RESUMO
Objetivo: Estimar a associação entre fatores sociodemográficos e econômicos e os comportamentos de risco e de proteção à saúde de gestantes com diabetes mellitus gestacional.
Método: estudo transversal, com dados coletados entre novembro de 2023 e março de 2024 de 391 gestantes em maternidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. A coleta de dados foi realizada por entrevistas com a utilização de um questionário semiestruturado. Utilizou-se a regressão de Poisson para análise dos dados.
Resultados: O consumo de frutas foi significativamente maior entre gestantes com idade superior a 35 anos (RP:1,29;IC95%1,03-1,63) e com ensino superior (RP:1,66;IC95%-1,11- 2,50). O consumo de verduras foi significativamente maior entre gestantes com ensino superior (RP:1,47;IC95%:1,00-2,15) e sem auxílio governamental (RP:1,39;IC95%1,08 - 1,77). A prática de atividade física foi mais prevalente entre aquelas gestantes com renda superior a três salários mínimos (RP:2,38; IC95%1,36-4,16). Foi demonstrado, ainda, que mulheres com maior renda tiveram menor prevalência de consumo de álcool (RP:0,25; IC95%0,07 - 0,85).
Conclusão: Condições socioeconômicas desfavoráveis estão associadas a comportamentos de risco em gestantes com diabetes gestacional, particularmente o consumo de álcool. Por outro lado, condições socioeconômicas mais favoráveis apresentam associação com fatores protetores à saúde, em especial o consumo de frutas e verduras e a prática de atividade física.
Descritores:
Diabetes Mellitus Gestacional; Comportamentos Relacionados com a Saúde; Fatores Socioeconômicos
ABSTRACT
Objective: To estimate the association between sociodemographic and economic factors, prenatal care, and health-related risk and protective behaviors among pregnant women with gestational diabetes mellitus.
Method: This was a cross-sectional study with data collected between November 2023 and March 2024 from 391 pregnant women in a maternity hospital in Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil. Data collection was carried out through interviews using a semi-structured questionnaire. Poisson regression was used for data analysis.
Results: Fruit consumption was significantly higher among pregnant women aged over 35 years (PR: 1.29; 95% CI: 1.03-1.63) and those with higher education (PR: 1.66; 95% CI: 1.11-2.50). Vegetable consumption was significantly higher among those with higher education (PR: 1.47; 95% CI: 1.00-2.15) and without government assistance (PR: 1.39; 95% CI: 1.08-1.77). Physical activity was more prevalent among women with an income greater than three minimum wages (PR: 2.38; 95% CI: 1.36-4.16). Furthermore, women with higher income had a lower prevalence of alcohol consumption (PR: 0.25; 95% CI: 0.07-0.85).
Conclusion: Unfavorable socioeconomic conditions are associated with risk behaviors among pregnant women with gestational diabetes, particularly alcohol consumption. Conversely, more favorable socioeconomic conditions are associated with health-protective factors, especially fruit and vegetable consumption and physical activity.
Descriptors:
Gestational Diabetes Mellitus; Health-Related Behaviors; Socioeconomic Factors
RESUMEN
Objetivo: Estimar la asociación entre factores sociodemográficos, económicos, el seguimiento prenatal y los comportamientos de riesgo y de protección para la salud de gestantes con diabetes mellitus gestacional.
Método: Estudio transversal con datos recolectados entre noviembre de 2023 y marzo de 2024 de 391 gestantes en una maternidad de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. La recolección de datos se realizó mediante entrevistas utilizando un cuestionario semiestructurado. Se empleó la regresión de Poisson para el análisis de los datos.
Resultados: El consumo de frutas fue significativamente mayor entre las gestantes mayores de 35 años (RP: 1,29; IC95%: 1,03-1,63) y entre aquellas con educación superior (RP: 1,66; IC95%: 1,11-2,50). El consumo de verduras fue significativamente mayor entre las gestantes con educación superior (RP: 1,47; IC95%: 1,00-2,15) y sin ayuda gubernamental (RP: 1,39; IC95%: 1,08-1,77). La práctica de actividad física fue más prevalente entre las gestantes con ingresos superiores a tres salarios mínimos (RP: 2,38; IC95%: 1,36-4,16). Además, se demostró que las mujeres con mayores ingresos presentaron menor prevalencia de consumo de alcohol (RP: 0,25; IC95%: 0,07-0,85).
Conclusión: Las condiciones socioeconómicas desfavorables están asociadas a comportamientos de riesgo en gestantes con diabetes gestacional, particularmente el consumo de alcohol. Por otro lado, las condiciones socioeconómicas más favorables se asocian con factores protectores de la salud, especialmente el consumo de frutas y verduras y la práctica de actividad física.
Descriptores:
Diabetes Mellitus Gestacional; Comportamientos relacionados con la salud; Factores socioeconómicos
INTRODUÇÃO
O Diabetes Mellitus Gestacional (DMG) é uma condição endócrino-metabólica que se manifesta durante a gestação, com etiologia multifatorial associada à predisposição genética e a fatores ambientais1 e apresenta-se entre as principais comorbidades relacionadas à gestação, com prevalência global estimada em 14%2. Grande parte destes casos ocorre principalmente em países de média e baixa renda, onde os recursos de saúde ainda não estão bem estruturados3, sendo muitas dessas mulheres não rastreadas ou acompanhadas de modo inadequado4. No Brasil, a prevalência estimada de DMG varia em torno de 14 % (5.
Os fatores de risco para o DMG estão relacionados, principalmente, ao excesso de peso materno e aos fatores comportamentais modificáveis, como alimentação inadequada e inatividade física, bem como aos fatores não modificáveis, como a genética, a idade materna avançada, a hipertensão na gestação atual, a síndrome dos ovários policísticos e o histórico obstétrico6,7.
Entre as complicações maternas associadas ao DMG, destacam-se a hipertensão gestacional, o risco aumentado de progressão para o diabetes tipo 2 e as doenças cerebrovasculares8. A necessidade de parto cesáreo também é mais frequente nas gestantes com essa comorbidade, em razão de desfechos como macrossomia fetal ou outras intercorrências obstétricas. No feto e no recém-nascido, as repercussões incluem macrossomia, hipoglicemia, distúrbios respiratórios e maior predisposição à obesidade e ao diabetes tipo 2 na vida adulta8.
O manejo adequado do DMG, com controle glicêmico, alimentação equilibrada, prática de atividades físicas e, quando necessário, uso de medicamentos, é essencial para prevenir desfechos adversos maternos e fetais9. No entanto, a adesão a essas medidas pode ser dificultada por barreiras socioeconômicas, falta de apoio social e impacto emocional da gestação10, bem como pelo baixo conhecimento materno em relação à doença11.
Especificamente entre gestantes com DMG, e considerando o elevado risco de complicações associadas à doença 8, torna-se essencial o acompanhamento dos hábitos de vida por meio do autocuidado apoiado. Além disso, é necessário um plano de cuidados pactuado entre os profissionais de saúde e as gestantes, contemplando as particularidades dos diferentes contextos e perfis populacionais. Fatores sociodemográficos, como a idade inferior a 35 anos, e fatores sociais, como a baixa escolaridade, são associados ao menor nível de conhecimento sobre o DMG 9,11, sendo que diferentes graus de conscientização acerca da doença podem contribuir para desigualdades na adoção de comportamentos saudáveis durante a gestação. Dessa forma, considera-se relevante investigar a frequência desses comportamentos entre gestantes com DMG, bem como as possíveis diferenças sociodemográficas e econômicas associadas, possibilitando a obtenção de evidências robustas sobre essa população. A análise das desigualdades nos fatores de risco e de proteção à saúde em gestantes com DMG pode subsidiar o desenvolvimento de ações mais direcionadas e eficazes, com foco em subgrupos populacionais de maior vulnerabilidade, contribuindo para a redução das iniquidades em saúde e para a diminuição da morbimortalidade.
Cabe ressaltar que todos os indivíduos devem possuir a capacidade de alcançar a saúde ideal, independentemente de características demográficas, culturais e da classe econômica, sem discriminação ou exclusões nos sistemas de saúde12. Contudo, evidências indicam que, na população brasileira, indivíduos com menor renda e menor escolaridade apresentam níveis de prática de atividade física reduzidos 13 e maior insegurança alimentar, em comparação a classes sociais mais favorecidas 14. Considerando que esses padrões também são observados entre gestantes de modo geral 15,16, reforça-se a hipótese deste estudo de que tais desigualdades persistem mesmo entre gestantes com DMG. Diante desse cenário, questiona-se: os comportamentos de risco e de proteção à saúde distribuem-se de maneira desigual em mulheres com DMG, de acordo com características sociais e econômicas? O objetivo deste estudo foi estimar a associação entre fatores sociodemográficos e econômicos e os comportamentos de risco e de proteção à saúde de gestantes com diabetes mellitus gestacional.
MÉTODO
Tipo de estudo
Trata-se de um estudo transversal, norteado pelas recomendações do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) (17.
Local de pesquisa e período do estudo
O estudo foi realizado em um hospital de ensino público, referência em parto humanizado e gestação de alto risco, localizado na zona norte do município de Belo Horizonte, no Estado de Minas Gerais (MG), Brasil. Trata-se da maternidade que mais assiste partos em âmbito nacional, com um total de 9.421 partos assistidos em 2023. O hospital atualmente é referência para seis regiões de saúde para vinculação do pré-natal de alto risco, parto e nascimento, totalizando 55 municípios. Os dados foram coletados no período de 03 de novembro de 2023 a 31 de março de 2024.
Amostra e população do estudo
A população foi constituída por gestantes com o diagnóstico de DMG admitidas e/ou acompanhadas na instituição de estudo. Para a realização do cálculo do tamanho amostral, considerou-se como desfechos primários a prevalência dos comportamentos adequados em saúde em gestantes, sendo que, para o nosso conhecimento, essas frequências são indeterminadas para essa população. Dessa forma, foi utilizada para o cálculo de tamanho amostral uma prevalência estimada de 50%, já que essa prevalência permite a obtenção do maior tamanho amostral. Considerando a quantidade de partos realizados no hospital em 2023, adotando-se um nível de confiança de 95% e uma margem de erro máxima de 5%, foi calculada a dimensão da amostra de 370 gestantes.
O recrutamento das gestantes ocorreu de forma presencial, por meio da abordagem pessoal a todas as gestantes com diagnóstico prévio de DMG nos setores de internação/acompanhamento da instituição de estudo. Logo em seguida, foi apresentado o questionário autoaplicável para preenchimento.
Critérios de seleção do estudo
Foram considerados como critérios de inclusão: gestantes, com idade igual ou maior de 18 anos e com diagnóstico de DMG, internadas e/ou acompanhadas no hospital de estudo. Foram excluídas da amostra gestantes com diagnóstico de diabetes mellitus prévia, ou seja, aquelas que não tiveram diagnóstico de DMG na gestação atual, pois possuíam histórico de diabetes mellitus, inconscientes ou com decesso fetal no momento da entrevista, por estarem vivenciando o processo de luto.
Instrumento utilizado e variáveis do estudo
Os preditores foram as características sociodemográficas e econômicas coletadas por meio de um questionário elaborado pelo pesquisador, com base em modelos teóricos utilizados em estudos anteriores(15,16). Foram consideradas as seguintes variáveis: idade materna avançada (menor que 35 anos/igual ou maior que 35 anos) 18; raça/cor (branca/preta/ parda); escolaridade (ensino fundamental/ ensino médio/ensino superior); renda (até 1 salário mínimo/ 1-2 salários mínimos/ acima de 2 salários mínimos); município de procedência (Belo Horizonte; outros municípios de Minas Gerais); recebimento de auxílio governamental (sim/ não); local de pré-natal (serviço público/serviço privado).
As questões relacionadas aos comportamentos em saúde foram desfechos neste estudo, considerando-se como variáveis de risco para a saúde: tabagismo (sim/não), consumo de bebidas alcoólicas (sim/não), consumo de ultraprocessados (3 ou mais alimentos ultraprocessados no dia anterior à entrevista /até 2 alimentos ultraprocessados no dia anterior à entrevista)19. Como fatores de proteção, considerou-se consumo de frutas (menos de 5 porções por semana/mais de 5 porções por semana); consumo de verduras e legumes (menos de 5 porções por semana/mais de 5 porções por semana) e prática de exercício físico (sim/não)20. Essas questões do instrumento foram incorporadas considerando o questionário da Pesquisa Nacional de Saúde de 201921. O instrumento deste estudo, contendo dados sociodemográficos, econômicos e de comportamentos em saúde, foi submetido ao pré-teste com 15 gestantes do público-alvo, confirmando-se a clareza e a compreensão das perguntas. Os dados foram coletados em papel, por meio de entrevistas face a face.
Foi realizada dupla digitação do banco de dados por dois pesquisadores de forma independente e, posteriormente, a consolidação das bases. Para comparar as duas entradas de dados e destacar as possíveis discrepâncias, foi utilizado o software Exceldiff® versão v5.2.7.
Análise dos dados
Para avaliar as associações entre cada variável de exposição (sociodemográficas e econômicas) e os comportamentos em saúde, aplicou-se o teste Qui-quadrado de Pearson. Para a condução da análise multivariada, utilizou-se a regressão de Poisson, com variância robusta, iniciando-se o modelo com todas as variáveis preditoras com resultado de p<0,2 nas análises bivariadas. A partir do método backward, foram mantidas nos modelos finais as variáveis preditoras com p<0,05. O teste de Goodness of fit mostrou que os modelos foram adequados. Foi adotado um nível de significância de 5% (p<0,05) para considerar associações estatisticamente significativas. O Software for Statistics and Data Science (Stata®) versão 14.0 foi utilizado para análise dos dados.
Aspectos éticos
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da Universidade Federal de Minas Gerais e da maternidade de Belo Horizonte, pareceres 6.074.288 e 6.190.019, respectivamente, no dia 04 de julho de 2023, CAAE 69144623.0.3001.5132. A pesquisa assegurou aos sujeitos sua voluntariedade, anonimato e possibilidade de desistência a qualquer momento do estudo. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido de acordo com a Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.
RESULTADOS
Foram convidadas 416 gestantes para a pesquisa, sendo que 25 se recusaram a participar, com os principais motivos alegados: 09 por falta de tempo e 16 por desinteresse. Não houve nenhuma exclusão a partir dos critérios indicados para este estudo. A amostra final foi constituída por 391 mulheres, com idades entre 15 e 46 anos (Média = 29 anos, DP = 6,54). A maioria das participantes era do interior de MG (65%), possuía ensino médio completo (61%) e se considerava da raça/cor parda (61%). Quanto à renda média, esta foi de 1 a 2 salários mínimos (38%), sendo que 148 mulheres recebiam algum auxílio do governo (38%) e, em sua maioria, realizaram o pré-natal em serviços públicos (92%). Além disso, 168 mulheres (43,3%) consumiam a quantidade recomendada de frutas, enquanto 188 (48%) mantinham um consumo adequado de verduras. No que diz respeito à prática de atividade física, 75 mulheres (19,3%) realizavam algum tipo de exercício. Referente aos comportamentos de risco para a saúde, em relação aos alimentos ultraprocessados, 253 mulheres (65,3%) relataram ingerir esses produtos três ou mais vezes no dia anterior à entrevista, 6,67% fumavam e 2,30% consumiam álcool (Tabela 1).
Observou-se que o consumo de frutas foi maior entre mulheres com maior escolaridade (p <0,001), de raça/cor branca (p=0,039), com renda superior a três salários-mínimos (p=0,002), que não recebiam auxílio governamental (p <0,001) e que realizaram o pré-natal em redes privadas (p=0,012). No que se refere ao consumo de verduras, mulheres com maior escolaridade (p=0,007) e que não recebiam auxílio governamental (p <0,001) apresentaram maior frequência de consumo em comparação aos demais grupos. Além disso, a prática de atividades físicas foi significativamente maior entre mulheres com renda superior a três salários mínimos (p=0,007) em relação às mulheres que recebiam até um salário mínimo (Tabela 2).
Foram observadas maiores frequências de consumo de álcool em mulheres com 35 anos ou mais (p=0,040), com menor renda (p=0,026) e que recebiam auxílio governamental (p=0,013). Em relação ao tabagismo, foram observadas maiores frequências em mulheres de Belo Horizonte em relação aos municípios do interior de MG, com menor renda e que recebiam auxílio governamental. O consumo mais elevado de ultraprocessados (3 ou mais no dia anterior à entrevista) foi verificado em mulheres com menor escolaridade e que fizeram o pré-natal na rede pública (Tabela 3).
As gestantes com 35 anos ou mais tiveram uma maior prevalência de consumo de frutas em comparação àquelas com menos de 35 anos (RP:1,29; IC95%:1,03-1,63). Em relação à escolaridade, aquelas com ensino superior e médio apresentaram uma prevalência superior de consumo de frutas em comparação às mulheres com ensino fundamental (RP:1,66; IC95%:1,11- 2,50 e RP:1,43; IC95%:0,98-2,07, respectivamente). Mulheres que não recebiam auxílio governamental tiveram uma prevalência superior de consumo adequado de verduras em relação às que recebem esse tipo de auxílio (RP:1,39; IC95%:1,08 - 1,77). As mulheres com ensino superior e médio também tiveram maior prevalência de consumo de verduras em relação àquelas com ensino fundamental (RP:1,47; IC95%: 1,00-2,15 e RP: 1,42; IC95%:1,02 - 1,99, respectivamente). A prevalência da prática de atividade física foi maior entre pessoas com renda superior a três salários mínimos e 1-2 salários mínimos, em comparação àquelas que recebem até um salário mínimo (RP: 2,38; IC95%:1,36-4,16 e RP:1,73; IC95%:0,99-3,02, respectivamente) (Tabela 4).
Observou-se que gestantes com ensino superior apresentaram menor prevalência de tabagismo em comparação àquelas com ensino fundamental, com associação significativa, embora a magnitude tenha sido reduzida, possivelmente em função da baixa prevalência de tabagismo na população estudada. Além disso, mulheres de outros municípios do interior de MG (RP:0,38; IC95%:0,18 - 0,79) e com renda acima de três ou mais salários mínimos (RP: 0,25; IC95%: 0,07 - 0,85) e um a dois salários mínimos (RP:0,31; IC95%:0,12 - 0,75) tiveram menor prevalência de consumo de álcool em relação àquelas que residem em Belo Horizonte e que têm renda de até 1 salário mínimo, respectivamente. Em relação ao consumo de ultraprocessados, nenhuma variável permaneceu significativa no modelo final (Tabela 5).
DISCUSSÃO
Este estudo teve como objetivo estimar a associação entre fatores sociodemográficos, econômicos e os comportamentos de risco e de proteção à saúde em gestantes com diabetes mellitus gestacional. Além de os resultados apontarem para a elevada prevalência de hábitos não saudáveis na amostra estudada, evidenciou-se que tais comportamentos são mais frequentes em classes socioeconômicas desfavorecidas.
Os comportamentos não saudáveis evidenciados neste estudo, relacionados à elevada prevalência de dieta inadequada e de inatividade física e ao uso de álcool e tabaco, embora em menor frequência, podem causar complicações em gestantes com DMG, como doenças cardiovasculares e cerebrovasculares8. Barreiras para a adoção de comportamentos adequados em saúde nas gestantes com DMG são descritas na literatura internacional, como as responsabilidades com os filhos, limitações físicas, restrições de tempo, responsabilidades domésticas e situação laboral, tornando fundamental o papel da Enfermagem no estímulo à autoeficácia dessas mulheres 10,22. Nesse sentido, intervenções assertivas e contextualizadas durante a gravidez e no pós-parto, como o estabelecimento de metas, automonitoramento e entrevistas motivacionais, podem melhorar os níveis de glicemia, auxiliar na redução do peso e prevenir a ocorrência futura de DM2 23.
O consumo de frutas e verduras foi verificado, neste estudo, com maior frequência em classes socioeconômicas favoráveis, enquanto comportamentos não saudáveis, como o uso de álcool e tabaco, foram mais prevalentes em contextos de maior vulnerabilidade social. Estudos brasileiros anteriores com gestantes demonstraram resultados similares em relação ao hábito tabagista e ao consumo de álcool 16,24, embora os resultados não tenham sido descritos especificamente para gestantes com DMG. Observa-se uma escassez de estudos, tanto em âmbito nacional quanto internacional, que possibilitem a comparação direta dos resultados aqui apresentados. Contudo, considerando os achados desta pesquisa, ressalta-se que as estratégias voltadas à adoção de comportamentos saudáveis devem ser integradas e intersetoriais, sendo o papel das políticas públicas essencial para a redução das desigualdades no acesso aos serviços de saúde. A promoção da saúde deve ser compreendida como uma questão social e política, que abrange múltiplas dimensões da vida - como cultura, condições de trabalho e educação -, em modelos amplos que superem a visão restrita da saúde como resultado exclusivo de escolhas individuais 25.
Por outro lado, não foi observada, nesta pesquisa, associação independente entre as exposições estudadas e o consumo de alimentos ultraprocessados, podendo-se inferir que esse consumo ocorreu de forma homogênea entre os subgrupos populacionais. Entretanto, evidenciou-se elevado consumo desses alimentos de modo geral, em cerca de dois terços da amostra estudada. Essa elevada frequência também foi demonstrada em estudo brasileiro anterior, segundo o qual aproximadamente um quarto da energia total consumida por gestantes era proveniente de alimentos ultraprocessados. No mesmo estudo, observou-se que, após uma intervenção educativa voltada ao treinamento dos profissionais de saúde responsáveis pelo acompanhamento das gestantes, houve redução significativa do consumo de ultraprocessados, em comparação ao grupo controle 26. Ressalta-se a importância da educação permanente para profissionais da saúde em todos os níveis de atenção, a fim de intensificar as orientações às gestantes com comorbidades para a redução de complicações evitáveis, maternas e fetais. Além do incentivo à alimentação saudável, destaca-se a necessidade de programas governamentais abrangentes voltados à concessão de subsídios para a aquisição de alimentos in natura, bem como as políticas de taxação de produtos ultraprocessados e de regulação da publicidade desses alimentos.
Em relação à prática de atividade física, esse hábito mostrou-se mais frequente entre gestantes de maior renda. Evidências indicam que barreiras estruturais e sociais - como excesso de responsabilidades domésticas, dificuldade de acesso a transporte e carência de espaços adequados - limitam a adesão de mulheres aos exercícios físicos em contextos vulneráveis 27. Assim, políticas públicas voltadas à ampliação de áreas seguras e gratuitas para exercícios e à promoção de programas inclusivos durante a gestação podem contribuir para reduzir essas desigualdades27. Nesse sentido, o papel da Enfermagem na Atenção Primária à Saúde é essencial, considerando-se a importância da atuação no território, das orientações adequadas e de práticas contextualizadas, interprofissionais e centradas nas mulheres.
As evidências geradas nesta pesquisa alertam para a necessidade de um olhar atento das autoridades para a promoção da equidade em saúde, sobretudo diante do aumento da incidência do DMG nos últimos anos5, e suas consequências para a saúde materno-infantil 8. Reforça-se a importância da educação em saúde e do autocuidado apoiado como pilares para a promoção da saúde de gestantes com DMG, em intervenções individuais e coletivas de Enfermagem27. Investimentos na área de saúde digital e no acesso às tecnologias também são meios estratégicos para o cuidado em DMG e devem ser implementados, beneficiando tanto o monitoramento pela equipe multiprofissional quanto o autocuidado no domicílio28.
Como fortalezas deste estudo, destaca-se, além do rigor metodológico, seu caráter inovador, ao considerar diversos comportamentos, especificamente em gestantes com DMG, tanto hábitos saudáveis como fatores de risco, e ser realizado em um hospital de referência para o estado de Minas Gerais. Em relação às limitações desta pesquisa, destaca-se que o uso de dados autorrelatados pode ter introduzido viés de resposta, no que se refere à prática de atividade física, ao consumo alimentar e aos hábitos nocivos em saúde. É importante ressaltar, ainda, que a baixa prevalência do consumo de álcool e tabaco pode ter reduzido o poder estatístico das análises. Estudos brasileiros anteriores demonstraram prevalência de álcool e tabagismo em cerca de 10% 16 e 4% 24, respectivamente, das gestantes em geral. Devido à escassez de estudos sobre hábitos de vida em gestantes com DMG, a comparabilidade desses achados é limitada. Considerando o diagnóstico de comorbidade na população estudada, infere-se que esses hábitos sejam evitados com maior rigor. Além disso, o presente estudo representa um cenário local, e os resultados podem não refletir diferentes contextos brasileiros. Recomenda-se que pesquisas futuras adotem amostras representativas do território nacional, delineamentos longitudinais, capazes de acompanhar as mudanças nos hábitos saudáveis em gestantes, bem como a incorporação de métodos objetivos, como registros alimentares detalhados e dispositivos de monitoramento de atividade física, para avaliar a adesão às recomendações em saúde.
CONCLUSÃO
Os resultados deste estudo reforçam a potencial influência de fatores como baixa renda e baixa escolaridade, além da idade avançada, em comportamentos de risco à saúde em gestantes com DMG, evidenciando disparidades na adesão a hábitos saudáveis. A baixa prevalência do consumo adequado de frutas, verduras e da prática de atividades físicas, especialmente em pessoas de classes socioeconômicas desfavoráveis, sugere a necessidade de estratégias de intervenção voltadas à promoção da saúde e à redução das desigualdades no acesso à informação.
A formulação de políticas públicas inclusivas, que promovam a equidade no acesso a serviços de saúde e a oportunidades de melhoria no estilo de vida, é essencial para minimizar os impactos do DMG e melhorar os desfechos materno-fetais. Dessa forma, o presente estudo contribui para a compreensão dos desafios enfrentados por gestantes com DMG, apresentando resultados relevantes para a prática de Enfermagem, contextualizada às necessidades da população, e fornecendo subsídios para abordagens interdisciplinares que promovam uma atenção integral e equitativa à saúde materna no Brasil.
Agradecimentos
Apoio Fapemig
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