Open-access Pensar outros mundos: circulações feministas, epistemologias, memórias e territórios

Thinking Other Worlds: Feminist Circulations, Epistemologies, Memories and Territories

Pensar otros mundos: circulaciones feministas, epistemologías, memorias y territorios

Apresentação

Para pensar outros mundos que mobilizem circulações feministas, epistemologias, memórias e territórios, é necessário tornar a produção de conhecimento um processo incorporado, ou seja, de dentro para fora. Dessa forma, não poderíamos deixar de apresentar tal seção temática proveniente dos diálogos promovidos pelo Seminário Internacional Fazendo Gênero 13: “Contra o fim do mundo - antifascismo, anticolonialismo e justiça climática” sem evocar de onde partimos para tanto.

Somos três mulheres negras pesquisadoras da área das Ciências Humanas. E por que esse processo de evocação de lugares de fala (DjamilaRibeiro, 2017) torna-se necessário? Para que os lugares de escuta dos/das mesmos/as possam pensar numa perspectiva feminista pluralista que parte de outros seres/saberes/fazeres mundo possíveis.1

Segundo LuizaBairros (1995), são cinco os pontos que caracterizam o pensamento feminista negro: o legado de uma história de luta; a natureza interligada de raça, classe e gênero; o combate aos estereótipos; a atuação como mães, professoras e líderes comunitárias; e a política sexual.

Nos últimos anos, graças ao acúmulo de dados sobre as desigualdades raciais e de gênero produzidas dentro e fora da academia, à constante denúncia e as ações de conscientização realizadas pelo movimento de mulheres negras, às conquistas feministas e ao uso de plataformas digitais, temos um cenário de maior sensibilidade às desigualdades raciais e de gênero que, associadas ao uso de plataformas digitais, evidenciam os saberes/fazeres de mulheres negras no mundo. “Assim as marés feministas negras vêm impactar e desestabilizar os movimentos de ondas feministas com temas de pesquisas que refletem o ‘conhecer, para intervir e transformar’” (ÂngelaFigueiredo, 2020).

Mesmo diante da atribuição de sentidos por um senso comum de que somos pouco habilidosas para a reflexão acadêmica, porque somos ativistas demais, é justamente nestes cruzos, fruto das experiências de mulheres negras, que temos criado novas perspectivas teóricas, epistemológicas e metodológicas. Contudo, muitas vezes, se reconhece nossos saberes sem nossas presenças. E levar a sério o que temos a dizer e as ancestralidades que carregamos é sair de um oportunismo que meramente insere nossas presenças em eventos científicos como um checklist da diversidade, sem, de fato, reconhecer e valorizar tais produções de conhecimento.

Nesse sentido, uma epistemologia insubmissa feminista negra é aquela que propõe uma reconciliação com o senso comum [...] visto que propõe uma ruptura com o senso comum que naturaliza as desigualdades, ao mesmo tempo em que recupera parte dos discursos produzidos pelos movimentos sociais (Figueiredo, 2020, p. 17).

E nessa produção de conhecimento se instala uma memória que, para Pierre Nora (1993), não é um registro exato do passado, mas um elo vivido no presente, moldado pelas emoções, pelas ausências, e pelos silêncios que também contam. Já, nos termos de LedaMartins (2021), o contínuo exercício de uma memória cultural dialógica negra, transcriada como um significante recorrente, reatualiza modos de percepção e fabulação de várias matrizes cognitivas e performáticas africanas e afro-brasileiras.

Tais memórias tecem, por conseguinte, territórios materiais e simbólicos para as populações negras, sobretudo mulheres negras. Segundo Ilka Boaventura Leite (1996), o território negro aparece, então, como elemento de visibilidade a ser resgatado. Através dele, os negros, isolados pelo preconceito racial, procuram reconstruir uma tradição centrada no parentesco, na religião, na terra e nos valores morais cultivados ao longo de sua descendência. A tradição negra tem sido, comprovadamente, o próprio enfrentamento, a resistência cotidiana, a luta pela recuperação da autoestima. “Tanto nas áreas rurais como nas periféricas e urbanas, os negros consolidaram sua identidade social através da demarcação simbólica expressa por uma fronteira étnica que é construída ao longo de anos de resistência e em específicos e diversos contextos” (Leite, 1996, p. 50).

Aqui os territórios são nossos próprios corpos, nas suas possibilidades de (trans)bordamentos, conexões e rasuras de um todo normativo já estabelecido.

Um corpo historicamente conotado, que personaliza as vozes que denunciam e nomeiam o itinerário de violências de nossa rotina cotidiana, mas que, sem tréguas, escavam vias alternas para uma outra existência, mais plena e cidadã. Um corpo/voz inventário que limpa, restabelece, restitui, reivindica, respira e inspira, em perene processo de cura, escavando vias alternas de outros devires possíveis, sempre desejoso de transformações do corpus social (Martins, 2021, p. 107).

Então, a partir desses lugares de fala, dando continuidade à provocação de mudar o rumo do mundo que nos moveu ao longo da Seção Especial A, reafirmamos a urgência de resistir à normalização das violências e de insistir em práticas de justiça de gênero e sociais enraizadas nas epistemologias feministas. Se antes colocamos em foco as violências persistentes e as múltiplas formas de resistência que atravessam os corpos e territórios de mulheres cis e trans e pessoas dissidentes de gênero, nesta edição, seguimos aprofundando os diálogos e trazemos a potência política de sonhar outros mundos possíveis. O horizonte permanece o mesmo: nutrir redes de solidariedade, afetos e insurgências a partir de experiências situadas, pluralizadas e engajadas nos feminismos.

Esta seção especial reúne pesquisas que exploram as circulações dos saberes feministas em suas múltiplas dimensões: epistemológicas, políticas e territoriais. Os textos apresentados abordam deslocamentos teóricos entre distintos contextos geográficos e históricos e os modos de produção, mediação e transmissão de conhecimentos feministas. São reflexões que atravessam práticas de extensão, memórias, arte, maternidade e ancestralidade, além de conexões transnacionais entre África e América Latina.

Ao mapear essas trajetórias, a seção evidencia a potência das epistemologias feministas na construção de redes, no deslocamento e tensionamento de fronteiras e na afirmação de territorialidades plurais. É um convite a pensar os feminismos como práticas situadas, em constante diálogo e transformação, nas quais saberes insurgentes se entrelaçam com territórios e lutas locais e globais (Gloria Anzaldúa, 2005; María Lugones, 2008). Essa perspectiva reflete sobre como as epistemologias do Sul (Walter Mignolo, 2020; Achille Mbembe, 2018) e os feminismos anticoloniais e decoloniais desafiam o eurocentrismo e os padrões hegemônicos de produção do conhecimento (OyèrónkéOyěwùmí, 2021).

Iniciamos a Sessão Especial com o artigo “Entre o Atlântico e o Índico: feminismos africanos, globalização e articulações Sul-Sul”, de Vera Fátima Gasparetto e Luzinete Simões Minella, que analisa os feminismos africanos com foco em Moçambique, a partir de uma perspectiva Sul-Sul. As autoras discutem os impactos da globalização e do colonialismo na produção de conhecimento e na luta das mulheres por direitos, denunciando o racismo epistêmico e os estereótipos persistentes sobre a África. O texto valoriza as epistemologias africanas e os saberes locais como fundamentais no enfrentamento das assimetrias globais, articulando experiências de resistência e redes de solidariedade transnacionais. Com base em entrevistas e na observação de movimentos feministas moçambicanos, o estudo destaca a articulação entre teoria e prática como caminho para transformar as relações de poder e afirma a diversidade de vivências e formas de organização das mulheres africanas no Sul Global.

No artigo “INCT-Caleidoscópio: contribuições feministas para uma política científica e tecnológica democrática e inclusiva”, Karla Adriana Martins Bessa e Viviane de Melo Resende apresentam a trajetória do INCT-Caleidoscópio, instituição voltada à promoção da equidade de gênero, da diversidade e da inclusão na ciência e tecnologia brasileiras. As autoras contextualizam os desafios históricos e contemporâneos das mulheres na ciência e analisam as desigualdades estruturais que ainda marcam o campo científico. Ao analisar os dados do Observatório Caleidoscópio, o texto propõe caminhos para o fortalecimento da democratização do conhecimento científico, ancorado em epistemologias feministas e em um compromisso com a justiça social e o bem comum.

Com o artigo “Consciência defiça: uma ação político-feminista para o enfrentamento do capacitismo”, Marivete Gesser e Márcia Oliveira Moraes propõem o conceito de “consciência defiça” como ferramenta político-feminista para combater o capacitismo e os impactos das políticas neoliberais na vida das pessoas com deficiência. Inspirado na teoria crip, no feminismo decolonial e nas ideias de coalizão (Anzaldúa), o texto articula a luta anticapacitista às lutas antirracistas e antipatriarcais. As autoras defendem a criação de saberes e práticas que rompam com a patologização e a invisibilização das pessoas com deficiência, apostando na construção de futuros insurgentes, pautados pela justiça social e pelo enfrentamento do ideal neoliberal de corpo produtivo e eficiente.

O artigo “Encarnações desconhecidas da cartunista Mariza sob uma perspectiva genealógica feminista”, de Cíntia Lima Crescêncio, é o artigo que resgata a trajetória da cartunista Mariza e analisa suas produções ao longo de quatro décadas. A autora mostra como Mariza desafiou os padrões conservadores do humor gráfico ao representar mulheres e questões feministas em um campo dominado por homens. A autora destaca o papel da arte gráfica como prática crítica e subversiva, e a evidencia mostrando como as charges de Mariza exercem impacto e operaram na desconstrução de estereótipos de gênero e na construção de diferentes narrativas feministas no Brasil.

No artigo “A Bruxa Influencer: discurso e gênero em tempos de capitalismo neoliberal”, Marta Júlia Martins analisa como mulheres contemporâneas se apropriam da figura da bruxa em perfis do Instagram, ressignificando essa identidade em meio às contradições do neoliberalismo. A autora examina como essas “bruxas influencers” constroem suas autoimagens, entre práticas de resistência e a mercantilização das subjetividades. O estudo revela a complexidade dos discursos sobre bruxaria como espaço de contestação e reapropriação feminista, ainda que atravessados pelas lógicas do mercado e pelas tensões do capitalismo digital.

Por fim, o artigo “Cómo pensar perspectivas feministas sobre la maternidad? Un reto biológico, social y espiritual”, de Laurence Tain, propõe uma análise da maternidade a partir de três dimensões - biológica, social e espiritual, em articulação com diferentes abordagens feministas: universalista, diferencialista e queer. A autora questiona a redução da maternidade ao seu aspecto biológico e defende uma leitura plural das experiências maternas.

O texto convida à reflexão sobre as tensões e os deslocamentos nas construções sociais da maternidade e destaca como os feminismos podem contribuir para reimaginar as práticas e os sentidos do cuidado, do corpo e das relações sociais.

Como fechamento da Sessão Especial B, retomamos a dimensão do sonho ao qual Ailton Krenak (2019, p. 25) se refere como “[...] um lugar, uma prática que é percebida em diferentes culturas, em diferentes povos, de reconhecer essa instituição do sonho não como uma experiência cotidiana de dormir e sonhar, mas como exercício disciplinado de buscar no sonho as orientações para as nossas escolhas do dia a dia”.

Contra o fim do mundo, seguimos sonhando, nos engajando e projetando um futuro com outros mundos possíveis. Movidas pelas experiências de feminismos plurais que partilham saberes e práticas desde seus corpos-territórios, reafirmamos o sonho como um gesto coletivo de insurgência e criação. Sonhar, para nós, é insistir em outros mundos possíveis, sustentados por vínculos, cuidado, afeto e amor a todas as formas de vida.

Esperamos que tais sementes-palavras, plantadas no mundo por meio dessa seção especial, permitam refletir os movimentos de intercâmbio e diálogos de mais de cinco mil pessoas nos seis dias de evento, em julho de 2024, na Universidade Federal de Santa Catarina, provenientes da realização presencial do Fazendo Gênero 13. O evento científico celebrou os trinta anos dessa iniciativa, sobretudo, após o período pandêmico provocado pela Covid-19, que levou grande parte da população brasileira ao isolamento social. Tais movimentos de conexão entre pesquisadoras, ativistas e artistas dos mais diferentes cantos do Brasil e do mundo marcaram uma produção de saberes que retroalimentou lutas e afetos. Uma grandeza repleta de miudezas para seguirmos em ação e encantadas diante do mundo! Boa leitura.

Referências

  • ANZALDÚA, Gloria. “La consciencia de la mestiza. Rumo a uma nova consciência”. Revista Estudos Feministas, v. 13, n. 3, p. 704-719, 2005. DOI: 10.1590/S0104-026X2005000300015. Acesso em 30/06/2025.
    » https://doi.org/10.1590/S0104-026X2005000300015
  • BAIRROS, Luiza. “Nossos Feminismos Revisitados”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, n. 2, p. 458-463, 1995.
  • FIGUEIREDO, Ângela. “Epistemologia insubmissa feminista negra decolonial”. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 12, n. 29, 2020.
  • KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
  • LEITE, Ilka Boaventura. “Descendentes de africanos em Santa Catarina: invisibilidade histórica e segregação”. In: LEITE, Ilka Boaventura (Org.). Negros do Sul do Brasil: Invisibilidade e territorialidade Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1996. p. 33-53.
  • LUGONES, María. “Colonialidade e gênero”. Tabula Rasa, n. 9, p. 73-101, 2008.
  • MARTINS, Leda Maria. Performance do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
  • MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra São Paulo: N-1 Edições, 2018.
  • MIGNOLO, Walter. “Epistemologias do Sul, desobediência epistêmica e a opção decolonial”. In: LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais Buenos Aires: Clacso, 2020.
  • NORA, Pierre. “Entre memória e história: a problemática dos lugares”. Projeto História, São Paulo, n. 10, p. 7-28, 1993.
  • OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. A invenção das mulheres - construindo um sentido africano para os discursos Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
  • RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento; Justificando, 2017.
  • 1
    As referências bibliográficas expostas neste texto são colocadas por extenso e negrito quando correspondem a contribuições de autoras negras, com a intenção de tornar visíveis suas feminilidades e racialidades, visto que nosso imaginário social também é um local estruturado pelo racismo e sexismo que tendem a reconhecer autorias de livros e textos acadêmicos como de homens brancos. Tal iniciativa é inspirada nos movimentos editoriais da Revista Estudos Feministas, bem como no Coletivo Ângela Davis, da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), coordenado pela professora Ângela Figueiredo.
  • Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
    ALENCAR, Alexandra Eliza Vieira; COSTA, Francine; SANTOS, Tatiane Silva Cerqueira. “Pensar outros mundos: circulações feministas, epistemologias, memórias e territórios”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 34, n. 1, e109064, 2026
  • Financiamento:
    Não se aplica
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    não informado o uso de dados, não utilizou dados de pesquisa
  • Consentimento de uso de imagem:
    Não se aplica
  • Aprovação de comitê de ética em pesquisa:
    Não se aplica

Editado por

  • Editora Científica:
    Tânia Regina Oliveira Ramos

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    30 Set 2025
  • Aceito
    01 Out 2025
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