Resumo
Objetivo: Avaliar os conhecimentos e práticas dos adolescentes de escolas estaduais de Curitiba, Paraná, quanto à hepatite A.
Métodos: Estudo transversal avaliando conhecimentos e práticas de adolescentes ≥16 anos, recrutados por amostragem de conveniência em escolas públicas de Curitiba, Paraná. Conhecimento foi avaliado através de questões de múltipla escolha, organizadas em três dimensões: Patologia; Transmissão e Sintomatologia; Prevenção e Cura. Práticas de risco foram pontuadas em ordem crescente de exposição e agrupadas em cinco dimensões: Higiene; Hábitos Alimentares; Água para Consumo; Produtos Fumígenos; Práticas Sexuais. Pontuações foram padronizadas numa escala de 0 a 10 e classificadas como muito baixo (0⊢2,5), baixo (2,5⊢5), moderado (5⊢7,5) e alto (7,5⊢10). Utilizaram-se análises descritivas e inferenciais apropriadas.
Resultados: Participaram 298 adolescentes (52,0% do sexo feminino; 63,1% autodeclarados brancos), com média de idade de 16,6 ± 0,7 anos. O escore médio de conhecimento foi 3,7±3,0, maior entre meninas (p-valor 0,039). A menor média ocorreu na dimensão Transmissão e Sintomatologia (3,3±3,2; p-valor<0,001). O escore médio de práticas de risco foi 1,7±1,3, superior no sexo masculino (p-valor 0,001). Escores mais altos correspondem a maior exposição a práticas de risco. A dimensão Práticas Sexuais apresentou o maior escore (6,3±1,4; p-valor<0,001). Não houve correlação entre conhecimento e práticas de risco (correlação de Spearman rho=0,00; p-valor 0,983).
Conclusão: O conhecimento sobre hepatite A foi baixo, sobretudo quanto à transmissão e sintomas. Embora o escore geral de práticas de risco se enquadre na categoria baixa, a dimensão Práticas Sexuais apresentou classificação moderada, evidenciando vulnerabilidade relevante que requer intervenções específicas para adolescentes.
Palavras-chave:
Hepatites; Vírus da Hepatite A; Adolescentes; Comportamentos Relacionados com a Saúde; Conhecimentos, Atitudes e Prática em Saúde
Abstract
Objective: To assess the knowledge and practices of adolescents attending state public schools in Curitiba, Paraná, regarding hepatitis A.
Methods: A cross-sectional study evaluating the knowledge and practices of adolescents aged 16 years or older, recruited by convenience sampling from public schools in Curitiba, Paraná. Knowledge was assessed using multiple-choice questions, organized into three dimensions: Pathology; Transmission and Symptomatology; and Prevention and Cure. Risk behaviors were scored in ascending order of exposure and grouped into five dimensions: Hygiene; Dietary Habits; Drinking Water; Tobacco Products; and Sexual Behaviors. Scores were standardized on a 0-10 scale and classified as very low (0⊢2.5), low (2.5⊢5), moderate (5⊢7.5), and high (7.5⊢10). Appropriate descriptive and inferential analyses were performed.
Results: A total of 298 adolescents participated (52.0% female; 63.1% self-identified as White), with a mean age of 16.6±0.7 years. The mean knowledge score was 3.7±3.0 and was higher among females (p=0.039). The lowest mean score was observed in the Transmission and Symptomatology dimension (3.3±3.2; p<0.001). The mean risk behaviors score was 1.7±1.3 and was higher among males (p=0.001); higher scores indicate greater exposure to risk behaviors. The Sexual Behaviors dimension presented the highest score (6.3±1.4; p<0.001). No correlation was found between knowledge and risk behaviors (Spearman’s rho=0.00; p=0.983).
Conclusion: Knowledge about hepatitis A was low, particularly regarding transmission and symptoms. Although the overall risk behaviors score fell within the low category, the Sexual Behaviors dimension was classified as moderate, indicating a relevant vulnerability that requires targeted interventions for adolescents.
