Resumo
Objetivo: Avaliar as evidências globais sobre a associação entre raça/cor e hospitalização e mortalidade por covid-19.
Métodos: A busca foi realizada nos bancos de dados Medline (via PubMed), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde, Biblioteca Eletrônica Científica Online via a Biblioteca Virtual em Saúde, Web of Science e Scopus, com a busca final realizada em dezembro de 2023. Foram incluídos estudos observacionais que avaliaram a associação entre raça/cor e desfechos definidos de hospitalização ou mortalidade por covid-19. Três revisores realizaram a seleção e a extração dos dados utilizando o sistema Rayyan e uma planilha padronizada. A avaliação da qualidade foi realizada utilizando a escala de Newcastle-Ottawa. A razão de chances (odds ratio, OR) e os intervalos de confiança de 95% (IC95%) foram combinados por metanálise. A heterogeneidade foi estimada pelo I².
Resultados: De 5.028 registros analisados, 41 estudos foram incluídos, publicados entre 2020 e 2022, a maioria proveniente dos Estados Unidos. Observaram-se associações positivas entre raça/cor negra e hospitalização por covid-19 (OR ajustada 1,97; IC95% 1,75; 2,23) e entre raça/cor e mortalidade (OR ajustada 1,54; IC95% 1,20; 1,98), provavelmente impulsionadas por desigualdades socioeconômicas e acessos desiguais aos cuidados de saúde.
Conclusões: Esta revisão sistemática demonstrou que a raça/cor negra está associada ao aumento significativo da probabilidade de hospitalização e mortalidade por covid-19, destacando a importância de intervenções de saúde pública direcionadas para reduzir essas disparidades raciais.
Palavras-chave:
COVID-19; Raça; Hospitalização; Mortalidade; Metanálise
Abstract
Objective: To assess global evidence on association between race/color and COVID19 hospitalization and mortality outcomes. Methods: A search was performed on the following databases: Medline (via PubMed); Latin American and Caribbean Health Sciences Literature (LILACS) and Scientific Electronic Library Online (SciELO) via the Virtual Health Library (Biblioteca Virtual em Saúde - BVS); Web of Science; and Scopus, whereby the final search was performed in December 2023. We included observational studies that assessed association between race/color and defined outcomes of COVID-19 hospitalization or mortality. Three reviewers performed the selection and extraction using the Rayyan system and a standardized spreadsheet. The quality assessment was performed using the Newcastle-Ottawa Scale. The odds ratios (OR) and 95% confidence intervals (95%CI) were combined by meta-analysis. Heterogeneity was estimated by I2.
Results: Out of 5,028 screened records, 41 studies were included, published between 2020-2022 and mostly from the United States. Positive association was observed between Black race/color and both COVID-19 hospitalization (adjusted OR 1.97; 95%CI 1.75; 2.23) and mortality (adjusted OR 1.54; 95%CI 1.20; 1.98), likely driven by socioeconomic inequities and unequal access to care.
Conclusions: This systematic review demonstrates that Black race/color is associated with significantly increased odds of COVID19 hospitalization and mortality, highlighting the importance of targeted public health interventions to reduce these racial disparities.
Keywords:
COVID-19; Race/Color; Hospitalization; Mortality; Meta-Analysis
Resumen
Objetivo: Evaluar la evidencia global sobre la asociación entre raza/color y los resultados de hospitalización y mortalidad por COVID-19.
Métodos: Se realizó una búsqueda en las siguientes bases de datos: Medline (a través de PubMed); Literatura Latinoamericana y Caribeña en Ciencias de la Salud (LILACS) y Biblioteca Científica Electrónica en Línea (SciELO) a través de la Biblioteca Virtual en Salud (BVS); Web of Science; y Scopus. La búsqueda final se realizó en diciembre de 2023. Se incluyeron estudios observacionales que evaluaron la asociación entre raza/color y los resultados definidos de hospitalización o mortalidad por COVID-19. Tres revisores realizaron la selección y extracción utilizando el sistema Rayyan y una hoja de cálculo estandarizada. La evaluación de la calidad se realizó mediante la Escala de Newcastle-Ottawa. Las razones de momios (odds ratios, OR) y los intervalos de confianza del 95% (IC95%) se combinaron mediante metaanálisis. La heterogeneidad se estimó mediante I².
Resultados: De 5028 registros revisados, se incluyeron 41 estudios, publicados entre 2020 y 2022 y provenientes principalmente de ols Estados Unidos. Se observó una asociación positiva entre la raza/ color negro y la hospitalización por COVID-19 (OR ajustado 1,97; IC95% 1,75; 2,23) y la mortalidad (OR ajustado 1,54; IC95% 1,20; 1,98), probablemente debido a las inequidades socioeconómicas y el acceso desigual a la atención médica.
Conclusiones: Esta revisión sistemática demuestra que la raza/color negro se asocia con una probabilidad significativamente mayor de hospitalización y mortalidad por COVID-19, lo que subraya la importancia de las intervenciones de salud pública dirigidas a reducir estas disparidades raciales.
Palabras clave:
COVID-19; Raza/Color; Hospitalización; Mortalidad; Metaanálisis
Introdução
Editor chefe: Jorge Otávio Maia Barreto <https://orcid.org/0000-0002-7648-0472>
Editora científica: Maria Auxiliadora Parreiras Martins <https://orcid.org/0000-0002-5211-411X>
Editora associada: Carolina Muller Ferreira < https://orcid.org/0000-0002-7975-5777>
Correspondência: Simone Seixas da Cruz. E-mail: simone.seixas@ufrb.edu.br
Conflito de interesses: Nenhum declarado.
Desde o início da pandemia de covid-19, foram registrados 608.328.548 casos confirmados de infecção pela síndrome respiratória aguda grave do coronavírus 2 (Sars-COV-2) em todo o mundo, com 6.501.469 óbitos pela doença, até setembro de 2022 [1]. No Brasil, o número de óbitos registrados por essa causa específica no mesmo período correspondeu a 10% dos registrados mundialmente [1]. Esse destaque para o Brasil ressalta como as acentuadas desigualdades raciais e sociais nos desfechos da covid-19 no país refletem os padrões de disparidades de saúde raciais que afetam populações minoritárias em todo o mundo. Contudo, a covid-19 parece apresentar efeitos ainda mais graves em populações expostas à vulnerabilidade social, particularmente em grupos como o de raça/cor negra [1].
A desagregação da gravidade da covid-19 por grupo étnico-racial tem sido descrita como uma ferramenta fundamental para revelar a condição específica de cada grupo [2]. Isso qualifica a tomada de decisões para enfrentar a pandemia, especialmente no que diz respeito a medidas preventivas como o fornecimento de vacinas para controlar a doença em todo o mundo. Em grupos socialmente vulneráveis, as repercussões geradas pela pandemia extrapolam o número de casos e mortes, revelando disparidades sociais devido a desigualdades na qualidade e no acesso aos serviços de saúde, relações sociais, medo de infecção e sofrimento psicológico [2].
As desigualdades sociais foram acentuadas durante a pandemia, uma vez que as populações periféricas, que já sofriam com a escassez de infraestrutura e de recursos econômicos, o desemprego, a insegurança alimentar, a educação deficitária e a dificuldade ou a falta de acesso a serviços, enfrentaram um novo desafio: reinventar as práticas de prevenção e autocuidado em saúde. Medidas restritivas e de isolamento social foram adotadas para mitigar o avanço da covid-19. No entanto, nos grupos sociais mais expostos, tais medidas não puderam ser adotadas devido à precariedade das condições de vida e à necessidade de sobrevivência. As medidas restritivas e de isolamento social, embora necessárias para conter a transmissão, também exacerbaram as dificuldades socioeconômicas, como o aumento da pobreza, da insegurança alimentar e do desemprego, em muitos países. As minorias raciais historicamente sujeitas ao racismo estrutural foram afetadas de forma desproporcional, o que resultou em privações dos direitos básicos à vida e à saúde [3].
Em 2021, o maior risco de infecção e de desenvolvimento dos casos mais graves da doença em minorias raciais e étnicas foi identificado por meio de revisão sistemática com metanálise [4]. A síntese das evidências foi realizada apenas com estudos desenvolvidos com populações dos Estados Unidos e revelou alta inconsistência entre os estudos. Visando aumentar a abrangência geográfica e reduzir a inconsistência entre os estudos incluídos, esta revisão sistemática teve como objetivo avaliar as evidências globais sobre a associação entre raça/cor negra e hospitalização e mortalidade por covid-19.
Métodos
Delineamento e contexto
Esta revisão sistemática foi conduzida e relatada de acordo com as diretrizes Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta Analyses (PRISMA) 2020 [5,6].
Critérios de elegibilidade
Foram incluídos estudos observacionais, especificamente transversais, de caso-controle e de coorte, que examinaram a associação entre raça/cor e hospitalização e mortalidade relacionadas à covid-19. As buscas foram realizadas em múltiplos bancos de dados, e a última delas foi executada em 15 de dezembro de 2023. Relatos de caso, ensaios clínicos randomizados de intervenções e estudos sem critérios claramente definidos para hospitalização ou óbito por covid-19 foram excluídos.
Os estudos elegíveis foram aqueles que relataram resultados para pelo menos dois grupos raciais ou étnicos distintos, permitindo análises comparativas. A busca abrangeu todos os tipos de classificações étnico-raciais disponíveis nos estudos; no entanto, a inclusão exigiu que as categorias de raça/cor fossem explicitamente definidas, por meio de autoidentificação ou registros oficiais, para permitir a categorização adequada.
Os estudos foram excluídos quando o método de classificação não foi claramente descrito ou quando os dados não permitiram o agrupamento confiável em duas categorias amplas: negros (incluindo indivíduos identificados como negros, pardos ou categorias de raça mista equivalentes) e não negros (o grupo de referência, compreendendo todas as outras categorias, como brancos, asiáticos etc.).
Fontes de informação
As buscas foram realizadas no Medline (via PubMed), na Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs), na Biblioteca Eletrônica Científica Online (SciELO) da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), na Web of Science e na Scopus. Também foram examinadas as listas de referências dos artigos selecionados e consultados repositórios confiáveis de literatura cinzenta, incluindo teses e dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e preprints no servidor medRxiv. Não foram aplicadas restrições de idioma ou status de publicação.
Estratégia de busca
Uma estratégia de busca-piloto foi desenvolvida para o banco de dados Medline (via PubMed) por SNS e AAM e adaptada para os demais bancos de dados seguindo as recomendações da Peer Review of Electronic Search Strategies (PRESS) [7]. A revisão por pares foi realizada por SSC e MDCS. A estratégia final para cada banco de dados bibliográfica foi adaptada. Para teses e dissertações, foram utilizadas as seguintes palavras-chave: “Adulto”, “Grupo Racial”, “COVID-19” e “SARS-CoV-2”. Os operadores booleanos AND/OR foram aplicados.
Seleção de estudos
Três pesquisadores (SNS, SSC e MDCS), em pares e de forma independente, selecionaram títulos e resumos, e outros três pesquisadores (ISGF, SNS e ACGMF) avaliaram os textos completos utilizando o sistema Rayyan [8]. Quando revisões sistemáticas foram identificadas, elas foram excluídas como estudos primários, mas suas listas de referências foram consultadas para identificar eventuais pesquisas originais adicionais elegíveis. Discrepâncias em qualquer uma das etapas foram discutidas até que se chegasse a um consenso, consultando um revisor sênior (ISGF), se necessário, conforme pré-especificado no protocolo registrado.
Processo de coleta de dados
Três pesquisadores (SNS, AAM e DFR), em pares e de forma independente, extraíram os dados dos estudos utilizando planilhas padronizadas com o software StArt v3.4 [9]. Discrepâncias em qualquer uma das etapas foram discutidas até que se chegasse a um consenso, consultando um revisor sênior (ISGF), se necessário, conforme pré-especificado no protocolo registrado.
Quando faltavam informações, os autores dos estudos eram contatados para esclarecimentos. O protocolo para gerenciar dados faltantes especificava que os autores correspondentes seriam contatados por e-mail até duas vezes para solicitar esclarecimentos. Caso uma resposta fosse recebida, os dados seriam incorporados; caso contrário, o estudo seria excluído de qualquer análise para a qual os dados fossem essenciais.
Domínios de dados
Foram extraídos dados em três domínios principais: características do estudo (autor, ano de publicação, banco de dados de origem, país/região, período do estudo, objetivo e delineamento do estudo); características da população (tamanho da amostra, classificação de raça/ cor [negros e não negros] e critérios de diagnóstico); e dados de desfecho (hospitalização e mortalidade por covid-19, medidas de efeito, fatores de confusão ajustados e principais achados).
Avaliação de risco de viés
Pesquisadores em pares e independentes (JSPS, AMH e MSRX) avaliaram a qualidade metodológica dos estudos incluídos utilizando a escala de Newcastle-Ottawa (Newcastle-Ottawa scale, NOS) para estudos observacionais [10-11]. Para os estudos transversais incluídos, foi utilizada uma versão adaptada da NOS [10]. Essa abordagem foi escolhida para garantir que os critérios de qualidade fossem apropriados para o delineamento específico do estudo, mantendo, ao mesmo tempo, uma estrutura de avaliação consistente e comparável entre todos os estudos observacionais.
A ferramenta atribuiu até nove estrelas em três domínios: seleção (máximo de quatro estrelas), que avaliou a representatividade das coortes e a determinação da exposição; comparabilidade (máximo de duas estrelas), que avaliou o controle de variáveis de confusão importantes; e desfecho (máximo de três estrelas), que examinou os métodos de avaliação do desfecho. Estudos com pontuação entre sete e nove estrelas foram considerados de alta qualidade metodológica, aqueles com quatro a seis estrelas foram considerados de qualidade moderada, e pontuações abaixo de quatro indicaram baixa qualidade e maior risco de viés. Quaisquer discrepâncias entre os revisores foram discutidas e resolvidas por consenso. Quando necessário, um revisor sênior (ISGF) foi consultado para arbitragem, conforme pré-especificado no protocolo do estudo.
Medições de efeito
Razões de chances (odds ratio, OR) com intervalos de confiança de 95% (IC95%) foram utilizadas como medidas de efeito primárias [12]. Para estudos que relataram razões de prevalência (RP) ou razões de risco (RR), essas estimativas foram convertidas em OR para garantir consistência entre as análises [13].
Métodos de sintetização
As OR ajustadas foram sintetizadas usando um modelo genérico de efeitos aleatórios com variância inversa e estimativa de máxima verossimilhança restrita (restricted maximum likelihood, REML) no Stata 17 (StataCorp LLC, Texas, Estados Unidos). A heterogeneidade entre os estudos foi avaliada usando o teste Q de Cochran (limiar de significância), a estatística I² e o índice de inconsistência [12]. Estudos observacionais de diferentes delineamentos (transversal, coorte e caso-controle) foram agrupados, pois cada um relatou medidas de associação ajustadas para os mesmos desfechos dicotômicos, especificamente hospitalização e mortalidade, seja diretamente como OR ou convertidas de razões de risco (RR) e razões de prevalência (RP), seguindo as diretrizes da Cochrane para combinar delineamentos heterogêneos ao estimar a mesma medida de efeito [14].
As análises de sensibilidade incluíram testes de exclusão leave-one-out [15-16], metanálises estratificadas por delineamento do estudo e gráficos de Galbraith
[17] para explorar potenciais fontes de heterogeneidade. Análises de subgrupos foram planejadas para investigar a heterogeneidade por delineamento do estudo, região geográfica e método de classificação de raça/cor. A metarregressão foi considerada, mas não realizada devido ao número insuficiente de estudos (<10) em subgrupos-chave e à falta de padronização nas definições das covariáveis.
Avaliação de viés de relato
Viés de publicação em potencial foi avaliado por meio da inspeção visual de gráficos de funil e testes estatísticos utilizando o teste de Egger (p<0,05) e o teste de Begg [18-19]. Esses métodos foram aplicados para detectar assimetria e efeitos de pequenos estudos que poderiam influenciar as estimativas agrupadas.
A assimetria do gráfico de funil foi avaliada para identificar o viés em potencial resultante da publicação seletiva de estudos com resultados significativos. Um valor-p inferior a 0,05 foi considerado estatisticamente significativo, o que indicou potencial assimetria no gráfico de funil que poderia sugerir a presença de viés de publicação.
Resultados
A busca bibliográfica identificou 5.028 publicações. Após a triagem, 41 estudos atenderam aos critérios de elegibilidade e foram incluídos na revisão (Figura 1). Esses estudos, publicados entre 2020 e 2022, incluíram coletivamente 6.913.420 participantes (Tabela 1).
A maioria dos estudos incluídos eram coortes observacionais (65,85%; n=27) e foram conduzidos predominantemente nos Estados Unidos (95,12%; n=39). A qualidade metodológica geral dos estudos incluídos foi alta, com pontuação média de 8,17 na escala de Newcastle-Ottawa. Apesar de ter planejado a inclusão de estudos de caso-controle, nenhum dos estudos identificados com esse delineamento atendeu aos critérios finais de elegibilidade. Os motivos para excluir estudos após a revisão do texto completo foram resumidos no fluxograma de seleção (Figura 1).
Para a associação entre raça/cor negra e hospitalização por covid-19, 34 estudos foram analisados. A metanálise inicial produziu OR ajustada de 1,70 (IC95% 1,44; 2,01) com heterogeneidade muito substancial. Após uma análise de sensibilidade para explorar as fontes de heterogeneidade, o subconjunto final de 14 estudos foi metanalisado, o que resultou na OR ajustada de 1,97 (IC95% 1,75; 2,23), com heterogeneidade reduzida a um nível moderado (Figura 2).
Para a associação com a mortalidade por covid-19, foram analisados 25 estudos. A metanálise inicial estimou OR ajustada de 1,34 (IC95% 1,07; 1,68), também com heterogeneidade muito substancial. Após excluir prováveis fontes de heterogeneidade, a análise final incluiu 7 estudos, o que resultou na OR ajustada de 1,54 (IC95% 1,20; 1,98), com heterogeneidade reduzida a um nível negligenciável (Figura 3).
A análise dos gráficos de funil sugeriu a presença de viés de publicação, o que foi confirmado pelo teste de Egger (p<0,01). A metarregressão foi considerada, mas não realizada porque os subgrupos predefinidos incluíam menos de dez estudos, número inferior ao mínimo recomendado para estimativas estáveis.
Discussão
Esta revisão incluiu 41 artigos, dos quais 34 relataram medidas de associação entre raça/cor negra e hospitalização relacionada à covid-19 e 25 relataram medidas para mortalidade por covid-19 [20-29,33-47,50-60]. Os riscos de hospitalização e morte foram consistentemente maiores entre indivíduos negros do que em grupos não negros, confirmando uma revisão publicada anteriormente que também observou essa disparidade [4].
A principal limitação deste estudo residiu no fato de todas as investigações incluídas serem observacionais, o que impediu a inferência causal que seria possível em pesquisas baseadas em intervenções. Além disso, os domínios de risco de viés, particularmente aqueles relacionados à representatividade da amostra e à verificação da exposição, variaram entre os estudos, podendo atenuar ou inflar as estimativas agrupadas.
A metarregressão não foi viável porque muitos subgrupos predefinidos continham menos de dez estudos, abaixo do mínimo recomendado para estimativas estáveis, e as principais covariáveis (definições exatas de raça, critérios de hospitalização e ajustes de comorbidade) não eram padronizadas. Além disso, é importante enfatizar que metanálises separadas foram mantidas para hospitalização e mortalidade porque representam desfechos clinicamente distintos com suas próprias definições, fontes de heterogeneidade e períodos de tempo. Combiná-los em uma única síntese contradiria a orientação da Cochrane de que apenas estudos com o mesmo desfecho devem ser agrupados [14].
Para explicar a alta heterogeneidade observada entre os estudos, é necessário considerar fatores multicausais. Estudos conduzidos em populações negras com maior prevalência de comorbidades (como diabetes e hipertensão) tendem a apresentar maiores razões de chances (odds ratios, OR). Nesse contexto, essas OR mais elevadas quantificam uma disparidade mais acentuada, o que indica que indivíduos negros têm probabilidade significativamente maior de desfechos adversos em comparação a outros grupos devido a essas condições de saúde subjacentes. Simultaneamente, variações nas vulnerabilidades socioeconômicas (moradia precária, superlotação e ocupações essenciais) influenciam, de forma diferenciada, o risco de exposição e a progressão grave da covid-19. Os protocolos locais de testagem e hospitalização também variam amplamente, alterando a composição do grupo hospitalizado e a associação observada com a raça.
A capacidade de resposta dos sistemas de saúde (disponibilidade de leitos, unidades de terapia intensiva [UTIs] e tratamentos precoces) impacta as taxas de mortalidade: regiões com infraestrutura limitada tendem a registrar OR mais elevadas para óbitos, refletindo associação positiva mais forte entre raça/cor negra e mortalidade. Esses diversos fatores contextuais, que não são uniformemente capturados em cada estudo, levam aos altos índices I² observados nas meta-análises. Esses valores elevados (tipicamente superiores a 75%) representam alta heterogeneidade estatística, o que confirma que a variação nos resultados entre os estudos é impulsionada pelas diferentes realidades sociais e clínicas das diversas regiões, e não por erro de amostragem.
Disparidades marcadas na eficácia das políticas de resposta à covid-19 e na alocação de recursos foram documentadas em grupos racializados, particularmente entre populações negras, aumentando diretamente tanto a exposição ao vírus quanto os riscos de letalidade [26,33,46,50,53]. Recursos insuficientes para controlar infecções em comunidades negras vulneráveis exacerbaram ainda mais esses riscos [32,50]. Estes achados corroboram esses estudos.
O racismo institucional e interpessoal atua como determinante central das desigualdades em saúde. Omissões estruturais nas políticas públicas de saúde, educação e economia têm dificultado o acesso equitativo à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento para populações negras, especialmente em contextos com recursos limitados. A subnotificação de raça/etnia em registros de covid-19, como no Brasil e nos Estados Unidos, ocultou a verdadeira carga da doença, dificultando a avaliação de políticas e o monitoramento das desigualdades [50].
Estes achados, apesar das limitações, ressaltaram a necessidade urgente de políticas públicas orientadas para a equidade que ampliem o acesso à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado nas comunidades negras. A coleta sistemática de dados epidemiológicos desagregados por raça/etnia é essencial para identificar disparidades e orientar intervenções direcionadas em contextos de profundas desigualdades raciais [2-3].
Em conclusão, indivíduos negros enfrentam riscos desproporcionalmente maiores de desenvolver quadros graves de covid-19, o que reflete vulnerabilidade social histórica e racismo institucional. Para combater essas disparidades, são necessários sistemas de dados robustos e esforços políticos harmonizados para garantir o acesso equitativo a serviços de saúde e à distribuição de recursos.
Esta pesquisa utilizou bancos de dados de domínio público e anonimizados.
Protocol registrationPROSPERO - CRD42022347715.
Use of generative artificial intelligenceNot used.
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Editado por
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Editor-in-Chief:
Jorge Otávio Maia Barreto https://orcid.org/0000-0002-7648-0472
-
Scientific Editor:
Maria Auxiliadora Parreiras Martins https://orcid.org/0000-0002-5211-411X
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Associate Editor:
Carolina Muller Ferreira https://orcid.org/0000-0002-7975-5777





* OR ajustada; IC95%: intervalo de confiança de 95%.
* OR ajustada; IC95%: intervalo de confiança de 95%.