Open-access As travessias aquáticas de Lilian Harrison na história do esporte sul-americano

Lilian Harrison's Aquatic Crossings in the History of South American Sports

Las Travesías Acuáticas de Lilian Harrison en la Historia del Deporte Sudamericano

BROWN, Matthew. . Nadando contra las corrientes: Lilian Harrison y los cruces a nado en la década de 1920 . Buenos Aires: Prometeo Editorial, 2024

Nas décadas de 1970 e 1980, o conceito de gênero emergiu como uma categoria analítica na pesquisa da história do esporte, acompanhando o aumento no interesse geral pela participação das mulheres em práticas esportivas. Inicialmente, as histórias das mulheres nos esportes foram tratadas como um campo à parte, mas, com o tempo, seu propósito passou a ser a incorporação de uma postura crítica à cultura esportiva moderna, somando questões de etnia, raça e classe social. Essa transformação trouxe uma abordagem mais multidisciplinar e ampliou as dimensões dos estudos de gênero, refletindo em um aumento significativo de publicações e pesquisas internacionais (Susan BANDY; Gigliola GORI; Dong JINXIA, 2012).

A transformação nos estudos históricos das mulheres no esporte veio acompanhada de uma ruptura com as fontes tradicionais. Segundo Douglas Booth (2006), arquivos esportivos funcionam como metáforas do poder, preservando apenas as histórias consideradas relevantes para clubes e federações, frequentemente excluindo as mulheres. Essa limitação levou a uma revolução metodológica que passou a valorizar a história oral, a memória, a escrita autobiográfica e os arquivos pessoais (Silvana GOELLNER; Christiane MACEDO, 2024), promovendo uma abordagem dinâmica e relacional das narrativas. Esse movimento permitiu que, na América do Sul, pesquisadores e pesquisadoras resgatassem as histórias de notáveis esportistas do passado, muitas vezes esquecidas nas memórias coletivas nacionais.

A história esportiva argentina é marcada por importantes mulheres que transformaram o esporte competitivo ao longo do século XX. Entre elas, destaca-se Lilian Harrison, que em 1923 se tornou a primeira pessoa, entre homens e mulheres, a cruzar o Rio da Prata, o rio mais largo do mundo. Além dessa façanha, a nadadora também conquistou outros recordes e realizou tentativas de atravessar o Canal da Mancha, consolidando seu legado no esporte. É a história de Lilian Harrison que Matthew Brown e Pablo Scharagrodsky colocam em evidência no livro Nadando contra las corrientes: Lilian Harrison y los cruces a nado en la década de 1920, publicado pela Prometeo Editoral em Buenos Aires no ano de 2024.

Matthew Brown tem como linha de investigação a história da América do Sul desde 1800 até o presente, com foco na história dos esportes e da cultura popular. Pablo Scharagrodsky é doutor em ciências sociais e humanas pela Universidade Nacional de Quilmes e docente na Faculdade de Humanidades y Ciencias de la Educación na Univeridade Nacional de la Plata, investigando temáticas ligadas à história da educação física, do esporte e das mulheres nas práticas esportivas.

O livro de 179 páginas reúne capítulos e artigos sobre a trajetória de Lilian Harrison na natação argentina, um recorrente tema de investigação dos autores. Scharagrodsky já havia publicado três artigos sobre o assunto, e juntos, ambos publicaram outros dois. Neste volume, eles integram quatro desses artigos com materiais inéditos, buscando reposicionar a narrativa de Harrison no discurso acadêmico argentino e sul-americano, além de analisar os discursos e representações visuais que moldaram sua carreira esportiva ao longo do século XX.

A publicação é composta por uma apresentação dos autores, um convite à leitura por Laura Méndez, e sete capítulos que exploram as relações de Lilian Harrison com as travessias aquáticas. Uma das qualidades da obra é a diversidade das fontes utilizadas: imprensa argentina e internacional, filmes, revistas escolares, entrevistas com descendentes da nadadora e documentos do arquivo pessoal da família. Ao reconfigurar esses arquivos, os pesquisadores revelam fontes históricas inéditas que, alinhadas às inovações metodológicas dos estudos de gênero no esporte, possibilitam analisar a trajetória de Harrison a partir de quatro campos teóricos: biografia histórica, história social e cultural dos esportes, giro visual e estudos de gênero.

Na apresentação, Brown e Scharagrodsky situam historicamente as provas de travessia de longa distância em rios e mares, vinculadas aos desafios corporais que se expandiam desde o final do século XIX, impulsionados por novas tecnologias e avanços no treinamento. A imprensa, grande incentivadora, promovia e financiava essas práticas globalmente. Nesse contexto, em dezembro de 1923, Lilian Gemma Harrison se tornou a primeira a atravessar o Rio da Prata, superando tentativas anteriores fracassadas de outros nadadores. O livro aproveita a atmosfera da década de 1920 para explorar os processos que possibilitaram esse feito e outras atividades da carreira esportiva de Lilian.

O primeiro capítulo, “Lilian Harrison: la creación de una Campeona de Natación Mundial, 1904-1923”, publicado em versão similar na revista Sport in History em 2024, examina os primeiros anos de Harrison, explorando a influência de seu ambiente familiar e educacional nas possibilidades do esporte competitivo. O capítulo acompanha Harrison desde sua infância em Quilmes, Argentina, até seus estudos na Inglaterra. Filha de pais ingleses, Lilian e suas irmãs foram enviadas em 1915 para uma escola na cidade jardim de Letchworth, que valorizava a educação ao ar livre. Essa experiência, aliada ao apoio familiar, é compreendida como fundamental para seu sucesso ao atravessar o Rio da Prata.

O segundo capítulo, “¿Cruzando fronteras? La prensa y el primer cruce a nado del Río de la Plata, Uruguay-Argentina, 1923”, baseado em uma versão anterior publicada na revista Claves em 2019, analisa como a imprensa geral e esportiva relatou a travessia de Lilian Harrison, moldando percepções sobre sua feminilidade e conduta sexual. Alinhada aos discursos médicos e higiênicos da época, a imprensa hegemônica considerava Harrison incapaz de concluir o feito, atribuindo seu sucesso à ajuda masculina e às condições favoráveis da natureza. Em contraste, a imprensa alternativa destacou sua conquista como um marco para as esportistas argentinas, desafiando os limites biológicos impostos às mulheres.

A natureza foi a temática central do terceiro capítulo, “Los diferentes sentidos sobre la ‘naturaleza’ y su relación com la feminidad y la nacionalidad. La prensa y el primer cruce a nado del Río de la Plata, 1923”, publicado anteriormente na revista “História, questões e debates” em 2020. O capítulo examina como as representações da natureza na imprensa - o rio, o luar, o clima - foram figurativamente ligados à feminilidade de Lilian Harrison. O Rio da Prata, uma fronteira simbólica entre Uruguai e Argentina, carrega forte significado nacionalista, especialmente em relação ao controle e domínio associados ao progresso científico. No entanto, a conquista de Harrison foi interpretada de forma distinta: a natureza foi feminilizada, descrita como mais branda e favorável em sua travessia, em contraste com as condições enfrentadas pelos homens.

O quarto capítulo, “Imágenes poco conocidas de películas deportivas antiguas de Lilian Harrison nadando por el Río de la Plata y el Canal de la Mancha, 1923 y 1924”, realiza um extenso trabalho de arquivo, cruzando documentos públicos e pessoais da Argentina e Inglaterra para revelar filmes raros sobre a nadadora em seu auge, entre 1923 e 1924. Os autores localizaram quatro filmes, dois deles contemporâneos, feitos em alusão ao centenário da façanha (em 2023), e dois de 1924. Analisando quadro a quadro os filmes de 1924, destacam a posição de Lilian nas cenas, a montagem e o contexto sociopolítico da produção. Brown e Scharagrodsky apontam que os filmes refletem a dualidade da imprensa da época: embora reconheçam as capacidades físicas de Harrison, reforçam percepções de inferioridade feminina no esporte e exaltam uma moralidade sexual burguesa e inofensiva.

“Recordwoman: medicina deportiva y mujeres en la Argentina entre los años 1920 y 1930”, publicado anteriormente na revista La Aljaba em 2018, explora a medicina esportiva argentina nas décadas de 1920 e 1930, destacando a atuação de Godofredo Grasso, um influente médico que moldou a relação entre mulheres e esportes no período. Grasso, que treinou grandes campeões como Enrique Tiraboschi - nadador ítalo-argentino que cruzou o Canal da Mancha em 1923 - e Lilian Harrison, analisava o esporte feminino sob uma ótica científica que se supunha objetiva e imparcial. No entanto, seu apoio às mulheres esportistas limitava-se aos papéis de gênero vigentes, aceitando apenas certas práticas para certos corpos femininos. No caso de Harrison, Grasso elogiou sua performance com base na ciência, desafiando algumas normas da capacidade atlética feminina, mas ainda respeitando restrições tradicionais, como a suspensão de treinos durante o período menstrual.

O capítulo seguinte, “Lilian Harrison y el Canal de la Mancha, 1924-1925 - a ‘nada’ de haberse consagrado heroína deportiva mundial”, examina as tentativas de Harrison de atravessar o Canal da Mancha entre 1924 e 1925. A partir de jornais de diversas partes do mundo, os autores reconstroem as narrativas da imprensa sobre essas tentativas, destacando sua participação ao lado de nadadoras de renome, como Trudy Ederle, a primeira mulher a atravessar o Canal da Mancha a nado, em 1926, e Jeanne Sion. O capítulo analisa seis eventos internacionais envolvendo Harrison, incluindo quatro tentativas de cruzar o Canal da Mancha. Na época, a imprensa deu grande destaque aos e às atletas que se dispunham a realizar esse desafio, reconhecendo Harrison como uma das protagonistas. Apesar de atribuídas à má sorte e ao mau tempo, suas tentativas frustradas marcaram o fim de sua carreira em 1925, mas também a consolidaram como uma figura destemida e respeitada nas provas de águas abertas.

O último capítulo, “Fotografías de Lilian Harrison en los medios de prensa mundiales”, analisa detalhadamente as fotografias da nadadora feitas por agências de imprensa argentinas e internacionais durante sua carreira. Brown e Scharagrodsky destacam mudanças em sua representação ao longo do tempo, que podem estar relacionadas ao maior controle de Harrison sobre sua própria imagem, especialmente em suas últimas tentativas de cruzar o Canal da Mancha em 1925. Em Buenos Aires, em 1923, Harrison era retratada de forma recatada, sorridente e passiva, frequentemente em segundo plano. Em 1925, porém, as fotos, especialmente na imprensa internacional, passaram a destacá-la no centro das cenas, com uma imagem mais moderna e esportiva. Além disso, outras fotos começaram a circular, mostrando Harrison com uma expressão mais determinada, músculos em evidência e transmitindo independência e espírito esportivo, contrastando com as representações anteriores.

De maneira geral, o livro reúne escritos dispersos sobre Lilian Harrison em uma obra sólida, revelando fontes inéditas para narrar suas histórias. Os autores concluem afirmando que “[la] campeona mundial de natación fue poco a poco marginalizada y olvidada por una historia del deporte que valoraba a los hombres […]” (Matthew BROWN; Pablo SCHARAGRODSKY, 2024, p. 179). Ao reposicionar Harrison na produção acadêmica, o livro reconta sua trajetória, inserindo-a no rol das aventuras esportivas das mulheres argentinas do século XX. Com novas fontes e metodologias inovadoras, os autores abrem caminho para que outras heroínas esportivas da América Latina também tenham suas histórias resgatadas e valorizadas, desafiando o silenciamento histórico e trazendo novas narrativas ao campo da história do esporte.

Referências

  • BANDY, Susan; GORI, Gigliola; JINXIA, Dong. “From Women and Sport to Gender and Sport: Transnational, Transdisciplinary, and Intersectional Perspectives”. The International Journal of the History of Sport, v. 29, n. 5, p. 667-674, abr. 2012.
  • BOOTH, Douglas. “Sities of truth or metaphors of power? Reconfiguring the archive”. Sport in History, v. 26, n. 1, p. 91-109, 2006.
  • BROWN, Matthew; SCHARAGRODSKY, Pablo Ariel. Nadando contra las corrientes: Lilian Harrison y los cruces a nado en la década de 1920 Buenos Aires: Prometeo Editorial, 2024.
  • GOELLNER, Silvana; MACEDO, Christiane. “Futebol de mulheres no Brasil: a importância de acervos privados na produção de histórias invisibilizadas”. Acervo: revista do arquivo nacional, v. 37, n. 1, p. 1-20, 2024
  • Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
    MEDEIROS, Daniele; MARTINEZ, Matias. “As travessias aquáticas de Lilian Harrison na história do esporte sul-americano”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 33, n. 1, e103182, 2025.
  • Financiamento:
    Não se aplica.
  • Consentimento de uso de imagem:
    Não se aplica.
  • Aprovação de comitê de ética em pesquisa:
    Não se aplica.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    25 Set 2024
  • Revisado
    09 Dez 2024
  • Aceito
    15 Dez 2024
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