RESUMO
Objetivo: Conhecer a assistência às crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) atendidas em Pronto-Socorro Pediátrico a partir da perspectiva dos profissionais de saúde.
Método: Pesquisa qualitativa ancorada no referencial da integralidade do cuidado. Desenvolveram-se entrevistas narrativas com 17 profissionais da equipe de enfermagem e médica do Pronto-Socorro Pediátrico de março a maio de 2024. As entrevistas foram submetidas à análise temática indutiva. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa.
Resultados: O estudo evidenciou três categorias: a percepção dos profissionais sobre as famílias, que enfrentam estresse e desconhecimento sobre o TEA; as fragilidades do atendimento, marcadas pela ausência de protocolos, dificuldades de articulação nas Redes de Atenção à Saúde (RAS), limitações estruturais e de dimensionamento da equipe de enfermagem; e as estratégias adotadas, como a colaboração dos familiares, adaptações no ambiente e flexibilização de normas.
Conclusão: O cuidado às crianças com TEA apresenta desafios estruturais, organizacionais e formativos, que comprometem a integralidade da assistência. Sugere-se investir em educação permanente, adequação da infraestrutura e práticas de cuidado centradas na pessoa, em conformidade com os princípios do SUS.
DESCRITORES
Saúde da Criança; Enfermagem Pediátrica; Transtorno do Espectro Autista; Unidades de Emergência; Equipe de Assistência ao Paciente
ABSTRACT
Objective: To understand the care provided to children with Autism Spectrum Disorder (ASD) in a Pediatric Emergency Room from the perspective of healthcare professionals.
Method: Qualitative research grounded in the framework of comprehensive care. Narrative interviews were conducted with 17 professionals from the nursing and medical staff of the Pediatric Emergency Room from March to May 2024. The interviews were subjected to inductive thematic analysis. The project was approved by the Research Ethics Committee.
Results: The study highlighted three categories: professionals’ perceptions of families facing stress and a lack of knowledge about ASD; weaknesses in care, marked by the absence of protocols, difficulties in coordination within Health Care Networks (RAS), structural limitations, and insufficient nursing staffing; and strategies adopted, such as family collaboration, environmental adaptations, and flexibility in rules.
Conclusion: Caring for children with ASD presents structural, organizational, and educational challenges that compromise the comprehensiveness of care. It is suggested that investments be made in continuing education, infrastructure improvements, and person-centered care practices, in accordance with the principles of the Brazilian Public Health System (SUS).
DESCRIPTORS
Child Health; Pediatric Nursing; Autism Spectrum Disorder; Emergency Service, Hospital; Patient Care Team
RESUMEN
Objetivo: Comprender la atención brindada a niños con Trastorno del Espectro Autista (TEA) en un Servicio de Urgencias Pediátricas desde la perspectiva de los profesionales de la salud.
Método: Investigación cualitativa fundamentada en el marco de la atención integral. Se realizaron entrevistas narrativas a 17 profesionales del personal de enfermería y médico del Servicio de Urgencias Pediátricas de marzo a mayo de 2024. Las entrevistas fueron sometidas a análisis temático inductivo. El proyecto fue aprobado por el Comité de Ética en Investigación.
Resultados: El estudio destacó tres categorías: la percepción de los profesionales sobre las familias frente al estrés y la falta de conocimiento sobre el TEA; las debilidades en la atención, marcadas por la ausencia de protocolos, dificultades en la coordinación en las Redes de Atención a la Salud (RAS), limitaciones estructurales e insuficiente dotación de personal de enfermería; y las estrategias adoptadas, como la colaboración familiar, las adaptaciones ambientales y la flexibilidad en las reglas.
Conclusión: El cuidado de niños con TEA presenta desafíos estructurales, organizacionales y educativos que comprometen la integralidad de la atención. Se sugiere realizar inversiones en educación continua, mejoras de infraestructura y prácticas de atención centradas en la persona, de acuerdo con los principios del Sistema Único de Salud (SUS).
DESCRIPTORES
Salud Infantil; Enfermería Pediátrica; Trastorno del Espectro Autista; Servicio de Urgencia en Hospital; Grupo de Atención al Paciente
INTRODUÇÃO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) caracteriza-se por sintomas centrais, relacionados à comunicação social, comportamentos restritos e repetitivos, além de comorbidades relacionadas, incluindo condições sensoriais, problemas de alimentação e comportamentos desafiadores(1).
O Centers for Disease Control and Prevention (CDC), órgão governamental dos Estados Unidos, identificou a prevalência de uma criança com autismo a cada 36 crianças de 8 anos de idade(2). No Brasil, o Censo Demográfico de 2022 identificou que 2,4 milhões de pessoas declararam ter recebido o diagnóstico de TEA (1,2% da população brasileira)(3).
