Open-access Prevalência de dupla carga de má nutrição em crianças atendidas nas unidades básicas de saúde: estudo descritivo, Icapuí, Ceará, 2023

Resumo

Objetivo:   Identificar o estado nutricional e a prevalência da dupla carga de má nutrição em crianças atendidas nas unidades básicas de saúde de Icapuí, Ceará.

Métodos:   Foi realizado um estudo descritivo com análise de dados antropométricos, utilizando dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional de 2023. As variáveis utilizadas foram peso, altura e índice de massa corporal (IMC). A partir do software WHO Anthro-Plus 2007, foi classificado o estado nutricional das crianças de acordo com as curvas da Organização Mundial da Saúde. Para determinação da dupla carga, foram consideradas duas alterações simultâneas: baixa estatura-para-idade e excesso de peso pelo IMC-para-idade. As variáveis numéricas são apresentadas em médias e em desvios-padrão, enquanto as variáveis categóricas são apresentadas em frequências e em percentuais.

Resultados:   Das 1.704 crianças de zero a nove anos avaliadas, 23,9% apresentaram excesso de peso (sobrepeso, obesidade ou obesidade grave) e 10,2% demonstraram baixa ou muito baixa estatura. A dupla carga de má nutrição foi observada em 4,7% das crianças, sendo mais prevalente nos menores de cinco anos (6,5%) do que nos de 5-9 anos (3,0%). Meninos apresentaram maior prevalência de baixa estatura e dupla carga em comparação às meninas.

Conclusão:   A dupla carga de má nutrição é uma realidade epidemiológica em Icapuí, com padrões distintos: menores de cinco anos são mais vulneráveis ao déficit estatural, e as de 5-9 anos, ao excesso de peso; meninos têm maior risco de baixa estatura, e meninas, de sobrepeso.

Palavras-chave:
Obesidade Infantil; Desnutrição; Vigilância Alimentar e Nutricional; Saúde Pública; Estudo Observacional.

Abstract

Objective:   To identify the nutritional status and the prevalence of the double burden of malnutrition among children cared for in primary health care units in Icapuí, Ceará.

Methods:   A descriptive study was conducted with anthropometric data analysis, using data from the Brazilian Food and Nutrition Surveillance System of 2023. The variables used were weight, height, and body mass index (BMI). Nutritional status was classified according to the World Health Organization growth curves, using WHO Anthro-Plus 2007 software. Double burden was defined as the simultaneous occurrence of two alterations: stunting and High BMI-for-age. Numerical variables are presented as means and standard deviations, while categorical variables are presented as frequencies and percentages.

Results:   Of the 1,704 children aged zero to nine years evaluated, 23.9% presented excess weight (overweight, obesity, or severe obesity) and 10.2% were short or very short in stature. The double burden of malnutrition was observed in 4.7% of the children, being more prevalent in those under 5 years old (6.5%) than in those aged 5-9 years (3.0%). Boys had a higher prevalence of stunting and double burden compared to girls.

Conclusion:   The double burden of malnutrition is an epidemiological reality in Icapuí, with distinct patterns: children under 5 years old are more vulnerable to stunting, whereas those aged 5-9 years are more affected by excess weight; boys are at greater risk of stunting, while girls are at greater risk of overweight.

Keywords:
Pediatric Obesity; Malnutrition; Food and Nutritional Surveillance; Public Health; Observational Study.

Resumen

Objetivo:  Identificar el estado nutricional y la prevalencia de la doble carga de malnutrición en niñas y niños atendidos en unidades de atención primaria de salud en Icapuí, Ceará.

Métodos:  Se realizó un estudio descriptivo con análisis de datos antropométricos, utilizando información del Sistema Brasileño de Vigilancia Alimentaria y Nutricional correspondiente al año 2023. Las variables utilizadas fueron peso, talla e índice de masa corporal (IMC). El estado nutricional se clasificó según las curvas de crecimiento de la Organización Mundial de la Salud, mediante el software WHO Anthro-Plus 2007. La doble carga se definió como la ocurrencia simultánea de dos alteraciones: baja talla para la edad y alto IMC para la edad. Las variables numéricas se presentan como medias y desviaciones estándar, y las variables categóricas como frecuencias y porcentajes.

Resultados:  De las 1.704 niñas y niños de cero a nueve años evaluados, el 23,9% presentó exceso de peso (sobrepeso, obesidad u obesidad grave) y el 10,2% mostró talla baja o muy baja. La doble carga de malnutrición se observó en el 4,7% de las niñas y los niños, siendo más prevalente en los menores de 5 años (6,5%) que en los de 5 a 9 años (3,0%). Los niños presentaron una mayor prevalencia de baja talla y de doble carga en comparación con las niñas.

Conclusión:  La doble carga de malnutrición constituye una realidad epidemiológica en Icapuí, con patrones distintos: las niñas y los niños menores de 5 años son más vulnerables al retraso en el crecimiento, mientras que aquellos de 5 a 9 años se ven más afectados por el exceso de peso; los niños presentan mayor riesgo de baja talla y las niñas, de sobrepeso.

Palabras clave:
Obesidad Infantil; Malnutrición; Vigilancia Alimentaria y Nutricional; Salud Pública; Estudio Observacional

Ethical aspects

This research respected ethical principles, having obtained the following approval data:

Research ethics committee Escola de Saúde Pública do Ceará

Opinion number: 6,992,721

Approval date: 8/8/2024

Certificate of submission for ethical appraisal: 81036624.2.0000.5037

Informed consent record: Not applicable.

Introdução

A dupla carga da má nutrição, caracterizada pela coexistência de excesso de peso e de baixa estatura, além de deficiências de micronutrientes e outras condições relacionadas à alimentação inadequada, é um problema de saúde pública de relevância global e que gera preocupação na Organização Mundial de Saúde 1. Apesar de originalmente descrita em adultos, essa dupla carga afeta consideravelmente crianças, com consequências para a saúde que podem se estender ao longo de toda a vida. Em países de baixa e de média renda, a magnitude dessa condição permanece pouco definida, especialmente diante das mudanças recentes nos hábitos alimentares da população 2.

Estima-se que, globalmente, 41 milhões de crianças menores de cinco anos apresentam sobrepeso ou obesidade. Paralelamente, atrasos no crescimento afetaram 149 milhões de crianças do mesmo grupo etário em 2020, e a desnutrição foi associada a cerca de 45% das mortes de menores de cinco anos 3. No Brasil, dados recentes apontam que 9,5% das crianças apresentam baixa estatura, enquanto 15,8% estão com excesso de peso 4.

Estudos recentes indicam que, embora a prevalência de desnutrição tenha diminuído, o excesso de peso tem aumentado entre crianças menores de cinco anos. No entanto, há uma escassez de pesquisas focadas na região Nordeste, que concentra uma grande parcela da população brasileira de baixa renda e enfrenta altos índices de insegurança alimentar. Essa questão é preocupante, pois crianças de regiões menos desenvolvidas do Brasil apresentam maior vulnerabilidade à dupla carga de má nutrição 5.

Esse cenário também é observado em cidades de menor porte em termos de população e de economia, como Icapuí, no Ceará, através do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), uma importante ferramenta de monitoramento. Pelo SISVAN, cerca de metade das crianças até nove anos apresentam sobrepeso. No entanto, esses dados não mostram a coexistência de excesso de peso e de baixa estatura, tornando difícil a identificação de crianças que têm os dois parâmetros alterados simultaneamente 6. Icapuí conta com 100% de cobertura da população pelas equipes de Atenção Primária à Saúde, especialmente aquelas voltadas à saúde da família e da comunidade 7. Essa cobertura possibilita não apenas estudos aprofundados, mas também a implementação de estratégias integradas de cuidado e de prevenção.

Diante desse contexto, este estudo tem como objetivo identificar o estado nutricional e a prevalência da dupla carga de má nutrição em crianças atendidas nas Unidades Básicas de Saúde de uma Icapuí, Ceará. O aprofundamento nesse tema é essencial para apoiar estratégias mais eficazes no enfrentamento dos desafios nutricionais e para subsidiar políticas públicas que promovam a saúde e o bem-estar da população infantil 4.

Métodos

Delineamento do estudo

Trata-se de um estudo descritivo, utilizando dados populacionais dos relatórios do SISVAN referentes ao ano de 2023, em Icapuí, município litorâneo do Ceará, estado situado na região Nordeste do Brasil.

Contexto

Icapuí foi identificado como o município mais oriental do estado do Ceará, com uma população estimada em 21.400 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística no censo de 2022 8. Desse total, cerca de 1.940 eram crianças entre zero e nove anos de idade. A maior parte da população se concentrava na zona litorânea, e a economia local baseava-se na agricultura e na pesca, incluindo-se a captura de lagosta, de camarão e de mariscos.

Participantes

A população do estudo consistiu em crianças entre zero e nove anos, de ambos os sexos, com registros antropométricos cadastrados no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN Web) no período de janeiro a dezembro de 2023 6. Os dados foram acessados por meio de perfil restrito de gestor na plataforma oficial do Ministério da Saúde (disponível em: https://sisaps.saude.gov.br/sisvan/). Um profissional devidamente credenciado pelo município realizou a extração dos dados em 2024.

Para a composição da amostra, aplicaram-se os filtros do módulo Relatórios Antropométricos referentes ao período de janeiro a dezembro de 2023 e à faixa etária de zero a nove anos. O relatório consolidado, contendo a quantidade de indivíduos avaliados e as informações antropométricas, foi exportado para análise subsequente. Foram excluídas da amostra final todas as crianças com registros antropométricos incompletos ou inconsistentes.

Variáveis

Foram analisadas as seguintes variáveis: dados antropométricos de peso (kg), altura (cm) e índice de massa corporal (IMC, calculado como peso/altura² em kg/m²). O estado nutricional foi classificado segundo os parâmetros da Organização Mundial de Saúde (OMS), utilizando-se os indicadores peso-para-idade, peso-para-estatura (este último aplicável apenas para crianças menores de cinco anos), estatura-para-idade e IMC-para-idade, todos avaliados por meio do escore-Z. Para análise, as crianças foram inicialmente estratificadas em cinco faixas etárias (0-6 meses; 6 meses a <2 anos; 2 a <5 anos; 5 a <7 anos; 7 a <10 anos), sendo posteriormente reagrupadas em menores de cinco anos e de 5-9 anos. O desfecho principal foi a presença de dupla carga de má nutrição, definida como a coexistência de excesso de peso (sobrepeso ou obesidade, conforme classificação pelo IMC-para-idade) e baixa estatura (estatura-para-idade <-2 escore-Z).

Fontes de dados/mensuração

No banco de dados foram obtidas informações de peso, altura e índice de massa corporal (IMC), calculado a partir do peso dividido pela altura ao quadrado. A partir do software WHO Anthro-Plus 2007 foram obtidas as classificações dos quatro parâmetros de estado nutricional preconizados pela OMS 9, peso-para-idade, peso-para-estatura (apenas para menores de cinco anos), estatura-para-idade e IMC-para-idade, todos a partir do Escore-Z. As faixas etárias analisadas foram as seguintes: 0 a 6 meses; 6 meses a <2 anos; 2 a <5 anos; 5 a <7 anos; 7 a <10 anos. Para fins de análise, as crianças foram agrupadas em menores de cinco anos e de cinco a nove anos. Após definição do estado nutricional, a presença de dupla carga de má nutrição como desfecho foi definida pela coexistência de excesso de peso (sobrepeso ou obesidade) e de baixa estatura, identificados por meio do IMC-para-idade e da estatura-para-idade.

Viés

Por se tratar de um estudo com dados secundários, foram considerados os potenciais vieses inerentes a essa abordagem, como erros na coleta, na digitação ou no registro dos dados. Para minimizá-los, adotamos algumas estratégias, como uma análise sistemática de consistência e de completude, com a identificação e a exclusão de registros contendo valores ausentes, implausíveis ou inconsistentes. Essas medidas estão alinhadas com as recomendações da literatura para mitigação de vieses em estudos que utilizam dados secundários.

Tamanho do estudo

O estudo incluiu todas as crianças de zero a nove anos (n=1.707) com dados antropométricos registrados no SISVAN em Icapuí durante o ano de 2023. Após a exclusão de registros incompletos ou inconsistentes, a amostra final foi composta por 1.704 crianças.

Métodos estatísticos

Os dados coletados foram armazenados no Microsoft Excel 2019 e analisados por meio do software Statistical Package for Social Science versão 22.0. As variáveis numéricas são apresentadas em médias e em desvios-padrão, enquanto as variáveis categóricas são apresentadas em frequências e em percentuais. O estado nutricional e a prevalência de dupla carga de má nutrição foram estratificados por faixa etária e por sexo e apresentados em tabelas e gráficos que foram desenvolvidos pelo software GraphPad Prism 8.0.

Resultados

Foram avaliadas 1.704 crianças, das quais 51,2% eram do sexo feminino. A média de idade foi de 59,23 meses (DP 33,67), com uma maior proporção de crianças na faixa etária de 5-9 anos (52,5%). Os valores médios para peso, altura e IMC foram 20,62 kg (DP 9,94), 105,70 cm (DP 22,85) e 17,66 kg/m² (DP 3,99), respectivamente.

A análise do peso-para-estatura mostrou que a maioria das crianças apresentavam peso adequado, mas com uma parcela preocupante de risco para sobrepeso (22,8%) e de excesso de peso (sobrepeso e obesidade; 23,9%), somando 46,7%. Com relação a estatura-para-idade, a maioria das crianças apresentaram estatura adequada. Ao analisar o peso-para-idade, constatou-se que, apesar de a maioria estar com o peso adequado, 19,4% das crianças apresentaram peso elevado para a idade. A avaliação do IMC-para-idade evidenciou que 15,5% apresentavam sobrepeso, 13,6% obesidade e 4,8% obesidade grave (Tabela 1).

A Tabela 1 também apresenta uma análise detalhada do estado nutricional de acordo com a faixa etária. A maioria das crianças apresentou estatura adequada para a idade em ambas as faixas etárias. No que se diz respeito ao peso-para-idade, o peso elevado foi mais prevalente entre as crianças de 5-9 anos (22,9%). Em relação ao IMC-para-idade, observou-se que, apesar de o risco de sobrepeso apresentar maior frequência em crianças menores (22,2%), o excesso de peso foi mais prevalente entre as crianças de 5-9 anos, em que 17,7% apresentaram sobrepeso, 15% obesidade e 9,1% obesidade grave.

A Figura 1 trata da classificação do peso-para-estatura das crianças menores de cinco anos, sendo o risco de sobrepeso mais frequente entre as meninas (27,4%), e o sobrepeso levemente maior também nas meninas (14,0% versus 11,0% nos meninos). A obesidade, por sua vez, foi mais prevalente no sexo masculino (12,9%).

Quanto à análise da estatura-para-idade estratificada por sexo, observou-se que a maioria das crianças apresentaram estatura adequada em ambos os sexos e ambas as faixas etárias.

Entretanto, destacaram-se a baixa e a muito baixa estatura mais frequentes entre os meninos em ambas as faixas etárias. Com relação à classificação do peso-para-idade, notou-se que o peso elevado apresentou maior prevalência em meninas, principalmente nas crianças menores de cinco anos (17,8%). Para as crianças de 5-9 anos, as prevalências entre os sexos ficaram mais próximas (23,4% em meninas vs. 22,5% em meninos) (Figura 2).

Na Figura 3, que avalia o IMC-para-idade, o risco de sobrepeso, o sobrepeso e a obesidade foram mais prevalentes em meninas menores de cinco anos, com destaque para o risco de sobrepeso (26,6%). Entre as crianças de 5-9 anos, o risco de sobrepeso, o sobrepeso e a obesidade apresentaram valores mais altos entre os meninos, especialmente para o sobrepeso (18,7%) e a obesidade grave (10,5%).

Com relação à dupla carga de má nutrição, a prevalência total encontrada na amostra foi de 4,7%. Estratificando-se por faixa etária, observou-se frequência maior da dupla carga de má nutrição em crianças menores de cinco anos (6,5%). Entre os menores de cinco anos, a dupla carga de má nutrição foi mais prevalente nos meninos em ambas as faixas etárias. Com relação aos parâmetros utilizados na classificação da dupla carga de má nutrição, o excesso de peso foi levemente mais frequente em crianças de 5-9 anos, com prevalências semelhantes entre os sexos. A baixa estatura foi mais prevalente nos menores de cinco anos, destacando-se a maior frequência nos meninos (17,5%) (Figura 4).

Tabela 1
Classificação do estado nutricional das crianças atendidas nas unidades básicas de saúde de acordo com a faixa etária. Icapuí, Ceará, 2023 (n=1704)

Figura 1
Classificação do peso-para-estatura das crianças menores de cinco anos (parâmetro disponível apenas para essa faixa etária) atendidas nas unidades básicas de saúde, de acordo com o sexo. Icapuí, Ceará, 2023 (n=807)

Figura 2
Classificação da estatura-para-idade das crianças menores de cinco anos (A) e de 5-9 anos (B); classificação do peso-para-idade das crianças menores de cinco anos (C) e de 5-9 anos (D) atendidas nas unidades básicas de saúde, de acordo com o sexo. Icapuí, Ceará, 2023 (n=1704)

Figura 3
Classificação do índice de massa corporal-por-idade (IMC-por-idade) das crianças menores de cinco anos (A) e de 5-9 anos (B) atendidas nas unidades básicas de saúde, de acordo com o sexo. Icapuí, Ceará, 2023 (n=1704)

Figura 4
Prevalência de Dupla Carga de Má Nutrição (DCMN) e dos critérios de classificação da DCMN para crianças menores de cinco anos (A) e de 5-9 anos (B) atendidas nas unidades básicas de saúde, de acordo com o sexo. Icapuí, Ceará, 2023 (n=1704)

Discussão

Este estudo revelou uma prevalência importante da dupla carga de má nutrição em crianças, evidenciando a coexistência de condições nutricionais opostas, como o excesso de peso e a baixa estatura. Este levantamento constitui um estudo pioneiro no Ceará, com uma amostra relevante do interior do estado, destacando-se por explorar a complexa coexistência de condições de má nutrição na infância e a sua relação com o contexto e as tendências atuais 10.

Sabe-se das limitações inerentes aos estudos com dados secundários, relacionadas a inconsistências e a incompletudes em alguns dados coletados, além da ausência de integração direta entre as informações sobre filho e mãe (incluindo-se seus estados nutricional e socioeconômico), o que impediu a realização de associações sobre os determinantes da dupla carga de má nutrição 11. Mesmo assim, é importante considerar que a escolha metodológica de utilizar exclusivamente o IMC-para-idade como indicador de peso para todas as faixas etárias, embora alinhada às recomendações do SISVAN e coerente com estudos semelhantes, pode ter gerado diferenças pontuais em relação a outros indicadores (como peso-para-idade para menores de dois anos). Essa decisão visou garantir comparabilidade entre faixas etárias e permitir a avaliação simultânea de baixa estatura e de excesso de peso em toda a amostra. Além disso, o SISVAN, por abranger apenas crianças da rede pública de saúde, pode afetar a generalização dos resultados, embora sua cobertura nacional venha se expandindo 12. Quanto à qualidade dos dados, os protocolos padronizados da Norma Técnica, de 2011, 13 asseguram maior confiabilidade às medidas antropométricas, mesmo com possíveis variações na coleta.

Diante dessa realidade, ainda que estudos específicos sobre a prevalência global de dupla carga de má nutrição sejam limitados, dados regionais fornecem percepções importantes. Na África, um estudo, realizado em dois estados nigerianos, com 1.200 crianças e adolescentes, foi encontrada uma prevalência de nanismo de 34,9% e de sobrepeso/obesidade de 11,4%. Assim, apresentaram 4,0% de dupla carga de má nutrição em nível individual, variando conforme as características demográficas, socioeconômicas e familiares 14. No continente sulamericano, em pesquisas recentes feitas com crianças e adultos, a prevalência de dupla carga de má nutrição em domicílios na Bolívia foi de 9,3%, enquanto no Peru foi registrada uma prevalência de 6,7%. Na Colômbia, por sua vez, a prevalência foi de 3,2%, já no Brasil foi de 2,2% 15.

No Brasil, condições maternas, como o estado nutricional e o nível de escolaridade, influenciam o estado nutricional das crianças, contribuindo para a ocorrência da dupla carga de má nutrição, como evidenciado em estudo de crianças menores de cinco anos em diferentes regiões do país, incluindo zonas urbanas e rurais 16.

No Nordeste brasileiro, estudos contendo informações de 50.778 crianças e adolescentes (0-14 anos) apontaram uma média de desnutrição, de sobrepeso e de obesidade de 1,9%, 12,5% e 7,4%, respectivamente. Conforme os trabalhos analisados, os resultados indicaram também fatores socioeconômicos, como moradia e renda, ligados ao estado nutricional 17.

Em um estudo transversal realizado em dois municípios da Paraíba, das 413 crianças que participaram do estudo, 9,4% foram diagnosticadas com déficit de estatura e 16,5% com sobrepeso/obesidade. Dessa forma, a baixa estatura infantil pode ser associada ao peso ao nascer, à idade gestacional, ao estado nutricional materno e ao nível socioeconômico da família. Já quanto ao excesso de peso observou-se relação com a idade da criança, o IMC materno, o benefício do Bolsa Família e o suporte social 5,18.

O presente estudo revelou que a maioria das crianças icapuienses apresentava peso adequado, mas uma proporção importante apresentava sobrepeso ou obesidade, especialmente nas faixas etárias mais avançadas. Além disso, a baixa estatura, que é um indicativo de desnutrição crônica, particularmente entre as crianças menores de cinco anos, sugere a necessidade de intervenções para melhorar as condições de saúde e garantir o crescimento adequado desde a primeira infância 19,20. Em termos de diferenças entre as faixas etárias, a prevalência de dupla carga de má nutrição foi maior entre as crianças menores de cinco anos em comparação às crianças de 5-9 anos. A influência do sexo é evidente, com o sexo masculino apresentando maior prevalência de dupla carga de má nutrição, de excesso de peso e de baixa estatura em ambas as faixas etárias. Essa disparidade pode estar relacionada a diferenças biológicas ou culturais que afetam a saúde nutricional entre meninos e meninas, sendo necessário explorar práticas alimentares, acesso a alimentos e cuidados gerais em estudos adicionais 21-23.

Entre as crianças mais velhas, o excesso de peso foi mais prevalente, sugerindo que o ganho de peso desproporcional ocorre em idades mais avançadas. Em crianças menores de cinco anos, notou-se uma maior prevalência de magreza e de baixa estatura, o que pode ser atribuído a fatores socioeconômicos e a acesso limitado a serviços de saúde 10.

A desnutrição e o excesso de peso, ambos componentes da dupla carga de má nutrição, estão frequentemente associados a condições de insegurança alimentar, o que leva as famílias a consumirem alimentos de baixo valor nutricional e alta densidade calórica, como ultraprocessados. Isso resulta em deficiências nutricionais, com possível comprometimento de crescimento, além de ganho de peso excessivo. Esse quadro reflete a transição nutricional e epidemiológica, marcada por mudanças nos padrões alimentares e pelo sedentarismo 24-27.

Quanto ao comprometimento do crescimento linear, os resultados apontam para uma maior vulnerabilidade no sexo masculino em ambas as faixas etárias. Essa situação pode ser explicada por fatores biológicos, como maior suscetibilidade dos meninos a condições adversas nos primeiros anos de vida, ou por fatores ambientais, como acesso desigual a alimentos nutritivos e a serviços de saúde 22.

Entre meninas, os expressivos percentuais de excesso de peso podem estar associados a fatores biológicos, como predisposição ao acúmulo de gordura, além de aspectos culturais e sociais, como menor incentivo à prática de atividades físicas. Comportamentos alimentares relacionados à alimentação emocional também contribuem, assim como a falta de políticas preventivas inclusivas que considerem as diferenças de gênero 25.

A persistência de déficits de crescimento em um grupo considerável de crianças, especialmente nas áreas de maior vulnerabilidade social, destaca a importância de políticas públicas voltadas para a segurança alimentar e a nutricional, focando-se, principalmente, sobre o período inicial da infância e as regiões com difícil acesso a alimentos nutritivos 28. Esse cenário exige intervenções que promovam tanto uma alimentação equilibrada quanto a prática de atividade física regular. Especialmente nas escolas, que desempenham um papel importante na promoção de hábitos alimentares saudáveis e no controle do consumo de alimentos hipercalóricos. Esses fatores socioeconômicos e ambientais reforçam a necessidade de uma abordagem de forma integrada para prevenir tanto o excesso de peso quanto a desnutrição 21,13.

Este estudo se destaca por sua abrangência, contemplando cerca de 88% das crianças do município investigado, um alcance significativo quando comparado ao total de crianças de Icapuí 7. Além disso, representa um marco importante na investigação da dupla carga de má nutrição no Nordeste brasileiro, particularmente no interior do estado do Ceará, preenchendo uma lacuna importante na literatura regional.

Os achados deste estudo permitem identificar a necessidade de intervenções integradas e contínuas que abordem tanto a prevenção quanto o tratamento de problemas nutricionais com foco em populações vulneráveis. Políticas públicas devem priorizar a promoção da segurança alimentar e nutricional, estimular práticas alimentares saudáveis desde a infância e ampliar a cobertura de programas como o SISVAN, integrando estratégias voltadas à educação nutricional, ao acesso a alimentos saudáveis e ao incentivo à atividade física. Além disso, as escolas desempenham um papel fundamental nesse contexto, podendo servir como agentes de mudança para a adoção de hábitos mais saudáveis entre as crianças 16,17.

Pode-se concluir que a dupla carga de má nutrição é uma realidade epidemiológica em crianças atendidas pela rede de saúde pública de Icapuí, Ceará, com padrões distintos: menores de cinco anos são mais vulneráveis ao déficit estatural, enquanto crianças escolares (5-9 anos) o são ao excesso de peso; além de haver disparidades de gênero, tendo os meninos maior risco de baixa estatura e as meninas de sobrepeso. Esses achados fornecem subsídios para o planejamento de intervenções mais efetivas, destacando a necessidade de respostas articuladas que enfrentem, simultaneamente, os desafios tradicionais e os emergentes da nutrição infantil no Nordeste brasileiro. A complexidade da dupla carga exige abordagens inovadoras que transcendam as soluções convencionais, integrando saberes locais às evidências científicas, a fim de desenvolver estratégias que possam reverter o cenário.

Referências bibliográficas

  • 1. Davis JN, Oaks BM, Engle-Stone R. The double burden of malnutrition: a systematic review of operational definitions. Curr Dev Nutr. 2020 Jul 21;4(9):1-14.
  • 2. Caleyachetty R, Thomas GN, Kengne AP, Echouffo-Tcheugui JB, Schilsky S, Khodabocus J, et al. The double burden of malnutrition among adolescents: analysis of data from the Global School-Based Student Health and Health Behavior in School-Aged Children surveys in 57 low- and middle-income countries. Am J Clin Nutr. 2018 Aug 1;108(2):414-24.
  • 3. World Health Organization. The double burden of malnutrition: policy brief [Internet]. Geneva: World Health Organization; 2017 [cited 2025 Sep 26]. Available from:Available from:https://wkc.who.int/resources/publications/i/item/WHO-NMH-NHD-17.3
    » https://wkc.who.int/resources/publications/i/item/WHO-NMH-NHD-17.3
  • 4. UNICEF. The state of the world's children 2019. Children, food and nutrition: growing well in a changing world [Internet]. New York: UNICEF; 2019 [cited 2025 Sep 26]. Avaliable from: Avaliable from: https://www.unicef.org/media/63016/file/SOWC-2019.pdf
    » https://www.unicef.org/media/63016/file/SOWC-2019.pdf
  • 5. Oliveira MM, Lins ACL, Bernardino IM, Pedraza DF. Fatores associados ao estado nutricional de crianças menores de 5 anos na região Nordeste do Brasil. Cad Saude Colet. 2023;31:1-14.
  • 6. Silveira VNC, Nascimento JBM, Cantanhede NAC, Frota MTB, Chagas DC, Carvalho CA, et al. Desigualdade racial e regional na tendência temporal do déficit de estatura e excesso de peso de crianças brasileiras menores de cinco anos. Rev Bras Epidemiol. 2023;26(7):1-9.
  • 7. Brasil. Ministério da Saúde. Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2023 [cited 2025 Set 26]. Available from:Available from:https://sisaps.saude.gov.br/sisvan/relatoriopublico/index/
    » https://sisaps.saude.gov.br/sisvan/relatoriopublico/index/
  • 8. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Brasileiro de 2022. [Internet]. Icapuí: IBGE; 2022 [cited 2025 Sep 26]. Available from:Available from:https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ce/icapui/panorama
    » https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ce/icapui/panorama
  • 9. 9. Conselho Nacional de Saúde (Brasil). Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012. [Internet]. Brasília: Conselho Nacional de Saúde; 2012 [cited 2025 Sep 26]. Available from: https://www.gov.br/conselho-nacional-de-saude/pt-br/atos-normativos/resolucoes/2012/resolucao-no-466.pdf/view.
    »
  • 10. World Health Organization. WHO child growth standards: length/height-for-age, weight-for-age, weight-for-length, weight-for-height and body mass index-for-age: methods and development [Internet]. Geneva: World Health Organization ; 2006 [cited 2025 Sep 26]. Available from:Available from:https://www.who.int/publications/i/item/924154693X
    » https://www.who.int/publications/i/item/924154693X
  • 11. Silva JA, Costa MF. Prevalência de sobrepeso e desnutrição infantil: fatores associados e estratégias de intervenção. Rev Bras Saude Publica. 2023;53:78-89.
  • 12. Yigezu MM, Adamu BT, Mekonnen TC, Wassie FY, Tadesse F, Mamo A. The dual burden of malnutrition and its associated factors among mother-child pairs at the household level in Ethiopia: an urgent public health issue demanding sector-wide collaboration. Plos One. 2024;19(11):1-19.
  • 13. Moreira NF, Soares CA, Junqueira TS, Martins RCB. Tendências do estado nutricional de crianças no período de 2008 a 2015: dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan). Cad Saúde Colet. 2020;28(3):447-54.
  • 14. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Orientações para a coleta e análise de dados antropométricos em serviços de saúde: Norma Técnica do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional - SISVAN [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde ; 2011 [cited 2025 Sep 24]. Available from: Available from: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/orientacoes_coleta_analise_dados_antropometricos.pdf
    » https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/orientacoes_coleta_analise_dados_antropometricos.pdf
  • 15. 15. Adeomi A, Fatusi A, Klipstein-Grobusch K. Double burden of malnutrition among school-aged children and adolescents: evidence from a community-based cross-sectional survey in two Nigerian States. AAS Open Res. 2021;38(4):1-15.
  • 16. Temponi HR, Velásquez-Meléndez G. Prevalence of double burden on malnutrition at household level in four Latin America countries. Rev Bras Saude Mater Infant. 2020;20(1):27-35.
  • 17. Géa-Horta T, Felisbino-Mendes MS, Ortiz RJ, Velasquez-Melendez G. Association between maternal socioeconomic factors and nutritional outcomes in children under 5 years of age. J Pediatr Rio J. 2016;92:574-80.
  • 18. Nascimento M de M, Rodrigues M de S. Estado nutricional de crianças e adolescentes residentes na região nordeste do Brasil: uma revisão de literatura. Rev Med (São Paulo). 2020;99(2):182-8.
  • 19. Kuhn-Santos RC, Suano-Souza FI, Puccini RF, Strufaldi MWL. Fatores associados ao excesso de peso e baixa estatura em escolares nascidos com baixo peso. Cien Saude Colet. 2019;24(2):361-70.
  • 20. Sagbo H, Barreto SM, Costa ABP, Mendes LL, Khanafer N, Giatti L. Undernutrition and associated factors in primary schoolchildren in Lokossa, Benin: a cross-sectional study. Rev Bras Enferm. 2022;75(3):1-10.
  • 21. Figueroa Pedraza D, Sales MC, Menezes TN. Fatores associados ao crescimento linear de crianças socialmente vulneráveis do estado da Paraíba, Brasil. Cien Saude Colet. 2016;21(3):935-45.
  • 22. Marinho WN. A privação de alimentos nutritivos contribui para a perpetuação das desigualdades sociais [Internet]. Rio de Janeiro: Radis Comunicação e Saúde; 2024 Sep 1 [cited 2025 Sep 26]. Available from: Available from: https://radis.ensp.fiocruz.br/entrevista/racismo-alimentar-entrevista/a-privacao-de-alimentos-nutritivos-contribui-para-a-perpetuacao-das-desigualdades-sociais/.
    » https://radis.ensp.fiocruz.br/entrevista/racismo-alimentar-entrevista/a-privacao-de-alimentos-nutritivos-contribui-para-a-perpetuacao-das-desigualdades-sociais/.
  • 23. Thurstans S, Opondo C, Seal A, Wells J, Khara T, Dolan C, et al. Boys are more likely to be undernourished than girls: a systematic review and meta-analysis of sex differences in undernutrition. BMJ Glob Health. 2020;5(12):1-17.
  • 24. Steyn NP, Nel JH. Prevalence and determinants of the double burden of malnutrition with a focus on concurrent stunting and overweight/obesity in children and adolescents. Curr Nutr Rep. 2022;11(3):437-56.
  • 25. Kim H, Kim SE, Sung MK. Sex and gender differences in obesity: biological, sociocultural, and clinical perspectives. World J Mens Health. 2025;43(4):758-72.
  • 26. Bezerra MS, Jacob MCM, Ferreira MAF, Vale D, Mirabal IRB, Lyra CDO. Insegurança alimentar e nutricional no Brasil e sua correlação com indicadores de vulnerabilidade. Cien Saude Colet. 2020;25:3833-46.
  • 27. Vale D, Andrade MEDC, Dantas NM, Bezerra RA, Lyra CO, Oliveira AGRDC. Social determinants of obesity and stunting among Brazilian adolescents: a multilevel analysis. Nutrients. 2022;14(11):2334-49.
  • 28. Bergjohann P, Fassina P, Adami FS. Perfil nutricional e insegurança alimentar de crianças em vulnerabilidade social. Rev Destaques Acadêmicos. 2020;12(3):1-17.
  • Disponibilidade de dados
    Os dados que corroboram os resultados deste estudo estão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.
  • Uso de inteligência artificial generativa
    Não empregada.

Editado por

Disponibilidade de dados

Os dados que corroboram os resultados deste estudo estão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    16 Abr 2025
  • Aceito
    02 Set 2025
location_on
Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente - Ministério da Saúde do Brasil SRTVN Quadra 701, Via W5 Norte, Lote D, Edifício P0700, CEP: 70719-040, +55 (61) 3315-3464 - Brasília - DF - Brazil
E-mail: ress.svs@gmail.com
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro