Open-access Repercussões do Estigma Internalizado no Autocuidado de Pessoas em Situação de Rua

RESUMO

Objetivo:   analisar a ocorrência do estigma internalizado em pessoas em situação de rua e sua relação com as práticas de autocuidado.

Método:  estudo descritivo e exploratório, com abordagem qualitativa, realizado por meio de entrevistas semiestruturadas. A pesquisa foi conduzida entre os meses de julho e outubro de 2023 nos Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua no município do Recife, Pernambuco. A análise dos dados foi auxiliada pelo software MAXQDA® e orientada pelo referencial metodológico da análise de conteúdo temática proposta por Bardin.

Resultados:  participaram 22 usuários, com idade média de 34,5 anos. A maioria era do sexo masculino e vivia em situação de rua há mais de três anos. A análise dos relatos resultou em três categorias temáticas: (1) Sentimento do indivíduo em relação à sua condição de vida nas ruas; (2) Percepção de como são vistas pela sociedade; (3) Percepção da própria pessoa em situação de rua sobre os que vivem nas mesmas condições.

Considerações finais:  o estigma internalizado compromete a autoimagem e o autocuidado da população em situação de rua, aprofundando a exclusão social. Evidencia-se a necessidade de revisar criticamente práticas intersetoriais já existentes, promovendo intervenções mais sensíveis aos efeitos subjetivos do estigma.

Descritores:
Pessoas em Situação de Rua; Estigma Social; Autocuidado

ABSTRACT

Objective:  to analyze the occurrence of internalized stigma among homeless people and its relationship with self-care practices.

Method:  this is a descriptive and exploratory study, with a qualitative approach, carried out through semi-structured interviews. The research was conducted, between July and October 2023, at the Specialized Reference Centers for the Homeless Population in the city of Recife, Pernambuco. Data analysis was supported by the MAXQDA® software and guided by the methodological framework of thematic content analysis proposed by Bardin.

Results:  a total of twenty-two users participated, with a mean age of 34.5 years. The majority were male and had been living on the streets for more than three years. The analysis of reports resulted in three thematic categories: (1) Individuals’ feelings about their living conditions on the streets; (2) Perception of how society views them; (3) Perception of the homeless individual about others living in the same conditions.

Final considerations:  internalized stigma compromises the homeless population’s self-image and self-care, deepening social exclusion. There is a need to critically review existing intersectoral practices, promoting interventions that are more sensitive to the subjective effects of stigma.

Descriptors:
Homeless People; Social Stigma; Self Care

RESUMEN

Objetivo:  analizar la incidencia del estigma internalizado en personas en situación de calle y su relación con las prácticas de autocuidado.

Método:  estudio descriptivo y exploratorio, con enfoque cualitativo, realizado mediante entrevistas semiestructuradas. La investigación se llevó a cabo, entre julio y octubre de 2023, en los Centros de Referencia Especializados para la Población en Situación de Calle de la ciudad de Recife, Pernambuco. El análisis de datos se realizó con el software MAXQDA® y se guió por el marco metodológico de análisis de contenido temático propuesto por Bardin.

Resultados:   participaron 22 usuarios, con una edad promedio de 34,5 años. La mayoría eran hombres y llevaban más de tres años viviendo en la calle. El análisis de los relatos arrojó tres categorías temáticas: (1) Sentimientos de la persona respecto a sus condiciones de vida en la calle; (2) Percepción de cómo la sociedad la percibe; (3) Percepción de la propia persona en situación de calle sobre quienes viven en las mismas condiciones.

Consideraciones finales:  el estigma internalizado compromete la autoimagen y el autocuidado de la población sin hogar, profundizando la exclusión social. Es necesario revisar críticamente las prácticas intersectoriales existentes, promoviendo intervenciones más sensibles a los efectos subjetivos del estigma.

Descriptores:
Personas sin Hogar; Estigma Social; Cuidados Personales

INTRODUÇÃO

A população em situação de rua (PSR) é formada por um grupo populacional heterogêneo que compartilha características em comum, tais como pobreza extrema, laços familiares interrompidos ou fragilizados, e inexistência de moradia convencional regular. Portanto, utilizam comumente espaços públicos e áreas degradadas para moradia, de forma temporária ou permanente, procurando unidades de atendimento para pernoite temporária ou moradia efêmera1.

O aumento da PSR no Brasil, que ultrapassou 281 mil pessoas em 2023, evidencia uma crise social agravada pelo desemprego, pela insegurança alimentar e pelo desmonte de políticas públicas. Em cidades como Recife, em Pernambuco, onde mais de 1.800 pessoas vivem nessa condição, os desafios se intensificam nos centros urbanos, marcados pelo acesso precário a serviços essenciais2.

Nesse contexto, observa-se que a PSR está exposta a múltiplas vulnerabilidades cotidianas, que incluem desde exposição às variações climáticas, falta de abrigo e privacidade até formas recorrentes de discriminação, rejeição social e violência simbólica, inclusive nos serviços públicos. Essas condições geram sentimentos de medo e insegurança, mantendo os indivíduos em estado constante de alerta, além de os sujeitar à disputa por espaços e recursos básicos para sobrevivência.

A Política Nacional para a População em Situação de Rua (PNPSR), instituída pelo Decreto nº 7.053, de 23 de dezembro de 2009, representa um marco na efetivação dos direitos constitucionais para esse segmento da população, visto que estabelece diretrizes e objetivos específicos que visam assegurar o acesso amplo, simplificado e seguro aos serviços e programas das políticas públicas, incluindo saúde, educação, previdência, assistência social, moradia, segurança, entre outros3.

Apesar dos avanços impulsionados pela PNPSR, evidenciam-se persistentes barreiras que impedem o pleno acesso da PSR a direitos fundamentais, como moradia, saúde, segurança e dignidade4. Esse cenário torna essa população vulnerável a processos sistemáticos de exclusão e desrespeito, decorrentes da invisibilização social no cotidiano, das dificuldades na inserção ao mercado de trabalho formal e da forte carga de estigma2-4.

A origem do estigma remonta à Grécia antiga, onde era comum marcar os corpos de escravos, prisioneiros e criminosos como sinais públicos de degradação social, indicando que essas pessoas deveriam ser evitadas pela sociedade. Com o tempo, essa marca deixou de ser apenas física, passando a assumir um significado simbólico ligado a atributos socialmente desvalorizados5. Estudo de revisão sistemática evidenciou como o estigma está presente em políticas públicas e na sociedade em geral, afetando a qualidade de vida e o acesso aos serviços de saúde6.

O estigma internalizado é um processo pelo qual o indivíduo, ao tomar consciência dos estereótipos negativos associados à sua condição, passa a concordar com eles, incorporando essas crenças desfavoráveis em sua autoimagem e reproduzindo-as em seu comportamento7. Estudos recentes sobre a temática evidenciam que o estigma internalizado enfrentado pela PSR afeta a autoestima, a saúde mental e o acesso a serviços essenciais8-9. Além disso, a internalização do estigma pode levar ao isolamento social e à perda de motivação para buscar cuidados, comprometendo práticas básicas de autocuidado, como higiene pessoal, alimentação adequada e adesão a tratamentos de saúde, perpetuando o ciclo de vulnerabilidade e exclusão.

O autocuidado refere-se à capacidade dos indivíduos de promover e manter sua própria saúde, prevenindo doenças e lidando com enfermidades, com ou sem o apoio de profissionais de saúde. Essa prática é fundamental para a preservação da saúde e da qualidade de vida, especialmente em contextos adversos, como a vivência nas ruas, onde os requisitos universais de autocuidado são limitados, tais como acesso a serviços de saúde e condições básicas de higiene. Em tais circunstâncias, demandas de autocuidado se tornam estratégias essenciais para sobrevivência e bem-estar10.

O estigma internalizado representa uma dimensão subjetiva da exclusão social que afeta profundamente a forma como a PSR percebe a si mesma e sua relação com o mundo5,8. Analisar sua ocorrência nesse grupo é fundamental para compreender como discursos e práticas sociais discriminatórias são absorvidos pelos próprios indivíduos, gerando impactos significativos na autoestima, no sentimento de pertencimento e na busca por direitos. Ao iluminar esse processo, este estudo contribui para o debate sobre os efeitos psicossociais da marginalização urbana, oferecendo subsídios para políticas públicas e práticas profissionais mais sensíveis à realidade vivida por essa população.

Diante disso, esta pesquisa tem como objetivo analisar a manifestação do estigma internalizado na PSR e compreender sua relação com o autocuidado, visando contribuir para a construção de abordagens mais humanizadas e efetivas no cuidado a essa população.

MÉTODO

Delineamento, instrumentos e procedimentos de coleta de dados

Estudo de abordagem qualitativa, de caráter descritivo e exploratório. Para a estruturação do estudo, foram seguidas as recomendações do COnsolidated criteria for REporting Qualitative research. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista semiestruturada, contemplando informações sociodemográficas, dados pessoais e de saúde dos participantes, seguida pela aplicação de questões norteadoras adaptadas da escala Internalized Stigma of Mental Illness (ISMI), validada no Brasil. Trata-se de escala desenvolvida e validada com o objetivo de avaliar o estigma internalizado percebido pelo indivíduo11.

Reconhecendo que o presente estudo adota uma abordagem qualitativa, a escala não foi utilizada como instrumento de aferição numérica, mas como referencial para a construção das perguntas. Foram selecionados três itens conceitualmente pertinentes ao contexto da PSR, os quais foram parafraseados e recontextualizados: “Como você se sente por estar em situação de rua?”, “Como você acha que as pessoas veem você?” e “Como você percebe as pessoas que também vivem nas ruas?”. Essa adaptação permitiu explorar dimensões subjetivas do estigma internalizado em consonância com a proposta metodológica do estudo.

Para garantir o anonimato dos participantes, foi adotada a codificação “E”, referente à palavra “entrevistado”, seguida de um número sequencial correspondente à ordem de participação dos usuários.

O estudo foi realizado em dois Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centros POP), localizados na cidade do Recife, estado de Pernambuco. Os Centros POP configuram-se como espaços de acolhimento destinados às pessoas em situação de vulnerabilidade social que utilizam as ruas como locais de moradia e/ou sobrevivência.

Participantes

Foram incluídos na pesquisa os usuários atendidos e cadastrados no local do estudo, com idade igual ou superior a 18 anos, independentemente do tempo de cadastro e da frequência no serviço, sendo excluídos os indivíduos que, embora cadastrados, não estiveram presentes no Centro POP durante o período de coleta de dados, impossibilitando sua abordagem.

Procedimentos e análise dos dados

A coleta de dados foi realizada entre os meses de julho e outubro de 2023. As entrevistas foram conduzidas por uma pesquisadora que recebeu treinamento prévio da orientadora do estudo, especialista em saúde mental e com experiência consolidada na temática da PSR. A inserção da pesquisadora no Centro POP foi viabilizada pela atuação prévia da orientadora junto ao serviço, por meio de atividades regulares de extensão e capacitação junto às equipes que atuam com essa população, o que garantiu uma aproximação ética, sensível e tecnicamente alinhada ao propósito da pesquisa.

A partir dessa inserção, os participantes foram convidados a integrar a pesquisa mediante abordagem individual realizada após os atendimentos no serviço, respeitando critérios éticos e garantindo o esclarecimento sobre os objetivos do estudo. As entrevistas ocorreram em uma sala privativa destinada ao acolhimento, proporcionando um ambiente reservado e favorável à escuta qualificada. Cada entrevista teve duração média de 12 minutos, permitindo aos participantes compartilhar suas experiências de forma espontânea e segura.

A escolha por um espaço privativo teve como objetivo garantir a confidencialidade e o conforto dos entrevistados, aspectos essenciais em pesquisas qualitativas, sobretudo quando envolvem temas sensíveis ou populações em situação de vulnerabilidade. Essa prática está em conformidade com as diretrizes metodológicas, que recomendam ambientes apropriados para a coleta de dados, assegurando a integridade e qualidade das informações obtidas.

As dez primeiras entrevistas compuseram o estudo piloto, cujo objetivo foi avaliar e ajustar as questões do instrumento de coleta, bem como favorecer a abordagem junto aos participantes. Como não houve necessidade de alterações significativas no roteiro, essas entrevistas foram integralmente incluídas no conjunto final de dados analisados. As entrevistas subsequentes foram realizadas em dias e horários previamente acordados com o serviço, de forma a não interferir em sua rotina.

Os dados sociodemográficos foram apresentados de forma descritiva. As respostas às perguntas adaptadas da ISMI foram gravadas em dispositivo de mídia digital e transcritas na íntegra, com o objetivo de preservar o conteúdo das falas. Em seguida, os dados foram inseridos no Software de Análise de Dados Qualitativos (SADQ), disponível na versão 2022.5 do MAXQDA®. Trata-se de ferramenta amplamente utilizada na análise de dados textuais, especialmente em pesquisas baseadas em entrevistas, grupos focais, documentos e observações12.

As principais funcionalidades de um SADQ incluem importação de textos, criação de códigos em estrutura hierárquica, acesso aos trechos codificados, análise dos textos em seu contexto original e elaboração de notas ou memorandos. A análise qualitativa foi orientada pelo referencial metodológico da análise de conteúdo temática, conforme proposta por Bardin13, cuja abordagem é amplamente utilizada em estudos qualitativos por permitir a identificação de sentidos manifestos e latentes nas narrativas.

A leitura exaustiva dos textos digitalizados, conforme a primeira etapa da análise de conteúdo proposta por Bardin13, contribuiu para a delimitação e compreensão das categorias. Seguindo as três fases da técnica - pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados13, o corpus foi organizado e codificado com o apoio do software MAXQDA®, utilizando a função “in vivo coding” para preservar expressões significativas dos participantes.

Os códigos foram organizados em estruturas hierárquicas no sistema de categorias do MAXQDA®, permitindo a visualização de frequências, padrões e ocorrências por meio dos recursos “Code Matrix Browser” e “Code Relations Browser”. Na etapa de codificação axial, os códigos foram agrupados em categorias temáticas, permitindo a construção de núcleos de sentido mais abrangentes e analiticamente significativos, em consonância com os objetivos da pesquisa.

Além da codificação textual, utilizaram-se as ferramentas de anotações e memorandos analíticos, para registrar reflexões teóricas e decisões interpretativas ao longo do processo. A análise foi orientada pelo referencial teórico adotado e guiada pela técnica de saturação teórica, utilizada para definir o ponto de encerramento da coleta de dados13-14.

A compreensão dos dados foi orientada pelo conceito de autocuidado de Dorothea Orem, enfermeira e teórica norte-americana, cujos estudos abordam as funções humanas desempenhadas pelos indivíduos para manter um funcionamento compatível com as condições essenciais à vida, à integridade e ao desenvolvimento pessoal10.

Considerações éticas

Este estudo atendeu às recomendações éticas estabelecidas pela Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, tendo sido aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário Maurício de Nassau, sob Parecer nº 5.411.58 e Certificado de Apresentação para Apreciação Ética nº 58293622.2.0000.5193.

RESULTADOS

Participaram da pesquisa 22 usuários com idade média de 34,5 anos (variando entre 20 e 51 anos), sendo a maioria do sexo masculino (19) e com tempo de vivência nas ruas superior a três anos. Quanto ao estado civil, a maioria declarou estar casada ou em união estável, e 19 participantes informaram ter entre um e cinco filhos. Em relação à busca por atendimento de saúde, 12 participantes relataram procurar os serviços entre uma e três vezes ao ano; seis afirmaram fazê-lo raramente ou nunca; e apenas quatro relataram buscar atendimento mais de três vezes ao ano.

Na questão sobre escolaridade, a maioria dos participantes relatou não ter concluído o ensino fundamental ou o ensino médio (16). Apenas uma minoria informou ter concluído o ensino fundamental (3) ou o ensino superior (3).

A fonte de renda de mais da metade dos participantes provém de programas governamentais (14); entretanto, uma pequena parcela do grupo afirmou não possuir nenhum tipo de sustento (5). O uso de álcool e outras drogas e os conflitos familiares foram as motivações mais frequentemente mencionadas para o ingresso na vida nas ruas. Todos os participantes relataram ter feito uso de algum tipo de droga em algum momento da vida. Quando questionados sobre a realização da higiene corporal, quase todos informaram tomar banho diariamente (20).

As figuras a seguir apresentam, respectivamente, os sentimentos predominantes nas entrevistas realizadas e as palavras mais frequentemente utilizadas em cada categoria. Ambas as imagens foram extraídas do software MAXQDA®. Na Figura 1, observa-se a emergência de 18 sentimentos recorrentes nas entrevistas comuns às três categorias analisadas. Notavelmente, sentimentos positivos não figuraram entre os mais prevalentes. Em contraste, sentimentos de natureza negativa se destacaram nas falas dos participantes, sugerindo a predominância de percepções desfavoráveis no discurso dos entrevistados.

Figura 1 -
Sentimentos prevalentes nas entrevistas da População em Situação de Rua. Recife, Pernambuco, Brasil, 2023

A Figura 2 ilustra as palavras mais recorrentes em cada categoria, representadas por diferentes cores: azul para a categoria 1; amarelo para a categoria 2; e vermelho para a categoria 3. Essas categorias refletem os sentimentos predominantes de cada PSR em diferentes etapas da entrevista, permitindo uma visualização comparativa das percepções expressas ao longo do processo.

Figura 2-
Divisão por categoria dos sentimentos prevalentes da População em Situação de Rua. Recife, Pernambuco, Brasil, 2023

A partir da análise dos dados, com o auxílio do software MAXQDA®, emergiram três categorias temáticas: “Sentimentos negativos por estar em situação de rua”; “Percepção de como são vistas pela sociedade”; e “Percepção da própria pessoa em situação de rua sobre aqueles que vivem nas mesmas condições”. A leitura exaustiva dos textos digitalizados, aliada à análise de conteúdo conforme proposta por Bardin, contribuiu significativamente para a delimitação e compreensão das categorias, bem como para a interpretação qualitativa dos dados.

Categoria 1: Sentimentos negativos por estar em situação de rua

Esta categoria evidenciou os sentimentos expressos pelos participantes em relação à vivência da situação de rua. Observou-se que a maioria relatou sentimentos predominantemente negativos, como tristeza e culpa, associados à experiência. Além disso, destacaram a percepção de ausência de alternativas concretas para modificar essa realidade, como ilustram os trechos das entrevistas apresentados a seguir:

Triste. É muito difícil isso tudo! (E7)

Humilhada, revoltada, não queria estar assim, me sinto com vergonha também... (E11)

É ruim minha tia, a pessoa fica sem valor, mas Deus sabe de tudo! (E17)

A preocupação com filhos e familiares esteve presente nos relatos de alguns participantes, que expressaram sentimentos de desânimo e culpa em razão de sua condição de vida:

Arrasado! Não por mim, mas por ele (filho), porque às vezes, quando eu não tenho uma abrigada, assim, na casa da minha família. Daí, se eu estiver debaixo de um supermercado, e aí todo mundo me vê com ele, aí eu me sinto cabisbaixo, velho, arrasado. É como se eu fosse um pano de chão velho. (E3)

Me sinto triste, magoado. Só não vou me sentir desesperado, me sentir doido, né, mas eu me sinto muito abatido, muito triste e cansado dessa coisa horrorosa, dessa coisa feia... fico triste de… de poder ter gente que tá passando por coisas por causa de mim, né, como minha mãe, meu filho [...] (E22)

Apenas um dos participantes relatou que a vivência na rua não representava exclusivamente aspectos negativos, afirmando sentir-se bem na maioria das vezes:

Eu me sinto bem. Às vezes, eu estou na mágoa e quero ir embora, quero ir para casa, porque na rua a situação é isso. Mas a rua não é ruim não, pô. É ruim não, é bom! Tem de tudo! (E1)

Categoria 2: Percepção de como são vistas pela sociedade

Esta categoria evidenciou a forma como os participantes percebem o olhar da sociedade sobre si. De acordo com os relatos, há uma preocupação recorrente quanto à maneira como são observados e julgados, percepção que se manifesta, sobretudo, na forma como as pessoas os encaram no cotidiano.

Preconceito e julgamento. As pessoas acham que a gente está aqui porque quer, mas ninguém quer estar na rua se arriscando, podendo morrer a qualquer hora, sem poder dormir direito, nem fazer nada com medo dos outros. (E11)

Os participantes relataram perceber que a sociedade os enxerga como indivíduos sem utilidade, perigosos ou associados ao uso de drogas. Essa forma de discriminação e preconceito social é percebida mesmo quando não verbalizada explicitamente, sendo evidenciada por meio de atitudes como medo, indiferença e evitação de proximidade, conforme relatou a maioria dos entrevistados:

Tem medo, acha que vamos roubar, eu só faço pedir, mais nada não! (E12);

Como um noiado, né? Um morador de rua não serve pra nada [...] (E2)

[...] às vezes, a gente vê isso no olhar das pessoas, né? Por exemplo, às vezes a gente está deitado assim “doido”, as pessoas passam na hora e às vezes a gente tá até usando droga, né? As pessoas passam, e aquele olhar ali, parceiro, não sei [...] (E8)

Deve ver a gente péssimo, porque se a pessoa desce numa calçada, foi o que eu vi. A pessoa está aqui. A calçada está limpinha, mas a pessoa prefere andar na lama a andar na calçada ou do seu lado. Então, quer dizer que você está mais sujo do que aquela onda que ela está andando. Não é isso? (E6)

Dois participantes afirmaram não saber como responder à questão, mencionando que nunca havia refletido sobre a forma como são vistos pela sociedade:

Rapaz… sei te responder não! Agora fiquei querendo saber! Qualquer dia, eu vou perguntar. (E9)

Nunca nem pensei. Nunca nem parei para pensar assim não! (E1)

Categoria 3: Percepção da pessoa em situação de rua sobre aqueles que vivem nas mesmas condições

Esta categoria analisou a forma como os participantes percebem uns aos outros dentro do próprio grupo. Embora reconheçam que compartilham experiências de sofrimento, os relatos evidenciaram uma marcante falta de confiança mútua. Destacou-se, ainda, a percepção de que o uso de drogas contribui para o aumento da sensação de insegurança entre os próprios indivíduos em situação de rua:

[...] confio desconfiando... pessoa que usa droga não se pode confiar, não confio de jeito nenhum [...]. (E21)

Eu sentia era pena, mas não podia fazer nada e nem confiar em ninguém. (E11)

Me sinto seguro, não! Não confio em ninguém, não! (E17)

Não me sinto seguro, é muita malandragem. (E5)

Apenas um dos participantes afirmou confiar nas pessoas com quem convive nos mesmos locais, demonstrando, inclusive, sentimentos de afeto em relação a elas:

Que eles não gostam também, é muito ruim, mas confio neles porque vejo sempre as mesmas pessoas nos mesmos lugares. (E13)

DISCUSSÃO

As características sociodemográficas dos participantes deste estudo corroboram achados de outras pesquisas sobre a PSR, especialmente no que se refere ao predomínio do sexo masculino, à convivência com companheiros(as) e à existência de filhos2,15. Observa-se que a faixa etária predominante corresponde à idade produtiva, sendo que a maioria dos participantes possui alguma fonte de renda, geralmente proveniente de trabalho informal.

No contexto do sistema capitalista, uma parcela significativa da população não consegue inserção no mercado formal de trabalho. Nesse modelo, em que o valor do indivíduo tende a ser mensurado por sua produtividade e capacidade de consumo, os que não se ajustam a tais padrões são frequentemente relegados à invisibilidade e à marginalidade. Esse processo se reflete diretamente nas condições de vida da PSR, reforçando mecanismos de exclusão social e reprodução das desigualdades estruturais.

Ao considerar o princípio da universalidade do Sistema Único de Saúde, que prevê o acesso igualitário de todos os cidadãos aos serviços de saúde, torna-se necessário problematizar até que ponto esse princípio se efetiva no atendimento à PSR. Ainda que previsto normativamente, o acesso dessa população aos serviços de saúde é marcado por barreiras materiais, simbólicas e institucionais que comprometem a universalidade. A lógica meritocrática e excludente que permeia o sistema social amplia a distância entre o ideal constitucional de um sistema universal e a experiência concreta de segmentos historicamente marginalizados16.

No que se refere à escolaridade, a maioria dos participantes relatou não ter concluído o ensino fundamental. Nessa perspectiva, observa-se que níveis educacionais mais baixos podem predispor o indivíduo a déficits no autocuidado, uma vez que a capacidade de realizar práticas de autocuidado é adquirida ao longo da vida e está sujeita a fatores condicionantes, como a escolaridade17. No entanto, chama a atenção um pequeno percentual que declarou ter concluído o ensino superior. Nesse contexto, compreende-se que, independentemente do nível de escolaridade, outras variáveis podem se sobrepor, conduzindo o indivíduo à situação de rua, como o uso e abuso de substâncias psicoativas.

Estudos indicam que o uso e abuso de substâncias psicoativas estão entre os principais fatores associados à vivência em situação de rua, uma vez que essa prática geralmente se relaciona a conflitos familiares, desemprego, envolvimento em atividades ilícitas e dependência química. O consumo excessivo dessas substâncias acarreta diversas consequências fisiológicas e comportamentais, como o aumento da morbimortalidade associada às doenças, o comprometimento do autocuidado e o agravamento da saúde mental18-20.

As substâncias psicoativas apresentam propriedades físico-químicas capazes de interferir em funções vitais, provocar danos progressivos ao organismo e levar à dependência química e psicológica. Nesse contexto, o estado de abstinência constitui um obstáculo significativo para a PSR, ainda que sua superação seja fundamental para a própria sobrevivência21. Por outro ângulo, a percepção de exclusão social pode comprometer as ações de autocuidado, devido à dificuldade de adesão às práticas necessárias. Compreende-se, portanto, que todo o contexto vivenciado nas ruas impacta diretamente o déficit de autocuidado, uma vez que representa uma condição de vulnerabilidade associada à exposição contínua aos danos físicos e psicoemocionais, decorrentes do enfrentamento diário para a satisfação das necessidades humanas básicas22.

Contrariando o senso comum de que PSR não mantém cuidados de higiene, a maioria dos participantes relatou realizar o banho diariamente, prática que representa uma ação relevante de autocuidado, por contribuir para a melhora da autoestima, da saúde e do bem-estar. Conforme análise realizada em estudo, o autocuidado tem como propósito estimular comportamentos que favoreçam, de forma específica, a integridade das funções vitais e o desenvolvimento humano10.

A capacidade de autocuidado pode ser influenciada por diversos fatores, como cultura, experiências de vida, condições socioeconômicas, estrutura familiar, faixa etária, sexo e escolaridade. De acordo com a teoria do autocuidado, a pessoa que possui o potencial de satisfazer suas necessidades de saúde é considerada um agente de autocuidado. Caso contrário, torna-se dependente da solidariedade de terceiros para suprir tais necessidades, uma vez que não consegue atender, de forma autônoma, à totalidade das demandas exigidas pelo autocuidado10.

Esse contexto envolve não apenas a escassez de recursos individuais, mas também a ausência de assistência adequada por parte dos profissionais e das políticas públicas na garantia dos direitos à cidadania e saúde. Os sentimentos identificados por meio da análise no software MAXQDA®(12 demonstraram a predominância de percepções negativas entre os participantes, influenciadas tanto pela vivência nas ruas quanto pela forma como são vistos pela sociedade e pela maneira como percebem outras pessoas em situação de rua.

Os sentimentos negativos associados à vivência nas ruas, citados pela maioria dos participantes, reafirmam que o estigma constitui uma marca social que atribui valor negativo ao indivíduo estigmatizado. A relação entre o estigma e a pessoa estigmatizada envolve desqualificação moral e sentimentos de humilhação por parte daquele que sofre o estigma23. A PSR expressa sentimentos de desesperança quanto à possibilidade de mudança em sua condição de vida, relatando sentir vergonha diante de outras pessoas e de seus familiares. Nessa perspectiva, o autocuidado deixa de ser uma prática cotidiana, sendo frequentemente negligenciado.

Observa-se que muitos indivíduos em situação de rua se sentem culpados por não conseguirem manter o autocuidado, garantir sua sobrevivência com dignidade e prover cuidados aos familiares. A ausência de assistência qualificada e a limitada perspectiva de melhoria das condições de vida contribuem para a consolidação da percepção de que esse grupo é negligenciado, tanto social quanto governamentalmente24. Ressalta-se que tais fatores impactam a vida da PSR de diferentes formas e intensidades, uma vez que não apenas se inter-relacionam, mas também se retroalimentam, dificultando a adoção de práticas de autocuidado.

As instituições de saúde têm como princípios fundamentais a promoção da cidadania e o respeito às escolhas de todos os pacientes. No entanto, na prática, muitas vezes adotam ações de cunho assistencialista, que tendem a enxergar a PSR como indivíduos desprovidos de autonomia, cultura e valores. Nessa perspectiva, a negação de direitos reforça a percepção de que os acontecimentos de suas vidas não despertam interesse social. Tais marcas simbólicas contribuem para o distanciamento do indivíduo em relação ao acesso a bens materiais e simbólicos da sociedade, inclusive os serviços de saúde, dos quais frequentemente se afastam por vergonha, medo de rejeição ou de maus-tratos25. Consequentemente, práticas voltadas à preservação da vida, da saúde, do desenvolvimento e do bem-estar deixam de ser efetivadas.

A existência da PSR representa um contraponto à ordem social, uma vez que não estão plenamente integradas à sociedade, tampouco conseguem se desvincular dela. O estigma, nesse contexto, refere-se às preconcepções que transformam expectativas normativas em exigências rígidas e excludentes. Há três tipos distintos de estigma: as abominações do corpo, relacionadas às deformidades físicas; os defeitos de caráter percebidos, relacionados ao histórico criminal, dependência química, desemprego, orientação sexual, ativismo político e transtornos mentais; e os estigmas tribais, ligados à raça, nacionalidade ou religião, que podem ser herdados por meio da linhagem familiar e atribuídos a todos os seus membros5. Esses estereótipos socialmente construídos contribuem para o afastamento do indivíduo das práticas de autocuidado, uma vez que reforçam sentimentos de exclusão e desvalorização pessoal.

As atitudes socialmente direcionadas às pessoas estigmatizadas e os comportamentos adotados em relação a elas são amplamente reconhecidos, uma vez que se pressupõe que indivíduos com estigma não sejam plenamente humanos. O estigma, nesse sentido, abrange dois aspectos complementares: a marca moral e a suposta deformidade de caráter. É comum o uso de termos pejorativos para classificar os grupos estigmatizados, o que interfere negativamente no incentivo a práticas positivas de saúde26. Nas entrevistas, foram identificadas expressões como “noiado”, “ladrão” e “marginal”, que refletem o preconceito social internalizado. Com base nesse comportamento, Goffman aponta a existência de múltiplas formas de discriminação, por meio das quais se reduzem, muitas vezes de forma inconsciente, as chances de vida e dignidade das pessoas estigmatizadas5.

A presença do estigma percebido revelou-se marcante, uma vez que a PSR reconhece o julgamento social a que é submetida, especialmente por meio de comportamentos de evitação, medo e repulsa direcionados a ela. Nesse contexto, foram relatadas situações em que transeuntes atravessam a rua ou até preferem pisar em poças de lama para evitar proximidade a essas pessoas. Tais episódios evidenciam a presença de pré-julgamentos que atribuem à PSR a responsabilidade exclusiva por sua condição de vida, como se esta resultasse unicamente de uma escolha pessoal.

Na categoria 3, a presença do estigma internalizado foi fortemente evidenciada nos relatos dos participantes, remetendo ao processo de interiorização do estigma, que se torna central para as condições psicológicas desses indivíduos. Esse processo acarreta a diminuição da autoestima e da autoeficácia, a percepção de descrédito, bem como sentimentos de vergonha, culpa, angústia, raiva e autorreprovação. Além disso, o estigma internalizado gera diversas implicações práticas, como perspectivas limitadas de recuperação e restrição das redes de apoio social27.

Os sentimentos de autorrejeição e baixa autoestima expressos nas entrevistas estão diretamente relacionados às práticas estigmatizantes e discriminatórias vivenciadas pelos participantes. Esse contexto dificulta o estabelecimento de vínculos interpessoais, inclusive com outras pessoas em situação semelhante, evidenciando a presença do estigma internalizado. Dessa forma, a visão preconceituosa e negativa direcionada à PSR compromete tanto o acesso quanto a continuidade do cuidado em saúde.

O estigma gera consequências significativas para os indivíduos, como isolamento social, deterioração da qualidade de vida e perda da autoestima. Esse contexto contribui para o afastamento dos usuários dos serviços sociais e de saúde, agravando ainda mais suas condições de vida8. O déficit de autocuidado é identificado pela discrepância entre as demandas de autocuidado e a capacidade do indivíduo de supri-las. Segundo a teoria de Orem10, o termo não se refere a uma “desordem humana” propriamente dita, mas pode estar associado às disfunções funcionais ou estruturais do ser humano. Nesse sentido, o estigma internalizado compromete significativamente a manutenção do cuidado com a saúde.

Para enfrentar tais dificuldades, Orem10 identificou cinco métodos de ajuda que visam promover o autocuidado nos indivíduos: (1) agir ou realizar ações em nome do outro; (2) orientar o outro; (3) oferecer apoio físico ou psicológico; (4) proporcionar um ambiente que favoreça o desenvolvimento pessoal, tornando o indivíduo capaz de atender às demandas atuais ou futuras; e (5) ensinar o outro. Nessa perspectiva, o profissional que atua com a PSR pode apoiar o indivíduo na iniciação e manutenção do autocuidado, além de prescrever, prover e regular formas diretas de auxílio nas atividades da vida diária e nas necessidades sociais, educacionais e de saúde.

A garantia da atenção integral à saúde é um direito da PSR, assim como os demais direitos de cidadania. Por esse motivo, deve ser priorizada a adequação das ações e serviços existentes, de modo a assegurar a equidade e o acesso universal no âmbito do Sistema Único de Saúde, por meio de dispositivos de cuidado interdisciplinares e multiprofissionais. O fortalecimento das ações de promoção da saúde, com ênfase no Programa Consultório na Rua, apresenta potencial para ampliar o acesso à prevenção, promoção e tratamento de agravos de alta incidência nessa população, tais como infecções sexualmente transmissíveis/AIDS, tuberculose, hanseníase, transtornos mentais, condições decorrentes do uso de álcool e outras drogas, entre outras28. Além disso, tais estratégias contribuem para incentivar a prática do autocuidado entre a PSR.

A PNPSR resulta de um esforço institucional voltado à definição de diretrizes que possibilitem o acesso integral aos direitos garantidos a todos os cidadãos brasileiros, bem como oportunidades de desenvolvimento social pleno. Essa política considera as especificidades da vivência no espaço público e os significados construídos pelas experiências de vida na rua. Nesse sentido, visa ao fortalecimento e ao restabelecimento de redes familiares e comunitárias3. No entanto, a análise das entrevistas revela que tais objetivos ainda não foram plenamente alcançados e que a presença do estigma social influencia diretamente a forma como esse grupo se percebe e se identifica.

Sendo assim, a PSR precisa constantemente reafirmar sua condição de seres humanos e cidadãos para acessar direitos fundamentais, bem como para enfrentar o preconceito e os julgamentos sociais. A sociedade tem historicamente construído uma imagem negativa desse grupo, baseada em estereótipos que dificultam o acesso a oportunidades de mudança e a reintegração social.

As limitações deste estudo referem-se ao fato de a coleta de dados ter sido realizada exclusivamente com a PSR que frequenta o Centro POP, o que pode restringir a representatividade dos achados, considerando o crescimento e a dispersão dessa população em diferentes regiões da cidade. Além disso, a duração média das entrevistas, de aproximadamente 12 minutos, pode ter limitado a profundidade das narrativas, uma vez que não foi possível realizar entrevistas complementares. Diante dessas limitações, recomenda-se a realização de novos estudos com amostras mais abrangentes e abordagens metodológicas ampliadas que possibilitem uma compreensão mais aprofundada dos efeitos do estigma internalizado sobre essa população.

Outra limitação refere-se ao uso do conceito de autocuidado segundo Dorothea Orem. Desenvolvido em contexto distinto, esse referencial pode não abranger as complexidades da PSR. É necessário refletir sobre a adequação das teorias de enfermagem em contextos de vulnerabilidade, considerando aportes interdisciplinares que ampliem e ressignifiquem as categorias analíticas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo reafirma a estigmatização social da PSR e avança ao evidenciar mecanismos de interiorização do estigma, como a culpabilização pela própria condição e a adoção de percepções negativas socialmente construídas. Esses mecanismos geram reflexos subjetivos marcantes, como vergonha, culpa e baixa autoestima. Observa-se ainda que a visão dos participantes sobre o próprio grupo reproduz estigmas sociais, refletindo desconfiança e, por vezes, desprezo.

O estigma internalizado reduz a capacidade do indivíduo de buscar ajuda, enquanto o estigma imposto socialmente compromete o cumprimento das garantias intersetoriais destinadas a assegurar os direitos da PSR. A teoria de Orem identifica possibilidades de apoio ao autocuidado que envolvem a garantia de direitos, a prestação de atendimento ético e resolutivo, bem como a efetivação de políticas públicas voltadas a esse grupo populacional.

Recomenda-se o investimento em ações que promovam a disseminação de normas e práticas voltadas ao enfrentamento dos processos de estigmatização social e à redução do estigma internalizado, por meio de atendimento inclusivo e acesso humanizado às ações de promoção da saúde e aos programas sociais. Tais mudanças requerem engajamento coletivo, mobilização política e ações concretas de enfrentamento das desigualdades.

AGRADECIMENTOS:

Esta pesquisa foi financiada pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica da Universidade de Pernambuco, ao qual expressamos nosso agradecimento pelo apoio concedido.

Referências bibliográficas

  • 1. Ministério da Saúde (BR). Gabinete do Ministro. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Tipificação Nacional dos Serviços Socioassistenciais [Internet]. Brasília: MDS, 2014[cited 2024 Mar 24]. Available from: https://www.mds.gov.br/webarquivos/publicacao/assistencia_social/Normativas/tipificacao.pdf
    » https://www.mds.gov.br/webarquivos/publicacao/assistencia_social/Normativas/tipificacao.pdf
  • 2. Natalino MAC. Estimativa da população em situação de rua no Brasil (2012-2022) [Internet]. Brasília: IPEA; 2023[cited 2025 jun 14]. Available from: https://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/11604/1/NT_Estimativa_da_Populacao_Publicacao_Preliminar.pdf
    » https://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/11604/1/NT_Estimativa_da_Populacao_Publicacao_Preliminar.pdf
  • 3. Ministério da Saúde (BR). Gabinete do Ministro. Decreto n.º 7.053, de 27 de Dezembro de 2009. Institui a Política Nacional para a População em Situação de Rua e seu Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento, e dá outras providências[Internet]. 2009[cited 2024 Mar 24]. Available from: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d7053.htm
    » https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d7053.htm
  • 4. Gontijo LA, Silva BM, Viegas SMF. Exclusão, preconceito e invisibilidade de pessoas em situação de rua refutando o direito à saúde. Interface. 2024;28:e230554. https://doi.org/10.1590/interface.230554
    » https://doi.org/10.1590/interface.230554
  • 5. Goffman E. Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. 4th ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.
  • 6. Reilly J, Ho I, Williamson A. A systematic review of the effect of stigma on the health of people experiencing homelessness. Health Soc Care Community. 2022;30(6):2128-41. https://doi.org/10.1111/hsc.13884
    » https://doi.org/10.1111/hsc.13884
  • 7. Pearl RL, Li Y, Groshon LC, Hernández M, Saunders D, Sheynblyum M, et al. Medindo o estigma internalizado relacionado à saúde em diferentes condições de saúde: desenvolvimento e validação da Escala I-HEARTS. BMC Med. 2024;435(22):1-15. https://doi.org/10.1186/s12916-024-03661-z
    » https://doi.org/10.1186/s12916-024-03661-z
  • 8. Brito C, Silva LN. População em situação de rua: estigmas, preconceitos e estratégias de cuidado em saúde. Ciênc Saúde Coletiva. 2022;27(1):151-60. https://doi.org/10.1590/1413-81232022271.19662021
    » https://doi.org/10.1590/1413-81232022271.19662021
  • 9. Mejia-Lancheros C, Lachaud J, O’Campo P, Wiens K, Nisenbaum R, Wang R, et al. Trajectories and mental health-related predictors of perceived discrimination and stigma among homeless adults with mental illness. PLoS ONE. 2020;15(2):e0229385. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0229385
    » https://doi.org/10.1371/journal.pone.0229385
  • 10. Orem DE. Nursing: concepts of practice. 8th ed. St. Louis: Mosby; 2006.
  • 11. Boyd JE, Adler EP, Otilingam PG, Peters T. Internalized Stigma of Mental Illness (ISMI) scale: a multinational review. Compr Psychiatry. 2014;55(1):221-31. https://doi.org/10.1016/j.comppsych.2013.06.005
    » https://doi.org/10.1016/j.comppsych.2013.06.005
  • 12. MAXQDA. Qualitative Data Analysis Software: version 2022.5[Internet]. Berlin: VERBI Software; 2022[cited 2024 Mar 24]. Available from: https://www.maxqda.com/how-to-cite-maxqda
    » https://www.maxqda.com/how-to-cite-maxqda
  • 13. Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70; 2015.
  • 14. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec; 2014.
  • 15. Hungaro AA, Gavioli A, Christóphoro R, Marangoni SR, Altrão RF, Rodrigues AL, et al. Homeless population: characterization and contextualization by census research. Rev Bras Enferm. 2020;73(5):1-8. https://doi.org/10.1590/0034-7167-2019-0236
    » https://doi.org/10.1590/0034-7167-2019-0236
  • 16. Fraga P, Sarmento HBM. Capitalismo, População em situação de rua e (Des) Proteção social. SeSo Perspect. 2022;6(1):72-88. https://doi.org/10.46551/rssp.202204
    » https://doi.org/10.46551/rssp.202204
  • 17. Ghalenow HR, Nikpeyma N, Kazemnejad A, Ansari M, Pashaeypoor S. Effect of educational program based on health literacy index on self-care ability among older adults: a randomized clinical trial. Int J Prev Med. 2022;13(1):24-30. https://doi.org/10.4103/ijpvm.IJPVM_506_20
    » https://doi.org/10.4103/ijpvm.IJPVM_506_20
  • 18. Marques LS, Costa JHM, Gomes MM, Silva MM. Saberes, territórios e uso de drogas: modos de vida na rua e reinvenção do cuidado. Cien Saude Colet. 2022;27(1):123-32. https://doi.org/10.1590/1413-81232022271.19542021
    » https://doi.org/10.1590/1413-81232022271.19542021
  • 19. Santos RR, Hacker MAVB, Mota JC, Bastos FI. Características de usuários de crack quanto à situação de moradia no Nordeste brasileiro, 2011-2013. Cien Saude Colet. 2022;27(6): 2407-16. https://doi.org/10.1590/1413-81232022276.16522021
    » https://doi.org/10.1590/1413-81232022276.16522021
  • 20. Chassman S, Sasser G, Chaparro RS, Calhoun K, Barman-Adhikari A, Bacon B, et al. Substance use and housing stability among individuals experiencing homelessness and a traumatic brain injury: the role of social support. Psychoactives. 2023;17(2):144-61. https://doi.org/10.3390/psychoactives2020010
    » https://doi.org/10.3390/psychoactives2020010
  • 21. Fraga PVR, Araújo MCA, Souza AA, Martins ALJ, Dantas ACMTV, Marinho RA, et al. Entre as ruas e a RAPS: revisão integrativa sobre acesso das pessoas em situação de rua aos Serviços de Saúde Mental. Ciên Saúde Colet. 2025;30(1):e07752024. https://doi.org/10.1590/1413-81232025301.07752024
    » https://doi.org/10.1590/1413-81232025301.07752024
  • 22. Silva DO, Oliveira JF, Porcino C, Gomes AMT, Suto CSS, Carvalho ESS. Representações sociais de pessoas em situação de rua sobre o autocuidado. Rev Bras Enferm. 2020;73(2):e20180956. https://doi.org/10.1590/0034-7167-2018-0956
    » https://doi.org/10.1590/0034-7167-2018-0956
  • 23. Cavalcante ICA, Pereira MJF, Matos JSA, Medeiros KO, Stone AG, Sila KO, et al. Diagnósticos de enfermagem e suas relações com a população em situação de rua na cidade de Manaus - AM. Health Rev. 2022;5(3):11935-5. https://doi.org/10.34119/bjhrv5n3-324
    » https://doi.org/10.34119/bjhrv5n3-324
  • 24. Campos FAAC, Orfão NH. População em Situação de Rua sob a Perspectiva da Intersetorialidade e Direitos Humanos na Gestão do Cuidado em Saúde. Saúde Redes. 2022;8(1):179-89. https://doi.org/10.18310/2446-4813.2022v8nsup1p179-189
    » https://doi.org/10.18310/2446-4813.2022v8nsup1p179-189
  • 25. Fraga PVR, Modena CM, Silva PFC. Barreiras de acesso: uma análise a partir da percepção das trabalhadoras do Consultório na Rua. Saúde Debate. 2024;48(143):e8963. https://doi.org/10.1590/2358-289820241438963P
    » https://doi.org/10.1590/2358-289820241438963P
  • 26. Leão A, Lussi IAO. Estigmatização: consequências e possibilidades de enfrentamento em Centros de Convivência e Cooperativas. Interface . 2021;25:e200474. https://doi.org/10.1590/interface.200474
    » https://doi.org/10.1590/interface.200474
  • 27. Corrigan PW, Watson AC, Barr L. O autoestigma da doença mental: implicações para a autoestima e autoeficácia. J Soc Clin Psychol. 2006;25(8):875-84. https://doi.org/10.1521/jscp.2006.25.8.875
    » https://doi.org/10.1521/jscp.2006.25.8.875
  • 28. Ministério da Saúde (BR). Portaria nº 122, de 25 de janeiro de 2012. Define as diretrizes de organização e funcionamento das equipes de Consultório na Rua[Internet]. 2012 [cited 2024 Mar 24]. Available from: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2012/prt0122_25_01_2012.html
    » https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2012/prt0122_25_01_2012.html
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAL:
    O acesso ao conjunto de dados poderá ser realizado mediante solicitação ao autor correspondente.

Editado por

  • Editor associado:
    Deise Lisboa Riquinho
  • Editor-chefe:
    João Lucas Campos de Oliveira

Disponibilidade de dados

O acesso ao conjunto de dados poderá ser realizado mediante solicitação ao autor correspondente.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    19 Maio 2025
  • Aceito
    07 Jul 2025
location_on
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escola de Enfermagem Rua São Manoel, 963 -Campus da Saúde , 90.620-110 - Porto Alegre - RS - Brasil, Fone: (55 51) 3308-5242 / Fax: (55 51) 3308-5436 - Porto Alegre - RS - Brazil
E-mail: revista@enf.ufrgs.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro