Open-access O MACRO E O MICRO NA HISTÓRIA DIGITAL: UMA REFLEXÃO SOBRE A PRÁTICA DE PESQUISA A PARTIR DOS ARQUIVOS LATINO-AMERICANOS DA PANDEMIA1

Resumo

O artigo busca compreender as características de arquivos digitais criados para documentar a pandemia de COVID-19 na América Latina a partir de meados de 2020 – enfocando aspectos como as trajetórias de seus criadores e as estratégias de documentação empregadas. A partir disso, propõe-se uma reflexão teórico-metodológica acerca da prática de pesquisa em história em meio à transformação digital. Buscando uma “hermenêutica da prática”, reflete-se sobre as implicações, as tensões e os diálogos entre as estratégias de pesquisa empregadas, quais sejam, métodos de classificação e comparação, com auxílio de ferramentas computacionais (em uma perspectiva macro), e uma combinação de entrevistas de história oral e etnografia digital (em uma perspectiva micro). O artigo, portanto, discute a prática da história digital, contribuindo para os debates acerca do uso de bases de dados, história oral e etnografia na pesquisa em história.

Palavras-chave
História Digital; Pandemia de COVID-19; Arquivos; Humanidades Digitais; História Oral

Abstract

The article delves into the features of digital archives created to document the COVID-19 pandemic in Latin America from mid-2020 onwards – focusing on aspects such as the trajectories of their creators and the documentation strategies employed. From this starting point, it proposes a theoretical-methodological reflection on historical research practice amid digital transformation. In pursuit of a “hermeneutics of practice,” one reflects on the implications, tensions, and dialogues between the research strategies used – that is, methods of classification and comparison while using computational tools (aiming for a macro perspective), and a combination of oral history and digital ethnography (aiming for a micro perspective). Thus, the article discusses digital history practice, contributing to debates on the use of databases, oral history, and ethnography in historical research.

Keywords
Digital History; COVID-19 Pandemic; Archives; Digital Humanities; Oral History

I. Olhar macro

A estratégia de pesquisa sobre os arquivos da pandemia em uma escala macro iniciou-se pela realização de um amplo levantamento de projetos, seguida da criação de uma taxonomia e da criação e de uma base de dados contendo tais informações. O esforço para encontrar arquivos digitais da pandemia na América Latina5 começou em motores de busca populares, como o Google, e seguiu para redes sociais e websites de arquivos, museus e universidades. Tratou-se de um “processo longo”, como descreveu Amanda Montezino (2022, p. 277), integrante da equipe que garimpou tais projetos, “repleto de dúvidas, fracassos e certo êxito; mas, principalmente, um espaço de experimentações”. O uso de termos como “pandemia”, “COVID-19”, “coronavírus” e “quarentena” combinados a “arquivo”, “relatos”, “histórias” e “testemunhos”, dentre outros semelhantes, conduziu a resultados razoáveis, sendo possível listar dezenas de projetos no continente (CONCENTINO, 2022). Após listadas tais iniciativas, entretanto, é que o processo de as estudar, com o auxílio de métodos computacionais, realmente começou.

I.I. Construindo uma base de dados

O esforço colaborativo da equipe do Coronarquivo possibilitou a constituição de uma base de dados que, desde sua criação no segundo semestre de 2020, cresceu paulatinamente até alcançar 120 projetos. Essa base, hoje publicada para acesso público, definiu o conjunto de fontes do presente trabalho. Enquanto tais projetos eram identificados, trabalhava-se na definição da seguinte taxonomia, que visava à organização de informações gerais dos arquivos:6

Categoria Descrição Exemplos Nome nome do arquivo – País país de origem – Criador nome específico da instituição/pessoa/coletivo responsável pela criação e gestão do arquivo – Categoria de criador/ gestor tipos de criadores/gestores Universidade; Independente/ autônomo; Organização daSociedade Civil; Arquivo; Museu; dentre outras. Estratégias para composição do arquivo estratégias empregadas paracomposição das coleções Crowdsourcing; Produção autoral;História oral; Raspagem de dados. Ferramentas utilizadas para coleta ferramentas usadas para viabilizar as estratégias de coleta E-mail; Google Forms;WhatsApp; Upload via website;Facebook; SurveyMonkey; dentre outras. Disponibilização da coleção forma como cada arquivo disponibilizou a sua coleção Website; Instagram; YouTube;Livro; Facebook; Spotify; Google Drive; Wikipedia; dentre outras. Tipos de documento tipos de documento arquivados Testemunho escrito; Fotografia;Testemunho em áudio; Vídeo;Dados estatísticos; Desenho; Meme; Poesia; dentre outros. Ferramentas para divulgação formas de difusão e/ou convite para participação Website; Instagram; Facebook;YouTube; Twitter; Jornais; dentre outras. Descrição descrição resumida –

São muitas as possibilidades de análise das informações contidas na base de dados do Coronarquivo.7 Neste espaço, apresentarei apenas alguns desses resultados, voltados especialmente para o perfil dos criadores dos projetos e para as formas de coleta de registros históricos empreendidas por eles.8

I.II. Arquivos da pandemia em uma perspectiva macro

Os dados do Coronarquivo apontam para 12 categorias de criadores/gestores de projetos de memória da pandemia na América Latina (Gráfico 1). Aproximadamente 84% desse total correspondem a três categorias: universidades (52%), autônomos/independentes (23%) e organizações da sociedade civil (14%). A predominância de pesquisadores, professores universitários ou pessoas, em geral, ligadas ao mundo acadêmico na criação dos projetos monitorados constitui um importante indicador sobre a meta-história do arquivamento da pandemia e desta própria pesquisa. Termos comuns nos nomes dos projetos estudados, como “arquivo”, “memória” e “história”, têm dimensão ampla e não se restringem a círculos acadêmicos. Entretanto, a consideração da relevância dessas ideias no que se refere à pandemia, como um problema que necessita de intervenção, pode estar relacionada ao itinerário de reflexões acadêmicas sobre esses temas. Em outras palavras, muitas das iniciativas de arquivamento foram lideradas por pesquisadores do campo das humanidades que já possuíam, direta ou indiretamente, alguma experiência de trabalho nos campos dos arquivos, da memória e da história (ainda que isso não signifique que tais experiências prévias oferecessem substrato prático para a criação dos projetos – a maioria dos entrevistados relata nunca ter feito nada semelhante aos arquivos da pandemia).

Gráfico 1
Categorias de criadores/gestores de arquivos da pandemia na América Latina

Quanto às estratégias para a composição dos arquivos, os dados do Coronarquivo apontam para quatro abordagens principais – adotadas de forma não exclusiva pelos projetos (ou seja, que podem se sobrepor): crowdsourcing (76), conteúdo autoral (47), história oral (12) e raspagem de dados (9) (Gráfico 2).9 A partir desses dados, percebe-se que quase 40% dos projetos funcionaram como produtores de seus próprios documentos, categorizados no Coronarquivo como “conteúdo autoral”. Nesses casos, é como se os projetos da pandemia fossem coletâneas pessoais do início ao fim, que encontram em seus próprios itens elementos de suposta significância coletiva, justificando sua publicização. Esses projetos podem ser diários, como Cartas da pandemia,10 álbuns fotográficos, como Crónicas del Ecuador Covid-19, ou mesmo coletâneas de documentos variados cuja autoria pode não ser dos titulares dos projetos, mas por eles apropriada no momento da montagem de seus acervos, como os memes do En Cuarentena Chile. Os arquivos de produção autoral revelam que uma certa sensação de ubiquidade permeou a história do arquivamento da pandemia, já que um número significativo de criadores entendeu que seus próprios registros refletiam a coletividade do evento em questão.

Gráfico 2
Formas de coleta de registros históricos

O caráter coletivo da pandemia é o elemento subjacente à maioria das estratégias de composição de acervos na América Latina. A escolha pela raspagem de dados, adotada por 8% dos projetos, e pela história oral, presente em 10% dos casos, revela a percepção de que eles deveriam, de alguma forma, coletar registros para além do que os criadores dos arquivos poderiam produzir. A raspagem de dados na internet que resultou em arquivos com dados estatísticos sobre pessoas contaminadas e óbitos, por exemplo, tem relevância especial na composição social de comunidades periféricas ou desatendidas pelo Estado, como exemplificam os casos do Monitoreo COVID-19 e do Coronavírus nas favelas. Seja no meio urbano ou rural, tais projetos ilustram a ação de comunidades historicamente marginalizadas que, durante a ascensão da COVID-19, atuaram elas mesmas na reunião de registros e informações sobre a calamidade em questão.

A história oral, por sua vez, constrói-se sobre tradições de entrevistas e testemunhos orais que datam de muito antes da COVID-19, revelando o anseio pela escuta de experiências de vida de diferentes agentes. Seguindo protocolos de entrevista variados, que serão discutidos com mais cuidado na segunda parte do artigo, os projetos que utilizaram a história oral entendem que acervos representativos são constituídos por registros históricos produzidos por variados agentes. Como exemplos dessa abordagem, pode-se citar os projetos Documentando a pandemia de COVID-19 no Rio Grande do Sul, e Fala, Parente!.

A maioria dos arquivos da pandemia na América Latina, 63% deles, optou por uma técnica de coleta de informação cujo nome é, em si, reflexo da transformação digital: crowdsourcing, termo que apareceu em reflexões de criadores dos projetos e tem sido utilizado globalmente para se referir à coleta de registros históricos no contexto da pandemia (ZUMTHURM, 2021). Uma definição genérica de crowdsourcing pode ser a seguinte: método de coleta de informações online a partir de chamadas abertas ao público. Originalmente visando ser uma forma de produção veiculada na colaboração online, o crowdsourcing ganhou força em meio às humanidades na década de 2010, em tarefas como digitalização de acervos, revisão de transcrições automatizadas ou preenchimento de metadados para arquivos digitais (Cf. MARINO, 2025). Como forma de coleta online voltada à constituição de arquivos digitais, como é o caso da pandemia, o crowdsourcing popularizou-se a partir da atuação de projetos como o September 11th Digital Archive,11 o Hurricane Digital Memory Bank12 e o Japan Disasters Digital Archive.13 Esses casos, assim como os da pandemia na América Latina, baseiam-se na seguinte lógica para recorrer ao crowdsourcing: eventos coletivos inesperados são testemunhados por muitos, que podem ter suas “memórias vernaculares” documentadas (HESS, 2007); como aparatos de registro e a internet popularizaram-se, há condições ímpares para a criação de acervos colaborativos via crowdsourcing. No caso da pandemia na América Latina, projetos como #MemóriaCovid-19, Coronarchivos e Memoria COVID-19 são exemplos dentre as dezenas que atuaram nesse sentido.

II. Olhar micro

A estratégia de estudo dos arquivos da pandemia na América Latina, a partir de uma análise macro é valiosa para identificar tendências globais no perfil dos criadores de projetos de memória e nas escolhas sobre como modelar tais arquivos no cenário pandêmico. Os breves resultados discutidos, como visto, permitem a formulação de questões de pesquisa e a criação de hipóteses para esse cenário, como se verificou no caso da predominância de universidades e do crowdsourcing. No entanto, um contato mais próximo e individualizado com os projetos permite vislumbrar situações que passam despercebidas pela estratégia de análise de dados. Tais aproximações foram realizadas a partir de entrevistas de história oral, de estratégias de crítica documental e de etnografia. Quanto à história oral, conduziram-se 23 entrevistas temáticas com criadores de projetos, buscando informações acerca das motivações, das dinâmicas de trabalho e dos aspectos infraestruturais dos arquivos (uso de tecnologias digitais, ferramentas e métodos referentes à coleta, ao armazenamento e ao acesso aos materiais coletados).14 Realizou-se também a crítica documental de publicações, entrevistas e comunicações feitas pelos criadores dos arquivos em revistas acadêmicas, na imprensa ou em redes sociais. Além disso, com inspiração na ideia de “etnografia digital” (Cf. PAOLI; D’AURIA, 2021), buscou-se compreender os meios de atuação dos arquivos – o que foi especialmente importante no caso de projetos veiculados em plataformas de redes sociais proprietárias.

II.I. O dia a dia de documentar a pandemia

Em complemento às percepções apresentadas na primeira parte do artigo, pode-se dizer que os projetos geridos em universidades seguem uma estrutura organizacional vertical. Em geral, observaram-se hierarquias, com idealizadores e lideranças perceptíveis. Todos os criadores e líderes dos projetos se reconheceram como tais nas entrevistas de história oral. No entanto, houve unanimidade quanto ao reconhecimento do caráter colaborativo e coletivo na vivência das iniciativas e na motivação dos projetos. Quanto a esse ponto, havia a percepção de que a pandemia e, principalmente, a quarentena, eram eventos de alguma forma sem precedentes que precisavam ser documentados. Entretanto, essa preocupação geral se traduziu em motivações específicas que contribuíram para a criação de projetos bastante plurais. O projeto Arquivos da pandemia, por exemplo, focou na comunidade da Fiocruz. Às Margens da Pandemia: relatos da maternidade, por outro lado, teve um enfoque temático voltado à maternidade no contexto pandêmico. Com efeito, a pluralidade de enfoques caracteriza os arquivos da pandemia para além da universidade, como se pode notar em muito exemplos: o Varal de emoções enfocou a favela da Rocinha; o Archivo Peruano Covid19 e o COVID-19 en Argentina compuseram-se como acervos fotográficos; Inventário dos sonhos, por fim, expressa o interesse de psicanalistas de coletarem relatos de sonhos.

O relacionamento entre os líderes dos projetos e as equipes que atuaram em seu cotidiano deu-se por meio da delimitação das estratégias para atingir os objetivos previamente definidos, o que passa, em primeiro lugar, pela divisão de tarefas na coleta de registros. Os estudantes que atuaram no projeto Fala, Parente! faziam parte do Programa de Educação Tutorial Indígena (PET-Indígena) na Universidade Federal do Amapá (BARROS, 2021). Eles conduziram entrevistas e trabalharam na transcrição de relatos. As tarefas de catalogação e organização arquivística dos registros coletados pelo projeto ArchivoCR Covid-19 também foram realizadas por estudantes de Arquivologia em parceria com a equipe do Arquivo Nacional da Costa Rica.15 Voluntários do Diários de emergência utilizaram seus lugares sociais específicos para reunir diários de contribuintes, fossem eles moradores de favelas ou brasileiros residentes no exterior (PEREGRINO; ASSIS, 2022). Algumas iniciativas, entretanto, atuaram de forma completamente autônoma, sem contar com equipes, como foi o caso de Varal de emoções, gerido por duas moradoras da favela da Rocinha (ALVES; SILVA, 2023), e do Archivo Peruano Covid19, liderado pelo fotógrafo Paolo Rally, morador de Lima (RALLY, 2023). Outras assumiram dinâmicas colaborativas descentralizadas, como os fotojornalistas que construíram o COVID Guatemala (RAMÍREZ, 2023). Tais casos, cujas histórias foram desvendadas através de entrevistas e de esforços de pesquisa individualizados, mostram que o arquivamento digital da pandemia foi bastante diverso, expressando tanto agendas de ensino e pesquisa quanto formas de atuação voluntária por atores da sociedade civil. Essa pluralidade estende-se às formas pelas quais tais arquivos efetivamente compuseram suas coleções. E é aqui que o caráter autorreflexivo deste artigo, que procura observar simultaneamente seus resultados e seu processo de pesquisa, torna-se mais instigante.

II.II. Crowdsourcing na vida real

A breve apresentação das estratégias de composição dos arquivos latino-americanos da pandemia, realizada na seção anterior, baseou-se em uma análise de categorias registradas em uma base de dados. Essas categorias são estáveis e parametrizadas: “conteúdo autoral”, “raspagem de dados”, “história oral”, crowdsourcing. No entanto, com o exercício de aproximação em relação à história desses arquivos, as formas de coleta por eles utilizadas ganham contornos mais fluidos e vívidos. Dentre as iniciativas de memória cujos criadores foram entrevistados, 13 se enquadravam, a princípio, na categoria de crowdsourcing. Isso porque, de algum modo, todas se organizavam em torno de chamadas abertas na internet para coletar registros. As escolhas técnicas e processuais feitas por esses projetos, entretanto, revelam os contornos culturais e os desafios práticos e teóricos encarados no processo de memorialização da pandemia. Também, essas histórias matizam as variadas facetas das percepções de arquivo e arquivamento construídas por esses atores.

O estabelecimento de um canal direto a partir de ferramentas de comunicação, como e-mail, aplicativos de mensagens e redes sociais, ilustra a forma mais simples de implementação de projetos de crowdsourcing. É o caso de Diários de Quarentena, por exemplo, que realizou chamadas em redes sociais para divulgar um e-mail e um número de telefone para recebimento de testemunhos em áudio via WhatsApp. O Proyeto había una vez una pandemia. Uruguay en tiempos de Covid-19 e o Archivo Peruano Covid19 também se utilizaram de e-mail, sendo que, neste último caso, houve o acréscimo do recurso “marcar” na plataforma do Instagram – quando uma legenda faz referência a um perfil em uma postagem. Iniciativas de crowdsourcing com interesse na reunião de metadados sobre os registros coletados, em geral, optaram pelo uso de formulários online. É o caso de Arquivos da pandemia, que utilizou a ferramenta LimeSurvey (HEYMANN; BORTOLOTTI, 2022), de Inventários de Sonhos, que utilizou o serviço SurveyMonkey (MAMEDE, 2022), e de muitos projetos, como Testemunhos do Isolamento e (Re)configurações socioculturais em tempos de pandemia, que aderiram ao Google Forms (KUSHNIR, 2022; SAITO-FAIRBROTHER; SEMOTO, 2021).

A história do crowdsourcing na experiência do arquivamento da pandemia na América Latina, entretanto, ganha contornos mais complexos quando o funcionamento das coletas passa a desafiar o que, em geral, se entende como essa estratégia. É o caso da iniciativa Cartografia das memórias. O projeto, que se interessou por receber gravações com sons da pandemia, lançou chamadas abertas na internet buscando contribuições em áudio, sendo assim, enquadrado na categoria crowdsourcing na base de dados do Coronarquivo. Quando entrevistada, entretanto, a criadora do projeto, Keila Zaché, contou um caso que aguçou a sua curiosidade durante o processo de coleta: em dado momento, o Cartografia das memórias recebeu uma grande quantidade de contribuições de Lajes Pintadas, no interior do Rio Grande do Norte. Zaché notou que as vozes gravadas pareciam ser de crianças. O que teria ocasionado esse foco de colaborações? Considerando as definições de crowdsourcing, poder-se-ia pensar em elementos como algoritmos acoplados a mecanismos de busca ou a redes sociais, já que se trata de um método que depende da internet para funcionar. Em determinado momento, Zaché conseguiu contato com uma pessoa da região, que explicou a origem do número elevado de contribuições dali provenientes: tratava-se de uma professora que, após ver a chamada do projeto em redes sociais, levou aos seus alunos a missão de contribuir com o projeto, como proposta didática em meio ao ensino remoto. Como resultado, diversos estudantes acabaram contribuindo com o acervo do projeto (ZACHÉ; FERREIRA, 2022).

Esse tipo de situação enriquece a compreensão do crowdsourcing na medida em que oferece elementos de caracterização que extrapolam o que a categoria abarca. Entretanto, tal caso faz questionar a capacidade descritiva da categoria, em especial quando comparado a outras iniciativas que, também adeptas do crowdsourcing, construíram dinâmicas de atuação bastante diferentes. O projeto Documentando las memorias de la pandemia por COVID-19 en Bolivia, por exemplo, articulou a estratégia de chamada aberta via internet com o uso de formulários em papel. Quando as legislações de quarentena permitiam, membros da equipe percorriam escolas e centros culturais em La Paz para coletar respostas por meio de formulários impressos (QUISBERT, 2023). Esse caso revela a percepção dos limites do engajamento digital, convertida na aproximação física a potenciais contribuidores. É ilustrativo, também, o caso do projeto (Re)configurações socioculturais em tempos de pandemia. Após semanas iniciais com resultados frustrantes, a iniciativa substituiu suas expectativas de chamada aberta por esforços de convite ativo a grupos sociais específicos. Para os criadores do projeto, foi essa atividade que alavancou a recepção de formulários, a partir da mobilização de grupos culturais (como agremiações esportivas, grupos de teatro, dança, dentre outros) que existiam para além do meio digital (SAITO-FAIRBROTHER; SEMOTO, 2021).

A questão da especificidade de enfoques, por sua vez, parece ter sido especialmente relevante para as iniciativas que se estruturaram a partir de parâmetros do crowdsourcing, mas notaram as deficiências desse método. É o caso de Às margens da pandemia, que buscava particularmente relatos de mães (FIORI; VOLKER, 2021). Outro caso emblemático é o do projeto Fala, Parente!, que coletou relatos de comunidades indígenas que vivem em aldeias na região do Oiapoque. Ainda que o projeto tenha anunciado o interesse em receber registros digitalmente, através de uma chamada aberta típica do que se entende por crowdsourcing, os membros da equipe já imaginavam os limites desse método para atingir essas populações. O acesso remoto à internet, a falta de proficiência no uso de certas ferramentas digitais e, sobretudo, a inexistência de uma cultura de uso da internet e de ferramentas digitais de modo geral constituíam um ponto cego do crowdsourcing para este relevante grupo. Somente a aproximação física e direta de membros da equipe pôde garantir a captação de certos relatos nas aldeias (BARROS, 2022).

Casos como esses são desafiadores para uma pesquisa interessada no desenvolvimento de uma taxonomia para análise em bases de dados. Se todos forem considerados crowdsourcing, há o ganho de reconhecer que, ao menos, se trata de um conjunto de projetos que utilizou chamadas na internet para coletar registros. As nuances a respeito de como a internet foi utilizada, entretanto, se perdem nessa categorização, já que, como os breves casos citados ilustram, cada projeto traçou caminhos muito próprios. As limitações do crowdsourcing como termo com potencial de universalizar a categorização dos projetos também, entretanto, estão presentes em outros denominadores taxonômicos. O caso mais emblemático é o da história oral, já que muitos projetos que detectaram as limitações do crowdsourcing se direcionaram às entrevistas orais como forma mais eficiente de coletar relatos de agentes específicos.

II.III. Da história oral ao “Crazy Horse Total”

O caso que melhor exemplifica o termo história oral, conforme definido em manuais (Cf. ALBERTI, 2018 [2004]), é o de Documentando a pandemia da Covid-19 no Rio Grande do Sul, gerido em parceria pelo Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul e pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A adoção da história oral derivou da percepção, pela equipe gestora, de que o crowdsourcing deixaria muitos setores sem representatividade, como moradores de rua, analfabetos, idosos, e até mesmo administradores públicos que poderiam não responder aos questionários, mas que ocuparam papéis relevantes no combate à pandemia.16 As entrevistas foram conduzidas seguindo parâmetros bem estabelecidos pela literatura da história oral, como roteiro de entrevista, termos de cessão de direitos e transcrições para a criação de um repositório de acesso público. Mesmo o uso de ferramentas digitais para gravação de algumas conversas procurou seguir parâmetros recentes discutidos pela literatura especializada (RODEGHERO; WEIMER, 2021). A experiência, assim, adequa-se facilmente à caracterização de história oral. No caso de outros projetos, entretanto, caminhos consideravelmente mais heterodoxos foram adotados.

Muitos dos relatos coletados em aldeias indígenas no âmbito do Fala, Parente! resultaram de entrevistas orais, mas várias não foram gravadas, e não há certeza de que se tenha seguido um roteiro de perguntas estável. Segundo relataram membros da equipe, muitos desses testemunhos foram gravados em smartphones e depois enviados a estudantes sediados na universidade, quando havia possibilidade de acesso à internet (BARROS et al., 2022). Nesse contexto, os relatos eram transcritos e, se necessário, traduzidos, para então serem postados no Facebook ou publicados no livro do projeto (BARROS, 2021). No caso de Às margens da pandemia, muitas entrevistas orais sobre a maternidade na pandemia foram realizadas à distância. Contudo nem sempre se utilizou plataformas para ligação ao vivo, como se têm discutido e recomendado na literatura sobre história oral no meio digital (Cf. SANTHIAGO; MAGALHÃES, 2020). Muitas vezes, o contato foi feito via WhatsApp, com trocas que intercalavam mensagens em áudio curtas ou longas e pequenos textos escritos. Por vezes, as respostas eram apenas curtos “s” ou “n”. Podia levar dias até que certa pergunta fosse respondida. Outras entrevistas eram simplesmente abandonadas (FIORI; VOLKER, 2021). Completadas as entrevistas, um desafio metodológico se apresentou às gestoras do projeto: como tratá-las, arquivá-las, torná-las acessíveis de alguma forma?

O desenlace do problema dependeu da atuação de estudantes bolsistas, que se encarregaram da coleta e transcrição do material. Parte deles transcreveu os áudios e as mensagens escritas de forma literal, mantendo traços de oralidade, entrecortes e desvios gramaticais – mesmo que isso tornasse mais difícil a interpretação dos testemunhos. Outra parte fez intervenções mais incisivas ao transcrever, criando relatos em primeira pessoa baseados nos testemunhos coletados (resultando em textos mais inteligíveis e coesos se lidos isoladamente) (FIORI; VOLKER, 2021). Como resultado, o acervo do projeto compôs-se de relatos resultantes de processos muito particulares que integraram, lado a lado, uma única coleção. Isso, por certo, dificulta a caracterização da estratégia de coleta como história oral – entendendo o termo a partir de suas definições metodológicas mais rígidas e mesmo em comparação com o caso do Documentando a pandemia da Covid-19 no Rio Grande do Sul, por exemplo. No entanto, o objetivo central almejado, coletar histórias de forma oral, foi alcançado. Às margens da pandemia é o único projeto exclusivamente voltado à maternidade identificado na América Latina. Além disso, durante todo o processo, o grupo manteve uma rotina de estudos interdisciplinares sob orientação das professoras criadoras do projeto. Ademais, as variações no processo de transcrição levaram a reflexões epistemológicas importantes, segundo elas, inclusive sobre as variadas formas de se entrevistar e transcrever relatos orais.

Um último caso paradigmático a ser discutido é o do Projeto Reflexões, uma iniciativa independente criada por Rogério de Andrade, funcionário técnico do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Ao versar sobre a escolha da estratégia para a composição de seu acervo, que está parcialmente disponível ao público no Instagram e, principalmente, publicado no livro Histórias da COVID-19: a primeira onda no Brasil (2021), Andrade comentou: “eu não queria ter classe média, porque classe média eu conheço (...). Eu não via um livro falando do povão. E eu também não sei o que é povão”. Para chegar a esse objetivo, o autointitulado “empreendedor” seguiu uma estratégia de coleta intuitiva e experimental. Com recursos próprios, Andrade contratou uma estudante do curso de Serviço Social com vínculos no bairro de Sapopemba, na zona Sul da cidade de São Paulo. Tratava-se de uma das regiões mais atingidas pela COVID-19 na cidade. Andrade se considerava um forasteiro ali, mas avaliava que a contratada tinha “a jogadinha, a linguagem do meio” (ANDRADE, 2022b). Com um roteiro de perguntas parcialmente delimitado, ele apontou os temas e os grupos que desejava atingir. Com o gravador ligado no celular, a estudante Camila Felizardo foi a campo: entrevistou manicures, feirantes, fiéis de igrejas evangélicas, entre outras pessoas da região (ANDRADE, 2022a).

À medida que a coleta era feita na periferia, Andrade abordou pessoas às quais entendia que ele mesmo poderia ter acesso. As entrevistas, feitas com o diversificado grupo, de profissionais da saúde a militares, foram realizadas de forma remota. Contudo, elas seguiram protocolos pouco alinhados às formalidades metodológicas de disciplinas que usam entrevistas como instrumento de coleta de dados – como a antropologia ou a história oral. Segundo Andrade, ele frequentemente enviava garrafas ou latas de cerveja a seus entrevistados via aplicativos de compras. Na videochamada, ele e os entrevistados brindavam à distância. Iniciava-se a conversa, que podia durar horas. Foram dezenas de entrevistas, nem todas consideradas adequadas para compor o livro, julgou Andrade. A estratégia consistiu em coletar o máximo possível de material para, posteriormente, proceder à seleção. “Foi completamente louca”, assim ele qualifica a sua parte do trabalho (ANDRADE, 2022b).

Enquanto enviava feedbacks à contratada, por vezes incomodado com as fugas do roteiro, Andrade começava a se dar conta do tamanho do trabalho que teria na transcrição de todas as gravações. “Eu não sou um sociólogo, eu não sou um historiador”, ponderou, “preciso de ajuda”. A solução foi a contratação de mais duas outras pessoas: um professor, que ajudou na transcrição das entrevistas, e uma pesquisadora, que serviu de revisora e professora para a sua redação. Os relatos coletados não foram transcritos mantendo a oralidade, tampouco se limitaram a pequenas alterações para adaptação à linguagem escrita. Também não foi escrita uma narrativa em terceira pessoa contando a história dos agentes entrevistados. Andrade escreveu relatos em primeira pessoa, assumindo a voz dos entrevistados, mas usando as suas palavras e procurando um estilo próprio. Na sua percepção, a relevância dos relatos não residia na autenticidade ou na organicidade dos originais, mas nas informações. O processo de amadurecimento da redação durou seis meses, entre idas e vindas de manuscritos avaliados pela consultora de escrita. Não houve um esclarecimento metodológico claro por detrás das estratégias de coleta e tratamento de registros no caso do Projeto Reflexões. O processo foi instintivo, foi “um trabalho experimental”, como afirmou Andrade. Ao ser perguntado sobre como denominaria seu método de construção arquivística, ele, rindo, respondeu: “Crazy Horse Total” (ANDRADE, 2022b).

III. Reflexões sobre a prática da história digital

A experiência do Projeto Reflexões é emblemática de um fenômeno recorrente na história do arquivamento da pandemia de COVID-19. O caráter improvisado, intuitivo e pouco ortodoxo, que encontra seu extremo no método “Crazy Horse Total”, manifesta-se em alguma medida, em cada projeto. Esse traço pode ser relacionado ao caráter emergencial da situação pandêmica, já que todos ali decidiram agir rapidamente para coletar registros de um evento inesperado em tempo real. Por conta disso, avaliar as estratégias de construção arquivística da memória da pandemia dentro das balizas disciplinares acadêmicas é uma tarefa complexa.

Acerca da história oral em meio à transformação digital, por exemplo, William Schneider (2014, p. 21; 30) discute sobre a importância de manter a “originalidade” de histórias orais gravadas na transcrição e a manutenção das “informações contextuais”. Muitas das entrevistas realizadas pelos arquivos da pandemia não se enquadram nessas e em outras delimitações de “boas práticas” da história oral (Cf. ALBERTI, 2018 [2004]). Ainda assim, é importante reiterar o contexto de construção desses arquivos, marcado por uma situação inédita e emergencial, permeada por dor, medo e trauma. Além disso, a motivação para a improvisação, para afastamento dos “manuais de regras”, originou-se frequentemente da percepção de que métodos tradicionais não cabiam à situação posta. Os testemunhos pouco usuais produzidos via WhatsApp por projetos como Às margens da pandemia e Fala, Parente! constituem, possivelmente, alguns dos mais ricos registros históricos sobre a maternidade e as comunidades indígenas do Oiapoque durante a pandemia. As transcrições livres e pouco ortodoxas do Projeto Reflexões representam hoje uma publicação ímpar sobre a experiência da pandemia em um dos bairros mais afetados pela doença na maior metrópole da América Latina.

Para além da caracterização do cenário de arquivamento da pandemia de COVID-19 na América Latina, a situação descrita a partir da realização de estudos particularizados mostra-se valiosa para refletir sobre métodos e abordagens para a prática da pesquisa em história no meio digital. A primeira parte do artigo, baseada em uma análise macro, permitiu traçar tendências globais e formular questões de pesquisa a partir de análises relacionais em larga escala. A segunda parte, contudo, ofereceu não apenas nuances particulares da história de cada projeto de arquivamento, mas também, em muitos casos, questionou a uniformidade de categorias como crowdsourcing e “história oral” que, na primeira etapa, pareciam pasteurizar casos múltiplos e plurais em grandezas monológicas, passíveis de análise quantitativa por meios computacionais. Ao invés de enfatizar a história do arquivamento da pandemia, portanto, procura-se agora desvendar os sentidos dessa tensão de formas de abordagem, sugerindo encaminhamentos processuais para o que se tem chamado de história digital.

III.I. História e bases de dados

O olhar macro implicado na primeira parte deste artigo dialoga com um movimento mais amplo na historiografia contemporânea, marcado pelo uso de ferramentas de processamento de dados em larga escala. Essa corrente se materializou na recalibragem das perspectivas de longa duração (GULDI; ARMITAGE, 2014), mas já vinha crescendo, pode-se dizer, desde os comentários otimistas acerca da computação por historiadores nos anos 1970 (BALHANA; WESTPHALEN, 1973; LADURIE, 1973). Outras vertentes da pesquisa histórica, como a análise de redes e a história dos conceitos baseada na mineração de textos, também se baseiam em explorar grandes bases de dados por meio de recursos computacionais (Cf. PEREIRA; ARAUJO, 2017; PRELL, 2011). Em todos esses casos, o papel das ferramentas digitais concentra-se na datificação das informações extraídas das fontes históricas, como resumiu Trevor Barnes (2013, p. 299): “para que o Big Data seja empregado, as informações precisam ser convertidas em números, em dados”. É a projeção de números em série que alimenta análises econômicas de longa duração; é o cruzamento de nomes em bases de dados que permite desvendar redes epistolares em larga escala; é a identificação de encadeamentos de palavras e construções sintáticas que permite realizar a leitura à distância de uma era inteira de um gênero literário de uma só vez… Exemplos como esses variam quanto aos tipos de dados, disciplinas e tópicos, mas todos compartilham o fato de que a computação é uma extensão da função humana de processamento quantitativo de dados (GENET, 1986). Em todos esses casos, os computadores automatizam operações com volumes de dados humanamente impossíveis (ou, ao menos, extremamente onerosos) de serem processados (MANNING, 2013).

A base de dados do Coronarquivo navega no mar de projetos que apostam nas análises de bases de dados para alavancagem de questões de pesquisa originais e enriquecedoras. Para analisar o panorama de projetos de memória da COVID-19 na América Latina, o Coronarquivo transformou características desses arquivos em dados estruturados, visando o processamento computacional. Os ganhos dessa opção metodológica foram notados na parte inicial do artigo: além da análise estatística dos projetos, o tratamento dos dados permitiu a elaboração de questões de pesquisa originais. Para que tal estudo fosse possível, entretanto, foi necessário normalizar a terminologia utilizada na taxonomia do Coronarquivo. Para que um computador processe dados sobre, por exemplo, a categoria de gestor de um projeto, é necessário que esses dados estejam parametrizados em unidades normalizadas. Em outras palavras, os projetos devem ser classificados como geridos por uma “Universidade”, uma “Organização da Sociedade Civil” ou um “Arquivo Público”. Um erro de digitação ou a criação de descritores que não encontrem correspondência em comum inviabiliza o processamento computacional. Mas o principal desafio do que se pode denominar “história de dados” vai além disso. A grande questão é a categorização da informação: e se crowdsourcing não significar exatamente a mesma coisa em cada caso categorizado dessa forma? E se “história oral” não definir exatamente o modus operandi de determinadas práticas de coleta de registros históricos? Refletir sobre essas questões implica compreender o corolário das bases de dados, segundo o qual “se algo não pode ser contado, não pode ser incluído” (BARNES, 2013, p. 299). Os desdobramentos metodológicos e éticos dessa percepção devem ser objeto de reflexão.

Datificar informações extraídas de fontes históricas não é uma operação neutra (GIL, 2021). Definir o processo de coleta de registros históricos de um arquivo da pandemia como crowdsourcing, “raspagem de dados” ou “história oral” exige uma reflexão crítica sobre o que se entende por tais termos e por quais razões a experiência de coleta de um projeto se enquadra em uma ou outra categoria. A clareza desses critérios é um procedimento relevante, uma vez que a sua compreensão não pode ser tomada como senso comum (STERNFELD, 2011). Por exemplo: “história oral” pode ser utilizada, genericamente, com o entendimento de “histórias coletadas de forma oral”, mas também vinculada a uma metodologia histórica específica ou ao seu uso em contextos jornalísticos (FAULKENBURY, 2020). A polissemia conceitual representa um desafio a qualquer projeto de história baseado na análise computacional de dados. Conforme discutiu Joshua Sternfeld (2011, p. 557), as associações lógicas que justificam o processo de datificação se diluem na experiência de acesso pelos usuários de determinados conjuntos de dados. Essa instabilidade dá vazão a narrativas descontextualizadas que não necessariamente se harmonizam com a história do porquê de cada categoria. O descompasso entre a categorias analíticas e a experiência dos arquivos da pandemia em seus processos de coleta de registros ilustra esse problema.

Uma perspectiva historiográfica de grande potencial reflexivo sobre o tema reside no caso das bases de dados sobre populações escravizadas, objeto de estudo de Aldair Rodrigues. Segundo ele, uma preocupação importante em relação ao uso extensivo de uma perspectiva alinhada ao Big Data nos estudos históricos se refere à “hiperfragmentação das trajetórias de vida”, havendo o risco de que tais procedimentos analíticos dissipem “a visibilidade das experiências humanas presentes nas entrelinhas das fontes, subestimando a ação histórica e as vozes dos sujeitos marginalizados” (RODRIGUES, 2022, p. 152). A possibilidade de compilação de informações retiradas de documentos históricos em bases de dados tem sido não apenas comum, mas também relevante nos estudos sobre tráfico transatlântico – por motivos como acessibilidade e até mesmo resistência à violência diaspórica (que também dissipou as fontes para o estudo deste fenômeno global) (AZOULAY, 2019). No entanto, dada a natureza de violação presente nesses documentos, produzidos muitas vezes por estruturas burocráticas coloniais que visavam normalizar a escravização de pessoas, Rodrigues reflete sobre os limites éticos e epistemológicos da constituição dessas bases de dados. Segundo ele, é fundamental refletir sobre como a escolha por um termo padronizado ou outro não vai recriar uma “comodificação contemporânea da vida dos africanos, podendo convertê-las em meros produtos acadêmicos a partir de lentes racializadoras” (RODRIGUES, 2022, p. 152).

