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Open-access Perfil clínico-epidemiológico das notificações de Candidozyma auris em hospital regional: estudo descritivo, Pernambuco, 2022-2023

Resumo

Objetivo  Descrever o perfil clínico-epidemiológico das notificações de colonização por Candidozyma auris em um hospital regional de referência em trauma em Pernambuco.

Métodos  Estudo de série de casos, de caráter descritivo, com dados secundários provenientes do sistema institucional de notificação e de prontuários eletrônicos. Incluíram-se todas as pessoas com colonização confirmada por Candidozyma auris entre janeiro de 2022 e julho de 2023. As variáveis sociodemográficas, clínicas, assistenciais e os desfechos foram analisados por estatística descritiva.

Resultados  Foram incluídas 44 pessoas, predominantemente do sexo masculino (77,3%) e <50 anos (56,8%). A maioria foi admitida por transferência de outras unidades de saúde (56,8%) e pela emergência de trauma (86,4%). Observou-se uso extensivo de dispositivos invasivos (79,5%) e elevada rotatividade entre setores hospitalares, com 65,9% de pacientes que transitaram por quatro ou mais unidades. Infecção bacteriana concomitante ocorreu em 54,5%, principalmente por Staphylococcus spp., Pseudomonas spp. e Acinetobacter spp. O tempo médio de hospitalização foi de 55,7 dias, e a proporção de óbitos foi de 34,1%.

Conclusão  A colonização por Candidozyma auris ocorreu em contexto de alta complexidade assistencial, marcado por internações prolongadas, uso intensivo de dispositivos invasivos e múltiplas transferências intra-hospitalares. Esses achados reforçaram a necessidade de vigilância ativa dirigida, protocolos rigorosos de controle ambiental e integração entre serviços de saúde para contenção da disseminação desse patógeno emergente.

Palavras-chave
Candydozima Auris; Farmacorresistência fúngica; Epidemiologia Clínica; Colonização; Programa de Controle de Infecção Hospitalar

Abstract

Objective  To describe the clinical and epidemiological profile of Candidozyma auris colonization notifications in a regional trauma referral hospital of Pernambuco.

Methods  Descriptive case series study using secondary data from the institutional notification system and electronic medical records. All individuals with confirmed Candidozyma auris colonization between January 2022 and July 2023 were included. Sociodemographic, clinical, care-related variables, and outcomes were analyzed using descriptive statistics.

Results  A total of 44 individuals were included, predominantly male (77.3%) and <50 years old (56.8%). Most were admitted via transfer from other healthcare units (56.8%) and through the trauma emergency department (86.4%). Extensive use of invasive devices was observed (79.5%) along with high intra-hospital patient movement, with 65.9% of patients moving through four or more units. Concomitant bacterial infection occurred in 54.5% of cases, mainly caused by Staphylococcus spp., Pseudomonas spp., and Acinetobacter spp. The mean length of hospital stay was 55.7 days, and the mortality rate was 34.1%.

Conclusion  Candidozyma auris colonization occurred in a context of high-complexity care, characterized by prolonged hospitalizations, intensive use of invasive devices, and multiple intra-hospital transfers. These findings underscore the need for targeted active surveillance, strict environmental control protocols, and integration among healthcare services to contain the spread of this emerging pathogen.

Keywords
Candydozyme Auris; Drug Resistance, Fungal; Clinical Epidemiology; Colonization; Hospital Infection Control Program

Resumen

Objetivo  Describir el perfil clínico y epidemiológico de las notificaciones de colonización por Candidozyma auris en un hospital regional de referencia en trauma de Pernambuco.

Métodos  Estudio de serie de casos, de carácter descriptivo, con datos secundarios provenientes del sistema institucional de notificación y de historias clínicas electrónicas. Se incluyeron todas las personas con colonización confirmada por Candidozyma auris entre enero de 2022 y julio de 2023. Las variables sociodemográficas, clínicas y asistenciales, así como los desenlaces, se analizaron mediante estadística descriptiva.

Resultados  Se incluyeron 44 personas, predominantemente del sexo masculino (77,3 %) y menores de 50 años (56,8 %). La mayoría fue admitida por transferencia de otras unidades de salud (56,8 %) y por emergencia de trauma (86,4 %). Se observó un uso extensivo de dispositivos invasivos (79,5 %) y una elevada rotación entre los sectores hospitalarios, con 65,9 % de los pacientes que transitaron por cuatro o más unidades. La infección bacteriana concomitante se observó en el 54,5 %, principalmente por Staphylococcus spp., Pseudomonas spp. y Acinetobacter spp. El tiempo medio de hospitalización fue de 55,7 días y la proporción de muertes fue de 34,1 %.

Conclusión  La colonización por Candidozyma auris ocurrió en un contexto de alta complejidad asistencial, marcado por hospitalizaciones prolongadas, uso intensivo de dispositivos invasivos y múltiples transferencias intrahospitalarias. Estos hallazgos reforzaron la necesidad de vigilancia activa dirigida, de protocolos rigurosos de control ambiental e integración entre los servicios de salud para contener la diseminación de este patógeno emergente.

Palabras clave
Candidozyma auris; Farmacorresistencia Fúngica; Epidemiología Clínica; Colonización; Programa de Control de Infecciones Hospitalarias

Aspectos éticos

A presente pesquisa respeitou os princípios éticos, obtendo os seguintes dados de aprovação:

Comitê de ética em pesquisa: Hospital da Restauração Governador Paulo Guerra

Número do parecer: 6.044.810

Data de aprovação: 8/5/2023

Certificado de apresentação de apreciação ética: 68881223.0.0000.5198

Registro do consentimento livre e esclarecido: Dispensado.

Introdução

A emergência de Candidozyma auris (C. auris) constitui um dos desafios contemporâneos para a vigilância epidemiológica e o controle de infecções relacionadas à assistência à saúde, sobretudo em ambientes hospitalares de alta complexidade [1]. Desde sua identificação, o fungo tem sido associado a surtos caracterizados por elevada capacidade de disseminação, persistência ambiental prolongada e perfil frequente de multirresistência aos antifúngicos disponíveis. Diferentemente de outras espécies do gênero Candida, C. auris apresenta notável capacidade para colonizar a pele e superfícies inanimadas, o que favorece a transmissão cruzada e a manutenção de cadeias de disseminação nos serviços de saúde [2].

No cenário internacional, surtos de C. auris têm sido descritos, principalmente em unidades de terapia intensiva (UTI) e em instituições que concentram pessoas em estado crítico, submetidas a múltiplos procedimentos invasivos e a longos períodos de internação [3].

No Brasil, embora os registros ainda sejam relativamente recentes, as notificações vêm aumentando e concentram-se em hospitais de grande porte e de alta complexidade. Mesmo assim, a produção científica nacional ainda é restrita, especialmente no que se refere à descrição sistematizada dos contextos assistenciais nos quais ocorre a colonização [4]. Nesse sentido, estudos descritivos baseados em séries de casos desempenham papel estratégico ao fornecer subsídios concretos para a organização dos serviços, o aprimoramento dos protocolos de vigilância e a orientação das políticas institucionais de controle de infecção.

Hospitais de referência em trauma representam cenários particularmente sensíveis para a emergência de patógenos multirresistentes, pois concentram pessoas em estado crítico, frequentemente submetidas a procedimentos cirúrgicos de urgência, uso intensivo de dispositivos invasivos, ventilação mecânica prolongada e múltiplas transferências intra-hospitalares [5]. Compreender o perfil clínico-epidemiológico de pessoas colonizadas por C. auris, nesse contexto, é fundamental para orientar ações de vigilância direcionadas e estratégias mais eficazes de contenção da disseminação.

Este estudo teve como objetivo descrever o perfil clínico-epidemiológico das notificações de colonização por C. auris em um hospital regional, localizado em Pernambuco, para o fortalecimento das ações de vigilância epidemiológica e a produção de evidências aplicáveis a serviços de saúde com perfil assistencial semelhante ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Métodos

Delineamento

Estudo de série de casos, de caráter descritivo, com utilização de dados secundários de vigilância epidemiológica institucional, no período de janeiro de 2022 a julho de 2023.

Contexto

Hospital público regional de grande porte, referência para o atendimento de trauma e de urgências de alta complexidade em Pernambuco, com serviços de emergência, centro cirúrgico, unidades de terapia intensiva e enfermarias especializadas, os quais atendem predominantemente usuários do SUS.

Participantes

Foram incluídas no estudo todas as pessoas com colonização confirmada por Candidozyma auris no período de janeiro de 2022 a julho de 2023. Casos suspeitos ou com resultados laboratoriais inconclusivos não foram considerados.

Fonte de dados

Os casos foram identificados por meio do sistema institucional de notificação de microrganismos de relevância epidemiológica, sob responsabilidade da Comissão de Controle de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (CCIH), complementados pela revisão de prontuários eletrônicos.

Confirmação laboratorial

A colonização por C. auris foi confirmada por cultura microbiológica, identificação por espectrometria de massas (MALDI-TOF) e/ou sistema automatizado VITEK 2, conforme disponibilidade institucional no período.

Coleta de dados

Foram coletadas variáveis sociodemográficas, características assistenciais, uso de dispositivos invasivos, presença de comorbidades, ocorrência de infecção bacteriana concomitante, microrganismos isolados e desfecho clínico, com utilização de formulário padronizado.

Análise dos dados

Os dados foram analisados por estatística descritiva, com apresentação de frequências absolutas e relativas para variáveis categóricas, e de medidas de tendência central e de dispersão para variáveis numéricas.

Resultados

A amostra incluiu 44 pacientes com colonização por Candida auris entre janeiro de 2022 e julho de 2023. A principal forma de admissão hospitalar observada foi a transferência de outras unidades de saúde (56,8%), seguida por ingressos via Serviço de Atendimento Móvel de Urgência/Corpo de Bombeiros (27,3%) e por demanda espontânea (15,9%), com o setor de emergência de trauma como principal porta de entrada (86,4%) (Tabela 1). A idade média dos pacientes foi de 48,2 anos, com predomínio do sexo masculino (77,3%). 68,2% dos pacientes não apresentava comorbidades prévias, enquanto 31,8% possuíam condições crônicas, principalmente diabetes e hipertensão.

Tabela 1
Frequências absolutas e relativas das características sociodemográficas de pessoas colonizadas por Candydozima auris em hospital regional. Pernambuco, 2022-2023 (n=44)

O uso de dispositivos invasivos foi observado em 79,5% dos pacientes, com destaque para cateter venoso central, sonda vesical de demora e ventilação mecânica. 59,1% utilizaram dois ou mais dispositivos durante a internação. Procedimentos cirúrgicos foram realizados em 70,5% dos casos, em geral relacionados ao atendimento do trauma. Infecção bacteriana concomitante ocorreu em 54,5% dos pacientes, com maior frequência de Staphylococcus spp. (27,3%), Pseudomonas spp. (20,5%), Acinetobacter spp. (18,2%) e Candida spp. (11,4%).

No momento da positividade para C. auris, 43,2% dos pacientes encontravam-se em UTI, e 38,6% em enfermarias. A análise dos trajetos intra-hospitalares evidenciou elevada rotatividade, com 65,9% de pacientes que transitaram por quatro ou mais setores (Tabela 2). O tempo médio de hospitalização foi de 55,7 dias, e a permanência média em UTI foi de 35,1 dias. Quanto aos desfechos clínicos, 61,4% receberam alta hospitalar, 34,1% evoluíram para óbito e 4,5% foram transferidos para outras unidades (Tabela 2).

Tabela 2
Frequências absolutas e relativas das características clínicas de pessoas colonizadas por Candydozima auris em hospital regional. Pernambuco, 2022-2023 (n=44)

Discussão

Os achados desta pesquisa evidenciaram que a colonização por C. auris ocorreu em um cenário assistencial caracterizado por alta complexidade, no qual se conjugam internações prolongadas, uso intensivo de dispositivos invasivos e elevada rotatividade intra-hospitalar. A convergência desses fatores no contexto de um hospital regional de referência em trauma reforça a necessidade de que instituições com perfil semelhante adotem estratégias específicas e sistematizadas de vigilância ativa, em vez de se basearem exclusivamente em notificações passivas [6].

Mais da metade das pessoas apresentou infecção bacteriana concomitante durante o período de internação, com destaque para microrganismos como Staphylococcus spp., Pseudomonas spp. e Acinetobacter spp., frequentemente associados a cenários de elevada pressão antimicrobiana [7]. A coexistência de colonização por C. auris com infecções bacterianas reforçou a inserção desses casos em um ecossistema hospitalar caracterizado por intensa exposição a antimicrobianos e elevado risco de seleção de microrganismos multirresistentes [8].

A proporção de óbitos observada aproximou-se de um terço dos casos. Embora não seja possível estabelecer relação causal direta entre a colonização por C. auris e o óbito, em razão da elevada gravidade clínica da população estudada, esse achado reforçou a necessidade de atenção a esse grupo e de fortalecimento das ações de vigilância e de controle de infecção [9]. A maioria das admissões ocorreu por transferência de outras unidades de saúde e pela porta de entrada da emergência de trauma, o que reforçou a complexidade clínica da população atendida e a possibilidade de introdução do microrganismo por meio da circulação interinstitucional de pessoas colonizadas [10]. A permanência hospitalar foi prolongada, com média superior a 50 dias, o que refletiu a gravidade clínica dos casos e a complexidade do cuidado demandado. A longa duração das internações constituiu fator adicional de risco para a aquisição e a manutenção da colonização por C. auris [11]. A elevada frequência de utilização de dispositivos invasivos observada merece destaque, já que eles constituem importantes vias de entrada e de manutenção de microrganismos no corpo humano, além de funcionarem como superfícies propícias à formação de biofilmes [12]. A presença de cateteres, de ventilação mecânica e de sondas vesicais amplia a exposição a ambientes potencialmente contaminados e aumenta a vulnerabilidade à colonização [8]. Esses achados estão em consonância com a literatura internacional, que descreveu forte associação entre C. auris e contextos assistenciais marcados por suporte intensivo à vida, por procedimentos invasivos e por uso frequente de antimicrobianos de amplo espectro [12-13].

A expressiva rotatividade intra-hospitalar amplia a possibilidade de disseminação do microrganismo entre diferentes ambientes e populações assistidas, o que impõe desafios adicionais à vigilância epidemiológica [14].

A ocorrência de infecções bacterianas concomitantes indicou que a colonização por C. auris se inseriu em um ecossistema hospitalar cuja vigilância não deve ser compreendida de forma isolada, mas integrada a estratégias mais amplas de monitoramento da resistência microbiana e de uso racional de antimicrobianos [15].

Do ponto de vista operacional, os resultados reforçaram a importância da busca ativa como ferramenta central para a detecção precoce de casos de colonização por C. auris. A identificação oportuna possibilita a adoção imediata de precauções de contato, o isolamento adequado, o reforço da higienização ambiental e a intensificação de ações educativas junto às equipes assistenciais [16].

A elevada proporção de admissões por transferência de outras unidades evidenciou a importância da comunicação interinstitucional na prevenção da disseminação de C. auris [14,15].

Como limitações do estudo, destacaram-se o delineamento descritivo e o uso de dados secundários, sujeitos à incompletude de registros, além do tamanho amostral restrito e da ausência de caracterização molecular dos isolados, a qual poderia aprofundar a compreensão das cadeias de transmissão. Apesar das limitações do delineamento, este estudo ampliou o conhecimento sobre o perfil clínico-epidemiológico da colonização por C. auris em um hospital público brasileiro, o que reforçou a importância da vigilância ativa e do rastreamento em pacientes críticos. Os achados apontaram para a necessidade de padronização de critérios de identificação e de notificação no âmbito do SUS, além de fortalecimento das ações de prevenção e de controle de infecções, com integração entre dados clínicos, epidemiológicos e laboratoriais.

  • Gestora de parecerista
  • Parecerista
  • Disponibilidade de dados
    Os dados individuais com informações potencialmente identificáveis não estão depositados publicamente por motivos éticos.
  • Uso de inteligência artificial generativa
    Não empregada.
  • Financiamento
    Projeto aprovado com bolsa Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Edital de Iniciação Científica, Tecnológica e Inovação (2023) - Universidade de Pernambuco/Pró-Reitoria de Pós-graduação, Pesquisa e Inovação.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    21 Set 2025
  • Aceito
    27 Jan 2026
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