Open-access O que há de fantasia? Uma leitura de A fantasia da história feminista, de Joan W. Scott

What is There of Fantasy? A Reading of Joan W. Scott's The Fantasy of Feminist History

¿Qué hay de fantasía? Una lectura de The Fantasy of Feminist History, de Joan W. Scott

SCOTT, Joan Wallach. . A história da fantasia feminista . Trad. de . . Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2024.

Em A fantasia da história feminista, Joan Wallach Scott propõe repensar a trajetória da categoria gênero, argumentando pela importância da psicanálise e suas categorias, sobretudo a noção de fantasia, para pensar a História e a análise feminista. A historiadora e teórica feminista norte-americana, é conhecida por suas importantes contribuições para os estudos de gênero, história das mulheres e o feminismo. Seu texto “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”, publicado em 1986, contribuiu fortemente para ampliar a utilização da categoria no campo da História e em outras disciplinas (Joan Scott, 2019). Atualmente, é professora emérita do Instituto de Estudos Avançados em Princeton.

Ao longo de sua carreira acadêmica, Scott publicou diversos trabalhos analisando a categoria gênero e a teoria feminista. No artigo de 1986, a autora promove um debate articulando gênero e poder, afirmando que o “gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder” (Scott, 2019, p. 67) e discorre sobre os pontos positivos e as limitações de definições previamente estabelecidas. No artigo “Os usos e abusos do gênero”, Scott (2012) relata ter perdido o interesse pela temática, por acreditar que gênero seria um debate superado. No entanto, após polêmicas envolvendo a categoria, a autora percebeu que a categoria se tornou mais imprecisa e central em debates políticos intensos.

O livro A fantasia da história feminista foi originalmente publicado em 2011 e, no Brasil, em 2024. O volume reúne cinco ensaios, elaborados em momentos diferentes, para discutir gênero, psicanálise, História e feminismo dentro da academia. A introdução se mostra um espaço de análise do campo teórico em debate, em que a Scott (2024) situa discussões e denuncia o conservadorismo acadêmico ao estudar gênero e a formação de identidades que, em sua visão, são frequentemente pensadas como categorias que não sofrem modificações.

Dessa forma, ela prepara o caminho para posicionar a relevância da psicanálise para a História, já que, conforme situa, esse campo teve papel central na superação das limitações da sua própria visão do gênero, despertando o seu interesse na “mutabilidade” da categoria (Scott, 2024, p. 20). Entre os conceitos trabalhados da psicanálise, a ideia de fantasia recebe destaque. Para Scott (2024, p. 40), a fantasia demonstra o papel da dimensão do inconsciente dos fenômenos e que os movimentos, como o feminista, são elaborados por meio de “fantasias coletivas”, que ajudam a criar unidades que aproximam as pessoas. Essa ideia atravessa os capítulos do livro, potencializando as formulações sobre gênero que Scott já apresentava em seus antigos trabalhos.

Em “A história do feminismo”, a institucionalização da história feminista é um ponto central, sobretudo como a saída das mulheres das margens trouxe diversos questionamentos e desafios para as historiadoras (Scott, 2024). Scott parte da realidade da historiografia norte-americana, marcando o seu lugar e para quem está falando (Ana Maria Veiga, 2023). Nessa perspectiva, ao olhar para a América Latina, observa-se uma realidade diferente, o que permite questionar: quem, de fato, saiu das margens? Essa pergunta é válida, já que são muitas as historiadoras que, ao trabalhar com mulheres do sul global (mulheres negras e indígenas) ainda precisam ser incluídas nas referências da História (Veiga, 2023).

Outra questão que permanece atual e revela tensões dentro do movimento feminista são os conflitos existentes entre intelectuais de gerações diferentes. Joan W. Scott afirma que o desconforto de algumas pesquisadoras com as mudanças vai de encontro com a própria pluralidade do movimento feminista e das teorias que são utilizadas para pensar as suas temáticas. Para Scott (2024, p. 67), “muitos desejos se sobrepõem e coexistem”, não existe uma continuidade para pensar a teoria feminista ou as categorias aqui em questão, mas uma pluralidade. Scott (2024, p. 67) faz críticas ao movimento dentro da teoria feminista que reivindica as mulheres como “único sujeito ou objeto da história feminista”.

Em “Eco da fantasia - história e a construção da identidade”, é explorada a formação da identidade, ressaltando a dificuldade de historicizar a categoria mulheres, por ser “baseada na biologia” (Scott, 2024, p. 75). A autora analisa também a construção da identidade feminista e as estruturas utilizadas para a composição dessa identidade, ou seja, as estratégias e o que foi articulado em momentos diferentes da história para sua criação (Scott, 2024, p. 76). Ao investigar o esforço por trás dessa articulação, Scott (2024, p. 76) questiona “[q]uais eram os mecanismos de tal identificação coletiva e retrospectiva? Como esses mecanismos operam?”. É nesse sentido que se aprofunda no conceito de fantasia e como ele oferece respostas para a suas indagações.

Por esse viés, para Scott (2024, p. 78), a fantasia possibilita “transcender a história e a diferença”, pois “mascara o conflito, antagonismo ou contradição”. A fantasia contribui para a permanência de categorias como mulheres e feministas, que são construídas, muitas vezes, a partir de narrativas que buscam homogeneizar as mulheres, com uma história única e progressiva (Scott, 2024). Um esforço que pode ser necessário para a articulação do movimento, mas que não traduz os conflitos e a pluralidade de grupos e situações vivenciadas pelas pessoas que permeiam esse cenário. Portanto, “[o] que poderia ser chamado de fantasia da história feminista garante a identidade de mulheres ao longo do tempo” (Scott, 2024, p. 81).

Scott dá continuidade à sua análise sobre fantasia ao incorporar o “eco” (Scott, 2024, p. 82) como uma possibilidade para compreender a repetição de aspectos da identidade, os quais são utilizados para compor essas identidades, afirmando que historiadores/as, ao perceberem o processo de historicização desses grupos, precisam entender as suas instabilidades. Desse modo, ao elaborar o que ela denomina de “fantasy echo” (Scott, 2024, p. 93), mostra como a “identificação (que produz a identidade) opera, [...] repetindo com o tempo e ao longo de gerações o processo que forma indivíduos como atores sociais e políticos” (Scott, 2024, p. 85). Nessa perspectiva, são destacadas duas fantasias construídas para a história dos movimentos feministas ocidentais a partir do século XVIII: a imagem da oradora, que ressalta a importância do espaço público, e a figura da mãe, com a maternidade e a fantasia maternal como argumentos para unidade, aspectos para construção de uma identidade coletiva (Scott, 2024).

Sob essa ótica, a maternidade é colocada como uma “fantasy echo” (Scott, 2024, p. 98), cenário de fantasia que pode ser construído para formar a narrativa de que todas as mulheres vivenciam uma fantasia maternal, de maneira que seja possível conceber o movimento feminista a partir desse aspecto. Isto é, tal perspectiva acaba ignorando as muitas diferenças das mulheres e a própria noção de maternidade, que sofre modificações ao longo da história. Scott (2024) salienta que seu objetivo não é questionar o feminismo a partir da noção de fantasia, mas mostrar como a formação de cenários e a busca por unidade funciona, evitando assim uma essencialização das mulheres.

Em “Reverberações feministas”, Scott evidencia como os direitos das mulheres e a mobilização pelo apoio das feministas foram articulados por grupos no governo norte-americano, impactando a vida de mulheres que são vistas como o “Outro”, neste caso, as mulheres orientais. Essa questão é importante, ao considerar os diferentes feminismos e a sua tradução para outros contextos, com diferenças culturais e linguísticas, fortalecendo o argumento da autora de que é a fantasia que articula e une essas diferenças espaciais e temporais (Scott, 2024).

Por fim, os ensaios “Sexularismo - sobre secularismo e igualdade de gênero” e “A teoria da sedução francesa”, trazem outro eixo importante para a autora, ao discutirem o secularismo e o seu papel na emancipação sexual e como ele aparece com frequência nos debates sobre o Islã, o uso de lenços e véus pelas mulheres e a noção de agência individual associada à escolha, consolidando sua análise sobre os ecos e reverberações do feminismo.

No epílogo, Scott reflete sobre o significado do arquivo e seus receios quanto à avaliação de seus trabalhos por outros pesquisadores/as. Nesse sentido, reconhece que o controle sobre os significados da obra não é apenas impossível, mas também contraditório, quando se pensa a própria teoria presente em seus trabalhos, que “endossa a noção de que nenhum pensamento está imune à crítica” (Scott, 2024, p. 204).

Com A fantasia da história feminista, Scott se mostra uma intelectual inquieta, que busca ampliar suas análises. Os ensaios fornecem reflexões teóricas para o campo da História e o seu diálogo com a psicanálise, ressaltando o uso da fantasia, que se mostra uma ferramenta fundamental para a compreensão da formação das identidades e do gênero, contribuindo no questionamento de posturas conservadoras que buscam essencializar categorias e sujeitos históricos.

Referências

  • SCOTT, Joan Wallach. “Os usos e abusos do gênero”. Projeto História, São Paulo, n. 45, p. 327-351, dez. 2012.
  • SCOTT, Joan Wallach. “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). Pensamento feminista: conceitos fundamentais Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019, p. 49-80.
  • SCOTT, Joan Wallach. A história da fantasia feminista Trad. de Elisa Nazarian. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2024.
  • VEIGA, Ana Maria. “Quando Clio é preta, pobre, periférica: relocalizando a teoria da história”. In: COSTA, Bruno B. A. da; SANTOS, Evandro; VASCONCELOS, Eduardo H. B. de (org.). Ensaios de teoria da história & história da historiografia Teresina: Cancioneiro, 2023, p. 19-32.
  • Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
    SANTOS, Aílla Kássia de Lemos. “O que há de fantasia? Uma leitura de A fantasia da história feminista, de Joan W. Scott”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 34, n. 3, e111504, 2026.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Mar 2026
  • Revisado
    29 Maio 2026
  • Aceito
    01 Jun 2026
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