Open-access MODERNIDADES PLURAIS, HISTÓRIAS GLOBAIS

ARAÚJO, André de Melo; LIMA, Luís Filipe Silvério; DORÉ, Andréa; RIBEIRO MACHEL, Marília de Azambuja; RODRIGUES, Rui Luis. A Época Moderna. Petrópolis: Vozes, 2024

Introdução

A Época Moderna é uma coletânea organizada por André de Melo Araújo, Luís Filipe Silvério Lima, Andréa Doré, Marília de Azambuja Ribeiro Machel e Rui Luis Rodrigues. Através da iniciativa deste grupo de pesquisadores vinculados à Rede Brasileira de Estudos em História Moderna (h_moderna), a obra publicada pela Editora Vozes em 2024 se propõe ao desafio de revisitar criticamente o conceito e as múltiplas experiências da Primeira Modernidade (séculos XV a XVIII) (GOLDSTONE, 1998, p. 249–284), sob uma ótica global, plural e não eurocêntrica (CHAKRABARTY, 2007). Procurando ocupar terreno no âmbito dos debates historiográficos contemporâneos, a obra se posiciona de forma crítica em relação às abordagens que associam o período Moderno a um contínuo de progresso racional, científico e político oriundo da Europa. Nesse sentido, o volume parte de uma série de inflexões epistemológicas que buscam incorporar sujeitos historicamente marginalizados, tensões locais e redes transcontinentais como elementos estruturantes da modernidade. Nas palavras dos organizadores:

(…) pensar a época Moderna hoje significa, sobretudo, compreender a natureza dos processos intraeuropeus e extraeuropeus a partir da pluralidade dos agentes históricos neles envolvidos. Deve-se fazer isso, entretanto, sem velar as desigualdades que caracterizavam as relações sociais e sem omitir a violência que igualmente caracterizava aquelas sociedades, os projetos coloniais e a formação de redes globais de contato e comércio. Tais redes não podem ser mais pensadas na chave de uma mera “expansão” da Europa para as demais partes do mundo, mas sim como uma evidência inequívoca da imposição de lógicas produtivas e dinâmicas de mercado por meios das quais o execrável sistema escravista moderno pôde se estabelecer e consolidar. Foi a partir dessa proposta de compreensão da Época Moderna que diversos capítulos deste livro construíram seus argumentos (...)

(ARAÚJO et al, 2024, p. 22-23).

Trata-se, portanto, de um livro ambicioso, tanto em escopo quanto em proposta analítica, que visa não apenas atualizar a historiografia da Época Moderna, mas também oferecer uma ferramenta crítica para sua reinterpretação no ensino superior e na formação docente.

Composta por vinte e um capítulos, escritos por trinta e cinco autores de diferentes instituições brasileiras, A Época Moderna está organizada em quatro grandes partes temáticas: I – Aspectos estruturais, II – Espaços e circulações globais, III – Transformações culturais e IV – Conflitos, revoltas e revoluções. Cada parte articula um eixo interpretativo específico da Primeira Modernidade, com o objetivo de conjugar renovação historiográfica, aprofundamento teórico e aplicabilidade didática. A Introdução, escrita pelos organizadores, estabelece as bases conceituais e institucionais do projeto, ao discutir criticamente a categoria “moderno” e as diferentes tradições historiográficas que a construíram, com ênfase na influência francesa sobre a academia brasileira, bem como os desafios da periodização da Época Moderna à luz das abordagens contemporâneas da história global e da teoria pós-colonial.

Parte I Aspectos Estruturais

A primeira parte do livro é dedicada à análise dos pilares estruturantes da Primeira Modernidade. Composta por quatro capítulos — dedicados à agricultura e sociedade rural, religião, sistemas políticos e capitalismo —, essa seção se destaca por seu esforço em articular temas clássicos da historiografia com abordagens críticas e atualizadas. A pluralidade interpretativa e a recusa de modelos teleológicos são marcas centrais dessa parte da coletânea. Ainda que cada capítulo apresente contribuições importantes, também se observam desequilíbrios temáticos e lacunas analíticas que merecem consideração.

