RESUMO
Objetivo: Descrever o desenvolvimento de um guia educativo voltado aos profissionais de saúde para prevenção do racismo estrutural no acesso à saúde.
Método: Estudo qualitativo e metodológico aplicado ao desenvolvimento de um guia educativo, realizado em Natal/RN entre julho e outubro de 2024, por meio da técnica de grupo focal. Os participantes foram profissionais de saúde autodeclarados negros. Utilizou-se um roteiro de perguntas semiestruturado baseado em revisão prévia sobre saúde da população negra. O material oriundo do grupo focal foi submetido à análise de conteúdo de Bardin e à análise de similitude para categorizar as temáticas do guia em conceito de saúde, racismo, doenças mais comuns, determinantes sociais, dimensão histórica e política.
Resultados: Evidenciou-se a importância de um guia educativo de caráter inovador para contribuir na assistência da população negra voltado para a prevenção do racismo. O material oriundo dos grupos focais foi utilizado na produção do conteúdo e design do “Guia: Saúde da população negra”.
Considerações finais: O desenvolvimento do guia educativo contou com a participação de profissionais de saúde negros na produção e elaboração textual, possibilitando sua representatividade e democratização da informação para a população negra.
Descritores:
Saúde da População Negra; Etnia e Saúde; Atenção Primária à Saúde
ABSTRACT
Objective: To describe the development of an educational guide for health professionals to prevent structural racism in the access to health care.
Method: Qualitative and methodological study applied to the development of an educational guide, carried out in Natal/RN between July and October 2024, using the focus group technique. The participants were self-declared black health professionals. A semi-structured questionnaire was used, based on a previous review of the health of the black population. The material from the focus group was subjected to Bardin's content analysis and similarity analysis to categorize the themes of the guide into the concept of health, racism, the most common diseases, social determinants, and historical and political dimensions.
Results: The importance of an innovative educational guide to contribute to the care of the black population aimed at preventing racism was highlighted. The material from the focus groups was used to produce the content and design of the “Guide: Health of the black population”.
Final considerations: The educational guide was developed with the participation of black health professionals in the production and textual elaboration, making it possible to represent and democratize information for the black population.
Descriptors:
Health of the Black Population; Ethnicity and Health; Primary Health Care
RESUMEN
Objetivo: Describir el desarrollo de una guía educativa dirigida a los profesionales de la salud para la prevención del racismo estructural en el acceso a la salud.
Método: Estudio cualitativo y metodológico aplicado para el desarrollo de una guía educativa, realizado en Natal/RN entre julio y octubre de 2024, mediante la técnica de grupo focal. Los participantes fueron profesionales de la salud que se declararon negros. Se utilizó un guion de preguntas semiestructuradas basado en una revisión previa sobre la salud de la población negra. El material procedente del grupo focal se sometió al análisis de contenido de Bardin y al análisis de similitud para categorizar los temas de la guía en concepto de salud, racismo, enfermedades más comunes, determinantes sociales, dimensión histórica y política.
Resultados: Se puso de manifiesto la importancia de una guía educativa innovadora para contribuir a la asistencia de la población negra orientada a la prevención del racismo. El material procedente de los grupos focales se utilizó en la elaboración del contenido y el diseño de la «Guía: Salud de la población negra».
Consideraciones finales: El desarrollo de la guía educativa contó con la participación de profesionales de la salud negros en la producción y elaboración textual, lo que permitió su representatividad y la democratización de la información para la población negra.
Descriptores:
Salud de la Población Negra; Etnicidad y Salud; Atención Primaria de Salud
INTRODUÇÃO
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou, no censo do ano de 2022, que 55,5% da população brasileira se declararam como negra, ou seja, pardos e pretos. Evidencia-se, assim, que, cada vez mais, acentua-se o crescimento da população negra. Além disso, percebe-se o melhor entendimento por parte da população brasileira sobre autodeclaração da raça e a sua importância para representatividade no contexto sócio, político e econômico para a formulação de políticas públicas1.
Os dados demográficos sobre a população negra no Brasil revelam a sua maioria numérica no país. Contraditoriamente, os negros são minoria nos espaços de poder, possuindo baixa remuneração e níveis de escolaridade, dificuldade no acesso aos serviços de saúde, moradia digna e segurança alimentar, de modo que outros determinantes sociais relacionam-se a este contexto, tornando-se assim uma população de vulnerabilidade2.
Historicamente, a situação da população negra no Brasil é um reflexo de diversas desigualdades sociais que se acumularam ao longo do tempo. O racismo estrutural, com suas raízes seculares, se manifesta hoje como um fenômeno social que afeta as áreas política, social e econômica. Essa realidade é resultado de uma combinação de fatores que vão desde o período da escravidão até a ineficácia das políticas públicas e as iniciativas de reparação, contribuindo para a marginalização e invisibilidade dos negros na sociedade. Além disso, é possível observar diferenças significativas nos perfis de raça/cor e gênero em diversos desfechos de saúde e doença, incluindo altas taxas de homicídios de homens negros, mortalidade materno-infantil, violência doméstica e feminicídios de mulheres negras, mortes por COVID-19, problemas de saúde mental, causas mal definidas, causas externas, assim como nos indicadores de qualidade e expectativa de vida e na percepção da saúde bucal2,3.
