Resumo
A migração italiana contemporânea para o Rio Grande do Sul caracteriza-se pela intensiva mediação de tecnologias digitais de comunicação, particularmente o WhatsApp. A partir de catorze entrevistas semiestruturadas realizadas entre maio e outubro de 2025, este artigo examina como o WhatsApp funciona como "mitigador da nostalgia" - um instrumento que atenua, mas não resolve, a distância, criando uma forma de presença paradoxal, entendida como copresença mediada: uma condição em que a proximidade comunicacional e afetiva se intensifica sem suprimir a separação física entre migrantes e seus familiares na Itália. O estudo adota método qualitativo para explorar como plataformas de comunicação instantânea constituem infraestruturas digitais fundamentais para manutenção de relações afetivas transnacionais, transformação de temporalidades migratórias e ritualização da comunicação à distância. Os achados demonstram que tecnologias digitais não eliminam a distância, mas a tornam habitável, estabelecendo uma condição de copresença mediada que caracteriza campos transnacionais contemporâneos.
Palavras-chave:
migração italiana; tecnologia digital; WhatsApp; nostalgia; transnacionalidade; relações afetivas
Abstract
Contemporary Italian migration to Rio Grande do Sul is characterized by the intensive mediation of digital communication technologies, particularly WhatsApp. Based on fourteen semi-structured interviews conducted between May and October 2025, this article examines how WhatsApp operates as a “nostalgia mitigator” - a tool that attenuates, but does not resolve, distance, creating a form of paradoxical presence: a mediated copresence in which communicational and affective proximity is intensified without suppressing the physical separation between migrants and their families in Italy. The study adopts qualitative thematic analysis to explore how instant messaging platforms constitute key digital infrastructures for the maintenance of transnational affective ties, the transformation of migratory temporalities, and the ritualization of long-distance communication. The findings show that digital technologies do not eliminate distance, but make it “habitable,” establishing a condition of mediated copresence that characterizes contemporary transnational fields.
Keywords:
Italian migration; digital technology; WhatsApp; nostalgia; transnationality; affective relationships
1. Introdução
A migração italiana para o Brasil é um fenômeno antigo. As grandes correntes migratórias do século XIX deixaram marcas profundas na paisagem social e cultural do Rio Grande do Sul, onde a "italianidade" tornou-se parte integrante da memória coletiva (De Boni, 1996). O caso particular do Rio Grande do Sul oferece um ponto de observação privilegiado: aqui, a migração recente convive e se confunde com uma longa história de pertencimento simbólico à Itália.
Neste trabalho, a “italianidade” não é tratada como uma identidade homogênea ou previamente definida, mas como uma categoria empírica, tal como emerge nas narrativas dos próprios entrevistados. Os dados indicam que se trata de uma forma de pertencimento heterogênea e situada, que varia conforme trajetórias individuais, relações familiares e experiências de mobilidade.
Ao lado dessa história, move-se hoje outra, mais silenciosa e fragmentada: a migração italiana contemporânea, feita de trajetórias individuais, profissionais e afetivas, que se desenvolvem em um contexto relacional fortemente midiatizado. Neste cenário, as tecnologias digitais não apenas facilitam a comunicação a distância, mas transformam profundamente a experiência migratória, redesenhando a percepção do espaço, do tempo e das relações afetivas: a tecnologia se torna um instrumento para manter unida a vida passada, o presente e o futuro.
Esta transformação da experiência migratória pela mediação tecnológica não é fenômeno isolado, mas parte de uma dinâmica mais ampla documentada na literatura contemporânea sobre mobilidade humana. Pesquisas recentes demonstram como plataformas digitais constituem infraestruturas fundamentais para a conformação de redes transnacionais (Brignol, Costa, 2016; Melella, 2016) e como aplicativos de comunicação instantânea servem como mediadores de relações afetivas à distância (Dantas, 2016). Particularmente, Brignol e Costa (2016) cunham o termo "webdiáspora" para designar espaços comunicacionais onde migrantes experimentam identidades compartilhadas através de plataformas de rede social. No caso da migração italiana contemporânea no Rio Grande do Sul, observamos dinâmica similar: o WhatsApp não funciona meramente como ferramenta de comunicação, mas como espaço afetivo onde se materializam formas específicas de pertencimento e se gerenciam emoções associadas à distância transnacional.
