década mais tarde. O reconhecimento dessa história é, mais do que a preservação da memória da disciplina, uma tarefa epistemológica com relação à crítica literária do presente.

  • 2
    Ver, nesse sentido: Grésillon (1991), Lebrave (1992), Hay (2007), De Biasi (2010), entre outros.
  • 3
    Há um conjunto de pesquisadores que estruturam seus projetos críticos sobre o reconhecimento dos nascimentos múltiplos da crítica genética, por exemplo: Lois (2011), Goldchluk e Cabrera (2020), Lopez (1999), Willemart (2005), entre outros.
  • 4
    Uma transcrição do curso foi publicada em 2005 pela Associação Editorial Humanitas, sob o título Noções de análise histórico-literária (CANDIDO, 2005).
  • 5
    O que não significa, é evidente, que não haja pesquisas sobre tais autores e tantos outros, por exemplo, as de Mônica Gama (2013; 2014) e Thiago Mio Salla (2016; 2017). Na organização disciplinar da crítica genética no IEB, todavia, destaca-se a obra de Mário de Andrade como aglutinador e denominador comum ao trajeto de diferentes gerações de pesquisadores sob o abrigo da Equipe Mário de Andrade: Raúl Antelo, Flávia Toni, Marcos Antonio de Moraes. Essa institucionalização se deve em grande parte ao gesto inaugural de Telê Ancona Lopez, em alguma medida na esteira de Antonio Candido.
  • 6
    O conceito de avant-texte - “pré-texto” ou “prototexto” - seria proposto em 1972 pelo psicanalista Jean Bellemin Noël (1972) como instrumento de leitura de um poema de Czesław Miłosz. Bellemin Noël estabeleceria então uma vertente crítica sob a alcunha de textanalyse, desdobramento textual da psicanálise.
  • 7
    Sob Telê Ancona Lopez: Sylvie Josserand (1989); Marlene Gomes Mendes (1996); Marcos Antonio de Moraes (1997); Tatiana Longo Figueiredo (2001). Sob Philippe Willemart: Cristiane Grando (1998); Conceição Aparecida Bento (1999); Verónica Galindez (2000; 2003); Guilherme Ignácio da Silva (2000); Celina Borges Teixeira (2002); Claudia Amigo Pino (2001); Roberto Zular (2001).
  • 8
    Cecilia Almeida Salles (1998) fala em “crítica do processo” ou “expansão” da crítica genética - considerando não apenas as práticas francesas, mas incorporando as distinções epistemológicas à conceituação do campo. Ela reconhece nos diferentes modos de trabalhar com a criação artística uma disciplina mais larga do que a “crítica genética” francesa, recorrendo aos geneticistas franceses para tanto. A adaptação dos pressupostos metodológicos não deslegitima um estudo genético dissonante de determinadas bases teóricas; a cada ocorrência da dissonância, o campo se amplia e se transforma.
  • 9
    Na mesma edição de 1990-1991 da Revista do Instituto de Estudos Brasileiros em que Telê Ancona Lopez publica o seu “Textos, etapas, variantes: o itinerário da escritura”, aparecem os artigos “Memória textual e identidade cultural”, de Amos Segala, “Alguns problemas da edição crítica”, de Giuseppe Tavani. O artigo de Almuth Grésillon, publicado na revista Estudos Avançados, sai em 1991.
  • 10
    Nora Catelli (2015, p. 41) reconhece: “Somos periféricos, convengamos en ello. Podrían decir ustedes: ¿cuál es la prueba? Es contundente: son las bibliografías, los índices onomásticos, las citas: no nos encontraremos, o nos encontraremos muy poco. Nosotros los traducimos; ellos no. O nos traducen muy poco”.

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  • Editores responsáveis: Ana Paula Simioni, Dulcilia Helena Schroeder Buitoni e Marcos Antonio de Moraes

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    18 Dez 2024
  • Aceito
    01 Abr 2025
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