Keywords:
Hepatitis; Hepatitis A Virus; Adolescents; Health-Related Behaviors; Health Knowledge, Attitudes, Practice
Resumen
Objetivo: Evaluar los conocimientos y las prácticas de los adolescentes de las escuelas del estado de Curitiba, Paraná, con respecto a la hepatitis A.
Métodos: Estudio transversal que evalúa los conocimientos y las prácticas de los adolescentes ≥16 años, seleccionados mediante muestreo de conveniencia en las escuelas públicas de Curitiba, Paraná. El conocimiento se evaluó mediante preguntas de elección múltiple, organizadas en tres dimensiones: Patología; Transmisión y Sintomatología; Prevención y Cura. Las prácticas de riesgo se calificaron en orden ascendente de exposición y se agruparon en cinco dimensiones: Higiene; Hábitos Alimenticios; Agua para Consumo; Productos Fumígenos; y Prácticas Sexuales. Las puntuaciones se estandarizaron en una escala de 0 a 10 y se clasificaron como muy baja (0⊢2,5), baja (2,5⊢5), moderada (5⊢7,5) y alta (7,5⊢10). Se utilizaron análisis descriptivos e inferenciales apropiados.
Resultados: Participaron 298 adolescentes (52,0% del sexo femenino; 63,1% autodeclarados blancos), con una edad media de 16,6 ± 0,7 años. La puntuación media de conocimiento fue de 3,7±3,0, mayor entre las niñas (p-valor 0,039). La media más baja se produjo en la dimensión Transmisión y Sintomatología (3,3±3,2; p-valor <0,001). La puntuación media de las prácticas de riesgo fue de 1,7±1,3, mayor en el sexo masculino (p-valor 0,001). Las puntuaciones más altas corresponden a una mayor exposición a prácticas de riesgo. La dimensión Prácticas Sexuales tuvo la puntuación más alta (6,3±1,4; p-valor p<0,01). No hubo correlación entre el conocimiento y las prácticas de riesgo (correlación de Spearman rho=0,00; p-valor 0,983).
Conclusión: El conocimiento sobre la hepatitis A fue bajo, especialmente en lo que respecta a la transmisión y los síntomas. Aunque la puntuación general de las prácticas de riesgo fue baja, la dimensión Prácticas Sexuales presentó una clasificación moderada, lo cual muestra una vulnerabilidad relevante que requiere intervenciones específicas para adolescentes.
Palabras clave:
Hepatitis; Virus de la Hepatitis A; Adolescentes; Comportamientos Relacionados con la Salud; Conocimientos, Actitudes y Práctica en Salud
Esta pesquisa respeitou os princípios éticos, obtendo os seguintes dados de aprovação:
Comitê de ética em pesquisa: Comissão Nacional de Ética em Pesquisa
Número do parecer: 7.545.013
Data de aprovação:13/6/2025
Certificado de apresentação de apreciação ética: 87956525.0.0000.0008
Registro do consentimento livre e esclarecido: Dispensado.
Introdução
A hepatite A é uma doença infecciosa do fígado causada pelo Vírus da Hepatite A (HAV), transmitida principalmente pela via fecal-oral, seja por contato direto com pessoas infectadas ou pelo consumo de água e alimentos contaminados 1. Embora possa causar surtos e levar a casos graves de hepatite fulminante especialmente em adultos, em crianças e adolescentes a infecção tende a ser mais branda ou assintomática 2. No Brasil, a vacina contra a hepatite A foi introduzida no Calendário Nacional de Vacinação infantil em 2014, com uma dose aos 15 meses de idade (podendo ser utilizada a partir dos 12 meses até os 4 anos, 11 meses e 29 dias), o que constituiu um marco importante para o controle da doença 3.