O capítulo 1 “Agricultura e sociedade rural”, de Maximiliano Mac Menz e Wolfgang Lenk, promove uma revalorização do mundo rural como espaço dinâmico, transformador e decisivo para os rumos da modernidade. Os autores demonstram de forma competente como a agricultura foi atravessada por crises, inovações e processos de proletarização camponesa, afastando-se de leituras que associam o campo à imobilidade histórica. A crítica à dicotomia cidade/moderno versus campo/arcaico é um dos pontos fortes do capítulo. No entanto, o foco quase exclusivo na Europa Ocidental afasta-se ligeiramente do escopo global proposto pela coletânea. Seria benéfico, ao livro como um todo, se os autores, sob a mesma perspectiva analítica, tivessem estendido o diálogo aos contextos coloniais, em especial com a agricultura de plantation nas Américas, evidenciando as conexões entre o rural europeu e as dinâmicas atlânticas emergentes. No balanço geral, no entanto, o capítulo é excelente, combinando um estado da Arte completo, densidade analítica e o posicionamento do debate dentro do universo das discussões historiográficas mais contemporâneas. Outra virtude do primeiro capítulo é sua articulação com os outros três que formam esta primeira parte, especialmente com o capítulo 2, “O papel estruturante da religião”, de Adone Agnolin e Rui Luis Rodrigues.

No segundo capítulo, os autores constroem uma análise densa sobre o cristianismo como elemento estruturante da ordem social moderna. Ao tratar a fragmentação da cristandade como chave para compreender novas formas de autoridade e identidade, o texto propõe uma leitura renovada das Reformas Religiosas, não como meros eventos doutrinários, mas como fenômenos sociais de forte cariz teológico-político. A recusa à ideia de que a modernidade nasceu contra a religião é bem fundamentada. O capítulo deixa alguma ânsia de que poderia ir mais além, incorporando a pluralidade de experiências religiosas no período, como o islamismo residual ibérico e, especialmente, o judaísmo. Compreende-se perfeitamente, no entanto, a opção por não estender a análise aos sistemas religiosos de africanos e indígenas submetidos ao cristianismo colonial, uma vez que tal alargamento do foco seria certamente prejudicial à coerência interna da análise, cuja profundidade faz com que seja um dos grandes momentos da coletânea.

Seguindo pelo mesmo caminho, o capítulo 3, “Sistemas políticos e estruturas de poder”, de Bruno Kawai Souto Maior de Melo e Marília de Azambuja Ribeiro Machel, apresenta uma crítica consistente às categorias tradicionais de “Estado Moderno” e “Absolutismo”. Os autores ressaltam a pluralidade de centros de poder no Antigo Regime e desconstroem a ideia de uma trajetória linear rumo à centralização estatal (ANDERSON [1974], 2008). A articulação entre história política e linguagens do poder é bem explorada, conferindo densidade ao texto. A ênfase nos modelos europeus relaciona-se menos à proposta geral do livro, de uma história global. As formações imperiais ibéricas nas Américas, por exemplo, são pouco consideradas, mesmo sendo fundamentais para compreender a configuração do poder moderno em escala atlântica. No entanto, esse mesmo aspecto contribui para a coerência interna da primeira parte do livro, e para a excelente conexão que este capítulo possui com o seguinte, “Capitalismo”, assinado por Leonardo Marques e Maximiliano Mac Menz.

O capítulo 4 oferece uma abordagem crítica e abrangente sobre a formação do capitalismo na Primeira Modernidade. Os autores resgatam os melhores momentos do materialismo histórico ao destacarem, de forma contundente, o papel da escravidão atlântica, das plantations e da economia mercantil como vetores centrais da acumulação primitiva, rompendo com leituras que atribuem ao capitalismo um surgimento puramente europeu. Além deste último aspecto, a ênfase na violência e na expropriação como fundamentos do sistema capitalista é um dos maiores méritos do capítulo. Compreensivelmente, o texto tende a adotar uma perspectiva estruturalista, sem direcionar o foco às experiências subjetivas de africanos escravizados e trabalhadores coloniais, o que claramente demandaria outro projeto. O capítulo como um todo oferece uma análise consistente das múltiplas dimensões do processo histórico de formação do capitalismo, sendo um excelente desfecho para esta primeira parte.

Como conjunto, os quatro capítulos da Parte I demonstram um compromisso sólido com a crítica historiográfica e com a atualização dos debates sobre a modernidade. Eles compartilham a recusa de narrativas lineares e eurocêntricas, valorizando interpretações mais complexas e interdependentes. Ainda assim, observa-se uma predominância do eixo europeu como referência principal, o que contrasta com os objetivos mais amplos da coletânea. A ausência de articulações mais explícitas com as experiências coloniais e com os sujeitos historicamente subalternizados — camponeses, africanos, indígenas, mulheres — fragiliza, em certa medida, o alcance global dessa primeira parte.

Embora alguma crítica possa ser feita, a Parte I cumpre um papel fundamental ao estabelecer os fundamentos para as discussões posteriores da obra. A coerência interna entre os capítulos é clara: todos eles dialogam com a historiografia clássica e recente, revisitando temas estruturais sem sacrificar a crítica e a complexidade analítica. A articulação entre economia, religião, política e mercado oferece ao leitor um panorama sólido e multifacetado das bases da Primeira Modernidade (BRAUDEL, 2002, p. 65–89).

Parte II Espaços e circulações globais

A segunda parte da coletânea é a que cumpre, de forma mais assertiva, o desafio proposto pelos organizadores de expandir as discussões sobre o Período Moderno para além do universo Europeu. Composta por sete capítulos, ela se propõe a desconstruir a narrativa tradicional da “expansão europeia”, substituindo-a por abordagens conectadas, sensíveis à agência de diferentes sujeitos históricos e às múltiplas lógicas territoriais em jogo entre os séculos XV e XVIII (EISENSTADT, 1999, p. 39–49). O foco passa a ser a circulação — de pessoas, mercadorias, saberes e práticas culturais — e as formas complexas de interação entre mundos distintos. Os capítulos exploram as novas geografias, os circuitos atlânticos, africanos, islâmicos, índicos, asiáticos e ameríndios, compondo um quadro multifacetado e relacional da Primeira Modernidade.

O capítulo 5, “Uma nova geografia”, de Andréa Doré e Marina Bezzi, abre a seção com uma análise refinada da transformação das práticas cartográficas na modernidade. As autoras demonstram como a produção do conhecimento espacial deixou de ser simbólica para se tornar empírica, vinculando-se a experiências de viagem, comércio e guerra. A leitura dos mapas como artefatos históricos, portadores de visões de mundo, é bem conduzida e contribui para uma reflexão crítica sobre os processos de construção do “imaginário global”. Contudo, o capítulo que tende a concentrar-se mais nas produções europeias, teria se beneficiado de uma maior exploração dos sistemas de representação espacial de povos indígenas, africanos ou asiáticos. No entanto, embora a ausência desses contrapontos não europeus atenue a dimensão global da proposta, o balanço geral é definitivamente positivo. Compreende-se que a inclusão de uma maior diversidade de realidades compreenda um conjunto de desafios metodológicos que nem sempre podem ser satisfatoriamente atacados num texto de menores dimensões, como é um capítulo de livro. Alguns desafios são de tal monta, que exigem esforço adicional na elaboração da análise, principalmente no que se refere à articulação entre os referenciais teóricos e os estudos de caso aos quais estes são aplicados. O enfrentamento dessas dificuldades pode ser observado de forma interessante no bom capítulo que se segue.

Apresentando uma perspectiva ousada, ao propor o Atlântico como espaço de formação de modernidades não hegemônicas, construídas a partir de redes afro-ameríndias, o capítulo 6, “O Atlântico e as modernidades alternativas”, de José Carlos Vilardaga e Rodrigo Bonciani propõe uma discussão que não poderia faltar à presente coletânea. A crítica ao eurocentrismo é clara e vigorosa, e os autores procuram valorizar as experiências de resistência e agência dos povos colonizados (MIGNOLO, 2000, p. 55–85). Os autores procuram articular conceitos complexos como “modernidade alternativa” e “subalternidade” para os quais, no entanto, poderiam ter avançado mais no que se refere à elaboração das definições. Outro desafio de grandes proporções está na articulação entre o léxico característico da modernidade ocidental e sua mobilização para a construção de uma crítica contundente e que, no fundo, luta contra um conjunto de amarras analíticas que deseja superar. O enfrentamento destes desafios já constitui, por si só um dos grandes méritos deste capítulo. O outro é sua inegável contribuição ao projeto global da coletânea. É nesse sentido, aliás, que vão os capítulos seguintes, reforçando esta que uma das mais interessantes características deste volume. É isso o que acontece no capítulo 7, “África atlântica e Europa moderna”, de José Rivair Macedo e Mônica Lima e Souza, no qual os autores oferecem uma leitura potente da inserção africana nas dinâmicas atlânticas. O capítulo se destaca por enfatizar a agência de elites e populações africanas, especialmente por meio de estudos de caso como o Reino do Kongo. A abordagem biográfica de figuras da diáspora enriquece a narrativa ao humanizar os processos históricos. O texto também se destaca por sua crítica ao racismo epistêmico e à invisibilização das experiências africanas. Do ponto de vista, empírico o texto se defronta com o desafio de evitar o uso predominante de bibliografia secundária, o que nem sempre foi possível, e apresenta uma relativa carência na mobilização de fontes africanas ou da diáspora tornando a base documental mais diversificada. Isso, no entanto, não apaga os muitos méritos de um capítulo coeso, que cumpre exemplarmente os objetivos a que se propõe.

