RESUMO
Objetivo: descrever a aproximação e o distanciamento entre a Atenção Primária à Saúde e os Terreiros de Candomblé na produção do cuidado.
Método: estudo qualitativo, descritivo, realizado em duas unidades de saúde de Camaçari-BA, com a participação de sacerdotes de terreiros de candomblé, profissionais de saúde e gestores da equipe de saúde da família. Os dados foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas entre setembro e outubro de 2024 e submetidos à Análise Temática, com apoio do NVivo®.
Resultados: observou-se a exclusão e deslegitimação dos saberes dos terreiros, influenciadas por barreiras culturais, religiosas, preconceito e lacunas na formação profissional. As práticas espirituais nos terreiros evidenciam uma abordagem de cuidado integral, que articula dimensões física, emocional, social e espiritual. Apesar de limitadas, existem iniciativas institucionais de aproximação com ações em eventos pontuais. Nos terreiros, reconhece-se os limites da espiritualidade na saúde.
Conclusão: a relação entre a Atenção Primária e os terreiros é marcada por avanços e lacunas. A parceria entre essas instâncias pode superar barreiras e promover cuidados mais integrais. O modelo atual de atenção à saúde ainda é excludente e discriminatório.
Descritores:
Espiritualidade; Atenção Primária à Saúde; Medicinas Tradicionais Africanas; Pessoal de Saúde; Integralidade em Saúde; Enfermagem
ABSTRACT
Objective: to describe the convergence and divergence between Primary Health Care and Candomblé Terreiros in the provision of care.
Method: qualitative, descriptive study conducted in two health units in Camaçari, Bahia, with the participation of priests from Candomblé Terreiros, health professionals, and family health team managers. Data were collected through semi-structured interviews between September and October 2024 and submitted to Thematic Analysis, with the support of NVivo®.
Results: the exclusion and delegitimization of the knowledge of the terreiros was observed, influenced by cultural and religious barriers, prejudice, and gaps in professional training. Spiritual practices in the terreiros demonstrate a comprehensive care approach that articulates physical, emotional, social, and spiritual dimensions. Although limited, there are institutional initiatives to build closer ties through actions at specific events. In the terreiros, the limits of spirituality in health are recognized.
Conclusion: The relationship between Primary Care and the terreiros is marked by advances and gaps. Partnership between these entities can overcome barriers and promote more comprehensive care. The current model of health care is still exclusionary and discriminatory.
Descriptors:
Spirituality; Primary Health Care; Traditional African Medicines; Health Personnel; Comprehensive Health Care; Nursing
RESUMEN
Objetivo: describir la proximidad y distancia entre la Atención Primaria de Salud y los Terreiros de Candomblé en la prestación de cuidados.
Método: estudio cualitativo integral, realizado en dos unidades de salud de Camaçari-BA, con participación de sacerdotes de templos de Candomblé, profesionales de salud y gestores del equipo de salud de la familia. Los datos fueron recolectados a través de entrevistas semiestructuradas entre septiembre y octubre de 2024, y analizados con el apoyo de NVivo® y Análisis Temático.
Resultados: este estudio cualitativo y descriptivo se realizó en dos unidades de salud de Camaçari, Bahía, con la participación de sacerdotes de templos de candomblé, profesionales de la salud y gestores de equipos de salud familiar. Los datos se recopilaron mediante entrevistas semiestructuradas entre septiembre y octubre de 2024 y se sometieron a análisis temático con el apoyo de NVivo®.
Conclusión: la relación entre los terreiros y la Atención Primaria está marcada por avances y brechas. La asociación entre estas entidades puede superar barreras y promover una atención más integral. El actual modelo de atención sanitaria sigue siendo excluyente y discriminatorio.
Descriptores:
Espiritualidad; Atención Primaria de Salud; Medicinas Tradicionales Africanas; Personal de Salud; Integralidad en Salud; Enfermería
INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, tem-se observado um crescimento das pesquisas que investigam a relação entre espiritualidade e saúde, especialmente no contexto do enfrentamento de doenças e na reabilitação. Nesse cenário, a dimensão espiritual tem se mostrado uma importante fonte de suporte para pacientes e familiares durante situações de adoecimento. De modo semelhante, a interface entre os terreiros e a saúde tem se configurado como um campo de pesquisa crescente e desafiador, pois esses espaços preservam saberes tradicionais dotados de significativo potencial para a promoção do cuidado e do bem-estar1,2.
Assim, a incorporação da dimensão espiritual na assistência à saúde tem ganhado relevância, uma vez que estudos apontam seus benefícios no enfrentamento de doenças, na promoção da saúde e na reabilitação. Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde (APS) se apresenta como o primeiro nível de cuidado do sistema de saúde, com o desenvolvimento de práticas integradas de cuidado e gestão, voltadas para a população do território sob sua responsabilidade sanitária, atuando conforme diretrizes estabelecidas pela Política Nacional de Atenção Básica (PNAB)2-4.
A PNAB, ao ser criada, enfatizou a valorização dos diversos saberes e práticas, determinando que as equipes atuem também em domicílios, escolas, creches, praças e outros espaços3. Dessa forma, entendemos que os terreiros podem se constituir como um espaço importante para as equipes de saúde da família (eSF), pois a partir desse lugar podem ser promovidas ações que respeitem e valorizem a cultura local, particularmente a da população negra, além de representar uma oportunidade para consolidação do vínculo entre o terreiro e as unidades de saúde.
No entanto, no campo prático, percebe-se que a relação entre a APS e os terreiros é marcada por fragilidade e instabilidade, com uma interação, muitas vezes tímida e com escassa vinculação bilateral, comprometendo e reduzindo o potencial de articulação entre os dois contextos1.
Autores apontam que a falta do conhecimento das religiões de matrizes africanas contribui para estereótipos negativos e para uma identidade estigmatizada, reduzida a termos pejorativos como o uso da denominação “macumbeiro” de forma segregadora, o que causa sofrimento e exclusão perante a sociedade. Assim, a religião é demonizada e os participantes estigmatizados, sendo uma das razões para o distanciamento dos terreiros5.
Por outro lado, os adeptos do candomblé resistem a buscar unidades de saúde devido a suas visões próprias de saúde e doença. Para o cuidado em saúde, os terreiros acionam diferentes dispositivos terapêuticos, produzindo subjetividades e corporalidades resistentes, formas de cuidar de si, de outros, dos modos de ser e estar no mundo, que permitem a produção e recuperação da saúde de indivíduos e da comunidade6.
Para fomentar a aproximação entre a APS e os terreiros, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) publicou a Resolução nº 715, reconhecendo os terreiros como espaços promotores de saúde e cura, complementares ao Sistema Único de Saúde (SUS), legitimando a medicina não tradicional como um espaço de cuidado7.
Em uma revisão prévia da literatura, que buscou identificar as interações entre os Terreiros e a APS, realizada em 2023, foram constatadas lacunas significativas no conhecimento científico sobre a temática. A pesquisa foi conduzida no portal da Biblioteca Virtual em Saúde, utilizando os descritores "Candomblé" e "Saúde". Apenas cinco estudos abordavam a saúde dos povos de matriz africana, mas não mencionaram práticas concretas de aproximação entre os Terreiros e a APS. As iniciativas oriundas das unidades de saúde foram descritas como pontuais e baseadas no modelo biomédico1,8-11.
Partimos do pressuposto de que compreender a interligação entre os terreiros e a saúde é essencial, pois subsidia os princípios doutrinários e organizativos do SUS, além de promover modelo de gestão acessível e equitativo. Além disso, compreendemos que os saberes ancestrais são parte da identidade cultural de um povo e a medicina tradicional tem um papel importante no cuidado, sendo necessário avançar no conhecimento científico sobre o tema. Assim, este estudo objetivou descrever a aproximação e o distanciamento entre a Atenção Primária à Saúde e os Terreiros de Candomblé na produção do cuidado.
MÉTODO
Estudo qualitativo de cunho descritivo, realizado com sacerdotes de TC, profissionais de saúde e gestores atuantes na APS do município de Camaçari - Ba. Para assegurar a transparência e o rigor no relato deste estudo, foram considerados os critérios estabelecidos no protocolo Consolidated criteria for reporting qualitative research (COREQ)12.
A rede de APS do município está distribuída em dois distritos, sede e costa, e é composta por 38 Unidades de Saúde da Família (USF) onde trabalham profissionais com diferentes formações e especialidades13.
Este estudo ocorreu em duas unidades de saúde, uma na região da sede e outra na costa, buscando obter uma amostra de ambos os distritos, escolhidas com base nos seguintes critérios: serem as unidades mais antigas implantadas na APS do município, possuírem equipe formada por médico, enfermeiro, técnico de enfermagem, odontólogo e Agente Comunitário de Saúde (ACS) e terem TC na sua área de cobertura.
Foram considerados elegíveis para o estudo profissionais de nível superior, médio/técnico, gestores das unidades de saúde eleitas, gestores municipais de referência para a temática no município que foram abordados presencialmente pelos autores e convidados a participar do estudo e sacerdotes de TC vinculados ao território da eSF, indicados pelos ACS. Como critérios de inclusão, os gestores e profissionais de saúde deveriam estar inseridos no processo de trabalho na APS do município por um tempo mínimo de seis meses e os sacerdotes deveriam estar atuantes nos terreiros na ocasião do estudo e todos deveriam aceitar voluntariamente participar da pesquisa. Foram excluídos profissionais e gestores que estavam em período de licença, férias ou afastamento durante a coleta de dados e os sacerdotes que não estavam exercendo suas funções no período da coleta.
O estudo contou com 14 participantes sendo dois gestores municipais, dois gestores locais (gerentes das unidades de saúde), seis profissionais da APS (dois de nível médio, dois de nível superior e dois ACS), e quatro sacerdotes de TC, não havendo recusas ou repetição de entrevistas. O quantitativo foi definido de forma intencional, buscando pessoas que conhecessem ou influenciassem diretamente o fenômeno estudado. Optou-se por incluir maior número de profissionais devido à heterogeneidade de funções na APS e à necessidade de captar diferentes perspectivas institucionais sobre o cuidado. Já entre os sacerdotes, dada a centralidade e relativa homogeneidade do papel exercido nos terreiros, o número de quatro entrevistas corresponde ao número de pessoas exercendo a atividade no território.
A coleta de dados foi realizada entre setembro e outubro de 2024, por meio de entrevistas semiestruturadas, seguindo dois roteiros: um para sacerdotes de candomblé e outro para trabalhadores de saúde e gestores. A escolha de roteiros distintos se deu devido à necessidade de contemplar os diferentes papéis, responsabilidades e contextos de atuação nas situações que envolvem o cuidado à saúde nos terreiros e na APS. A primeira parte do instrumento se dedicou à caracterização sociodemográfica dos participantes e a segunda foi composta por perguntas abertas que possibilitaram que os participantes pudessem explanar suas respostas de forma livre. Para os sacerdotes, as questões envolveram a percepção da saúde nos terreiros, as práticas de cuidados existentes nos terreiros, a experiência com atividades propostas pelas unidades de saúde e as facilidades, dificuldades ou benefícios da interação entre o posto de saúde e o Candomblé.
Para os profissionais de saúde foram abordadas a percepção da relação entre sacerdotes de TC e profissionais da APS; a proposição de atividades por parte das unidades de saúde; a percepção da gestão do processo de trabalho; e os possíveis benefícios e dificuldades na interação entre posto de saúde e o Candomblé. Para os gestores foi acrescentado o questionamento sobre a inserção, no plano de gestão, da necessidade de articulação com equipamentos sociais, em especial os TC. Os instrumentos foram pré-testados com um participante de cada grupo citado e não houve necessidade de ajustes no roteiro inicial.
Os dados foram coletados por uma enfermeira especialista, trabalhadora do município, pesquisadora principal deste estudo, na ocasião do mestrado profissional em Enfermagem. A coleta foi realizada nas unidades de saúde, nos terreiros e na secretaria de saúde do município, em um local tranquilo, sugerido pelos entrevistados, respeitando a disponibilidade dos participantes, a privacidade e em dia e horário convenientes para todos.
Após selecionados os participantes, ocorreu a comunicação telefônica e por mensagem eletrônica aos gestores das unidades para que fosse viabilizado o contato e agendamento com os profissionais. Os ACS contactaram os sacerdotes agendando o melhor dia e horário para o encontro presencial e a coleta se deu no terreiro.
As entrevistas foram realizadas individualmente, gravadas através de um aplicativo instalado em aparelho celular pertencente à pesquisadora, com uma duração média de 25 minutos, sendo, a mais curta 12 minutos e a mais longa 38 minutos. Durante as entrevistas, quando obtida uma resposta vaga, a pergunta inicial era reestruturada com a finalidade de esclarecimento e aprofundamento do tema.
Por utilizar uma seleção intencional de participantes, a coleta foi encerrada durante a análise dos dados por saturação de significado14quando o material codificado permitiu a compreensão das interações entre a APS e os TC, não sendo necessário o acréscimo de informações adicionais, além de observada a repetição dos temas levantados pelos participantes.
Após a gravação, as entrevistas foram transcritas pela pesquisadora principal e disponibilizadas aos entrevistados para leitura e validação. A partir desse procedimento, nenhuma modificação foi solicitada para a pesquisadora. Os participantes foram identificados por letras que correspondem à profissão ou função no território, sendo NS - profissionais de nível superior, NM - profissional nível médio, G - gestores, ACS - para os Agentes Comunitários de Saúde e S - para sacerdotes. Também foi utilizada uma numeração sequencial que indica a ordem da realização das entrevistas.
O material textual foi organizado no software NVivo® 15 e a análise seguiu os pressupostos da Análise Temática de Conteúdo de Bardin15. Os 14 documentos, que correspondem ao número de entrevistas realizadas, foram inseridos no software, feita a primeira codificação, referente às abordagens realizadas pelos participantes sobre a aproximação e o distanciamento.
Foi obtido um total de 14 núcleos de sentido e 214 citações, durante o aprofundamento da análise, os códigos foram revisados e adquiriram novos arranjos para chegar às quatro categorias que foram apresentadas. Os agrupamentos foram definidos a posteriori, de acordo com os sentidos emergidos na análise.
Os códigos relacionados à espiritualidade, às práticas de saúde e cura e ao modelo assistencial foram agrupados na categoria “Modelos de atenção à saúde e práticas tradicionais nos terreiros de candomblé”; os códigos preconceito, barreiras culturais e religiosas, discriminação, falta de informação, racismo religioso, limites administrativos e práticas profissionais foram agrupados na categoria “Práticas de distanciamento entre unidades de saúde e terreiros de candomblé; os códigos relacionados a atividades, grupos específicos, encaminhamento para medicina e limites da espiritualidade constituíram a categoria: “Práticas de aproximação entre unidades de saúde e terreiros de candomblé”; e por fim, foi acrescentada a categoria “Potências e a implicação de práticas de aproximação entre unidades de saúde e terreiros de candomblé” juntando os códigos que versavam sobre os benefícios da interação e as possibilidades de articulações das práticas entre unidades de saúde e terreiros de candomblé.
A pesquisa foi previamente aprovada sob o parecer nº 6.987.222 e CAAE 78297224.0.0000.0053, pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Feira de Santana. Foram observados os aspectos éticos preconizados pela Lei 14874/2416. O contato com os participantes profissionais e gestores foi realizado por mensagem de texto no WhatsApp, sendo encaminhado o convite para participação no estudo e agendada a entrevista. A pesquisa e seus procedimentos foram explicados presencialmente aos participantes, solicitando-se a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido em duas vias, procedendo-se, seguidamente, à entrevista gravada. Os sacerdotes foram contactados por intermédio dos ACS para o agendamento das entrevistas.
RESULTADOS
Os participantes majoritariamente foram do sexo feminino, casadas, pardas e pretas. A faixa etária predominante foi de 45-54 anos para os profissionais e de 75-84 anos para os sacerdotes. A maioria dos gestores e profissionais tinha nível superior, enquanto os sacerdotes eram analfabetos ou possuíam ensino fundamental incompleto. O tempo de atuação variou entre 5-32 anos para os profissionais e 38-54 anos para os sacerdotes. A religião dominante entre os profissionais de saúde e gestores foi a cristã, com maioria de evangélicos e católicos.
A análise e interpretação do conteúdo obtido através das entrevistas gerou quatro categorias, assim intituladas: Modelos de atenção à saúde e práticas tradicionais nos TC; Práticas de distanciamento entre unidades de saúde e TC; Práticas de aproximação entre unidades de saúde e TC; Potências e a implicação de práticas de aproximação entre unidades de saúde e TC.
Modelos de atenção saúde e práticas tradicionais nos terreiros de candomblé
Esta categoria aborda os modelos de atenção à saúde na APS e no Candomblé e a exclusão sistemática dos saberes tradicionais, destacando os desafios e lacunas existentes no reconhecimento e valorização das práticas no contexto do SUS. As questões relacionadas à formação e atuação médica foram apontadas por dois gestores, que destacaram a desconstrução destes saberes tradicionais e uma visão tecnológica para a abordagem dos usuários, o que resulta em invalidação, discriminação e fragiliza a relação entre os terreiros e a APS. Nos terreiros, por sua vez, a abordagem holística vai além da cura de doenças, promovendo qualidade de vida e incentivando hábitos saudáveis. Gestores e sacerdotes destacam práticas espirituais nos terreiros e a conexão entre corpo e espírito. O Quadro 1 exemplifica estas constatações:
Práticas de distanciamento entre unidades de saúde e terreiros de candomblé
As práticas de distanciamento entre as unidades de saúde e os TC ocorrem por ações ou omissões que marginalizam e excluem esses espaços das práticas e políticas de saúde. Esse processo é resultado de atitudes conscientes ou inconscientes de indivíduos, grupos ou instituições e este distanciamento é manifestado e mediado por atitudes de preconceito e intolerância, falta de informação, racismo religioso e barreiras resultantes de diferenças culturais e religiosas, como podemos observar nas falas abaixo (Quadro 2):
Os participantes reconhecem a necessidade desta aproximação, mas o alijamento está presente nas políticas públicas, nas práticas de saúde, no plano de gestão e nos serviços de saúde. Os enxertos (Quadro 3), exemplificam esta situação:
Práticas de aproximação entre unidades de saúde e terreiros de candomblé
Os resultados das entrevistas, a respeito das práticas de aproximação entre as unidades de saúde e os TC nos permitiram separar as ações em duas perspectivas: a primeira das unidades de saúde em direção aos terreiros e a segunda, dos terreiros com relação aos serviços.
As práticas oriundas das unidades de saúde são pontuais e descritas por um dos gestores como positivas para os profissionais e satisfatórias para os sacerdotes por integrar a medicina convencional aos saberes ancestrais.
As iniciativas provenientes dos terreiros reconhecem os limites da atuação espiritual nas questões de saúde com subsequente encaminhamento dos adeptos para a medicina tradicional, quando necessário. Essa prática demonstra uma relação mais respeitosa com os conhecimentos da medicina ocidental enquanto se mantém o tratamento com saberes ancestrais. Nas falas percebemos orientações fornecidas pelos sacerdotes sobre a busca do atendimento no sistema de saúde formal sem, no entanto, abandonar a fé. Abaixo (Quadro 4) exemplifica essas constatações:
Sobre as iniciativas oriundas da APS, foram citadas campanhas de educação em saúde, vacinação e ações realizadas nos terreiros, conforme as falas dos entrevistados G2, G4 e ACS1. As atividades, como feiras de saúde e visitas domiciliares, são bem recebidas pelos adeptos do candomblé, especialmente quando há integração entre saberes "leigos" e científicos.
Potências e a implicações das práticas de aproximação entre unidades de saúde e terreiros de candomblé
A articulação entre os terreiros e as unidades de saúde consente o potencial terapêutico de práticas como o uso de plantas medicinais, rituais de purificação e suporte espiritual, que podem contribuir para o equilíbrio biopsicossocial dos indivíduos, assim como permite a adesão a tratamentos de saúde convencionais. Além disso, iniciativas que formalizam parcerias entre terreiros e unidades de saúde, incluindo troca de conhecimentos que podem contribuir para abrandar barreiras como o racismo religioso e implicar na ampliação do acesso da população a cuidados integrais. Essas potências e implicações são exemplificadas abaixo (Quadro 5):
DISCUSSÃO
O sistema de saúde no Brasil passou por transformações importantes, como o Movimento Sanitário e a criação do SUS, consolidando a saúde como direito de todos. Porém, apesar de seus princípios de universalidade e equidade, com referência ao modelo de atenção é possível constatar a existência de lacunas, especialmente no que diz respeito ao não atendimento às especificidades de povos tradicionais, como os que frequentam TC. Estes espaços desempenham um papel essencial na saúde física, mental e espiritual, além de serem locais de resistência para populações afrodescendentes, diante das investidas do Estado, do conservadorismo, do preconceito e do racismo religioso, na medida em que entendemos estes cultos como constituídos predominantemente por pessoas negras17.
Os participantes destacam as dificuldades enfrentadas pelos praticantes de candomblé no acesso à saúde pública, devido ao modelo médico assistencial predominante. Embora o candomblé valorize o cuidado espiritual é possível compreender que não há rejeição à medicina ocidental por parte dos sacerdotes, que reconhecem a necessidade de ambos os tratamentos.
O modelo biomédico, predominante nos sistemas de saúde, exclui aspectos subjetivos como as dimensões sociais, espirituais e emocionais, dificultando a integralidade do cuidado. Isso impõe limitações aos saberes tradicionais, como os das comunidades de terreiros, já que os profissionais de saúde muitas vezes se sentem incapazes de lidar com a complexidade do adoecer humano, havendo uma necessidade da formação de profissionais capacitados para integrar práticas culturais ao cuidado8,18.
Os saberes biomédicos dominam a medicina, valorizando a cultura do outro apenas quando seus métodos são aceitos, pois consideram que a religião é uma interferência no cuidado, assim reservam ao profissional da saúde a decisão sobre a vida dos pacientes6. As religiões de matriz africana, por sua vez, são nascidas da resistência ao racismo e à opressão durante o período da escravidão, oferecendo práticas de saúde baseadas em saberes ancestrais, com abordagem holística para os problemas que integra corpo, espírito e relações com a natureza e o sagrado19.
As plantas medicinais são frequentemente citadas como um recurso terapêutico importante nas práticas populares de saúde e nos terreiros, muitas vezes sendo a última opção de cuidado20. Esses cuidados, citados pelos participantes, refletem a integralidade da abordagem dos TC com relação ao corpo e ao espírito que se dá sob a orientação dos sacerdotes.
Pode-se perceber nas falas que as práticas terapêuticas nos terreiros, como rezas e banhos, muitas vezes não são reconhecidas pelos profissionais de saúde, resultando em barreiras de comunicação e em um acolhimento desrespeitoso. Assim, as práticas não são valorizadas, os praticantes não são acolhidos e o cuidado prestado acaba desvalorizando o conhecimento tradicional, dificultando o acesso e a permanência dessas pessoas nos serviços de saúde. A falta de reconhecimento dessas práticas perpetua a invisibilidade dos terreiros, criando ciclos não só de exclusão, mas também de violações de direitos humanos21.
Sobre as possibilidades de colaborações entre medicina tradicional e profissionais de saúde, um estudo realizado em Gana, na África, identificou uma prática diferente, na qual os profissionais de saúde tendem a reconhecer a expertise de curandeiros e as diferentes possibilidades de abordagens do processo de cura, buscando parcerias que eram entendidas como uma colaboração e não como uma competição22. Na mesma experiência, os curandeiros também reconheciam que algumas coisas que não são de natureza espiritual exigiam uma intervenção biomédica, expressando apreço pela intervenção especializada dos profissionais de saúde.
Ao se referirem ao Candomblé, podemos observar a constatação de situações de exclusão das unidades de saúde nas falas dos sacerdotes, ao passo que os profissionais reconhecem a presença do preconceito e da rejeição por parte dos colegas o que tem impedido a produção informações que poderiam contribuir com a prevenção de agravos e doenças.
O preconceito afeta negativamente a relação entre os TC e as unidades de saúde na APS, excluindo essas comunidades do cuidado integral, e se manifestando de formas sutis e explícitas, como a falta de iniciativas e a perpetuação de estereótipos. A ausência de um "olhar diferenciado" reflete que a organização do cuidado ainda é marcada por discriminações históricas e desinformação, o que foi frequentemente relatado pelos participantes, somada à demonização dos terreiros e a falta de conhecimento sobre essa prática religiosa.
Apesar de o Brasil ser considerado um país laico, muitas contradições ainda persistem, nem todas as religiões conseguem vivenciar plenamente sua espiritualidade, ou praticar sua liturgia de forma livre e enfrentam preconceitos e intolerâncias, como é o caso das religiões de matriz africana, que historicamente, têm sido alvo de perseguição23.
Comportamentos preconceituosos e discriminatórios por parte de profissionais de saúde e gestores podem impactar diretamente a qualidade do atendimento prestado, quanto a esse aspecto, vale destacar que nenhum dos profissionais entrevistados pertencem às religiões de matriz africana.
As barreiras pessoais culturais e religiosas acabam reforçando esse preconceito, dificultando o diálogo entre as unidades de saúde e as lideranças dos terreiros, com as equipes de saúde frequentemente negligenciando a singularidade do candomblé, como as suas práticas alimentares e suas implicações na saúde. Para superar essas barreiras, é necessário capacitar as equipes de saúde sobre diversidade cultural e religiosa, além de criar espaços de diálogo com as lideranças dos terreiros, reconhecendo suas práticas como legítimas e essenciais para o cuidado integral.
Contraditoriamente, um estudo ilustrou uma situação privilegiada de colaborações entre profissionais de saúde e a medicina tradicional, sugerindo que esta interface pode ser estabelecida também em outros contextos. Os fatores que contribuíram para o sucesso da experiência emergiram justamente pelas características individuais dos participantes, das relações estabelecidas entre os atores sociais, do apoio das comunidades e do sistema de saúde22.
As políticas públicas de saúde devem enfrentar a demonização do Candomblé como violência simbólica, promovendo ações educativas para desmistificar suas práticas e valorizar sua contribuição cultural e para a saúde. De acordo com alguns sacerdotes, a intolerância religiosa dificulta o reconhecimento das práticas ancestrais no cuidado à saúde, especialmente no aspecto espiritual. Alguns participantes do estudo como G4, NS1, NM1 e NS2 apontam que as religiões contribuem para o fortalecimento dessa intolerância, prejudicando o diálogo entre profissionais de saúde e frequentadores de TC.
Estigmas culturais dificultam o reconhecimento das práticas de cuidado dos terreiros como complementares às abordagens tradicionais, de forma similar, as barreiras religiosas exercem uma influência direta nos serviços de saúde. A discriminação religiosa, especialmente as afrodescendentes, ainda é intensa no Brasil e contribui para a estigmatização de seus adeptos caracterizando um racismo estrutural que certifica esta exclusão24.
Além disso, a falta de interfaces entre as políticas públicas e os saberes tradicionais no SUS dificulta o uso do potencial desses conhecimentos na promoção da saúde. A marginalização dos TC é fruto de uma história marcada pelo preconceito e pelo racismo estrutural que impactam negativamente as práticas de matriz africana e o acesso dessas comunidades ao direito à saúde17.
A criação de políticas de saúde específicas para os TC é essencial para reconhecer esses espaços como produtores de cuidado, embora as questões religiosas sejam abordadas com mais respeito, poucos documentos tratam diretamente dos cuidados para essa comunidade. A PNAB sugere a inclusão dos terreiros, mas de forma indireta, enquanto a PNSIPN reconhece as desigualdades raciais como determinantes sociais da saúde. Os TC são fundamentais na luta contra a opressão, representando resistência histórica e cultural, pois cada terreiro é um quilombo, simbolizando resistência ao preconceito8.
A representatividade no Congresso Nacional pode garantir a defesa das visões de mundo das comunidades tradicionais, mas a ascensão ao poder de determinados grupos neopentecostais em diferentes instâncias públicas prejudica a criação de políticas públicas para os povos de matriz africana. Isso contribui para a invisibilidade e exclusão das suas práticas de saúde23.
As falas analisadas revelam um ciclo vicioso na gestão da saúde, onde profissionais e gestores justificam a falta de ações específicas para os TC pela ausência de normativas claras e pela falta de articulação entre as unidades de saúde e a comunidade. Embora alguns gestores reconheçam a existência de ações em outros contextos, a ausência de políticas organizadas que considerem as especificidades culturais e religiosas dos povos de matriz africana mantém a população desassistida, evidenciando falhas no planejamento estratégico e na implementação de práticas inclusivas.
A falta de diretrizes claras e de diálogo com as lideranças locais reflete essa negligência institucional e configura uma forma de violência que fragmenta as ações e a falta de planejamento gera um cenário de marginalização e discriminação.
Quanto às limitações administrativas citadas pelo profissional NM1, no que se refere ao tempo para as atividades, disponibilidade de recursos e falta de apoio logístico, são fatores que limitam a integração com os terreiros, resultando na exclusão dessas comunidades das políticas e práticas de saúde.
A parceria entre o SUS e os terreiros é uma demanda da atualidade e, desde que não retire a autonomia das comunidades afro-religiosas e nem as colonize, pode fornecer para o SUS o aprendizado de estratégias de acolhimento e cuidado, que já são estabelecidas no contexto das práticas destas religiões19.
Considerando o itinerário terapêutico de pessoas que procuram atenção e cuidados à saúde em TC, todos os sacerdotes citaram as limitações do tratamento espiritual para as questões do adoecimento do corpo físico. Embora as unidades de saúde e o candomblé sigam por caminhos distintos, a condução da doença no terreiro e na unidade de saúde, para os sacerdotes, deve ocorrer em paralelo e a busca pela medicina tradicional é incentivada por eles.
Os terreiros realizam um trabalho intersubjetivo com seus frequentadores que traz a cura como um processo de transformação geral na vida das pessoas8,21. Assim, podemos perceber que os terreiros são mais propensos ao reconhecimento da complementaridade dos sistemas, do que o próprio sistema de saúde, conforme demonstrado neste estudo a partir das falas dos participantes.
A construção de políticas públicas que possibilitem a integração dos terreiros ao SUS, parte do princípio do reconhecimento do racismo no processo de adoecimento da população negra no Brasil, pois o que se combate nessas práticas é a origem africana destas religiões, e a sua demonização faz com que sejam um inimigo a ser combatido19.
Existe uma série de fatores que podem ser considerados na efetivação da integração entre medicina tradicional e convencional. Um estudo que explorou os facilitadores e obstáculos desta integração em serviços de saúde mental na África Ocidental identificou a necessidade de políticas que definam claramente as diretivas, regulamentações, planejamento, coordenação e a implementação desta integração, fornecendo aos envolvidos diretrizes claras e coerentes sobre o envolvimento de profissionais e organizações, pois as políticas são a base sobre a qual os sistemas de saúde são construídos25.
Também se faz necessário compreender que o processo de adoecimento e cura, para as religiões de matriz africana, está profundamente relacionado ao equilíbrio entre corpo e espírito e a cura é entendida como o restabelecimento dessa harmonia perdida. Nesse contexto, a busca por práticas terapêuticas tradicionais visa não apenas aliviar enfermidades, mas também promover bem-estar e superar sofrimentos decorrentes de desequilíbrios diversos26.
Por sua forte vinculação religiosa, a medicina tradicional desafia os paradigmas ocidentais centrados na comprovação científica rígida, o que dificulta sua aceitação plena. Ainda assim, reconhecer sua relevância e influência cultural é fundamental para ampliar a compreensão da saúde em sua dimensão biológica, psicossocial, cultural, ambiental e espiritual. Dessa forma, integrar tais saberes a políticas de saúde pública requer respeito às especificidades dessa tradição e abertura a modelos de cuidado mais abrangentes26.
A aproximação entre o Candomblé e as eSF por meio de atividades conjuntas, também pode ajudar a desmistificar a imagem do povo de terreiro, promovendo um cuidado holístico e contínuo, integrando saberes e possibilitando acompanhamento das condições de saúde.
Destacamos como limitações a escassez de estudos atuais para discussão da temática, uma vez que a maioria dos artigos relatam questões sobre as práticas de saúde no ambiente dos terreiros, poucas são as referências que discutem a interação/inter-relação dos terreiros com os serviços de saúde. O estudo evidencia o potencial transformador de ações colaborativas, como o engajamento comunitário e a educação permanente, e recomenda que gestores, profissionais de saúde e instituições de ensino fortaleçam estratégias intersetoriais que ampliem a participação social, promovam espaços de formação continuada e incorporem práticas culturalmente sensíveis no cotidiano dos serviços. Medidas como a promoção de rodas de conversa, visitas domiciliares, priorização da escuta de grupos historicamente silenciados, como o povo de terreiro e construção de vínculos autênticos, podem contribuir para ampliar o acesso equitativo e consolidar um modelo de cuidado mais inclusivo, com impactos positivos para a saúde em Camaçari e que podem ser adaptados a outras localidades.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo evidenciou que a interface entre terreiros de Candomblé e a APS apresenta tanto elementos de aproximação quanto de distanciamento na produção do cuidado. Na dinâmica das relações foram destacados avanços e lacunas na integração dos saberes, demonstrando a complexidade da operacionalização desta interface. Embora existam algumas aproximações pontuais como as feiras de saúde e outras atividades desenvolvidas em conjunto, a ausência de políticas públicas robustas, da formação adequada dos profissionais e de um modelo de gestão inclusivo dificulta a efetiva integração, perpetuando discriminação e exclusão.
O preconceito, a falta de informação, o racismo religioso e as práticas culturais dificultam o reconhecimento e a valorização dos saberes tradicionais resultando em baixa articulação entre os TC e a APS. Esse distanciamento se expressa na ausência de parcerias formais, na exclusão dos terreiros de políticas de promoção da saúde, na falta de encaminhamentos e no não reconhecimento dos líderes religiosos como agentes de cuidado.
A integração dos saberes tradicionais com os conhecimentos científicos é fundamental para um modelo de cuidado mais eficaz e para a superação dessas barreiras históricas, o que requer mudanças estruturais no sistema de saúde, com foco na interculturalidade. Reconhecer os terreiros como espaços legítimos de saber e cuidado pode contribuir para alcançar a integralidade e a equidade na atenção à saúde.
Referências bibliográficas
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