Open-access Competências contemporâneas dos profissionais de saúde pública: análise conceitual e revisão de escopo

RESUMO

Objetivo:  Mapear as competências contemporâneas dos profissionais de saúde pública e sintetizar como o conceito vem sendo descrito na literatura recente.

Método:  Estudo de análise conceitual segundo o método evolucionário de Rodgers, integrado a uma revisão de escopo conforme o Instituto Joanna Briggs. A revisão constituiu o corpus empírico da análise conceitual, possibilitando a identificação de usos, atributos e transformações do conceito. Foram incluídos estudos empíricos e teóricos publicados entre 2020 e 2025, identificados em oito fontes de dados selecionadas por sua abrangência, relevância e caráter multidisciplinar.

Resultados:  Emergiram cinco conjuntos de competências, sendo: analíticas e de tomada de decisão; comunicacionais e socioculturais; interpessoais e gerenciais; tecnológicas e digitais; e aquelas voltadas à prevenção, ao cuidado integral e à resposta a emergências. Observou-se estabilidade estrutural do construto “competência em saúde pública”, sustentada pela integração entre conhecimentos, habilidades e atitudes, associada à incorporação de elementos emergentes, como pensamento sistêmico, uso de tecnologias e práticas colaborativas.

Conclusão:  O estudo contribui para o refinamento conceitual das competências em saúde pública ao explicitar atributos essenciais, antecedentes e consequentes no contexto contemporâneo. Os achados oferecem subsídios para a formação baseada em competências, a avaliação profissional e o planejamento da força de trabalho em saúde.

Descritores:
Competência Profissional; Formação de Conceito; Planejamento em Saúde; Profissional de Saúde; Saúde Pública

ABSTRACT

Objective:   To map the contemporary competencies of public health professionals and synthesize how the concept has been described in recent literature.

Method:   A conceptual analysis study based on Rodgers’ evolutionary method, integrated with a scoping review according to the Joanna Briggs Institute. The review constituted the empirical corpus of the conceptual analysis, enabling the identification of uses, attributes, and transformations of the concept. Empirical and theoretical studies published between 2020 and 2025 were included, identified across eight databases selected for their scope, relevance, and multidisciplinary nature.

Results:   Five sets of competencies emerged: analytical and decision-making; communicational and sociocultural; interpersonal and managerial; technological and digital; and those related to prevention, comprehensive care, and emergency response. Structural stability of the construct “public health competence” was observed, sustained by the integration of knowledge, skills, and attitudes, along with the incorporation of emerging elements such as systems thinking, use of technologies, and collaborative practices.

Conclusion:   The study contributes to the conceptual refinement of public health competencies by clarifying essential attributes, antecedents, and consequences in the contemporary context. The findings provide support for competency-based education, professional evaluation, and health workforce planning.

Descriptors:
Concept Formation; Health Professional; Health Planning; Public Health; Professional Competence

RESUMEN

Objetivo:  Mapear las competencias contemporáneas de los profesionales de la salud pública y sintetizar cómo el concepto ha sido descrito en la literatura reciente.

Método:  Estudio de análisis conceptual basado en el método evolutivo de Rodgers, integrado a una revisión de alcance conforme al Instituto Joanna Briggs. La revisión constituyó el corpus empírico del análisis conceptual, lo que permitió identificar los usos, atributos y transformaciones del concepto. Se incluyeron estudios empíricos y teóricos publicados entre 2020 y 2025, identificados en ocho bases de datos seleccionadas por su alcance, relevancia y carácter multidisciplinario.

Resultados:  Surgieron cinco conjuntos de competencias: analíticas y de toma de decisiones; comunicacionales y socioculturales; interpersonales y de gestión; tecnológicas y digitales; y aquellas orientadas a la prevención, al cuidado integral y a la respuesta ante emergencias. Se observó estabilidad estructural del constructo “competencia en salud pública”, sustentada en la integración de conocimientos, habilidades y actitudes, asociada a la incorporación de elementos emergentes como el pensamiento sistémico, el uso de tecnologías y las prácticas colaborativas.

Conclusión:  El estudio contribuye al refinamiento conceptual de las competencias en salud pública al explicitar atributos esenciales, antecedentes y consecuentes en el contexto contemporáneo. Los hallazgos aportan insumos para la formación basada en competencias, la evaluación profesional y la planificación de la fuerza laboral en salud.

Descriptores:
Competencia Profesional; Formación de Concepto; Planificación y Administración en Salud; Habilitación Profesional; Administración Pública

INTRODUÇÃO

As rápidas transformações nos cenários sanitários globais, impulsionadas por emergências de saúde, mudanças climáticas, avanço nas tecnologias digitais, intensificação das desigualdades sociais e prioridades estabelecidas pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) têm ampliado de forma significativa as exigências impostas aos profissionais de saúde pública1. Nesse contexto, discutir competências tornou-se imprescindível para orientar práticas, fortalecer sistemas de saúde e garantir respostas articuladas, éticas e adaptativas às demandas contemporâneas1-2.

O termo competência em saúde pública tem sido historicamente entendido como o conjunto integrado de conhecimentos, habilidades e atitudes necessários ao desempenho profissional3. Contudo, no contexto pós-2020, autores e organismos internacionais têm reforçado a noção de competências contemporâneas em saúde pública, entendidas como capacidades ampliadas que incorporam dimensões emergentes, tais como o pensamento sistêmico, a ação intersetorial, a comunicação de riscos, a inteligência digital e atuação orientada pela equidade4-6. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), essas competências contemporâneas correspondem a “habilidades complexas que permitem aos profissionais interpretar cenários dinâmicos, responder a crises, utilizar tecnologias digitais, compreender determinantes sociais estruturais e atuar colaborativamente em sistemas de saúde em transformação”4,6. Assim, diferem das concepções tradicionais por enfatizarem a adaptabilidade, a colaboração, a justiça social e o uso estratégico de informação, elementos centrais da prática profissional em ambientes de crescente incerteza. Apesar desses avanços institucionais, observa-se que tais competências ainda são descritas de forma heterogênea na literatura, com variações conceituais, fragmentação analítica e limitada operacionalização no campo da formação e da prática profissional1,3.

Diante desse cenário de avanços institucionais e persistentes inconsistências conceituais, torna-se evidente a necessidade de revisitar o conceito de competências em saúde pública à luz das mudanças epidemiológicas, tecnológicas e sociopolíticas pós-2020. Embora existam avanços internacionais, como o Galway Consensus, o Marco Regional de Competências da OPAS e documentos globais recentes da OMS, persiste uma lacuna de atualização conceitual sobre quais competências são consideradas essenciais na atualidade. A literatura recente evidencia fragmentação das definições, indefinição quanto às competências emergentes (como digitais, climáticas e de comunicação de risco) e desafios na articulação entre formação e prática profissional1,3,7 e mesmo quando aparecem, essas dimensões são descritas de forma dispersa, pouco operacionalizável e, muitas vezes, desconectada das práticas profissionais. Somam-se a isso os desafios persistentes na articulação entre formação, prática e políticas de saúde, o que resulta em modelos de competência que não refletem plenamente as demandas contemporâneas dos sistemas de saúde.

Diante dessa lacuna conceitual, este estudo adota o método evolucionário de análise conceitual proposto por Rodgers, partindo-se do entendimento de que os conceitos são dinâmicos, contextuais e historicamente influenciados e devem ser analisados em termos de seus atributos essenciais, antecedentes e consequentes, bem como de seus usos e expressões em diferentes contextos8. Conforme destaca Rodgers, o desenvolvimento conceitual ocorre em um ciclo evolutivo sustentado por três dimensões centrais: (a) significância, que indica sua relevância atual; (b) uso, que compreende suas bases contextuais e suas características definidoras; e (c) aplicação, que revela como o conceito se manifesta em múltiplos cenários ao longo do tempo. Essas dimensões permitem clarificar a natureza evolutiva do fenômeno e identificar os elementos necessários para sua atualização conceitual, especialmente em campos marcados por rápidas transformações, como a saúde pública9.

Essa falta de convergência conceitual e operacional compromete o alinhamento entre os perfis profissionais esperados e as necessidades reais da população, o que dificulta o planejamento da força de trabalho, a atualização curricular e a formulação de políticas de saúde pública mais responsivas e baseadas em evidências8-9.

Diante disso, torna-se necessária uma revisão de escopo que permita mapear, de forma abrangente, de que modo as competências vêm sendo descritas na literatura recente, identificando tendências, lacunas e convergências. Combinada à análise conceitual de Rodgers, essa abordagem possibilita não apenas identificar “o que” é descrito como competência contemporânea, mas também compreender “como” o conceito tem evoluído, quais atributos o definem e quais antecedentes e consequentes orientam sua aplicação atual. A integração entre os dois métodos fortalece a robustez analítica do estudo e oferece uma visão atualizada e teoricamente sustentada das competências necessárias aos profissionais de saúde pública.

Pretende-se, assim, responder aos seguintes questões centrais de investigação: “Quais são as competências contemporâneas descritas para profissionais no campo da saúde pública?” e “Como o conceito de competências em saúde pública vem sendo compreendido e atualizado nos estudos recentes?” O objetivo primordial deste estudo é mapear as competências contemporâneas dos profissionais de saúde pública e sintetizar como o conceito vem sendo descrito, operacionalizado e atualizado na literatura recente.

MÉTODO

Utilizou-se o método evolucionário de análise conceitual proposto por Rodgers, atrelado a uma revisão de escopo. O autor concebe os conceitos como construções dinâmicas e em constante transformação. Essa abordagem mostra-se adequada para investigar temas como competências em saúde pública, que evoluem conforme mudanças epidemiológicas, tecnológicas e institucionais. O processo metodológico seguiu cinco etapas principais: identificação do conceito e do objetivo da análise; seleção das fontes; organização dos dados; identificação de atributos essenciais, antecedentes e consequentes; e construção de um caso modelo10. Diferentemente de uma revisão de literatura tradicional, o método de Rodgers busca compreender a evolução conceitual do termo no tempo e no contexto em que se desenvolve. Assim, esta análise considerou as mudanças recentes nas competências exigidas no campo da saúde pública, em diálogo com os desafios contemporâneos da prática profissional9,11.

Identificação do conceito de interesse e do objetivo da análise

O conceito central desta análise é a competência em saúde pública, considerando sua importância para a qualificação profissional e o fortalecimento dos sistemas de saúde. O objetivo é identificar e analisar como esse conceito vem sendo descrito na literatura recente, bem como seus atributos essenciais, antecedentes e consequentes10-11. A análise busca compreender as transformações do conceito nos últimos cinco anos, considerando desafios emergentes, como crises sanitárias, avanços tecnológicos e mudanças nas diretrizes internacionais de formação e atuação em saúde pública. Assim, esse estudo buscou mapear tendências na definição e aplicação das competências em saúde pública, podendo contribuir para referenciais teóricos e práticos mais alinhados às demandas contemporâneas10.

Seleção das fontes para coleta de dados

Para esta revisão, foi adotado o método de revisão de escopo, seguindo as recomendações do método Joanna Briggs Institute (JBI), conforme exposto no JBI Manual for Evidence Synthesis12. Baseou-se no Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR) para o relato da revisão10. Os dados completos extraídos, bem como todo o protocolo de revisão, foram registrados no Open Science Framework (OSF) e estão disponíveis no endereço: https://osf.io/35jvr/.

Critérios de elegibilidade para seleção e organização das informações

Foram incluídos estudos publicados entre março de 2020 e março de 2025, período que abrange tanto a emergência da pandemia de COVID-19 quanto a fase subsequente de reorganização dos sistemas de saúde. Foram elegíveis estudos empíricos, teóricos, revisões e documentos institucionais que descrevessem competências de profissionais no campo da saúde pública.

Foram excluídos: artigos opinativos, editoriais, cartas, resumos sem texto completo e estudos que tratassem de competências restritas a categorias profissionais isoladas, sem relação com o campo da saúde pública. A inclusão e exclusão da literatura cinzenta foram documentadas, priorizando diretrizes com definição explícita de competências.

Além do recorte temporal, foram considerados os tipos de documentos mais relevantes para a análise proposta, incluindo artigos originais, revisões sistemáticas, revisões de escopo, diretrizes e relatórios de organizações relevantes, abrangendo tanto estudos empíricos quanto teóricos que discutiram ou propuseram mudanças no conceito de competências para a saúde pública11. A seleção dos estudos seguiu um processo estruturado, iniciando-se pela triagem em pares dos títulos e resumos. Na etapa de leitura completa, foram excluídos artigos opinativos, editoriais, cartas ao editor e resumos de congressos sem texto completo disponíveis, bem como pesquisas que tratassem exclusivamente de competências específicas para categorias profissionais sem considerar o campo da saúde pública10.

Os critérios de elegibilidade seguiram a metodologia do JBI e foram organizados segundo o modelo PCC (População, Conceito e Contexto). A População corresponde aos profissionais de saúde atuantes em saúde pública; o Conceito refere-se às competências necessárias a esses profissionais; e o Contexto abrange a saúde pública em sentido amplo, considerando desafios contemporâneos. As perguntas norteadoras, apresentadas na introdução, foram formuladas com base nessa estrutura, orientando a seleção dos estudos e a integração entre a revisão de escopo e a análise conceitual10.

Fontes de informação

As buscas foram realizadas em oito fontes de dados consideradas centrais para a saúde pública e ciências da saúde: PubMed/MEDLINE, Web of Science, Scopus, LILACS, Embase, CINAHL, SciELO e Redalyc. Todas foram acessadas pelo Portal de Periódicos da CAPES, via rede CAFe. Os resultados foram exportados nos formatos RIS e CIW para a plataforma Rayyan (QCRI), o que possibilitou a remoção automática de duplicatas e a organização do processo de triagem. A última busca foi realizada em 18 de março de 2025.

Busca dos estudos

A estratégia de busca foi elaborada em fevereiro de 2025 pelo primeiro autor, com apoio de duas bibliotecárias da Universidade Federal do Paraná. Foram utilizados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), os Medical Subject Headings (MeSH) e, no caso do Embase, os descritores Emtree, combinados com os operadores booleanos AND e OR.

Para contemplar a literatura cinzenta, foram incluídos documentos institucionais, diretrizes e relatórios oficiais da OPAS e OMS, obtidos por busca manual em repositórios institucionais. Os documentos encontrados foram avaliados quanto à aderência ao modelo PCC; apenas aqueles que descreviam competências de forma explícita foram incluídos na amostra.

A estratégia principal de busca foi estruturada da seguinte forma: (“Profissionais de Saúde” OR termos correlatos) AND (“Competência Profissional”) AND (“Saúde Pública” OR “Política de Saúde” OR “Planejamento em Saúde” OR “Desafios Globais”), com versões equivalentes em inglês e espanhol. Essa estratégia também foi adaptada para o inglês e espanhol, conforme demonstrado no protocolo PRISMA-ScR, anexo ao registro da revisão na plataforma Open Science Framework (OSF).

Seleção de artigos e extração de dados

Antes da extração, realizou-se uma calibração entre revisores, com leitura cega e independente de 50 títulos e resumos. Em caso de discordância, um terceiro avaliador decidiu. O processo seguiu duas etapas: (1) triagem por título e resumo; (2) leitura completa.

A extração dos dados foi realizada por meio de tabela própria, adaptada do JBI, com os seguintes campos: autor, ano, país, tipo de estudo, definição de competência, fundamentos conceituais, e, quando presentes, atributos, antecedentes e consequentes. Os dados foram organizados de forma descritiva.

Identificação dos atributos, antecedentes, consequentes do conceito e confecção do caso modelo

Na análise conceitual das competências em saúde pública, foi utilizada uma estratégia sistemática para identificar seus atributos, antecedentes e consequentes, conforme o referencial de Rodgers. Os atributos representam as características centrais do conceito, os antecedentes são as condições que possibilitam sua manifestação e os consequentes refletem seus efeitos esperados. Nem todas as definições incluíram os três elementos, mas, quando presentes, foram organizados e descritos conforme os estudos analisados. A extração inicial foi feita por um pesquisador, com revisão por um segundo revisor e consenso, garantindo maior rigor metodológico10,11.

Após a extração, os trechos foram traduzidos livremente para o português e revisados pelos autores. Com base nos elementos identificados, foi elaborado um caso modelo fictício, integrando antecedentes, atributos e consequentes, conforme orienta o método de Rodgers, e refinado com a colaboração da equipe de pesquisa10,11.

Integração entre a revisão de escopo e o método de Rodgers

A revisão de escopo reuniu evidências empíricas e teóricas sobre competências em saúde pública, constituindo o corpus analítico utilizado na etapa da análise conceitual. Com base nos textos completos, foram identificados trechos que descreviam competências, finalidades, usos, impactos e transformações do conceito.

Esses extratos, obtidos diretamente da revisão de escopo, foram submetidos ao método evolucionário de Rodgers, o que permitiu identificar: atributos essenciais; antecedentes do conceito; consequentes associados; e usos contemporâneos do termo. Essa integração metodológica pode contribuir para que a análise conceitual não se baseie em interpretações teóricas isoladas, mas em uma síntese ampla da literatura recente, derivada da revisão de escopo.. A partir desses elementos, elaborou-se um caso modelo ilustrativo, conforme orientações de Rodgers.

RESULTADOS

O processo de identificação, seleção e inclusão dos artigos foi documentado por meio do fluxograma PRISMA-ScR12, conforme ilustrado na Figura 1, a seguir. Inicialmente, a busca nas fontes de dados resultou em 546 registros. Após a remoção de duplicatas (48), seguiram-se as etapas de triagem por título e resumo (498) e, posteriormente, a leitura completa dos textos elegíveis (138). Ao final do processo, 27 artigos foram incluídos na revisão.

Figura 1 -
Fluxo do processo de seleção dos estudos para a revisão de escopo baseado no Preferred Reporting Items Systematic Review and Meta-Analyses Extension for Scorping Reviews (PRISMA-ScR) - Curitiba, PR, Brasil, 2025

Em seguida, o Quadro 1 apresenta a descrição dos 27 estudos que compõem a amostra final, considerando o país, ano, objetivos, abordagem metodológica e competências em saúde pública. Os artigos exploram diversas competências relacionadas à atuação em saúde pública dos últimos 5 anos.

Quadro 1 -
Caracterização dos registros incluídos. Curitiba, PR, Brasil, 2025

Os estudos listados no Quadro 1 apresentam ampla diversidade geográfica, abrangendo diferentes continentes. Predominam pesquisas oriundas da Europa15-16,26,31,34,39, dos Estados Unidos13,17,24-25 e do Canadá19,33,38, o que sugere um interesse significativo na temática em países do Norte Global, embora haja contribuições relevantes de regiões do Sul Global, como Brasil20,22, Índia23,27, Etiópia28 e África do Sul30, o que evidencia a crescente valorização do estudo de competências em saúde pública a partir de contextos diversos. Destaca-se ainda a presença de estudo do Fiji18 (país localizado no Pacífico Sul) e Norte da África36, ressaltando a importância da capacitação profissional para o fortalecimento dos sistemas de saúde. Em relação às abordagens metodológicas, observa-se uma combinação de estudos quantitativos e qualitativos, e de revisões de escopo, refletindo a complexidade do tema.

Síntese do conceito de competência em saúde pública

Conforme exposto, esta pesquisa emprega a análise conceitual evolucionária de Rodgers para explorar as compreensões conceituais de competências em saúde pública, descritas na literatura recente. A seguir, o Quadro 2 sintetiza essas características, por meio de uma abordagem que permite identificar as nuances e os componentes essenciais das competências para a área, revelando tanto consensos quanto divergências significativas entre os autores analisados.

Quadro 2 -
Conceitos de competência em saúde pública e seus atributos, antecedentes e consequentes. Curitiba, PR, Brasil, 2025

O Quadro 2 evidencia que, embora haja um entendimento comum de que as competências em saúde pública envolvem um conjunto integrado de conhecimentos, habilidades e atitudes, as especificações e as orientações variam consideravelmente entre diferentes contextos e necessidades de saúde pública. Dez estudos20-21,25,28-30,33,38-39 apenas listaram competências contemporâneas em saúde pública, sem apresentar base conceitual para o termo; assim, não foram considerados nesta análise conceitual.

Caso modelo

O caso modelo apresentado a seguir foi desenvolvido por dois doutorandos na área de gestão em saúde pública, que também atuaram na etapa de coleta de dados deste estudo. Posteriormente, o modelo foi avaliado pelos demais autores, todos doutores na área de saúde pública, o que garantiu alinhamento à definição conceitual adotada nas etapas da pesquisa, bem como aos atributos, antecedentes e consequentes descritos no Quadro 2.

Silvana é enfermeira sanitarista e atua como coordenadora da vigilância em saúde em seu município. Após um deslizamento de terra provocado por chuvas intensas, diversas comunidades vulneráveis foram atingidas, o que resultou no desalojamento de famílias e na interrupção parcial dos serviços de saúde. Diante desse cenário, Silvana mobiliza competências baseadas na integração de conhecimentos, habilidades e atitudes, voltadas à gestão de crises e à promoção da equidade. Com base em seu repertório técnico-científico e na capacidade de análise contextual, ela lidera sua equipe no mapeamento das principais necessidades da população afetada, utilizando plataformas digitais de monitoramento epidemiológico e ambiental. Demonstra pensamento sistêmico e estratégico ao articular a resposta emergencial com diversos atores institucionais, como equipes de resposta rápida, gestores municipais, organizações não governamentais (ONGs) e a Defesa Civil. Além disso, Silvana ativa protocolos de vigilância para prevenção de surtos e coordena o abastecimento de insumos essenciais, ao mesmo tempo em que utiliza tecnologias digitais para disseminar informações em tempo real, orientando a população sobre riscos sanitários e pontos de atendimento. Sua comunicação interprofissional e capacidade de liderança fortalecem a governança local, enquanto sua sensibilidade social garante atenção prioritária a grupos em maior vulnerabilidade, como idosos, crianças e pessoas com deficiência. Como consequência, suas ações resultam em maior efetividade da resposta sanitária, na otimização do atendimento e no fortalecimento da equidade no acesso aos serviços de saúde.

O caso de Silvana exemplifica o exercício de competências em saúde pública em contextos de alta complexidade, evidenciando atributos listados no Quadro 2, tais como liderança, pensamento estratégico, tomada de decisão, articulação intersetorial e uso ético de tecnologias, conforme os marcos conceituais analisados neste estudo.

DISCUSSÃO

A revisão de escopo identificou 27 publicações relevantes, das quais emergiram 24 competências consideradas essenciais pelos estudos para o exercício profissional em saúde pública contemporânea. Conforme apresentado no Quadro 1, algumas competências listadas já são amplamente reconhecidas na prática profissional, como liderança, comunicação eficaz, pensamento crítico e gestão orçamentária. Entretanto, o estudo também evidenciou competências relativamente novas e ainda pouco discutidas no campo científico da saúde, como a competência midiática, que envolve o letramento digital e a capacidade de atuar criticamente adiante da desinformação, e a competência climática, que diz respeito à preparação, resposta e recuperação frente a eventos ambientais extremos. A presença dessas competências indica uma ampliação do escopo de atuação dos profissionais de saúde pública, exigindo processos formativos mais atualizados e sensíveis às transformações globais.

Para facilitar a compreensão e organizar a discussão dos dados deste estudo de forma didática, as competências foram agrupadas em cinco eixos centrais, que refletem áreas estratégicas para o desenvolvimento profissional na saúde pública: competências cognitivas e analíticas; comunicacionais e socioculturais; relacionais e gerenciais; tecnológicas e digitais; e competências voltadas à saúde integral e à resposta a crises. Na sequência é discutida a análise conceitual desta pesquisa.

Competências cognitivas e analíticas

Este eixo reúne competências relativas à capacidade de análise crítica, raciocínio lógico e uso sistemático das evidências científicas na tomada de decisão em saúde pública. Tais competências são essenciais para a formulação, implementação e avaliação de políticas, programas e intervenções capazes de responder de maneira eficaz aos desafios complexos do setor. Entre elas, destacam-se a tomada de decisão baseada em dados13,34, o pensamento sistêmico e crítico18,24, a resolução de problemas, a competência em pesquisa19,24 e o domínio de conhecimentos em genômica31, que refletem a necessidade de profissionais aptos a interpretar informações técnicas e transformar conhecimento em ação qualificada.

A análise crítica de dados tem sido destacada como uma competência emergente e essencial para os trabalhadores da saúde pública. Essa habilidade ultrapassa a dimensão técnica, exigindo dos profissionais a capacidade de interpretar informações à luz de seus contextos sociais, políticos e culturais. Uma das iniciativas que evidenciam essa demanda é o Projeto InformAÇÃO, desenvolvido para promover o letramento crítico de dados entre profissionais da saúde e da gestão. O projeto reforça que, em uma realidade cada vez mais orientada por dados, é imprescindível saber questionar fontes, identificar vieses e comunicar achados de forma ética e acessível40. Esse achado amplia a compreensão da competência analítica como atributo essencial do conceito, ao evidenciar que o uso crítico de dados constitui dimensão estruturante, e não apenas instrumental, da atuação em saúde pública.

Ao incorporar essa competência, os trabalhadores fortalecem sua atuação técnica e política, contribuindo para decisões mais embasadas, sensíveis às desigualdades e orientadas à justiça social. Dessa forma, o letramento crítico de dados amplia as competências cognitivas e analíticas, qualificando a prática profissional no enfrentamento dos desafios contemporâneos da saúde coletiva13,18,34. Dessa forma, este eixo contribui para a compreensão da competência em saúde pública ao explicitar a capacidade analítica e a tomada de decisão baseada em evidências como atributos essenciais do conceito no contexto contemporâneo.

Competências comunicacionais e socioculturais

As competências comunicacionais e socioculturais emergem como componentes centrais da atuação profissional em saúde pública contemporânea, especialmente em contextos marcados pela complexidade informacional, pela circulação de desinformação e pela necessidade de diálogo qualificado com diferentes grupos sociais. Nesse eixo, a comunicação deixa de ser compreendida apenas como habilidade instrumental e passa a ser entendida como dimensão estruturante da prática profissional, vinculada à mediação de sentidos, à negociação de riscos e à construção de vínculos entre serviços de saúde, gestores e comunidades13,14.

Incluem-se neste conjunto a comunicação eficaz13,24, a competência midiática14 e a competência cultural para o atendimento respeitoso e sensível às diferenças, como no cuidado à população LGBTQIAPN+20,24. Também emergem a promoção da diversidade e a competência em alfabetização jurídica em saúde25,37, o que indica que comunicar-se no campo da saúde envolve compreender direitos, normas e o impacto da linguagem na produção de cidadania. Essas competências configuram atributos essenciais do conceito, pois estruturam a capacidade de mediação simbólica, comunicação de riscos e produção de confiança social.

A valorização crescente dessas competências alinha-se a um movimento internacional por práticas mais inclusivas e centradas na pessoa. Se antes esses elementos eram frequentemente secundarizados na formação profissional, hoje evidencia-se a necessidade de preparar trabalhadores para interações que reconheçam vulnerabilidades sociais e atuem com responsabilidade cultural23. Além disso, o engajamento ativo dos profissionais no território é essencial para a construção de relações de confiança e o desenvolvimento de estratégias de cuidado que respeitem particularidades socioculturais.

Apesar dos avanços, persiste uma distância significativa entre diretrizes e a prática cotidiana. A incorporação dessas competências nos currículos e nas rotinas institucionais ainda enfrenta resistências, lacunas pedagógicas e fragilidades estruturais, reforçando a urgência de políticas robustas de educação permanente, institucionalização da diversidade e mecanismos de accountability capazes de sustentar mudanças duradouras18,20. Assim, este eixo amplia a compreensão da competência em saúde pública ao evidenciar as competências comunicacionais e socioculturais como atributos essenciais do conceito, fundamentais para a mediação de riscos, a produção de confiança e a atuação orientada pela equidade.

Competências relacionais e gerenciais

As competências relacionais e gerenciais ocupam lugar estratégico na atuação dos profissionais de saúde pública, sobretudo em contextos que demandam coordenação de equipes, articulação intersetorial e tomada de decisão em ambientes organizacionais complexos. Diferentemente de abordagens centradas exclusivamente em habilidades técnicas, este eixo destaca dimensões que se manifestam na condução de processos coletivos, na mediação de interesses institucionais e na organização do trabalho em saúde. Nesse conjunto, destacam-se a liderança de equipe17, a colaboração e a autoconsciência profissional19,24, a gestão orçamentária13,24, a gestão de programas de saúde pública27, a competência política24 e a competência pedagógica para a docência e a formação em saúde pública35. Mais do que funções instrumentais, essas competências posicionam o profissional como agente ativo na mediação institucional, na governança colaborativa e na promoção de ambientes de aprendizagem e participação.

A literatura analisada evidencia que competências como liderança, trabalho em equipe, negociação e gestão de recursos não se configuram apenas como requisitos operacionais, mas como desdobramentos observáveis da competência em saúde pública em ação. Nesse sentido, a liderança emerge associada à capacidade de mobilizar pessoas, coordenar respostas coletivas e sustentar processos decisórios compartilhados, enquanto a articulação interprofissional e intersetorial revela-se central para a governança de sistemas de saúde marcados por múltiplos atores e níveis de decisão19,27.

Além disso, a incorporação de modelos de governança adaptativa representa caminhos promissores, sua implementação enfrenta obstáculos persistentes, como resistência institucional, fragmentação de políticas, insuficiências estruturais e deficiências históricas na formação gerencial. Esses desafios revelam que o desenvolvimento das competências relacionais e gerenciais extrapola o nível individual e exige transformações organizacionais, revisões curriculares e investimentos contínuos em processos de educação permanente capazes de articular teoria, prática e os contextos sociopolíticos em que os trabalhadores atuam1,5. Dessa forma, este eixo explicita a liderança, a articulação interprofissional e a gestão colaborativa como consequentes centrais do conceito de competência em saúde pública, especialmente em contextos organizacionais complexos.

Competências tecnológicas e digitais

As competências tecnológicas e digitais assumem papel crescente na atuação dos profissionais de saúde pública, acompanhando a intensificação dos processos de digitalização dos sistemas de saúde, a ampliação do uso de plataformas informacionais e a incorporação de tecnologias avançadas nos processos de vigilância, gestão e tomada de decisão16,28,29,38. A literatura recente destaca a necessidade de domínio de ferramentas digitais para monitoramento epidemiológico, análise de dados e comunicação em saúde, bem como para a organização e integração de sistemas de informação28,38.

Essa ampliação da competência digital implica reconhecer que as tecnologias não são neutras: elas podem reduzir ou ampliar as desigualdades, dependendo de como são implementadas. Nesse sentido, a incorporação de Inteligência Artificial (IA) ao monitoramento epidemiológico e à formulação de políticas públicas exige profissionais capazes de interpretar algoritmos, questionar vieses, avaliar impactos éticos e comunicar riscos e benefícios de forma transparente. A integração dessas capacidades ao repertório profissional qualifica a atuação em saúde pública ao fortalecer a tomada de decisões baseadas em evidências e promover acesso equitativo aos serviços16.

Nesse cenário, o estudo conduzido na Coreia do Sul acrescenta uma dimensão relevante ao destacar a competência midiática como componente complementar às competências digitais14. Os autores a definem como a habilidade de interagir criticamente com os meios de comunicação para promover a saúde, combater a desinformação e ampliar o impacto das ações públicas. Estudos recentes reforçam essa compreensão, articulando a competência midiática ao letramento digital e evidenciando que tais capacidades são essenciais para enfrentar a circulação em massa de informações falsas, a polarização discursiva e a necessidade de uma comunicação pública ética e inclusiva.

A partir dessa perspectiva, a competência digital se configura como atributo emergente do conceito, ao demandar a articulação entre julgamento técnico, avaliação ética e tomada de decisão em contextos complexos e informatizados41-42. Adicionalmente, a literatura aponta a competência midiática como dimensão complementar às competências digitais, especialmente diante da circulação massiva de informações e da desinformação em saúde. A habilidade de comunicar riscos, traduzir informações técnicas e interagir criticamente com os meios digitais fortalece a relação entre profissionais de saúde pública, gestores e sociedade, ampliando a efetividade das ações e a confiança institucional.

Assim, este eixo contribui para o refinamento do conceito ao caracterizar as competências tecnológicas e digitais como atributos emergentes da competência em saúde pública, integrando dimensões técnicas, éticas e decisórias.

Competências em saúde integral e resposta a crises

As competências em saúde integral e resposta a crises ganham centralidade na atuação dos profissionais de saúde pública diante do aumento da frequência e da intensidade de emergências sanitárias, desastres ambientais e eventos climáticos extremos. Nesse eixo, o foco desloca-se para a capacidade de atuação em cenários de instabilidade, nos quais decisões rápidas, coordenação intersetorial e adaptação a contextos imprevisíveis tornam-se elementos centrais da prática profissional. Incluem-se aqui: a competência em saúde mental21,39, a intervenção para autismo23, o rastreamento e manejo de doenças crônicas31, o controle de doenças infecciosas32,36, a gestão de desastres e incidentes com múltiplas vítimas26,33, o enfrentamento da violência contra a mulher15,22 e a competência em sustentabilidade18. De forma integrada, essas competências reforçam a urgência de uma formação que, ao mesmo tempo, seja tecnicamente qualificada e sensível às desigualdades estruturais que moldam a distribuição dos riscos e das necessidades de saúde.

A literatura analisada evidencia que competências relacionadas à preparação, resposta e recuperação frente a crises sanitárias e ambientais extrapolam o domínio clínico e demandam capacidades ampliadas de vigilância, gestão de riscos, planejamento antecipatório e mobilização de recursos. Incluem-se nesse conjunto a atuação em desastres, o manejo de incidentes com múltiplas vítimas, a resposta a surtos e pandemias, bem como a incorporação da dimensão climática como determinante estruturante da saúde pública contemporânea21-22.

Observa-se, entretanto, que as competências relacionadas ao cuidado em saúde integral, particularmente no manejo do autismo e na resposta à violência contra a mulher, ainda carecem de maior aprofundamento conceitual e programático. Ambas as áreas demandam intervenções contínuas, interdisciplinares e situadas, que ultrapassem o modelo tradicional de resposta imediata às crises. No caso do autismo, a competência profissional envolve não apenas técnicas de intervenção, mas também a capacidade de promover ambientes inclusivos, enfrentar estigmas sociais e articular cuidados coordenados ao longo do curso de vida. Já a violência contra a mulher requer sensibilidade ética, formação crítica e atuação em rede, o que implica reconhecer as dimensões estruturais de gênero, raça e classe que condicionam a experiência da violência e a busca por apoio15,22-23.

Além disso, a análise das competências evidencia que os desafios contemporâneos transcendem o campo clínico e abrangem questões emergentes como mudanças climáticas, injustiças ambientais e eventos climáticos extremos. A emergência climática reconfigura o campo da saúde pública ao introduzir riscos multifatoriais e distribuídos de maneira desigual, exigindo profissionais capazes de interpretar a crise socioambiental como um determinante da saúde. Nesse cenário, tecnologias digitais, ferramentas preditivas e inovações sociais tornam-se parte do repertório de competências necessárias para antecipar cenários, fortalecer a vigilância e apoiar respostas rápidas e coordenadas às crises sanitárias e ambientais.

As competências em gestão de desastres, de incidentes com múltiplas vítimas e de preparação, resposta e recuperação diante de eventos climáticos reforçam a importância de profissionais aptos a atuar em contextos de alta complexidade. Tais competências não se limitam ao uso de tecnologias, mas incluem a capacidade de articular ações intersetoriais, mobilizar comunidades, mitigar riscos e integrar justiça ambiental à resposta em saúde26-33. A incorporação desse componente evidencia que a formação em saúde pública deve reconhecer a crise climática como um eixo estruturante da prática contemporânea.

Ao serem analisadas sob a perspectiva conceitual, as competências de resposta a crises e de enfrentamento de eventos climáticos revelam-se associadas à capacidade de antecipar cenários, articular respostas intersetoriais e integrar ações de saúde, proteção social e defesa civil. Essa dimensão evidencia que a competência em saúde pública contemporânea incorpora, de forma crescente, a preparação para emergências e a resiliência institucional como componentes estruturantes da prática. Dessa forma, este eixo evidencia a capacidade de resposta a crises, a atuação em contextos de vulnerabilidade e a sustentabilidade como atributos emergentes do conceito de competência em saúde pública.

Análise conceitual

A análise conceitual evidenciou que a maioria dos estudos ainda adota uma compreensão tradicional de competência em saúde pública, centrada na articulação entre conhecimentos, habilidades e atitudes. Contudo, algumas formulações mais recentes incorporam elementos como atuação contextualizada, equidade, uso de tecnologias e resposta a crises. Destacam-se estudos que introduzem dimensões como sensibilidade cultural, liderança em emergências sanitárias e autogerenciamento em saúde, ampliando o escopo conceitual das competências em saúde pública23,32,37. A pandemia de COVID-19 representou um marco na valorização de novos atributos, como resiliência, pensamento sistêmico, inovação e articulação intersetorial. Houve também maior ênfase na integração de tecnologias digitais e na tomada de decisões baseadas em evidências. Essa evolução aponta para uma abordagem mais abrangente da competência em saúde pública, que se concretiza, por exemplo, no caso modelo analisado, no qual a atuação da enfermeira sanitarista diante de um desastre climático demonstra a aplicação de competências técnicas, gerenciais e colaborativas em um cenário de alta complexidade.

Estudos externos à amostra43,44 reforçam a necessidade de ampliar o conceito de competência em saúde pública para além dos aspectos técnico-instrumentais, incorporando dimensões como humildade cultural, competência estrutural e pensamento complexo. Essas contribuições evidenciam que o desenvolvimento de competências deve incluir habilidades críticas para lidar com contextos multiculturais, desigualdades estruturais e cenários emergentes em saúde. Além disso, apontam para a importância da formação profissional alinhada aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e aos princípios da justiça social e da governança em saúde pública. Assim, reforça-se que o conceito de competência em saúde pública vem se expandindo em direção a uma abordagem mais crítica e contextualizada, sensível às transformações sociotécnicas e às iniquidades persistentes nos sistemas de saúde.

CONCLUSÃO

Este estudo propõe uma atualização conceitual do termo “competências em saúde pública”, sugerindo que, embora o constructo mantenha sua estrutura tradicional baseada na integração de conhecimentos, habilidades e atitudes, seu significado tem passado por transformações relevantes no período recente. As competências contemporâneas descritas na literatura apontam para um deslocamento progressivo em direção a dimensões anteriormente menos enfatizadas, como pensamento sistêmico, comunicação intercultural, governança colaborativa, competências digitais e climáticas, as quais passam a assumir papel mais central na atuação profissional em cenários complexos e interdependentes.

A principal contribuição deste trabalho consiste em problematizar os limites dos referenciais vigentes, os quais podem não abarcar plenamente as exigências atuais da saúde pública. A análise indica que os sistemas formativos e de gestão do trabalho ainda tendem a operar a partir de modelos predominantemente técnico-operacionais, ao passo que o contexto contemporâneo demanda profissionais capazes de interpretar desigualdades estruturais, utilizar tecnologias de forma crítica, responder a riscos multifatoriais e atuar de maneira integrada em crises sanitárias, ambientais e sociais.

Do ponto de vista das implicações, os achados podem subsidiar instituições de ensino, gestores e organismos internacionais na revisão e atualização de marcos de competências, favorecendo o alinhamento de currículos, processos de educação permanente, planejamento da força de trabalho e políticas públicas orientadas à equidade, à sustentabilidade e à preparação para emergências. Ao sintetizar atributos, antecedentes e consequentes do conceito na literatura recente, este estudo oferece elementos teóricos e aplicados que podem contribuir para futuras revisões de referenciais regionais e globais, apoiando o fortalecimento da saúde pública e a construção de sistemas mais resilientes e responsivos.

Agradecimentos

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    11 Jun 2025
  • Aceito
    23 Jan 2026
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