Diante do crescente reconhecimento do TEA, torna-se essencial discutir a estrutura dos serviços de saúde voltados a essa população. Tendo isso em vista, a Rede de Atenção à Saúde (RAS) organiza-se em pontos de atenção articulados, incluindo redes temáticas voltadas às principais demandas da população. A Rede de Atenção à Pessoa com Deficiência configura-se como um dos eixos e estabelece diretrizes para o atendimento prioritário a pessoas com deficiência, incluindo pessoas com TEA. No entanto, sua implementação ainda apresenta desigualdades, o que compromete a efetividade da assistência, especialmente em ambientes de urgência e emergência(4).
Outro eixo da RAS é a Rede de Atenção às Urgências, que se organiza a partir da relação entre diversos serviços de atenção à saúde, como o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), as Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e o Componente Hospitalar, onde se insere o Pronto-Socorro Pediátrico, campo empírico desse estudo, caracterizado como uma Porta Hospitalar de Urgência da RAS(5).
As RAS são pautadas na integralidade do cuidado, presente na Lei 8.080/90, que regulamenta o Sistema Único de Saúde (SUS) e é um princípio fundamental que compreende uma abordagem organizacional da assistência. Esta prioriza a horizontalidade das ações em saúde e valoriza um modelo centrado na pessoa, em suas demandas individuais e na promoção da humanização do atendimento(6).
A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC) também reforça a importância da integralidade do cuidado como eixo estruturante para a promoção da saúde infantil. A política reconhece que a saúde da criança é influenciada por múltiplos fatores inter-relacionados, sendo fundamental que serviços de saúde considerem todas as dimensões da vida em suas práticas assistenciais(7).
Isso posto, procedeu-se uma pesquisa bibliográfica no mês de agosto de 2023 nas bases de dados National Library of Medicine (PubMed) e Web of Science (WoS), utilizando a estratégia de busca [“Autism” AND “Child” AND “Emergency medical services”], para o planejamento e fundamentação da pesquisa. Na soma dos resultados das fontes de evidência, foram identificados 139 estudos, dos quais 36 estavam alinhados com o tema da pesquisa e eram, na sua grande maioria, internacionais.
A partir da análise da literatura encontrada pela ótica da integralidade proposta pela Lei 8.080/90 e pela PNAISC, é possível reconhecer que, embora a integralidade do cuidado seja um princípio fundamental para a saúde infantil e a necessidade de preparo da equipe seja evidenciada por estudos nacionais e internacionais(8,9), o ambiente de urgência e emergência apresenta desafios que exigem uma abordagem adaptada às necessidades das crianças com TEA.
A presença de estímulos sensoriais, como sons, luzes, cheiros e toques, em ambientes de Pronto-Socorro, pode ser aversiva para essas crianças, dada sua hipersensibilidade(10), sendo necessário o manejo adequado dos profissionais frente a crises de desordem psíquica causadas por esses inúmeros estímulos(11). É relatado, ainda, o déficit de conhecimento dos profissionais sobre as especificidades do transtorno, incluindo sinais e sintomas, estratégias de comunicação eficazes e formas adequadas de envolver os familiares no processo de cuidado(12).
Embora existam diretrizes para a atenção a essa população, ainda persistem lacunas significativas na compreensão e na prática do cuidado em serviços de emergência. Assim, é fundamental investigar a percepção e a abordagem dos profissionais de saúde em relação a essas questões no contexto do Pronto-Socorro, visando identificar estratégias que melhorem a assistência e promovam um atendimento mais eficaz e sensível às necessidades das crianças com TEA e suas famílias.
Nesse contexto, destaca-se o papel central da enfermagem, uma vez que essa categoria profissional mantém contato contínuo com os pacientes no ambiente hospitalar. Enfermeiros estão em posição estratégica para identificar barreiras no cuidado e implementar estratégias que favoreçam um atendimento integral, sensível às demandas sensoriais, comportamentais e comunicacionais de crianças com TEA em contextos de emergência(13).
Diante do exposto, questionou-se: como ocorre a assistência às crianças com autismo em um Pronto-Socorro Pediátrico a partir da concepção dos profissionais de saúde que ali atuam? E objetivou-se conhecer a assistência às crianças com Transtorno do Espectro Autista atendidas em Pronto-Socorro Pediátrico a partir da perspectiva dos profissionais de saúde.
Espera-se que o conhecimento obtido a partir dessa investigação subsidie a qualificação do cuidado e contribua para um atendimento integral à criança com autismo em serviços de Pronto-Socorro Pediátrico.
MÉTODO
Tipo de Estudo
Pesquisa qualitativa(14) ancorada no referencial da integralidade do cuidado do SUS, observado na Lei 8.080/90(6) e na PNAISC(7). Para a elaboração deste manuscrito foram seguidas as recomendações do Consolidated criteria for reporting qualitative research (COREQ)(15).
Cenário do Estudo
O estudo foi desenvolvido em um Pronto-Socorro Pediátrico (Ps Ped) de um Hospital Universitário de médio porte e alta complexidade, localizado no Rio Grande do Sul. A estrutura do PS Ped conta com sete leitos, sendo um de isolamento e seis destinados à Unidade de Cuidado Convencional. Além disso, a unidade possui uma sala de emergência com uma maca.
Esse serviço é a principal via de acesso para a assistência pediátrica de urgência e emergência da região Centro-Oeste do estado, sendo referência para 45 municípios. O serviço é composto por médicos pediatras e equipe de enfermagem que fornecem atendimento 24 horas, além de residentes médicos e equipe multiprofissional, a qual não é exclusiva do setor, mas profissionais fisioterapeutas, assistentes sociais e nutricionistas, por exemplo, podem ser alocados a fim de atender as demandas das crianças e suas famílias.
As crianças recebidas por esse serviço são aquelas encaminhadas pelo SAMU em caso de emergência grave; por serviço especializado, como a neuropediatria; e crianças que mantêm acompanhamento após nascimento prematuro. Após entrada no PS Ped, o fluxo dessa criança pode ocorrer com a alta após tratamento e estabilização dos sintomas, ou internação no serviço e posterior encaminhamento para a Unidade de Internação Pediátrica ou Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica, conforme a gravidade do caso.
Um estudo desenvolvido no mesmo Pronto-Socorro evidenciou o quantitativo de 3.830 atendimentos realizados entre 2019 e 2023(8). Nestes, incluem-se emergências como traumas, grandes queimados e alterações metabólicas graves, além de questões ambulatoriais relacionadas a diagnósticos gastrointestinais, neurológicos, hemato-oncológicos, malformações congênitas, cardiovasculares e geniturinários, assistência a causas externas, casos cirúrgicos e, principalmente, assistência a exacerbações de diagnósticos respiratórios(8).
Participantes e Critérios de Seleção
A população da pesquisa foi definida por conveniência, sendo um tipo de amostragem não probabilística em que os participantes são selecionados com base na facilidade de acesso e no seu potencial de responder a pesquisa. Buscou-se entrevistar os profissionais de saúde fixos do Pronto-Socorro Pediátrico, sendo eles médicos especialistas em pediatria, enfermeiros assistenciais, independente de especialização, e técnicos de enfermagem. Levou-se em consideração que esses são os componentes obrigatórios da equipe básica de um Pronto-Socorro Pediátrico, conforme a Política Nacional de Atenção às Urgências(16).
O critério de inclusão foi ser profissional de saúde das categorias citadas, atuante no cenário do estudo. Foram excluídos os profissionais que estiveram em qualquer tipo de licença ou férias no período de coleta de dados. A pesquisa foi divulgada no cenário do estudo e os profissionais foram sendo convidados a participar da pesquisa de forma aleatória durante os turnos de trabalho.
Coleta de Dados
O procedimento de coleta de dados ocorreu, presencialmente, no período de março a maio de 2024. A pesquisadora já possuía familiarização com o campo de pesquisa devido à realização de aulas práticas e estágios da Graduação em Enfermagem. Sendo assim, realizou a reaproximação com o serviço, momento em que a pesquisa foi apresentada aos profissionais e, após, realizado o convite para participação no estudo, esclareceu-se os objetivos da pesquisa. Dos 20 profissionais atuantes no PS Ped, sendo 12 da equipe de enfermagem (7 enfermeiros e 6 técnicos de enfermagem) e 7 da equipe médica, foram entrevistados 6 enfermeiros, 5 técnicos de enfermagem e 6 médicos.
A entrevista narrativa foi realizada com um roteiro previamente elaborado e um teste piloto foi realizado com enfermeiros e técnicos de enfermagem do grupo de pesquisa que trabalham com crianças e adolescentes. O roteiro continha perguntas para a caracterização do entrevistado e a pergunta disparadora da entrevista narrativa: “Fale-me como você percebe o atendimento às crianças autistas no Pronto-Socorro Pediátrico?”.
As notas de campo foram feitas após a entrevista e incorporadas ao processo interpretativo, complementando os relatos transcritos. Esses registros auxiliaram na contextualização das falas e na identificação de elementos do ambiente que influenciaram a experiência dos participantes, contribuindo para a robustez da análise.
As entrevistas foram realizadas somente pela pesquisadora graduanda de Enfermagem com experiência no cenário e em pesquisa. As coletas de dados ocorreram em uma sala reservada do serviço nos períodos da manhã, tarde e noite, e audiogravadas, tendo duração média de 10 minutos.
A suficiência dos dados foi definida pelo critério de saturação teórica, entendido como o ponto em que as informações obtidas nas entrevistas passaram a apresentar recorrência e consistência, sem acrescentar novos elementos relevantes para os objetivos do estudo. Esse processo foi monitorado de forma concomitante à coleta e à análise preliminar dos dados. Após a 17ª entrevista, observou-se repetição dos conteúdos e convergência das falas entre os diferentes participantes e categorias profissionais, o que indicou a saturação e, consequentemente, a suficiência do material empírico. Não houve desistências após o aceite em participar da entrevista e nem recusas.
Análise e Tratamento dos Dados
As entrevistas gravadas foram transcritas na íntegra, sem terem sido devolvidas aos participantes, e submetidas à análise de conteúdo Temática Indutiva Reflexiva(17), constituída por seis fases: 1) Familiarização com seus dados; 2) Geração de códigos iniciais; 3) Busca por temas; 4) Revisão dos temas identificados; 5) Definição e nomeação temas; 6) Produção do relatório.
Três categorias de análise foram organizadas: A família de crianças com TEA em Pronto-Socorro Pediátrico pela perspectiva dos profissionais de saúde; Fragilidades relacionadas ao cuidado de crianças com TEA em Pronto Socorro Pediátrico na perspectiva dos profissionais de saúde; e Estratégias adotadas pelos profissionais de saúde na atenção à saúde de crianças com TEA em Pronto-Socorro Pediátrico.
Aspectos Éticos
O estudo seguiu todas as diretrizes e prerrogativas legais estabelecidas pelo Conselho Nacional de Saúde e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da instituição, sob o número de parecer 6.512.409/2023. Todos os participantes receberam explicações claras e objetivas sobre a natureza da pesquisa, seus propósitos e as orientações para a realização das entrevistas. Foi entregue o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o qual foi assinado em duas vias, sendo uma entregue ao participante e a outra mantida com a pesquisadora.
A fim de manter o anonimato dos participantes, utilizaram- se códigos referentes à profissão dos profissionais, adotando ENF para Enfermeiro, TE para Técnico de Enfermagem e MED para Médico, além de numeração em ordem crescente, na ordem em que a entrevista foi realizada.
RESULTADOS
A partir da caracterização dos participantes, foi evidenciado que, dos 17 incluídos, seis eram enfermeiros, cinco técnicos de enfermagem e seis médicos, entre os quais houve prevalência do sexo feminino, com 16 (94,12%) do total.
Os participantes possuíam entre 27 e 56 anos de idade, com média de 42,30 anos, e o tempo de formação em suas respectivas profissões variou de 4 a 29 anos, com média de 16,41 anos. Já o tempo de atuação no Pronto-Socorro Pediátrico variou de 1 mês a 23 anos, com média de 7,52 anos.
No que diz respeito à Pós-Graduação ou Pós-Técnico, 100% (17) dos participantes referiram possuir, sendo que em 8 dos casos as especializações eram na área da atuação destes profissionais, como Pediatria e Urgência e Emergência.
Os resultados obtidos a partir da análise dos dados obtidos nas entrevistas foram sintetizados em 3 categorias temáticas descritas a seguir.
A família de crianças com TEA em Pronto-Socorro Pediátrico pela perspectiva dos profissionais de saúde
Os profissionais relataram a sua percepção acerca das famílias de crianças com autismo durante as internações no serviço, o impacto de sair do ambiente em que a criança está habituada e a falta de conhecimento das famílias sobre o TEA.
Muitas famílias ficam bem estressadas com a situação de dificuldade de manejo do paciente, especialmente porque toda vez que sai do contexto deles, eles ficam mais difíceis. Alguns procedimentos a família fica um pouco mais impeditiva para fazer. Isso, consequentemente, retroalimenta o estresse do paciente. (MED-1)
Às vezes os pais não têm muito conhecimento, ou não tem muito interesse, isso varia muito. (TE-1)
A família nem sempre está preparada, às vezes as mães chegam aqui com uma suspeita de diagnóstico, nem sempre já tem o diagnóstico formado e se sabe os cuidados diferenciados para essas crianças. Então eles têm dificuldades, chegam aqui cheios de dúvidas e aqui no PS não é um lugar que a gente tenha muito tempo de conversar sobre isso. (ENF-5)
Os participantes referiram a inclusão do familiar no cuidado durante o atendimento no PS Ped e a atuação dele como facilitador neste processo.
A gente pede muito auxílio dos pais, porque a gente não chega já colocando o termômetro, por exemplo, quando a gente vai ver sinais. Eu dou pra mãe colocar na criança. Então a gente procura ficar mais só supervisionando a mãe, até para eles não ficarem nervosos e agitados. (TE-2)
A gente tenta atender as crianças respeitando as limitações que eles têm, às vezes se é um paciente pouco colaborativo, a gente tenta a ajuda dos pais para pegar no colo para a gente fazer um exame físico, a gente tenta adaptar para não gerar um stress maior para a criança e para a família. (MED-4)
Em suma, os participantes observam, durante a assistência a crianças com TEA, o estresse e desconhecimento dos cuidadores acerca do transtorno e percebem a importância de vincular os responsáveis no cuidado, buscando ouvir do acompanhante quais são os limites da criança.
Fragilidades relacionadas ao cuidado de crianças com TEA em Pronto Socorro Pediátrico na perspectiva dos profissionais de saúde
Acerca das limitações presentes no contexto do Pronto-Socorro Pediátrico, os profissionais citaram algumas barreiras que se relacionam com a dificuldade de manejo dessas crianças, como o estigma associado a injeções e punção venosa, além da desorganização psíquica causada pelo ambiente hospitalar.
Dependendo de como eles estão [as crianças], se estão sentindo dor, desconforto, aí geralmente apresentam mais resistência ao contato, até porque eles já relacionam com a questão da punção venosa. (ENF-1)
Eles chegam com medo da equipe de saúde, pela questão de injeções eles já ficam apreensivos. (ENF-3)
Eles ficam bem estressados de estar aqui no ambiente hospitalar, mais estressados que os outros. (TE-3)
Os profissionais relataram fatores relacionados ao acesso a serviços especializados, ao diagnóstico precoce e o trabalho em equipe como limitações que existem no serviço e na sociedade:
A falha toda é na rede. Chegou uma mãe com uma criança autista em uma demanda espontânea porque a professora disse que era pra vir aqui. A mãe disse que a professora falou que tem dois outros coleguinhas que são especiais, a professora queria ter um diagnóstico para conseguir pedir um monitor. A gente conversou com ela para que entrasse em contato com a unidade básica, o clínico poderia fazer a solicitação para um pediatra ou direto para um neurologista. Só que a avaliação com o neuro está demorando 1 ano e meio aqui e particular 6 meses. Então, a gente falou que poderia optar por fazer particular, mas que seria importante ela manter o vínculo aqui com o hospital, porque depois para entrar é difícil. Penso que tem um monte de criança precisando, que não consegue chegar ao serviço. (ENF-4)
A gente tem os especialistas, só que eles demoram um pouco e, muitas vezes, não falam com a equipe de enfermagem, eles falam com a equipe médica e, às vezes, a gente não sabe nem que conduta adotar com essas crianças. (ENF-6)
A infraestrutura do Pronto-Socorro Pediátrico também é relatada como um obstáculo, já que a área de internação não possui um ambiente privativo além do isolamento, o que dificulta a proteção de crianças com TEA a inúmeros estímulos que são inerentes à unidade.
Além disso, citam o quantitativo profissional, com uma equipe de enfermagem constituída por um enfermeiro(a) e uma técnica de enfermagem por turno para cinco leitos e atendimento às demandas externas, como outro desafio.
É difícil porque a gente não tem consultório, quando está cheio a gente não tem nem onde atender. (MED-3)
A gente não tem um espaço físico muito bom que proporcione com que a gente consiga fazer um atendimento sem barulho, sem muito estímulos, porque quando elas precisam ficar no salão tem muitos leitos, então isso perturba as crianças autistas. (MED-6)
Nós somos só duas aqui [uma enfermeira e uma técnica de enfermagem], então em alguns procedimentos é bem difícil a gente conseguir atuar. Se é uma criança autista mais agressiva a gente tem dificuldade [...] às vezes a gente precisa até pedir ajuda para outros colegas de outros setores. (TE-4)
Por fim, alguns profissionais citaram que se sentem preocupados, com dificuldades e medo ao prestar cuidado a uma criança com TEA, sinalizando a necessidade de treinamento para acompanhar essas crianças.
Somente os agressivos a gente tem mais dificuldade, eu mesma tenho medo de eles baterem, porque tem crianças que são maiores que eu. (TE-5)
A equipe em si eu acho que dá um atendimento bom para os pacientes, talvez o que poderia ter um pouquinho mais é um treinamento para a gente sobre como lidar com essas crianças, porque eu mesma enquanto profissional nunca tive uma capacitação ou alguma coisa assim. (ENF-5)
Estas limitações dificultam um cuidado integral, tendo em vista que a falta de um ambiente adequado e que supra as necessidades específicas de qualquer população, assim como sentimentos de preocupação, medo e insegurança, além da falta de qualificação específica, acabam dificultando a realização de um cuidado qualificado e integral.
Estratégias adotadas pelos profissionais de saúde na atenção à saúde de crianças com TEA em Pronto-Socorro Pediátrico
Alguns profissionais relataram suas percepções acerca da atuação da equipe durante a assistência a uma criança com TEA.
Aqui no pronto-socorro eu percebo que a equipe é mais habituada com as particularidades destes pacientes, então eu acredito que a assistência, dentro do possível, é adequada. (MED-1)
De uma maneira geral eu acho que eu consigo manejar bem e a equipe também é bem colaborativa quanto a isso. (ENF-3)
Alguns participantes referiram perceber que eles próprios, ou a equipe no geral, não possuem problemas significativos relacionados ao cuidado de crianças com TEA e utilizam algumas estratégias adotadas para facilitar a assistência.
Eu tive um caso de suspeita de apendicite em uma criança autista com grau de dependência importante e nós fizemos a sedação antes de encaminhar ela para a tomografia, para evitar que a criança ficasse agitada com a troca do ambiente. (MED-1)
Quando a criança é muito agressiva ou tem muita hipersensibilidade a gente coloca ela no isolamento quando é possível, ou aqui nesses leitos de consultório, para tentar deixar com um pouco menos de estímulo, com menos pessoas passando. (MED-5)
Aqui no Pronto-Socorro tem algumas regras: quando a gente atende uma criança só pode entrar um acompanhante, porque a gente tem poucos leitos e o espaço físico é pequeno, quando a gente tem um paciente com TEA a gente permite que entre mais de um familiar se for necessário. (MED-2)
Como último tópico abordado como uma possibilidade de garantir o cuidado integral a essa população, os profissionais citaram meios de acesso ao serviço em que trabalham.
Muitos acabam fazendo acompanhamento com a neuro, são crianças vinculadas ao atendimento ambulatorial especializado aqui no hospital que acabam em alguma outra urgência ou emergência procurando o nosso pronto-socorro, porque já são vinculadas ao serviço aqui. (ENF-2)
A gente tem as crianças que fazem acompanhamento com o neuropediatra e possuem o carimbo vermelho, então eles acabam procurando o atendimento aqui no PS Ped mesmo por outras demandas, não somente um ajuste medicamentoso, por exemplo. (ENF-3)
No caso de crianças que foram encaminhadas ao serviço especializado e que mantêm acompanhamento após nascimento prematuro, estas possuem um vínculo com o hospital a partir do que é chamado de “Carimbo vermelho”. Sabendo que o Pronto-Socorro do Hospital Universitário não é de portas abertas para demandas espontâneas, o carimbo vermelho garante o acesso desse grupo de crianças ao PS Ped.
DISCUSSÃO
Os achados desta pesquisa, ao evidenciar o papel da família, limitações e oportunidades na atenção às crianças com TEA em um Pronto-Socorro Pediátrico, dialogam com a complexidade da integralidade no contexto da urgência. A categorização dos dados permitiu uma análise crítica das condições estruturais, relacionais e organizacionais que podem dificultar a efetivação de um cuidado integral e humanizado.
A participação ativa da família no cuidado foi apontada pelos entrevistados como um elemento facilitador para a assistência à criança com TEA. Estratégias como o auxílio na abordagem da criança durante a aferição dos sinais vitais e a manutenção do diálogo entre profissionais e familiares foram citados como fundamentais para o êxito do atendimento. Tais práticas refletem os princípios do cuidado centrado na família, modelo que tem se mostrado eficaz na construção de vínculos e na redução do estresse dos cuidadores(18).
Entretanto, lacunas na operacionalização do modelo de atenção à saúde centrado na família foram evidenciadas como uma entre as diversas limitações significativas relacionadas à assistência às crianças com TEA em Pronto-Socorro Pediátrico. Segundo os participantes de um estudo, existe dificuldade em encontrar algum momento favorável para prestar orientações quanto aos fluxos da rede de atenção e cuidados específicos, por exemplo. Essa falha da equipe em fornecer informações aos familiares pode intensificar o estresse dos cuidadores, situação que, por sua vez, tem repercussões diretas sobre o bem-estar e o comportamento da criança, impactando todo o processo de cuidado(19).
A PNAISC reforça a necessidade de vínculos entre profissionais, criança e família como condição para a oferta de um cuidado integral e resolutivo(4). Entretanto, os profissionais relatam que o tempo reduzido de permanência das crianças no serviço constitui um entrave importante para a construção desses vínculos. A literatura corrobora esse achado ao evidenciar que a lógica centrada na resolução imediata das demandas pode limitar o estabelecimento de relações terapêuticas mais profundas e significativas(20).
Outra limitação citada pelos profissionais foi a inadequação da infraestrutura do serviço, evidenciada por ambientes ruidosos, iluminação intensa e compartilhamento de espaço com vários pacientes – fatores que se contrapõem às necessidades sensoriais de crianças com TEA. Essa realidade é observada em estudos internacionais que apontam o ambiente hospitalar como um espaço potencialmente desorganizador para essas crianças, intensificando quadros de agitação, resistência a procedimentos e risco de intervenções coercitivas, como a contenção física ou farmacológica(10,11).
Estudo de revisão realizado em serviço de emergência pediátrica mostra que a contenção é justificável apenas em situações extremas e que seu uso frequente pode refletir falhas na adoção de abordagens preventivas e na capacitação das equipes de saúde. O manejo adequado exige conhecimento específico sobre a condição clínica da criança e estratégias não farmacológicas de regulação emocional, que muitas vezes estão ausentes na prática cotidiana das equipes(21).
A análise das particularidades do cenário do estudo abordado pelos participantes do estudo revela a complexidade do atendimento às crianças com TEA no serviço de PS Ped, especialmente quando relacionado com a carência de leitos individuais e ambientes reservados para atendimento. Estudo qualitativo realizado com pais de crianças com TEA e profissionais do serviço de emergência aponta a inadequação dos espaços físicos como uma barreira significativa para um cuidado efetivo, especialmente relacionado a pacientes com demandas neuropsicológicas específicas, como é o caso de crianças com autismo(9).
Além disso, a escassez de recursos humanos e a ausência de formação especializada sobre o transtorno foram amplamente apontadas pelos entrevistados como dificultadores da assistência integral e motivadores de sentimentos de preocupação, medo e insegurança. Uma pesquisa desenvolvida no mesmo cenário deste estudo também evidenciou dificuldades no cuidado relacionadas à infraestrutura do ambiente e ao reduzido número de profissionais da equipe de enfermagem por turno(22). Pais e cuidadores frequentemente apontam a ausência de estratégias comunicativas adaptadas como um fator que aumenta o estresse da experiência em um Pronto-Socorro(9).
As dificuldades relatadas pelos profissionais na linha de cuidado, como a demora no encaminhamento para serviços especializados e o início tardio do acompanhamento, revelam um cenário de fragilidade no acesso e na integralidade da atenção às crianças com TEA. Tais entraves comprometem não apenas o diagnóstico precoce e a intervenção oportuna, mas também a promoção da saúde e a reabilitação, pilares da atenção integral preconizada pela PNAISC(7,23).
É importante destacar que muitas das fragilidades identificadas neste estudo extrapolam a atuação individual dos profissionais de saúde e estão relacionadas às responsabilidades da gestão em diferentes níveis do SUS(14). No âmbito local, a gestão do Pronto-Socorro tem papel na adequação da infraestrutura, na definição de protocolos assistenciais e na promoção de capacitação continuada das equipes. Em uma perspectiva mais ampla, gestores municipais, estaduais e federais devem garantir investimentos estruturais e a implementação de políticas públicas que assegurem condições adequadas de trabalho e fluxos bem definidos de referência.
Assim, a superação das barreiras encontradas depende de decisões institucionais que integrem planejamento, financiamento e monitoramento, reforçando a corresponsabilidade entre profissionais e gestores ne efetivação da integralidade da atenção, conforme preconizado pela Política Nacional de Atenção às Urgências(14).
Por fim, salienta-se que o trabalho em rede perpassa construções como o trabalho em equipe e a colaboração interprofissional, a fim de ofertar um projeto singular de cuidado complementado por todas as áreas multidisciplinares. Porém, o relato dos profissionais de saúde participantes do estudo expõe que, em alguns casos, esse trabalho em equipe multiprofissional não acontece, ficando algumas informações restritas aos profissionais médicos. Tais práticas devem ser evitadas, tendo em vista que apenas uma equipe multiprofissional completa possui o potencial de prestar todo o suporte necessário, singular e complementar às particularidades da manifestação do transtorno em cada criança(24).
Em se tratando de estratégias adotadas pelos profissionais para o manejo de crianças com TEA no ambiente do Pronto-Socorro Pediátrico, o uso de ferramentas como as histórias sociais – histórias curtas e individualizadas que explicam uma situação social e representam tecnologia leve de cuidado – pelos profissionais de saúde pode ajudar pessoas com TEA na interpretação e na compreensão de situações sociais, como a internação hospitalar ou realização de algum procedimento. Esse tipo de estratégia pode melhorar a comunicação da equipe com a criança que não possui deficiência intelectual, auxiliando na melhor compreensão e redução do estresse que se relaciona com um ambiente hiper estimulante, como no caso de um Pronto-Socorro(25).
Outro método utilizado pelos profissionais para melhorar o atendimento desse público é a flexibilização das rotinas e utilização do leito de isolamento para preservar a criança dos estímulos do serviço. Em um estudo de revisão retrospectivo, os profissionais entrevistados relataram a adoção de estratégias compensatórias, como as citadas pelos profissionais deste estudo para amenizar os efeitos dos estímulos excessivos e proporcionar um ambiente minimamente acolhedor. A criação de um ambiente mais tranquilo para atender as necessidades das crianças com TEA mostrou-se eficaz para auxiliar os profissionais a ofertar cuidados sensoriais(26).
Além de planejamentos locais, o cuidado integral à criança com TEA requer articulação entre os diferentes pontos da RAS, da Atenção Primária à alta complexidade. A Rede de Atenção às Urgências, por exemplo, é fundamental e deve operar de forma interligada com os demais eixos estratégicos da PNAISC, inclusive aquele voltado às crianças com deficiência. Essa articulação visa garantir um cuidado contínuo e coordenado, capaz de responder às singularidades de cada criança e família(7).
Instrumentos como o Cordão de Girassol e a CIPTEA contribuem para o reconhecimento das deficiências ocultas e o acesso prioritário aos serviços de saúde(27,28), embora sua implementação e efetividade ainda careçam de maior uniformização no território nacional.
No âmbito da Atenção Primária, destaca-se o papel central dos profissionais médicos e enfermeiros na detecção precoce de sinais de alerta para o TEA, especialmente durante as consultas de puericultura. A utilização de instrumentos como o M-CHAT-R/F, recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria e presente na Caderneta da Criança, possibilita uma triagem inicial de comportamentos sugestivos do transtorno em crianças de 16 a 30 meses(29). Essa estratégia está em consonância com a Lei nº 13.438/2017, que estabelece diretrizes para a avaliação de riscos ao desenvolvimento psíquico na infância(30). Entretanto, a efetividade dessa vigilância depende da formação dos profissionais, da continuidade do cuidado e da articulação com os demais níveis da rede.
Em relação ao acesso ao serviço terciário em questão, os profissionais citaram a adoção da instituição do “Carimbo Vermelho”, um instrumento disposto na Caderneta da Criança de pessoas que fazem acompanhamento com especialidades, como a neuropediatria, ou que nasceram prematuramente neste hospital. Essa estratégia configura-se como um meio de garantir o acesso de maior complexidade às crianças em um serviço que não trabalha com portas-abertas para demandas espontâneas e, sendo assim, vai ao encontro do preconizado pela integralidade e universalidade dentro do SUS(6).
Assim, ao reconhecer os desafios e as possibilidades envolvendo a assistência às crianças com Transtorno do Espectro Autista em um Pronto-Socorro Pediátrico, este estudo reforça a necessidade de redes de atenção integradas e operantes, bem como de profissionais qualificados em todos os níveis de saúde. Ressalta-se que a qualificação da força de trabalho e a articulação entre os pontos da rede são condições indispensáveis para garantir o cuidado centrado na criança e sua família, conforme preconizado pelas diretrizes do SUS.
Em relação às limitações do estudo, a duração média das entrevistas, de cerca de 10 minutos, pode ser justificada pelo contexto do Pronto-Socorro Pediátrico, ambiente caracterizado por intensa demanda assistencial e pela limitação de tempo dos profissionais. Apesar disso, o rigor metodológico seguido pela pesquisadora e a pergunta disparadora direcionada possibilitaram a obtenção de relatos objetivos e centrados no fenômeno investigado.
Por fim, reconhece-se que o roteiro foi testado apenas com enfermeiros e técnicos de enfermagem do grupo de pesquisa das autoras, não contemplando os médicos. A avaliação da pergunta norteadora foi considerada pertinente devido à abrangência do olhar da Enfermagem na assistência em Pronto-Socorro. Além disso, durante a coleta de dados não foram relatadas dificuldades de compressão da pergunta pelos demais participantes, o que reforça a adequação do roteiro para todos os perfis profissionais incluídos.
CONCLUSÃO
Concluiu-se que os profissionais de saúde do Pronto-Socorro Pediátrico reconhecem tanto potencialidades quanto fragilidades no cuidado às crianças com TEA. Entre os principais achados, destaca-se a percepção sobre o impacto da hospitalização nas famílias, frequentemente marcadas por estresse e dúvidas, o que reforça a importância de incluir os responsáveis no processo de cuidado como mediadores, realizando, ao mesmo tempo, educação em saúde.
Como a análise foi baseada na perspectiva dos profissionais, não é possível afirmar se o cuidado prestado é integral ou não, mas evidências apontam para fragilidades, como a ausência de protocolos padronizados, dificuldades na articulação com a RAS, limitações estruturais do serviço – especialmente a falta de ambientes com menor estímulo sensorial – e o dimensionamento insuficiente da equipe de enfermagem. Também foram relatadas inseguranças dos profissionais no manejo clínico, sinalizando a necessidade de capacitação específica e da educação permanente em saúde, estratégia essencial para ampliar competências técnicas e relacionais.
Por outro lado, emergiram estratégias adaptativas, como a flexibilização das regras institucionais, o uso do “Carimbo Vermelho” para garantir acesso ao serviço e a colaboração dos familiares, apontando caminhos possíveis para qualificar a assistência. Nesse sentido, destaca-se a relevância da realização de reuniões clínicas multiprofissionais como espaço de diálogo e troca de saberes, o que fortalece a tomada de decisão compartilhada. Ressalta-se, ainda, a necessidade de práticas de cuidado menos prescritivas e mais centradas na pessoa, nas quais a singularidade da criança e da família seja reconhecida. Essa perspectiva, em consonância com o princípio da integralidade do SUS, contribui para a humanização do atendimento, a redução de experiências traumáticas e a efetivação de um cuidado mais acolhedor e resolutivo.
Este estudo destaca-se pela originalidade no contexto brasileiro, ao abordar o cuidado a crianças com TEA em Pronto-Socorro Pediátrico, contribuindo de forma relevante para a literatura científica sobre o tema e oferecendo subsídios para reflexões futuras e arcabouço teórico para a gestão utilizar na criação de protocolos e novos fluxos de serviço.
Por fim, as implicações para a prática deste estudo contribuem tanto para a enfermagem, que precisa se instrumentalizar e desenvolver estratégias de acolhimento qualificadas, quanto para a gestão dos serviços, que deve investir em condições estruturais, dimensionamento adequado e políticas de capacitação, garantindo assim, um cuidado pautado na integralidade.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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