A proposta de Rodrigues, de centrar-se no uso de termos referentes às origens na África e de criar entradas com foco nas pessoas escravizadas e não nos registros de posse pelos colonizadores, ilustra como a definição de metadados deve envolver reflexões epistemológicas e metodológicas, mas, também, éticas. Isso porque, fundamentalmente, bases de dados são uma forma de narrativa (GIL, 2021). A datificação de informações provenientes de documentos históricos é um processo de imposição a esses dados de uma lógica específica. Essa “recombinação histórica” (ANDERSON, 2014), entretanto, apresenta-se em geral descontextualizada na forma de dados, como ressaltou Sternfeld (2011) – seja em uma planilha ou em uma forma de visualização gráfica. É preciso alertar, como afirma Laura Putnam (2016, p. 379), que essa “nova topografia da informação possui pontos cegos sistemáticos”. A “retórica de objetividade” do “Big Data”, conforme destacaram Nicodemo e Cardoso (2019, p. 21), remete à construção de uma ideologia persuasiva, um “canto da sereia”, como chamou Tiago Gil (2024, p. 6). Passando muitas vezes a sensação de que se compõe de registros perfeitos e isentos, representativos de uma totalidade, a história de dados, assim, pode encaminhar a uma narrativa pouco autorreflexiva e limitada em termos de crítica teórica (chegando, no limite, ao que Gil (2024) provocativamente denominou “neopositivismo digital”).

Pensar taxonomias e bases de dados implica também refletir sobre a própria noção de classificação, historicamente veiculada para “dominar, disciplinar e excluir” (D’IGNAZIO; KLEIN, 2020, p. 123). Assim, pode-se dizer que a linguagem das bases de dados é, de certo modo, um ponto alto da “consignação arquivística” na era digital, para retomar a expressão de Derrida (2017 [1995]). O argumento de D’Ignazio e Klein (2020) sobre o que chamaram de “feminismo de dados” (data feminism) deriva da crítica de que as retóricas totalizantes impressas em conhecimentos baseados em Big Data frequentemente naturalizam as formas de desigualdade na constituição das bases de dados. Segundo elas, o caráter binário inerente à categorização, expresso na exigência de padronização normativa das entradas, pode recorrer aos estudos de gênero como forma de sofisticação dos questionamentos e de busca por respostas (D’IGNAZIO; KLEIN, 2020, p. 97–123). É o caso da noção “queer”, que tem sido empregada como conceito guarda-chuva para uma série de experiências que concentram em si a crítica ao binarismo. Um dos grandes desafios da construção de um campo de “humanidades digitais queer”, segundo Ruberg e colaboradores (2018, p. 120-122), reside justamente na função de “bagunçar” implícita nessa perspectiva, que conflita com a demanda do Big Data de “organizar”. Enquanto o ato de “queerizar” caminha em direção à crítica da norma, instabilizando padrões em nome da agência de pessoas que não se reconhecem em determinadas ordens taxonômicas, bases de dados anseiam pela estabilidade.

D’Ignazio e Klein (2020, p. 114-115) argumentam que categorizações plurais e sofisticadas, mais atentas à agência de setores marginalizados, devem ser empregadas em um processo de revisão metodológica constante, buscando “forçar ideias simples e opressivas a serem mais complexas, matizadas e justas”. No entanto, a prática de aprimoramento taxonômico na pesquisa histórica é desafiadora, como bem pontuou Gil (2021). Há casos, entre os arquivos da pandemia, que ilustram essa dificuldade. O projeto COVID-19 en Argentina, por exemplo, organizou seu arquivo em uma página de Instagram com fotografias, geridas de forma descentralizada por uma rede de fotógrafos. A experiência do COVID Guatemala é semelhante, mas houve centralização no processo de coleta e publicação das imagens dos mais de 50 fotojornalistas participantes. Esses projetos não se enquadram na categoria crowdsourcing uma vez que não houve uma chamada aberta para a realização das coletas, mas na categoria “conteúdo autoral”, porque seus documentos foram criados por membros do projeto. Entretanto, as iniciativas se diferenciam quanto à dinâmica de coleta, já que o primeiro tem um elemento de compartilhamento descentralizado e o segundo é centralizado. Nuances dessa natureza estão presentes na maioria dos projetos marcados como “conteúdo autoral”. Uma solução seria fragmentar a categoria de coleta, aperfeiçoando a sua granularidade (Cf. GIL, 2021; PUTNAM, 2016). No entanto, construir e reconstruir critérios taxonômicos conforme as demandas de cada caso pode mais parecer um trabalho sem fim. Retomando o caso do “Crazy Horse Total”, tem-se um paradigma completo para essa reflexão: os variados níveis de complexidade de uma experiência singular como essa faz questionar sobre os limites eventualmente intransponíveis das bases de dados, já que possivelmente não haveria muitos dados compartilhados entre os projetos, consideradas as suas tamanhas especificidades.

III.II. Macro e micro: estratégias em debate

As reflexões apresentadas nas páginas anteriores oferecem um rico substrato para pensar o relacionamento conceitual entre categorização, bases de dados, experiência histórica e prática de pesquisa no contexto dos arquivos da pandemia na América Latina. Será que, figurativamente, categorias como crowdsourcing, “história oral” e “conteúdo autoral” não atuam como categorias normativas redutivistas, que provocam uma retórica de universalidade que marginaliza a experiência concreta de coleta de registros pelos arquivos da pandemia? Será que a agência desses personagens, notada na etnografia e na história oral com os criadores dos projetos, não se perde em imposições do pesquisador-criador da base de dados? Em certa medida, a resposta é afirmativa. Toda forma de categorização é de algum modo redutivista, como apontaram D’Ignazio e Klein (2020). Entretanto, se seguirmos a proposta de Gil (2021) sobre a inserção de bases de dados no métier do historiador contemporâneo, devemos lembrar que assim como o processo de datificação é inevitavelmente simplificador em alguma medida, o processo de interpretação documental e escrita também o é.

Michel de Certeau (2011 [1975]) observa que a escrita da história, de certo modo, não é mais do que um processo de extração de informações e tradução em encadeamentos semânticos segundo determinados parâmetros (prática) oriundos de um lugar social específico. Paul Veyne (1998 [1971], p. 104), por sua vez, afirmou que “a história é a descrição do individual através dos universais”. Segundo ele, “conceitos históricos são instrumentos estranhos: eles permitem compreender porque são ricos de um sentido que ultrapassa qualquer definição possível; pelo mesmo motivo, são uma incitação perpétua ao contrassenso” (VEYNE, 1998 [1971], p. 105). Ao conceituar e categorizar, portanto, opera-se em alguma medida o paradoxo do entendimento em um encadeamento lógico universal e a redução do sentido da experiência a uma palavra que, em si, permanece apenas uma palavra (VEYNE, 1998 [1971], p. 110–113). Seguindo essa disposição teórica, a história escrita, assim como uma base de dados, é uma forma de representação da experiência histórica invariavelmente incompleta, sendo a incompletude uma marca do trabalho do historiador (ROUDINESCO, 2006). O grau das lentes do historiador, entretanto, torna-se alvo de reflexão quando se discute a ascensão das metodologias de análise de dados.

A história da coleta de informações pelos arquivos da pandemia na América Latina, tal como apresentada neste artigo, é a conjunção de duas histórias: a macro-história baseada na leitura de dados planilhados e a sucessão de micro-histórias que acompanharam as trajetórias dos criadores dos projetos. De certo modo, o caminho mais pacato para extrair sentido do relacionamento entre essas duas histórias, que incidem sobre o mesmo objeto, é o da conciliação, entendendo que as duas narrativas propostas se complementam (Cf. GRAHAM; MILLIGAN; WEINGART, 2021; “Microhistory Today”, 2017). Com efeito, como norteadores de caminhos metodológicos e epistêmicos, macroscópio e microscópio não são exatamente antagônicos, argumentou Tim Hitchcock (2014). A análise macro da base de dados do Coronarquivo proporciona informações sobre padrões globais, indispensáveis para contextualizar e avaliar as experiências particulares: a recriação da coleta via internet no caso de aldeias indígenas ou de mães, por exemplo, ecoa questões conceituais e historiográficas macro que só puderam ser identificadas notando a relevância global do chamado crowdsourcing. Por outro lado, as trajetórias dos criadores dos projetos de memória da pandemia ganham sentido como expressões situadas do processo de arquivamento da pandemia em perspectiva a problemáticas mais amplas, como a transformação digital e as respostas memorialísticas a eventos disruptivos de escala global. Essa perspectiva é notável no caso aqui estudado, convergindo com as tendências discutidas por “micro-historiadores” em face das transformações historiográficas recentes (Cf. LAITE, 2020).

Apontar o “caminho do meio” como uma solução harmônica ao que parece ser um conflito teórico-metodológico, entretanto, não é suficiente, já que não é que as trajetórias micro-históricas desvendadas tenham oferecido apenas complementos às informações da base de dados do Coronarquivo. Frequentemente, elas apresentaram enfrentamentos. A história do “Crazy Horse Total” na experiência do Projeto Reflexões ou a transcrição de relatos de mães no Às margens da pandemia desafiam as categorias normalizadas na base de dados. Não há harmonia nesses casos, mas tensão e disputa. E nessas disputas, metaforicamente, quem vence? Em um primeiro momento, a abordagem micro-histórica, por duas razões. Primeiro, porque mesmo que se entenda que o trabalho do historiador invariavelmente passe pela realização de generalizações e simplificações, como discutido anteriormente, o grau de generalização da narrativa da base de dados demonstra-se tão elevado a partir do estudo das experiências particulares de cada projeto que parece não fazer mais jus à experiência dos agentes de memória latino-americanos.17 Em segundo lugar, a abordagem micro-histórica revela-se mais eficaz na apreensão da agência dos projetos em suas trajetórias. Enquanto a explanação estatística da base de dados trata os projetos como entradas normalizadas, dados tabulares legíveis por máquinas, a micro-história das coletas apresenta pessoas de carne e osso, agentes cujas trajetórias moldam de forma bastante humana as formas de angariar registros históricos sobre a pandemia de COVID-19.

Essa proposição contribui para os debates acerca da prática de pesquisa em história no meio digital. Em 2014, Steve Anderson (2014, p. 112) observou: “o Big Data parece estar ganhando a batalha pela história digital”. Com efeito, mesmo que a ascensão de diversas metodologias e abordagens de incursão historiográfica no meio digital também favoreça o estudo de “histórias pequenas” (“small histories”), nos últimos anos a prevalência de “histórias grandes” (“big histories”) parece persistir (LAITE, 2020, p. 963). Argumenta-se, entretanto, que metodologias de aproximação particularizada de agentes e eventos históricos devem ser consideradas abordagens fundamentais da história digital. É o caso da etnografia digital (PAOLI; D’AURIA, 2021; UNDERBERG; ZORN, 2013), que demanda esforços transdisciplinares, da crítica documental e, também, da história oral, a mais proveitosa estratégia historiográfica nesta investigação.

Stephen Sloan (2014, p. 184) argumenta que, embora se possa pensar que “o valor da história oral esteja diminuindo” em meio à ascensão do uso de dados, ela tem “um valor cada vez maior”, pois, diante da escalada quantitativa, “a compreensão qualitativa é mais necessária do que nunca”. A experiência reflexiva sobre história, base de dados e história oral no caso dos arquivos da pandemia corrobora esse argumento, acrescendo o fato de que a história oral pode dar voz a agentes cujas experiências são homogeneizadas no processo de datificação. Assim, trajetórias desvendadas por entrevistas de história oral e por aproximações etnográficas não devem ser “viradas do avesso” para se enquadrar nas categorias de um banco de dados, mas o contrário. Isso converge com o posicionamento de Gil (2021) sobre o uso de bases de dados na história, passando pela revisão constante dos critérios e chegando ao desenvolvimento de níveis de granularidade mais e mais capazes de transformar em categorias celulares o que se pode com muito mais cuidado apresentar em parágrafos textuais.

Conclusivamente, pode-se dizer que dessa percepção decorre um dilema práti co importante para a prática da pesquisa em história em meio às ferramentas digitais: se boas práticas da construção de bases de dados devem partir de estudos pormenorizados para serem mais justas em suas variáveis taxonômicas, não há uma dissonância na própria defesa do uso de bases de dados como ferramenta capaz de analisar fenômenos de tal magnitude que o ser humano é incapaz de fazer? No caso do Coronarquivo, tratou-se da categorização de diversos aspectos constitutivos de 120 arquivos latino-americanos, muitos dos quais gerenciados por agentes anônimos ou desconhecidos. Adentrar de forma cuidadosa em cada caso tornou-se inviável nas condições de pesquisa existentes, um problema que se estende ao cenário global da pesquisa em história digital, como apontou Putnam (2016).

Isso não implica necessariamente abandonar a ideia de trabalhar com bases de dados, dadas as relevantes contribuições que essa abordagem pode oferecer à história. Entretanto, é fundamental enfatizar que bases de dados devem ser flexíveis e metamórficas, se virando e desvirando conforme o processo de investigação. De certo modo, é como se a prosaica metáfora que, no Brasil, muito se popularizou durante o período da pandemia, fosse bastante significativa ao que esta experiência de pesquisa permitiu aprender sobre o uso de bases de dados na pesquisa em história: deve-se trocar o pneu do carro com o carro em movimento. Evidentemente, trata-se de uma tarefa de difícil realização plena. Mas, se há uma demanda historiográfica para o uso de bases de dados na pesquisa histórica contemporânea, ela não deve se efetivar pelo afã de simplesmente utilizar ferramentas computacionais, mas pelo potencial enriquecedor que esses recursos podem oferecer. A constante manutenção e aperfeiçoamento de bases de dados durante todo o processo de pesquisa é, pois, uma necessidade permanente.

Considerações finais

A partir de duas abordagens metodológicas, este artigo procurou estudar a história de um fenômeno relevante do tempo presente, o arquivamento da pandemia de COVID-19 na América Latina. Conhecer a trajetória dessas iniciativas, de seus agentes e de suas formas de documentação, é fundamental para a realização de pesquisas históricas sobre a própria pandemia, e em escala global. Embora não caibam nesse artigo as importantes reflexões sobre como exatamente a natureza desses arquivos vai impactar a escrita dessa história, pode-se dizer que a caracterização aqui apresentada é um passo necessário para se possa compreender como tais arquivos se criaram desde 2020. A primeira parte do artigo enfatizou o que se chamou um “olhar macro” sobre a questão, efetuando técnicas de datificação de informações para talhar questões de pesquisa, além de permitir a identificação de tendências globais que, por sua vez, ensejam discussões historiográficas mais amplas. Com esse movimento, foi possível identificar o protagonismo de universidades no agenciamento de arquivos digitais da pandemia na região, bem como perceber que formas de coleta de informações como a história oral e, sobretudo, o crowdsourcing, foram fundamentais para moldar arquivos baseados em expectativas de colaboração e compartilhamento. A segunda parte do artigo propôs uma incursão mais cuidadosa e particularizada, defendida como um passo necessário para a crítica e o aprimoramento da metodologia de composição e análise de dados. Através de aproximações etnográficas e da história oral, dentre outras formas de estudo particularizado, foi possível vislumbrar a micro-história dos criadores de iniciativas de arquivamento em diferentes contextos latino-americanos. Observou-se, por exemplo, o desafio da realização de chamadas abertas na internet, as formas criativas e pouco ortodoxas de coleta de histórias orais e o processo exploratório de agentes que lidavam com a ideia de coletar registros e arquivá-los pela primeira vez. Assim, além de aferir maior precisão conceitual em relação aos critérios taxonômicos da base de dados referida na primeira parte do artigo, a etnografia e a história oral voltaram-se aos agentes históricos em suas experiências particulares. A agência dessas pessoas é muito maior neste caso do que quando tratadas como entradas de uma planilha.

Para além de introduzir o quadro de arquivamento da pandemia na América Latina, entretanto, este artigo assumiu um caráter autorreflexivo, questionando como o relacionamento entre as duas estratégias de pesquisa adotadas poderia se desdobrar em reflexões enriquecedoras aos debates da chamada história digital. Em outras palavras, buscou-se realizar uma “hermenêutica da prática”, de modo que o objeto deste artigo foi tanto o arquivamento da pandemia quanto o próprio ato de estudar a história do arquivamento da pandemia. Inicialmente, propôs-se que as duas estratégias adotadas, o “olhar macro” e o “olhar micro”, poderiam se complementar, contribuindo mutuamente para suprir seus respectivos pontos cegos. Quando observadas em conjunto, portanto, as partes um e dois deste artigo apresentam maior valor analítico do que quando tomadas isoladamente. Mas, como se argumentou, a primeira parte necessita mais da segunda do que o contrário, o que reitera a relevância das histórias particulares em meio à inserção da lógica das bases de dados no fazer historiográfico. Ao expressar as preocupações metodológicas, teóricas e mesmo éticas com as possíveis reduções advindas da adoção extensiva e descuidada da análise de dados, propôs-se uma crítica a essa escola. Ao destacar a expressividade com que o que se chamou de “história de dados” tem ascendido, redobrou-se a preocupação, figurada, por exemplo, no silenciamento de minorias e na imposição de estruturas de dados demasiadamente simplificadoras para eventos históricos complexos. Essa tensão metodológica, assim, leva ao argumento de que há a necessidade de incorporação de estudos pormenorizados aos esforços de histó ria de dados. Quando se trata de agentes periféricos ou marginalizados, marcados por condições de precariedade e exclusão, a preocupação é ainda mais relevante. É o caso de muitos agentes de memória da COVID-19 na América Latina que atuam na informalidade sob condições infraestruturais precárias e, sobretudo, de agentes marcados por feridas históricas de longa data.

  • 1
    Artigo não publicado em plataforma preprint. Todas as fontes e bibliografia utilizadas são referenciadas. Nenhuma ferramenta de Inteligência Artificial foi utilizada na redação do artigo, pesquisa de fontes e análise de dados. Derivado da tese de doutorado Arquivando a pandemia: transformação digital e luta pela memória na América Latina, defendida na Universidade Estadual de Campinas em 2024.
  • 5
    Não realizei neste artigo a discussão teórica acerca das razões pelas quais se pode considerar tais projeto “arquivos”. Acerca disso, ver: MARINO, 2024.
  • 6
    As categorias foram cunhadas ao longo de um processo contínuo, iniciado no segundo semestre de 2020 e não necessariamente completo enquanto se escreve este artigo. A forma de apreender tais características é resultado da combinação de esforços de aproximação etnográfica e realização de entrevistas de história oral, como será enfatizado na segunda parte do artigo.
  • 7
    A base de dados completa pode ser acessada no Repositório de Dados da Unicamp, em: https://redu.
    unicamp.br/dataset.xhtml?persistentId=doi:10.25824/redu/TKYHCZ. Também é possível navegar nos dados através da dashboard desenvolvida pelo Centro de Humanidades Digitais-Unicamp: https://chd.ifch.unicamp.br/node/84.
  • 8
    Esses dois pontos foram escolhidos, primeiro, pois são expressivos para uma caracterização primária do quadro de arquivamento digital da pandemia na América Latina. Segundo, porque trata-se de informações que enriquecem o debate teórico-metodológico sobre como praticar história digital, como será discutido na terceira parte do artigo.
  • 9
    “Raspagem de dados” é um dos termos utilizados para designar o processo de extração de informações digitais por meio de procedimentos computacionais (como o uso de linguagens de programação ou de softwares). Em geral, refere-se à extração de grandes volumes de dados disponíveis na internet. Os sentidos das demais categorias mencionadas – crowdsourcing, “conteúdo autoral” e “história oral” – serão discutidos no corpo do texto.
  • 10
    Os endereços eletrônicos para acesso aos projetos de arquivamento diretamente citados estão disponíveis no final do texto.
  • 11
    September 11 Digital Archive, disponível em: <https://911digitalarchive.org/index.php>. acesso em: 13 nov. 2023.
  • 12
    Hurricane Digital Memory Bank, disponível em: <https://hurricanearchive.org/>. acesso em: 13 nov. 2023.
  • 13
    Japan Disasters Archive, disponível em: <https://jdarchive.org/en>. acesso em: 13 nov. 2023.
  • 14
    As entrevistas realizadas estão disponíveis para acesso público no Repositório de Dados de Pesquisa da Unicamp.
  • 15
    “Foi como ensiná-los a fazer algo que estavam estudando”, refletiu o diretor do Arquivo Nacional da Costa Rica, Javier Jiménez (2023).
  • 16
    Como estudos críticos já demonstraram, a impressão foi acertada (Cf. MARINO, 2025).
  • 17
    Cada célula de uma planilha tem uma história, como apontou Tom Robisheaux (In: “Microhistory Today”, 2017, p. 32).

Disponibilidade de dados

todos os dados estão disponíveis no texto

Referências Bibliográficas

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  • Archivo CR Covid19 Disponível em: <https://www.archivonacional.go.cr/index.php/component/content/article/128-noticias/183-el-covid-19-habitara-en-la-memoria?Itemid=437>. Acesso em 19 nov. 2023.
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  • Às Margens da Pandemia: relatos de maternidade Disponível em: <http://relatosdematernidades.com/index.php/historias/>. Acesso em 19 nov. 2023.
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  • Cartas da Pandemia Disponível em: <https://www.instagram.com/cartasdapandemia/?hl=pt-br>. Acesso em 19 nov. 2023.
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  • Cartografia das Memórias Disponível em: <https://cartografiadasmemorias.org/>. Acesso em 19 nov. 2023.
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  • Coronarchivos Disponível em: <https://www.coronarchivos.com/bienvenidos>. Acesso em 19 nov. 2023.
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  • COVID Guatemala Disponível em: <https://www.instagram.com/covidguatemala/>. Acesso em 19 nov. 2023.
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  • COVID-19 en Argentina Disponível em: <https://www.instagram.com/covid.fotos.federal/?hl=pt-br>. Acesso em 19 nov. 2023.
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  • COVID-19 Nas Favelas Disponível em: <https://experience.arcgis.com/experience/8b055bf091b742bca021221e8ca73cd7/>. Acesso em: 6 fev. 2024.
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  • Crónicas del Ecuador Covid-19 Disponível em: <https://www.instagram.com/cronicas_del_ecuador/>. Acesso em 19 nov. 2023.
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  • Diários de Quarentena Disponível em: <https://www.youtube.com/playlist?list=PL9Ob2c83mLRbp5TKzbuIEUsUVSqFoGNhV>. Acesso em 19 nov. 2023.
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  • Documentando a Experiência da Covid-19 no Rio Grande do Sul Disponível em: <https://www.apers.rs.gov.br/documentando-covid19-rs>. Acesso em 19 nov. 2023.
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  • Documentando las memorias de la pandemia por COVID-19 en Bolivia (2020-2022) Disponível em: <https://archivolapaz.com.bo/interaccion-social/documentando-las-memorias-de-la-pandemia-covid-19-en-bolivia-2020>. Acesso em: 19 nov. 2023.
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  • En Cuarentena Chile Disponível em: <https://www.instagram.com/encuarentena_chile/>. Acesso em 19 nov. 2023.
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  • Fala, Parente! A Covid-19 chegou entre nós Disponível em: <https://www.facebook.com/petindigenaunifap/>. Acesso em 19 nov. 2023.
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  • Inventário dos sonhos Disponível em: <https://psicanalisedemocracia.com.br/2020/04/inventario-de-sonhos-2-conte-seu-sonho/>. Acesso em 19 nov. 2023.
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Editado por

  • Editores Responsáveis
    Maria Cristina Correira Leandro Pereira e Miguel Palmeira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    13 Nov 2024
  • Aceito
    15 Out 2025
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