Resumo
Objetivo: Identificar intervenções em saúde sexual e reprodutiva voltadas à promoção de mudanças comportamentais e ao desenvolvimento de habilidades para a vida entre adolescentes e jovens adultos, considerando critérios de equidade.
Métodos: Realizou-se overview com buscas em bases nacionais e internacionais (Epistemonikos, Social Systems Evidence, Health Systems Evidence, Medical Literature Analysis and Retrieval System Online - Medline, Biblioteca Cochrane e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde - Lilacs), abrangendo publicações entre 2016 e 2025. Foram incluídas revisões que abordavam intervenções educativas em saúde sexual e reprodutiva para jovens de 10-24 anos. A qualidade metodológica dos estudos foi avaliada por meio da ferramenta A Measurement Tool to Assess Systematic Reviews versão 2 (AMSTAR-2), e a análise de equidade foi conduzida com base na estrutura Progress. Atores-chave brasileiros participaram de etapas consultivas, contribuindo para a definição da pergunta de pesquisa, interpretação dos achados e discussão sobre barreiras e facilitadores à implementação das intervenções.
Resultados: Foram incluídas 28 revisões sistemáticas. Dezoito eram de qualidade metodológica criticamente baixa, e as intervenções focaram principalmente no ambiente escolar (n=14), no uso de tecnologias (n=5), em políticas públicas (n=5) e na educação de facilitadores ou pares (n=3).
Conclusões: Intervenções abrangentes e multicomponentes demonstraram maior efetividade, mas há lacunas consideráveis na incorporação da equidade em saúde nas revisões existentes.
Palavras-chave:
Saúde Sexual; Saúde Reprodutiva; Adolescente; Equidade; Determinantes Sociais da Saúde
Abstract
Objective: To identify sexual and reproductive health interventions aimed at promoting behavior changes and developing life skills among adolescents and young adults, considering equity criteria.
Methods: An overview was conducted using searches in national and international databases (Epistemonikos, Social Systems Evidence, Health Systems Evidence, Medical Literature Analysis and Retrieval System Online - MEDLINE, Cochrane Library, and Latin American and Caribbean Health Sciences Literature - LILACS), covering publications between 2016 and 2025. Reviews addressing educational interventions in sexual and reproductive health for young people aged 10-24 years were included. The methodological quality of the studies was assessed using A Measurement Tool to Assess Systematic Reviews version 2 (AMSTAR-2), and equity analysis was conducted based on the PROGRESS framework. Key Brazilian stakeholders participated in consultative stages, contributing to the definition of the research question, interpretation of findings and discussion of barriers and facilitators to the implementation of interventions.
Results: Twenty-eight systematic reviews were included. Eighteen were of critically low methodological quality, and the interventions focused mainly on the environment (n=14), the use of technologies (n=5), public policies (n=5), and facilitator or peer education (n=3).
Conclusions: Comprehensive and multicomponent interventions demonstrated greater effectiveness, but there are considerable gaps in the incorporation of health equity in existing reviews.
Keywords:
Sexual Health; Reproductive Health; Adolescent; Equity; Social Determinants of Health
Resumen
Objetivo: Identificar intervenciones en salud sexual y reproductiva dirigidas a promover cambios de comportamiento y desarrollar habilidades para la vida en adolescentes y jóvenes, considerando criterios de equidad.
Métodos: Se realizó overview mediante búsquedas en bases de datos nacionales e internacionales (Epistemonikos, Social Systems Evidence, Health Systems Evidence, Medical Literature Analysis and Retrieval System Online - Medline, Cochrane Library y Literatura Latinoamericana y del Caribe en Ciencias de la Salud - Lilacs), abarcando publicaciones entre 2016 y 2025. Se incluyeron revisiones que abordaron intervenciones educativas en salud sexual y reproductiva para jóvenes de 10 a 24 años. La calidad metodológica de los estudios se evaluó utilizando la herramienta A Measurement Tool to Assess Systematic Reviews versión 2 (AMSTAR-2), y el análisis de equidad se realizó con base en el marco PROGRESS. Actores brasileños clave participaron en las etapas consultivas, contribuyendo a la definición de la pregunta de investigación, la interpretación de los hallazgos y el análisis de las barreras y los facilitadores para la implementación de las intervenciones.
Resultados: Se incluyeron veintiocho revisiones sistemáticas. Dieciocho presentaron una calidad metodológica críticamente baja, y las intervenciones se centraron principalmente en el entorno (n=14), el uso de tecnologías (n=5), las políticas públicas (n=5) y la educación por facilitadores o pares (n=3).
Conclusiones: Las intervenciones integrales y multicomponentes demostraron mayor efectividad, pero existen importantes deficiencias en la incorporación de la equidad en salud en las revisiones existentes.
Palabras clave:
Salud Sexual; Salud Reproductiva; Adolescente; Equidad; Determinantes Sociales de la Salud
Aspectos éticos
A pesquisa utilizou banco de dados de domínio público e anonimizados.
Introdução
Os determinantes sociais da saúde sugerem iniquidades e englobam fatores sociais, econômicos e ambientais que afetam o bem-estar 1. Ignorar desigualdades pode comprometer a eficácia das intervenções em revisões sistemáticas 2. Pessoas em situação de pobreza ou estigmatizadas são mais beneficiadas por intervenções que consideram suas necessidades 3,4, e o modelo teórico do Ciclo de Eficácia de Equidade indica que intervenções podem ser até dois terços menos eficazes em grupos vulneráveis caso não recebam atenção customizada 5. O status socioeconômico, as barreiras ao acesso à saúde, os diagnósticos imprecisos e os desafios de adesão impactam a eficácia das ações de saúde 5,6,7.
A saúde sexual pode ser definida como um estado de bem-estar relacionado à própria sexualidade; esse estado inclui percepções físicas, emocionais, mentais e sociais 8,9, baseando-se em uma abordagem positiva e respeitosa que garante experiências sexuais prazerosas e seguras, sem coerção, discriminação ou violência, e que promove direitos e saúde reprodutiva 10.
Comportamentos de saúde se formam cedo na vida, e intervenções voltadas à saúde sexual dos jovens podem influenciar o conhecimento, as atitudes e a autoeficácia 11,12. Ainda, melhoram a comunicação, incentivam práticas seguras, aumentam o uso de serviços de saúde e reduzem desfechos adversos, como infecções sexualmente transmissíveis (IST) e gestações indesejadas 11,12. As intervenções se apresentam de forma heterogênea e variam na forma de participação on-line 13; de mídia de massa 14; até educação sexual em escolas ou em universidades 15. Promovem conhecimento, habilidades e valores essenciais 16,17, incentivam relações saudáveis e moldam percepções 18,19, além de promoverem o bem-estar e prevenirem violência sexual 8,20,21.
Intervenções abrangentes promoveram conhecimento e mudanças comportamentais 24, ao passo que intervenções tecnológicas promoveram a aquisição de conhecimento e a redução de comportamentos de risco, além de terem envolvido os pais na promoção do sexo protegido 22. Já abordagens multicomponentes foram eficazes na promoção da saúde sexual e reprodutiva adolescente e na prevenção de bullying 23. Por outro lado, programas de abstinência foram ineficazes. No entanto, nenhum dos overviews anteriores considerou a equidade em saúde ao interpretar os achados.
No campo da saúde sexual e reprodutiva, por exemplo, mulheres negras enfrentam maiores taxas de vitimização física e sexual na adolescência 25,26,27. Mesmo apresentando menos parceiros e usando preservativos consistentemente, enfrentam taxas elevadas de vírus da imunodeficiência humana (HIV) e outras IST em comparação com mulheres brancas e hispânicas 25,28. Fatores socioculturais, como discriminação racial e de gênero, levam à subnotificação de violência 29,30,31.
Este overview objetivou identificar intervenções em saúde sexual e reprodutiva voltadas à promoção de mudanças comportamentais e ao desenvolvimento de habilidades de vida entre jovens em diferentes contextos, considerando evidências de eficácia e critérios de equidade.
Métodos
Delineamento do estudo
Trata-se de overview, conduzido conforme as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses e do Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions 32,42. O estudo incluiu etapas de engajamento com atores-chave brasileiros, conforme diretrizes nacionais de participação social em saúde 33.
Atores-chave foram envolvidos em múltiplas fases do estudo, com participação consultiva e sem coautoria no manuscrito. Foram convidados, por e-mail, grupos de pesquisa, formuladores de políticas e representantes da sociedade civil, incluindo organizações não governamentais (como a Reprolatina). A seleção considerou critérios de diversidade institucional, experiência em políticas públicas e atuação em saúde sexual e reprodutiva.
Participaram 12 representantes de universidades, organizações da sociedade civil, profissionais da saúde e gestores públicos. Esses atores contribuíram para a definição dos conceitos-guia e da pergunta de pesquisa, com o objetivo de refletir os desafios enfrentados na prática. Ao final, revisaram um resumo das evidências e participaram de diálogo deliberativo, no qual foram discutidas barreiras e facilitadores para a implementação das intervenções identificadas.
O engajamento dos atores-chave se deu por meio de grupos focais. O registro foi realizado através de gravação e transcrição. As informações obtidas foram utilizadas para categorização temática e análise de conteúdo para aprimorar a pergunta de pesquisa e contextualizar a síntese final.
Critérios de elegibilidade
Os estudos incluídos eram necessariamente revisões sistemáticas ou overviews (pela possibilidade de captar revisões sistemáticas que poderiam ter sido incluídas como referências nesses trabalhos). Os critérios de inclusão de estudos foram: (i) reunir informações de participantes de 10-24 anos, conforme definição de jovens e jovens adultos da Organização Mundial de Saúde 34; (ii) abordar intervenções de educação sexual e reprodutiva; (iii) ser um artigo revisado por pares indexado; (iv) ser publicado em inglês, espanhol ou português; e (v) ser publicado entre 2016 e 2025.
O recorte temporal foi adotado para observar revisões publicadas a partir do lançamento da Global Strategy for Women's, Children's and Adolescents' Health (2016-2030) e da Ação Global Acelerada para a Saúde de Adolescentes que representam um marco teórico-político em saúde sexual e reprodutiva de adolescentes. Não houve restrição por local de realização das revisões sistemáticas ou dos estudos incluídos nelas.
Neste overview, os conceitos-chave, a seguir, foram adotados.
Intervenções de educação sexual: ações planejadas para promover a saúde e a autonomia sexual dos indivíduos, mudando uma situação existente ou abordando um problema particular 35. Elas podem ocorrer em níveis individuais ou comunitários, com colaboração de múltiplos setores e atores-chave. Na saúde sexual e reprodutiva, podem visar prevenir consequências como gestação indesejada, IST e infecção pelo HIV 36.
Mudanças comportamentais: alterações em comportamentos de risco, como sexo desprotegido, e adoção de práticas sexuais seguras, como o uso consistente de preservativos.
Habilidades para a vida: competências psicossociais que capacitam os jovens a tomar decisões informadas e a enfrentar desafios, como a capacidade de comunicação e a autoeficácia 37.
Determinantes sociais da saúde: fatores sociais, econômicos, ambientais e culturais que influenciam a saúde e o bem-estar dos indivíduos 1.
Foram excluídas revisões que não: apresentavam revisão por pares (literatura cinzenta, como teses, dissertações e pôsteres, que não passaram por processo de revisão formal); eram sistemáticas ou overviews (por exemplo, estudos primários); incluíam resultados de efetividade de intervenções; e estavam disponíveis em texto completo.
Fontes de informação
A busca foi realizada em 30 de agosto de 2022 e atualizada em 19 de maio de 2025, nas seguintes bases de dados: Epistemonikos, Social Systems Evidence, Health Systems Evidence, Medline (via PubMed), Biblioteca Cochrane e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs) via Biblioteca Virtual em Saúde. Foram selecionadas as referências de publicações relevantes, sugestões de atores-chave e fontes como livros e anais de conferências científicas para identificar estudos adicionais potencialmente elegíveis (overviews ou revisões sistemáticas). As listas de citações de todos os artigos incluídos previamente publicados foram inspecionadas manualmente; atores-chave para referências relevantes foram contatados; e outras fontes foram buscadas manualmente, como listas de referências de livros relevantes e anais de conferências.
Estratégia de busca
Uma estratégia-piloto foi desenvolvida para a base de dados Medline (via PubMed) e adaptada para as demais bases de dados, utilizando os descritores controlados do vocabulário Medical Subject Headings. A estratégia final detalhada para as bases de dados bibliográficos foi apresentada na Tabela 1. Aplicou-se um filtro tanto para revisões sistemáticas quanto para data de publicação, mas não foi aplicado filtro para país de publicação. Foram incluídos estudos publicados em inglês, espanhol e português. As buscas foram realizadas por dois autores (LSB e AMVF) e validadas por um terceiro (ABC).
Processo de seleção
A triagem dos estudos foi realizada por duplas de autores independentes (AMVF e JC, AR e JPGK, ATF e KG), com resolução de conflitos por um terceiro revisor (LSB) utilizando Microsoft Excel. Os estudos excluídos foram registrados na (Tabela Suplementar 1.)
Processo de coleta de dados
As referências foram extraídas para o software Mendeley, permitindo a remoção de duplicatas; depois, foram carregadas em uma planilha do Excel. Foram aplicados por dois revisores (AMVF e LSB), independentemente, os critérios de inclusão e exclusão. Em caso de conflito, um terceiro revisor era consultado (ABC).
Lista de dados
Dois pesquisadores (LSB e AMVF) extraíram independentemente os dados dos estudos por meio de planilha eletrônica (Excel). Divergências foram resolvidas por consenso ou por um terceiro revisor (ABC). Foram extraídas informações sobre: tipo de intervenção (intervenção escolar, política pública, baseada em tecnologia), população-alvo (adolescentes, jovens adultos), desfechos avaliados (uso de contraceptivos, IST, gravidez indesejada), resultados quantitativos (medidas de associação, proporções), local de realização dos estudos (países de baixa/média/alta renda), qualidade metodológica das revisões (AMSTAR-2) e inclusão de aspectos relacionados à equidade (Progress).
Avaliação do risco de viés dos estudos
A avaliação da qualidade metodológica e do risco de viés foi conduzida por dois revisores independentes (LSB e AMVF) por meio da ferramenta A MeaSurement Tool to Assess Systematic Reviews 2 (AMSTAR-2) 38, composta por 16 itens. Cada item foi classificado como "sim", "não" ou "parcialmente sim", conforme o grau de conformidade com os critérios metodológicos. Os escores foram posteriormente agrupados e categorizados em níveis de confiança metodológica: alto (0-1 item não crítico), moderado (>1 item não crítico), baixo (1 item crítico) ou criticamente baixo (>1 item crítico).
Considerações sobre equidade
Foi empregada a ferramenta Progress 39 para avaliação de equidade. Progress é um acrônimo para local de residência, raça (incluindo língua e cultura), ocupação, gênero, religião, educação, status socioeconômico e capital social 40. A estrutura facilita uma abordagem sistemática para entender as causas das iniquidades em saúde 41.
Neste estudo, os domínios do Progress foram utilizados para identificar subgrupos populacionais potencialmente desfavorecidos e avaliar se as intervenções incluídas nas revisões sistemáticas consideraram aspectos de equidade em sua concepção, implementação ou análise de resultados. Foram extraídas informações sobre a presença ou ausência de dados desagregados por esses fatores, bem como sobre estratégias específicas voltadas à redução de desigualdades.
Métodos de síntese
Foi realizada síntese narrativa das evidências, com categorização temática e agrupamento dos achados por tipo de intervenção (escolar, tecnológica, política pública), faixa etária e contexto de implementação. A síntese foi complementada por diálogo deliberativo com atores-chave, que discutiram barreiras e facilitadores à implementação das intervenções identificadas.
Resultados
A triagem inicial resultou na identificação de 264 publicações nas bases de dados, das quais 263 foram avaliadas por título e resumo após a remoção de duplicatas. Vinte e oito revisões sistemáticas foram incluídas na síntese narrativa dos achados (Figura 1; Tabela 2).
Dos 28 estudos incluídos, 18 foram classificados como de qualidade metodológica criticamente baixa; 6, como de baixa; 3, como de moderada; e 1, como de alta. Entre os principais problemas observados nas revisões de qualidade criticamente baixa, destacam-se: ausência de protocolo de estudo registrado, falta de lista completa de estudos excluídos e ausência de avaliação do risco de viés dos estudos primários incluídos (Tabela 2). Uma revisão foi classificada como de alta qualidade, por apresentar protocolo registrado, critérios metodológicos claros e avaliação sistemática do risco de viés.
Embora algumas revisões tenham incluído dados de determinantes sociais, há uma lacunas na análise do efeito desses fatores nos resultados das intervenções (Tabela 3). Notou-se, também, um vazio de intervenções focadas em equidade racial e cultural e diversidade de gênero.
A maioria dos estudos focou desfechos como uso de anticoncepcional (n=16), taxas de gestação indesejada (n=9), IST (n=6) e mudanças em conhecimentos sobre saúde sexual (n=13). As intervenções ocorreram principalmente em ambientes escolares (n=13), políticas públicas (n=5) e com base tecnológica (n=5). Intervenções abrangentes e multicomponentes, especialmente as baseadas em escolas e tecnologias, foram eficazes na promoção da saúde sexual e reprodutiva entre jovens (Tabela 2). Com base na avaliação AMSTAR-2, a maioria dos estudos foi de qualidade criticamente baixa (n=15) ou baixa (n=7) 14,19,43,64,65, e 3 foram de qualidade moderada 22,66,67.
Foram identificados 3 grupos de intervenções, presenciais ou on-line, realizadas por profissionais treinados ou entre pares: intervenções em escolas, unidades de saúde e universidades. As políticas de promoção de saúde sexual e reprodutiva apresentaram predominante implementação nas escolas 44,45,46,64. Intervenções abrangentes de saúde sexual e abordagens inclusivas foram mais eficazes em promover a diversidade sexual, prevenir violência entre parceiros íntimos, desenvolver relacionamentos saudáveis, prevenir abuso sexual infantil, incentivar aprendizagem social/emocional e promover comportamentos sexuais preventivos 8,64. A maioria dos estudos destacou a importância da abordagem multidisciplinar 8,19,20,23,47,48. Uma revisão sistemática destacou, ainda, a relevância do treinamento dos facilitadores para o desenvolvimento de habilidades para implementar a intervenção 64.
Três revisões foram conduzidas para avaliar a eficácia do impacto das intervenções on-line em fatores como o uso de preservativos, infecções sexualmente transmissíveis, gestações indesejadas e percepções sobre saúde sexual de intervenções on-line 13,14,43. Estas incluíram jogos ou quizzes fornecendo informações, componentes participativos, comunidades que permitiram discussões entre participantes, sessões educacionais e assistência personalizada. As evidências mostraram que as intervenções on-line impactaram positivamente o uso de preservativos e a abstinência, e sua ampla cobertura as tornaram estratégias eficazes para populações em desenvolvimento.
Evidências de alta qualidade indicaram que intervenções on-line impactaram positivamente o uso de preservativos e a abstinência, independentemente de fatores demográficos ou do formato do programa 14,43. Intervenções de televisão, rádio, vídeos e quadrinhos sobre práticas sexuais seguras promoveram redução do sexo desprotegido e aumento da testagem de IST 14. Devido à sua ampla cobertura, a educação via entretenimento surgiu como estratégia eficaz para promover comportamentos sexuais positivos, especialmente em países em desenvolvimento 14.
As escolas demonstraram ser adequadas para a prestação de serviços de saúde sexual e reprodutiva. Existem poucas evidências de que os programas educacionais curriculares sozinhos e sem o fornecimento de co ntraceptivos e preservativos sejam eficazes na redução de comportamentos de risco em adolescentes e na melhoria dos seus resultados de saúde 8,9,19,20,22,23,46,47,48,49.
Intervenções educativas breves que ocorrem em serviços de atenção primária e clínicas de planejamento familiar foram mais eficazes do que os métodos tradicionais de aconselhamento na promoção do uso de contraceptivos e preservativos entre os jovens 20. Essas intervenções compreenderam de 1 a 3 sessões, com duração de 15 a 60 minutos cada, realizadas individualmente e em grupo. Os métodos variaram de comunicação oral direta até o uso de ferramentas audiovisuais.
Ao longo dos anos, intervenções foram desenvolvidas para reduzir a violência sexual nas universidades 50,51. Destacaram-se programas de treinamento de autodefesa, intervenções focadas em transeuntes e distribuição de cartazes educativos. Embora os ambientes escolar e universitário sejam locais-chave para a implementação de programas de educação sexual 24, o uso da internet pôde contribuir para programas de educação em saúde sexual e reprodutiva, apresentando facilidade de acesso, disponibilidade, baixo custo e participação remota ou assíncrona 52,53,54. Entre os adolescentes, as plataformas de redes sociais demonstraram ser a principal fonte de obtenção de informações sobre sexualidade 55.
Discussão
Este é o primeiro overview a analisar as evidências sobre intervenções de saúde sexual e reprodutiva com foco na equidade em saúde. As intervenções multicomponentes, especialmente aquelas de base escolar, mostraram-se eficazes. Estes achados confirmaram que intervenções abrangentes e multicomponentes são eficazes na promoção da saúde sexual e reprodutiva entre jovens. Tais intervenções demonstraram maior impacto no conhecimento e na redução de comportamentos de risco em comparação com abordagens que promovem apenas a abstinência, as quais foram ineficazes.
Esta análise demonstrou que, embora 28 revisões tenham sido incluídas na síntese qualitativa, 18 apresentaram qualidade metodológica criticamente baixa, o que levanta preocupações sobre a confiabilidade das evidências disponíveis na área. As intervenções mais frequentes ocorreram em ambientes escolares (n=13), mas as baseadas em políticas públicas (n=5) e em tecnologia (n=5) também foram relevantes. Apesar de algumas revisões sistemáticas terem incluído a caracterização dos participantes com base em determinantes sociais da saúde, nenhuma delas analisou o efeito das intervenções sob a ótica da equidade.
Ao aplicar a estrutura Progress, identificou-se que fatores como raça, gênero, status socioeconômico e capital social afetam a eficácia e podem ampliar as iniquidades. Constatou-se uma lacuna em intervenções focadas em equidade racial e cultural e diversidade de gênero. Programas baseados no currículo podem ser menos eficazes na abordagem de jovens negros, potencialmente agravando as desigualdades 22,24,59,60.
A educação sexual frequentemente carece de instrução voltada para essa população. Para mitigar essa disparidade, é essencial promover a inclusão, utilizando materiais representativos e mídias que celebrem a diversidade racial 61. No domínio de gênero, a ausência de estratégias eficazes para a saúde sexual e reprodutiva tem consequências desproporcionalmente negativas para as meninas, como casamento infantil, gestações não planejadas ou indesejadas e abuso sexual. Intervenções estruturais, como as que apoiam a frequência escolar e o progresso das meninas por meio de transferências de renda condicionadas, mostraram-se mais bem-sucedidas na prevenção do casamento infantil em comparação com ações focadas apenas no empoderamento feminino 62.
O alto índice de desemprego juvenil também é um fator determinante na manutenção das altas taxas de gestação na adolescência 21. Intervenções baseadas em tecnologia impactam positivamente o uso de preservativos e a abstinência 19, e sua ampla cobertura 14 as torna estratégias viáveis para populações em contextos de desenvolvimento e áreas rurais. Intervenções de mídia de massa (TV, rádio) promoveram redução do sexo desprotegido e aumento da testagem de IST 14.
A necessidade de abordar a equidade em saúde é crucial. Ignorar desigualdades pode comprometer a eficácia das intervenções em revisões sistemáticas 2. No domínio de status socioeconômico, as políticas de transferência de renda condicionadas à manutenção do acesso à educação e à saúde foram capazes de prevenir gestações não planejadas ou indesejadas entre adolescentes 21, beneficiando mais mulheres pobres. A combinação de educação sexual, contracepção e engajamento comunitário reduziu gestações indesejadas junto a jovens de 10-24 anos em países de baixa e média renda 56.
No contexto escolar, os programas educacionais curriculares isoladamente, sem fornecimento de contraceptivos e preservativos, são pouco eficazes na redução de comportamentos de risco em adolescentes 8,9,19,20,22,23,46,47,48,49. A abordagem multidisciplinar, que combina educação com serviços de saúde 20 e envolve pais/cuidadores 43, é mais eficaz para promover sexo protegido e reduzir comportamentos de risco. A integração da educação sexual com um arcabouço de justiça social e direitos humanos pode aumentar o conhecimento e a valorização da equidade de gênero e dos direitos sexuais 8,64.
A resistência cultural também é uma barreira significativa 49, e a implementação de intervenções em educação sexual deve considerar o contexto sociocultural. A falha das intervenções em superar barreiras estruturais e econômicas à promoção de saúde sexual e reprodutiva foi documentada 48. Em suma, embora as intervenções abrangentes e multicomponentes sejam a principal recomendação, os achados deste overview enfatizam a necessidade urgente de que futuras revisões e estudos primários não apenas incluam determinantes sociais, mas que ativamente analisem o seu efeito diferenciado na eficácia das intervenções.
Esta revisão apresentou três limitações principais: a exclusão da literatura cinzenta (teses e dissertações), devido ao critério de ausência de revisão por pares; o fato de as revisões sistemáticas incluídas terem fornecido poucos detalhes sobre as intervenções (duração, tópicos e formação dos profissionais envolvidos); e a não realização de análise de duplicidade de estudos primários nas revisões, heterogeneidade dos estudos ou viés de publicação. O critério de exclusão de não ter o artigo disponível para download pode ter restringido a captação de evidências, sendo considerada outra limitação do estudo.
Este overview foi o primeiro a aplicar uma lente de equidade na avaliação da eficácia de intervenções de saúde sexual e reprodutiva destinadas a adolescentes e jovens adultos. Os resultados confirmaram que intervenções abrangentes e multicomponentes, especialmente aquelas baseadas em escolas e tecnologias, foram as mais eficazes na promoção da saúde sexual e reprodutiva, demonstrando maior impacto no conhecimento e na redução de comportamentos de risco em comparação com programas focados apenas na abstinência. A análise de equidade revelou uma lacuna crucial: embora as intervenções considerem determinantes sociais da saúde, a maioria das revisões sistemáticas falhou em analisar o efeito diferenciado desses fatores nos resultados.
Este achado sugere que fatores como raça, gênero, status socioeconômico e capital social afetam a eficácia das intervenções e podem ampliar as iniquidades. Assim, esta síntese aponta para a necessidade urgente de futuras pesquisas e políticas públicas considerarem e analisarem ativamente esses determinantes para garantir intervenções mais inclusivas e sensíveis às desigualdades sociais.
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Disponibilidade de dados
Todos os dados utilizados para este overview, incluindo a matriz de extração e a avaliação de qualidade dos estudos, estão disponíveis por meio do contato com o autor correspondente: angelo.costa@pucrs.br
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Registro do protocolo
Este overview foi protocolado no PROSPERO International Prospective Register of Systematic Reviews, sob o registro de CRD42023436964 sob o título "Efficacy and effectiveness of interventions to promote sexual health among adolescents and young adults: a systematic review", incluindo apenas revisões sistemáticas e overviews.
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Uso de inteligência artificial generativa
Durante a preparação deste trabalho, os autores utilizaram o ChatGPT (https://chatgpt.com/) para melhorar a linguagem e a legibilidade. Após utilizar essa ferramenta, os autores revisaram e editaram o conteúdo conforme necessário e assumem total responsabilidade pelo conteúdo da publicação
Editado por
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Editor-chefe:
Jorge Otávio Maia Barreto - https://orcid.org/0000-0002-7648-0472
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Editor científico:
Everton Nunes da Silva - https://orcid.org/0000-0001-8747-4185
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Editora associada:
Carolina Müller Ferreira - https://orcid.org/0000-0002-7975-5777
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