Open-access A vontade de mudar e as masculinidades

The will to change and masculinities

La voluntad de cambiar y las masculinidades

hooks, bell. . A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor . Trad. de Quadros, Manu; Prates, Lubi. . São Paulo: Elefante, 2025. 240 p.

A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor, texto de bell hooks publicado em 2004 e traduzida para o português apenas em 2025 pela Editora Elefante, oferece uma análise da(s) masculinidade(s) e do patriarcado. O livro, dividido em onze capítulos, adota uma escrita acessível, mesclada com reflexões teóricas e vivências pessoais da autora, como questão da violência familiar exercida por seu pai. Contudo, apesar do título evocar as masculinidades no plural, a leitura do primeiro capítulo revela uma abordagem que tende a tratar a masculinidade no singular, concentrando-se predominantemente em perspectivas heterocentradas. Essa inclinação é exemplificada em afirmações como “a maioria dos homens está em uma busca pela mulher pronta e perfeita” (bell hooks, 2025, p. 26), o que suscita o questionamento sobre a qual “maioria” a autora se refere - de fato, homens heterossexuais.

hooks define o patriarcado como um sistema sociopolítico que sustenta a dominância masculina, concebendo homens como superiores aos mais fracos, especialmente as mulheres, e mantendo essa hegemonia por diversas formas de violência e terror psicológico. A pensadora propõe que homens e mulheres devem lutar em conjunto contra esse sistema, e critica vertentes feministas que, ao se posicionarem contra os homens, deixam de agir de forma antipatriarcal. Nesse sentido, ela reflete “como [as] defensoras do feminismo são coniventes com a dor dos homens lesados pelo patriarcado quando falsamente retratam os homens como os únicos poderosos, os únicos receptores dos privilégios de sua cega obediência ao patriarcado (hooks, 2025, p. 49). Além disso, ressalta como “a ideologia patriarcal, com sua lavagem cerebral, faz com que homens pensem que a dominação das mulheres é benéfica, quando não é” (hooks, 2025, p. 49).

Essa crítica se estende ao impacto limitado do feminismo entre mulheres da classe trabalhadora, que frequentemente se encontram tão insatisfeitas quanto os homens em seu entorno, levantando o questionamento de Sojourner Truth: “e não sou eu uma mulher?” (apudhooks, 2014, p. 178). Para hooks, a crise masculina reside na masculinidade patriarcal, não na masculinidade em si. Nesse sentido, a libertação desse ciclo opressor, retomando a perspectiva de Paulo Freire (2022), exige uma educação crítica que permita o reconhecimento das amarras da opressão e a busca pela transformação social.

A ideia de que “todos os meninos estão sendo criados para ser matadores” (hooks, 2025, p. 68). é um dos pontos mais categóricos de hooks, e encontra fundamento na lógica militar, como demonstrado por Georges Vigarello (2022) ao descrever o treinamento militar na Grécia Antiga, que isolava meninos para rituais de iniciação com foco na guerra. A persistência dessa lógica viril e violenta na construção da masculinidade é evidente, por exemplo, no alistamento militar obrigatório no Brasil, podemos interpretar que a obrigatoriedade para homens ao completarem 18 anos reforça a ideia de que o serviço à nação está intrinsecamente ligado à capacidade bélica e à força masculina. Assim, a violência torna-se central na socialização entre homens, moldando meninos oprimidos pelo patriarcado a se tornarem opressores ou subopressores. Essa “casa dos homens” - metáfora de Valeska Zanello (2018, p. 98) para explicar a introjeção misógina, se inicia a partir de laços de pertencimento entre os sujeitos que nela habitam, sendo regida pela cumplicidade da broderagem - é um espaço onde a violência se internaliza e se perpetua, exigindo silêncio cúmplice e validando masculinidades em um sistema homossocial que reforça o ideal de ser matador. Zanello (2018) complementa que a subversão da orientação sexual na homossexualidade não garante a ruptura com a masculinidade hegemônica, uma vez que a misoginia persiste no universo gay. Embora hooks reconheça que homens gays podem resistir ao pensamento patriarcal, afirma que a maioria é “tão receptiva ao pensamento sexista quanto os heterossexuais” (hooks, 2025, p. 71), o que os leva a construir paradigmas de comportamento sexual desejável similares aos do homem hétero.