Como ponto de partida fundamental, A Época Moderna pretende questionar a ideia de que a modernidade teria sido, em termo históricos, um fenômeno intrinsecamente europeu. É justamente nesse sentido que o oitavo capítulo, “Modernidade islâmica”, escrito em parceria por Otávio Luiz Vieira Pinto e Thiago Henrique Mota, questiona frontalmente a ideia de que a modernidade seria exclusividade do Ocidente. Num texto fluido e de narrativa coesa, os autores exploram os Impérios da Pólvora (safávida, otomano, mogol), bem como as redes intelectuais islâmicas na África e Ásia, demonstrando como esses contextos produziram formas próprias de organização política, conhecimento e arte. O uso do conceito de “persianato” em consonância com o conceito de “islamicato” (islamicate/ islamicized), de Marshal Hodgson (HODGSON, 1974), é um dos pontos altos do capítulo. Em alguns momentos, entretanto, o texto assume um tom defensivo, em parte devido ao grande desafio de promover uma articulação entre os diversos significados da modernidade e as contradições ou ambivalências geradas pela transposição destes conceitos às realidades islâmicas, por si só desafiadoramente multifacetadas. Ao elaborar, por vezes utilizando categorias marcadamente ocidentais, que o Islã também “foi moderno”, os autores percorrem a linha tênue entre a aceitação da pluralidade das modernidades e o reforço à centralidade da modernidade como critério de validação histórica. Considerada a complexidade nada desprezível do desafio, pode-se dizer que o capítulo cumpre com sucesso as metas estabelecidas em seu início. O mesmo pode ser dito do capítulo 9, “O espaço índico”, Andréa Doré e Patrícia Souza de Faria, que entre a Ásia e a África abordam o complexo e multicultural Oceano Índico como um espaço densamente conectado muito antes da presença europeia. A análise da inserção portuguesa nas redes mercantis muçulmanas, hindus e budistas é bem conduzida, evidenciando a adaptação (e não apenas dominação) dos europeus às dinâmicas locais. O capítulo também contempla a missão católica e os processos de intercâmbio cultural. Embora busque relativizar sua importância, a narrativa tende a recentrar os portugueses como protagonistas, o que poderia ter sido contornado com análises mais desenvolvidas sobre os saberes locais e as formas de resistência cultural dos povos asiáticos.

A proposta dos organizadores, de responder ao desafio de descentralização da modernidade, tornando-a mais plural e complexa ganha um importante aporte a partir do capítulo 10, “O Leste Asiático”, de Bruna Soalheiro e Célia Tavares. As autoras apresentam um panorama instigante das dinâmicas políticas e culturais da China, Japão e Coreia no período moderno. A crítica ao mito do isolamento asiático é bem fundamentada, e o uso do conceito de “sinocentrismo” contribui de forma pertinente para deslocar a narrativa europeia. O capítulo mostra como esses impérios estavam profundamente conectados por redes comerciais e diplomáticas, ao mesmo tempo regidas por lógicas próprias e globalmente conectadas. O texto teria muito a ganhar, no entanto, com a diminuição do caráter descritivo de algumas abordagens, especialmente num aprofundamento das análises incidentes sobre as diversas categorias sociais, como gênero e classe, que poderiam ter enriquecido o debate. Dito isso, neste capítulo, os méritos superam os problemas por larga margem, especialmente a inclusão, no intervalo cronológico que convencionamos ser o da primeira modernidade, de questionamentos acerca da retração chinesa, numa interessante conexão com os escritos de Timothy Brook, e que abordam um período ligeiramente anterior (BROOK, 2005).

Fechando esta segunda parte com uma perspectiva inovadora, temos o capítulo 11, “Trajetórias indígenas”, de Elisa Frühauf Garcia e Suelen Siqueira Julio. As autoras destacam a atuação de mulheres indígenas nas Américas nos processos de construção de diversas das dimensões da modernidade. A escolha metodológica de focar em biografias, como as de Malinche e Catarina Paraguaçu é particularmente feliz, permitindo compreender a modernidade colonial a partir da agência desses sujeitos subalternos. O texto é sensível e comprometido, sendo exemplar em seu esforço de tornar visíveis trajetórias historicamente apagadas. No entanto, a ênfase em poucos casos individuais pode limitar a percepção da diversidade das experiências indígenas. A articulação entre essas trajetórias e os processos estruturais mais amplos também poderia ser mais bem desenvolvida. Apesar disso, a análise é sólida, ancorando muito bem a proposta central do capítulo.

A segunda parte de A Época Moderna é, sem dúvida, uma das mais ousadas e relevantes da coletânea. Os capítulos rompem com as narrativas tradicionais e oferecem novas lentes para compreender as circulações globais na Primeira Modernidade. O compromisso com uma historiografia crítica, descentralizada e atenta às agências subalternas é evidente. Há coerência temática entre os textos, embora haja variações no grau de aprofundamento teórico e na densidade empírica. O excesso de foco nos referenciais europeus em alguns capítulos ainda persiste, e a crítica decolonial, em certos momentos, carece de maior consistência conceitual. Apesar disso, trata-se de uma seção que contribui de maneira decisiva para a renovação do campo, abrindo caminhos para uma história verdadeiramente global e plural.

Parte III Transformações culturais

A terceira parte da coletânea A Época Moderna se dedica a explorar as múltiplas transformações culturais, intelectuais e simbólicas que marcaram a Primeira Modernidade entre os séculos XV e XVIII. Composta por seis capítulos, essa seção propõe uma abordagem crítica que evita narrativas celebratórias de progresso e assim romper, ao menos parcialmente, com o cânone eurocêntrico que costuma associar a modernidade à razão, à ciência e à cultura letrada europeia. Os temas abordados — Renascimento, Humanismo, imprensa, Reformas religiosas, ciência, gênero e Iluminismo — são revisitados a partir de perspectivas plurais, sensíveis às disputas de poder, às exclusões e às ambivalências que atravessam os campos do saber e da cultura. É o que fazem já no capítulo que abre a sessão Marília de Azambuja Ribeiro Machel e Rui Luis Rodrigues, em seu “Renascimento e Humanismo”. Neste 12º capítulo, os autores propõem uma revisão crítica da imagem consagrada do Renascimento, questionando o papel deste fenômeno (ou fenômenos) histórico promotor fundamental de uma ruptura gloriosa com a Idade Média. Os autores problematizam a noção de renascimento como retorno idealizado à Antiguidade, ressaltando o caráter seletivo, masculino e excludente do Humanismo. O texto é sólido ao apresentar o Humanismo como movimento plural, com usos políticos, pedagógicos e cívicos. Em termos de ampliação da compreensão da pluralidade da agência histórica, um dos objetivos centrais do livro, a crítica ao “mito renascentista” poderia ter sido acompanhada por maior atenção às vozes dissidentes dentro do próprio Humanismo — como mulheres e minorias religiosas —, o que, no entanto, não enfraquece o argumento principal, este exemplarmente bem desenvolvido.

De certa forma, a questão da pluralidade e diversidade dos agentes históricos permeia também o capítulo 13 “O mundo dos impressos”, André de Melo Araújo e Verônica Calsoni Lima. Nele, os autores discutem os impactos sociais, políticos e culturais da imprensa na modernidade, com destaque para a superação da centralidade do marco técnico de Gutenberg, apresentando o impresso como parte de um ecossistema comunicacional complexo, com implicações para a autoridade, a censura e a circulação de ideias. A análise do impresso como instrumento tanto de hegemonia quanto de contestação é sofisticada. Entretanto, o capítulo foca majoritariamente na produção letrada das elites europeias, negligenciando formas populares de recepção e da reconfiguração da oralidade em texto impresso, bem como experiências editoriais em contextos periféricos, como as Américas coloniais. A exemplo do capítulo anterior, o presente texto não tem seu argumento prejudicado. Há ainda a virtude adicional de os dois capítulos, 12 e 13 estarem particularmente bem articulados entre si, demonstrando o comprometimento dos autores com o projeto da coletânea, o que também pode ser observado a partir da leitura do capítulo 14, “Reforma religiosa”, de Jacqueline Hermann e Ronaldo Vainfas, oferece uma visão ampla e crítica das Reformas protestantes e católicas, ao mesmo tempo em que dialoga de forma consistente com os capítulos da primeira parte do livro, especialmente com o segundo capítulo, de Adone Agnolin e Rui Luis Rodrigues, ao abordar a categoria estruturante da religião no contexto da construção da modernidade. Nesse sentido, os autores destacam que esses movimentos não foram apenas doutrinários, mas também mecanismos de disciplinamento social e reorganização do espaço cristão. A ênfase nas confessionalizações como fenômenos políticos e culturais é um dos pontos altos do capítulo. Dado o caráter globalizante da proposta do volume, a análise poderia ter sido expandida para além dos espaços europeus, abordando os desdobramentos das Reformas nos contextos coloniais, especialmente nas Américas ibéricas, onde a cristianização assumiu formas coercitivas e híbridas.

O capítulo 15, “A nova ciência”, de Andréa Doré e Thomás A. S. Haddad é um dos pontos altos do livro. Nele, os autores desenvolvem uma crítica incisiva ao modelo tradicional de Revolução Científica, partindo da pergunta “moderna para quem?”. Por essa via, o capítulo procura contestar a narrativa ocidental da racionalização progressiva, expondo a exclusão de saberes não europeus e não masculinos do cânone científico. O texto é ambicioso ao propor uma leitura descentralizadora da ciência moderna, destacando a função social da matematização e da experimentação como mecanismos de poder. Embora a crítica seja conduzida de forma veemente, o capítulo oferece caminhos alternativos a partir da proposta de inclusão das epistemologias indígenas, africanas e femininas ao universo analítico.

Numa demonstração de coerência e coesão internas, o volume traz na sequência outra contribuição importante para o alargamento dos debates historiográficos sobre a produção cultural e sua relação com as agências múltiplas, as vozes subalternas e silenciadas. O 16º capítulo, “Mulheres, gênero e cultura letrada”, escrito por Anadir dos Reis Miranda, Beatriz Polidori Zechlinski e Cristine Tedesco, procura desafiar o cânone historiográfico ao colocar as mulheres letradas no centro da cena cultural moderna. A escolha por estudos de caso — como as preciosas francesas, as venezianas e as escritoras inglesas — permite evidenciar as estratégias de inserção e resistência feminina em um mundo patriarcal. O uso da categoria gênero como ferramenta analítica é bem explorado, e o texto dialoga com os aportes da história das mulheres e dos feminismos. A ausência de abordagem interseccional (raça, classe e gênero) é uma lacuna relevante, mas o balanço geral é o de um texto excelente, com boa profundidade analítica e relevância historiográfica substancial.

Por fim, o Capítulo 17 – “O Iluminismo”, de André de Melo Araújo e João de Azevedo e Dias Duarte, revisita o movimento iluminista a partir de três eixos: pensamento histórico, antropologia comparada e circulação da informação. A narrativa evita tanto a idealização progressista quanto a crítica simplista, apresentando o Iluminismo como projeto múltiplo e contraditório, ecoando diversos autores inseridos nos debates contemporâneos acerca da “ambivalência das luzes” (LILTI, 2019). A construção da esfera pública e da racionalidade cosmopolita é bem analisada.

Esta terceira parte de A Época Moderna se destaca por oferecer uma abordagem crítica e renovada das grandes transformações culturais da Primeira Modernidade. Os capítulos compartilham uma postura desconstrutiva frente ao cânone historiográfico e dialogam com debates contemporâneos da história cultural, dos estudos de gênero e da crítica epistemológica. A coerência interna da seção é clara, e há articulação temática entre os textos, que se complementam e dialogam bem entre si.

Contudo, observa-se uma concentração excessiva no espaço europeu, o que enfraquece, em parte, a proposta global da coletânea. Faltam diálogos mais robustos com contextos coloniais, saberes subalternos e vozes não ocidentais. A interseccionalidade ainda é pouco mobilizada como chave de leitura. Apesar disso, esta parte é valiosa por ampliar o repertório analítico sobre cultura e saber na modernidade, mostrando que a Primeira Modernidade foi profundamente marcada por disputas, exclusões e resistências — e não por consensos ou avanços homogêneos (JAMESON, 1997).

Parte IV Conflitos, Revoltas e Revoluções

A quarta e última parte da coletânea é dedicada ao estudo dos conflitos políticos, sociais e militares que marcaram os séculos XVII e XVIII, encerrando o volume com uma análise das revoluções atlânticas. Composta por quatro capítulos, essa seção busca fornecer subsídios para se compreender as transformações estruturais e os momentos de ruptura que contribuíram para redefinir o cenário político do Ocidente, abordando os processos de crise, revolta e revolução de maneira articulada com a história social e política mais recente.

É justamente nessa trajetória que se encontra o capítulo 18, “Guerra dos Trinta Anos e revoltas nos domínios Habsburgos”, de Antônio David e Daniel Pimenta Oliveira de Carvalho, no qual os autores oferecem uma abordagem abrangente sobre maior conflito europeu do século XVII. O capítulo tem o grande mérito de integrar os complicados aspectos militares, políticos e sociais da guerra, tratando-a não apenas como um confronto de Estados, mas como uma crise sistêmica de ordens e estruturas. Destaca-se a análise das revoltas internas nos domínios hispânicos, ação dos movimentos separatistas e a crise política na Península Ibérica. A discussão, porém, poderia ter ampliado os horizontes para incluir uma reflexão mais aprofundada sobre as implicações globais da guerra, especialmente em relação à dinâmica colonial atlântica. Ainda assim, é um capítulo bem articulado, que estabelece pontes significativas com os debates contemporâneos sobre guerras civis e soberania.

No capítulo seguinte, em perfeita articulação com o anterior, Daniel Pimenta Oliveira de Carvalho e Silvia Patuzzi examinam, em “Monarquia bourbônica e revoltas da Fronda” a complexa experiência da Fronda, destacando suas implicações para a consolidação do absolutismo francês. Os autores são particularmente felizes ao mostrarem a Fronda não como um evento marginal, mas como um elemento central para se compreender a construção do poder monárquico sob Luís XIV. Um dos grandes méritos do capítulo, é a capacidade de historicizar o conceito de “revolução” e evidenciar a diversidade das agendas em jogo nos conflitos. A análise, no entanto, permanece um tanto centrada na corte francesa, podendo beneficiar-se de uma abordagem mais social que contemplasse a participação popular. Excluindo-se este preciosismo crítico, é justo dizer que a clareza conceitual e a densidade argumentativa tornam este capítulo uma contribuição relevante para o entendimento dos desafios à autoridade no Antigo Regime. É nesse mesmo sentido, aliás, que podem começar a ser enumerados os méritos do capítulo seguinte, de Luis Filipe Silvério Lima e Verônica Calsoni Lima, “Ilhas Britânicas e revoluções do século XVII”.

O 20º capítulo é sem dúvidas um dos pontos altos da Parte IV e do volume como um todo. Os autores oferecem uma interpretação sofisticada das revoluções inglesa, escocesa e irlandesa, recusando tanto visões teleológicas quanto interpretações puramente institucionais. A articulação entre os movimentos sociais e as transformações institucionais, além da ênfase nas experiências populares e nos debates sobre soberania e representação, confere densidade analítica ao texto. A abordagem é profundamente conectada às perspectivas da nova história política e social, destacando a complexidade e as ambiguidades das transformações ocorridas. Embora em alguns momentos a análise possa parecer excessivamente especializada para o leitor não familiarizado com o contexto britânico, o balanço final é muito positivo, contribuindo para o entendimento de um dos laboratórios fundamentais da modernidade política ocidental.

Por fim, fechando esta coletânea, que tem, entre outros, o grande mérito de manter o fôlego até o final, temos o capítulo 21, “Revoluções atlânticas: Estados Unidos e França”, de Daniel Gomes de Carvalho e Marcus Sôrrilha Pinheiro. Neste texto os autores encerram a coletânea com uma análise comparativa das revoluções americana e francesa. O texto é notável pela forma como articula as duas experiências revolucionárias em uma perspectiva atlântica, ressaltando tanto suas conexões quanto suas especificidades. A discussão sobre o papel dos ideários de liberdade, soberania e igualdade é enriquecida por uma reflexão crítica sobre seus limites, especialmente no que se refere à exclusão de mulheres, populações negras e indígenas desses projetos de emancipação. O capítulo também dialoga de forma produtiva com a historiografia recente que enfatiza a importância das circulações de ideias, bens e pessoas no mundo atlântico. A principal, e talvez única limitação do texto é o tratamento um tanto breve das revoluções no Caribe, como o caso do Haiti, cuja inclusão teria enriquecido ainda mais a perspectiva global proposta.

Como conjunto, a parte final do livro demonstra um compromisso sólido com a crítica às narrativas lineares e com a compreensão da Primeira Modernidade como um período de profundas tensões e transformações. A seção é marcada por um excelente equilíbrio entre a história política, a história social e a história cultural, evitando tanto o reducionismo institucional quanto a dispersão empírica. A coerência entre os capítulos é clara, e há uma progressão temática que leva o leitor de crises internas do Antigo Regime às rupturas atlânticas que anunciam a Era Contemporânea. Ainda que, em alguns momentos, a abordagem global pudesse ser mais intensificada, especialmente pela inclusão de experiências coloniais menos centrais, a Parte IV cumpre exemplarmente seu papel de encerrar o volume com uma discussão densa, crítica e renovadora sobre os conflitos e as revoluções da Primeira Modernidade.

Balanço Final

A ambiciosa coletânea A Época Moderna, constitui uma iniciativa de grande importância no cenário historiográfico brasileiro, ao propor uma revisitação crítica e plural da Primeira Modernidade. A obra, composta por vinte e um capítulos, articula com rigor temas estruturais, circulações globais, transformações culturais e conflitos políticos, sempre com o objetivo de desafiar a centralidade europeia tradicionalmente associada ao período.

Entre os maiores méritos do volume está o compromisso consistente com a renovação historiográfica. Ao recusar narrativas teleológicas e eurocêntricas, os organizadores e autores propõem um olhar descentralizado, atento às múltiplas modernidades e às agências subalternas. A articulação entre as partes, ainda que por vezes com variações no grau de aprofundamento empírico e teórico entre os capítulos, demonstra coerência e um forte senso de projeto coletivo. Destacam-se especialmente as seções dedicadas às circulações globais e às revoltas atlânticas, que cumprem com especial sucesso a proposta de inserção da Primeira Modernidade em uma história conectada e relacional.

Não obstante seus inúmeros méritos, algumas limitações podem ser apontadas. A recorrente centralidade da experiência europeia, em especial na primeira e na terceira partes, ainda tensiona o ideal de uma história verdadeiramente global (WALLERSTEIN, 2003, p. 215–218). Ademais, a abordagem interseccional, que articule raça, gênero e classe de forma mais sistemática, poderia ter sido mais desenvolvida em alguns capítulos. Tais lacunas, contudo, não comprometem a relevância do projeto.

Do ponto de vista didático, A Época Moderna configura-se como um instrumento valioso para o ensino universitário, ao oferecer tanto atualizações historiográficas quanto problematizações metodológicas, estimulando a reflexão crítica sobre a própria operação historiográfica de periodização (NASCIMENTO, 2013, p. 269–289). Sua contribuição é dupla: insere-se na consolidação do campo da História Moderna no Brasil e, simultaneamente, tensiona suas bases tradicionais, abrindo espaço para agendas mais inclusivas e críticas.

Em síntese, A Época Moderna é uma obra ambiciosa e necessária. Seu balanço final é decididamente positivo, confirmando seu lugar como referência obrigatória para quem deseja pensar a Primeira Modernidade sob uma ótica plural, crítica e global.

  • O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001

Referências bibliográficas

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  • Editores Responsáveis
    Maria Cristina Correia Leandro Pereira e Miguel Palmeira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    01 Maio 2025
  • Aceito
    15 Ago 2025
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