Resumo
Objetivo: Mapear as evidências científicas sobre direitos sociais, políticas públicas e indicadores sociais voltados às pessoas com deficiência no Brasil, identificando lacunas de conhecimento, tendências metodológicas e oportunidades para aprimorar as políticas públicas inclusivas.
Métodos: Foram incluídos estudos publicados a partir de 2007 até abril de 2025, sem restrição de idioma ou status de publicação, abrangendo artigos científicos, dissertações, teses, estudos primários e secundários, análises teóricas e documentais, estudos de caso, avaliações de políticas, relatórios e anuários estatísticos. A seleção e a extração dos dados foram realizadas por quatro revisores independentes, utilizando a plataforma Rayyan e, posteriormente, planilhas Excel. Foram incluídos estudos sobre direitos, políticas públicas e indicadores relacionados a pessoas com deficiência, em diferentes escalas territoriais. Os dados foram apresentados de forma narrativa.
Resultados: Dos 1.392 estudos identificados, 124 foram incluídos. Embora o modelo social da deficiência seja citado, predominou a abordagem centrada na “natureza da deficiência”, com baixa incorporação de marcadores sociais como raça, gênero e território. Apenas 21 estudos (17%) avaliaram políticas públicas e 26 (21%) abordaram indicadores, revelando escassez de dados sistematizados para avaliar políticas em diferentes contextos.
Conclusão: Predominou a abordagem biológica da deficiência. Os estudos de avaliação de políticas apontaram lacunas e barreiras relevantes no cumprimento de direitos humanos. Evidenciaram-se fragilidades na produção de dados e na formulação de indicadores em todas as áreas de políticas públicas. Os achados reforçaram a necessidade de modelos de monitoramento mais robustos e interseccionais, o que contribui para efetivar direitos e aprimorar políticas inclusivas.
Palavras-chave:
Pessoa com Deficiência; Política Pública; Indicadores Sociais; Revisão de Escopo; Inclusão Social.
Abstract
Objective: To map the scientific evidence on social rights, public policies, and social indicators aimed at persons with disabilities in Brazil, identifying knowledge gaps, methodological trends, and opportunities to improve inclusive public policies.
Methods: Studies published from 2007 to April 2025 were included, with no restrictions regarding language or publication status, encompassing scientific articles, dissertations, theses, primary and secondary studies, theoretical and documentary analyses, case studies, policy evaluations, reports, and statistical yearbooks. Study selection and data extraction were performed by four independent reviewers using the Rayyan platform and, subsequently, Excel spreadsheets. Studies addressing rights, public policies, and indicators related to persons with disabilities, across different territorial scales, were included. Data were presented narratively.
Results: Of the 1,392 studies identified, 124 were included. Although the social model of disability was cited, the approach centered on the “characteristics of disability” predominated, with limited incorporation of social markers such as race, gender, and territory. Only 21 studies (17%) evaluated public policies, and 26 (21%) addressed indicators, revealing a scarcity of systematized data to assess policies across different contexts.
Conclusion: The biological approach to disability predominated. Policy evaluation studies identified relevant gaps and barriers in the fulfillment of human rights. Weaknesses were evidenced in data production and in the formulation of indicators across all public policy areas. The findings reinforced the need for more robust, intersectional monitoring models to advance rights and improve inclusive policies.
Keywords:
Persons with Disabilities; Public Policy; Social Indicators; Scoping Review; Social Inclusion.
Resumen
Objetivo: Mapear la evidencia científica sobre los derechos sociales, las políticas públicas y los indicadores sociales dirigidos a las personas con discapacidad en Brasil, identificando brechas de conocimiento, tendencias metodológicas y oportunidades para mejorar las políticas públicas inclusivas.
Métodos: Se incluyeron estudios publicados desde 2007 hasta abril de 2025, sin restricción de idioma ni de estado de publicación, que abarcaban artículos científicos, disertaciones, tesis, estudios primarios y secundarios, análisis teóricos y documentales, estudios de caso, evaluaciones de políticas, informes y anuarios estadísticos. La selección y la extracción de datos fueron realizadas por cuatro revisores independientes, utilizando la plataforma Rayyan y, posteriormente, hojas de cálculo de Excel. Se incluyeron estudios sobre derechos, políticas públicas e indicadores relacionados con las personas con discapacidad, en diferentes escalas territoriales. Los datos se presentaron de forma narrativa.
