Open-access Comportamento preventivo de estudantes de enfermagem quanto à COVID-19 e fatores associados

RESUMO

Objetivo:  Avaliar o comportamento preventivo de estudantes de enfermagem quanto à COVID-19 e os fatores associados.

Métodos:  Estudo transversal realizado em um município da região centro-oeste mineira, entre março e outubro de 2023, envolvendo 126 graduandos de enfermagem. Aplicado instrumento para avaliar conhecimento, comportamentos, sintomas e status vacinal relacionados à COVID-19. Foram realizados testes de COVID-19 para detecção dos anticorpos IgG/IgM e o teste RT-PCR. Foi realizada análise descritiva e multivariada.

Resultados:  Entre os participantes, 54,8% relataram seguir as recomendações de prevenção e controle da disseminação da COVID-19 e 10,3% afirmaram utilizar máscaras em situações de aglomeração em espaços abertos, 41,3% relataram fazê-lo em locais fechados. Todos os participantes apresentaram resultados reagentes para anticorpos contra COVID-19 e informaram estar vacinados, não havendo casos de infecção ativa. Os fatores associados ao comportamento preventivo adequado incluem cor da pele autodeclarada preta e uso de máscaras em situações de aglomeração.

Conclusão:  O estudo apresenta indicadores de autocuidado que podem contribuir para a elaboração de políticas públicas de prevenção de doenças e promoção da saúde no ambiente universitário.

Descritores:
Comportamento; COVID-19; Estudantes de Enfermagem

ABSTRACT

Objective:  To evaluate COVID-19 preventive behavior and associated factors in nursing students.

Methods:  Cross-sectional study carried out between March and October 2023, involving 126 nursing graduates. An instrument was applied to assess the knowledge, behaviors, symptoms, and vaccination status in regard to COVID-19. COVID-19 tests were carried out to detect IgG/IgM antibodies, as well as RT-PCR. Descriptive and multivariate analyses were performed.

Results:  54.8% of participants reported they followed the recommendations for preventing and controlling the spread of COVID-19 and 10.3% said they used masks in crowded situations in open spaces, while 41.3% said they did so in closed places. All participants obtained reactive results for antibodies against COVID-19 and reported being vaccinated, with no cases of active infection. Factors associated with adequate preventive behaviors include self-declared black skin color and the use of masks when in crowds.

Conclusion:  This study found self-care indicators that may contribute to the development of public policies for disease prevention and health promotion in the university environment.

Descriptors:
Behavior; COVID-19; Students in Nursing

RESUMEN

Objetivo:  Evaluar la conducta preventiva de estudiantes de enfermería frente a la COVID-19 y factores asociados.

Métodos:  Estudio transversal realizado entre marzo y octubre de 2023, con 126 estudiantes de enfermería. Se aplicó un instrumento para evaluar conocimientos, conductas, síntomas y estado de vacunación relacionados con el COVID-19. Se realizaron pruebas de COVID-19 para detección de anticuerpos IgG/IgM y la prueba RT-PCR para detectar casos activos. Se realizaron análisis descriptivo y multivariado.

Resultados:  Entre los participantes, el 54,8% dijo seguir las recomendaciones para prevenir, controlar la propagación del COVID-19 y el 10,3% dijo usar mascarillas en situaciones de aglomeración en espacios abiertos, mientras el 41,3% dijo que lo hacía en lugares cerrados. Todos los participantes obtuvieron resultados reactivos cuanto a sus anticuerpos contra COVID-19 y reportaron estar vacunados, sin casos de infección activa. Los factores asociados con una conducta preventiva adecuada incluyen el color de piel negro autodeclarado y el uso de mascarillas en situaciones de hacinamiento.

Conclusión:  El estudio presenta indicadores de autocuidado que pueden contribuir al desarrollo de políticas públicas de prevención de enfermedades y promoción de la salud en el ámbito universitario.

Descriptores:
Conducta; COVID-19; Estudiantes en Enfermería

INTRODUÇÃO

A pandemia de COVID-19 constitui-se o mais sério e grave problema de saúde pública global da contemporaneidade, impactando na elevação da mortalidade e morbidade das populações em um curto espaço de tempo1. Embora em maio de 2023 a Organização Mundial da Saúde (OMS) tenha decretado o fim da emergência de saúde pública de importância internacional pelo coronavírus (ESPII), observa-se a permanência do vírus e suas variantes em todo o mundo, o que certamente justifica a continuidade das pesquisas sobre a temática2.

Neste contexto, estudantes da área da saúde desempenham um papel proativo na prevenção da disseminação da COVID-19 e influenciam diretamente o comportamento das comunidades ao seu redor. Ao adotarem práticas preventivas, como o uso adequado de máscaras e a adesão às campanhas de vacinação, tornam-se exemplos para a sociedade, contribuindo para os esforços de mitigação da transmissão do vírus3.

Conforme proposto pelo Modelo Integrado de Comportamento, diversos fatores determinam as ações humanas, incluindo características demográficas, nível de conhecimento, atitudes, hábitos, normas sociais, influência da mídia e condições ambientais4. De fato, evidencia-se que a desigualdade social expressa por iniquidades em marcadores socioeconômicos, como nível de escolaridade e acesso digital a informações adequadas, como em páginas de sociedades científicas, influenciam o comportamento em saúde5. Nesse cenário, os estudantes de graduação na área de saúde constituem um grupo social importante não só durante a pandemia de COVID-19, mas também no enfrentamento contínuo da disseminação do vírus, uma vez que, embora estejam diretamente envolvidos com as temáticas de saúde, podem apresentar conhecimento insuficiente sobre a prevenção da doença6. De fato, a desinformação contribui para comportamentos inadequados frente à infecção, como a hesitação vacinal e a redução da cobertura vacinal de COVID-19, possibilitando aumento do risco não só de contrair a doença, como de ser agente transmissor em ambientes de grande trânsito de pessoas, como o ambiente universitário5).

Concomitante à pandemia de COVID-19, houve um crescimento exponencial da chamada infodemia, que persiste nos dias atuais, a qual se caracteriza por um excesso de informações, algumas precisas e outras não. A distorção de informações para fins duvidosos agrava ainda mais o cenário pandêmico, pois leva a um aumento da desinformação, contribuindo para comportamentos inadequados em relação à prevenção da infecção pela COVID-197.

No atual momento de pós-ESPII por COVID-19, considerando que o vírus ainda circula globalmente com potencial de gerar infecção, é crucial compreender os comportamentos relacionados à prevenção da doença e os fatores que os determinam, especialmente nas decisões dos estudantes de enfermagem, uma vez que estão na linha de frente do cuidado à saúde das populações8. Autores concordam sobre a importância do comportamento individual na prevenção da transmissão do vírus, especialmente em ambientes universitários. A adesão às medidas de prevenção estabelecidas como uso de máscaras, isolamento e distanciamento sociais, lavagem de mãos e vacinação são essenciais para controlar a propagação do vírus, particularmente entre estudantes de enfermagem, por estarem inseridos nos contextos assistenciais de saúde5,6.

Investigações que abordem comportamentos de estudantes na prevenção da infecção por COVID-19 têm sido implementadas9,10. Nosso estudo avaliou os fatores que influenciam o comportamento preventivo de estudantes de enfermagem em uma universidade pública, considerando os determinantes sociais de saúde. Focada no período pós-pandemia, investigamos os legados da COVID-19, como adesão a medidas preventivas, hesitação vacinal e mudanças comportamentais após o fim da emergência sanitária. A questão norteadora desta investigação é: Quais fatores sociais, demográficos e contextuais influenciam a adoção de comportamentos preventivos por estudantes de enfermagem em relação à COVID-19 e como esses fatores se relacionam com os determinantes sociais de saúde? O objetivo deste estudo consiste em avaliar o comportamento preventivo de estudantes de enfermagem quanto à COVID-19 e os fatores associados.

A pesquisa buscou preencher lacunas deixadas por estudos internacionais, muitos realizados no período pré-ESPII e com amostras de outros países9,10). Explicita-se a relevância dos dados nacionais e a escassez de estudos similares na literatura brasileira. Além disso, nossa investigação tem o potencial de contribuir para o planejamento acadêmico e intervenções mais alinhadas às necessidades da universidade pública, considerando os riscos contínuos que a COVID-19 ainda representa para a sociedade.

MÉTODO

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa epidemiológica de delineamento transversal, realizada em conformidade com as diretrizes propostas pelo Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology11. A pesquisa foi conduzida em uma universidade pública federal situada em um município da região Centro-Oeste de Minas Gerais, Brasil.

A população elegível incluída neste estudo foi composta por todos os estudantes matriculados no curso de graduação em Enfermagem, no ano de 2022, totalizando 258 alunos. O critério de inclusão constitui-se de estar frequentando regularmente o curso que possui nove semestres, com uma média de 30 alunos ingressantes por semestre. Para o cálculo da amostra, utilizou-se o software de domínio público Open Epi versão 3.01, foi considerada a proporção de 89,9% para comportamento positivo de prevenção à COVID-193 e população finita de 258 alunos. Considerando um erro amostral de 5%, a amostra necessária foi de 96 estudantes, distribuídos entre os nove semestres do curso. É importante destacar que, para as análises, não foi adotado nenhum critério de limitação relacionado ao ano de ingresso no curso, permitindo a inclusão de estudantes de todos os semestres.

A coleta de dados ocorreu entre março e outubro de 2023, conforme descrito no Fluxograma 1, que delineia as etapas de recrutamento dos participantes. Inicialmente, a coordenação do curso enviou um e-mail aos alunos apresentando a pesquisa e disponibilizando um link para um formulário no Google®, onde acessavam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e respondiam ao questionário. O processo incluiu etapas de divulgação, convites, lembretes presenciais e repetições periódicas para ampliar a participação, culminando em uma rodada final aberta a todos os períodos do curso.

O questionário, elaborado pelos pesquisadores, baseou-se no documento oficial do Ministério da Saúde sobre manejo clínico de pacientes com COVID-19 e medidas de prevenção12. Continha 26 questões, sendo nove sobre aspectos sociodemográficos e 16 relacionadas à infecção por COVID-19, medidas preventivas, vacinação e conhecimento sobre a doença.

Após o aceite de participar da pesquisa, o estudante recebeu, por e-mail, o agendamento individual para comparecer, presencialmente, ao laboratório de habilidades para realizar a coleta de material biológico para realização do teste sorológico e RT-PCR. A escala da coleta considerou uma turma a cada vez que era avisada em sala de aula sobre a data e turno da atividade, motivando a participação dos estudantes (Figura 1).

Figura 1 -
Fluxograma de Recrutamento dos Alunos, Município do Centro-Oeste de Minas Gerais, Brasil. 2023

Para avaliar o contato prévio do participante com o vírus, o exame sorológico foi feito por meio de teste rápido em um ensaio imunocromatográfico para detecção rápida e qualitativa dos anticorpos IgG/IgM com amostra de sangue total obtido por punção digital. A amostra de sangue foi transferida para o cassete e em seguida duas a três gotas da solução tampão foi adicionada, a leitura foi feita em até 15 minutos. O resultado é expresso em banda única para imunoglobulinas totais (IgG e IgM). Nenhuma faixa colorida visível na linha de controle foi considerada inválida e foi feito o reteste. O kit utilizado foi SARS-CoV-2 antibody test® da marca Wondfo®.

Além disso, foi realizado o teste RT-PCR para verificar a presença de infecção ativa. O participante recebeu 1 mL de água potável para realizar um gargarejo durante 30 segundos. Após cada gargarejo, o líquido foi cuspido em um coletor universal, repetindo-se o procedimento por três vezes consecutivas. O material coletado foi armazenado em geladeira a temperaturas entre 2°C e 8°C ou congelado a -80°C, sendo processado em até 48 horas. A extração do RNA foi realizada utilizando a técnica de extração de RNA viral com kits comerciais (ReliaPreTM Viral DNA MiniPrep, Custon - PROMEGA®) e cubas para a purificação do material genético. O protocolo de RT-qPCR seguiu as orientações do CDC dos Estados Unidos e do Hospital Charité, em Berlim, Alemanha. Os produtos amplificados foram comparados a controles positivos de SARS-CoV-2 para a confirmação do diagnóstico.

A variável dependente do estudo é categórica binária e refere-se ao comportamento preventivo quanto à COVID-19 (adequado/inadequado), considerando as condutas autorreferidas dos participantes. O Ministério da Saúde, por meio da Nota Técnica 83/202313, estabelece as medidas de controle e prevenção da COVID-19 no Brasil, incluindo condutas comportamentais, como lavagem de mãos e prática do isolamento social. Baseado nesse documento e nas normatizações do Centro de Controle e Prevenção de Doenças14 e da Organização Pan-Americana de Saúde15 adotou-se o conceito de comportamento preventivo adequado para COVID-19. Foi considerado comportamento adequado quando o estudante relatou lavar as mãos de três a mais de cinco vezes ao dia, adotou completamente isolamento e distanciamento sociais, e quando cumpriu as recomendações da secretaria de saúde local13-15, ou seja, quando realizou as três medidas conjuntamente.

As variáveis independentes sociodemográficas da pesquisa incluíram: idade, sexo, período de curso de enfermagem, estado civil (viúvo,casado, solteiro, divorciado, união estável), cor autodeclarada (preto, pardo, amarelo, indígena), ocupação, grau de instrução do chefe da família (fundamental incompleto e completo, médio incompleto e completo, superior incompleto e completo), renda mensal da família (em salários mínimos). As variáveis clínicas são tosse, cansaço, perda de paladar, perda de olfato, dor de garganta, dor de cabeça, dores e desconfortos, diarreia, irritações na pele, olhos vermelhos, dificuldade para respirar, ausência de sintomas e as comportamentais consistem em história de infecção, vacinação, preocupação com a contaminação de familiares por COVID-19, percepção de risco de infecção por covid-19, medidas de proteção de disseminação do vírus, prática de higienização das mãos, utilização de máscara, prática de isolamento social.

Os dados foram analisados no software Statistical Package for the Social (SPSS) versão 21. As variáveis categóricas foram apresentadas em tabelas de distribuição de frequências, e as variáveis contínuas em medidas de posição (mediana, mínimo e máximo), conforme a distribuição assimétrica identificada pelo teste Shapiro Wilk.

Foi realizada análise univariada entre o comportamento preventivo quanto à COVID-19 com cada variável explicativa. Para esta análise foram aplicados os testes estatísticos de qui-Quadrado e Teste exato de Fisher. As variáveis que apresentaram valor de p < 0,20, na univariada, foram testadas na regressão logística multivariada para verificar sua associação com o comportamento preventivo quanto à COVID-19. O nível de significância considerado foi de 5%.

Este estudo foi autorizado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com parecer de número 5.954.038 e foram considerados todos os procedimentos necessários para atender às determinações da Resolução 466/2012.

RESULTADOS

Participaram do estudo 126 estudantes de enfermagem, dos quais 108 (85,7%) são do sexo feminino, com uma mediana de idade de 22 anos. Em relação ao estado civil, a maioria dos 117 (92,9%) era solteira, sendo que 9 (7,1%) eram casados ou possuíam união estável. Estavam no terceiro período do curso de graduação em enfermagem 34 (27%).

Quanto à escolaridade do chefe de família do participante, a maioria 83 (65,9%) possuía ensino médio completo ou ensino superior incompleto, sendo que 28 (22,2%) tinham ensino fundamental e 15 (11,9%) relataram ensino superior completo ou pós-graduação. No que tange à cor autorrelatada, 70 (55,6%) participantes se autodeclaram brancos e 56 (44,4%) pretos e pardos.

A ocupação mais prevalente entre os participantes era estudante, 121 (96%) e 5 (4%) trabalhavam em funções de nível médio. A maior parte dos estudantes possui renda familiar de mais de um a cinco salários mínimos, 72 (57,2%), sendo que 15 (11,9%) recebem até 1 salário mínimo e 39 acima de 5 salários mínimos (30,9%).

Quanto aos comportamentos adotados pelos participantes em relação à pandemia de COVID-19, evidenciou-se que 65 (51,6%) não apresentam preocupação em contrair a COVID-19 e 52 (41,3%) afirmaram utilizar máscaras na ocasião de aglomeração de pessoas ou em espaço fechado (Tabela 1).

Tabela 1 -
Comportamento preventivo quanto à COVID-19 entre os estudantes de graduação em enfermagem. Município do Centro-Oeste de Minas Gerais, Brasil. 2023 (n=126).

A totalidade dos participantes apresentou anticorpos reagentes contra a COVID-19. Embora não tenha sido identificada infecção ativa de COVID-19, houve presença de quadros de tosse em 6 (4,8%), febre em 4 (3,2%), cansaço em 10 (7,9%), dor de cabeça em 12 (9,5%) e dificuldade para respirar ou falta de ar em 2 (1,6%) dos participantes.

Evidenciou-se que a maioria dos participantes (51,6%) tem histórico de infecção por COVID-19, mas há uma incerteza sobre o momento da infecção, com 48,4% não sabendo responder.

Todos os participantes relataram terem sido vacinados contra a COVID-19, sendo que 62 (49,2%) apresentaram quatro doses e 54 (42,9%) haviam recebido a última dose da vacina há seis meses ou mais.

Constatou-se também que 121 (96%) participantes afirmaram saber informações sobre procedimentos no caso de apresentarem sintomas da COVID-19 e 70 (55,6%) consideraram-se com baixo risco de adquiri-la (Tabela 2).

Tabela 2 -
Conhecimento e percepção sobre a COVID-19 entre os estudantes de graduação em enfermagem. Município do Centro-Oeste de Minas Gerais, Brasil. 2023 (n=126).

A Tabela 3 apresenta o modelo multivariado com o desfecho comportamento preventivo quanto à COVID-19. Participantes que autodeclararam ser de cor preta apresentaram 3,75 vezes mais a chance de ter um comportamento adequado quando comparados aos de cor branca. Aqueles que também mencionaram o uso de máscara sempre que há aglomeração e em locais fechados tiveram mais chance de apresentar comportamento preventivo adequado (RC 9,236 e 2,974, respectivamente).

Tabela 3 -
Fatores associados ao comportamento preventivo para COVID-19 entre os estudantes de graduação em enfermagem. Município do Centro-Oeste de Minas Gerais, Brasil. 2023 (n=126).

DISCUSSÃO

Neste estudo, identificamos que 43,6% dos estudantes de graduação em enfermagem declararam não seguir as orientações para a prevenção da contaminação e disseminação da COVID-19, enquanto 38,1% afirmaram que não adotariam as recomendações em caso de uma nova pandemia. Contraditoriamente, embora 96% dos participantes tenham relatado preocupação com a COVID-19, 40% foram classificados como apresentando comportamento de risco elevado ou muito elevado em relação à doença. Esse nível reduzido de adesão às medidas preventivas pode estar associado ao período em que a pesquisa foi realizada (março a outubro de 2023), quando a pandemia estava amplamente controlada e as taxas de infecção haviam diminuído significativamente.

Diante desse cenário, mesmo com a suspensão de medidas regulatórias rígidas, é recomendável que os cursos de graduação em enfermagem mantenham em seus projetos pedagógicos conteúdos relacionados ao manejo de pandemias. Essa iniciativa visa preparar adequadamente os futuros profissionais, prevenindo que eventuais ameaças pandêmicas sejam negligenciadas ou subestimadas. De fato, conhecer os mecanismos que envolvem um agravo infeccioso ampliam a intenção para a implementação de comportamentos preventivos12, sendo base para a prevenção de novas pandemias.

As respostas sobre o comportamento frente à COVID-19 foram agrupadas a partir de um questionário que abordava temas como infecção por COVID-19, comportamento de prevenção, vacinação e conhecimento sobre a doença. Identificamos que 96% dos estudantes relataram ter conhecimento adequado sobre a COVID-19. A maioria sabia como usar a máscara corretamente, usá-la ao entrar em locais públicos e lavar as mãos regularmente. Além disso, um estudo realizado no Egito e outro na China, indicam que as populações mais jovens aprenderam com a pandemia e, por serem mais hábeis no uso da Internet, têm acesso a informações mais precisas16,17. De maneira semelhante ao nosso resultado, um estudo conduzido no Brasil com um total de 4180 participantes distribuídos em todo território brasileiro também revelou que, de modo geral, os respondentes apresentaram um conhecimento básico satisfatório sobre a COVID-19, com uma média de 86,59% da pontuação máxima possível na pesquisa, sendo que os participantes mais jovens tendem a obter mais respostas corretas18.

Embora existam poucas publicações sobre o comportamento de estudantes de enfermagem no que diz respeito à prevenção da COVID-19, identificamos um estudo com universitários coreanos9 que revelou uma correlação positiva entre autoeficácia e estresse relacionado à COVID-19. Uma alta autoeficácia pode ser interpretada como uma grande determinação para resolver problemas de forma mais ativa, a fim de superar situações estressantes. No entanto, essa pesquisa foi conduzida em 2021, quando a curva de infecções e os impactos da pandemia ainda estavam elevados. Mesmo assim, a adoção de um programa de aprimoramento da autoeficácia, capaz de melhorar a prevenção de doenças infecciosas, sugerido por este estudo, é algo que deve ser considerado nos cursos de graduação em enfermagem.

Araújo e colaboradores19 descrevem a difícil trajetória para a publicação dos dados sobre a COVID-19 relativos à etnia, em um estudo que avaliou as experiências no Brasil e nos Estados Unidos. Mesmo com a baixa qualidade dos dados disponíveis, classificados por raça/cor/etnia, o estudo apontou que o número de óbitos por COVID-19 entre a população negra foi superior à sua composição populacional em diversas regiões. De forma inédita, nossa pesquisa revelou que ser da cor preta, utilizar máscara em aglomerações e em locais fechados aumentam a probabilidade de comportamentos preventivos adequados em relação à COVID-19.

O fato de participantes que se autodeclararam de cor preta terem mais chance de apresentarem comportamento preventivo adequado pode refletir uma conscientização que surge da vivência de desigualdades sociais pela população preta. O movimento negro contemporâneo acumula experiência de gerações, sendo herdeiro de uma tradição de luta. O movimento fortaleceu a busca por aquisição de direitos e fortaleceu a conscientização política desse grupo étnico20.

Cabe também destacar que a universidade constitui um ambiente para a formação de consciência crítica, social e autônoma e que, apesar de muitas vezes serem mais vulneráveis, os estudantes de cor de pele preta, neste contexto, têm maior oportunidade de construção do pensamento crítico, o que, provavelmente, pode contribuir para este melhor comportamento preventivo contra a COVID-1921. De fato, nas últimas décadas no Brasil, as políticas de cotas e de aumento do número de vagas nas universidades públicas têm sido mecanismo, embora ainda incipiente, eficaz para contribuir com a redução das desigualdades sociais, especialmente no que se refere ao acesso ao conhecimento científico22.

A pesquisa que aqui se apresenta também apontou que o uso de máscaras corrobora o comportamento preventivo adequado quanto à COVID-19. Tal conduta é recorrente entre estudantes de enfermagem como mostra uma investigação realizada no Japão. Esta apontou que, após aulas teóricas e práticas sobre o tema, os alunos de enfermagem se apropriaram da utilização das máscaras nos estágios, o que confirma atitude de prevenção à COVID-1923. A eficácia do uso de máscara como comportamento preventivo é reforçada por estudos realizados que mostram redução substancial na transmissão do SARS-CoV-2 com a utilização deste equipamento de proteção individual24.

Apesar de, no estudo apresentado, não terem sido avaliadas as ocasiões em que os estudantes lavavam as mãos, considerou-se o quantitativo de vezes ao dia que realizavam o procedimento adequado para a maioria dos participantes. De fato, a OMS preconiza cinco momentos para profissionais de saúde higienizarem as mãos, sendo eles: antes de contato com um paciente, antes da realização de procedimentos assépticos, após risco de exposição a fluidos corporais; após contato com um paciente; após contato com as áreas próximas ao paciente. Além do que realizar a técnica no momento certo e da maneira correta permite diminuir a incidência de infecções associadas ao serviço de saúde16.

É relevante destacar que as evidências encontradas na presente pesquisa apontam que a maioria dos estudantes relatou realizar isolamento e distanciamento social, o que é fundamental para a prevenção da transmissão da COVID-19. Este cuidado representou uma estratégia importante para conter a disseminação da COVID-19, como observado em outras pesquisas realizadas25. Ademais, mesmo após o fim da ESPII por COVID-19 ter sido decretada, o distanciamento social permanece como conduta importante para evitar a disseminação da doença26.

Retomando os resultados acerca das fontes de informações sobre a doença, a maior parte dos participantes destacou os profissionais de saúde. No entanto, parte considerável dos estudantes salientou obter informações sobre COVID-19 em mídias tradicionais e sociais. Estas permitem a democratização dos meios de comunicação, favorecendo debates e um maior acesso à informação, especialmente durante a ESPII. Em nenhum outro ambiente, a liberdade de expressão se apresentou de forma tão intensa, por não haver nenhum controle prévio sobre os conteúdos postados. No entanto, apesar dos grandes benefícios decorrentes desse meio de comunicação em massa, o mesmo é responsável pelo desgaste das organizações e das informações verídicas27.

O crescimento da infodemia no decorrer da pandemia de COVID-19 levou indivíduos a agir de forma inadequada em relação às orientações sobre a prevenção de COVID-19, aumentando, assim, o risco de infecção. Sendo assim, a criação de uma regulamentação mais eficaz das informações nas mídias sociais torna-se fundamental para que os indivíduos se favoreçam de informações seguras e corretas sobre saúde28.

Quanto ao perfil clínico dos participantes, evidenciou-se que todos possuíam história de vacinação contra COVID-19. Talvez por isso todos os estudantes também apresentaram resultado reagente da sorologia para Sars-Cov-2. Este achado é importante, pois, além das medidas comportamentais, a vacina tem uma grande relevância no controle e combate à doença29. Ressalta-se, porém, que o contexto brasileiro de adesão às vacinas não tem sido unânime. Apesar de décadas de sucesso no combate às doenças imunopreveníveis através do Programa Nacional de Imunização (PNI), nos últimos anos, os movimentos antivacinas levaram à queda da cobertura vacinal. O aumento da hesitação vacinal tem se tornado uma crise de saúde pública6.

É essencial a participação dos profissionais e estudantes da área da saúde em compartilhar as informações, visto que, de acordo com revisão integrativa realizada em 2023, em seus resultados, verificou-se que muitos responsáveis possuem baixo nível de conhecimento sobre vacinas30.

Este estudo possui limitações. Uma delas foi o número reduzido de alunos que cursavam os períodos finais do curso, uma vez que estes encontram-se mais avançados e com um melhor entendimento sobre as responsabilidades de um profissional da saúde, gerando assim, resultados diferentes em relação ao comportamento diante da pandemia de COVID-19. Outra limitação consiste no fato de não ter sido avaliada a intenção em ter um comportamento, já que esta tem sido associada com comportamentos de saúde, o que poderia ter influenciado os resultados12.

Contudo, os resultados aqui apresentados fornecem uma contribuição valiosa para o entendimento do perfil do estudante de enfermagem em relação à prevenção da COVID-19, elucidando comportamentos e conhecimentos sobre o assunto.

CONCLUSÃO

Estudantes que se autodeclararam de cor preta, que usaram máscara sempre que há aglomeração e em local fechado demonstraram maior adesão às medidas preventivas recomendadas contra a COVID-19. Os achados desta investigação apontam indicadores de comportamentos de prevenção que podem colaborar para o aprimoramento de políticas institucionais e estratégias educacionais voltadas para a mitigação da COVID-19, em especial, no ambiente universitário.

Agradecimentos

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

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Editado por

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    08 Ago 2024
  • Aceito
    26 Mar 2025
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