A cidade de Curitiba, Paraná, enfrentou um surto de hepatite A do final de 2023 a meados de 2024, incluindo a notificação de casos em crianças e adolescentes em idade escolar 4. A ocorrência de casos nesse grupo etário, mesmo em um contexto de vacinação infantil estabelecida, evidenciou a relevância de compreender o nível de informação sobre a hepatite A e as práticas adotadas diante da doença, particularmente no ambiente escolar.
Estudos que exploram o nível de informação de grupos populacionais sobre doenças transmissíveis, bem como práticas relacionadas à prevenção e ao cuidado em saúde, são amplamente utilizados em saúde pública. Esse tipo de abordagem permite identificar lacunas de conhecimento e comportamentos que podem favorecer a disseminação de agentes infecciosos, sendo especialmente útil em cenários de surtos ou em populações vulneráveis 5. No campo das hepatites virais, investigações realizadas em diferentes países e populações têm demonstrado níveis heterogêneos de conhecimento e a persistência de práticas inadequadas, mesmo entre indivíduos com algum grau de informação sobre a doença 6-9.
Diante desse cenário, o estudo teve como objetivo avaliar os conhecimentos e práticas dos adolescentes de escolas estaduais de Curitiba, Paraná, em relação à hepatite A.
Métodos
Delineamento do estudo
Estudo transversal realizado entre os dias 3 e 4 de julho de 2024 incluindo cinco escolas estaduais do município de Curitiba, Paraná (denominadas Escola A, Escola B, Escola C, Escola D e Escola E).
Contexto
No período de 1/11/2023 a 29/5/2024, foram confirmados 281 casos de hepatite A em Curitiba, Paraná. Os primeiros registros concentraram-se em jovens adultos, mas ao longo da progressão do surto foram observados casos em crianças e adolescentes em idade escolar, ampliando o perfil etário afetado. Nesse contexto, esta investigação foi conduzida por uma equipe do Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do Sistema Único de Saúde (EpiSUS-Avançado), em parceria com a equipe de vigilância local.
Participantes
O estudo foi conduzido com adolescentes de 16 anos ou mais, matriculados nas cinco escolas estaduais da rede pública de Curitiba, Paraná, selecionadas. Os critérios de elegibilidade foram:
-
Inclusão: Participantes com idade de 16 anos ou mais que estavam regularmente matriculados e forneceram o consentimento livre e esclarecido para participação no estudo.
-
Exclusão: Adolescentes cuja capacidade cognitiva não permitisse entender o questionário, conforme avaliação e informação fornecidas pelos responsáveis nas escolas.
Após a informação pela escola de quais os alunos elegíveis (≥16 anos) e da obtenção do consentimento, os participantes foram encaminhados para uma sala reservada na respetiva escola, onde receberam os esclarecimentos finais e preencheram o questionário de forma autoaplicável e anônima usando tablets fornecidos pela equipe, de modo a garantir o sigilo e a confidencialidade das respostas.
Variáveis
O questionário contemplou variáveis sociodemográficas, de conhecimento e de práticas comportamentais relacionadas à hepatite A. As variáveis sociodemográficas incluíram: sexo, idade, raça/cor e escola de origem. As variáveis de conhecimento foram organizadas em três dimensões: i) Patologia - ter ouvido falar sobre hepatite A, tipo de doença (transmissível ou não), microrganismo causador e principal órgão afetado; ii) Transmissão e sintomatologia - modo de transmissão, sinais e sintomas, e exposições de risco; iii) Prevenção e cura - disponibilidade de vacina, formas de prevenção, possibilidade de cura e ocorrência prévia de infecção por hepatite A. As variáveis de práticas comportamentais foram agrupadas em cinco dimensões: i) Higiene - hábitos de lavagem das mãos e compartilhamento de objetos pessoais ou utensílios; ii) Hábitos alimentares - consumo de alimentos crus ou malpassados; iii) Água para consumo - origem e forma de tratamento da água, bem como hábitos relacionados ao uso de bebedouros escolares; iv) Produtos fumígenos - uso de cigarros ou outros produtos fumígenos; v) Práticas sexuais - iniciação sexual, características dos parceiros, uso de preservativo, sexo oro-anal, penetração anal (com ou sem preservativo), e penetração anal com dedos ou objetos.
O questionário foi pré-testado com técnicos da vigilância local antes de ser aplicado na ação de vigilância. Os investigadores optaram por focar nas dimensões de Conhecimentos e Práticas, que apresentam maior objetividade e reprodutibilidade, permitindo uma avaliação mais consistente do comportamento em relação à hepatite A. A dimensão Atitudes não foi analisada por se tratar de um construto subjetivo e de difícil mensuração em inquéritos autoaplicáveis, especialmente entre adolescentes.
Fontes de dados e mensuração
Dados foram coletados através de um questionário semiestruturado autopreenchível disponibilizado na plataforma REDCap. Ele foi elaborado com base em estudos de conhecimentos, atitudes e práticas sobre hepatites virais 6-10 e no Guia de Vigilância em Saúde. A abordagem dos participantes foi realizada por intermédio das escolas selecionadas.
Para o cálculo dos escores de conhecimento, cada acerto equivalia a 1 ponto. O escore por dimensão foi transformado em uma escala decimal de 0 a 10 e o escore total foi igualmente padronizado, utilizando a pontuação total de acertos dividida pela pontuação máxima possível e multiplicada por 10. A distribuição dos pontos por dimensão de conhecimento é detalhada no link do item ‘disponibilidade de dados’. A pontuação das práticas foi atribuída em ordem crescente de risco, e o escore por dimensão e o escore total chamado de práticas de risco foram transformados em escala decimal de 0 a 10, em que pontuações mais altas indicavam maior risco. As pontuações por dimensão de práticas são detalhadas no link do item “disponibilidade de dados”.
A classificação dos escores de conhecimento como a dos de práticas de risco seguiu as categorias: muito baixo (0 ⊢ 2,5), baixo (2,5 ⊢ 5), moderado (5 ⊢ 7,5) e alto (7,5 ⊢ 10). Escores mais altos em práticas indicam maior risco. Os escores foram calculados pela fórmula:
Vieses
Foram considerados como potenciais fontes de viés os de seleção, informação e classificação. O viés de seleção pode ter ocorrido em função da amostragem por conveniência e do período pré-férias escolares que implicou a redução de alunos nas escolas, limitando a generalização dos resultados. O viés de informação é inerente a estudos com questionário autoaplicável incluindo conteúdos sensíveis, podendo gerar viés de desejabilidade social (superestimação do conhecimento e subestimação de práticas de risco), o que foi mitigado pela garantia de anonimato.
Tamanho do estudo
Foram selecionadas cinco escolas por conveniência: quatro delas por terem registrado casos confirmados de hepatite A entre 1º de novembro de 2023 e 29 de maio de 2024, e uma (Escola E), sem casos confirmados, foi incluída para comparação. A Escola E situa-se em distrito sanitário na região sul de Curitiba caracterizado por indicadores socioambientais menos favoráveis, nomeadamente água e saneamento 11.
A amostra estimada foi de 284 alunos, considerando uma frequência esperada de 50% e erro de 5%, com base em uma população de 1.090 estudantes com 16 anos ou mais. Os participantes foram selecionados por conveniência - todos os alunos elegíveis foram convidados a participar.
Métodos estatísticos
Foi realizada análise descritiva das variáveis e comparações entre grupos por meio dos testes t de Student, Mann-Whitney e Kruskal-Wallis, com ajuste de comparações múltiplas pelo método de Bonferroni. As correlações entre variáveis contínuas foram avaliadas pelo coeficiente de Spearman. Foi adotado nível de significância de 5% (p-valor<0,05). As análises estatísticas foram conduzidas no software R (versão 4.4.0).
Resultados
Foram submetidos 300 questionários, dos quais 298 estavam preenchidos e incluídos na análise. A maioria dos participantes era do sexo feminino (52,0%) e raça/cor da pele branca (63,1%), com média de idade de 16,6 ± 0,7 anos (Tabela 1).
Características demográficas dos participantes do estudo de conhecimentos e práticas sobre hepatite A. Curitiba, Paraná, 2024 (n=298)
A avaliação do conhecimento revelou que, embora uma parte significativa dos adolescentes (70,1%) já tenha ouvido falar sobre a hepatite A, o conhecimento específico sobre a doença foi limitado (Tabela 2).
O escore médio geral de conhecimento sobre hepatite A foi de 3,7±3,0, correspondendo à classificação de conhecimento baixo. Houve maior pontuação entre estudantes do sexo feminino (p-valor 0,039) (Tabela 3). Não houve diferença estatisticamente significativa nos escores de conhecimento entre as escolas (p-valor 0,258).
A dimensão Patologia apresentou melhores resultados em relação à “transmissão e sintomatologia” (p-valor<0,001), como observado na Tabela 4. A menor proporção de acertos foi observada nas questões sobre exposições de risco, formas de prevenção e sinais e sintomas da doença.
Conhecimentos específicos sobre hepatite A entre adolescentes escolares segundo tema, questão e resposta correta. Curitiba, Paraná, 2024 (n=298)
Quanto às práticas de risco, o escore médio foi de 1,7 ± 1,3, classificado como escore de práticas de risco muito baixo. Estudantes do sexo masculino apresentaram maior risco (p-valor 0,001). Destacaram-se escores mais altos nas dimensões “práticas sexuais” e “hábitos alimentares”. Houve diferença significativa entre escolas (p-valor 0,016), especificamente entre a Escola E e a Escola D (p-valor 0,010; teste u de Mann-Whitney) (Tabela 4).
Não foi observada correlação entre os escores de conhecimento e de práticas de risco (correlação de Spearman rho=0,00; p-valor 0,983).
Discussão
Os achados deste estudo revelam que, embora a hepatite A seja uma patologia nominalmente familiar à maioria dos adolescentes das escolas avaliadas, existe uma lacuna de conhecimento especialmente no que tange aos mecanismos de transmissão e ao reconhecimento de sinais e sintomas. Esse perfil de conhecimento contrasta com um padrão de práticas de risco predominantemente reduzido, sugerindo que o comportamento preventivo no grupo estudado pode ser mediado por hábitos cotidianos e fatores socioambientais, em vez de uma decisão instruída sobre o agravo.
Entre os pontos fortes do estudo, destaca-se a oportunidade de obtenção de dados em contexto de surto recente, obtidos de um instrumento detalhado e padronizado. No entanto, algumas limitações devem ser consideradas. A amostragem por conveniência de cinco escolas e a inclusão apenas de adolescentes com 16 anos ou mais limitam a generalização dos achados a todas as escolas de Curitiba. A coleta no período pré-férias pode ter reduzido a adesão, configurando possível viés de seleção. Além disso, o autorrelato pode ter introduzido viés de desejabilidade social, ainda que minimizado pelo preenchimento anônimo do questionário. Deve-se também reconhecer a ausência de ajuste para possível efeito de conglomerado entre escolas, bem como a não inclusão do componente “Atitudes” no instrumento, o que restringe a análise a conhecimentos e práticas e limita a compreensão dos determinantes comportamentais subjacentes.
O escore médio de práticas de risco foi classificado como muito baixo, o que pode refletir tanto práticas efetivamente mais seguras (baixa exposição a comportamentos de risco) como possível viés de desejabilidade social nas respostas. No entanto, a dimensão “Práticas Sexuais” apresentou pontuação mais elevada em comparação às demais. No contexto da hepatite A, esse achado é epidemiologicamente relevante sobretudo em relação a práticas oro-anais e de higiene pessoal relacionadas, reconhecidos como possíveis vias de transmissão fecal-oral.
Foi observado que adolescentes do sexo feminino apresentaram um escore de conhecimento significativamente maior que o sexo masculino, padrão que é consistente com a literatura 12,13. Apesar dessa diferença, o escore geral de conhecimento baixo alinha-se aos achados de estudos sobre hepatites virais em adolescentes e jovens adultos 6,7,10. O achado de maiores práticas de risco no sexo masculino também está em consonância com estudos prévios que indicam maior prevalência de práticas de risco entre meninos, especialmente em relação ao uso inconsistente de preservativos e início da vida sexual mais cedo 14. A ausência de correlação entre conhecimento e práticas de risco também já foi descrita em outras pesquisas de conhecimentos, atitudes e práticas (CAP), indicando que a informação isolada pode não ser suficiente para modificar comportamentos, especialmente entre adolescentes, cujas atitudes são fortemente influenciadas por pares, cultura e fatores psicossociais 15,16. No geral, a ocorrência de casos em adolescentes durante o surto em Curitiba, Paraná, e o alto escore de risco nas práticas sexuais nessa faixa etária apontam para uma vulnerabilidade que exige atenção, considerando não apenas o risco à infecção por hepatite, mas a outras de transmissão sexual, como o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), em crescimento entre os jovens 17.
Este estudo identificou lacunas significativas de conhecimento sobre a hepatite A entre adolescentes escolares e presença de práticas de risco elevadas no domínio da sexualidade. Esses achados indicam a relevância de considerar o nível de informação e os comportamentos relacionados à saúde no planejamento de ações voltadas a esse grupo etário.
Disponibilidade de dados:
Os bancos de dados anonimizados empregados neste estudo estão disponibilizados publicamente no repositório SciELO Data, vinculado à revista Epidemiologia e Serviços de Saúde (RESS), e podem ser acessados pelo link: https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.6J5S6L. A utilização do conjunto de dados deve ser acompanhada da citação conforme a referência indicada no próprio repositório.
Referências bibliográficas
-
1 World Health Organization. Hepatitis A - key facts [Internet]. 2023 [cited 2024 Jun 25]. Available from: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/hepatitis-a
» https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/hepatitis-a -
2 Chopra S, Lai M. Hepatitis A virus infection in adults: Epidemiology, clinical manifestations, and diagnosis. UpToDate [Internet]. 2024 [cited 2024 Aug 29]. Available from: https://www.uptodate.com/contents/hepatitis-a-virus-infection-in-adults-epidemiology-clinical-manifestations-and-diagnosis
» https://www.uptodate.com/contents/hepatitis-a-virus-infection-in-adults-epidemiology-clinical-manifestations-and-diagnosis -
3 Brasil. Ministério da Saúde. Calendário de Vacinação [Internet]. 2014 [cited 2025 Jul 25]. Available from: https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/calendario/calendario
» https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/calendario/calendario -
4 Prefeitura de Curitiba. Surto de Hepatite A em Curitiba tem transmissão de pessoa a pessoa. São 255 casos e 5 mortes confirmadas em 2024 [Internet]. 2024 [cited 2025 Feb 17]. Available from: https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/surto-de-hepatite-a-em-curitiba-tem-transmissao-de-pessoa-a-pessoa-sao-255-casos-e-5-mortes-confirmadas-em-2024/73751?utm_content=mldn
» https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/surto-de-hepatite-a-em-curitiba-tem-transmissao-de-pessoa-a-pessoa-sao-255-casos-e-5-mortes-confirmadas-em-2024/73751?utm_content=mldn - 5 Zarei F, Dehghani A, Ratansiri A, Ghaffari M, Raina SK, Halimi A, et al. ChecKAP: A Checklist for Reporting a Knowledge, Attitude, and Practice (KAP) Study. Asian Pac J Cancer Prev. 2024;25(7):2573-7.
- 6 Alotaibi BS, Althobaiti MA, Hazazi AY, Hazazi SY, Nassir RA, Alhaddad MS, et al. Exploration of Knowledge, Attitude, and Practice Among Residents of Saudi Arabia Toward Hepatitis Viruses. Inquiry. 2021;58:00469580211059965.
- 7 Althobaiti SO, Alhumaidi GO, Alwagdani WM, Almarwani KM, Altowairqi BS, Alhaddad MS, et al. Assessment of Knowledge, Attitude, and Practice among Saudi Residents Regarding Hepatitis E Virus. Am J Trop Med Hyg. 2022;106(2):626-31.
- 8 Jabeen S, Mukhtar F, Farooq S, Ambreen HS, Bilal M, Bashir G. Knowledge, Attitude and Practices of General Population Regarding Hepatitis A & E Prevention and Control. Pak J Med Health Sci. 2022;16(11):309.
- 9 ul Haq N, Hassali MA, Shafie AA, Saleem F, Farooqui M, Aljadhey H. A cross sectional assessment of knowledge, attitude and practice towards Hepatitis B among healthy population of Quetta, Pakistan. BMC Public Health. 2012;12:692.
- 10 Fontes MB, Crivelaro RC, Scartezini AM, Lima DD, Garcia AA, Fujioka RT. Determinant factors of knowledge, attitudes and practices regarding STD/AIDS and viral hepatitis among youths aged 18 to 29 years in Brazil. Cienc Saude Colet. 2017;22(4):1343-52.
-
11 Prefeitura Municipal de Curitiba. Panorama do Saneamento Básico em Curitiba [Internet]. 2017 [cited 2026 Jan 23]. Available from: https://mid.curitiba.pr.gov.br/2017/00211735.pdf
» https://mid.curitiba.pr.gov.br/2017/00211735.pdf - 12 Burrell CN, Sharon MJ, Bassler J, Davidov DM. Gender Differences in Sexual Health Knowledge Among Emerging Adults in Acute-Care Settings. J Am Osteopath Assoc. 2019;119(5):289-98.
- 13 Ek S. Gender differences in health information behaviour: a Finnish population-based survey. Health Promot Int. 2015;30(3):736-45.
- 14 Felisbino-Mendes MS, Araújo FG, Oliveira LVA, Vasconcelos NM, Vieira MLFP, Malta DC. Sexual behaviors and condom use in the Brazilian population: analysis of the National Health Survey, 2019. Rev Bras Epidemiol. 2021;24:e210018.
- 15 Silva AF, Lopes MHBM. Locus of control, knowledge, attitude and practice for contraception among adolescents. Rev Bras Enferm. 2020;73(2):e20170604.
- 16 Rodrigues VCC, Lopes GF, Silveira GEL, Sousa IB, Sena MM, Lopes TSS, et al. Factors associated with the knowledge and attitude of adolescents regarding male condom use. Rev Bras Enferm. 2021;74:e20190452.
-
17 Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Boletim Epidemiológico - HIV e Aids 2023 [Internet]. 2023 [cited 2025 Jul 28]. Available from: https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/boletins-epidemiologicos/2023/hiv-aids/boletim-epidemiologico-hiv-e-aids-2023.pdf/view
» https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/boletins-epidemiologicos/2023/hiv-aids/boletim-epidemiologico-hiv-e-aids-2023.pdf/view
-
Uso de inteligência artificial generativa
A versão inicial da introdução foi elaborada com o apoio de ferramenta de inteligência artificial (ChatGPT, GPT-4.0), com o objetivo de auxiliar na identificação de pesquisas atualizadas. A discussão foi revisada com o suporte da mesma ferramenta, visando maior clareza. Todas as referências incluídas no manuscrito foram selecionadas pelos autores e conferidas em suas versões integrais, assegurando a veracidade e originalidade das informações apresentadas.
Editado por
-
Editor-chefe:
Jorge Otávio Maia Barreto https://orcid.org/0000-0002-7648-0472
-
Editora científica:
Maria Auxiliadora Parreiras Martins https://orcid.org/0000-0002-5211-411X
-
Editora associada:
Mariana Del Grossi Moura https://orcid.org/0000-0003-4268-4298