O racismo torna-se mais nocivo na dimensão da saúde pública, visto que a população negra apresenta altas taxas de mortalidade quando comparada à população branca, além de ter maior prevalência de doenças crônicas e infecciosas, bem como acesso a exames e diagnósticos tardios de doenças. Isso foi evidenciado em um estudo sobre a ineficiência na resolução dos problemas de saúde da população negra, resultando assim na piora do prognóstico, o que pode ser relacionado à dificuldade de acesso desta população aos serviços de saúde 4.
Destaca-se a pesquisa realizada na América Latina, intitulada Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), a qual revelou que certas condições de saúde, como diabetes mellitus, hipertensão, doença renal crônica, obesidade e transtornos mentais (incluindo ansiedade, fobias e depressão), são mais prevalentes entre a população negra em comparação com a branca. O estudo também indicou que a saúde dos indivíduos negros não é afetada de forma isolada; ocorre frequentemente a coexistência de várias doenças, um fenômeno conhecido como multimorbidade. Além disso, as mulheres negras apresentam a maior taxa de adoecimento, enquanto os homens negros têm os índices mais elevados de mortalidade5.
Sob essa perspectiva, observa-se que a população negra enfrenta os mais baixos índices em termos sociais, econômicos e de saúde. É importante ressaltar que, além dos problemas de saúde física e mental, essa população também apresenta taxas alarmantes de homicídio, altos índices de analfabetismo e é mais impactada pela informalidade no mercado de trabalho. Assim, por meio de estudos e pesquisas, fica evidente que a discriminação contra esses indivíduos é uma realidade persistente6.
É nessa conjuntura que surge a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), criada em 2009, objetivando a promoção à saúde, prevenção de doenças, cuidado integralizado, como também a produção de conhecimentos que fortaleçam e promovam uma formação profissional adequada para atender às demandas da população negra7). Embora essa política represente uma significativa conquista e uma importante estratégia para lidar com os desafios enfrentados, ela ainda apresenta fragilidades na sua implementação no setor da saúde. Em particular, destaca-se a falta de efetividade e de conhecimento por parte dos gestores e profissionais da área de saúde, como no caso do desconhecimento dos impactos da Covid-19 na população quilombola. Segundo o Observatório da Covid-19 nos quilombolas, a visibilidade da pandemia nessas comunidades só foi possível pelo monitoramento feito com base na militância política voluntária de líderes comunitários sem os recursos tecnológicos necessários para precisão de diagnósticos e informações detalhadas8)..
Verificam-se como barreiras para o acesso pleno da população negra ao sistema de saúde as grandes distâncias que existem entre os serviços de saúde e as comunidades quilombolas, a crônica falta de infraestrutura de saúde nestas comunidades e nas cidades com rede de atenção à saúde menores, desigualdades habitacionais, reprodução de hierarquias raciais e desvantagens por parte de profissionais de saúde no que tange aos direitos e às oportunidades de assistência à saúde, desconsiderando a equidade nos serviços3,6,8.
Evidencia-se nesse contexto que a saúde da população negra requer mais atenção e mudanças, especialmente na formação e preparo de profissionais de saúde sobre essa temática. É essencial que o estudo acerca da saúde da população negra seja integrado ao currículo dos cursos de formação, de modo que esses profissionais possam compreender e abordar adequadamente os desafios que impactam a saúde dessa comunidade, além de contribuírem para o combate ao racismo9.
É sob essa ótica, considerando as diretrizes gerais estabelecidas pela PNSIPN, que são definidos os seguintes objetivos: III - incentivar a produção de conhecimentos científicos e tecnológicos voltados à saúde da população negra; VI - desenvolver processos de informação, comunicação e educação que ajudem a desconstruir estigmas e preconceitos, promovendo uma identidade negra positiva que favoreça a reeducação das vulnerabilidades. Isso ressalta a importância da geração de conhecimento nesse campo, como, por exemplo, a criação de materiais educativos direcionados aos profissionais de saúde sobre a população negra, com o objetivo de capacitá-los adequadamente. Essa necessidade é também respaldada pelas diretrizes políticas4.
Diante deste contexto, o objetivo deste estudo foi desenvolver um guia educativo para os profissionais de saúde para prevenção do racismo estrutural no acesso à saúde.
MÉTODO
Tipo e local de estudo
Estudo metodológico aplicado com abordagem qualitativa e técnica de grupo focal para desenvolvimento de um guia educativo da população negra realizado em Natal/RN. Foram seguidas as recomendações do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ)10.
População e amostra do estudo
O estudo foi realizado com profissionais da saúde que se autodeclararam negros e/ou que haviam passado por um processo de seleção pública com vagas afirmativas, dessa forma reconhecendo sua cor/raça por banca de heteroidentificação e garantindo a representatividade da população.
Para o recrutamento e amostragem por conveniência dos participantes, realizou-se a estratégia da bola de neve, na qual, inicialmente, a busca dos profissionais de saúde ocorreu no campus acadêmico dos autores, contactando servidores da saúde aprovados nas vagas afirmativas de concurso público com processos de heteroidentificação. Estes profissionais foram os primeiros contatos que, utilizando-se de redes de referência, indicavam mais dois participantes elegíveis, cujo indicado era pesquisado na plataforma do currículo Lattes para verificação dos critérios de inclusão(11). A verificação dos indicados para a pesquisa na plataforma do currículo ocorreu pela busca do seu nome completo, e a coleta ocorreu durante o mês de junho de 2024.