Resultados: De los 1.392 estudios identificados, 124 fueron incluidos. Aunque se menciona el modelo social de la discapacidad, predominó el enfoque centrado en la “naturaleza de la discapacidad”, con escasa incorporación de marcadores sociales como la raza, el género y el territorio. Solo 21 estudios (17%) evaluaron políticas públicas y 26 (21%) abordaron indicadores, lo que evidencia una escasez de datos sistematizados para evaluar políticas en distintos contextos.
Conclusión: Predominó el enfoque biológico de la discapacidad. Los estudios de evaluación de políticas identificaron brechas y barreras relevantes en el ejercicio de los derechos humanos. Se evidenciaron debilidades en la generación de datos y en la formulación de indicadores en todas las áreas de políticas públicas. Los hallazgos refuerzan la necesidad de modelos de monitoreo más robustos e interseccionales, contribuyendo a la efectivización de los derechos y al fortalecimiento de políticas inclusivas.
Palabras clave:
Personas con Discapacidad; Política Pública; Indicadores Sociales; Revisión de Alcance; Inclusión Social.
Introdução
A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD), aprovada pela Organização das Nações Unidas em 2006 e promulgada no Brasil com status de emenda constitucional [1], é um marco his-tórico no reconhecimento global dos direitos humanos das pessoas com deficiência [2,3]. Ela marca a tran-sição paradigmática do modelo médico tradicional, que caracteriza deficiência exclusivamente a partir do corpo do indivíduo, para a abordagem biopsicossocial, que confere centralidade às barreiras físicas, sociais e atitudinais as quais são obstáculos à plena participação na sociedade com igualdade de direitos. Essa aborda-gem também reconhece especificidades como raça/cor da pele, gênero, classe, entre outras, dialogando com a perspectiva teórica da interseccionalidade, que vem sendo incorporada nos estudos sobre deficiência [4-7].
A adoção do modelo biopsicossocial tem reflexo profundo no desenho de políticas públicas, pois desloca o foco da cura ou da recuperação do corpo do indivíduo para mitigar barreiras no ambiente. Esse novo paradig-ma requer que as formas de mensurar a deficiência e o estabelecimento de critérios para acesso a políticas públicas considerem as barreiras enfrentadas pelas pessoas, em vez de se restringirem a alterações em estruturas e funções do corpo.
O Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social, que integra a Proteção Social Básica do Sistema Único de Assistência Social, foi a primeira política a incorporar, em 2009, o modelo biopsicossocial para avaliar a elegibilidade, o que representou um avanço sem precedentes na história da proteção social e da política pública voltada para pessoas com deficiência no Brasil [8]. Entretanto, apesar de o país ser signatário da CDPD desde 2007, prevalece ainda hoje uma disputa em torno das concepções que orientam o acesso a políticas públicas. A demora em se instituir a Avaliação Biopsicossocial Unificada da Deficiência, em construção há alguns anos, é um dos reflexos dessa disputa.
É expressiva a mudança representada pelo modelo biopsicossocial na concepção de deficiência e seus reflexos sobre políticas públicas. Entretanto, discrimina-ção, invisibilidade e desigualdade ainda persistem [8,9]. Tomem-se como exemplos as diferenças na situação de pobreza e exclusão social que marcavam pessoas com algum tipo de deficiência identificadas em 2022. Entre os maiores de 25 anos, 63% não tinham instrução ou ensino fundamental completo, em comparação a 32% entre as pessoas sem deficiência [10].
Quanto mais graves forem as deficiências, mais notá-vel é a exclusão. O rendimento médio real do trabalho principal de pessoas com deficiências completas ou graves com mais de 14 anos era 45% menor do que o de pessoas sem deficiência, diferença que chegava a 199% ao se comparar mulheres pretas com deficiência com homens brancos sem deficiência [11].
