Resumo
Objetivos: Descrever as variáveis sociodemográficas e clínico-epidemiológicas da população em situação de rua e avaliar os fatores associados ao uso de substâncias psicoativas ilícitas em Jundiaí, São Paulo, Brasil, em 2023.
Métodos: Estudo transversal com uma população em situação de rua; o desfecho foi uso de substância, e as variáveis independentes foram agrupadas em exógenas, determinantes primários e intermediários em saúde, acesso a serviços, percepção de saúde e condições clínicas. Utilizou-se análise estatística descritiva e bivariada. Razão de chances (odds ratio, OR) com intervalos de confiança de 95% (IC95%) foram calculados por regressão logística binária múltipla.
Resultados: Foram 270 participantes, sendo eles majoritariamente do sexo masculino (85,2%), com idade média de 39 anos, autodeclarados negros (72,6%), heterossexuais (88,5%), com ensino fundamental incompleto (54,8%), em situação de rua por cinco anos ou mais (45,6%) e 80,4% já usaram/fazem uso de substâncias psicoativas ilícitas. Foram mais prevalentes o sofrimento mental (83,0%), problemas no sono (77,4%), desconforto digestivo (34,8%) e doença respiratória (31,5%). O uso de substâncias ilícitas esteve associado a ter: escolaridade de ensino médio completo ou mais (OR 4,16; IC95% 1,63; 10,62); mais de um ano em situação de rua (OR 2,08; IC95% 1,01; 4,28); sofrido violência (OR 2,05; IC95% 1,04; 4,04); tabagismo (OR 3,46; IC95% 1,60; 7,50); e em não receber benefício socioassistencial (OR 2,62; IC95% 1,28; 5,34).
Conclusão: Constataram-se comorbidades e alta prevalência de uso de substâncias psicoativas ilícitas associadas a determinantes socioeconômicos e comportamentais em saúde. Esses dados orientam a gestão pública em saúde na elaboração de estratégias para as necessidades específicas dessa população.
Palavras-chave:
Pessoas Mal Alojadas; Vulnerabilidade Social; Epidemiologia; Drogas Ilícitas; Estudos Transversais.
Abstract
Objectives: To describe the sociodemographic and clinical-epidemiological characteristics of the homeless population and to assess factors associated with illicit psychoactive substance use in Jundiaí, São Paulo, Brazil, in 2023.
Methods : This study employed a cross-sectional design with a homeless population. The outcome was substance use, and the independent variables were grouped into exogenous factors, primary and intermediate health determinants, access to services, health perception, and clinical conditions. Descriptive and bivariate statistical analyses were performed. Odds ratios (OR) with 95% confidence intervals (95%CI) were calculated using multiple binary logistic regression.
Results: There were 270 participants, the majority of whom were male (85.2%), with an average age of 39, self-identified as Black (72.6%), heterosexual (88.5%), with incomplete elementary education (54.8%), living on the street for five years or more (45.6%), and 80.4% had used/were using illicit psychoactive substances. The most prevalent conditions were mental distress (83.0%), sleep problems (77.4%), digestive discomfort (34.8%), and respiratory disease (31.5%). The use of illicit substances was associated with: having completed high school or higher (OR 4.16; 95%CI 1.63; 10.62); living on the streets for more than one year (OR 2.08; 95%CI 1.01; 4.28); having suffered violence (OR 2.05; 95%CI 1.04; 4.04); smoking (OR 3.46; 95%CI 1.60; 7.50); and not receiving social assistance benefits (OR 2.62; 95%CI 1.28; 5.34).
Conclusion: The study found comorbidities and a high prevalence of illicit psychoactive substance use associated with socioeconomic and behavioral health determinants. These data may inform public health management in developing strategies tailored to the specific needs of this population.
Keywords:
Ill-Housed Persons; Social Vulnerability; Epidemiology; Illicit Drugs; Cross-Sectional Studies
Resumen
Objetivos: Describir las variables sociodemográficas y clínico-epidemiológicas de la población en situación de calle y evaluar los factores asociados al consumo de sustancias psicoactivas ilícitas en Jundiaí, São Paulo, Brasil, en 2023.