Nos últimos dois decênios, o Brasil conheceu uma nova fase de mobilidade internacional, na qual a presença italiana se destaca por sua variedade e complexidade. Além dos descendentes das grandes migrações históricas do final do século XIX, que continuam a representar uma referência simbólica no País, em especial na região Sul, desenvolveu-se uma migração mais recente, caracterizada por perfis profissionais diversificados, alto nível de educação e forte conexão transnacional. O Rio Grande do Sul constitui um laboratório privilegiado para a observação de tais dinâmicas. A região conserva, de fato, uma memória coletiva da italianidade, visível nos nomes das cidades, nas práticas culturais e nas instituições locais (De Ruggiero, 2024). Tal vínculo histórico e simbólico explica, ainda hoje, a forte densidade das relações ítalo-brasileiras. Porém, a nova migração italiana no Sul do Brasil não é mera continuação das migrações passadas: trata-se de um fenômeno inscrito na globalização contemporânea e profundamente mediado pelas tecnologias digitais.
Entre maio e outubro de 2025, conduzimos catorze entrevistas semiestruturadas com italianos residentes em diversas cidades do Rio Grande do Sul, situadas na área metropolitana de Porto Alegre. As transcrições sugerem que as tecnologias de comunicação, em particular o WhatsApp, emergem como instrumentos que mitigam a nostalgia do migrante, oferecendo uma presença contínua, mas nunca plena: uma conexão que acalma os sentimentos nostálgicos sem nunca resolvê-los, funcional à adaptação em um contexto diverso e novo.
Portanto, o objetivo deste artigo é compreender como migrantes italianos contemporâneos lidam com a nostalgia no contexto da mobilidade transnacional, analisando de que modo o uso de tecnologias digitais - especialmente o WhatsApp - reconfigura a experiência da distância, ao intensificar a proximidade comunicacional e afetiva sem suprimir a separação física.
O artigo está organizado da seguinte forma: a seção 2 apresenta os procedimentos metodológicos e o delineamento da pesquisa; a seção 3 analisa empiricamente os relatos dos migrantes, com foco no papel das tecnologias digitais na gestão da nostalgia; a seção 4 discute os resultados à luz da literatura sobre migração e mediação digital; por fim, a seção 5 apresenta as conclusões.
2. Abordagem metodológica e objetivos da pesquisa
Segundo os dados mais recentes, 617.752 cidadãos italianos - entre nascidos na Itália e nascidos no exterior, principalmente no Brasil - residem no Brasil (ISTAT, 2025). A presença italiana é particularmente significativa no Rio Grande do Sul, onde estima-se que as pessoas de origem italiana representem cerca de 30% da população.
Os dados oficiais sobre o fenômeno migratório no Brasil - fornecidos pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), em colaboração com a Polícia Federal brasileira - indicam que a recente migração italiana é simbolicamente relevante, mas numericamente reduzida. Os novos ingressos com visto de residência ou permanência temporária no Rio Grande do Sul foram 143 no triênio 2022-2024, dos quais 35 em 2024. Ao mesmo tempo, o Consolato Generale d'Italia em Porto Alegre registrou, em 2024, um recorde de atividade: 14.238 passaportes emitidos e 6.464 reconhecimentos de cidadania italiana a descendentes residentes no Estado (Consolato Generale d’Italia di Porto Alegre, 2025). Trata-se de cifras que testemunham a vitalidade e o renovado interesse pelo reconhecimento da identidade italiana no Rio Grande do Sul.
Interessados nos novos migrantes, considerando uma população de referência reduzida, preferimos selecionar um pequeno grupo de catorze italianos1, através de uma amostragem em bola de neve, envolvendo conhecidos dos primeiros entrevistados. As entrevistas foram realizadas entre maio e outubro de 2025; os entrevistados residem em Porto Alegre ou em municípios da área metropolitana de Porto Alegre, e provêm de diversas regiões italianas (Toscana, Emília-Romanha, Piemonte, Lácio). As idades variam de 27 a 55 anos e as trajetórias incluem tanto migrações profissionais quanto familiares ou afetivas. Os nomes dos entrevistados foram modificados a fim de manter o anonimato.
A escolha de focar especificamente na migração italiana recente justifica-se por várias razões. Em primeiro lugar, a comunidade italiana no Rio Grande do Sul apresenta características únicas: não é meramente descendência histórica, mas migração ativa que busca manter vínculos contemporâneos com a Itália. Em segundo lugar, a região oferece um contexto particularmente favorável ao estudo da tecnologia digital em migrações por sua infraestrutura tecnológica desenvolvida e acesso generalizado à internet. Por fim, a dimensão afetiva e emocional das relações migratórias italianas permite captar nuances das experiências de distância mediada tecnologicamente que outras populações migrantes possam apresentar de forma menos evidente.
Esta pesquisa se justifica, ainda, pela urgência de compreender como tecnologias digitais reestruturam experiências migratórias em contextos contemporâneos. Enquanto a maioria dos estudos sobre migração italiana no Brasil enfatiza aspectos históricos, demográficos ou econômicos, pouco tem sido investigado sobre a mediação digital das relações afetivas e da construção identitária. Esta lacuna é particularmente significativa considerando que o WhatsApp tornou-se infraestrutura essencial da vida migratória transnacional. Compreender como plataformas de mensageria instantânea funcionam nas dinâmicas de nostalgia, espera e retorno é crucial para teorias contemporâneas sobre migração e tecnologia.
Além disso, a pesquisa com migrantes italianos permite questionar narrativas hegemônicas de "sucesso migratório" baseadas em integração linear. Os dados coletados sugerem, ao contrário, que migrantes vivenciam condições simultâneas de pertencimento e estranhamento, de adaptação profunda e saudade permanente. Estas dimensões não são patologias de má adaptação, mas características constitutivas das migrações contemporâneas mediadas digitalmente. Por fim, este estudo contribui para o campo de estudos sobre antropologia digital ao demonstrar como tecnologias móveis não são neutras, mas constituem dispositivos de mediação que condicionam formas específicas de relacionamento afetivo transnacional. A etnografia digital, assim, revela-se metodologia apropriada para captar como migrantes italianos negociam sua presença simultânea em múltiplos espaços geográficos através de aplicativos de comunicação.
As entrevistas, realizadas em italiano, tiveram duração entre 30 e 90 minutos. Algumas conversas seguiram um formato semiestruturado com um roteiro comum; outras foram mais livres, deixando os temas emergirem espontaneamente. O roteiro de referência articulava-se em torno de quatro blocos principais: 1) trajetória migratória e contexto tecnológico - percurso migratório, motivações e relação com tecnologias digitais; 2) relações afetivas à distância - modalidades e frequência da comunicação com familiares e amigos que permaneceram na Itália; 3) identidade e pertencimento nos espaços digitais - uso de redes sociais, construção da italianidade online, participação em grupos de migrantes; 4) desigualdades e desafios digitais - competências técnicas, geracionais e de gênero, obstáculos e adaptações.
A pesquisa se inscreve no âmbito da sociologia qualitativa e adota uma abordagem exploratória. A atenção não se volta à representatividade estatística, mas à profundidade interpretativa das narrativas individuais. O objetivo não é fornecer uma tipologia do migrante ou do uso das mídias sociais, mas sim restituir um mosaico de experiências, no qual as tecnologias se tornam instrumentos afetivos e simbólicos de mediação. O estudo visa explorar como as tecnologias digitais - em particular o WhatsApp - intervêm na gestão cotidiana da experiência migratória, na construção das relações afetivas à distância e na manutenção de formas de pertencimento italiano em contextos de forte integração local. Uma das hipóteses que emergiu do trabalho de campo é que o WhatsApp atua como um "mitigador da nostalgia", um instrumento que acalma, mas não resolve a distância e que às vezes produz uma sensação ilusória de proximidade.
Das entrevistas emerge, também, como dois eventos recentes - a pandemia de COVID-19 (2020-2021) e as enchentes que afetaram o Rio Grande do Sul na primavera de 2024 - representaram momentos de forte isolamento para os entrevistados e suas famílias, reforçando uma percepção de distanciamento do contexto circundante.
A relação com amigos e parentes na Itália, as vidas passadas, presentes e futuras, permanecem centrais em nossa análise. Emerge uma dimensão nostálgica, mas também crítica e reflexiva, na qual os migrantes reconhecem seu bem-estar profissional e social, mas experimentam, simultaneamente, uma dupla forma de distanciamento: da Itália e do contexto local.
O método principal empregado é a análise temática, útil para identificar recorrências e contrastes nos significados atribuídos pelos migrantes à sua experiência. Esta perspectiva permite ler as entrevistas não apenas como relatos de práticas, mas como espaços discursivos nos quais se expressam emoções, adaptações e estratégias de pertencimento. Como destacam Braun e Clarke (2006), a análise temática permite mover-se entre os níveis descritivo e interpretativo, identificando os "temas" como padrões significativos de sentido.
Esta abordagem dialoga com metodologias empregadas em estudos anteriores sobre migração e mediação digital (Brignol, Costa, 2016), onde a análise de narrativas é concebida como prática que revela não apenas comportamentos, mas emoções, adaptações e estratégias de pertencimento que se expressam discursivamente.
Em nosso caso, o processo analítico concentrou-se em três grandes eixos: 1) a mediação digital da experiência migratória; 2) as formas afetivas da distância; 3) a nostalgia como emoção tecnologicamente gerenciada.
As entrevistas foram transcritas integralmente e submetidas à codificação temática manual. O processo articulou-se em três fases principais: 1) identificação dos núcleos de significado (ex. nostalgia, contato cotidiano, distância, pertencimento); 2) agregação em categorias interpretativas (ex. "WhatsApp como mitigador", "presença ausente", "comunicação ritual"); 3) elaboração de dimensões analíticas transversais, como o papel das emoções digitais, a gestão do tempo diferido e a performatividade da identidade italiana online.
3. Relações afetivas e cotidianidade digital
Neste artigo, a nostalgia não é compreendida como sinal de adaptação fracassada, mas como dimensão constitutiva da experiência migratória, associada à manutenção de vínculos e à gestão da distância. Aproxima-se, nesse sentido, da noção de nostalgia reflexiva proposta por Boym (2001), entendida não como tentativa de reconstrução do lar perdido, mas como uma relação ambivalente com a ausência, com a memória e com a própria irreversibilidade da experiência. No contexto analisado, essa experiência é continuamente mediada por tecnologias digitais, que tornam a distância mais administrável no cotidiano, sem suprimi-la. É a partir dessa perspectiva que analisamos as narrativas dos entrevistados.
3.1 Um mosaico de experiências realmente diferentes?
Valeria relata ter chegado ao Brasil por motivos de trabalho em 2005, "quando as redes sociais ainda não existiam". No Brasil, Valeria começou a usar Orkut, a primeira grande rede social difundida no País: "Todos os meus amigos e conhecidos aqui tinham, enquanto na Itália não era muito utilizada", recorda. Seu relato permite captar um momento de transição histórica nas práticas comunicativas dos emigrados. A migração precedeu a plena difusão das plataformas sociais e se colocava em uma fase em que a comunicação digital já estava presente, mas ainda limitada e mediada pelo computador.
Nos anos subsequentes, com o advento de smartphones, aplicativos de mensageria instantânea e redes sociais integradas, a distância se tornaria mais "leve", mas também mais constantemente percebida. A entrevistada destaca como hoje se usam muito mais essas tecnologias, não por uma necessidade técnica, mas por hábito cotidiano, para manter algum tipo de interação.
Beatrice, italiana de 45 anos, residente em Porto Alegre há dez anos, relata:
Estou aqui há dez anos. Sinto falta da Itália, mas aqui faço minhas coisas, me mantenho ocupada. Uso WhatsApp, mas não nos falamos frequentemente com meus pais. Nem todos os dias. Assim é minha família. Não temos necessidade de nos vermos por videochamada. Sei que estão bem, eles sabem que estou bem. Não há necessidade de escrever. Nossa família sempre funcionou assim. Uso WhatsApp com amigas italianas. Mas aqui no Brasil praticamente não tenho contatos. É quase como um exercício de manutenção, mais que uma forma de conexão ativa.
Este contraste entre Valeria e Beatrice revela uma dinâmica temporal importante na experiência migratória. Valeria, que emigrou em 2005, vivenciou a transformação gradual das tecnologias como um processo vivido - passou de Orkut ao WhatsApp, experimentou a transição do computador ao smartphone como fenômeno de vida. Beatrice, por sua vez, chegou a um Brasil já profundamente midiatizado, onde o WhatsApp era infraestrutura estabelecida. Enquanto Valeria precisou adaptar-se continuamente ao surgimento de novas plataformas, Beatrice pôde escolher desde o início qual seria sua relação com a tecnologia. Esta diferença temporal pode ter influenciado uma experiência fenomenológica diversa: para Valeria, a tecnologia representa uma série de adaptações forçadas; para Beatrice, ela é um componente dado do contexto migratório que pode ser operacionalizado de forma mais instrumental. Ambas, porém, descrevem a mesma necessidade fundamental: usar as tecnologias de forma seletiva, mantendo uma relação crítica com a "conectividade permanente" que caracteriza o capitalismo digital contemporâneo.
Esta compreensão diferenciada do uso tecnológico entre migrantes revela uma dinâmica crucial: a tecnologia não determina experiência, mas oferece múltiplas possibilidades de apropriação. Outro exemplo é o de Roberto, 27 anos, migrante nativo-digital que se mudou para Porto Alegre há poucos anos por motivos afetivos, e vê o WhatsApp como necessidade fundamental para manter vínculos com a família na Itália. Nicola, consultor independente toscano de 42 anos, por sua vez, o evita propositalmente, apesar de ter total acesso aos contatos. Estas variações não refletem meramente "competência digital" diferenciada, mas escolhas informadas por trajetórias, valores e relações preexistentes. O digital amplifica, portanto, diferenças já presentes nas formas de estar relacionado com família e amigos. Para alguns migrantes, a tecnologia oferece autonomia relacional; para outros, intensifica pressão de disponibilidade permanente.
A observação de Beatrice sobre o WhatsApp como "exercício de manutenção" é particularmente reveladora. Ela não descreve a tecnologia como meio de criação de novas relações, mas de preservação de vínculos que já existem. Isto contrasta com narrativas de outras entrevistadas mais jovens, que veem o WhatsApp como possibilidade de construir novas conexões. Para Beatrice, a tecnologia funciona como ferramenta de "congelamento" relacional - mantém vivos contatos com amigas italianas, mas não os aprofunda nem os transforma significativamente. Esta função de manutenção é crucial para compreender como a proximidade comunicacional e afetiva opera sem suprimir a distância física: não é que o WhatsApp crie ilusão de proximidade absoluta, mas que ele crie uma forma específica de "proximidade gerenciável" - contato suficiente para evitar ruptura, insuficiente para criar transformação.
Alguns entrevistados mais velhos falam de fadiga digital ou saturação comunicativa: a necessidade de estar sempre disponível pode se tornar fonte de ansiedade. Outros, geralmente mais jovens, encontram no digital uma forma de autonomia relacional, uma maneira de manter sua presença familiar sem depender de outros.
3.2 Presença Paradoxal: A Simultaneidade Impossível
As narrativas dos entrevistados revelam uma característica central das mediações tecnológicas da distância: a possibilidade de manter contato contínuo sem estar efetivamente junto. É a esse fenômeno que denominamos presença paradoxal: uma forma de copresença mediada em que a proximidade afetiva se intensifica sem suprimir a ausência física. Conforme Horst (2006) demonstra em pesquisa sobre comunicação móvel e segurança familiar entre migrantes caribenhos, as tecnologias de comunicação permitem formas específicas de "simultaneidade" que redefinem a experiência de estar longe. No lugar de eliminar a distância, elas a "domesticam" - tornam-na navegável, controlável, mas nunca inteiramente resolvida.
Vários entrevistados descrevem este fenômeno com precisão. Valeria, após 20 anos de residência em Porto Alegre, relata: "É como se eu estivesse lá, mas na verdade não estou". Esta constatação não representa fracasso da tecnologia, mas sua característica constitutiva quando aplicada à experiência migratória. Dantas (2016) oferece uma perspectiva complementar ao denominar um fenômeno similar de “objeto transicional”, nos seus termos:
Objetos que não estão nem dentro nem fora, mas ocupam um espaço no qual estão, ao mesmo tempo, dentro e fora, unindo e separando o dentro e o fora. Eles dizem, pois, respeito a outra realidade que, por sua vez, ainda não é nem a realidade interna, nem externa, nem a subjetiva, mas um outro tipo de realidade, a transicional. (p. 154)
Segundo a autora, a tecnologia funciona como mediadora que facilita a adaptação psíquica sem negar a realidade da distância. Assim, diferentemente de uma ponte que eliminaria a separação, o WhatsApp funciona mais como um paliativo que torna a separação habitável: acalma, consola, ordena o tempo da separação, mas não a resolve.
Roberto relata: “Quando conheci minha esposa, fomos morar juntos em Portugal; já tinha deixado a Itália, mas com a Itália sempre no coração. Por isso, a mudança para o Brasil foi mais fácil. Foi minha primeira grande experiência longe de casa”.
Estabelecido em Porto Alegre, Roberto começou a explorar a cidade através de ferramentas como Google Maps, que define como uma verdadeira extensão do seu olhar migrante: "Não o usava para me mover, mas para descobrir onde eu estava, para entender os bairros, os locais, as ruas. Na Itália eu conhecia tudo, aqui não". Esta descoberta digital do espaço urbano se torna parte integrante de seu processo de adaptação, uma maneira de familiarizar-se com o ambiente circundante e construir novos hábitos. Com o tempo, Roberto também observa o papel crescente das redes sociais na vida cotidiana brasileira. Esta abertura visual, típica da cultura digital brasileira, é por ele interpretada como uma forma de compartilhamento positivo, uma sociabilidade mais espontânea e menos reservada que a italiana. Em suas palavras: "No Brasil o uso das redes sociais é muito mais difundido que na Itália. As pessoas amam mostrar o que fazem, e isso me agrada: te faz descobrir lugares, eventos, coisas novas."
Roberto, como ele mesmo afirma, desde que chegou, não retornou mais para a Itália, e nesse sentido o relato acima é uma das sensações transformadas pela distância. Mas o aspecto mais relevante de seu depoimento concerne ao valor afetivo da tecnologia. Roberto relata o quanto o WhatsApp se tornou indispensável para manter contatos com a família que permaneceu na Itália:
Para mim é fundamental. É o único jeito de falar com minha mãe, meu pai e até ver meu cachorro. Fazemos videochamadas, nos mandamos fotos. Sem WhatsApp não conseguiria viver longe deles. Às vezes não tenho vontade de ligar, porque sinto muito a falta deles. Mas aí vejo a cara da minha mãe, e tudo passa. É legal saber que estamos juntos, mesmo à distância.
O depoimento de Roberto exemplifica precisamente o paradoxo que Horst (2006) identificou em sua pesquisa com migrantes caribenhos: as tecnologias móveis simultaneamente aproximam e reafirmam a distância. Nos termos de Horst (2006):
(...) a distância confortável que muitos migrantes transnacionais podem ter apreciado ou até mesmo exigido para um estabelecimento bem-sucedido no país de migração pode desaparecer com a expansão da disponibilidade de telecomunicações como o telefone móvel. (p. 155)
O vídeo da mãe consola, mas consolar é ato que pressupõe sofrimento anterior. A comunicação frequente não anula a impossibilidade de partilhar espaço físico. Para Roberto, o WhatsApp não funciona como substituto da presença, mas como uma ferramenta que torna a ausência menos avassaladora. Esta nuance é crucial: não se trata de negação da distância, mas de sua administração emocional através de mediação tecnológica. A dinâmica que Roberto descreve - a recusa de contato quando a dor emocional é intensa demais - revela que a "presença paradoxal" não é meramente uma condição técnica, mas um estado psicológico complexo que requer negociação constante por parte do migrante. A tecnologia não simplifica a experiência da distância; ao contrário, ela a complexifica ao oferecer possibilidade permanente de contato que nunca é plenamente satisfatória. Sua experiência confirma que o WhatsApp funciona como mitigador da nostalgia: acalma, mas não anula a distância.
Nicola, consultor independente toscano de 42 anos, relata uma recusa deliberada de contato: "Não mantive contato com parentes ou amigos. Tenho os contatos. Posso escrever a qualquer momento, mas não faço".
Lorenzo, designer de 35 anos que se mudou para Porto Alegre por amor há 6 anos, descreve uma relação fragmentada com a família: "Com alguns me dou bem. Com outros não. Com minha mãe me dou bem. Com meu pai não. E então mando uma mensagem e nos falamos pouco".
Luca, engenheiro de 30 anos, expressa pragmatismo minimalista: "Estou aqui. Nem sei o que dizer a alguns amigos. Por que vou escrever para eles? Votos de Natal? Tudo bem".
Entre os entrevistados mais jovens, emerge uma relação mais integrada com a tecnologia. No caso de Roberto, sua trajetória migratória é marcada por uma descoberta progressiva do digital. Como nota o próprio Roberto, "a tecnologia deve ser uma assistente, não um substituto do cérebro ou dos sentimentos".
4. Esperas e Retorno
A migração não é apenas movimento no espaço, mas também uma relação particular com o tempo. Nesse sentido, o processo migratório envolve temporalidades de projeto, preparação e retorno (Cassarino, 2013). No caso das famílias transnacionais, essas temporalidades são também organizadas por práticas de cuidado e comunicação à distância, sustentadas por tecnologias que permitem manter vínculos, rotinas de contato e diferentes formas de copresença ao longo da separação (Baldassar et al., 2016). Os migrantes esperam, planejam, contam dias e semanas em função de datas-chave: aquela da próxima viagem para a Itália, aquela de uma videochamada marcada com familiares, aquela na qual estarão juntos novamente no mesmo lugar.
Elena, migrante italiana residente em Porto Alegre, descreve a forma como ela estrutura seu tempo em função da próxima viagem para a Itália, prevista para daqui a alguns meses. A entrevistada relata como a espera se materializa em ações concretas: escrever listas, preparar bagagens mentalmente, imaginar conversas.
Elena descreve: "Começo a pensar na viagem já meses antes. Decido o que levar, o que contar. Imagino as conversas. Às vezes, me parece já estar lá. Depois, quando chego de verdade, é sempre diferente do que tinha imaginado. Mas isso não importa: a espera já é parte da viagem".
A espera, além disso, ordena o tempo da separação. Os meses se organizam em função do retorno: há um antes e um depois, um tempo de acúmulo emocional e um tempo de restituição. Esta temporalidade cíclica é diversa daquela linear da migração histórica, onde o retorno era frequentemente definitivo ou impossível. Aqui, ao contrário, o retorno é programado, esperado, desejado, mas também temido. Alguns entrevistados confessam certa ambivalência em relação à viagem de retorno. Matteo, por exemplo, admite: "Às vezes tenho medo de voltar. Medo de ver como envelheceram meus pais. Medo de não reconhecer mais os lugares. Medo de me sentir estrangeiro em minha própria casa. Mas, mesmo assim, vou, porque a espera me consome mais que o medo".
A ambivalência que Matteo descreve manifesta-se igualmente na dimensão temporal das mediações digitais. A possibilidade de estar em contato constante transforma a espera do retorno em prática contínua de negociação: através do WhatsApp, os migrantes compartilham imagens, vídeos, atualizações que criam uma forma de presença gradual durante os meses de separação. O envelhecimento dos pais, mencionado por Matteo, torna-se visível lentamente através de uma série de fotografias no WhatsApp, não apenas no impacto chocante do encontro presencial. Esta "presença fragmentada" mediada por tecnologia oferece ao migrante tempo psicológico para preparar-se, para processar mudanças que de outro modo seriam traumáticas. Simultaneamente, porém, ela prolonga a ansiedade: o migrante vive constantemente com a consciência daquilo que está perdendo em tempo real. Matteo não apenas espera um mês pelo retorno à Itália; ele vivencia a passagem do tempo na Itália através dos pequenos fragmentos que chegam pelo WhatsApp - uma foto da mãe no hospital, um vídeo do irmão no jardim. A espera não é um vazio, mas uma saturação emocional gradual que facilita certos tipos de adaptação psicológica enquanto torna outras mais difíceis. A mediação digital transforma ainda a dimensão comunitária da espera. Em gerações anteriores de migrantes, a espera do retorno era frequentemente solitária, vivida em isolamento relativo ou compartilhada apenas com um pequeno círculo de conacionais. Hoje, através de grupos de WhatsApp, canais no Telegram, redes de migrantes italianos online, a espera torna-se experiência coletiva e ritualizável. Vários migrantes contam histórias similares, compartilham medos similares, planejam retornos similares. A tecnologia, neste sentido, cria uma forma de comunidade imaginada que não existia para gerações anteriores. Porém, esta comunidade digital é paradoxal: reúne pessoas que vivem no mesmo espaço urbano, mas que não necessariamente se encontram fisicamente, porque sua conexão privilegiada é através de mediações digitais que as ligam simultaneamente à Itália.
Este depoimento revela a complexidade emocional da espera: não é apenas desejo, mas também ansiedade, nostalgia antecipatória, temor da mudança. A espera é o espaço onde todas estas emoções convivem, criando uma tensão produtiva que mantém o migrante ancorado em seu lugar de origem.
A espera, conforme emerge nestas narrativas, não constitui meramente um estado psicológico passivo, mas uma prática social ritualizada. A estruturação do tempo em função do retorno esperado - com seus "antes" e "depois", seus momentos de acúmulo emocional e restituição - articula-se com processos mais amplos de mediação digital das relações transnacionais. Se, nas migrações históricas, a espera do retorno era frequentemente indefinida e potencialmente infinita, entre os migrantes digitalmente conectados a espera ganha contornos precisos: é programável, compartilhável, gerável através da tecnologia. Os smartphones e aplicativos de comunicação instantânea permitem não apenas comunicação sobre o retorno esperado, mas também imaginação compartilhada do futuro próximo, transformando a espera em experiência coletiva e ritualizável. Nessa perspectiva, a espera não constitui mero intervalo entre dois deslocamentos, mas uma forma socialmente organizada de manutenção do vínculo, na qual os próprios atos de comunicação passam a ser constitutivos da relação transnacional, como observam Baldassar et al. (2016).
Conclusões
Este artigo buscou compreender como migrantes italianos contemporâneos lidam com a nostalgia em contextos de mobilidade transnacional, analisando de que modo o uso de tecnologias digitais - em particular o WhatsApp - reconfigura a experiência da distância. Os relatos examinados indicam que essas tecnologias não eliminam a separação física, mas a tornam mais habitável. Mais do que aproximar plenamente, elas produzem uma forma de copresença mediada: uma condição na qual a comunicação cotidiana intensifica a proximidade afetiva sem suprimir a ausência.
Os dados mostram que, embora o acesso ao WhatsApp esteja amplamente difundido entre entrevistados de diferentes idades, sua apropriação não é homogênea. Se, por um lado, a banalização dessas ferramentas consolidou a comunicação transnacional como parte ordinária da vida cotidiana, por outro, persistem diferenças importantes nas formas de uso. Entre parte dos entrevistados mais velhos, aparecem relatos de fadiga e saturação comunicativa; entre os mais jovens, observa-se com maior frequência o uso das plataformas como recurso de autonomia relacional. Isso sugere que a tecnologia não determina a experiência migratória, mas oferece repertórios distintos para a gestão da distância.
Nesse quadro, o WhatsApp emerge menos como simples ferramenta de comunicação do que como dispositivo de mediação afetiva. Ele permite sustentar vínculos, organizar a espera, acompanhar à distância o envelhecimento dos pais, antecipar retornos e produzir rotinas de contato que amortecem a ruptura espacial. Ao mesmo tempo, essa conexão contínua não resolve a condição migrante. Ao contrário, ela frequentemente a reafirma, ao manter a ausência permanentemente presente sob forma administrável.
A nostalgia, por sua vez, não aparece nos relatos como sinal de fracasso de integração, mas como dimensão constitutiva da experiência migratória contemporânea. Ela se associa à continuidade dos vínculos, à reflexividade sobre o pertencimento e à organização temporal da separação. Os entrevistados vivem, assim, uma condição situada entre adaptação e permanência dos laços com a origem: o Brasil é o espaço da vida concreta, do trabalho e das relações cotidianas, enquanto a Itália permanece ativa nas memórias, nas interações e nas projeções de retorno. Nesse sentido, as formas de pertencimento italiano identificadas na pesquisa não operam como herança fixa, mas como referências continuamente atualizadas nas práticas comunicativas.
Por fim, o estudo sugere que a migração contemporânea mediada digitalmente deve ser compreendida menos como ruptura ou simples integração e mais como gestão contínua de presenças, ausências e temporalidades. As relações observadas organizam-se predominantemente na esfera cotidiana dos vínculos pessoais, e não em estruturas comunitárias formais, o que reforça o papel central das plataformas digitais na sustentação da vida transnacional. Assim, a principal contribuição do artigo é mostrar que, no caso analisado, o WhatsApp não supera a distância: ele a reorganiza. É precisamente nessa administração ordinária da separação que se constitui uma das marcas centrais da experiência migratória contemporânea.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados primários consistem em 14 entrevistas semiestruturadas contendo informações pessoais sensíveis dos participantes (migrantes italianos). Por questões éticas e de confidencialidade, as transcrições completas não podem ser disponibilizadas publicamente, conforme acordado nos termos de consentimento informado. Os trechos citados no artigo foram cuidadosamente selecionados para preservar o anonimato dos entrevistados.
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Editores de seção
Roberto Marinuccihttps://orcid.org/0000-0002-2042-2628Barbara Marciano Marqueshttps://orcid.org/0000-0003-0835-2441