A implementação e o monitoramento de políticas para superar barreiras ganham especial relevância, para garantir direitos. Contudo, uma lacuna prática e científica importante é a ausência de dados consolidados e indica-dores bem-definidos que sustentem o monitoramento de políticas públicas voltadas para o segmento [7,12], configurando o que se pode denominar de invisibilidade informacional. Dados sobre pessoas com deficiência são pouco sistematizados e, até recentemente, dispersos em diversas bases, o que dificultou a sua utilização para o planejamento de políticas públicas e o controle social.
O Sistema Nacional de Indicadores sobre Deficiência (Sisdef) surge como resposta estratégica [13], em con-sonância com os compromissos assumidos pelo país na CDPD [1] e, no contexto global, com os objetivos do desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas [14].
O Sisdef é uma plataforma para coletar, organizar e disponibilizar dados sobre políticas públicas para pessoas com deficiência. Organizado em painéis temáticos nas áreas de saúde, educação, trabalho, assistência social, de-mografia e direitos humanos, traz indicadores construídos a partir de diferentes fontes de dados, públicas ou não. Embora haja limitações como cobertura parcial e desatualização dos dados, e lacunas em determinadas áreas, como habitação, mobilidade urbana e acessibilidade digital, sua constituição representa expressivo avanço para enfrentar a invisibilidade de pessoas com deficiência, especialmente sob o respaldo do modelo biopsicossocial.
Buscando favorecer o monitoramento de políticas públicas, o Sisdef adotou um modelo de organização hierárquica, cuja matriz lógica organiza os indicadores em grandes componentes: fatores situacionais, insumos, processos e resultados [15]. A revisão de escopo apresentada neste artigo teve a finalidade de subsidiar o aprimoramento desse modelo.
O objetivo desta revisão foi mapear as evidências científicas sobre direitos sociais, políticas públicas e indicadores sociais voltados às pessoas com deficiên-cia no Brasil, identificando lacunas de conhecimento, tendências metodológicas e oportunidades para apri-moramento das políticas públicas inclusivas.
Métodos
Delineamento
Trata-se de revisão de escopo, norteada pela meto-dologia do Joanna Briggs Institute [16] e relatada de acordo com o checklist do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses for Scoping Reviews (PRISMA-ScR) [17].
Pergunta de pesquisa
Esta revisão busca responder à pergunta: “Qual é a produção científica, incluindo literatura cinzenta, sobre direitos e políticas públicas relacionadas à pessoa com deficiência após a publicação da CDPD, em 2007?”.
Essa pergunta foi construída com base no acrôni-mo PCC, que orienta revisões de escopo, conforme a metodologia do Joanna Briggs Institute [16].
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População (P): pessoas com deficiência.
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Conceito (C): produção científica sobre políticas públicas e direitos.
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Contexto (C): Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada em de-zembro de 2006 e publicada em 2007.
As perguntas secundárias foram: Quais as aborda-gens/modelos teórico-conceituais da deficiência? Quais políticas públicas são consideradas nas produções? Como políticas públicas que envolvem pessoas com deficiência estão sendo avaliadas? Quais indicadores têm sido adotados para avaliar políticas públicas rela-cionadas às pessoas com deficiência?
Considerou-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua partici-pação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas [1].
Critérios de elegibilidade
Buscando garantir ampla cobertura da produção científica e técnica sobre o tema e respeitando a di-versidade linguística dos países signatários da CDPD, foram incluídos estudos publicados entre 2007 e abril de 2025, nos idiomas português, inglês, espanhol e francês. Foram considerados artigos científicos, dissertações de mestrado, teses de doutorado, estudos primários e secundários com qualquer abordagem metodológica, estudos teóricos, análises documentais, estudos de caso, avaliações de políticas, relatórios de pesquisa e anuá-rios estatísticos. Foram excluídos trabalhos acadêmicos de graduação/especialização, editoriais, entrevistas, livros, materiais de campanhas, documentos político-participativos, artigos em preprint e estudos clínicos ou com uso não contextualizado do termo “deficiência”.
Fontes de informação
As buscas foram realizadas nas bases de dados Medline (via PubMed), Biblioteca Virtual em Saúde, Scopus, Web of Science e Oasisbr (para literatura cin-zenta). Não foi realizada busca manual nas referências de publicações relevantes para identificar estudos adi-cionais potencialmente elegíveis. Não foram aplicadas restrições ao status de publicação.
A estratégia foi elaborada com apoio de bibliotecário da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca em abril de 2025. Não houve contato com autores para obtenção de dados adicionais.
Estratégias de busca
Utilizaram-se descritores controlados - MeSH (Medical Subject Headings) e DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) -, combinados a termos livres, articu-lados por operadores booleanos (AND, OR) e adaptados às especificidades de cada base de dados. A formulação da estratégia buscou garantir abrangência e precisão na recuperação dos estudos relevantes. A versão completa da estratégia está disponível na Tabela Suplementar 1.
Foram aplicados os seguintes limites: idioma (português, inglês, espanhol e francês) e período de publicação compreendido entre 2007 e abril de 2025.
Seleção das fontes de evidência
Essa seleção foi realizada em duas etapas: (i) tria-gem de títulos e resumos; e (ii) leitura do texto completo. Ambas as etapas foram conduzidas por duplas de revisoras independentes (DMFA e SOP, MFFVSB e MG), utilizando a plataforma Rayyan. Divergências foram resolvidas por consenso ou por terceira revisora (CMRD). A calibração dos critérios foi feita com os 100 primeiros estudos na triagem e 10 estudos na elegibilidade.
Processo de extração dos dados
Quatro pesquisadoras (DMFA e SOP, MFFVSB e MG) extraíram os dados dos estudos de forma in-dependente, utilizando planilha Excel padronizada e previamente testada. A planilha foi revisada por uma quinta pesquisadora que não participou da extração inicial (CMRD). Quando necessário, esse pesquisador complementou ou ajustou informações na planilha de extração, assegurando a padronização dos dados coletados. Informações ausentes foram registradas como “não reportado” ou “não se aplica”.
Itens de dados
Foram extraídos os dados a seguir.
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Características gerais: autores, título, ano, país, signatário da CDPD, comparações entre países, objetivos, tipo de estudo, abordagem metodológica, principais resultados, limitações e recomendações apresentadas.
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Características relacionadas à deficiência: popu-lação estudada, como pessoas com deficiência, seus familiares, gestores públicos ou outros grupos envolvidos. Conceitos e marcadores sociais que atravessam os estudos (como raça/ etnia, gênero, deficiência, saúde, classe/renda), além dos fatores situacionais que influenciam os contextos analisados.
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Características das políticas públicas: aspectos ligados às políticas mencionadas nos estudos, como o nível de abrangência (desde o comunitário até o global), a área temática da política (saúde, educação, trabalho, jurídica, entre outras), a tem-poralidade da política (se anterior ou posterior à CDPD) e os indicadores de política, categorizados segundo a matriz do Sisdef [15].
Avaliação crítica das fontes de evidência
Não foi realizada avaliação da qualidade metodo-lógica dos estudos, conforme orientação do Instituto Joanna Briggs para revisões de escopo [16].
Síntese dos resultados
A produção científica sobre direitos e políticas públicas para pessoas com deficiência foi caracterizada pelas abordagens teóricas, marcadores sociais e polí-ticas abordadas.
Para responder às demais perguntas de pesquisa, dois subconjuntos foram analisados.
Os estudos de avaliação de políticas foram descritos segundo ano, relação com a CDPD, tipo e método de estudo, população-alvo, área temática e nível de abrangência.
Os estudos que abordavam indicadores rela-cionados a políticas, programas e ações foram sistematizados por tema e área e classificados conforme a matriz do Sisdef (fatores situacionais, insumos, processos e resultados), evidenciando lacunas na produção científica.
Os achados foram apresentados de forma narrativa, sem meta-análise, e discutidos coletivamente pelos autores.
Resultados
Dos 1.392 registros encontrados, 864 foram sele-cionados para avaliação de título e resumo, 207 para avaliação do texto completo e 124 foram incluídos na revisão (Figura 1). Entre os 124 estudos incluídos na revisão, 91 foram publicados em periódicos. Os de-mais eram literatura cinzenta, sendo 28 dissertações e 5 teses. Setenta e seis foram publicados em inglês, 44 em português, 3 em francês e 1 em espanhol. Observou-se a maior quantidade de publicação em 2023, 2024 e 2020, com 18, 17 e 13 estudos (Tabela 1).
Os estudos incluídos foram analisados em relação às abordagens teórico-conceituais, marcadores sociais e políticas públicas abordadas. Entre os 124, foram definidos dois subconjuntos para análises específicas, considerando as perguntas de investigação: 21 (17%) que tratavam explicitamente da avaliação de políticas públicas e 26 (21%) que abordavam indicadores rela-cionados a políticas, programas e ações voltadas às pessoas com deficiência. Sete estudos sobre avaliação de políticas abordavam indicadores.
As abordagens ou os modelos teórico-conceituais de deficiência não foram explicitados nos 124 artigos avaliados, embora trouxessem análises relacionadas a marcadores sociais. A “natureza da deficiência” foi o marcador mais abordado (56,5%). Destacou-se que 2,4% citaram “raça/cor da pele/etnia” (Tabela 2).
Duas políticas públicas corresponderam a 50% do total das produções: inclusão e proteção social e educação inclusiva. As menos abordadas foram aquelas relacionadas ao acesso à alimentação e à política de comunicação no âmbito da saúde para a pessoa com deficiência (Tabela 2).
Dos 124 estudos incluídos, 21 (16,9%) informaram explicitamente serem de avaliação de políticas e foram publicados após 2012, com algum crescimento nos últimos três anos (Tabela 1).
A maioria dos 21 estudos utilizou métodos qualitativos [12,35,46,87,89,93,99,104, 109,110,114,116,132,133,135], 3 utilizaram métodos
mistos [7,71,140] e 3 métodos quantitativos [81,82,84]. Sete apresentaram indicadores [81,82,84,93,99,133,135].
Parte majoritária dos estudos utilizou fontes pri-márias [35,81,82,84,87,89,93,99,104,109,114,133].
Sete foram de cunho teórico [7,12,35,99, 109,110,140]; 6 incluíram gestores, formuladores e implementadores/ operadores de políticas públicas [46,81,82,84,87,89]. Um incluiu, além de gestores, pessoas com deficiência [46]. Oito, produzidos após 2023, incluíram pessoas com deficiência [71,93,104,114,116,132,133,135].
Destacaram-se, como áreas temáticas de políticas, a proteção/inclusão social [46,71, 82,84,104,116,132,133] e a saúde [7,12,87,99,114,135]. Houve 1 estudo institucional, realizado na Lituânia, onde duas Casas de Vida Independente foram estudadas [46]. O restante foi de abrangência nacional ou continental.
Todos os estudos adotaram direitos humanos e sociais como parâmetro analítico. Onze enfatizaram lacunas nas políticas estudadas [7,12,35,46,71,84,87,99,116,135,140]. Quatro enfatizam potencialida-des ou melhorias no campo das políticas avaliadas [82,109,110,140].
Dos 124 estudos incluídos, 26 (21%) abordaram indicadores relacionados a políticas, programas e ações para pessoas com deficiência. A caracterização desses estudos, segundo assunto abordado, lista de informa-ções e indicadores apresentados e área temática de política, pode ser solicitada aos autores.
As definições, os métodos e os temas foram heterogêneos. Muitas vezes um estudo entrou em mais de uma área temática de política. Dos 26 estu-dos com indicadores, a maioria abordou proteção/ inclusão social [30,31,65,82,84,91,93,96,121,127,133]. Dois [76,108] propuseram listas de indicado-res, um com base na Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde e outro sobre a temática da reabilitação.
Os 26 estudos foram sistematizados por áreas temáticas e organizados segundo quatro grandes categorias e itens adaptados da matriz lógica do modelo Sisdef [8], com a finalidade de identificar lacunas (Tabela 3).
Não foram identificados estudos em 8 dos subi-tens da matriz do Sisdef: 1 em fatores situacionais (equipes profissionais); 1 em insumos (parcerias intersetoriais e/ou interinstitucionais); 4 em pro-cesso (ampliação de infraestrutura, melhorias de acessibilidade, aquisição de veículos acessíveis e ampliação de equipes); e 2 em resultados (adequação de espaços coletivos e de uso público).
Discussão
Esta revisão, que buscou mapear a produção cien-tífica relacionada aos direitos e às políticas públicas para pessoas com deficiência após a CDPD, identificou que a defesa dos direitos das pessoas com deficiên-cia e a adoção do modelo social da deficiência como perspectiva teórica estiveram presentes nos estudos. Entretanto, a intersecção da condição de deficiência com outros marcadores sociais não foi frequente, o que demonstrou forte presença da natureza da deficiência como único marcador.
A avaliação de políticas públicas voltadas para pessoas com deficiência esteve presente em apenas uma fração dos estudos, e a abordagem de indicadores relaciona-dos a políticas mostrou-se escassa. Em analogia com a matriz do Sisdef, verificaram-se lacunas relativas a fatores situacionais, insumos, processos e resultados. Houve predominância de estudos qualitativos, e as áreas temáticas mais frequentes nos estudos foram relativas à educação inclusiva e à proteção e inclusão social.
Vale sublinhar como limitação o risco de perda na seleção da literatura cinzenta, bem como na restrição de idiomas.
Apesar dos estudos da revisão estarem alinhados com o modelo social da deficiência, houve predominância da abordagem biológica, mesmo sendo reconhecido que marcadores sociais, como raça/cor da pele, gê-nero e classe, impactam o acesso a serviços e direitos garantidos por lei. As análises de políticas não têm in-corporado a deficiência em perspectiva interseccional, que considera a vivência da intersecção de diferentes marcadores sociais no cotidiano de pessoas e nos seg-mentos populacionais com trajetória de opressão [4-7].
Nos estudos que informaram adotar a avaliação como objetivo ou desenho de estudo (21 estudos), observou-se a diversidade de temas e opções meto-dológicas. A avaliação é prática existente em diversos âmbitos, o que pode gerar polissemia conceitual e metodológica na área de avaliação de políticas reque-rendo explicitação das abordagens [142].
Entre os 21 estudos de avaliação, houve predomi-nância de estudos não populacionais. Entre os estudos populacionais, 8, que representam a maioria, incluí-ram pessoas com deficiência, 6 envolveram gestores, formuladores e implementadores de políticas, e 1 en-volveu esses dois conjuntos de atores. Considerando, conforme o Pentágono das Políticas Públicas [143], que políticas públicas envolvem ações e intervenções planejadas e realizadas pelo Estado ou governos, como também interações entre os atores envolvidos nas políticas, é relevante observar que pessoas com defi-ciência, como destinatárias das políticas estudadas, e atores, individuais ou coletivos “dotados de recursos (...) certa autonomia, estratégias e capacidade de fazer escolhas” foram os mais presentes nas avaliações.
Observou-se predominância de estudos voltados para a avaliação de políticas de abrangência nacional. Considerando a CDPD como o principal marco desta revisão, constituindo um compromisso entre esta-dos-partes, os resultados destacaram a delimitação dos objetos e dos níveis de avaliação como forma de recorte da realidade que se pretende estudar [142]. A produção científica sobre direitos e política públicas relacionadas à pessoa com deficiência após a publi-cação da Convenção envolve uma multiplicidade de áreas temáticas de políticas públicas e a perspectiva inclusiva como parâmetro ou imagem-objetivo a alcan-çar. Ressalta-se que foram encontrados poucos estudos na área temática da política que aborda a justiça.
Os estudos de avaliação, ao apontarem a existência de lacunas e barreiras relevantes no cumprimento dos ideais e das definições de direitos humanos das pessoas com deficiência, assim como ao indicarem alguns avanços e boas práticas, revelaram que a Convenção constituiu parâmetro para a avalição de políticas. Ela estabeleceu um novo léxico nos direitos humanos, que supera a perspectiva da deficiência como déficit e avança para a consolidação de modelos de políticas ancorados nos princípios de igualdade e não discriminação [1].
Um dos principais resultados da revisão identificou que, embora exista crescente produção científica so-bre os direitos das pessoas com deficiência desde a promulgação da Convenção, ainda há lacunas signifi-cativas no uso de indicadores para monitorar e avaliar essas políticas. Somente 26 dos 124 estudos incluídos abordaram diretamente o uso de indicadores, e apenas 7 dos 21 estudos que avaliavam políticas também o abordaram diretamente.
A revisão também destacou a ausência de padrões para medir e comparar avanços e retrocessos nas políticas públicas em diferentes regiões e esferas governamentais. Isso foi mencionado em documen-tos que apontaram a dificuldade em monitorar o progresso na implementação da Convenção com relação a um conjunto de indicadores comuns [136] e em algumas áreas específicas como indicadores para a deficiência intelectual [140] e a saúde mental [134]. A falta de indicadores padronizados dificultou a avaliação precisa dos impactos dessas políticas na vida das pessoas com deficiência, bem como a comparação entre diferentes contextos e níveis de agregação de dados.
Algumas propostas estão sendo publicadas para colaborar nessa padronização, como o WHO Model Disability Survey na identificação das pessoas com deficiência, que inclui o grau da deficiência e a ação para garantir direitos em condições de igualdade na so-ciedade, tendo como base a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde [137] e a ferramenta de desagregação de funcionalidade e de-ficiência da Organização Mundial da Saúde [87].
Dois estudos propuseram listas padronizadas de indi-cadores a serem utilizados: um apontou a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde como base [108], e o outro focou a temática da reabilitação, apresentando um quadro de indicadores elaborado por um grupo de especialistas [76].
Os outros estudos, em sua maioria, analisaram di-ferentes dados oriundos de documentos dos países (leis e políticas implementadas), estatísticas relacio-nadas a pessoa com deficiência, censo, sistemas de informações, entrevistas e dados de programas espe-cíficos para pessoas com deficiência em nível local e nacional, impossibilitando realizar análises comparativas entre os dados apresentados.
A falta de informação e indicadores relacionados à pessoa com deficiência, ou seja, a invisibilidade in-formacional, é evidência importante deste estudo, pois, embora a Convenção tenha sido publicada há 17 anos, a maioria dos países signatários não tem dados populacionais de qualidade satisfatória para avaliar e monitorar políticas. Esse atraso pode ter impacto negativo na vida das pessoas. Um estudo, que analisou as políticas públicas de 14 países durante a pandemia da covid-19 e fez um paralelo com as obrigações dos estados no âmbito da Convenção, observou que, mes-mo com as políticas públicas de saúde implementadas para a população como um todo, é necessário ampliar essas políticas para responder às necessidades da vida de pessoas com deficiência [142].
O cruzamento dos indicadores identificados com as dimensões da matriz do Sisdef reforçou a percepção das lacunas existentes no campo da avaliação de políticas públicas para pessoas com deficiência em cada uma das categorias propostas (fatores situacionais, insumos, processos e resultados). Os achados apontaram as prin-cipais fragilidades a serem enfrentadas para aprimorar fontes de dados e a própria produção de indicadores populacionais que auxiliem a tomada de decisão em políticas públicas.
A produção sobre indicadores para o monitoramento e a avaliação revelou-se um campo ainda pouco explo-rado, considerando o volume de artigos. Da mesma forma, os estudos de avaliação de políticas foram pouco predominantes. Quanto aos indicadores, observou-se ausência de utilização de padrões para avaliar e com-parar possíveis avanços e retrocessos das políticas ou ações implementadas, situação que dificulta monitorar o progresso na implementação da Convenção consi-derando um conjunto de indicadores comuns.
O mapeamento da produção científica relaciona-da aos direitos e às políticas públicas para pessoas com deficiência após a CDPD possibilitou revelar as principais temáticas de políticas de interesse na lite-ratura acadêmica, bem como as, ainda incipientes, adoção e padronização de indicadores para análise de políticas. O tema merece destaque na agenda da pesquisa científica, para que novos estudos avancem nas perspectivas sobre os direitos das pessoas com deficiência e de indicadores sociais que possam ser utilizados para avaliar políticas públicas voltadas para essa população.
Esta pesquisa utilizou bancos de dados de domínio público e anonimizados.
Registro do protocoloO protocolo foi registrado na plataforma Zenodo, sob o número de registro 7789108 (https://zenodo.org/search?q=7789108&l=list&p=1&s=10&sort=bestmatch).
Uso de inteligência artificial generativaNão empregada.
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Editado por
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Editor-chefe:
Jorge Otávio Maia Barreto https://orcid.org/0000-0002-7648-0472
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Editor científico:
Everton Nunes da Silva Associate https://orcid.org/0000-0001-8747-4185
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Editora associada:
Carolina Müller Ferreira https://orcid.org/0000-0002-7975-5777