Métodos: Estudio transversal con una población en situación de calle; el desenlace fue el consumo de sustancias, y las variables independientes se agruparon en exógenas, determinantes primarios e intermedios en salud, acceso a servicios, percepción de la salud y condiciones clínicas. Se utilizó análisis estadístico descriptivo y bivariado. Se calcularon las razones de probabilidad (odds ratio, OR) con intervalos de confianza del 95 % (IC95 %) mediante regresión logística binaria múltiple.
Resultados: Participaron 270 personas, en su mayoría hombres (85,2 %), con una edad media de 39 años, que se declararon negros (72,6 %), heterosexuales (88,5 %), con estudios de primaria incompletos (54,8 %), en situación de calle durante cinco años o más (45,6 %) y el 80,4 % ya habían consumido o consumían sustancias psicoactivas ilícitas. Los trastornos más prevalentes fueron el sufrimiento mental (83,0 %), los problemas de sueño (77,4 %), el malestar digestivo (34,8 %) y las enfermedades respiratorias (31,5 %). El consumo de sustancias ilícitas se asoció con: haber completado la educación secundaria o superior (OR 4,16; IC95 % 1,63; 10,62); llevar más de un año en situación de calle (OR 2,08; IC95 % 1,01; 4,28); haber sufrido violencia (OR 2,05; IC95% 1,04; 4,04); tabaquismo (OR 3,46; IC95% 1,60; 7,50); y no recibir prestaciones sociales (OR 2,62; IC95% 1,28; 5,34).
Conclusión: Se observaron comorbilidades y una alta prevalencia del consumo de sustancias psicoactivas ilícitas asociadas a determinantes socioeconómicos y conductuales en materia de salud. Estos datos orientan la gestión pública de la salud en la elaboración de estrategias para las necesidades específicas de esta población.
Palabras clave:
Personas con Mala Vivienda; Vulnerabilidad Social; Epidemiología; Drogas Ilícitas; Estudios Transversales
Esta pesquisa respeitou os princípios éticos, obtendo os seguintes dados de aprovação:
Comitê de ética em pesquisa: Faculdade de Medicina de Jundiaí
Número do parecer: 4.915.622
Data de aprovação: 18/8/2021
Certificado de apresentação de apreciação ética: 48459121.4.0000.5412
Registro do consentimento livre e esclarecido: Obtido de todos os participantes antes da coleta.
Introdução
A existência de pessoas em situação de rua é um fenômeno mundial e representa uma forte manifestação de desigualdade e de exclusão social provenientes da supervalorização do capital em desfavor dos direitos do ser humano 1. Esse grupo populacional apresenta fragilidade ou inexistência dos vínculos familiares, extrema pobreza e ausência de moradia convencional, utilizando espaços públicos e/ou abrigos como local de moradia 2. Segundo o Censo de 2021, realizado pela Prefeitura de São Paulo após o advento da pandemia, observou-se um crescimento de 31,0% na população em situação de rua no município de São Paulo, que aumentou de 24.344 pessoas em 2019 para 31.884 pessoas em 2021. Além disso, estima-se que 281.472 indivíduos vivam nessa condição em todo o Brasil, evidenciando um desafio significativo para as políticas sociais no país 3,4.
A problemática da vulnerabilidade, assim como as especificidades culturais e de estilo de vida da população em situação de rua, impacta diretamente os determinantes sociais da saúde 5,6. As pessoas em situação de rua são constantemente expostas a precárias condições de saúde, higiene, moradia, alimentação, exposição exacerbada ao calor e ao frio, além de a violência e/ou esforços físicos exaustivos para a sobrevivência, podendo apresentar o surgimento e/ou o aumento de problemas de saúde 6. A literatura aponta que as condições de saúde mais prevalentes nessa população são: tuberculose, pneumonia, sífilis, vírus da imunodeficiência humana, herpes genital, odontalgia, hipertensão arterial, sofrimento mental, parasitoses intestinais e consumo abusivo de substâncias psicoativas 7,8,9.
As razões que levam as pessoas a viverem nas ruas são variadas, com destaque para: violências domésticas, tragédias pessoais, conflitos familiares e uso de substâncias psicoativas 10. O consumo dessas substâncias é comum e serve como uma forma de evitar a dura realidade 11. Para entender esse uso, é importante enxergar essas pessoas como protagonistas de suas próprias histórias, levando em conta as suas vidas e seus contextos sociais, bem como a necessidade de uma rede de apoio e as influências culturais 10,11.
Esta pesquisa se mostra relevante ao abordar as condições de saúde da população em situação de rua, promovendo a visibilidade de um grupo social vulnerável. Tal iniciativa propicia a diminuição de desigualdades em saúde, além de combater estigmas e preconceitos persistentes. Portanto, torna-se imprescindível compreender as características dessa população, a fim de fornecer subsídios para a formulação de políticas públicas adequadas que reflitam as suas especificidades. Isso é crucial para o aprimoramento das estratégias de cuidado em saúde, fundamentadas na realidade que essas pessoas vivenciam e no entendimento das suas dinâmicas culturais, especialmente no que se diz respeito ao uso de substâncias psicoativas.
Assim sendo, o objetivo deste estudo é descrever as variáveis sociodemográficas e clínico-epidemiológicas da população em situação de rua e avaliar os fatores associados ao uso de substâncias psicoativas ilícitas em Jundiaí, São Paulo, Brasil, em 2023.
Métodos
Delineamento
Estudo epidemiológico transversal analítico reportado segundo as recomendações do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) para estudos observacionais.
Contexto
A população do estudo foi composta por pessoas em situação de rua em Jundiaí, São Paulo, Brasil 12. Essa cidade está localizada a 57 km da capital do estado, São Paulo, e, segundo o Censo de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a população estimada foi de 443.221 habitantes, comum índice de desenvolvimento humano de 0,822 13.
Coleta de dados
A coleta de dados foi realizada de agosto de 2022 a setembro de 2023, com o auxílio da equipe do Consultório na Rua. Esse serviço, criado em Jundiaí em abril de 2014, atende pessoas em vulnerabilidade social, principalmente aquelas que usam substâncias psicoativas e estão desconectadas das redes de saúde. Em Jundiaí, a equipe do Consultório na Rua conta com um coordenador, uma psicóloga, duas enfermeiras, dois redutores de danos, uma médica de família e uma médica psiquiatra.
A equipe do Consultório na Rua atua em áreas com grande concentração de pessoas em situação de rua, com foco sobre as periferias onde o uso de substâncias psicoativas é comum. Durante reuniões com pesquisadores, notou-se a importância da integração das diversas atividades. O contato com a população revelou uma resistência inicial por parte dela. Porém, com explicações sobre a pesquisa e a frequência das visitas, foi possível estabelecer um diálogo que permitiu a condução do estudo.
Participantes
Foram incluídas neste estudo pessoas em situação de rua em Jundiaí, de ambos os sexos, com idade igual ou superior a 18 anos, sendo excluídas as pessoas em situação de trânsito (aquelas que estão indo para outro município e estão de passagem pelo município), aquelas que estiveram sob efeito de substâncias psicoativas (álcool e/ou drogas) no momento da coleta de dados e as pessoas com inabilidade de fala oral.
Variáveis
Adotou-se modelo teórico conceitual adaptado para a seleção das variáveis 14. Esse modelo, desenvolvido por Andersen e Davidson, visa identificar as variáveis essenciais para uma análise sistemática das diferenças na diversidade dos fatores que influenciam a saúde 15. Segundo esse modelo, as condições do ambiente externo, a estrutura de assistência à saúde e as características individuais da população exercem influências consideráveis nos comportamentos vinculados à saúde 15. As variáveis deste estudo estão agrupadas nos seguintes blocos, iniciando-se do mais distal para o mais proximal (Figura 1).
• Exógenas: idade (contínua), sexo (masculino; feminino) e raça/cor da pele (branco; preto; pardo; outras [indígena; amarela]).
• Determinantes primários em saúde: identidade de gênero (cis; trans), orientação sexual (heterossexual; homossexual; bissexual; pansexual), escolaridade (ensino médio completo ou mais; ensino fundamental completo; ensino fundamental incompleto), possuir profissão (sim; não), sustento financeiro (comércio/artesanato; construção civil; guardador de carro; coleta de materiais recicláveis; carregador de caminhão; faxina; jardinagem; profissional do sexo; outras) e receber algum benefício socioassistencial (sim; não).
• Determinantes intermediários em saúde: escovar os dentes (sim; não), tomar banho (sim; não), consumir bebidas alcoólicas (sim; não), ser tabagista (sim; não; ex-tabagista), usar preservativo (sim; não), quantidade de parceiros sexuais (nenhum; um ou mais), manifestação de dor no momento da entrevista (sim; não), qualidade do sono (muito bom/bom; razoável; ruim/muito ruim), se sofreu violência (sim; não) e se foi violento (sim; não).
• Acesso a serviços de saúde: consulta com profissionais da saúde (raramente/nunca; algumas vezes; frequentemente/sempre), se, quando doente, busca pelo serviço de saúde (sim; não), última vez que procurou o médico e/ou o dentista (há menos de seis meses; de seis meses a um ano; um a dois anos; três anos; acima de três anos; não sabe; nunca procurou), avaliação dos serviços de saúde que já utilizou (muito bom/bom; razoável; ruim/muito ruim), as dificuldades para acessar o serviço de saúde (forma de tratamento pelos funcionários; dificuldade de conseguir vaga; não conhece os serviços; falta de documentos; não teve dificuldade); Considerou-se como possibilidades para formas de tratamento pelos funcionários racismo, maus tratos violência, e desorganização.
• Percepção da saúde: classificação do estado atual de saúde (muito bom/bom; razoável; ruim/muito ruim), tempo em situação de rua (até um ano; mais de um ano), saúde após ficar em situação de rua (melhorou/melhorou muito; manteve-se; piorou/piorou muito) e contato com familiares (até uma semana; até um ano; perdeu contato/mais de cinco anos).
• Condições clínicas: hipertensão arterial (sim; não), doença respiratória (sim; não), doença dermatológica (sim; não), doença cardíaca (sim; não), doença neurológica (sim; não), diabetes (sim; não), doença infectocontagiosa (sim; não), dificuldade em controlar o uso do álcool (sim; não), sofrimento mental (sim; não), problemas do sono (sim; não), incontinência urinária (sim; não), desconforto digestivo (sim; não) e infecções sexualmente transmissíveis (sim; não), ambas autorrelatadas.
A variável dependente (desfecho) deste estudo foi o consumo de substâncias ilícitas, sendo sim (usa e já usou) para o uso de substâncias ilícitas, e não (não usa e nunca usou) quando o participante declarou não usar essas substâncias. Com o intuito de descrever as características dessa população, perguntou-se sobre os tipos de substâncias ilícitas utilizadas, como crack, maconha, cocaína, ecstasy e drogas inaladas.
Fontes de dados e mensuração
Elaborou-se um questionário baseado no instrumental de situação e na vulnerabilidade, o qual foi construído especificamente para a população em situação de rua e adaptado para este estudo, visando-se obter informações sobre aspectos sociodemográficos e condições de vida e saúde 16. O questionário conteve 58 questões no total, com perguntas abertas e fechadas. Primeiramente, o questionário foi validado pela equipe do Consultório na Rua e, posteriormente, foi realizado um estudo piloto no território com dez indivíduos.
As entrevistas foram conduzidas pelo pesquisador e pelos membros da equipe do Consultório na Rua, estando todos previamente treinados. Inicialmente, abordou-se os participantes nos diversos territórios, conversando sobre o estudo e convidando-os para responder ao questionário. Após a confirmação de participação, aplicou-se o questionário. Seja na rua ou nos atendimentos dos equipamentos oportunos, tentou-se coletar os dados em espaços mais reservados.
Tamanho do estudo
Dada à natureza transitória desse grupo populacional, escolheu-se a amostragem por conveniência, possibilitando abordar as pessoas em situação de rua em diferentes locais da cidade, enquanto a equipe do Consultório na Rua prestava-lhes serviço.
A amostragem foi efetuada utilizando-se a fórmula apropriada para populações finitas. Para o cálculo amostral, foi tomado como referência um estudo que investigou a saúde da população em situação de rua de Belo Horizonte, Minas Gerais, revelando que 47,35% dos entrevistados classificaram sua saúde como ruim 17. Adotou-se a significância de 5% e erro de 10%. O tamanho amostral final foi de 216 participantes. Estimando-se uma provável perda, adicionou-se a ela 20,00%, chegando-se ao total de 270 participantes.
Métodos estatísticos
Os dados coletados foram submetidos e processados pelo programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 20.0. Inicialmente, realizaram-se as análises descritivas para alcançar a frequência e a média da idade. Posteriormente, realizaram-se análises bivariadas entre o desfecho, que foi o uso de substâncias ilícitas (sim e já usou, ou não usa e nunca usou), e as variáveis independentes do estudo por meio do teste qui-quadrado.
Foi realizada análise de regressão logística binária univariada. As variáveis que apresentaram um p-valor<0,20 foram incluídas em modelos de regressão logística binária múltipla pelo método step forward. Foi testada a multicolinearidade. O exponencial de β neste estudo foi apresentado como razão de chances (odds ratio, OR) bruto para a análise univariada, e OR ajustado após a regressão logística. Realizou-se o cálculo do intervalo de confiança (IC95%). Adotou-se o nível de significância de 5%.
Resultados
Das 270 pessoas em situação de rua com média da idade de 39 anos que compuseram a amostra desta pesquisa, 85,2% declararam ser do sexo masculino, 72,6% se declararam negros(as) (pretos e pardos), 88,5% heterossexuais, 54,8% possuem até o ensino fundamental incompleto, 28,5% utilizam a coleta de materiais recicláveis como principal meio de sustento financeiro, 47,8% não recebem nenhum tipo de benefício socioassistencial e 45,6% estão em situação de rua por mais de cinco anos. O uso de substâncias psicoativas (27,4%) e tragédias pessoais (21,1%) foram os motivos mais prevalentes para estar em situação de rua. Identificou-se que 80,4% dos participantes fazem uso ou já usaram algum tipo de substância ilícita, 48,1% utilizam crack, 41,5% fazem uso de maconha e 33,0% usam cocaína (Tabela 1).
Quanto às condições clínicas, 24,4% dos participantes apresentam hipertensão arterial, 31,5% declararam ter alguma doença respiratória, 33,0% possuem dificuldade em controlar o uso do álcool, 83,0% apresentam sofrimento mental, 77,4% problemas no sono, 22,6% incontinência urinária e 34,8% desconforto digestivo. Sobre o uso de serviços de saúde, 58,5% dos participantes avaliaram como bom os serviços e 67,0% relataram não ter nenhuma dificuldade para o acesso aos serviços de saúde. Entretanto, 22,6% deles mencionaram, como dificuldade no acesso, a forma de tratamento pelos funcionários, como racismo, maus tratos, violência e/ou desorganização (Tabela 2).
A análise bivariada evidenciou associação entre o uso de substâncias ilícitas (desfecho) e: ter a escolaridade ensino médio completo ou mais (OR 3,22; IC95% 1,36; 7,62), não receber benefício socioassistencial (OR 2,51; IC95% 1,31; 4,78), ser tabagista (OR 4,14; IC95% 2,07; 8,26), ter sofrido violência (OR 2,23; IC95% 1,21; 4,10), ter promovido a violência (OR 2,56; IC95% 1,38; 4,75), estar a mais de um ano em situação de rua (OR 2,02; IC95% 1,08; 3,79), não ter hipertensão arterial (OR 2,10; IC95% 1,09; 4,03) nem diabetes (OR 4,40; IC95% 1,72; 11,25) (Tabela 3).
No modelo final de regressão, as variáveis que permaneceram significativas e associadas ao uso de substâncias ilícitas foram: nível de escolaridade ensino médio completo ou mais (OR 4,16; IC95% 1,63; 10,62), não receber benefício socioassistencial (OR 2,62; IC95% 1,28; 5,34), ter sofrido violência (OR 2,05; IC95% 1,04; 4,04), ser tabagista (OR 3,46; IC95% 1,60; 7,50) e estar vivendo em situação de rua há mais de um ano (OR 2,08; IC95% 1,01; 4,28) (Tabela 4).
Razão de chances (odds ratio, OR) e intervalos de confiança de 95% (IC95%) do uso de substâncias ilícitas e sua associação com variáveis exógenas, determinantes primários e intermediários em saúde e condições clínicas entre pessoas em situação de rua. Jundiaí, 2023 (n=270)
Razão de chances (odds ratio, OR) e intervalos de confiança de 95% (IC95%) do modelo de regressão múltipla das variáveis associadas ao uso de substâncias ilícitas entre pessoas em situação de rua. Jundiaí, 2023 (n=270)
Discussão
O perfil epidemiológico evidenciou que a população estudada é composta majoritariamente por: homens, solteiros, negros, com idade média de 39 anos, baixa escolaridade, em condição de extrema pobreza e em situação de rua por mais de cinco anos. Constatou-se, nessa população, alta prevalência de violência, sofrimento mental e uso de substâncias ilícitas, principalmente crack, maconha e cocaína. O uso de substâncias ilícitas pela população em situação de rua esteve associado às variáveis violência, tabagismo, tempo em situação de rua, recebimento de benefício socioassistencial e escolaridade.
A invisibilidade e a vulnerabilidade da população em situação de rua estão ligadas aos fatores sociais que influenciam a saúde, agravando os riscos 18. Os dados do estudo corroboram outras pesquisas sobre essa população, mostrando características e comportamentos que afetam diretamente sua saúde 2,6,8,19,20.
As condições de saúde mais prevalentes na população estudada foram: sofrimento mental, problemas no sono, incontinência urinária, desconforto digestivo, doença respiratória, doença dermatológica e hipertensão arterial. Salienta-se que na literatura não foi identificada a incontinência urinária como uma condição de saúde das populações em situação de rua, talvez por não ser uma condição estudada anteriormente. Como se constatou prevalência significativa dessa afecção no território estudado, esse dado pode ser um aspecto inovador deste estudo.
Identificou-se que algumas pessoas em situação de rua não praticam higiene pessoal. Estudos indicam que a perda significativa dos dentes nesse grupo está ligada à idade, à pobreza e à falta de cuidados regulares com a escovação dental 21,22. O Centro POP, situado no centro de Jundiaí, é onde as pessoas em situação de rua podem cuidar da higiene pessoal. No entanto, muitas delas, devido ao uso intenso de drogas e à distância da periferia, acabam não conseguindo manter esses cuidados.
O Decreto nº 11.908, de 6 de fevereiro de 2024, criou o Programa Brasil Saudável - Unir para Cuidar, com o objetivo de eliminar doenças ligadas a fatores sociais. Esse programa foca especialmente nas pessoas em contextos de alta vulnerabilidade social, como pessoas em situação de rua. As ações incluem diversos setores governamentais, integrando saúde com habitação, geração de renda, saneamento e educação, além de outras políticas públicas 23.
A sociedade muitas vezes estigmatiza as pessoas em situação de rua, rotulando-as de maneira negativa, o que contribui para sua marginalização 24,25. Cada indivíduo carrega consigo uma história de vida dolorosa, e o uso de drogas pode ser uma forma de lidar com a exclusão social 11. A falta de suporte estatal agrava essa vulnerabilidade, criando um ciclo difícil de romper. Quanto mais tempo alguém passa nas ruas, maior a probabilidade de recorrer a substâncias prejudiciais à saúde 11,26. Portanto, é fundamental humanizar a abordagem quanto a essa população e considerar as vidas dessas pessoas ao desenvolver políticas públicas 27.
A pesquisa revela que a concessão de benefícios socioassistenciais, como o Bolsa Família, está inversamente relacionada ao uso de substâncias ilícitas. Indivíduos não beneficiados apresentam maior propensão ao consumo de tais substâncias. A falta de informações e barreiras burocráticas dificultam o acesso a esses programas sociais, especialmente entre a população em situação de rua, que frequentemente permanece excluída do Cadastro Único de Saúde 28. Portanto, é imprescindível fortalecer a atuação intersetorial para assegurar direitos fundamentais, promovendo serviços de saúde, educação e assistência social em locais de consumo intenso de substâncias psicoativas 11,26.
A associação do uso de substâncias ilícitas com variáveis, como escolaridade, sustento financeiro, suporte familiar, vítima de violência, sofrimento mental, infecções sexualmente transmissíveis e doenças respiratórias, também tem sido observada no acervo literário, reforçando a pertinência em compreender a complexidade desse comportamento em saúde e o contexto do viver nas ruas para a tomada de decisão da gestão pública 10,25. A escolaridade, um determinante primário em saúde, foi associado ao uso de substâncias ilícitas, sendo que houve maior prevalência de uso em indivíduos com ensino médio completo ou mais. Contudo, é imprescindível analisar essa associação criticamente, visto que um nível educacional elevado não deve ser considerado um fator de risco. Uma hipótese que pode elucidar essa relação é que o uso de substâncias psicoativas frequentemente atua como um disparador para que os indivíduos abandonem seus lares e rompam vínculos familiares, resultando em situações de rua, conforme evidenciado neste estudo e em pesquisas correlatas 2,15,19,29.
As pessoas em situação de rua sofrem violência de diferentes modos, seja simbólica, física, sexual, patrimonial, psicológica, entre outras 30. A falta de moradia adequada expõe as pessoas a diversas formas de violência, o que, por sua vez, favorece o uso de substâncias ilícitas 2,5,30. Este estudo revela que o contexto de violação de direitos e a carência de políticas públicas criam um ciclo onde a violência gera mais violência. Além disso, foi observada uma alta taxa de comportamento agressivo entre essa população, intensificando problemas de saúde mental e aumentando a vulnerabilidade quanto ao uso de substâncias psicoativas, perpetuando ainda mais esse ciclo negativo 5,29.
Neste estudo, ser tabagista esteve associado ao uso de substâncias ilícitas, dado que corroborou outros estudos 11,14,18,30. Pesquisas anteriores relacionam o tabagismo com a tuberculose na população em situação de rua 10. Este estudo identificou uma considerável incidência de patologias respiratórias entre a amostra analisada. Intervenções educativas em saúde são fundamentais para conscientizar a população em situação de vulnerabilidade sobre os impactos do tabagismo e promover estratégias de autocuidado na perspectiva da redução de danos 30.
Muitos são os desafios para a efetivação da política de saúde relacionada aos princípios da universalidade e da integralidade a minorias sociais, como a população estudada 20. As barreiras enfrentadas por indivíduos em situação de rua no acesso aos serviços de saúde demandam um planejamento estratégico que priorize a equidade no cuidado. O preconceito, a exigência de documentação e a falta de acolhimento dificultam essa assistência. No entanto, iniciativas como o Consultório na Rua, de forma articulada com a assistência social e os centros de atenção psicossocial, demonstram potencial para aprimorar esse acesso, embora a maioria da população da amostra indique não enfrentar dificuldades 2,18,24.
Este estudo apresenta limitações atribuídas ao seu delineamento transversal, o que impede a determinação da causalidade e a sequência temporal do uso de substâncias ilícitas em relação à vivência em situação de rua. Outro aspecto limitador foi o modelo de amostragem por conveniência, embora necessário para a realização desta pesquisa, pela característica do grupo populacional estudado e pela dificuldade em realizar uma amostra aleatória a partir de um cadastro. Entretanto, o estudo examinou uma amostra definida por critérios estatísticos, focando na escolha cuidadosa das variáveis e sendo inovador ao abordar a população em situação de rua em Jundiaí, São Paulo. A produção científica ajuda a combater preconceitos e colabora no acesso e no acolhimento, que minimizam as barreiras existentes 6,11,20.
Uma limitação relevante da pesquisa foi a coleta de dados em colaboração com o Consultório na Rua, o que pode ter introduzido um viés, uma vez que os participantes podem ter se sentido pressionados a relatar acesso aos serviços de saúde, especialmente os oferecidos pelo Consultório na Rua. Notavelmente, 33,0% dos entrevistados afirmaram não utilizar esse serviço.
Este estudo analisou o perfil sociodemográfico e clínico-epidemiológico da população em situação de rua e observou o adoecimento desse grupo com grande prevalência de uso de substâncias psicoativas ilícitas. Os fatores associados a esse uso foram sociodemográficos, violência e maior tempo em situação de rua. Esses resultados direcionam para a importância de fortalecer a rede de saúde e intersetorial, visando assegurar a integralidade do cuidado e a garantia de direitos sociais.
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Disponibilidade de dados
O banco de dados foi disponibilizado no repositório OSF com doi: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/M62PN.
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Uso de inteligência artificial generativa
Não empregada.
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Gestora de pareceristas:
Izabela Fulone - https://orcid.org/0000-0002-3211-6951
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Parecerista:
Gabriel Pavinati - https://orcid.org/0000-0002-0289-8219
- Parecer:
Editado por
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Editor-chefe:
Jorge Otávio Maia Barreto - https://orcid.org/0000-0002-7648-0472
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Editor científico:
Everton Nunes da Silva - https://orcid.org/0000-0001-8747-4185
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Editor associado:
Alberto Pereira Madeiro - https://orcid.org/0000-0002-5258-5982
O banco de dados foi disponibilizado no repositório OSF com doi: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/M62PN.