Destaca-se que, na literatura, a técnica de grupo focal exige uma variação de seis a dez participantes para sua execução(12). Inicialmente foram adotados para o presente estudo dez participantes que tivessem características homogêneas, como propõe a técnica utilizada, e seguindo os critérios de inclusão do estudo. A amostra foi composta por oito participantes que aceitaram integrar o grupo focal, sendo que 5 compuseram a primeira reunião do grupo focal e três participaram da segunda reunião.
Os seguintes critérios de inclusão do estudo foram:
-
Áreas de conhecimento: Saúde pública, Saúde coletiva, Políticas de saúde;
-
Profissionais de saúde que se autodeclarassem como negros, sendo esses pardos e/ou pretos, para trazer a representatividade da população em estudo.
Já o critério de exclusão utilizado no estudo foi:
-
Profissionais de saúde que estivessem de férias, atestado ou licença durante a coleta dos dados.
Coleta de dados e instrumentos de pesquisa
A coleta de dados para extração dos conteúdos do guia educativo foi realizada por meio da técnica de grupo focal entre os meses de julho e outubro de 2024, cujo roteiro de perguntas semiestruturado se baseou em revisão integrativa prévia sobre saúde da população negra13 (Quadro 1). Foram analisados 23 estudos com busca em bases de dados da área da saúde, tendo como objetivo o aprofundamento teórico das noções sobre o racismo e posteriormente utilizado como referencial teórico das categorias temáticas do material educativo do guia.
Os encontros para realização da técnica do grupo focal foram realizados em ambiente virtual via Google Meet®, tendo em vista a conveniência de disponibilidade da agenda dos participantes da pesquisa.
Inicialmente foi enviada uma carta-convite com explicações sobre os objetivos do estudo, procedimentos de coletas, dentre outros, além do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e o Termo de Autorização para gravação de voz e/ou registro de imagem (fotos e/ou vídeos).
Os profissionais que aceitaram participar do estudo e assinaram o TCLE receberam um instrumento de coleta de dados composto por um questionário sociodemográfico para caracterização dos profissionais de saúde com as seguintes variáveis: idade, sexo, estado civil, formação e nível de escolaridade e um formulário contendo possíveis datas para realização do encontro e o link de acesso às reuniões, ambos via Google Forms®, enviados por e-mail e/ou via WhatsApp®.
No total foram realizados dois encontros do grupo focal, um no dia 30/07/2024 (terça-feira) e outro no dia 22/08/2024 (quinta-feira), no horário da noite, com curto espaço de tempo entre as reuniões, para preservar uma continuação dialógica. Destarte, a coleta de dados foi encerrada em dois encontros com duração de 40 minutos, levando em consideração o critério de saturação teórica de respostas12, aplicado a partir de respostas idênticas no decorrer da pesquisa com o cumprimento do roteiro semiestruturado de perguntas.
Ressalta-se que o grupo focal foi conduzido pela pesquisadora responsável pelo estudo com suporte técnico de outro pesquisador voluntário, que realizaram treinamento prévio com embasamento bibliográfico para a condução do momento.
A calibragem das perguntas do roteiro foi realizada por meio de um teste-piloto, com um participante que não fazia parte da amostra do estudo, mas que possuía as características dos critérios de inclusão, utilizando a gravação de voz e imagem para posterior análise e transcrição. Soma-se ainda, que as notas de campo foram realizadas durante os encontros do grupo focal e, por fim, após obtenção do material gravado e feita a transcrição, o conteúdo foi disponibilizado aos participantes da pesquisa para validação das categorias.
Análise dos dados e Desenvolvimento do Guia Educativo
Os dados coletados por questionário sociodemográfico foram organizados por meio da estatística descritiva.
O material oriundo dos diálogos dos profissionais de saúde no grupo focal foi submetido à análise de conteúdo de Bardin14, consistindo nas seguintes etapas: a pré-análise e sistematização das ideias; exploração do material textual e codificação; por fim, tratamento dos resultados e interpretação do material com base no referencial teórico para definição dos temas do guia informativo.
Utilizou-se a análise de similitude, técnica que busca relacionar palavras e conceitos presentes no corpus textual15, para relacionar palavras e conceitos presentes no corpus textual e categorizar as temáticas do guia em conceito de saúde, racismo, doenças mais comuns na população negra, determinantes sociais, dimensão histórica, política da população negra, dentre outras.
Soma-se ainda que as falas dos participantes foram transcritas na íntegra no software Microsoft Office Word 2016®, com a intenção de adequar o material, gramaticalmente, à língua portuguesa. Posteriormente, utilizou-se o software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRAMUTEQ) para categorizar os dados16.
Após as etapas de categorização do conteúdo e elaboração textual, o material produzido foi direcionado para ilustração e construção do layout do guia educativo. Destaca-se que, durante o processo construtivo, buscou-se a correspondência entre os interesses e necessidades dos leitores (profissionais de saúde), devendo possuir uma linguagem clara, objetiva, ser de fácil manuseio, sendo um material que objetiva trazer melhorias na assistência e no cuidado em saúde17.
Para o layout do guia educativo, utilizou-se a plataforma CANVA®, uma ferramenta gratuita de design gráfico on-line que possibilita uma prévia da ilustração do material. Desse modo, seguem as etapas do processo de desenvolvimento do guia educativo: 1.ª Falas dos participantes dos grupos focais foram gravadas por áudio e vídeo; 2.ª Transcrição das falas; 3.ª Construção e estruturação do corpus textual; 4.ª Análise de conteúdo e tratamento do corpus através do software IRAMUTEQ; 5.ª Por meio das análises e nuvens de palavras, houve a seleção das temáticas e conteúdos abordados no material; 6.ª Elaboração textual do material, com embasamento do referencial teórico; 7.ª Elaboração visual do guia (layout), por meio de uma plataforma de design gráfico gratuita e online, CANVA®.
Aspectos éticos e legais
Os participantes assinaram o TCLE e o Termo de Autorização para Gravação de Voz e/ou Registro de Imagens (fotos e/ou vídeos). Para resguardar o anonimato dos participantes da pesquisa, foi utilizado um código alfanumérico de identificação, sendo identificados com a letra “P” seguida de algarismos arábicos da ordem de realização das entrevistas.
O estudo cumpriu as normas para pesquisas envolvendo seres humanos, definidas pela Resoluções n.º 510/2016 e 466/ 2012 do Conselho Nacional de Saúde, e seguiu as orientações para pesquisas com etapa em ambiente virtual do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP)18,19, sendo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), sob o parecer n.º 6.466.521.
RESULTADOS
As informações sociodemográficas e de formação dos profissionais de saúde envolvidos na pesquisa indicam que a maior parte é composta por mulheres (Quadro 2), todas se identificando como negras. Os participantes tinham pós-graduação e apresentavam uma idade média de 46 anos.
Após a análise das informações de natureza qualitativa, emergiram as categorias a partir dos conteúdos das falas do grupo focal, sendo intituladas: I- Bem-estar biopsicossocial, para quem?; II- As condições que influenciam o cuidado em saúde da população negra; III- Estratégias para atender às demandas da população negra; e IV- Tecnologia educativa no combate do racismo.
I- Bem-estar biopsicossocial, para quem?
Observou-se que, nesta categoria do estudo, os participantes foram inicialmente indagados sobre o que entendem por saúde, revelando seus conhecimentos e experiências pessoais sobre o assunto. Assim, a saúde foi percebida como um conceito multifatorial, relacionado aos determinantes sociais de saúde (DSS), à saúde mental e à dimensão religiosa:
Aquele conceito tradicional, que a gente conhece saúde, um bem-estar psicossocial. Mas, eu entendo que saúde vai para além desses conceitos. É um conjunto, que vai desde a relação familiar, a relação no trabalho, da relação em grupo de amigos.[...]. Fora outros aspectos que podem abranger. O meio ambiente, as condições sociais, os saneamentos. O território onde vivemos, a relação com a comunidade. (P1)
[...] Definir saúde é algo muito subjetivo, porque é amplo. É algo subjetivo que vai depender de características individuais, sociais, coletivas. Vivemos em um país que é continental e altamente preconceituoso, ainda sofremos na pele o racismo, sabemos que, a saúde_mental é algo fundamental [...]. (P5)
A saúde foi compreendida como um conceito que vai além da simples ausência de doenças ou do bem-estar físico, mental e social, uma vez que essas definições são limitantes, especialmente no que diz respeito à saúde e ao acesso da população negra. Levando em conta as vulnerabilidades epidemiológicas e sociais que essa comunidade enfrenta no contexto brasileiro, é evidente que esses fatores têm um impacto direto na disponibilidade e no acesso a serviços de saúde6.
Fico pensando nessa questão mais diretamente nos impactos_do_racismo, nessa possibilidade de transmitir o sofrimento transgeracionalmente, porque se pegarmos esse conceito e vai trabalhar ele pensando do que é saúde, é esse bem_estar bio, psíquico, social, eu fico pensando. Social, bio, psíquico, social, para quem? Eu, enquanto uma mulher_de_terreiro, o que eu vivencio dentro da minha comunidade_de_terreiro, o que a gente escuta. Porque, para mim, é uma questão até de saúde_mental. Esse entendimento dessa dimensão_religiosa.[...]. Acho que são muitas questões e, penso que, por mais que estude, parece que não dá conta. Não dá conta. É complexo, é profundo e multifatorial. (P4)
É importante notar que, com frequência, o acesso e o cuidado da população negra são negados ou negligenciados em virtude do racismo estrutural que permeia a sociedade. Esse racismo estrutural refere-se a um conjunto de práticas que posiciona grupos sociais ou étnicos em níveis hierárquicos distintos. No Brasil, isso se evidencia pela criação de desigualdades e vantagens sociais para a população branca em prejuízo da população negra20.
II- As condições que influenciam o cuidado em saúde da população negra.
Nesta categoria apresentada, evidencia-se que, durante o grupo focal, foi questionado: "Quais condições afetam o cuidado à saúde da população negra?" As respostas indicaram que esse cuidado está vinculado a barreiras econômicas, sociais e governamentais. Ao abordar a saúde da população negra, observa-se que os indicadores relacionados a emprego, renda, educação e condições de saúde apresentam resultados negativos 21.
Também se destacou a insuficiência na implementação de políticas e programas que promovam a equidade em saúde e assegurem os direitos da população. Essa situação revela as fragilidades na efetivação dessas iniciativas por parte dos gestores e profissionais de saúde.
[...] de forma bem objetiva, eu diria que isso é a negação à pessoa negra. Essa negação se dá em todos os espaços. E essa negação repercute, ao meu ver, em, consequentemente, o que compromete o cuidado à pessoa negra, e isso repercute, ao meu ver, na própria implementação da política integrada da população negra. Você percebe que os próprios profissionais do serviço não efetivam essa política [...]. Tudo isso vai, consequentemente, influenciar, ao meu ver, no cuidado. (P1)
Destaco a questão das barreiras, às vezes, tem tantas barreiras que isso prejudica a nossa saúde e a nossa qualidade de vida. E falo de barreiras de acesso, barreiras de acesso à educação, saneamento, barreiras de acesso a bom emprego, barreiras de acesso à remuneração, barreiras de acesso a muita coisa. (P3)
É importante ressaltar que, segundo os participantes da pesquisa, o racismo, especialmente o racismo institucional, é identificado como uma barreira significativa. Isso se deve ao fato de que existem múltiplas formas de discriminação racial que ocorrem em instituições, tanto públicas quanto privadas. No âmbito da saúde, o racismo institucional se manifesta por meio das disparidades no atendimento e na prestação de serviços, assim como pela falta de conhecimento dos profissionais acerca das doenças, o que compromete o acesso dos indivíduos negros a tratamentos adequados e à prevenção2.
As barreiras que influenciam no cuidado_em_saúde_da_população_negra, são inúmeras, que a gente vivencia no dia a dia. São barreiras_sociais, são barreiras_institucionais, a gente vivencia o racismo_institucional. [...] O negro tem a dificuldade, podemos ver pela quantidade de pessoas_negras que conseguem finalizar um mestrado, um doutorado, olha pelas salas de aula e conta nos dedos quantas pessoas estão tendo acesso a um mestrado, a um doutorado, à educação básica. São barreiras_educacionais, são barreiras_institucionais. Os cargos de gestão, em sua grande maioria, são ocupados por pessoas brancas. E quando o negro ocupa o cargo de gestão, ele precisa, em vários momentos, mostrar que realmente está sempre afirmando, no dia a dia, que é capaz de estar ali por ter competência [...]. (P5)
Entre as condições que afetam o cuidado à saúde da população negra, destacou-se a necessidade de desafiar a narrativa eurocêntrica aplicada a essa comunidade. Tornou-se essencial reconhecer sua historicidade, pois isso está diretamente conectado aos determinantes sociais da saúde. A dimensão histórica desempenha um papel fundamental na definição das condições de saúde da população negra.
[...]Todos nós aprendemos histórias, dependendo de quem você é, sua história foi positiva ou negativa, mas é desde que você nasceu. [...] Eu aprendi que o negro valia menos. Que as mulheres, elas têm que ser cuidadoras. Que a pessoa negra, ela aguenta firme. E isso tem a ver com toda a história do escravagismo que passamos. [...]compreender essa dimensão social dos determinantes_sociais_de_saúde e como ele impacta na saúde, a gente vai se deparar com a maioria da população que recebe atendimento muito ruim e que um dos elementos que está entrelaçado, atravessado é a cor da pessoa [...]. (P2)
III- Estratégias para atender às demandas da população negra.
Quando foi perguntado aos participantes sobre quais estratégias poderiam ser usadas para atender às demandas da população negra, a política pública foi fortemente destacada como um mecanismo de promoção em saúde, caracterizando e evidenciando a importância da sua efetivação e implementação, como pode ser observado no discurso abaixo:
[...] É impossível você promover saúde se não diminuir desigualdade, porque a gente está falando de uma condição que é muito forte, quando a gente vai olhar no panorama, vê que os piores empregos, os piores salários, as piores condições de moradia, alimentação e piores condições de educação também, [...] é impossível você falar de mudança se você não falar de diferença social, porque isso é muito forte no nosso país. (P3)
Entre os discursos que se destacaram durante o grupo focal, o tema do fortalecimento das políticas públicas foi especialmente relevante. Essa questão não apenas reflete uma necessidade emergente da sociedade, mas também é abordada pela própria PNSIPN. O fortalecimento das políticas públicas de saúde está intrinsicamente ligado ao fomento da gestão participativa, ao cuidado com as doenças que afetam mais intensamente essa comunidade, à saúde mental e à promoção da saúde integral. Embora essa política de saúde já exista, o fortalecimento implica reconhecer suas fragilidades e agir para superá-las4.
[...] o primeiro passo é fortalecer a política com ações que realmente façam com que os profissionais entendam quem são essas pessoas, [...] é realmente criar um sistema de notificação para essas doenças que são ligadas à saúde da população negra para os serviços de atenção privada também, a educação permanente, para os profissionais da atenção básica que está ali na porta de entrada para os hospitais, fazer mesmo o matriciamento e a gestão, porque tem que ter vontade política para as coisas acontecerem, é a própria gestão entender o que é a política,[...], tem que partir muito desse fortalecimento da qualificação dos profissionais mesmo, e o controle social, trazer aí a população para buscar seus direitos. Inclusive, teve o PET Equidade, agora, foi uma estratégia muito boa, porque já traz a formação, entra na formação dos estudantes, tem uma mudança na formação. (P5)
IV- Tecnologia educativa no combate do racismo.
No grupo focal, foi questionado sobre a importância de um material educativo voltado aos profissionais de saúde sobre a população negra e possíveis temas que seriam imprescindíveis para a construção de um material de educação permanente a esses profissionais. Destacou-se o discurso:
Qualquer tecnologia, qualquer dispositivo que venha favorecer essa difusão de informação e acesso da população negra aos serviços de saúde são extremamente importantes [...]. (P4)
V - O guia educativo de combate ao racismo
Os debates realizados durante as discussões no grupo focal reconheceram a necessidade de construir um guia educativo sobre a população negra. Dessa forma, a partir dos conteúdos das falas evidenciadas nos grupos focais, foi proposta a lista de temas abordados no guia, bem como a construção textual e sua posterior diagramação. As sugestões dos participantes da pesquisa foram as seguintes:
[...] É importante, que esteja incluído nesse material uma forma acessível de entendimento dos profissionais do que é racismo e como isso afeta a população_negra, o acesso da população negra. Estruturar de que forma cada profissional pode estar contribuindo para esse acesso, para estar ilustrado no material informativo para profissionais de saúde que vão estar ali atuando diretamente com essa população negra. (P4)
[...] Trazer informações sobre essas doenças, sobre a importância da autodeclaração, para que eles preencham esse quesito cor-raça, para identificar quem é essa população brasileira, e fortalecer as políticas. A primeira coisa que o profissional precisa entender é o que é racismo [...] se ele já foi racista em algum momento na sua prática. Se reconhecer também enquanto negro e entender quais são os seus direitos [...] não se ater só às doenças, não só como ele tem que atender, porque isso todas as políticas trazem, é importante sim, mas trazer mesmo esse olhar para ele reconhecer e saber a importância dele atender a essa população, trazer a equidade mesmo, de forma diferenciada, porque há peculiaridades na população negra [...]. (P5)
Utilizou-se também do recurso de nuvens de palavras produzidas através do IRAMUTEQ16. Em relação a essas observações, as palavras foram apresentadas com base na frequência com que foram mencionadas, de modo que as expressões destacadas são aquelas que apareceram com maior recorrência nos diálogos. Assim, foi possível identificar quais temas poderiam emergir dessas palavras, tanto por meio da consulta à literatura quanto pelas sugestões temáticas dos próprios profissionais de saúde que participaram do grupo focal. Abaixo, na Figura 1, estão as nuvens de palavras organizadas conforme cada encontro:
Nuvens de palavras dos encontros, que tiveram como eixos temáticos: saúde da população negra e acesso aos serviços de saúde da população negra e material educativo sobre saúde da população negra aos profissionais de saúde. Natal, Brasil, 2025
Evidenciaram-se as seguintes temáticas que deveriam ser abordadas no guia educativo: conceito de saúde, determinantes sociais, dimensão histórica, Política Nacional da População Negra, quesito raça e cor (autodeterminação), barreiras no acesso e racismo, direito social, ações afirmativas (cotas).
O guia educativo é um recorte da dissertação “Desenvolvimento participativo de tecnologia educativa para prevenção do racismo estrutural no acesso à saúde”22) desenvolvido a partir da fundamentação teórica do método de pesquisa qualitativa. Um dos principais diferenciais desse material é a representatividade proporcionada pelo grupo focal, o qual incluiu profissionais de saúde negros. Entre as principais características e temas tratados no produto, destacam-se: a história dos movimentos negros, a população negra brasileira, os determinantes sociais da saúde, as barreiras de acesso, a saúde mental, o racismo. Este material se encontra no repositório institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Norte disponível no link https://repositorio.ufrn.br/items/0d8b3a1f-f06b-4baa-bc71-bd3bb4aa1ad4 (Figura 2).
Layout ilustrativo do Guia “Saúde tem cor? Guia: Saúde da população negra.”, voltado aos profissionais de saúde. Natal, Brasil, 2025
DISCUSSÃO
Os resultados desta pesquisa perpassam a discussão sobre temas relacionados às condições e aos determinantes sociais da população negra, além das principais estratégias de enfrentamento para atender às necessidades de saúde dessa população, e ainda trazem a discussão sobre a tecnologia educativa no combate ao racismo.
Assim sendo, é de suma importância destacar no cenário histórico e político a formulação da PNSIPN, que tem como objetivo diminuir as disparidades nos serviços de saúde pública e promover a saúde integral de todos, com foco especial nas iniquidades que afetam as comunidades negras brasileiras. Essa política é considerada uma ferramenta essencial para combater o racismo institucional. No entanto, sua implementação enfrenta vários obstáculos, como a ausência de capacitação e conhecimento adequado, a falta de interesse por parte de gestores e profissionais de saúde e a desinformação dentro da própria comunidade. É importante destacar que, por meio dessa política, são reconhecidos o racismo, as desigualdades sociais e o racismo institucional como fatores cruciais que influenciam a saúde das populações23.
Dessa maneira, por mais que existam programas e políticas que busquem garantir os direitos e equidade em saúde da população negra, é visível a desigualdade nessa população, tendo em vista que possuem os piores indicadores sociais e de saúde, baixa escolaridade e renda, acesso limitado aos serviços de saúde, moradias precárias, como também estão em posições inferiores dentro do campo do trabalho. Dessa forma, quando se faz a comparação entre negros e brancos, observa-se que essa diferenciação de suas posições sociais e de direitos é consequência do racismo2.
Historicamente, durante o processo de escravidão, a população negra teve sua identidade negada, uma vez que sua história, cultura e raízes foram silenciadas em uma narrativa dominada pelos europeus. Nesse contexto, a população negra foi invisibilizada e considerada inferior, o que alimentou o racismo enraizado na sociedade. Mesmo após a abolição da escravidão, esse silenciamento persiste, sendo reconhecido na ciência como racismo epistêmico, que desvaloriza e impede a plena expressão dos conhecimentos e da cultura do povo negro24.
Esse processo histórico traz consequências até os dias atuais. Após a abolição, a ausência de uma estrutura governamental adequada e de políticas públicas que protegessem a população negra que havia sido escravizada resultou em uma segregação racial e em desigualdades sociais. Essa situação levou a disparidades significativas entre a população negra e a população branca.
Destaca-se o marco temporal do ano de 2020 nos Estados Unidos, cuja pandemia da Covid-19 revelou a dura realidade das desigualdades na área da saúde vividas pelos grupos raciais e étnicos minoritários que foram infectados e morreram de forma desproporcional, mas ainda assim continuam sem acesso equitativo a tratamentos e vacinas. A falta de acesso equitativo a cuidados de saúde de alta qualidade é, em grande parte, resultado do racismo estrutural na política de saúde dos EUA, que estrutura o sistema de saúde de forma a beneficiar a população branca25.
Destaca-se ainda nesta perspectiva o estudo realizado sobre complicações pós-operatórias e morte em crianças, que identificou a raça como um determinante social crítico dos resultados cirúrgicos. A pesquisa evidenciou que crianças negras aparentemente saudáveis apresentavam um risco maior de mortalidade pós-operatória, complicações e eventos adversos graves do que suas contrapartes brancas26.
Mencionado pelo primeiro entrevistado (P1), uma das questões que influencia essa condição em saúde é a negação do ser negro, de seus direitos, como também a negação do próprio racismo que opera na sociedade. É importante destacar que essa invisibilidade do ser pardo e preto acarreta diretamente na sua saúde física e/ou mental e em seus direitos.
Desse modo, faz-se imprescindível o estudo da cultura afro-brasileira para entender sua cultura, raízes, história, pois, como o sujeito (P2) pontuou, entender a dimensão histórica é imprescindível para atender às demandas em saúde da população negra.
No cenário da discussão sobre racismo, ressalta-se a importância da Portaria nº 2.198/2023, que estabelece e implementa estratégias antirracistas na área da saúde, visando promover a equidade étnico-racial e combater o racismo dirigido a negros e a grupos minoritários, com o objetivo de eliminar o racismo como um determinante social da saúde. Assim, as estratégias para apoiar essa população abarcam desde políticas e programas sociais até capacitações, monitoramento de indicadores raciais e a promoção de ações afirmativas, além de publicações e outras iniciativas27.
Para reduzir essas desigualdades, as ações adotadas podem envolver a capacitação dos profissionais de saúde a identificarem preconceitos inconscientes, ampliar os recursos comunitários que tratam dos DSS, melhorar o acesso a serviços de saúde primária, reformar políticas federais e institucionais para desencorajar a discriminação e promover maior diversidade e inclusão na força de trabalho do setor de saúde28.
O déficit de conhecimento dos profissionais a respeito das políticas públicas que combatem o racismo repercute negativamente na saúde da população negra. Nessa perspectiva, é importante ter como nota a Política Nacional de Humanização (PNH), pois objetiva pôr em prática os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), por meio de uma formação e qualificação profissional e de um processo de humanização no cuidado em saúde dos indivíduos. E correlacionando a temática de estudo com essa política, percebe-se a necessidade dos profissionais de uma qualificação para atender às demandas da população negra. Sendo uma estratégia até para quebrar o tecnicismo na área da saúde e promover um cuidado sensível e humano ao paciente, para que assim possam acolher as demandas dessa população e dar resolutividade29.
Falar sobre humanização é uma tarefa árdua. Levando em consideração essa dificuldade, existem estratégias para que esse processo tenha sua efetividade, como, por exemplo, o uso de tecnologias educativas que facilitem. No contexto da saúde da população negra, nota-se a necessidade de estratégias educativas para os profissionais de saúde, dessa forma; dentre as perguntas, foi-se pontuado sobre essa temática, principalmente no que tange a materiais educativos com intuito de romper o tecnicismo dos profissionais.
Ao falar de tecnologia, é importante comentar que se pode caracterizar as tecnologias em saúde em: duras, leve-duras e leves. As tecnologias leves estão voltadas e centralizadas no cuidado do paciente, por meio do acolhimento e escuta; as leve-duras compreendem os conhecimentos técnico-científicos, que podem ajudar um grupo e assim auxiliar na construção de materiais educativos, recursos pedagógicos e entre outros30. E é refletindo sobre essa tecnologia que se destaca a importância dos materiais educacionais e se entende que a tecnologia, não só está ligada a medicamentos e equipamentos, tecnologias duras; dessa forma, é importante associar as demais tecnologias e compreender suas importâncias31.
Nessa conjuntura, é válido compreender que as tecnologias podem ser também tecnologias educativas, contribuindo para a formação e atuação dos profissionais, utilizando recursos tecnológicos para fins pedagógicos. Vale ressaltar que o uso dessas tecnologias tem sido mais frequente na atuação dos profissionais em saúde, tendo por objetivo a promoção em saúde32.
Contribuindo com o caráter educativo enquanto estratégia de transformação das práticas em saúde, a PNSIPN traz em suas diretrizes a importância da educação permanente, como também a necessidade de criação de materiais de informação, comunicação e educação. Dessa forma, a partir dos discursos dos participantes do grupo focal, visualizou-se a necessidade de criação de um guia para possibilitar o compartilhamento de conhecimentos sobre saúde da população negra, incluindo temáticas sobre o racismo e saúde na formação do profissional, por meio da educação permanente.
Assim, ficou evidente a necessidade de tratar a questão do racismo nos serviços de saúde, em que a educação continuada e a aplicação de tecnologias educativas se apresentam como abordagens eficazes. Essa estratégia busca capacitar os profissionais de saúde sobre a população negra, facilitando a divulgação e a democratização desse tema, em alinhamento com as diretrizes da PNSIPN, além de ajudar a prevenir e combater o racismo nos serviços de saúde.
Durante o processo de desenvolvimento participativo deste guia educativo, refletiu-se sobre a escolha do título, que foi inspirada no relato de experiência "A sua consulta tem cor?" ao abordar o debate racial na Medicina de Família e Comunidade33. Assim, a seleção do título foi fundamentada nesse e em outros materiais lidos ao longo do processo de criação, os quais discutem a discriminação étnico-racial nos serviços de saúde voltados para a população negra. Nessa linha, a pergunta/título "Saúde tem cor? Guia: Saúde da população negra" visa provocar uma discussão e uma reflexão no leitor ao ter seu primeiro contato com o material.
A partir do desenvolvimento deste material educativo, fundamentado nas experiências profissionais e nas pesquisas sobre o tema, acredita-se que este guia deverá contribuir para uma melhor compreensão da questão e permitirá que a informação se torne mais acessível ao leitor. Ele servirá como um complemento com dados essenciais para a formação e atuação junto à população negra, além de ser uma ferramenta eficaz para enfrentar e combater o racismo nos serviços de saúde.
Ainda reforçando a importância do combate ao racismo estrutural na saúde, destaca-se que a atuação da enfermagem na promoção da justiça social envolve várias ações voltadas para a diminuição das desigualdades. O enfermeiro deve estar engajado na implementação e disseminação de materiais educativos, como o guia elaborado neste estudo, que visam sensibilizar e qualificar os profissionais de saúde sobre as especificidades e necessidades da população negra, promovendo um cuidado mais humanizado e equitativo.
Além disso, a enfermagem pode contribuir ativamente ao adotar uma postura crítica em relação às práticas assistenciais, promovendo uma atenção que reconheça as vulnerabilidades sociais e culturais dos indivíduos, buscando eliminar barreiras de acesso e garantindo o respeito à diversidade racial e cultural.
Ao atuar na equipe multidisciplinar e na gestão de serviços de saúde, a enfermagem deve ser agente de mudança, promovendo uma cultura de cuidado que valorize a diversidade e combata o racismo institucional, promovendo a justiça social na assistência à saúde. Dessa forma, o enfermeiro se posiciona como peça fundamental na construção de uma sociedade mais equitativa, justa e inclusiva no âmbito da saúde.
Em relação aos fatores que limitam o estudo, é importante ressaltar que a realização do grupo focal em um ambiente virtual traz à tona questões como conexões de internet instáveis, que podem afetar a qualidade do áudio e vídeo. Além disso, a interação e a proximidade física são reduzidas, tornando a interpretação de expressões faciais e linguagem corporal mais desafiadora; as distrações do ambiente doméstico e a dificuldade em assegurar uma participação equitativa também são fatores relevantes a serem considerados. Por fim, a impossibilidade de realizar, nesta fase do estudo, a validação de conteúdo e aparência do guia, sendo um desdobramento futuro da pesquisa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo descreveu o desenvolvimento de um guia educativo com participação de profissionais de saúde negros na etapa de produção e elaboração textual, possibilitando sua representatividade e democratização da informação para população negra.
O material educativo intitulado “Saúde tem cor? Guia: Saúde da população negra” foi desenvolvido para que possua um caráter inovador, orientando os profissionais de saúde para a redução das iniquidades por meio de informações e diretrizes específicas para combate ao preconceito de raça nos serviços de saúde, estímulo à autodeclaração e coleta de dados raciais, identificação precoce de condições de saúde específicas da raça negra, promoção da saúde com equidade e estímulo ao protagonismo da população negra. Dessa forma, pretende-se enfrentar o racismo estrutural presente nos serviços de saúde, promovendo um cuidado integral, acolhedor e humanizado para as pessoas negras.
Espera-se que o “Guia: Saúde da população negra” possa ainda, em próximos estudos, apresentar evidências de validação do seu conteúdo e aparência, bem como pesquisas futuras sobre sua implementação na Rede de Atenção à Saúde do SUS.
AGRADECIMENTOS
Ao Programa de Pós-Graduação em Gestão e Inovação em Saúde (PPgGIS) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
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O acesso ao conjunto de dados poderá ser realizado mediante solicitação ao autor correspondente.



Fonte: Autores, 2025.
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