Open-access Preparação do parto com exercícios de mobilidade das articulações e músculos pélvicos: revisão de escopo

RESUMO

Objetivo:   Caracterizar o uso de exercícios de mobilidade das articulações e músculos pélvicos na assistência pré-natal, bem como seus impactos no trabalho de parto e parto.

Método:   Trata-se de revisão de escopo, realizada nas bases de dados: PubMed, PubMed Central, BVS/Bireme, CINAHL, Web of Science, Scopus, EMBASE, PEDro, SPORTDiscus e no repositório ProQuest Dissertations and Thesis Global, em janeiro de 2025. Foram incluídos artigos originais, revisões na literatura, protocolos assistenciais e opiniões de especialistas. Realizou-se análise temática e estatística descritiva dos dados.

Resultados:   Foram incluídos 28 estudos, destes, 13 estudos acerca de exercícios de treinamento dos músculos do assoalho pélvico e 15 estudos relacionados a exercícios de mobilidade das articulações pélvicas, abrangendo modalidades de resistência e força, aeróbicas, aquáticas e de flexibilidade. Os resultados indicaram vantagens, tais como a diminuição da duração do trabalho de parto, o fortalecimento do assoalho pélvico, a prevenção da incontinência urinária, uma maior taxa de partos vaginais, embora os achados não tenham se mostrado consistentes entre os estudos.

Conclusão:   Exercícios de mobilidade das articulações e músculos pélvicos são práticas seguras, que podem proporcionar benefícios durante a gravidez e o parto. Entretanto, ressalta-se a relevância de desenvolver revisões sistemáticas e metanálises segundo a modalidade de exercício.

Descritores:
Gravidez; Cuidado pré-natal; Técnicas de exercício e de movimento; Diafragma da pelve; Terapias complementares

ABSTRACT

Objective:  To characterize the use of pelvic-floor muscle and joint mobility exercises in prenatal care, as well as their impact on labor and delivery.

Method:  This is a scoping review conducted in the following databases: PubMed and PubMed Central, BVS/Bireme, CINAHL, Web of Science, Scopus, EMBASE, PEDro, SPORTDiscus, and the ProQuest Dissertations and Theses Global repository in January 2025. Original articles, literature reviews, care protocols, and expert opinions were included. Descriptive statistics and thematic analyses were used.

Results:  Twenty-eight studies were included, of which 13 focused on pelvic floor muscle training exercises and 15 on pelvic joint mobility exercises, covering resistance and strength, aerobic, aquatic and flexibility modalities. The findings were inconsistent across studies, but they suggested benefits such as a higher rate of vaginal births, bladder incontinence prevention, pelvic floor strengthening, and reduced labor duration.

Conclusion:  Pelvic joint and muscle mobility exercises are safe methods that can help during pregnancy and childbirth. However, the significance of conducting systematic reviews and meta-analyses in accordance with the exercise modality is underscored.

Descriptors:
Pregnancy; Prenatal care; Exercise and movement techniques; Pelvic floor; Complementary therapies

RESUMEN

Objetivo:  Caracterizar el uso de ejercicios de movilidad articular y muscular del suelo pélvico en la atención prenatal, así como su influencia en el trabajo de parto y el parto.

Método:  Se realizó una revisión del alcance en las siguientes bases de datos: PubMed y PubMed Central, BVS/Bireme, CINAHL, Web of Science, Scopus, EMBASE, PEDro, SPORTDiscus y el repositorio global de disertaciones y tesis de ProQuest en enero de 2025. Se incluyeron artículos originales, revisiones bibliográficas, protocolos de atención y opiniones de expertos. Se efectuó un análisis temático y estadística descriptiva.

Resultados:  Se incluyeron 28 estudios, de los cuales 13 abordaron ejercicios de entrenamiento muscular del suelo pélvico y 15 ejercicios de movilidad articular pélvica, que incluyen tipos de resistencia, fuerza, aeróbicos, acuáticos y de flexibilidad. Los resultados indicaron beneficios como la reducción de la duración del parto, el fortalecimiento del suelo pélvico, la prevención de la incontinencia urinaria y una mayor tasa de partos vaginales, aunque los hallazgos fueron inconsistentes entre los estudios.

Conclusión:  Los ejercicios de movilidad articular y muscular pélvica son prácticas seguras que pueden proporcionar beneficios durante el embarazo y el parto. No obstante, se subraya la importancia de realizar revisiones sistemáticas y metanálisis de acuerdo con la modalidad de ejercicio.

Descriptores:
Embarazo; Cuidado prenatal; Técnicas de ejercicio y movimiento; Diafragma pélvico; Terapias complementarias

INTRODUÇÃO

A preparação da mulher para o parto envolve a realização de atividades físicas de mobilidade, como exercícios aeróbicos de intensidade leve a moderada, além de práticas de educação em saúde, relaxamento e suporte emocional. Estudos sugerem que programas de preparação física e educacional contribuem para aprimorar o processo de parto, diminuir a necessidade de intervenções e aumentar a satisfação da mulher(1).

As boas práticas obstétricas recomendadas, fundamentadas em evidências, priorizam a segurança e a autonomia da mulher no momento do parto, oferecendo ambientes receptivos, métodos não farmacológicos de alívio da dor, a presença de acompanhante e respeito à fisiologia do parto(2); a Rede Alyne, que sucede e aprimora a antiga Rede Cegonha no Brasil, fortalece o modelo de atendimento humanizado, integral e equânime, promovendo atenção obstétrica especializada, além de um enfoque na diminuição das intervenções desnecessárias, da mortalidade materna e das desigualdades(3).

Atualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a classificação de Robson como uma ferramenta padrão global para a avaliação, o monitoramento e a comparação das taxas de cesarianas ao longo do tempo em um mesmo hospital e entre diversas instituições, para prevenir indicações e intervenções desnecessárias(4). Apesar desta diretriz, no Brasil, a cesárea é uma via de nascimento recorrente, com taxa de 56,6%, no período de 2017 a 2022(5). Alguns fatores podem estar relacionados às altas taxas de cesáreas, como o medo da dor, desconhecimento quanto aos riscos e benefícios de cada tipo de parto, além da falta de autonomia da mulher, persistindo em diversos serviços(5-6).

Na assistência pré-natal, as estratégias educativas desempenham um papel crucial ao compartilhar informações da gestação, do trabalho de parto (TP) e do parto(7), e quando combinadas com programas de atividades físicas - como alongamentos, atividades aeróbicas ou treinamento de força adaptado, promove alterações positivas para mulher(8). Essas ações estão diretamente ligadas a um aumento substancial do bem-estar durante a gestação. Isso abrange a diminuição dos sintomas de depressão e ansiedade, a redução da fadiga, o alívio de desconfortos na região lombar e pélvica, além de melhorias no humor, na qualidade do sono, sem comprometer a saúde materno-fetal(9-10).

A preparação da mulher para o parto abrange a adoção de abordagens não farmacológicas, executadas por meio de exercícios destinados à mobilidade das articulações pélvicas(11-13), assim como atividades que fortalecem os músculos do assoalho pélvico(14-15) e do períneo(15-16). O uso dessas estratégias durante a gestação pode impactar na redução do tempo de TP(11), no aumento das taxas de partos vaginais(13), na redução dos casos de incontinência urinária (IU) (14-15), além de reduzir as taxas de episiotomia e lacerações de graus III e IV(15-16).

Os exercícios de mobilidade das articulações pélvicas incluem alternância entre posições em pé, sentada ou deitada, movimentos de adução e abdução, rotação interna e externa das pernas, além de exercícios tipo “avanço” e “afundo”. Podem ser realizados com o peso do próprio corpo, carga adicional ou com auxílio de acessórios, como bola suíça, bola feijão ou balanço pélvico(11,17-19). Para gestantes, o uso da bola suíça promove alinhamento, aumento da percepção corporal e alterações do centro de gravidade, reduzindo dores pélvicas e lombares (20-21). O método Spinning Babies®(22-23) descreve exercícios e posicionamentos pélvicos que favorecem relaxamento do assoalho pélvico, alívio da dor durante a gestação e, no trabalho de parto, aumentam a flexibilidade, rotação e descida do bebê na pelve materna.

Os exercícios de treinamento dos músculos do assoalho pélvico (TMAP) são frequentemente utilizados na assistência às gestantes e recomendados para prevenção de disfunções pélvicas, como prolapsos de órgãos, IU, trauma perineal; bem como para reduzir o tempo do segundo período do TP(24-25). Há diferentes protocolos destes exercícios na literatura, a maioria das mulheres realiza os exercícios de TMAP em domicílio, no horário de sua preferência e sob orientação de um profissional(24,26).

Assim sendo, a preparação para o parto, por exercícios que ofereçam condições físicas e psicológicas mais adequadas à mulher, pode culminar em resultados benéficos durante a gestação, no momento do parto e no período pós-parto, resultando em uma maior satisfação da mulher e em uma diminuição das intervenções hospitalares(11-13,15-16).

A síntese de estudos que reúnem as estratégias de preparo do parto por meio de exercícios de mobilidade das articulações e músculos pélvicos é relevante para a condução desse cuidado, sendo que foram encontradas poucas revisões a este respeito(27). Considerando a necessidade de identificar e analisar os estudos sobre o tema, propõe-se esta revisão de escopo visando caracterizar o uso de exercícios de mobilidade das articulações e músculos pélvicos na assistência pré-natal, bem como seus impactos no trabalho de parto e parto.

MÉTODOS

Desenho do estudo

Esta revisão de escopo foi conduzida seguindo o método proposto pelo Joanna Briggs Institute (JBI)(28), utilizando o Fluxograma de Itens de Relatório Preferíveis para Revisões Sistemáticas e Metanálises para Revisões de Escopo (PRISMA-ScR) como ferramenta. O protocolo desta revisão foi registrado na plataforma Open Science Framework (OSF) sob o DOI 10.17605/OSF.IO/KQJU9.

Pergunta de Pesquisa, Critérios de Inclusão e Exclusão e Estratégia de Busca

Para a formulação da questão de pesquisa, adotou-se a estratégia mnemônica PCC (População, Conceito e Contexto). Nesta revisão, a população (P) é composta por mulheres grávidas ou gestantes; o conceito (C) de interesse abrange os exercícios de mobilidade das articulações e músculos pélvicos; e o contexto (C) refere-se aos serviços de assistência pré-natal (anteparto). Assim, estruturou-se a seguinte interrogação: “Quais são os estudos existentes sobre exercícios de mobilidade das articulações e músculos pélvicos durante assistência pré-natal (anteparto), apresentando resultados no TP e no parto?”

Foram incluídos artigos originais, revisões na literatura, protocolos assistenciais e opiniões de especialistas, sem restrição de idioma ou ano de publicação, publicados até 27 de janeiro de 2025. Foram excluídos os estudos não disponibilizados na íntegra, estudos que não respondessem à questão de revisão e protocolos de pesquisa.

Empregaram-se os descritores controlados: Pregnancy; Prenatal Care; Exercise Movement Techniques; Exercise Therapy; Exercise; Physical Therapy Modalities; Patient Positioning; Pelvic Floor, e as palavras-chave associadas nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH), ambos em inglês.

A estratégia de busca, incluindo todos os descritores e as palavras-chave, foi adaptada para cada base de dados, com o auxílio de uma bibliotecária. As bases incluídas foram: PubMed, PubMed Central (PMC), BVS/Bireme, CINAHL, Web of Science, Scopus, EMBASE, PEDro, SPORTDiscus e também a literatura não convencional (literatura cinzenta) do repositório ProQuest Dissertations and Thesis Global (Quadro 1).

Quadro 1 -
Definição da estratégia de busca com descritores e palavras-chave em cada base de dados. Campinas, São Paulo, Brasil, 2025.

Seleção, Análise e Tratamento dos Dados

Após a realização das buscas nas bases de dados, os estudos selecionados foram inseridos na plataforma da Web Rayyan®, na qual as duplicatas foram removidas. O recurso de cegamento foi ativado, permitindo que dois revisores realizassem, de forma independente, a análise e seleção dos títulos e resumos, considerando os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos. Ao final desta etapa, os conflitos foram mediados por um terceiro revisor, momento em que o cegamento da seleção foi desativado.

Os estudos selecionados pelos revisores seguiram para uma segunda etapa de triagem e passaram pela revisão de texto completo, em relação aos critérios de elegibilidade. Após a leitura completa dos textos, as discordâncias foram resolvidas por discussões e consenso entre os três revisores. As ferramentas JBI Appraisal Tools foram empregadas para avaliar a qualidade metodológica e o risco de viés dos estudos. Para solucionar dados divergentes, os componentes da ferramenta foram utilizados por dois revisores, assegurando maior exatidão e minimizando os vieses.

Foi desenvolvido pelos pesquisadores um instrumento de extração de dados em formato de planilha, composto por onze itens alinhados ao objetivo da revisão, contendo: número de ordem, tipo e ano de publicação, autores, objetivo, desenho do estudo, local do estudo, população e amostra, exercício(s) aplicado(s) na assistência pré-natal (anteparto), resultados, qualidade metodológica e decisão final quanto à inclusão ou não.

Os resultados foram organizados em tabela e quadros e sintetizados narrativamente, com o propósito de descrever os exercícios de mobilidade das articulações e músculos pélvicos. Os dados foram submetidos à análise temática e à estatística descritiva, apresentada em números absolutos e percentuais.

Aspectos Éticos

Esta revisão seguiu orientações éticas e metodológicas pertinentes, preservando os direitos autorais e sem recurso à inteligência artificial nas análises. Por não abranger sujeitos humanos, não houve necessidade de submissão a comitê de ética.

RESULTADOS

Identificou-se 3.558 estudos, destes, 1.992 estavam duplicados nas bases de dados. Dos 1.566 restantes, 1.487 foram excluídos após a leitura dos títulos e resumos por não atenderem aos critérios de elegibilidade. Dos 79 estudos restantes, oito não estavam com os textos completos disponibilizados, 30 foram excluídos por não responderem à pergunta da revisão e 13 não descreveram seus desfechos no TP e parto. Assim, foram incluídos nesta revisão 28 estudos. O fluxograma abaixo apresenta a síntese do processo de seleção dos estudos (Figura 1).

Figura 1 -
Fluxograma PRISMA-ScR com descrição do processo de identificação dos estudos incluídos na revisão - Campinas, São Paulo, Brasil, 2025.

A qualidade dos estudos foi avaliada por meio dos instrumentos JBI Appraisal Tools, sendo 14 considerados de qualidade elevada(12-13,24,26,29-38), 10 de qualidade moderada(14,39-47) e quadro de baixa qualidade(15,16,48-49). Entre os estudos incluídos nesta revisão, quatro foram provenientes do Brasil(15-16,29,38), três dos Estados Unidos(30,39-40), Noruega(31,41-42), Espanha (26,32,48), Egito(13,31,33) , Austrália(14,24,34), e China(12,35,43), outros dois foram do Reino Unido(37-38), e um do Canadá(44), Índia(45), Itália(46) e Polônia(49). Em relação ao período de publicação, 10(12-13,15-16,24,26,31,34-35,39) foram publicados nos últimos cinco anos (2020 a 2024), 11(29-30,32-33,37-38,43-47) publicados entre 2015 e 2019 e sete(14,36,40-42,48-49) publicados entre 2004 e 2013.

Os estudos foram categorizados em: 1) exercícios de treinamento dos músculos do assoalho pélvico (TMAP); e 2) exercícios de mobilidade das articulações pélvicas. Na tabela 1 são apresentados os exercícios por modalidade, aplicados durante a assistência pré-natal (anteparto), e a indicação destes exercícios descritas nos estudos.

Tabela 1 -
Exercícios de mobilidade das articulações e músculos pélvicos por modalidade e indicações para mulheres grávidas - Campinas, São Paulo, Brasil, 2025.

Foram avaliados 13 estudos(14-16,24,26,33-34,37,39,42-44,46) sobre exercícios dos músculos do assoalho pélvico, identificados como exercícios de treinamento dos músculos do assoalho pélvico (TMAP), também conhecidos como exercícios de Kegel, com impactos no TP e parto (Quadro 1). Cinco estudos(15,24,33-34,43) relataram a primeira sessão dos exercícios de TMAP, supervisionada por fisioterapeutas ou outros pesquisadores, acompanhada de monitoramento semanal ou mensal das mulheres por meio de registros diários, até o término da gestação.

Os protocolos analisados apresentaram divergências quanto ao início dos exercícios de TMAP, variando entre a 8ª e a 34ª semana de gestação(14,33,36,41-43,45), sendo mais frequentes a partir da 20ª semana(34,36,42), durante o pré-natal. A frequência variou entre prática diária e de uma(14) a três sessões semanais(33). O número de repetições por sessão oscilou de três a 12 contrações musculares do assoalho pélvico(34,36,43). Uma revisão sistemática com 30 ECR demonstrou que as intervenções foram realizadas nos três trimestres da gestação(26). Em todos os estudos, a orientação incluía a execução domiciliar dos exercícios e o uso de registros diários em campo.

A maioria dos estudos sobre exercícios de TMAP foi realizada por fisioterapeutas(14-16,24,33-34,36,38,41-43), seguidos por enfermeiros(15,45) e obstetrizes(15,34). O total de mulheres que participaram dos estudos sobre exercícios de TMAP foi de 38.118. No entanto, duas revisões(15-16) não deram essa informação (Quadro 2).

Quadro 2 -
Síntese dos estudos sobre exercícios de treinamento dos músculos do assoalho pélvico - Campinas, São Paulo, Brasil, 2025.

Duas revisões de exercícios de TMAP mostraram resultados com o uso do dispositivo Epi-No(16,39). Um estudo descreveu que o dispositivo reduziu significativamente as lacerações graves e episiotomias em três de quatro estudos avaliados(16), porém não discrimina os valores. Outro(24), em dois de três estudos, não identificou nenhum benefício para gestação e parto.

Entre 15 estudos de exercícios de mobilidade das articulações pélvicas, foram identificados 11 exercícios aeróbicos e caminhada(12-13,30-32,37,39,44,46,47-49); dez exercícios de resistência e força(12,29-30,35,39-40,46-49); oito exercícios de flexibilidade(12,29-32,40,44,48), que foram associados a exercícios de respiração(31,40); e quatro exercícios aquáticos(31,40,44,46).

Os protocolos relacionados aos exercícios de mobilidade das articulações pélvicas mostraram variações que vão desde sessões diárias até encontros semanais(12,32,35,44,46), com duração entre 10 e 120 minutos(12,44,46). A prática de exercícios físicos entre o primeiro(46) e o segundo trimestre da gravidez(13). Todos os protocolos executaram os exercícios até o término do atendimento pré-natal, com exceção de um estudo que interrompeu os exercícios no terceiro trimestre(37).

Os estudos sobre exercícios de mobilidade das articulações pélvicas envolveram 86.822 mulheres. Uma revisão(48) não forneceu detalhes da população, e outros estudos não se aplicam essa informação(29,30,39-40). A maioria dos estudos foi realizada por fisioterapeutas(29,44,47-49), seguida por médicos obstetras(35,37) e especialistas em esportes(32,39), enfermeiros(35) e enfermeiros obstétricos(13). As demais características destes estudos estão apresentadas no Quadro 3.

Quadro 3 -
Síntese dos estudos sobre exercícios de mobilidade das articulações pélvicas - Campinas, São Paulo, Brasil, 2025.

DISCUSSÃO

A análise dos estudos revelou aumento significativo nas publicações na última década, principalmente conduzidas por fisioterapeutas, evidenciando sua contribuição na preparação da mulher para o parto por meio de exercícios de mobilidade das articulações e músculos pélvicos durante o pré-natal (anteparto) e na divulgação de pesquisas relacionadas.

Os exercícios dos músculos pélvicos, identificados como exercícios de TMAP, combinam força e flexibilidade(50). A avaliação regular desses músculos por profissional é essencial, podendo ser realizada por eletromiografia de superfície (EMG), palpação bidigital (escala de Oxford modificada ou Ortiz), que é simples, bem tolerada e minimamente invasiva, ou perineometria, que mede a pressão muscular via perineômetro(16,51).

Para os exercícios de TMAP, um estudo(26) mostrou maior chance de prevenção de lacerações perineais graves (graus III e IV), embora três estudos(34,35,42) não tenham identificado diferenças significativas. Lacerações de graus III e IV podem comprometer estruturas e funções do assoalho pélvico, gerando disfunções sexuais, urinárias, coloproctológicas e prolapso, exigindo assistência multiprofissional(52).

Embora a massagem perineal não seja foco desta revisão, estudos incluídos relataram redução de lacerações graves(16), taxa de episiotomia(14-16,41,49) e dor perineal pós-parto(38) entre as mulheres que a realizaram. Em 2018, a OMS recomendou a massagem perineal a partir da 35ª semana gestacional para prevenir lacerações graves(53).

Duas revisões(16,38) sobre exercícios de TMAP analisaram o Epi-no, um dispositivo de dilatação vaginal com balão inflável de silicone, manômetro e bomba manual que promove alongamento gradual. Estudos indicam que o Epi-no pode reduzir o risco de lacerações vaginais, diminuir o segundo período do parto e a necessidade de analgésicos(16). Contudo, esses achados não foram claramente definidos em um estudo(16) e numa revisão sistemática(38), que não identificou evidências sólidas para sugerir recomendações.

A frequência de episiotomia foi reduzida entre as mulheres que praticaram exercícios de TMAP em um ECR(43), mas três estudos não identificaram diferenças significativas(38,31,45). A OMS recomenda que a taxa de episiotomia não ultrapasse 10%(54), embora ainda seja alta em países em desenvolvimento, como Brasil (56,1%)(55), Índia (63,4%), Omã (66%), Camboja (94,5%) e Taiwan (100%)(56), indicando necessidade de revisão de práticas e formação contínua de profissionais e serviços de obstetrícia.

No que se refere ao tempo de TP, exercícios de TMAP mostraram redução nos primeiros(43) e segundos períodos(24,43), embora uma revisão sistemática(24) tenha identificado diminuição do segundo período também em mulheres que não praticavam TMAP. Dois ECRs (36,42) e outra revisão(15) não encontraram diferenças, e outros estudos(14,16,26,33-34) não avaliaram este desfecho. Segundo a OMS e o Ministério da Saúde do Brasil(54,57), o primeiro período inicia-se com contrações regulares até dilatação completa; para nulíparas, a fase ativa dura em média 3,8-4,3 horas, e o segundo período, iniciando com 10 cm de dilatação, dura cerca de 1 hora para primíparas e 24 minutos para multíparas. Metanálises indicaram redução de 10-21 minutos no segundo período (24,43), mas resultados não foram consistentes com outros estudos.

Quanto ao tipo de parto, não houve diferenças entre mulheres que realizaram exercícios de TMAP e as que não realizaram(15,24,26,34,36,41,43). Apenas um ECR(33) indicou menor percentual de cesarianas, mas com amostra limitada a 20 mulheres. Revisões sistemáticas(24,26) e ECR(58) recentes sugerem que programas pré-natais com TMAP não apresentam evidências consistentes de redução nas taxas de cesariana ou partos instrumentais (fórceps/vácuo).

Uma revisão sistemática(45) identificou redução da dor no trabalho de parto (TP) em mulheres que realizaram exercícios de TMAP. Outro estudo(59), com programa iniciado na 30ª semana de gestação e mantido até seis semanas pós-parto, observou diminuição significativa da dor e melhora no Pelvic Floor Distress Inventory-20. Além disso, outros resultados identificados(45) foram o fortalecimento dos músculos do assoalho pélvico e a prevenção de IU na gestação. A IU apresenta prevalência de 31% em mulheres primíparas (com base em quatro estudos: IC 95% 26,0-36,0%; I² 90,6%) e 42% em mulheres de qualquer paridade (27 estudos, IC 95% 32,0-53,0%; I² 99,8%), justificando medidas de cuidado e prevenção(60).

Esses achados reforçam a importância da implementação de exercícios de TMAP como estratégia segura e eficaz para reduzir dor, fortalecer o assoalho pélvico e prevenir IU, promovendo benefícios tanto no período gestacional quanto no pós-parto(45,59,60).

Diferentes modalidades de exercícios durante a gestação podem proporcionar benefícios significativos, promovendo um período gestacional mais saudável e com menores riscos(50). São recomendados exercícios de resistência e força (peso livre leve, elásticos, peso corporal), aeróbicos (caminhada, corrida leve, pedalada, dança de baixo impacto), aquáticos (natação, hidroginástica) e de flexibilidade (alongamento, pilates, ioga), respeitando o condicionamento físico da gestante e histórico prévio de prática(61). A Sociedade Brasileira de Cardiologia orienta que mulheres sem comorbidades ou complicações obstétricas realizem essas atividades para promoção da saúde materna, fetal e neonatal(50).

Nos programas de assistência pré-natal, os exercícios de resistência e força incluíram reeducação postural, fortalecimento de glúteo, quadríceps, agachamentos e abdominais(12,29-30,37,39,40,46-49). Aeróbicos abrangeram diferentes modalidades, como caminhada rápida e corrida(12-13,30-32,37,39,44,46,48-49), enquanto exercícios aquáticos foram representados por natação e hidroginástica (31,40,44,46). Os exercícios de flexibilidade incluíram ioga, alongamentos, posição de quatro apoios e exercícios pélvicos com bola suíça(12,29-32,40,44,48). Apenas quatro estudos(13,35,37,47) avaliaram uma modalidade isoladamente; os demais combinaram força, aeróbicos, aquáticos, flexibilidade e exercícios respiratórios em programas de preparação para o parto.

A preparação para o parto, mediante a realização de exercícios de resistência e força, atividades aeróbicas, como a caminhada rápida(37), atividades de flexibilidade (alongamento e ioga)(45) e práticas aquáticas(32,46), não elevou o risco de TP prematuro ou de baixo peso ao nascer do bebê. Os estudos descreveram(12-13,32,35,44,46) não ter encontrado qualquer efeito adverso para mulher, feto e neonato após implementação dos protocolos propostos. Alguns autores identificaram que exercícios de força, exercícios aeróbicos e exercícios de alongamento, como usar a bola suíça, podem ajudar a diminuir a dor lombar durante a gravidez(30,48).

Estudos evidenciaram que exercícios de força, aeróbicos e flexibilidade na gestação pode reduzir o tempo do TP(30-32,35,40,47). Em um ECR(32), as mulheres praticaram exercícios de força, aeróbicos e alongamentos, apresentando redução no primeiro período do TP. Outro estudo(35) identificou redução no segundo período, o que corroborou com outros três estudos(31, 35,48). No entanto, uma metanálise(31) de exercícios de força, aeróbicos, ioga e alongamento associados à respiração, não identificou diferenças na duração do primeiro e segundo períodos do TP.

Nos estudos sobre exercícios de mobilidade das articulações pélvicas, observou-se aumento significativo das taxas de parto vaginal entre mulheres que realizaram caminhada(37), combinação de exercícios de força, aeróbicos e aquáticos (hidroginástica)(47), força e flexibilidade(12), aeróbicos e flexibilidade (bola suíça e ioga)(12) e exercícios aeróbicos isolados(13).

O American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) recomenda que programas pré-natais que incluam atividades aeróbicas, exercícios de resistência e flexibilidade sejam seguros para a maioria das gestantes, associando-se a maior chance de parto vaginal e menor taxa de cesariana(62). O ACOG orienta que mulheres sem contraindicações iniciem esses exercícios no primeiro trimestre (≥12 semanas), continuando até o parto quando possível, com sessões de 30 a 60 minutos, de três a quatro vezes por semana (até diariamente) e intensidade moderada.

Uma revisão sistemática identificou que a prática de hidroginástica, caminhada, alongamento e ioga reduziu as chances de parto instrumental(44). Outros quatro estudos(29-30,39,49) descreveram redução das taxas de cesáreas, porém somente um programa de exercícios de fortalecimento de glúteo, quadríceps e abdominal identificou redução significativa(35), enquanto outros estudos(32,44,47) não encontraram diferenças entre os grupos.

Estudos de exercícios de resistência e força e exercícios aeróbicos diários identificaram o fortalecimento dos músculos pélvicos(40,47) e aumento significativo de períneo íntegro no pós-parto(13). No entanto, estes resultados apresentaram-se heterogêneos entre os estudos ao avaliar a incidência de lacerações e episiotomia(31,44,47-49). Os autores de um ECR(63) também não encontraram diferença significativa na taxa de episiotomia, por meio de um programa de exercícios de flexibilidade com a bola suíça. A episiotomia foi realizada em 71,1% (IC 95%: 55,7%-83,6%) das mulheres no grupo de intervenção e em 80,1% (IC 95%: 74%-96%) das mulheres no grupo controle (p-valor = 0,051).

Foram avaliadas nesta revisão diferentes modalidades de exercícios físicos para mobilidade das articulações e músculos pélvicos, no contexto do preparo para o parto da assistência pré-natal (anteparto). Estes exercícios foram aplicados na gestação e avaliados seus impactos no TP, parto e pós-parto. Assim, verifica-se que, além de preparo físico e emocional para o parto, estas práticas podem encorajar a mulher a realizar parte destes exercícios durante a internação para o parto, momento em que os exercícios de mobilidade das articulações pélvicas são frequentemente estimulados.

Os exercícios voltados para a mobilidade das articulações pélvicas, as posturas em pé e a liberdade de movimento visam otimizar a fisiologia do parto, aumentar os diâmetros da pelve, aprimorar a mobilidade do sacro, facilitar a descida da apresentação fetal, além de aumentar a eficácia das contrações uterinas e dos puxos do segundo período, proporcionando uma evolução mais favorável do TP e do parto, assim como uma maior participação da mulher(64).

Em relação às limitações, a utilização de diferentes descritores ou bases de indexação não incluídas nesta revisão poderiam resultar na obtenção de outros estudos. Ademais, a ausência de descritores em outras línguas, como o português e o espanhol, ou de sinônimos relevantes, além da ausência de outros descritores, como o Thesaurus do CINAHL e o Emtree da Embase, pode ter provocado um viés na identificação dos estudos. Assim, pesquisas relevantes podem ter sido negligenciadas na estratégia de pesquisa empregada.

CONCLUSÃO

Esta revisão de escopo identificou que os exercícios de TMAP foram os mais estudados, apresentando efeitos consistentes na prevenção da incontinência urinária, no fortalecimento muscular e, em alguns casos, na redução do segundo período do TP. Exercícios de resistência e força demonstraram benefícios na diminuição da dor lombar, no fortalecimento muscular e, em alguns estudos, na redução da duração do primeiro e segundo períodos do TP e das taxas de cesárea. Exercícios aeróbicos, como caminhada, associaram-se à melhora do condicionamento físico, maior proporção de partos vaginais e reduções na duração do TP e nas intervenções obstétricas, enquanto exercícios aquáticos, como natação e hidroginástica, promoveram segurança materno-fetal e bem-estar físico, sem relatos de efeitos adversos significativos.

Exercícios de flexibilidade, incluindo alongamentos, ioga, posições de quatro apoios e uso da bola suíça, favoreceram relaxamento, controle da ansiedade e diminuição da dor lombar, além de potencialmente reduzir a duração do TP. Em geral, todas as modalidades mostraram-se seguras e benéficas para o condicionamento físico e emocional das gestantes, com efeitos positivos no processo de TP e parto. Contudo, ressalta-se a necessidade de revisões sistemáticas e metanálises por modalidade de exercícios de mobilidade das articulações pélvicas, a fim de consolidar evidências sólidas que orientem a prática obstétrica.

Agradecimentos

Fundo de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão - FAEPEX - UNICAMP.

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Editado por

  • Editor associado:
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    06 Ago 2025
  • Aceito
    10 Set 2025
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