Open-access Propriedades psicométricas da versão brasileira da Factors Influencing Adherence to Standard Precautions Scale

RESUMO

Objetivo:  Avaliar as propriedades psicométricas da versão brasileira da Factors Influencing Adherence to Standard Precautions Scale.

Método:  Estudo psicométrico envolvendo 407 profissionais de enfermagem de um hospital de Minas Gerais, Brasil. A coleta de dados ocorreu entre agosto de 2022 e setembro de 2023, por meio de um questionário sociodemográfico e da versão brasileira da referida escala. Para análise das propriedades psicométricas do instrumento, foram adotadas a validade baseada na estrutura interna, utilizando-se a análise fatorial confirmatória; e a fidedignidade, por meio do teste-reteste e da consistência interna.

Resultados:  A análise fatorial confirmatória revelou um modelo adequadamente ajustado à estrutura dimensional. Os domínios apresentaram cargas fatoriais variando de 0,31 a 0,73 para liderança, 0,345 a 0,83 para justificativa, 0,12 a 0,69 para cultura e prática organizacional, 0,37 a 0,84 para dicas contextuais e 0,52 a 0,80 para julgamento. No que se refere à fidedignidade, observou-se boa correlação quanto aos domínios do instrumento, com intervalo de correlação intraclasse (0,48 a 0,95) e consistência interna (0,52 a 0,80).

Conclusão:  A versão brasileira da escala revelou um modelo ajustado à estrutura dimensional proposta pelos autores australianos, o qual se apresentou válido, estável e fidedigno para identificar os fatores que influenciam a adesão às precauções-padrão de profissionais de enfermagem.

Descritores:
Enfermagem; Equipe de enfermagem; Estudos de validação; Precauções universais; Psicometria

ABSTRACT

Objective:  To evaluate the psychometric properties of the Brazilian version of the Factors Influencing Adherence to Standard Precautions Scale.

Method:  Psychometric study, conducted in a hospital in Minas Gerais, with 407 nursing professionals. Data collection took place between August 2022 and September 2023 using a sociodemographic questionnaire and the Brazilian version of the scale. To characterize the sample, measures of central tendency and dispersion were used. Regarding the psychometric properties of the instrument, validity evidence methods based on the internal structure were adopted, using confirmatory factor analysis and reliability, through test-retest and internal consistency.

Results:  The confirmatory factor analysis revealed a model that was adequately fit to the dimensional structure. The domains showed factor loadings ranging from 0.31 to 0.73 for leadership, 0.345 to 0.83 for justification, 0.12 to 0.69 for organizational culture and practice, 0.37 to 0.84 for contextual cues, and 0.52 to 0.80 for judgment. Regarding reliability, good correlation was observed for the instrument's domains, with an intraclass correlation range (0.48 to 0.95) and internal consistency (0.52 to 0.80).

Conclusion:  The Brazilian version of the scale revealed a model adjusted to the dimensional structure proposed by the Australian authors, proving to be valid, stable and reliable to identify the factors that influence adherence to standard precautions among nursing professionals.

Descriptors:
Nursing; Nursing Team; Validation Study; Universal Precautions; Psychometrics

RESUMEN

Objetivo:  Evaluar las propiedades psicométricas de la versión brasileña de la Factors Influencing Adherence to Standard Precautions Scale.

Método:  Estudio psicométrico, realizado en un hospital de Minas Gerais, con 407 profesionales de enfermería. La recolección de datos se realizó entre agosto de 2022 y septiembre de 2023 mediante un cuestionario sociodemográfico y la versión brasileña de la escala. Para caracterizar la muestra se utilizaron medidas de tendencia central y de dispersión. En cuanto a las propiedades psicométricas del instrumento, se adoptaron métodos de evidencia de validez basados en la estructura interna, utilizando análisis factorial confirmatorio y confiabilidad, mediante test-retest y consistencia interna.

Resultados:  El análisis factorial confirmatorio reveló un modelo adecuadamente ajustado a la estructura dimensional. Los dominios presentaron cargas factoriales que variaron de 0,31 a 0,73 para liderazgo, de 0,345 a 0,83 para justificación, de 0,12 a 0,69 para cultura y práctica organizacional, de 0,37 a 0,84 para señales contextuales y de 0,52 a 0,80 para juicio. En cuanto a la confiabilidad, se observó buena correlación entre los dominios del instrumento, con un rango de correlación intraclase (0,48 a 0,95) y consistencia interna (0,52 a 0,80).

Conclusión:  La versión brasileña de la escala reveló un modelo ajustado a la estructura dimensional propuesta por los autores australianos, demostrando ser válido, estable y confiable para identificar los factores que influyen en la adhesión a las precauciones estândar en profesionales de enfermería.

Descriptores:
Enfermería; Grupo de Enfermería; Estudio de Validación; Precauciones Universales; Psicometría

INTRODUÇÃO

As Precauções-Padrão (PP) representam um conjunto de medidas adotadas universalmente, com o intuito de proteger os profissionais de saúde dos riscos biológicos oriundos de suas atividades laborais1. As PP também são responsáveis por garantir a segurança do paciente, uma vez que sua adesão por parte dos profissionais reduz as Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS)2,3, proporcionando, assim, cuidados mais seguros.

As PP contemplam práticas essenciais, que incluem a Higienização das Mãos (HM), o Uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), o descarte correto de materiais perfurocortantes, a limpeza e desinfecção de superfícies, as práticas seguras de injeção e a etiqueta de tosse, devendo ser adotadas a todos os indivíduos, independentemente de diagnóstico suspeito ou confirmado de doenças infecciosas4,5. Entretanto, mesmo após mais de 20 anos de sua publicação, pesquisas revelam que os profissionais de saúde ainda apresentam desconhecimento, desvalorização e baixa adesão quanto à utilização das PP6-8.

Estudos encontrados na literatura apontam que excesso de confiança, crenças pessoais, carga horária excessiva de trabalho e conhecimento insatisfatório podem ser barreiras para a utilização dessas medidas de conformidade6,9. Em contrapartida, autores de uma revisão sistemática apresentaram estratégias facilitadoras relacionadas ao aumento da adesão às PP, como o apoio da gestão, a cultura no ambiente de trabalho, o treinamento, a comunicação, o espaço físico, o anseio em prestar assistência de qualidade aos pacientes e a confiança na utilização de EPI10.

Apesar do conhecimento desses aspectos, ainda existe a necessidade de melhor análise e aprofundamento sobre a compreensão desses fenômenos, a partir do diagnóstico em diferentes contextos de trabalho11. Com o intuito de mensurar a adesão dos profissionais de saúde a essas medidas, diversos instrumentos têm sido desenvolvidos e validados para outros idiomas e culturas12,13, inclusive para o português do Brasil12-14.

Considerando-se que a maioria desses instrumentos aborda o cumprimento às medidas de conformidade13,14, a Factors Influencing Adherence to Standard Precautions Scale (FIASPS) foi criada na Austrália no ano 2019, com o intuito de avaliar os fatores que influenciam a equipe de Enfermagem a seguir as normas de PP, abordando os conceitos de liderança, justificativa, cultura e prática organizacional, dicas contextuais e de julgamento15.

Para sua criação e validação, os autores australianos utilizaram técnicas recomendadas na literatura que incluem a validade de conteúdo e a validade baseada na estrutura interna16, sendo, portanto, um instrumento psicometricamente robusto15. Devido aos seus aspectos métricos consistentes, outros autores também aplicaram a escala a uma amostra de profissionais de saúde de um hospital universitário do distrito de Palpa, Nepal17.

Além do mais, compreendendo a escassez de ferramentas que avaliem os fatores que influenciam a adesão às PP especificamente em populações de estudantes de Enfermagem, a FIASPS-SV foi desenvolvida, tornando-se instrumento com confiabilidades internas boas a aceitáveis e adequadas propriedades psicométricas18. Posteriormente, essa versão para estudantes também foi aplicada a uma amostra na cidade de Ras Al Khaimah, nos Emirados Árabes Unidos19.

Nesse contexto, observando-se sua robustez e estabilidade, o instrumento foi adaptado para o português do Brasil, sendo denominado “Escala dos fatores que influenciam na adesão às Precauções-Padrão” (FIASPS-versão brasileira)20, mas ainda carece de avaliação das propriedades psicométricas. Dada a importância da validade e confiabilidade de instrumentos de medida, validar essa escala permitirá não só avaliar os fatores que influenciam o não cumprimento às PP, mas, principalmente, nortear programas de segurança, promover a prevenção de acidentes ocupacionais envolvendo material biológico e melhorar a segurança do paciente.

Sendo assim, neste estudo o objetivo foi avaliar as propriedades psicométricas da versão brasileira da Factors Influencing Adherence to Standard Precautions Scale.

MÉTODO

Estudo psicométrico, transversal, de caráter quantitativo, realizado em um hospital público e de ensino de uma cidade do estado de Minas Gerais, Brasil. Essa instituição possui 302 leitos e é referência em atendimento de média e alta complexidades para 27 municípios, contando com serviços ambulatoriais, de internação, urgência e emergência, regulação, apoio diagnóstico e terapêutico, consultórios itinerantes e vigilância em saúde.

Esta pesquisa foi desenvolvida no período de agosto de 2022 a setembro de 2023, e a amostra foi constituída por seleção estratificada envolvendo profissionais da equipe de Enfermagem. Para o cálculo amostral, foram considerados cinco a dez participantes respondentes para cada parâmetro estimado na Análise Fatorial Confirmatória (AFC) do instrumento. Tais parâmetros fazem parte do cálculo da AFC e têm como intuito analisar se o modelo estatístico é capaz de reproduzir as correlações observadas na escala original21.

Quanto à instituição de saúde, ela dispõe de 851 profissionais da equipe de Enfermagem, sendo reputado um número mínimo de 407 participantes para compor a amostra do estudo. No momento da coleta de dados ocorreram 40 recusas, sendo todas substituídas por outros profissionais.

No cálculo da amostra para análise de fidedignidade teste-reteste, considerou-se um Coeficiente de Correlação Intraclasse (ICC) = 0,9 entre os escores da escala, admitindo-se que esse coeficiente não seja inferior 0,7 para um poder de 90%, em que foi considerado um nível de significância α = 0,05. Ao utilizar o aplicativo PASS, versão 24, com esses valores apriorísticos, obteve-se um tamanho amostral mínimo de n = 22 participantes.

Como critérios de seleção, foram escolhidos enfermeiros, técnicos ou auxiliares de Enfermagem que atuavam na assistência direta no período de coleta de dados. Foram excluídos aqueles profissionais que estavam afastados por tempo indeterminado ou que ocupavam cargos de gestão.

A coleta de dados foi realizada pela pesquisadora, a qual possui graduação em enfermagem, mestrado em ciências da saúde e no momento de realização da pesquisa, era doutoranda do programa de pós-graduação de uma Instituição de Ensino Superior (IES), e por três discentes do curso de Enfermagem da IES em foco. Todos os alunos foram capacitados pela pesquisadora, por meio de encontro presencial para apresentação do instrumento, detalhamento da abordagem ao participante, privacidade e esclarecimentos de possíveis dúvidas à respeito dos instrumentos. Em seguida foi obtida uma lista, no Departamento Pessoal, com a relação de todos os profissionais de Enfermagem do hospital em estudo. Posteriormente, os participantes sorteados e selecionados foram abordados presencialmente durante seu turno de trabalho, em um local privado, onde foram convidados a participar da pesquisa. Os últimos 22 respondentes foram esclarecidos que seriam novamente convidados a participar do estudo na etapa do reteste, respeitando-se o intervalo mínimo de quatro semanas.

Os profissionais que se recusaram participar do reteste foram substituídos, também via sorteio, por outros colegas. Aqueles que aceitaram participar responderam ao instrumento no momento da abordagem ou em outra oportunidade previamente agendada pela equipe de coleta de dados. Após esclarecimentos quanto aos objetivos, sigilo, anonimato e aceite em participar do estudo, todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), a escala e o questionário sociodemográfico (sexo, idade, estado civil, categoria profissional, local de trabalho, experiência na função, capacitação e treinamento a respeito das PP).

A FIASPS-versão brasileira foi autoaplicável no próprio local de trabalho, em uma sala privativa, com duração média de 15 minutos de resposta para cada participante.

A escala aplicada trata-se de um instrumento, do tipo Likert, de origem australiana, que foi adaptado transculturalmente para o português do Brasil20. O instrumento contempla 29 itens, com cinco opções de resposta variando de zero (de forma alguma), um (um pouco), dois (de alguma forma), três (bastante) e quatro (muito), distribuídos em cinco domínios: liderança (6 itens), julgamento (5 itens), cultura e prática organizacional (5 itens), dicas contextuais (6 itens) e justificativa (7 itens)20.

Quanto aos domínios, a liderança refere-se a itens que englobam o enfrentamento do profissional com outros colegas que não se aderiram às PP. O julgamento está relacionado a atitudes de enfermeiros que se sentem capazes de decidir quando a usar ou não os EPI, com base nos riscos clínicos para eles15.

A cultura e prática organizacional se referem a questões dentro da própria instituição que dificultam a utilização das PP. O domínio dicas contextuais está relacionado a itens que podem auxiliar na ação, como a proximidade dos EPI, que pode ser uma sugestão para seu uso; e, por fim, a justificativa, que diz respeito ao fato de o profissional justificar o motivo da não adesão às normas de PP15.

O instrumento não possui ponto de corte, conforme apontado pelos autores australianos15, variando a sua pontuação de acordo com cada domínio, ou seja, para liderança (0 a 24), dicas contextuais (0 a 24), cultura e prática organizacional (0 a 20), justificativa (0 a 28) e julgamento (0 a 20). Assim, dos três primeiros domínios se esperam pontuações maiores e do restante, menores.

Para caracterização da amostra foi utilizada a estatística descritiva com medidas de tendência central (média, mediana) e de dispersão (desvio-padrão). Para a análise das propriedades psicométricas do instrumento, foi adotado o modelo atual proposto16.

Inicialmente, para obtenção de um modelo consistente, com propriedades psicométricas satisfatórias e que mantivesse a estrutura do instrumento original, foi empregada a técnica de AFC, com evidências de validade baseada na estrutura interna.

Em relação à AFC, os índices de ajuste do modelo foram avaliados e aceitos utilizando os coeficientes de ajustes absolutos e incrementais. São eles: Teste qui-quadrado; Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA), considerando adequados valores entre 0,05 e 0,0822; Goodness of Fit Index (GFI), variando de 0 (ausência de ajuste) a 1 (ajuste perfeito), não havendo ponto de corte; Tucker Lewis Index (TLI); e Comparative Fit Index (CFI), sendo considerados valores acima de 0,9 para cada índice21.

A fidedignidade da escala foi analisada por meio do teste-reteste e da consistência interna, utilizando-se o ICC e o alfa de Cronbach, respectivamente23. O intervalo entre as aplicações do teste e o reteste foi de quatro semanas, respeitando-se o tempo realizado pelos autores do instrumento original.

Os dados coletados foram duplamente digitados em uma planilha do Excel, bem como verificados possíveis erros de digitação. Posteriormente, foram analisados pelo software Statistical Package for the Social Sciences (IBM® SPSS) versão 23.0 e AMOS versão 24.0.

Quanto aos aspectos éticos, foi obtida a autorização para validação da FIASPS pelos autores do instrumento original. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição Proponente, com o número de Parecer 5.536.112. Os participantes foram esclarecidos quanto ao seu consentimento voluntário em fazer parte da pesquisa e todos os aspectos éticos foram respeitados

RESULTADOS

Na avaliação das propriedades psicométricas da FIASPS-versão brasileira, participaram do estudo 407 (100,0%) profissionais da equipe de Enfermagem, sendo 320 (78,6%) do sexo feminino, 172 (42,3%) com idade entre 31 e 40 anos; e casadas(os) 184 (45,2%). Esses participantes eram, em sua maioria, 263 (64,6%) técnicos(as) de enfermagem que trabalhavam nas enfermarias, incluindo os setores de clínicas médica e cirúrgica, maternidade e pediatria, com 181 participantes (44,5%), com 11 a 15 anos de serviço; e 117 (28,8%) com experiência na função.

Ao serem perguntadas(os) se a instituição promovia capacitação ou treinamento a respeito das PP, grande parte respondeu que sim, 368 (90,4%) e 356 (87,5%), respectivamente. A Tabela 1 apresenta as respostas dos profissionais de Enfermagem quanto aos itens da escala, separadas pelos domínios.

Tabela 1 -
Distribuição das frequências das respostas dos profissionais de Enfermagem quanto aos itens da FIASPS-versão brasileira. Uberaba, Minas Gerais, Brasil, 2022-2023

Em relação aos cinco domínios do instrumento, a Tabela 2 apresenta as medidas de tendência central e dispersão.

Tabela 2 -
Medidas de tendência central e variabilidade para os domínios e escore total da FIASPS-versão brasileira. Uberaba, Minas Gerais, Brasil, 2022-2023

No que se refere à estrutura interna da escala, essa medida foi avaliada por meio da AFC, utilizando-se os índices de ajuste e as medidas de fidedignidade (teste-reteste e consistência interna). Na Figura 1 são apresentados os resultados desta análise para obtenção da validade de constructo dimensional do instrumento, demonstrando que o modelo testado incorpora uma estrutura penta fatorial contendo as variáveis latentes, indicadas pelas elipses. Os itens estão apresentados pelos retângulos da Figura 1.

Figura 1 -
Representação diagramática da análise fatorial confirmatória da FIASPS-versão brasileira. Uberaba, Minas Gerais, Brasil, 2022-2023

Essa Figura apresenta a estrutura fatorial da FIASPS-versão brasileira, realizada por meio do aplicativo AMOS, em que estão indicados o coeficiente de regressão e as cargas fatoriais dos cinco domínios.

No que se refere às cargas fatoriais para a liderança, os valores foram 0,31 a 0,73; justificativa de 0,45 a 0,83; cultura e prática organizacional entre 0,12 e 0,69; dicas contextuais de 0,37 a 0,84 e julgamento de 0,33 a 0,89. Para melhorar o ajuste do modelo, fez-se a inclusão de covariâncias e correlações entre os cinco domínios e entre os 12 erros encontrados. Assim, as intercorrelações entre os domínios apresentaram-se aceitáveis (r = 0,04-0,54), confirmando, dessa forma, sua independência.

Em relação aos indicadores de ajuste do modelo, é importante destacar: Medidas de ajuste absoluto: o valor de qui-quadrado correspondeu a 648,13 (p< 0,001), o RMSEA = 0,04 e o GFI ajustado = 0,882. No que se refere às medidas de ajuste incrementais para o TLI e o CFI, seus valores corresponderam a 0,900 e 0,910, respectivamente.

Quanto às medidas de fidedignidade, a Tabela 3 apresenta os resultados do teste- reteste e da consistência interna do instrumento, demonstrando que, para a maioria dos domínios, a escala se manteve estável ao longo do tempo e os valores de alfa de Cronbach também foram aceitáveis (≥0,50), o que sugere concordância entre as respostas dos profissionais.

Tabela 3 -
Média, desvio-padrão e coeficiente de correlação intraclasse dos domínios da FIASPS-versão brasileira para o teste-reteste e o alfa de Cronbach. Uberaba, Minas Gerais, Brasil, 2022-2023

Por fim, o Quadro 1 apresenta a versão final do instrumento validado, por estes autores, para o português do Brasil, contemplando os cinco domínios citados anteriormente e distribuídos em 29 itens.

Quadro 1 -
Apresentação da FIASPS- versão brasileira validada para o português do Brasil. Uberaba, Minas Gerais, Brasil, 2022-2023

DISCUSSÃO

Neste estudo, o objetivo foi avaliar as propriedades psicométricas da FIASPS-versão brasileira em uma amostra de profissionais da equipe de Enfermagem de um hospital mineiro. Sua realização ocorreu respeitando o rigor metodológico exigido para este tipo de pesquisa, e como resultado se obteve a validação da FIASPS para o português do Brasil, uma vez que o instrumento se mostrou robusto, consistente e fidedigno para ser aplicado em outras regiões do país.

No que se refere à caracterização da amostra, em um estudo realizado em Singapura foram obtidos resultados semelhantes aos encontrados nesta pesquisa. Os autores desta investigação aplicaram a FIASPS com profissionais da equipe de Enfermagem, em que a maioria dos participantes era constituída de mulheres, com mais de sete anos de experiência na profissão e que trabalhavam em enfermarias24.

Em relação aos escores médios dos domínios da escala brasileira, inicialmente discutindo a respeito da liderança, observou-se que nesta amostra a média foi 7,91, sendo relativamente baixa se comparada à de outros dois estudos encontrados na literatura, em que os valores corresponderam a 17,25 e 14,8615,18.

A liderança expressa a ação do profissional em liderar e confrontar colegas de trabalho que não se aderem às PP15. Nesse contexto, em um estudo encontrado na literatura se descreveu a necessidade de os enfermeiros se mostrarem dispostos a ter bons comportamentos, sendo modelo para sua equipe e profissionais recém-formados. Também, ressaltou-se que atuar como líder é essencial na promoção do clima de segurança no ambiente de trabalho24.

Quanto à justificativa, esse domínio se refere ao fato de o participante justificar o motivo da não adesão às normas de PP15. Na amostra, a média dos participantes foi 23,70, superior àdos enfermeiros australianos, que correspondeu a 5,1215. No entanto, os resultados de um estudo da FIASPS com estudantes de Enfermagem apontaram média 1,46 para esse mesmo domínio17.

Pontuações mais baixas podem ser vistas como característica positiva quanto ao reconhecimento e importância da adesão às PP no ambiente de saúde com esse público. Assim, pode-se inferior que os profissionais brasileiros tendem a justificar mais a não adesão às PP, tornando-se mais propensos aos riscos de exposição a agentes biológicos e a ocorrências de IRAS. Esses achados podem ser justificados pela diferença cultural entre os países e seus níveis econômicos, sendo o Brasil uma nação em desenvolvimento e que ainda possui elevadas taxas de não adesão às medidas de conformidade.

Em relação à cultura e prática organizacional, a média neste estudo foi 9,88, inferior à encontrada em outras investigações, em que esses valores corresponderam a 12,0 e 12,61, respectivamente15,24.

Esses domínio estão relacionados a questões dentro da instituição, as quais facilitam ou dificultam o uso das PP pelos profissionais15. Corroborando essas informações, uma pesquisa evidenciou que, quanto maior a percepção do clima de segurança e menor a compreensão de obstáculos nos ambientes laborais para seguir as PP, maior sua adesão11. Outro estudo apontou que a falta de disponibilidade de materiais, a pressa, a sobrecarga de trabalho e o difícil acesso aos EPI como fatores que dificultaram a realização de condutas corretas25.

Nesse sentido, é importante destacar que as características específicas de cada instituição de saúde, assim como das cidades em que estão inseridas, também interferem na cultura organizacional, o que pode justificar o fato de que os profissionais brasileiros apresentaram média inferior à de outros países. Ademais, em uma investigação encontrada na literatura observou-se que a qualidade dos materiais oferidos interfere na adesão às PP26, ou seja, é necessário destacar que os cenários de aplicação do instrumento apresentam diferenças, uma vez que no contexto brasileiro existe a carência de infraestrutura e de materiais adequados, bem como a baixa tecnologia em saúde, em comparação com outros países.

Sobre as dicas contextuais, esse domínio engloba pistas que podem ser visualizadas nos ambientes laborais e favorecem ações positivas dos profissionais15. Neste estudo, a média foi 10,94, sendo menor do que a encontrada em outra investigação15, em que se obteve média 13,01. Justificando esses achados, em uma pesquisa realizada em hospitais universitários de dois países - Brasil e Colômbia - evidenciou-se que a colocação de dicas contextuais, como avisos e pôsteres no ambiente ocupacional, é um fator facilitadores que influencia a adesão às PP pelos profissionais de saúde24. Portanto, é importante que os gestores dos serviços estejam atentos à colocação de dicas que possam favorecer a prestação de cuidados mais seguros, tanto para o profissional de saúde quanto para o paciente.

Em relação ao julgamento, esse domínio se reflete na avaliação realizada por profissionais de Enfermagem quanto à capacidade de decidir se devem aderir às normas de PP, dependendo da situação ou do paciente15. Tal fato diverge das recomendações atuais27, em que todos os fluidos corporais (exceto o suor) devem ser considerados potencialmente contaminados. Assim, não se deve fazer discriminação ou pré-julgamentos sobre a capacidade de um indivíduo possuir ou não alguma doença infecciosa, sendo a utilização das medidas de conformidade universal para todos.

A média desse domínio correspondeu a 7,45, sendo maior do que a encontrada pelos pesquisadores australianos, que foi 6,5815. Em contrapartida, um estudo realizado no Nepal com profissionais de saúde apresentou pontuação elevada igual a 17,49 para esse domínio, sugerindo que esses indivíduos racionalizam a não adesão às PP18.

Nesse contexto, diversos autores reforçam a necessidade da adesão às PP, independentemente de julgamentos, uma vez que se trata de um conjunto de medidas que devem ser utilizadas universalmente para todos os indivíduos1. Em um estudo encontrado na literatura que utilizou a escala de Personalidade de Risco, obtiveram-se escores moderados dos participantes quanto a assumirem riscos nos ambientes laborais e se exporem a situações perigosas só por emoção17. Assim, as diferenças observadas entre os estudos podem ser justificadas devido às especificidades das amostras, uma vez que a personalidade do indivíduo é fator importante para o julgamento quanto à adesão às PP.

Quanto às evidências de validade baseadas na estrutura interna do instrumento, a AFC confirma o seu modelo estrutural28, revelando-se adequadamente ajustada à estrutura dimensional proposta pelos autores australianos. Corroborando esses achados, os indicadores de ajuste de modelo encontrados nesta investigação foram semelhantes aos observados pelos autores do instrumento original, correspondendo a: χ2 (566,24, p < 0,001), GFI = 0,907, GFI ajustado = 0,889, índice de ajuste incremental = 0,923, índice de Tucker-Lewis = 0,913, CFI = 0,922, erro quadrático médio de aproximação = 0,038 e RMSE = 0,05415.

Em relação à fidedignidade, realizada por meio do teste-reteste, foi possível observar que os domínios liderança (ICC = 0,80), justificativa (ICC = 0,95), dicas contextuais (ICC = 0,91) e julgamento (ICC =0,91) apresentaram resultados satisfatórios, evidenciando correlação muito boa. Quanto ao domínio cultura e prática organizacional, o ICC correspondeu a 0,48, aproximando-se do limite de 0,50 para ser aceitável23. Comparando esses achados com os de outro estudo, foram encontrados dados semelhantes quanto aos domínios de liderança (ICC = 0,84), justificativa (ICC = 0,84), dicas contextuais (ICC = 0,77) e julgamento (ICC = 0,69) (15. É possível observar que o instrumento brasileiro apresentou-se mais estável em alguns domínios, se comparado à escala australiana. No que diz respeito à cultura e prática organizacional, os dados da investigação15 divergiram quanto ao ICC, em que o valor correspondeu a 0,80, considerado uma correlação boa.

Assim, justificando a manutenção do domínio cultura e prática organizacional, mesmo com o ICC menor que 0,50, os autores desta investigação optaram por manter a estrutura psicométrica do instrumento original, respeitando-se a configuração da escala australiana, como previamente acordado com seus autores.

Ainda em relação à fidedignidade do instrumento, o resultado de cada domínio, com exceção da cultura e prática organizacional (0,52), indicou boa consistência interna, considerando-se os valores de alfa de Cronbach recomendados na literatura23. Esses resultados foram semelhantes aos achados pelos autores do instrumento original15, indicando que os itens da escala realmente mensuram o mesmo constructo29. Outra pesquisa realizada em Singapura apresentou valores semelhantes aos desta investigação, com liderança (α = 0,78), justificativa (α = 0,76), dicas contextuais (α = 0,62) e julgamento (α = 0,67). Para o domínio cultura e prática organizacional, o alfa de Cronbach foi igual a 0,60, apresentando-se inferior em relação aos outros24.

Dessa forma, os resultados deste estudo corroboram os achados do instrumento australiano, uma vez que ambas as pesquisas apresentaram correlação moderada/boa em relação aos cinco domínios da escala. É possível observar também que os valores próximos no teste e no reteste evidenciam que houve concordância de respostas entre os participantes em ambos os momentos, mostrando-se estáveis ao longo do tempo.

Quanto às limitações deste trabalho, ressalta-se o fato de que esta pesquisa foi realizada em um único cenário. Portanto, a amostra aqui analisada não é representativa da população brasileira, não sendo possível afirmar que a estrutura fatorial se comportará de modo semelhante no próprio país. Sendo assim, são necessárias aplicações futuras do instrumento validado em outras instituições de saúde.

CONCLUSÃO

A FIASPS-versão brasileira apresentou um modelo adequadamente ajustado à estrutura dimensional proposta pelos autores australianos, confirmando a sua dimensionalidade original. Os itens 13 e 24 apresentaram cargas fatoriais menores que 0,3, entretanto os autores desta investigação optaram por manter a estrutura psicométrica do instrumento, possibilitando futuras comparações em outros cenários. Quanto à fidedignidade, a escala mostrou-se consistente e estável durante a aplicação em momentos diferentes, e os dados apresentados corroboraram com o instrumento australiano.

Nesse sentido, os resultados deste estudo apontaram que a FIASPS-versão brasileira foi adequadamente validada, seguindo rigorosamente as etapas metodológicas, considerada uma escala robusta e fidedigna para ser aplicada à população do Brasil. Quanto aos domínios, a amostra brasileira apresentou escores inferiores aos encontrados em outros países, razão por que carece de mais estudos a respeito da temática em questão.

Assim, nesta investigação foram apresentadas implicações importantes para a prática clínica e para o ensino em saúde, considerando-se a relevância da identificação dos fatores que influenciam a adesão às PP, tanto para a proteção dos profissionais de Enfermagem quanto para a segurança do paciente, e a sua validação possibilitará intervenções futuras em condutas individuais e modificáveis nos serviços de saúde, podendo a FIASPS-versão brasileira ser aplicada a outros cenários do Brasil.

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Editado por

  • Editor associado:
    Gabriella de Andrade Boska
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Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    24 Jul 2024
  • Aceito
    11 Mar 2025
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