RESUMO
Objetivo: analisar as Representações Sociais da população adulta LGBTQIAPNb+ sobre a violência interpessoal sofrida.
Método: estudo analítico com abordagem qualitativa, realizado no municipío de Campina Grande, Paraíba, Brasil, no ano de 2023; sob o referencial teórico-metodológico da Teoria das Representações Sociais. Foi aplicado formulário sociodemográfico, Teste de Associação Livre de Palavras e roteiro de entrevista semiestruturada. Além da análise estatística descritiva para caracterização dos participantes, os dados foram submetidos à análise prototípica junto ao software IRAMUTEQ®.
Resultados: o núcleo central da representação social foi fortemente ligado ao medo e ao sofrimento, enquanto a periferia apresentou ligação com a dor, angústia e ódio. Além disso, identificaram-se elementos periféricos nas representações, como o silenciamento, o preconceito, a intolerância e a repressão. Foi possível observar também, pelos marcadores de classes, como a violência influencia o biopsicossocial da vida do sujeito, deixando marcas na infância que ressoam até os dias atuais. Nessas circunstâncias, nota-se, que a violência psicológica afeta o indivíduo de maneira mais significativa em comparação às demais tipificações.
Conclusão: o impacto emocional e psicológico foi associado à violência, destacando-se os mecanismos sociais que perpetuam as agressões e dificultam a busca por apoio e justiça por parte da população LGBTQIAPNb+.
Descritores:
Minorias Sexuais e de Gênero; Violência; Representação Social
ABSTRACT
Objective: To analyze the social representations of the adult LGBTQIAPNb+ population regarding experienced interpersonal violence.
Method: Analytical study with a qualitative approach, held in the municipality of Campina Grande, Paraíba, Brazil, in the year 2023; based on the theoretical-methodological framework of the Theory of Social Representations. A sociodemographic questionnaire, the Free Word Association Test, and semi-structured interview guide were applied. In addition to descriptive statistical analysis for participant characterization, the data were submitted to prototypical analysis using IRAMUTEQ® software.
Results: The central core of social representation was strongly associated with fear and suffering, whereas the periphery revealed connections with pain, anguish, and hatred. Furthermore, peripheral elements such as silencing, prejudice, intolerance, and repression were identified in the representations. It was also possible to observe, through class markers, how violence influences the biopsychosocial dimensions of individual’s lives, leaving traces from childhood that resonate to the present day. Under these circumstances, psychological violence proved to affect individuals more significantly compared with other forms.
Conclusion: Emotional and psychological impact was directly associated with violence, highlighting the social mechanisms that perpetuate aggression and hinder the search for support and justice among the LGBTQIAPNb+ population.
Descriptors:
Sexual and Gender Minorities; Violence; Social Representation
RESUMEN
Objetivo: Analizar las representaciones sociales de la población adulta LGBTQIAPNb+ respecto a la violencia interpersonal sufrida.
Método: Estudio analítico con enfoque cualitativo, realizado en el municipio de Campina Grande, Paraíba, Brasil, en 2023; basado en el marco teórico-metodológico de la Teoría de las Representaciones Sociales. Se aplicó un formulario sociodemográfico, la Prueba de Asociación de Palabras Libre y una guía de entrevista semiestructurada. El análisis se realizó mediante estadística descriptiva para caracterizar a los participantes. Los datos se organizaron mediante el programa IRAMUTEQ® y se sometieron a análisis prototípico.
Resultados: El núcleo central de la representación social se vinculó fuertemente con el miedo y el sufrimiento, mientras que la periferia se vinculó con el dolor, la angustia y el odio. Además, se identificaron elementos periféricos en las representaciones, como el silenciamiento, el prejuicio, la intolerancia y la represión. También fue posible observar, a través de marcadores de clase, cómo la violencia influye en los aspectos biopsicosociales de la vida del sujeto, dejando huellas en la infancia que resuenan hasta la actualidad. En este contexto, se observa que la violencia psicológica tiene un impacto más significativo en comparación con otras tipificaciones.
Conclusión: Se asoció el impacto emocional y psicológico a la violencia y se destacan los mecanismos sociales que perpetúan la agresión y dificultan que la población LGBTQIAPNb+ busque apoyo y justicia.
Descriptores:
Minorías Sexuales y de Género; Violencia; Representación Social
INTRODUÇÃO
No Brasil, constitucionalmente, as leis declaram proteção integral e direitos fundamentais concedidos ao povo, estabelecendo que é dever da família e da sociedade assegurar dignidade, respeito e liberdade a todos os cidadãos, sem discriminar qualquer condição que os diferencie da maioria social do país. No entanto, percebe-se ainda uma falha na garantia desses direitos, uma vez que a cultura de violência persiste na sociedade1,2.
A vulnerabilidade e a exposição à violência são mais intensas entre grupos marginalizados e minoritários. Destaca-se, nesse contexto, a população LGBTQIAPNb+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, queers, intersexo, agêneros, assexuados, pansexuais, não-binários e demais identidades). Tal grupo encontra-se particularmente suscetível à exclusão social, ao bullying, ao preconceito e a diferentes formas de violência, resultantes de construções socio-históricas3. No Brasil, entre os anos de 2020 e 2021 os casos de violência contra essa população aumentaram de 9,5% para 20,4%. No período de 2015 a 2021, a maioria das vítimas foram indivíduos negros entre 20 e 39 anos de idade4.
Conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2024), os casos de violência contra a população LGBTQIAPNb+ vêm apresentando um significativo quantitativo de crimes de ódio à orientação sexual e/ou identidade de gênero, apontando um aumento de 41,7% de homicídios e 87,9% de racismo por homofobia ou transfobia, quando comparado ao ano de 2023. Na Paraíba, as notificações de violência contra essa comunidade vêm sendo subnotificadas e o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2021) categoriza os ocorridos como informações não disponíveis, referindo-se à invisibilidade para descrever tais situações5.
Concepções contrárias ao entendimento de identidade de gênero e diversidade, contribuem para a desigualdade social, o preconceito e o aumento de práticas agressivas contra a população LGBTQIAPNb+, sejam letais, explícitas ou sutis, em suas naturezas física, psicológica, sexual ou autoprovocada6, logo, a reação negativa acerca da revelação sobre a orientação sexual e identidade de gênero do indivíduo, impacta negativamente na sua qualidade de vida, bem como ocasiona predisposição de doenças psíquicas, interferindo diretamente no desenvolvimento saudável do sujeito, tornando-se um problema de saúde pública7.
Para compreender esse fenômeno na sua complexidade, tem-se a Teoria das Representações Sociais (TRS), a qual, baseia-se no conhecimento socialmente elaborado, fruto da interação social evidenciado pelo o que é conscientemente compartilhado8. A TRS explica a realidade por meio dos saberes comuns entre os indivíduos compartilhados socialmente (função saber); o que produz a definição das identidades sociais (função identitária), e consequentemente justifica as ações dos indivíduos em sociedade (função de orientação e justificação)9.
O uso das Representações Sociais se destaca na compreensão da dinâmica das relações humanas para promoção dos valores humanos que fundamentam a vida em sociedade, partindo da perspectiva do senso coletivo na explicação dos fenômenos socialmente definidos e suas relações, e na compreensão das percepções causais à violência10.
Dessa forma, o presente estudo justifica-se pela relevância social, científica e política de compreender as Representações Sociais da violência vivenciada pela população LGBTQIAPNb+. A persistência de estigmas, estereótipos e preconceitos tem contribuído para a manutenção de cenários de vulnerabilidade, exclusão e violações de direitos humanos. Ao investigar como essas violências são percebidas e significadas pelas próprias vítimas, busca-se evidenciar não apenas os impactos individuais, mas também os mecanismos socioculturais que sustentam tais práticas. Os resultados poderão oferecer subsídios para a formulação de estratégias de prevenção, acolhimento e proteção que fortaleçam políticas públicas voltadas à promoção da dignidade, da equidade e da cidadania dessa população.
A lacuna observada na produção científica acerca das experiências de violência vivenciadas por pessoas LGBTQIAPNb+ reforça a pertinência deste estudo, especialmente diante de evidências que sinalizam tanto o incremento no número de indivíduos que passam a declarar sua orientação sexual11 quanto o aumento expressivo dos casos de violência direcionados a essa população12). Nesse contexto, o presente estudo busca responder à seguinte questão: Quais os aspectos que permeiam a violência contra essa população na perspectiva dos adultos e as Representações Sociais destas situações para a vítima?
Diante disso, a presente pesquisa tem como objetivo analisar as Representações Sociais da população adulta LGBTQIAPNb+ sobre a violência interpessoal sofrida.
MÉTODOS
Estudo analítico com abordagem qualitativa, sob o referencial teórico-metodológico fundamentado da Teoria das Representações Sociais. A pesquisa qualitativa expressa-se de forma narrativa sendo movida pela concepção expressa dos fenômenos sociais, entendendo seus valores e crenças examinando as peculiaridades do contexto empírico do grupo estudado13.
A fim de manter o rigor metodológico da pesquisa qualitativa, o estudo estruturou-se a partir das recomendações do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ), contemplando os 32 critérios em sua totalidade.
O estudo foi direcionado à população cadastrada no Centro de Referência Estadual dos direitos da população LGBTQIAPNb+ Luciano Bezerra, localizado no município de Campina Grande, Paraíba, Brasil, com 793 cadastros em 2023. A unidade dispõe de atendimento psicossocial e jurídico em casos de violação dos direitos da população supracitada e abrange toda a comunidade do referido município e de outras cidades paraibanas do agreste ao sertão do estado com o objetivo de fortalecer a política de gênero e combater a discriminção e os preconceitos voltados a esta população, promovendo respeito e dignidade a todos.
Os participantes da pesquisa foram selecionados por conveniência utilizando o critério de saturação teórica para definição do tamanho amostral. Em uma amostra por conveniência, o pesquisador realiza a coleta com os participantes que se mostrem mais acessíveis, dispostos e colaborativos para participar do desenvolvimento do estudo, bem como atendam aos critérios de inclusão, sendo os participantes abordados à medida em que comparecem ao local de pesquisa14.
Já a adoção da saturação teórica, consiste na exaustão de elementos narrativos dos entrevistados, sendo que o discurso se torna repetitivo e não são disponibilizados mais dados que delineiem e aprofundem a teorização do estudo15. Na presente pesquisa, a pesquisadora, responsável pela execução das entrevistas, identificou repetição do discurso dos participantes a partir da terceira entrevista executada; contudo permaneceu realizando outras entrevistas para confirmar a repetição das falas. Ao atingir o número de quatorze entrevistas, confirmou-se a repetição dos discursos sobre o tema em todas as perguntas do roteiro semi-estruturado de entrevista. Assim, foram realizadas mais quatro entrevistas para exaurir a temática em estudo totalizando a realização de 18 entrevistas.
Foram considerados como critérios de inclusão: adultos LGBTQIAPNb+ cadastrados no Centro de Referência LGBTQIAPNb+ Luciano Bezerra com faixa etária entre 18 e 59 anos e, como critério de exclusão: instabilidade emocional no momento da coleta de dados e vivência recente de violência interpessoal à abordagem do pesquisador, justificando-se tal critério pela manutenção da integridade mental dos participantes.
A pesquisa foi realizada em abril de 2023 após aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa do Centro de Ensino Superior e Desenvolvimento da Faculdade de Ciências Médicas (CESED/FCM), sob número do parecer 5.969.331 e CAAE 67451423.50000.5175.
Com a supervisão de uma docente e doutora em Enfermagem com experiência em pesquisa qualitativa na área do estudo, a coleta de dados foi conduzida por uma pesquisadora pertencente ao gênero feminino, que no período da realização das entrevistas era graduanda do curso de enfermagem. Ressalta-se que, a referida pesquisadora submeteu-se a uma capacitação anterior ao primeiro contato com o cenário de coleta de dados, sendo instruída sobre a técnica de condução de uma entrevista semi-estruturada e os aspectos éticos intrínsecos a este procedimento de coleta de dados.
Antes da abordagem dos participantes da pesquisa, a pesquisadora estabeleceu contato prévio com a coordenadora do Centro de Referência LGBTQIAPNb+ Luciano Bezerra para acordar o melhor procedimento de abordagem dos colaboradores da pesquisa. Assim, foi construído um Google forms para apresentar a pesquisa, convidar os indivíduos cadastrados no Centro de Referências a participarem da coleta de dados, e agendar o melhor momento para a realização das entrevistas para aqueles que demonstraram interesse em participar.
A partir das respostas ao formulário online, a pesquisadora entrou em contato telefônico com os indivíduos agendando dia e horário para a execução das entrevistas que ocorreram nas instalações do Centro de Referência em ambiente privativo e livre de interferências ou presença de terceiros. Ademais dos contatos via formulário, os indivíduos que buscavam os serviços do Centro de Referência também foram abordados e convidados a participar da pesquisa. Durante o procedimento de coleta de dados não houve desistência ou recusa para participação voluntária. Cabe dizer que nesse estudo não foi realizado teste-piloto.
Após a aceitação voluntária, os participantes foram direcionados para uma local reservado, livre de exposição e sem presença de terceiros, a fim de garantir sigilo e proporcionar um ambiente confortável para as declarações do usuário frente às perguntas da coleta de dados. Nesse momento, foi realizada a exposição do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), onde constam informações éticas do decorrer da pesquisa, bem como o formulário de permissão de gravação de voz, permanecendo uma cópia do termo com o participante da pesquisa. Esse momento também foi utilizado para reafirmar os interesses do pesquisador e da pesquisa, permitindo a livre escolha de participação.
Mediante assinatura dos termos supracitados, iniciou-se a coleta de dados, para tanto, foram utilizados três instrumentos: a) formulário sociodemográfico para coleta de informações gerais sobre os participantes, contendo os seguintes aspectos: idade, identidade de gênero, orientação sexual, estado conjugal, tempo de estado conjugal e escolaridade; b) Teste de Associação Livre de Palavras (TALP) e um c) roteiro semiestruturado de perguntas abertas como guia de condução da entrevista para atender os objetivos da pesquisa.
O primeiro instrumento aplicado foi o formulário sociodemográfico; em seguida ocorreu a aplicação do Teste de Associação Livre de Palavras por meio de um questionário autoaplicável, com o objetivo de estimular a ocorrência livre de palavras por parte do participante, sendo que a ferramenta estimuladora foram imagens. Assim, essa etapa da coleta de dados foi executada em três momentos: no primeiro momento, apresentou-se aos participantes da pesquisa uma imagem em folha A4 que representava a “violência psicológica” e solicitou-se que os mesmos escrevessem as primeiras cinco palavras que viessem à mente a partir da visualização da imagem e logo após enumerassem por ordem de importância sendo 1 a palavra mais importante e 5 a menos importante; no segundo momento, repetiu-se a técnica utilizando uma imagem de “violência física”; e por fim, no terceiro momento, de “violência sexual”.
A Técnica de Associação Livre de Palavras desenvolvida por Jung16 no campo da Psicologia Social tem sido largamente empregada em estudos que se debruçam nas Representações Sociais, uma vez que colabora na identificação das Representações Sociais dos sujeitos, pois acessa a organização psíquica dos indivíduos revelando os desejos fundamentais, elementos de conflitos, evocação de momentos significativos na história de vida e representações sociais de fenômenos a partir da rede associativa dos conteúdos evocados em relação a cada estímulo indutor.
Por fim, realizou-se a entrevista semiestruturada conduzida pelo roteiro de entrevista, a qual foi gravada por meio de gravador de voz mp3. O tempo da coleta de dados durou em média 30 minutos por cada participante, destacando-se que não houve entrevistas repetidas, nem anotações em campo.
Os dados dos formulários foram analisados a partir da estatística descritiva simples para caracterização do conjunto de participantes; as palavras evocadas a partir do TALP e sua hierarquização, foram submetidas à análise prototípica para definição do núcleo e da periferia das representações sociais por meio do software Interface de R pourles Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRAMUTEQ®) utilizando os parâmetros padrão recomendados pelo manual do software17.
A análise prototípica configura-se na construção de um quadro de quatro casas amplamente utilizado para exploração da estrutura das Representações Sociais; uma vez que investiga a relação do objeto de estudo e a Representação Social a partir de dois critérios: frequência da evocação e posição média da evocação de cada palavra. Assim, tem-se quatro quadrantes, o primeiro representa o núcleo central (NC) das Representações Sociais, o segundo a primeira periferia, o terceiro a zona de contraste e o último denominado segunda periferia. No NC encontram-se as palavras com alta frequência de evocação e imediatamente evocadas; na primeira periferia, as palavras de evocação tardia e de alta frequência; na zona de contraste, palavras de frequência baixa e imediatamente evocadas e na segunda periferia, o termos menos frequentes e menos evocados10.
As entrevistas foram transcritas e organizadas em formato de corpus textual compatível com a análise do software IRAMUTEQ®, essas foram submetidas à análise por Classificação Hierárquica Descendente (CHD), a qual transforma o corpus em Unidades de Contexto Elementar (UCE) que se agrupam por homogeneidade e conexão semântica por meio de classes. As Classes são graficamente representadas pelo dendograma que evidencia as palavras mais significativas para cada classe.
A totalidade de achados, do TALP e das entrevistas, foi organizada e interpretada à luz da Teoria das Representações Sociais18 buscando-se evidenciar o núcleo central das representações sociais, ou seja, o elemento homogêneo que constitui a área mais significativa para os indivíduos participantes; e os termos das periferias que complementam o núcleo central, contudo representa a heterogeneidade do grupo, estabelecendo-se assim os elementos centrais e periféricos de formação das representações dos participantes da pesquisa em relação à violência interpessoal.
Os achados não foram enviados para cada participante, mas os pesquisadores explicitaram, no ato da coleta, que cada indivíduo teria acesso integral aos materiais mediante solicitação prévia por intermédio dos meios de comunicação disponibilizados no TCLE.
Para a realização da pesquisa, considerou-se a resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, garantindo a privacidade dos participantes com formulações de códigos para cada entrevista: onde “P” significa participante e o número após esta letra, categoriza a ordem das entrevistas, bem como identidade de gênero; o que garante a preservação da autonomia e permissão do direito de desistência a qualquer momento durante a coleta das informações.
RESULTADOS
A partir dos dados coletados, obteve-se um conjunto de 18 participantes. A variável "idade" foi dividida em três categorias: 18-25, 26-35 e 35+. A maioria dos entrevistados (11; 61,1%) se enquadrou na faixa etária de 18 a 25 anos indicando que o perfil principal do estudo está concentrado em indivíduos adultos jovens. Em relação à identidade de gênero, a maioria dos participantes identifica-se como feminino transgênero (8; 44,4%), e a respeito da orientação sexual, a maioria (7; 38,9%) identifica-se como heterossexual.
A maioria dos entrevistados é solteira (12; 66,7%), enquanto uma parcela significativa (6; 33,3%) é casada ou está em um relacionamento estável. A distribuição em relação à escolaridade revela uma diversidade de níveis educacionais. Nota-se que a maior proporção (7; 38,9%) possui ensino superior incompleto, seguido do ensino médio completo (4; 22,2%) e do ensino superior completo (3; 16,7%).
A análise de ganho mensal dos participantes demonstra que a maioria (10; 55,6%) tem uma renda inferior a um salário mínimo. Observa-se, também, que uma parcela significativa dos participantes (8; 44,4%) está envolvida em empregos informais e 4 (22,2%) declararam não estar trabalhando.
A Figura 1 apresenta o corpus de palavras evocadas pelos participantes, evidenciando que as representações sociais da violência estão centradas no “medo” e na “dor”, associados a experiências de abuso, sofrimento e agressão, enquanto elementos como discriminação, preconceito, humilhação e vulnerabilidade surgem de forma periférica.
Mediante a análise prototípica da imagem, no primeiro quadrante (superior esquerdo) encontram-se as palavras que apresentam frequência acima da média e foram prontamente evocadas, apontando indicadores do núcleo central da representação social dos participantes do estudo sobre a violência interpessoal. Essas palavras são: Medo-Abuso-Sofrimento- Machismo-Agressão, com menor Ordem Média de Evocações (OME).
No segundo quadrante (superior direito) encontra-se a primeira periferia, que é composta por palavras com alta frequência, porém, não foram tão prontamente evocadas: Dor-Angústia-Inútil.
No terceiro quadrante (inferior esquerdo), encontra-se a zona de contraste, que contém elementos que foram prontamente evocados, mas com frequência abaixo da média. Essas palavras são: Vergonha-Estupro-Silênciamento-Espancamento-Socorro-Trauma Preconceito- Sapatão-Intolerância-Revolta-Repressão-Submissa-Insônia-Culpa- Julgamento-Homofobia.
Por fim, no quarto quadrante (inferior direito), encontra-se a segunda periferia, que é composta por elementos com menor frequência e maior ordem de evocação: Ódio-Violência- Ignorância-Tristeza-Tensão-Burra-Traste-Ridícula-Desrespeito-Misoginia-Sangue-Ansiedade-Silêncio-Vulnerabilidade (Figura 2).
Análise lexicográfica das entrevistas com os participantes do Centro Estadual de Referência LGBTQIAPNb+
No que tange à análise lexicográfica do conteúdo das entrevistas, dos 18 participantes da pesquisa, detalha-se a seguinte descrição do corpus textual: número de textos = 18; ocorrências de palavras = 13863; número de segmentos de texto = 382, sendo 274 segmentos selecionados, o que representa um percentual de aproveitamento de 71,73%; número de formas = 2205; e hapax = 697, correspondendo a 5,03% das ocorrências de palavras.
No que concerne à Classificação Hierárquica Descendente (CHD), o conteúdo das entrevistas foi categorizado em cinco classes: Classe 5 com 65 ST (23,72%), Classe 1 com 50 ST (18,25%), Classe 4 com 51 ST (18,61%), Classe 3 com 67 ST (24,45%), Classe 2 com 41 ST (14,96%).
As classes geradas pela análise lexicográfica subdividem-se em cinco, onde se ramificam, a princípio, do corpus denominado de Classe 5, que compreende o impacto da violência interpessoal gerada aos participantes entrevistados. Em seguida, deriva-se a Classe 1, que aponta sobre a violência interpessoal acometida no ambiente familiar, continuamente, a Classe 4 ressalta sobre os aspectos que envolvem as situações de violência interpessoal contra a população LGBTQIAPNb+ na nossa sociedade, ramificando para a Classe 3 que compõe as naturezas de violência que afetam o entrevistado de maneira mais significativa, e por fim, compreende a Classe 2 que expõe a situação atual dos participantes referente às violências sofridas.
Elaborou-se um diagrama para ilustrar de forma mais detalhada as classes, utilizando uma lista de palavras representativas de cada uma delas. O diagrama a seguir, foi construído com base no teste qui-quadrado, usando um ponto de corte de x² > 3,84. O objetivo foi destacar as associações semelhantes dentro de cada classe e as diferenças em relação às outras classes, evidenciando suas características específicas.
Classe 5 - Impactos da violência interpessoal sofrida ao longo da vida
A classe 5 apresentou quatro variáveis descritivas que se ligam fortemente, a saber: gênero feminino transexual X² (32,51), orientação sexual hétero X² (32,47), renda mensal inferior a um salário mínimo X² (10,47) e ensino superior incompleto X² (4,02). Os discursos dos participantes da referida classe, direcionam-se ao impacto que a violência interpessoal ocasionou e ocasiona na sua vida pessoal e social.
Uma das pautas abordadas durante as entrevistas direcionou as experiências de mulheres trans que enfrentam desafios ao utilizar banheiros femininos, como pode ser visto nos trechos abaixo:
Agora eu não consigo entrar em espaço público tipo banheiro de integração, banheiro de supermercado, eu não consigo! Eu vou no masculino, infelizmente. Eu sinto que eu não tô preparada para receber toda essas retrações. (P15, mulher trans) Questões relacionadas à violência na internet, isso me deixa com muito medo de ir no banheiro feminino, só vou no feminino em extrema necessidade, eu fico com medo de sofrer a ameaça de ser expulsa. (P5, mulher trans)
Nessa perspectiva, os participantes expressaram sobre a pressão social sofrida durante sua transição de gênero e as consequências dessa situação resultando no desenvolvimento de ansiedade, depressão até o suicídio:
Então, dentro do trabalho, por exemplo, no teu estudo você tem que mostrar maior capacidade do que você realmente gostaria. (P13, Não binarie) Mas isso acaba pressionando a gente, acaba meio que colocando dentro de uma caixinha, rotulando e levando a outras situações, as consequências... depressão, suicídio, ansiedade, crises[…]. (P15, mulher trans)
Seguindo essa linha de raciocínio, o impacto do isolamento social ocasionado pelas violências sofridas foi enfatizado durante as falas descritas abaixo:
Eu não me comunicava direito com o pessoal e eu não chegava neles e nem eles em mim, qualquer pessoa que me olhava com cara feia, me encarando na sala de aula, eu pensava que aquela pessoa estava me julgando. (P6, mulher trans)
Classe 1- Violência interpessoal sofrida pela pessoa LGBTQIAPNb+ na infância e adolescência
Na classe 1 evocaram as seguintes variáveis associadas: Assexual X² (10,82), Ensino Fundamental Completo X² (5,99) e renda mensal de um a três salários mínimos X² (4,25). As entrevistas da referida classe se direcionaram às vivências de violência interpessoal sofridas durante a infância e adolescência, com impactos significativos na vida dos entrevistados, conforme mostram as falas dos participantes:
São as questões da história de vida, e quando eu penso na minha infância ela acontece no decorrer tanto da infância como da adolescência, com muita violência psicológica, e quando eu sempre respondia perguntas para outras questões voltadas para violência física. (P5, mulher trans) Ah! Representa traumas, traumas que traz pra gente toda vida, quando uma pessoa é violentada assim na infância, geralmente a gente cresce com traumas com mais distúrbios, tipo ansiedade, depressão e aí vai convivendo com isso apesar do tempo. (P9, homem cis)
A presença desses traumas na infância e adolescência é marcada como uma influência negativa na formação da identidade e no bem-estar emocional dos participantes e muitos deles relatam sofrer violência por parte dos pais, responsáveis e familiares, que tinham a responsabilidade de protegê-los. Seguem os relatos:
E até quando chegou aos 13 anos foi quando realmente foi consumado abuso pelo meu próprio pai. Em algumas ocasiões eu dormia no chão e eu acordava com ele em cima de mim alcoolizado e eu era apenas um adolescente. (P2, mulher trans) Só que essas feridas ficam marcada para sempre, o abandono familiar, rejeição dos pais adotivo e as violência sofrida pelos meus próprios pais biológicos, e isso acaba marcando muito, então assim, eu hoje vivo com a saúde psicologicamente muito abalada. (P2, mulher trans)
Classe 4 - Aspectos que envolvem as situações de violência interpessoal a população LGBTQIAPNb+ na sociedade
A classe 4 dispõe dos aspectos que envolvem as situações de violência interpessoal contra a população LGBTQIAPNb+ na sociedade, sem categorização de variáveis descritivas significativas. A classe 4 busca compreender e analisar as violências interpessoais em sua complexidade e multidimensionalidade, permitindo uma visão abrangente dos desafios enfrentados pela comunidade LGBTQIAPNb+ em relação à violência, reconhecendo a importância de considerar a interseccionalidade e as múltiplas formas de opressão que afetam essa população observando-se nas narrativas a seguir:
Eu acho que isso está muito enraizado na nossa cultura, muito incentivado pela religião principalmente em relação à religião cristã. (P7, homem trans) Eu acho que tá muito relacionado a questões de ódio, eu acho que não é nem falta de informação, porque informação a gente tem ,a gente tem muita informação! são coisas que eu identifico. (P5, mulher trans) Ah, acho que é o ódio, o preconceito, a não aceitação acaba envolvendo, nós somos da população lgbt especificamente, nós mulheres trans, travestis...somos marcada por esse preconceito na sociedade de forma bem nítida. (P2, mulher trans)
Classe 3 - Violências sofridas pela a população LGBTQIAPNb+
A classe 3 corresponde às tipificações de violência que afetam de forma significativa a vida do participante, envocando as variáveis descritivas correspondentes: panssexual (20,05) X²; bissexual X² (5,88) e renda mensal abaixo de um salário mínimo X² (4,23).
Essa classe aborda as diversas formas de violência que esses indivíduos enfrentam e as que produziram maiores marcas. Isto posto, justifica-se nas narrativas abaixo:
Violência psicológica, também acho que isso é a mais complicada... você lidar com as vozes que você escutou, com as palavras que você escutou, fica ecoando dentro de você. (P17, mulher cis) A psicológica! eu já sofri diversos tipos, de sexual a física como agressão, mas o que me chocou mais foi a questão psicológica. (P10, não binarie) Eu acredito que a psicológica porque a física cura, isso deixa essa corda na sua mente também, mas o psicológico molda como você enxerga as coisas e como você se enxerga. (P14, não binarie) Eu creio que a psicológica, se a gente fosse caracterizar em ordem, a psicológica seria a primeira. (P15, mulher trans)
Classe 2 - Situação atual referente às vivências das violências sofridas
A classe 2 compreende a situação atual das vítimas sobre as vivências de violência interpessoal sofridas, sem evocações de variáveis descritivas significativas. Nesse contexto, os relatos se concentram nas vivências individuais das vítimas e nas repercussões atuais dessas experiências em suas vidas como evidenciado a seguir:
Atualmente eu não me isolo, em alguns momentos sim, mas tipo tenho medo de alguma coisa e não faço, mas também hoje eu sinto a falta do que eu poderia ter vivido. (P5, mulher trans) Hoje eu estou bem, mas eu ainda tenho um pouquinho de medo em questão, até me relacionar com pessoas eu já fico meio assim. Em geral, até pra sair pra as coisas eu fico um pouco de medo. (P12, mulher trans) Hoje, agora, nesse momento, eu me sinto como se eu tivesse perdido coisas da minha vida porque eu deixei de viver muitas coisas e vivi muitas coisas por conta dessas questões de violência. (P5, mulher trans) Eu me sinto uma pérola! Eu estou tentando resgatar, eu resgatei tudo, estou tentando resgatar tudo, todo esse sofrimento e transformar em coisas boas. Hoje eu estou atualmente trabalhando, hoje eu estou estudando na faculdade e estou tentando esquecer. (P2, mulher trans)
DISCUSSÃO
A TRS é uma abordagem composta por construções mentais e coletivas que os sujeitos utilizam para compreensão e interpretação da sociedade, formadas a partir da interação entre os indivíduos e o contexto sociocultural em que estes estão inseridos. Essas representações são constituídas por ideias, crenças, valores, imagens e símbolos que permitem que as pessoas atribuam significado e organizem as informações relacionadas a determinados fenômenos sociais. Todavia, as representações sociais também podem ser influenciadas por estereótipos, preconceitos e ideologias, podendo reforçar desigualdades e discriminações10.
Por esse ângulo, o estudo traz a compreensão de como as crenças, valores e atitudes compartilhados socialmente influenciam a percepção e o tratamento dado à população LGBTQIAPNb+. Reconhecendo as representações sociais na transformação dessas percepções e construção de uma sociedade mais igualitária e inclusiva para todos, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero.
Na análise prototípica adotada à luz da TRS, observou-se que no núcleo central a palavra “Machismo” foi interligada e associada à imagem de violência interpessoal apresentada aos participantes. A comunidade LGBTQIAPNb+ desde muito cedo aprende a restringir expressões e comportamentos naturais que possam expor os seus integrantes a situações perigosas, especialmente em contextos nos quais enfrentam hierarquia de poder sexual. O sistema patriarcal sustenta o machismo e reforça que a heterossexualidade e a masculinidade são superiores a qualquer outra expressão de gênero. Além disso, a interseccionalidade do machismo intensifica as naturezas de violência e opressão enfrentadas pelas pessoas que são alvos dessas agressões19.
A primeira periferia com evocação das palavras “Dor” e “Angústia” interliga diretamente com o núcleo central nas palavras “Medo” e “Sofrimento”, uma vez que remete aos sentimentos e emoções do sujeito. Essas emoções são constantemente sentidas por indivíduos da comunidade LGBTQIAPNb+ como consequência direta das agressões físicas, verbais e psicológicas sofridas.
Na zona de contraste, os participantes evocam o silenciamento, preconceito, intolerância e repressão associados à violência interpessoal sofrida pela população LGBTQIAPNb+. Partindo da perspectiva das representações sociais, pode-se compreender como resultado das representações de forma negativa, estereotipada e estigmatizante presente na sociedade.
As representações sociais associadas à segunda periferia enfatizam os estereótipos ligados ao preconceito e discriminação. O ódio e a violência evocados são alimentados a partir da reprodução dessas representações, uma vez que a população LGBTQIAPNb+ se encontra nas margens da vulnerabilidade, sendo levada à exclusão social, o que dificulta seu acesso a direitos básicos e limita a busca de empregos e progressão na carreira profissional20.
A educação desempenha um papel crucial no desenvolvimento individual, abrindo portas para oportunidades de emprego. No entanto, a violência e o estigma enfrentados por esses indivíduos causam maiores dificuldades de permanência escolar, provocando evasão e limitando o acesso a uma educação de qualidade, ocasionando consequências relacionadas à exclusão profissional do sujeito, resultando em menores oportunidades de emprego e menor renda financeira21,22.
Dessa forma, essa lacuna educacional, reflete diretamente na dificuldade de ingresso e permanência no mercado de trabalho. Acrescenta-se ainda, que as pessoas trans enfrentam mais dificuldades ao buscar trabalhos formais em comparação com os demais grupos da população LGBTQIAPNb+. Estereótipos e estigmas associados à identidade de gênero trans, muitas vezes resultam em barreiras de acesso ao emprego, limitando suas oportunidades profissionais e contribuindo para a sua vulnerabilidade ocupacional. Esse ciclo de exclusão social não apenas reduz a independência financeira e o acesso a condições dignas de vida, mas também retroalimenta a vulnerabilidade que impacta a expectativa de vida da comunidade21,23).
Estudos revelam que pessoas trans enfrentam uma série de desafios que contribuem para a baixa expectativa de vida, tendo uma média de 35 anos, enquanto da população brasileira cisgênero é de 75 anos. As principais razões para a baixa expectativa de vida dessa população são a violência, a discriminação e o estigma social, sendo que este último motiva a dificuldade ao acesso a serviços de saúde adequados, incluindo cuidados médicos à sua identidade de gênero21,22.
Os resultados do estudo sobre os impactos da violência interpessoal ao longo da vida (classe 5), trazem relatos dos participantes sobre o medo e receio ao entrar no banheiro feminino e sentir-se julgada pelas outras pessoas, bem como a sensação de não estar preparada para lidar com as reações negativas da sociedade.
O uso do banheiro público é uma atividade que não contém impasses para grande parte das pessoas. No entanto, para indivíduos trans e travestis, essa simples ação pode se tornar fonte de aflição, uma vez que frequentemente são confrontados com questionamentos sobre sua imagem. Essa realidade é raramente ou nunca experimentada por pessoas cisgênero heterossexuais, pois se enquadram nos padrões da norma cisheteronormativa estabelecida24.
Conviver constantemente com o medo pode ter um impacto significativo no bem-estar psicológico e emocional das pessoas23. Visto que, o medo é uma experiência comum para muitas pessoas trans devido à ameaça de violência, discriminação e rejeição por parte da sociedade18. Essa emoção vivenciada constantemente pode levar a altos níveis de estresse, ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental. Além disso, essa situação pode restringir a comunicação e limitar as oportunidades de desenvolvimento pessoal e social25.
Nesse aspecto, os resultados desse estudo revelam que o medo também se mostrou no centro das representações sociais, tendo esta emoção como o núcleo central das representações que configuram a violência.
Pesquisa revela que a comunidade LGBTQIAPNb+ enfrenta níveis elevados de depressão e ansiedade, em comparação com a população em geral, o que indica a vulnerabilidade a transtornos mentais neste público, associados não apenas à depressão e ansiedade, mas também a pensamentos suícidas, tentativas de suicídio, estresse psicológico, medos, sentimentos de culpa e desesperança26.
Dessa forma, esses sofrimentos psíquicos não se devem exclusivamente à orientação sexual ou à identidade de gênero assumida, mas sim ao fato de pertencer a um grupo social estigmatizado, sujeito a diversos estressores relacionados à sexualidade, como rejeição, discriminação e violência26.
Durante o percurso da vida, as experiências vivenciadas na infância (classe 1), causam impactos significativos no amadurecimento emocional, bem como nas interações sociais do sujeito ao longo da sua trajetória. As impressões formadas durante a infância moldam as expectativas de vínculo social, influenciando as relações interpessoais em diferentes fases da vida7.
A população LGBTQIAPNb+ enfrenta diversos tipos de impactos durante a infância e adolescência, como traumas sociais, psicológicos, emocionais e de identidade, devido à discriminação, estigmatização e rejeição que podem afrontar no ambiente familiar7). É importante notar que a expressão da identidade de gênero na infância e adolescência pode ser um processo complexo, na qual o sujeito explora sua identidade e busca entender quem é.
Para aqueles que não se enquadram nas expectativas de gênero tradicionais, a violência pode agravar os desafios enfrentados nesse processo, pois, a exposição à violência nessa fase por causa de sua expressão de gênero, ou por serem percebidos como diferentes do padrão heteronormativo, leva a uma série de consequências negativas como o sentimento de vergonha, baixa autoestima, problemas psíquicos e isolamento, além de enfrentar uma reação hostil da família27.
As narrativas expostas pelos participantes, revelam experiências de violência interpessoal vivenciadas em seu ambiente intrafamiliar que ainda ressoam consequências no presente. A rejeição, o abandono familiar e a violência perpetrada pelos pais também são citados como fatores que impactaram negativamente sua saúde psicológica.
Para as pessoas trans, a rejeição familiar pode ser especialmente mais prejudicial. Pesquisa indica que, em média, aos 13 anos de idade, travestis e mulheres transexuais enfrentam o doloroso cenário de serem expulsas de casa por seus pais. O abandono familiar pode se manifestar de diversas maneiras, desde a expulsão do lar até a falta de apoio emocional e financeiro23.
Este fator significativo contribui para a vulnerabilidade social da população LGBTQIAPNb+. O processo de aceitação e apoio por parte da família desempenha um papel fundamental no bem-estar emocional e no desenvolvimento saudável dos indivíduos, especialmente durante a infância e a adolescência27.
Dessa forma, o fato de haver mínimo avanço no reconhecimento da identidade de gênero e orientação sexual das pessoas LGBTQIAPNb+ afeta diretamente a forma como as famílias enxergam e compreendem seus membros, o que leva ao abandono afetivo, pois algumas famílias não conseguem reconhecer que estes são merecedores de amor, respeito e cuidado, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero22.
Das falas evidenciadas, entre os aspectos que envolvem as situações de violência interpessoal à população LGBTQIAPNb+ na sociedade (classe 4), observam-se casos em que a intolerância religiosa e a LGBTfobia se encontram, resultando em violência física, emocional ou psicológica contra esses indivíduos por parte de pessoas com motivações religiosas.
A justificativa para esses atos violentos muitas vezes é baseada em interpretações religiosas e culturais que condenam a homossexualidade e a identidade de gênero diversa. Essas interpretações extremistas favorecem um clima de hostilidade e intolerância, colocando em risco a segurança e o bem-estar das pessoas LGBTQIAPNb+28.
Outros participantes, apontam o ódio como fator motivador das agressões e ressaltam que a violência contra a comunidade supracitada é mais do que apenas uma questão de falta de conhecimento, uma vez que a sociedade atual está rodeada de fontes de sapiência.
Os crimes motivados pelo ódio contra a população LGBTQIAPNb+, são atos violentos cometidos especificamente por repulsa à orientação sexual, identidade de gênero ou expressão de gênero de um sujeito20. Nesse contexto, evidencia-se reconhecer que os crimes de ódio não são incidentes isolados, são reflexos de uma cultura de intolerância e discriminação enraizada na sociedade.
No geral, as falas descrevem que os aspectos que rodeiam a prática da violência interpessoal contra a comunidade LGBTQIAPNb+ na sociedade, tem origem multifacetada, envolvendo elementos culturais, religiosos, emocionais e comportamentais.
Por esse ângulo, profissionais de saúde como parte da sociedade, têm o papel fundamental de promover a saúde e acolher adequadamente a população independentemente da orientação sexual e identidade de gênero.
Entretanto, no cenário de atendimento à população LGBTQIAPNb+ alguns profissionais podem perpetuar estigmas e preconceitos por meio de discriminação, estigmatização ou tratamento inadequado. Dessa forma, é essencial que os profissionais de saúde estejam conscientes de seus próprios preconceitos e trabalhem para fornecer cuidados compassivos, sem julgamentos, por meio de formação e educação sobre as necessidades específicas desta população26.
Dentre as violências sofridas (classe 3), a violência psicológica é retratada como a mais incidente na comunidade LGBTQIAPNb+, apresentando consequências significativas no biopsicossocial do sujeito29. As vítimas participantes desse estudo, relatam enfrentarem problemas de saúde mental como consequência dessa violência, além de se sentirem isoladas socialmente, pois afeta seus relacionamentos interpessoais e a autoaceitação referente à sua identidade de gênero, podendo levar o indivíduo a comportamentos autodestrutivos.
A violência psicológica tem um impacto significativo na construção da identidade e no desenvolvimento pessoal das pessoas LGBTQIAPNb+ pois pode levar à internalização de estigmas e preconceitos, fazendo as pessoas duvidarem de si mesmas, sentirem vergonha de sua orientação sexual ou identidade de gênero e negar sua autenticidade. Isso pode resultar em um processo de autonegação e repressão, prejudicando a saúde emocional e impedindo o pleno desenvolvimento do seu potencial7.
Pelo ângulo da situação atual referente às vivências das violências sofridas (classe 2), alguns relatos enfatizam a transformação pessoal que ocorreu após passarem por situações de violência, apontando um processo de amadurecimento e uma busca pela força interior. Nessa perspectiva, é exposta a necessidade de lidar com traumas e cicatrizes emocionais deixadas pela violência interpessoal. Em contrapartida, nota-se a presença de medo na interação com outras pessoas, resultado da violência sofrida.
Também foram abordadas as consequências de perdas de oportunidades e experiências de vida, o sentimento de ter deixado de viver e a sensação de ter sido prejudicado negativamente em suas fases da vida. No entanto, participantes afirmam que estão se recuperando, resgatando-se e transformando o sofrimento em coisas positivas.
Os serviços de apoio desempenham um papel crucial na vida das pessoas LGBTQIAPNb+, com espaço seguro e acolhedor para suporte e orientação29. O Centro Estadual de Referência LGBTQIAPNb+ Luciano Bezerra é um exemplo, pois conta com uma equipe multidisciplinar especializada que proporciona apoio emocional, assistência jurídica, orientação psicológica e socialização que ajudam não apenas a resgatar a autoestima e a confiança, mas também desempenham um papel vital na construção de uma rede de apoio que promove o bem-estar e a inclusão.
A importância da rede de serviços para a população LGBTQIAPNb+ não pode ser subestimada. Além dos centros de referência, existem outros recursos valiosos, como grupos de apoio e organizações não governamentais, desde aconselhamento emocional até acesso a cuidados de saúde especializados, incluindo atendimento médico, terapia hormonal e procedimentos de transição de gênero.
É importante considerar também as limitações do estudo. A pesquisa se baseou em amostras específicas e pode não representar toda a diversidade da população LGBTQIAPNb+, uma vez que em sua maioria, os participantes foram transgênero, sendo necessário estudos com amostra diversificada que representem a composição da referida comunidade. Além disso, as representações sociais são influenciadas por contextos socioculturais específicos, o que ressalta que os resultados dizem respeito à realidade investigada no presente estudo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As representações sociais da população LGBTQIAPNb+ sobre a violência interpessoal sofrida tem um núcleo central fortemente ligado ao medo e ao sofrimento, refletindo o impacto emocional e psicológico associado a essas experiências, que demonstra também elementos periféricos como o silenciamento, o preconceito, a intolerância e a repressão. Tais elementos evidenciam os mecanismos sociais que perpetuam a violência e dificultam a busca por apoio e justiça por parte da população LGBTQIAPNb+.
Os marcadores de classe também emergiram como componentes relevantes nas representações sociais da violência interpessoal sofrida pela população LGBTQIAPNb+. Foi possível observar como a violência afeta biopsicossocialmente a vida de um sujeito, deixando marcas na infância que ressoam até os dias atuais.
É importante ressaltar que a violência psicológica se mostrou como a produtora de impactos na vida atual, afetando os sujeitos de maneira mais significativa em comparação às demais violências, pois molda a forma como as pessoas enxergam o mundo e a si mesmas, em razão de provir da sociedade, da família, do trabalho e dos espaços comunitários como um todo.
Por fim, ressalta-se a importância contínua da pesquisa e do diálogo interdisciplinar na compreensão da violência interpessoal contra a população LGBTQIAPNb+. A partir dessas bases, será possível avançar no desenvolvimento de estratégias efetivas de prevenção, combate e suporte a violências, visando a construção de uma sociedade mais igualitária, inclusiva e respeitosa para todas as pessoas, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero.
Agradecimentos
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
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