Open-access Cartas pela liberdade: escritas de mulheres escravizadas em Minas Gerais no século XVIII

Letters for freedom: writings by enslaved women in eighteenth-century Minas Gerais

RESUMO

O objetivo do artigo é contextualizar e apresentar a edição das cartas de Joanna Jacinta e Maria Thereza, que tiveram a busca pela liberdade como motivação para a escrita das missivas, redigidas desde a capitania de Minas Gerais na segunda metade do século XVIII. A partir de manuscritos raros como esses, percebemos que na América Portuguesa as cartas também funcionaram como instrumento de luta e de ação sobre o mundo. Além disso, é por meio dessa documentação que podemos, nos dias de hoje, conhecer as vozes dessas duas mulheres, que representam aquelas que foram durante séculos vítimas de violências e silenciamentos.

PALAVRAS-CHAVE
Cartas; escravidão; Minas Gerais.

ABSTRACT

This article aims to contextualize and present the edition of the letters written by Joanna Jacinta and Maria Thereza, whose search for freedom motivated the composition of their missives, penned in the captaincy of Minas Gerais during the second half of the eighteenth century. Through rare manuscripts such as these, we observe that, in Portuguese America, letters also served as instruments of struggle and engagement with the world. Moreover, it is through this documentation that we can, today, hear the voices of these two women, who stand as representatives of those long subjected to violence and silencing.

KEYWORDS
Letters; slavery; Minas Gerais.

Breve contextualização

A busca por documentos escritos por mulheres na América Portuguesa é o objetivo central do Projeto M.A.P. - Mulheres na América Portuguesa (SOUSA et al., s. d.), que vem construindo, desde 2017, um catálogo eletrônico de manuscritos em que se possa, de alguma maneira, ouvir as vozes silenciadas das mulheres que estavam no espaço atlântico português entre 1500 e 1822. Infelizmente, os documentos que se conservaram até hoje refletem, em sua maioria, as experiências de mulheres brancas, revelando as desigualdades também na preservação da memória. No entanto, com a busca ativa em acervos e arquivos espalhados pelo Brasil, e a partir de uma metodologia de pesquisa desenvolvida pelo referido projeto, é possível recuperar documentos raríssimos e fundamentais para a história social do Brasil. É o caso das cartas de Joanna Jacinta e Maria Thereza, mulheres escravizadas que escreveram de próprio punho às autoridades locais para tratar de sua liberdade.

As cartas integram a pesquisa de doutorado intitulada “‘Muito obrigada criada e muito sua veneradora’: estudo filológico e construção de cortesia em cartas de mulheres (1775-1821)”3, desenvolvida no âmbito do Projeto MAP, que tem como objeto de estudo um conjunto de 90 cartas inéditas, escritas por mulheres entre os anos 1775 e 1821, principalmente desde a capitania de Minas Gerais. Os manuscritos estão salvaguardados na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ) e pertencem à Coleção Casa dos Contos.

Os objetivos gerais da mencionada investigação de doutorado são realizar dois estudos complementares: o filológico, que estabelecerá edições fidedignas dos manuscritos a partir de um conjunto de normas predefinidas, bem como analisará sua produção e sua circulação, recorrendo aos estudos codicológico, paleográfico e diplomático; e o linguístico, que analisará a construção da cortesia nas cartas de mulheres com foco nas formas de tratamento e nas estratégias discursivas empregadas pelas autoras, associando-o ao exame das estruturas tipológicas das missivas, compostas de padrões formulaicos que preveem certa polidez e respeito. Escassos são os trabalhos que se dedicaram às cartas manuscritas de mulheres dos séculos XVIII e XIX na América Portuguesa, e mais raros ainda são os que as analisaram a partir de um viés filológico e linguístico, o que justifica a pesquisa em desenvolvimento.

Ao introduzirmos um recorte de gênero nos estudos epistolográficos sobre a América Portuguesa, percebemos que ainda há muito por se fazer. O mesmo não ocorre em países como a França dos séculos XVII e XVIII, sobre a qual Diaz (2016) afirma que era comum a associação da escrita de cartas ao gênero feminino, o que ligou tal tipologia textual ao imaginário de uma escrita “da tagarelice mundana ou sentimental, mais graciosa sobretudo quando é redigida por uma mulher cuja pena fina e leve ‘corre, voa, e não insiste’” (DIAZ, 2016, p. 45). Essa suposta habilidade das mulheres para escreverem cartas mais graciosas que as dos homens era justificada por uma graciosidade inata e por elas serem detentoras de “imaginação ágil”, “mente espontânea”, “sensibilidade viva” e do “dom da conversação” (DIAZ, 2016, p. 197). No século XIX, também na França, as missivas passam a tratar de temas da vida pública, e, consequentemente, os homens reivindicam sua posição enquanto missivistas. Como consequência, a “carta, então, afirma-se como um meio essencial de todos os grandes debates que marcaram o século e impõe-se como indispensável instrumento formal de uma vasta reflexão epistemológica” (DIAZ, 2016, p. 48).

No entanto, no contexto da América Portuguesa, o mesmo imaginário parece não se sustentar:

Basta consultar uma seção de epístolas em algum arquivo para perceber tal afirmação: enquanto há inúmeros manuscritos redigidos por homens, são raros os feitos por um punho de mulher. [...] somam-se a isso fatos como a baixa escolarização feminina na colônia (STAMATTO, 2019) e a dificuldade de conservação de tais manuscritos (MARQUILHAS, 2000) que, quando recebidos pelo seu destinatário, podem ser considerados documentos secundários e não passíveis de salvaguarda. (CARDENETE, 2023, p. 42).

As duas cartas encontradas na Coleção Casa dos Contos, cuja edição, até onde se tem notícia, é inédita, permitem contar uma história ainda lacunar sobre a epistolografia feminina na colônia. De acordo com Serrath (2022, p. 176), a Coleção constitui um “dos mais importantes fundos documentais sobre fiscalidade no Brasil [...], com mais de 12 mil documentos, referentes à região de Minas Gerais, entre 1701 e 1889”. O edifício que abrigou a Casa dos Contos foi construído em Vila Rica, atual Ouro Preto, em 1780 por João Rodrigues de Macedo, contratador responsável pela captação de impostos na capitania de Minas Gerais, e destinatário das cartas aqui apresentadas. A Coleção Casa dos Contos, por sua vez, está dispersa em três instituições: no Arquivo Público Mineiro, no Arquivo Nacional e na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, sendo essa última a responsável pela guarda das cartas de Joanna Jacinta e Maria Thereza.

Se já são raras as cartas de mulheres na América Portuguesa que foram conservadas e podem ser estudadas atualmente, mais raras ainda são as dessas duas remetentes. Ambas são mulheres escravizadas que escrevem no século XVIII desde a capitania de Minas Gerais para lutar por sua liberdade e tentar fugir das violências que lhes eram impostas. Bem distante da ideia de tagarelice mundana ligada às cartas na França do mesmo período, manuscritos como esses mostram que, em terras “brasileiras”, a escrita epistolar tinha funções bem diversas e poderiam configurar uma forma de sobrevivência e resistência.

Joanna Jacinta, em sua carta endereçada ao contratador João Rodrigues de Macedo, pede que o destinatário escreva ao tenente Francisco José Alvarez para que ele dê a licença necessária para ela e seus dois irmãos comprarem a liberdade, pois tinham fiadores4. A autora diz que ela e os irmãos foram penhorados após a morte do sargento-mor Brás Álvares Antunes como forma de pagar a dívida que ele tinha com João Rodrigues de Macedo. Apesar do manuscrito de Joanna Jacinta não ser datado, há um rascunho de resposta anexo à carta, sobre o qual comentaremos mais adiante, datado de fevereiro de 1795. A partir desse segundo documento, redigido após o recebimento da missiva na Casa dos Contos, podemos supor que a carta de Joanna Jacinta tenha sido escrita no final de 1794 ou nos dois primeiros meses de 1795.

Tanto Joanna Jacinta como Maria Thereza foram mulheres que não tiveram suas vidas registradas pela historiografia. Interessa-nos, portanto, o trabalho de Lopes e Rumeu (2018, p. 155), que destacam a necessidade de “depreender o perfil social de remetentes desconhecidos à luz de evidências manuscritas geradas pelo próprio redator”, sobretudo quando não temos informações extralinguísticas sobre as escreventes. Por esse motivo, para traçar o perfil biográfico delas, faz-se necessário partir da própria carta que elas escreveram e de outros documentos que também nos ajudem a entender o que elas relataram sobre si mesmas e sobre o mundo em que viveram. Partindo dessa metodologia, a Figura 1 busca sistematizar essa rede de relações presente na carta de Joanna Jacinta.

Figura 1
Rede de relações da carta de Joanna Jacinta. Fonte: elaborado pelas autoras

Figura 2
Carta de Joanna Jacinta a João Rodrigues de Macedo. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ), Divisão de Manuscritos, Coleção Casa dos Contos, I-10,15,003 nº003.

Figura 3
Carta de Joanna Jacinta a João Rodrigues de Macedo. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ), Divisão de Manuscritos, Coleção Casa dos Contos, I-10,15,003 nº003.

Figura 4
Resposta à carta de Joanna Jacinta. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ), Divisão de Manuscritos, Coleção Casa dos Contos, I-10,15,003 nº003.

Figura 5
Carta de Maria Thereza a João Rodrigues de Macedo. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ), Divisão de Manuscritos, Coleção Casa dos Contos, I-10,15,026 nº 002

Figura 6
Carta de Maria Thereza a João Rodrigues de Macedo. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ), Divisão de Manuscritos, Coleção Casa dos Contos, I-10,15,026 nº 002

A carta de Joana Félix da Silva, datada de 1784, também enviada a João Rodrigues de Macedo e pertencente ao mesmo corpus de pesquisa de doutorado, revela que Brás Álvares Antunes, falecido senhor de Joanna Jacinta e seus irmãos, trabalhava para João Rodrigues como cobrador5 . Tal fato fica evidente quando ela pede que o remetente determine “a seu | cobrador o Sargento Mor Bras Alvarez Antunes me asis | ta com o que eu pedir”. Joanna Jacinta, por sua vez, escreve que “e Eu meos Iraons6 somos Escravos do | falecido Sargento-mor Bras Alvarez e de minha Senhora Dona Lu | ciana”, fazendo referência a Luciana Clara de Santa Rosa, que também escreve uma carta, datada de 1798, que integra o conjunto documental estudado7. No manuscrito, Luciana trata de questões sensíveis referentes ao casamento de uma de suas filhas e diz que o destinatário “naõ ouviu a minha tris- | te filha e aos vizinhos que conhesem os flagelios e martirio | em que a muito tempo vive sofrendo e calando tudo por- | sua onra”. Solicita, ainda, que João Rodrigues de Macedo opine se ela pode ou deve obrigar a filha “a viver com seu marido sem que elle au menos se mos | tre arependido e emmendado o que por ora naõ tem mostrado”. Encerra a missiva afirmando a João Rodrigues de Macedo que “ao mesmo tempo lhe prome | to naõ empedir a vontade da minina quando ella queira a- | juntar se com elle”.

É raro termos acesso às respostas às cartas que pesquisamos já que, após escritas, elas são enviadas para seus destinatários privados e acabam, muitas vezes, não sendo conservadas. Apesar da raridade desse tipo de documentação, no corpus da pesquisa de doutorado mencionada, encontramos quatro respostas, entre elas, uma anexada ao manuscrito de Joanna Jacinta, datada de 20 de fevereiro de 1795 e provavelmente redigida pelo próprio João Rodrigues de Macedo. Ao contrário das cartas enviadas, escritas geralmente em espaços privados, essas respostas foram redigidas na própria Casa dos Contos, e os papéis aos quais temos acesso não chegaram a ser, de fato, enviados às suas destinatárias. Tanto a materialidade dos documentos - que foram redigidos em pequenos pedaços de papel, aparentemente reaproveitados de outros escritos - como os aspectos paleográficos e diplomáticos - referentes, sobretudo, ao não seguimento da empaginação padrão das cartas e à autocorreção de alguns trechos - apontam para um cenário em que essas são as primeiras versões das respostas e que, por isso, não houve circulação desses documentos. Possivelmente, após essa primeira redação, os autores fizeram uma cópia que foi remetida às suas destinatárias e que, sob suas guardas privadas, não integraram a Coleção Casa dos Contos.

Tal hipótese também é corroborada pelas anotações de recebimento registradas nas missivas. Quando as cartas chegavam aos seus remetentes em Vila Rica, sobretudo no que diz respeito às enviadas a João Rodrigues de Macedo, parecia ser comum que elas passassem por um processo de organização que garantia o funcionamento burocrático da Casa dos Contos. Apesar de não terem sido encontradas referências bibliográficas complementares sobre o tema, nos documentos há diversas anotações coevas à redação das cartas, porém redigidas por outro punho, que dão pistas importantes sobre o processamento interno da correspondência realizado na instituição. Era comum que fossem incluídas nas missivas, por um escrivão cujo perfil não foi possível reconstituir, as informações de recebimento e de resposta da carta, bem como o nome da remetente, o estado civil e o nome do cônjuge. No recto do segundo fólio da carta de Joanna Jacinta, por exemplo, consta o nome da remetente e do falecido senhor a quem ela respondia: “De Ioanna Iacinta escrava do Sargento | Mor Braz Alvarez Antunes”. Em seguida, há a informação “Respondida pela Copia dentro”, que faz referência à resposta anexada à missiva e reforça a ideia de que o documento ao qual temos acesso não foi de fato enviado a Joanna Jacinta, pelo contrário, ele parece ser uma cópia ou uma primeira versão da resposta.

Sobre o conteúdo presente no escrito destinado a Joanna Jacinta, é dito que “A dívida que vosso Senhor me ficou devendo, hé procedida de | dinheiro que me pertenciaõ, e ele recebeo, e assim não posso perder couza | alguma”. O remetente comunica, por fim, que ela e os irmãos estão penhorados por ele, e que nada poderá fazer antes de eles serem avaliados na executória que está em poder do tenente Francisco José Alvarez.

Maria Thereza, assim como Joanna Jacinta, é uma mulher escravizada que escreve para tratar da sua própria liberdade em uma carta enviada a João Rodrigues de Macedo desde Lavras do Funil, atual município de Lavras, no dia 28 de março de 17988. Nela, Maria Thereza diz não ter ido conversar pessoalmente com o correspondente porque estava doente, como o destinatário poderia ver nas atestações feitas pelo reverendo vigário e coadjutor. Justifica-se dizendo que não mandou também atestação do cirurgião - provavelmente faz referência a Florêncio Francisco dos Santos Franco, importante médico cirurgião e comerciante de remédios da capitania de Minas Gerais (ALMEIDA, 2009; CARDENETE, 2023; FONSECA, 2014) - porque ele não estava presente. Em seguida, pede que João Rodrigues de Macedo se valha dela para que tenha mais tempo para aprontar o que for necessário para conseguir a sua liberdade. Solicita, por fim, que o destinatário mande uma “contra ordem a fim de me naõ fa | zerem alguma violencia”.

Apesar de não ser possível recuperar o desfecho das solicitações feitas por essas mulheres, a explicitude nas cartas da busca pela liberdade, que levou ambas a escreverem, deixa-nos entrever o mundo pelos olhares de um grupo social que quase não tinha voz na América Portuguesa. Souza, Ferraz e Santos (2022, p. 163) mostram como os mecanismos racistas e escravocratas, relatados em documentos como os de Joanna Jacinta e Maria Thereza, estão presentes ainda nos dias de hoje:

Ao analisarmos as (in)certezas sobre a escravidão foi possível observar que as figuras de escrava e senhor ainda estão em funcionamento no Brasil. Os dados mostraram que as palavras chefes e líderes funcionam como reescrituras de senhor, tendo, portanto, as mesmas ações que o senhor tinha: castigar, humilhar, dominar. No que diz respeito aos sentidos de mulher negra, por sua vez, estes funcionam como correlato, ou seja, se há o funcionamento do sentido de senhor como aquele que pode castigar, humilhar e dominar, precisa haver quem esteja na condição oposta, isto é, de castigado, humilhado e dominado, que, no corpus selecionado para este trabalho, esse outro é a mulher negra.

Se há e sempre houve a ligação das mulheres negras a palavras como castigo, humilhação e dominação, também é uma constante a luta pelos direitos e pela sobrevivência - própria e de seus núcleos familiares. Nesse contexto, cartas como as que fazem parte desse artigo se apresentam a nós de forma fortuita, não só pela escrita dos documentos em si, mas também pelo fato de elas terem sobrevivido ao tempo e serem definidas como passíveis de salvaguarda. E é por meio desses raros manuscritos que, nos dias de hoje, Joanna Jacinta e Maria Tereza podem ter suas vozes ouvidas, sobrevivendo a séculos de violências e silenciamentos.

É interessante observar, antes de passarmos à edição integral das cartas, que o uso da palavra “escrava” no início da missiva de Joanna Jacinta (“Vay esta sua escrava aos seos pes | pedir lhe e rogar lhe se queira compadecer | de mim”) e na fórmula de despedida de ambas as cartas (“De vossa merce escrava | muito obediente | Joanna Iacinta” e “Escrava reverente e Criada | De vossa merce | Maria Thereza”) não é o que permite confirmar a condição social das escreventes. A circulação de fórmulas epistolares era ampla à época, e a presença de termos que indicassem humildade perante o destinatário era um sinal de cortesia. Palavras como “servo/a”, “criado/a” e “escravo/a” são frequentes em missivas escritas para pessoas em posição social considerada superior à das/os remetentes (MONTE, 2015). Ou seja, esses termos eram empregados sem que houvesse concretamente uma relação de escravidão ou de serventia, mas como fórmula de cortesia. A palavra que permite, nas cartas de Joanna e Maria, confirmar sua condição social e, por hipótese, sua condição racial é, paradoxalmente, “liberdade”: “nos de licença para a nossa liberdade” e “apron | ptar o que for para a minha liberdade”.

As cartas

Antes de realizar uma edição filológica, é imprescindível que seja traçado um público-alvo e, a partir dele, se definam as normas que serão adotadas (CASTRO; RAMOS, 1981). Assim como ponderado em Cardenete (2023) em relação ao público-alvo das edições, acreditamos que as cartas de Joanna Jacinta e Maria Tereza podem ser de grande interesse a linguistas, filólogas/os e historiadoras/es. Para linguistas e filólogas/os, provavelmente seria útil uma edição conservadora, que lhes oferecesse “o conhecimento integral do manuscrito: os hábitos de escrita, os erros, a ausência ou presença de acentos e pontos, a regularidade ou irregularidade deste ou daquele grafo, as correções, as rasuras, etc.” (CASTRO; RAMOS, 1981, p. 23). Já para historiadoras/es, consideramos que pode ser de mais interesse o conteúdo dos manuscritos do que o estado de língua ali presente, sendo assim, poderiam preferir uma edição que contivesse algumas atualizações. Além dos três perfis de leitores especializados descritos, acreditamos que a edição das cartas também possa circular por um público mais amplo, para quem características linguísticas e paleográficas das edições muito conservadoras poderiam causar maior dificuldade de compreensão do texto.

Sendo assim, optamos pela realização da edição semidiplomática, que possui caráter conservador, mas permite algumas interferências de quem edita, como a uniformização de alógrafos contextuais e a atualização das fronteiras de palavras. Para isso, usamos parte das normas apresentadas por Toledo Neto (2020). Também nos baseamos em Flexor (2019) e Nunes (1981) para a expansão das abreviaturas. As normas de edição adotadas são as seguintes:

  1. A transcrição é conservadora e justalinear, portanto, paragrafação, grafia, pontuação e acentuação do modelo são fielmente reproduzidas;

  2. Os fólios são numerados da seguinte forma: ||número do fólio (1, 2 etc.) + lado do fólio abreviada (“r” para recto ou “v.” para verso)||. Por exemplo: ||1r.||, ||2v.||;

  3. As faces em branco ou em que haja somente anotações posteriores são indicadas em nota de rodapé;

  4. Elementos inexistentes por fragmentação no suporte são indicados com colchetes vazio [];

  5. Letras ou palavras reconstituídas por conjectura são colocadas entre colchetes, como, por exemplo, em “[Desembargadores]”

  6. Letras ou palavras tachadas no modelo, também são tachadas na edição. Por exemplo: “determinar”;

  7. O emprego de maiúsculas e minúsculas bem como a pontuação original são rigorosamente mantidos;

  8. Os sinais de acentuação são uniformizados apenas quanto a sua variação caligráfica, preservando-se a mesma função que têm no modelo. A posição segue o mais fielmente possível a localização no modelo. Por exemplo: “avaliaçaó”, editado como “avaliaçaõ”;

  9. Os alógrafos contextuais de caracteres são uniformizados segundo o alfabeto atual. Por exemplo, “maiʃ ddoiʃ” é transcrito como “mais ddois” e “Ɛé” como “hé”;

  10. As vogais pingadas são uniformizadas de acordo com a grafia atual, ou seja, as letras “ı”, “յ” e “ẏ” são transcritas como “i”, “j” e “y”;

  11. As fronteiras de palavras são modernizadas conforme a separação vocabular atual, mas não são incluídos hifens entre o pronome e o verbo que não constem no modelo. Como em: “pedir lhe”;

  12. As abreviaturas são desenvolvidas em itálico, seguindo a grafia desenvolvida mais recorrente no modelo. Alguns exemplos são: “Rodriguez”, “que” e “muito”;

  13. Intervenções posteriores à circulação do texto, descrições codicológicas (como carimbos e selos) e demais comentários pertinentes são indicados e especificados em nota de rodapé.

A seguir, há a edição da carta de Joanna Jacinta, da resposta anexada a ela, e da carta de Maria Tereza. Esperamos que este trabalho possa contribuir para maior compreensão sobre a escrita epistolar feminina na América Portuguesa - sobretudo a realizada por mulheres escravizadas. Partindo da expressão latina verba volant scripta manent9, desejamos, por fim, que os escritos de Joanna Jacinta e Maria Thereza permaneçam e que continuem ecoando através dos tempos que ainda estão por vir.

Edição dos documentos

||1r|| Senhor10 Ioaõ Rodriguez de Macedo

Vay esta sua escrava aos seos pes

pedir lhe e rogar lhe se queira compadecer

de mim e mais ddois Irmaons que tenho para

que vossa merce nos valha com o sseu Patrocinio e

pelo vallimento que tem pesso a vossa merce escre

va pello amor de Deos ao Meu Senhor Tenente

Francisco Iosé Alvarez para que nos abra a preço e

nos de licença para a nossa liberdade pois

temos fiadores espero em meu senhor

por quem he naõ nos falte nos queira fa

zer este favor pois que Deus nosso Senhor lhe a de dar

o pago e Eu meos Iraons11 somos escravos do

falecido Sargento-mor Bras Alvarez e de minha Senhora Dona Lu

cianae naõ emfado mais a meu senhor, a quem Deus

guarde por muitos anos pois sou

De vossa merce escrava

muito obediente

Joanna Iacinta12.

||2r|| De13 Ioanna Iacinta escrava do Sargento

Mor Braz Alvarez Antunes.

Respondida pela Copia dentro14.

||1r|| Ioanna Iacinta15

Recebi huma carta vossa em que me fallaes sobre a vossa alforria, e de dous Ir

maons vossos. A divida que vosso Senhor me ficou devendo, hé procedida de

dinheiro que me pertenciaõ, e ele recebeo, e assim não posso perder couza

alguma. Vós, e os mais escravos estão penhorados por mim, e todos

hão de ser avaliados na executoria que está em poder do Senhor Tenente Francisco Joze

Alvarez, e nada posso dizer sem que primeiro veja a avaliaçaõ de tudo, para

entaõ determinar ver o que hei de obrar.Hé o que vos posso responder

e Deus vos guarde muitos annos. Vila Rica a 20 de Fevereiro de 179516

||1r|| Senhor Joaõ Rodrigues de Macedo17

Meu18 Senhor naõ fui aos pes de vossa merce

quando me mandou chamar porque me vejo

impocibilitada por cauza de molestias como

vera vossa merce das attestações que vaõ do Reverendo Vigario

e Coadjutor, naõ mando do Cirurgiaõ por se naõ

achar na terra na ocasiaõ presente

Eu espero de meu Senhor pelo amor de

Deus me valha para que eu seja felis na minha

arrumaçaõ, e dar me algum tempo para apron

ptar o que for para a minha liberdade, mandar

me hua contra ordem a fim de me naõ fa

zerem alguma violencia, espero vossa merce me faça

esta esmola, assim como espero de Deus a sua

tal açaõ, pelas muitas que tem feito pela

sua bondade Deus guarde a vossa merce saudavelmente

porque souEscrava reverente e Criada

Lavras 28 de Marco De vossa merce

de 1798Maria Thereza19.

||2r|| Lavras do Funil 28 de Marco de 1798

Da Senhora Maria Thereza20

Ao Senhor

Joaõ Rodrigues de

de Macedo.

Guarde Deus

Vila Rica21.

  • 3
    O doutorado desenvolve-se junto ao Programa de Pós-Graduação em Filologia e Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo e conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (processo Fapesp n° 2023/02778-0).
  • 4
    JACINTA, Joanna. Carta a João Rodrigues de Macedo. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ), Divisão de Manuscritos, Coleção Casa dos Contos, I-10,15,003 nº003.
  • 5
    SILVA, Joana Félix da. Carta a João Rodrigues de Macedo. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ), Divisão de Manuscritos, Coleção Casa dos Contos, I-10,16,046.
  • 6
    Na carta, não há a letra “m”, em Ir[m]aos.
  • 7
    ROSA, Luciana Clara de Santa. Carta a João Rodrigues de Macedo. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ), Divisão de Manuscritos, Coleção Casa dos Contos, I-10,16,030.
  • 8
    THEREZA, Maria. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ), Divisão de Manuscritos, Coleção Casa dos Contos, I-10,15,026 nº 002.
  • 9
    “As palavras voam, os escritos permanecem.”
  • 10
    Na margem superior esquerda há uma anotação posterior, realizada a grafite pelo próprio arquivo, na qual consta o seguinte código do documento: “I-10, 15, 3 nº3”.
  • 11
    “Iraons” por “Irmaons”
  • 12
    No fólio 1r. não há nenhuma escrita coeva à redação do texto. Na margem inferior esquerda, entretanto, há a marca de um carimbo oval, na qual constam os dizeres “BIBLIOTECA | BRASIL | NACIONAL”. Ao lado direito do carimbo há uma anotação posterior, realizada a grafite pelo próprio arquivo, na qual consta o seguinte código de registro: “Reg. 1.436.880 D | 03/02/2015”.
  • 13
    Apesar de parecer coeva à escrita do restante da carta, essa face foi redigida por outro punho.
  • 14
    O fólio 2v está em branco.
  • 15
    Na margem superior direita há uma anotação posterior, realizada a grafite pelo próprio arquivo, na qual consta o seguinte código do documento: “I-10, 15, 3 nº3”.
  • 16
    O fólio 1v está em branco.
  • 17
    Na margem superior direita há uma anotação posterior, realizada a grafite pelo próprio arquivo, na qual consta o seguinte código do documento: “I-10, 15, 26, n° 2”.
  • 18
    Entre as linhas 1 e 2, na margem esquerda, é possível ver a metade direita da marca de um carimbo oval, na qual constam os dizeres “[ ] CA NACIONAL | [ ] MANUSCRIPTOS | [ ] JANEIRO”. O restante do carimbo, ou seja, a metade esquerda, está visível no fólio 2v.
  • 19
    No fólio 1v não há nenhuma escrita coeva à redação do texto. Na margem superior esquerda, entretanto, há a marca de um carimbo oval, na qual constam os dizeres “BIBLIOTECA | BRASIL | NACIONAL”. Ao lado direito do carimbo há uma anotação posterior, realizada a grafite pelo próprio arquivo, na qual consta o seguinte código de registro: “Reg. 1.436.937 | D | 03/02/2015”.
  • 20
    Apesar de parecerem coevas à escrita do restante da carta, as duas primeiras linhas dessa face foram redigidas por outro punho
  • 21
    No fólio 2v não há nenhuma escrita coeva à redação do texto. Na margem direita, entretanto, é possível ver a metade esquerda da marca de um carimbo oval, na qual constam os dizeres “ BIBLIOTHE [ ] | SECÇÃO DE [ ] | RIO DE [ ]”. O restante do carimbo, ou seja, a metade direita, está visível no fólio 1r. .

Referências

  • ALMEIDA, Danielle Sanches de. Entre lojas e boticas: o comércio de remédios entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais (1750-1808). Dissertação (Mestrado em História Social). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009. https://doi.org/10.11606/D.8.2009.tde-23112009-151223
    » https://doi.org/10.11606/D.8.2009.tde-23112009-151223
  • CARDENETE, Beatriz de Freitas. Punho de mulher: um estudo filológico sobre cartas de mulheres na América Portuguesa (1737-1821).360 f. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Filologia e Língua Portuguesa, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2023. https://doi.org/10.11606/D.8.2023.tde-17052023-120040
    » https://doi.org/10.11606/D.8.2023.tde-17052023-120040
  • CASTRO, Ivo; RAMOS, Maria Ana. Estratégia e táctica da transcrição. In: Critique Textuelle Portuguaise, 1981, Paris. Actes du Colloque Paris: Fondation Calouste Gulbenkian-Centre Culturel Portugais, 1981, p. 99-122.
  • DIAZ, Brigitte. O gênero epistolar ou o pensamento nômade São Paulo: Edusp, 2016.
  • FLEXOR, Maria Helena Ochi. Abreviaturas: manuscritos dos séculos XVI ao XX. 5. ed. rev. e aum. Curitiba: CRV, 2019.
  • FONSECA, Paulo Miguel. Caminhos dissonantes: a trajetória do médico Florêncio Francisco dos Santos Franco nas Gerais da virada do XVIII ao XIX. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA CULTURAL, 7., História cultural: escritas, Circulação, leituras e recepções. Anais... São Paulo: Universidade de São Paulo, 2014. Disponível em: http://gthistoriacultural.com.br/VIIsimposio/Anais/Paulo%20Miguel%20Fonseca.pdf Acesso em: 13 abr. 2025.
    » http://gthistoriacultural.com.br/VIIsimposio/Anais/Paulo%20Miguel%20Fonseca.pdf
  • JACINTA, Joanna. Carta a João Rodrigues de Macedo. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ), Divisão de Manuscritos, Coleção Casa dos Contos, I-10,15,003 nº00.
  • LOPES, Célia Regina dos Santos; RUMEU, Márcia Cristina de Brito. A identificação dos perfis socioculturais dos redatores de corpora históricos: encaminhamentos metodológicos. Diadorim, 20 - Especial, 2018, p. 147-168. https://doi.org/10.35520/diadorim.2018.v20n0a23272
    » https://doi.org/10.35520/diadorim.2018.v20n0a23272
  • MONTE, Vanessa Martins do. Correspondências paulistas: as formas de tratamento em cartas de circulação pública (1765-1775). São Paulo: Humanitas/Fapesp, 2015.
  • NUNES, Eduardo Borges. Abreviaturas paleográficas portuguesas 3. ed. Lisboa: Faculdade de Letras, 1981.
  • ROSA, Luciana Clara de Santa. Carta a João Rodrigues de Macedo. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ), Divisão de Manuscritos, Coleção Casa dos Contos, I-10,16,030.
  • SERRATH, Pablo Oller Mont. A Coleção Casa dos Contos da Fundação Biblioteca Nacional. História Unisinos: Estudos históricos latino-americanos, São Leopoldo, v. 26, n. 1, 2022, p. 175-185. Disponível em: https://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/view/21900 Acesso em: 10 abr. 2025.
    » https://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/view/21900
  • SILVA, Joana Félix da. Carta a João Rodrigues de Macedo. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ), Divisão de Manuscritos, Coleção Casa dos Contos, I-10,16,046.
  • SOUSA, Maria Clara Paixão de et al. Projeto M.A.P. - Mulheres na América Portuguesa. Grupo de Pesquisa Humanidades Digitais. Núcleo de Apoio à Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa (NEHiLP). Universidade de São Paulo. s. d. Disponível em: https://map.prp.usp.br/ Acesso em: jul. 2025.
    » https://map.prp.usp.br/
  • SOUZA, Graciethe da Silva de; FERRAZ, Liliana de Almeida Nascimento; SANTOS, Jorge Viana. (In)certezas sobre escravidão no brasil: as figuras de escrava e senhor reconfiguradas no tempo e no espaço. Revista Conexão Letras, v. 17, n. 27, 2022. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/conexaoletras/article/view/123665 Acesso em: 23 jul. 2025.
    » https://seer.ufrgs.br/index.php/conexaoletras/article/view/123665
  • THEREZA, Maria. Carta a João Rodrigues de Macedo. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ), Divisão de Manuscritos, Coleção Casa dos Contos, I-10,15,026 nº 002.
  • TOLEDO NETO, Sílvio de Almeida. Um caminho de retorno como base: proposta de normas de transcrição para textos manuscritos do passado. Travessias Interativas - Entre manuscritos e impressos: estabelecimento, edição e crítica de textos da época moderna, v. 20, n. 10, São Cristóvão, 2020, p. 192-208. Disponível em: https://seer.ufs.br/index.php/Travessias/article/view/13959/10679 Acesso em: 21 jul. 2025.
    » https://seer.ufs.br/index.php/Travessias/article/view/13959/10679
  • Editores responsáveis: Ana Paula Simioni, Dulcilia Helena Schroeder Buitoni e Marcos Antonio de Moraes

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    25 Jul 2025
  • Aceito
    28 Jul 2025
location_on
Instituto de Estudos Brasileiros Espaço Brasiliana, Av. Prof. Luciano Gualberto, 78 - Cidade Universitária, 05508-010 São Paulo/SP Brasil, Tel. (55 11) 3091-1149 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revistaieb@usp.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro