A vigilância em saúde constitui função essencial do Sistema Único de Saúde (SUS), com caráter transversal e orientador do modelo de atenção. Envolve coleta, análise e disseminação de informações sobre a situação de saúde, com vistas ao planejamento e à implementação de ações de promoção, proteção e prevenção, bem como ao controle de riscos, doenças e agravos 1. Nesse contexto, a qualificação de profissionais para atuação nos serviços integra as ações necessárias ao desenvolvimento e à organização dessas atividades no SUS.
O Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do Sistema Único de Saúde (EpiSUS), da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde (SVSA/MS), insere-se nesse contexto como estratégia de formação em serviço, com ênfase na aplicação de métodos epidemiológicos no cotidiano dos serviços de saúde 2. Estruturado em diferentes níveis de formação, busca desenvolver competências para detecção, investigação e resposta a eventos de interesse em saúde pública, articulando atividades práticas e supervisão técnica. Desde sua implementação, tem contribuído para a qualificação de profissionais do SUS e para a realização de investigações de campo e análises epidemiológicas voltadas às demandas da vigilância em saúde 2.
Em comemoração aos 25 anos do EpiSUS, em 2025, a Epidemiologia e Serviços de Saúde: revista do SUS (RESS), com apoio do Departamento de Emergências em Saúde Pública da SVSA/MS, abriu uma chamada para publicação de pesquisas de campo elaboradas no contexto do programa. Além de celebrar essa trajetória do programa, a RESS buscou contribuir para a disseminação de evidências resultantes das investigações conduzidas por seus egressos. Como resultado, foram publicados 12 artigos originais, que refletem contribuições relevantes ao SUS na última década, e constituem o objeto deste editorial.
No artigo inicial, é relatada a experiência de implementação do EpiSUS entre 2000 e 2025, com apresentação dos marcos históricos e expansão dos níveis de formação, descrevendo-se a qualificação de mais de 4 mil profissionais em epidemiologia de campo 2.
Investigações de surtos e outros eventos epidemiológicos agudos, importantes motivadores para o estabelecimento do programa, foram retratados em diferentes abordagens. Estudo de coorte retrospectivo descreveu surto de infecções por Mycobacterium abscessus associado a cirurgias estéticas em região de fronteira com o Paraguai, no período de 2021 a 2022, com maior risco de adoecimento em procedimentos realizados entre dezembro e janeiro e em casos de lipoabdominoplastia 3. A descrição de um surto de varicela em território indígena na Bahia, em 2024, identificou cobertura vacinal abaixo da meta preconizada e descreveu as medidas de controle adotadas, incluindo atualização vacinal e busca ativa de casos 4. Um artigo descreveu o perfil clínico-epidemiológico e as exposições dos primeiros casos autóctones de febre do Oropouche na região Sul do Brasil, entre abril e junho de 2024, em área previamente não endêmica, com ausência de histórico de deslocamento para outras Unidades da Federação ou ao exterior, além de identificar exposições ambientais compatíveis com a transmissão pelo vetor, como corpos d’água e áreas com vegetação natural 5.
Um surto alimentar de hepatite A ocorrido em Curitiba entre 2023 e 2024 resultou em cinco contribuições que elucidaram diferentes aspectos da investigação de campo. Um estudo caso-controle identificou maior chance de hepatite A associada ao consumo de peixe cru e a homens que fazem sexo com homens, enquanto a realização de refeições em domicílio foi fator protetor 6. Entre adolescentes, observou-se baixa soroprevalência de anticorpos de longa duração contra hepatite A, com predominância de imunidade vacinal 7. Nessa mesma população, observaram-se baixos níveis de conhecimento sobre a doença, especialmente quanto à transmissão e aos sintomas, além de práticas sexuais de risco 8. Em pessoas em situação de rua, em uma série de casos, foi observada maior frequência de formas graves e maior letalidade, em comparação à população geral, evidenciando a vulnerabilidade desse grupo no contexto do surto 9. A partir de outra série de casos, foi descrita a ocorrência de formas graves da doença, incluindo óbitos e necessidade de transplante hepático, além de complicações clínicas relevantes e necessidade de suporte intensivo 10.
Estudos sobre imunizações integram os temas abordados nesta edição. Um estudo transversal realizado em São Sebastião, no Distrito Federal, estimou cobertura vacinal contra febre amarela de 54%, inferior à meta estabelecida pelo Programa Nacional de Imunizações, e descreveu conhecimentos, atitudes e práticas da população residente, verificando-se que a maioria teve conhecimento inadequado sobre a vacinação contra febre amarela, mas com maior frequência de atitudes e práticas adequadas 11.
Análise de eventos supostamente atribuíveis à vacinação, com base nos critérios de causalidade, identificou associação entre eventos graves e características como lote, apresentação e laboratório produtor da vacina pentavalente, que protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e Haemophilus influenzae tipo b, em estudo conduzido no Brasil entre 2020 e 2022 12. Análise de desproporcionalidade de notificações de eventos supostamente atribuíveis à vacinação contra covid-19 em crianças e adolescentes identificou eventos não descritos em bula, com base em dados do Brasil em 2022 13.
Os estudos que atenderam ao chamado da RESS, em suplemento alusivo aos 25 anos do EpiSUS, evidenciam a aplicação de métodos epidemiológicos em situações reais dos serviços, com produção de informações relevantes para a vigilância em saúde. A diversidade de temas, delineamentos e contextos analisados reflete a inserção do programa nos diferentes níveis do SUS e contribui para a qualificação da resposta a eventos de interesse em saúde pública. Ao contribuir para a disseminação desse corpo de evidências, a RESS reafirma a importância da formação em serviço e da epidemiologia de campo para o fortalecimento das ações de vigilância em saúde no Brasil, reforçando também seu papel como revista do SUS.
Referências bibliográficas
- 1 Teixeira MG, Costa M, Carmo EH, Oliveira WK, Penna GO. Health surveillance at the SUS: development, effects and perspectives. Cien Saude Colet. 2018;23(6):1811-18.
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- 4 Siqueira GA, Stanczyk L, Sá BJ, Campos L, Farias VCF, Biscarde P, et al. Varicella outbreak at the Itamaraju Indigenous Health Base Center: a descriptive study, Bahia, 2024. Epidemiol Serv Saude. 2026;35:e20250856.
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- 9 Silva JS, Carvalho RBVM, Oliveira AS, Rosso LRB, Silva LR, Santos DS, et al. Hepatitis A among people experiencing homelessness: a case series, Curitiba, Paraná State, Brazil, 2023-2024. Epidemiol Serv Saude. 2026;35.
- 10 Silva JS, Carvalho R, Oliveira A, Rosso L, Silva L, Spinoza D, et al. Severe cases of hepatitis A: case series in Curitiba, Paraná, 2023-2024. Epidemiol Serv Saude. 2026;35.
- 11 Freitas LJA, Borja LS, Figueiredo DG, Martins F, Reis PO, Caixeta A, et al. Yellow fever vaccination coverage and knowledge, attitudes and practices: a cross-sectional study during an epizootic event in São Sebastião, Federal District, 2020. Epidemiol Serv Saude. 2025;35.
- 12 Martins AF, Silva RMA, Cabral CM, Nóbrega M, Almeida S, Fontana F, et al. Use of Bradford Hill causality criteria in cluster of events attributable to pentavalent vaccine: cohort and case-non-case studies, Brazil, 2020-2022. Epidemiol Serv Saude. 2026;35.
- 13 Silva RMA, Nóbrega M, Percio J, Martins AF, Almeida SLR, Porto VBG. Signals of disproportionate reporting of events supposedly attributable to COVID-19 vaccines in children and adolescents: case-non-case study, Brazil, 2022. Epidemiol Serv Saude. 2026;35.