Homens que buscam desenvolver apoio ao feminismo, sejam gays ou heterossexuais, enfrentam resistências e escárnio de outros homens e de algumas mulheres. hooks observa que a masculinidade feminista muitas vezes não é recebida com entusiasmo ou desejo por algumas feministas. A teórica é incisiva ao afirmar: “Sexo no patriarcado é foder. Vivemos num mundo onde as pessoas continuam a usar a mesma palavra para sexo e violência” (hooks, 2025, p. 114). Questiona-se, portanto, quais os sintomas e consequências de um discurso sexual violento, mesmo em um contexto de sexo consentido. Embora o pensamento de hooks possa parecer heterocentrado, a sociedade global é, de fato, cisheterocentrada, o que se reflete na pornografia e nos relacionamentos homossexuais, onde posições de ativo e passivo mimetizam padrões de masculinidade hegemônica.

hooks propõe um feminismo visionário que visa “restaurar o masculino e a masculinidade como uma categoria biológica ética, divorciada do modelo do dominador” (hooks, 2025, p. 71). Ao diferenciar modo de ser de performance para definir a masculinidade feminista, a escritora levanta questionamentos sobre uma possível ancoragem em um substrato biológico. A ausência de respostas explícitas na obra sobre se masculinidade e feminilidade seriam modos de ser biologicamente fundamentados, que exigiriam desconstrução cultural para superar a dominação, convida à reflexão. Além disso, a visão de hooks sobre a parceria entre homens e mulheres na luta feminista demonstra um foco nas relações de parentesco tradicionais ocidentais. Ao limitar o espaço do amor paterno ao engajamento com mulheres para o cuidado de filhos em comum, a autora desconsidera outras configurações familiares.

Em síntese, A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor é um apelo ao engajamento coletivo contra o patriarcado supremacista branco capitalista imperialista. bell hooks, com sua franqueza, expõe os mecanismos de violência na socialização masculina e as inconsistências do feminismo em aceitar homens como parceiros de luta (isto é, como aliados que buscam ativamente a desconstrução do sistema patriarcal), desconsiderando que eles mesmos podem ser vítimas do patriarcado. Em que pese um olhar heterocentrado, a obra convida a repensar paradigmas de dominação e violência, e, apesar de suscitar questionamentos sobre a naturalização de certos aspectos de gênero e sua abordagem em torno do sexo, que pode ser percebida como romantizada ou com pouca importância para a construção da identidade, permanece um guia para a construção de masculinidades mais éticas e emancipatórias. A evocação de novas formas de masculinidades amplia o diálogo para a pluralidade de experiências e a necessidade de ir além das dicotomias tradicionais.

Referências

  • hooks, bell. A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor Trad. de Manu Quadros e Lubi Prates. São Paulo: Elefante, 2025. 240 p
  • hooks, bell. “Não sou eu uma mulher?: mulheres negras e feminismo”. Trad. livre. Plataforma Gueto, 2014. Disponível em Disponível em https://plataformagueto.wordpress.com/wp-content/uploads/2014/12/nc3a3o-sou-eu-uma-mulher_traduzido.pdf Acesso em 30/12/2025.
    » https://plataformagueto.wordpress.com/wp-content/uploads/2014/12/nc3a3o-sou-eu-uma-mulher_traduzido.pdf
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido 81 ed. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2022.
  • VIGARELLO, Georges. “A virilidade, da Antiguidade à Modernidade”. In: CORBIN, Alain et al História da Virilidade: a invenção da virilidade da Antiguidade às Luzes 2 ed. Petrópolis (RJ): Vozes, 2022. v. 3, p. 17-70.
  • ZANELLO, Valeska. A prateleira do amor: sobre mulheres, homens e relações Curitiba: Appris, 2018.
  • Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
    JANSEN, Lucas Lima. “A vontade de mudar e as masculinidades”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 34, n. 2, e111033, 2026.
  • Financiamento:
    Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP/DF).
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    não informado o uso de dados, não utilizou dados de pesquisa.
  • Consentimento de uso de imagem:
    Não se aplica.
  • Aprovação de comitê de ética em pesquisa:
    Não se aplica.

Disponibilidade de dados

não informado o uso de dados, não utilizou dados de pesquisa.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    25 Fev 2026
  • Revisado
    21 Maio 2026
  • Aceito
    26 Maio 2026
location_on
Centro de Filosofia e Ciências Humanas e da Universidade Federal de Santa Catarina Campus Universitário - Trindade, CEP: 88040-970, Telefone: +55 (48) 3721-8211 - Florianópolis - SC - Brazil
E-mail: ref@contato.ufsc.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro