Open-access Fatores associados à interrupção da terapia antirretroviral em pessoas vivendo com HIV hospitalizadas: coorte retrospectiva*

RESUMO

Objetivo:  Identificar os fatores associados à interrupção da terapia antirretroviral (TARV) em pessoas vivendo com HIV internadas em um hospital de médio porte do Rio Grande do Sul.

Método:  Estudo de coorte retrospectiva e documental com 208 participantes, utilizando dados de prontuários eletrônicos de 2022 a 2024. O desfecho foi a interrupção da TARV, analisada por características sociodemográficas, clínicas e histórico terapêutico. Aplicaram-se testes Qui-quadrado, Exato de Fisher e regressão de Poisson com variância robusta (p < 0,05).

Resultados:  A prevalência de interrupção foi de 39,4% (IC95%: 33,0–45,8). O maior risco de interrupção foi observado entre homens (RP = 1,58; IC95%: 1,22–2,04), usuários de álcool (RP = 1,46; IC95%: 1,10–1,94), usuários de outras drogas (RP = 1,98; IC95%: 1,45–2,72), pessoas em situação de rua (RP = 1,38; IC95%: 1,08–1,76), com tempo de deslocamento superior a 31 minutos até a unidade (RP = 1,67; IC95%: 1,29–2,16) e com histórico prévio de interrupção (RP = 1,52; IC95%: 1,16–1,99).

Conclusão:  A interrupção da TARV relaciona-se a vulnerabilidades sociais e comportamentais, demandando ações intersetoriais e práticas de enfermagem voltadas à continuidade do cuidado e ao fortalecimento das políticas públicas de enfrentamento ao HIV.

DESCRITORES
HIV; Terapia Antirretroviral de Alta Atividade; Hospitalização; Adesão à Medicação; Fatores de Risco

ABSTRACT

Objective:  To identify the factors associated with the interruption of antiretroviral therapy (ART) in people living with HIV hospitalized in a medium-sized hospital in Rio Grande do Sul.

Method:  Retrospective and documentary cohort study with 208 participants, using data from electronic medical records from 2022 to 2024. The outcome was the discontinuation of ART, analyzed by sociodemographic and clinical characteristics, and therapeutic history. Chi-square, Fisher’s exact test, and Poisson regression with robust variance (p < 0.05) were applied.

Results:  The prevalence of discontinuation was 39.4% (95% CI: 33.0–45.8). The highest risk of interruption was observed among men (PR = 1.58; 95% CI: 1.22–2.04), alcohol users (PR = 1.46; 95% CI: 1.10–1.94), users of other drugs (PR = 1.98; 95% CI: 1.45–2.72), homeless people (PR = 1.38; 95% CI: 1.08–1.76), those with a travel time to the unit greater than 31 minutes (PR = 1.67; 95% CI: 1.29–2.16), and those with a previous history of interruption (PR = 1.52; 95% CI: 1.16–1.99).

Conclusion:  Interruption of ART is related to social and behavioral vulnerabilities, requiring intersectoral actions and nursing practices focused on continuity of care and strengthening of public policies to combat HIV.

DESCRIPTORS
HIV; Antiretroviral Therapy, Highly Active; Hospitalization; Medication Adherence; Risk Factors

RESUMEN

Objetivo:  Identificar los factores asociados a la interrupción de la terapia antirretroviral (TAR) en personas que viven con el VIH hospitalizadas en un hospital de tamaño mediano en Rio Grande do Sul.

Método:  Estudio de cohorte retrospectivo y documental con 208 participantes, utilizando datos de historias clínicas electrónicas desde 2022 hasta 2024. El resultado fue la interrupción del tratamiento antirretroviral, analizado según características sociodemográficas, clínicas e historial terapéutico. Se aplicaron la prueba de chi-cuadrado, la prueba exacta de Fisher y la regresión de Poisson con varianza robusta (p < 0,05).

Resultados:  La prevalencia de interrupción fue del 39,4% (IC del 95%: 33,0–45,8). El mayor riesgo de interrupción se observó entre los hombres (PR = 1,58; IC del 95%: 1,22–2,04), los consumidores de alcohol (PR = 1,46; IC del 95%: 1,10–1,94), los consumidores de otras drogas (PR = 1,98; IC del 95%: 1,45–2,72), las personas sin hogar (PR = 1,38; IC del 95%: 1,08–1,76), aquellos con un tiempo de viaje superior a 31 minutos hasta la unidad (PR = 1,67; IC del 95%: 1,29–2,16) y aquellos con antecedentes de interrupción (PR = 1,52; IC del 95%: 1,16–1,99).

Conclusión:  La interrupción de la TAR está relacionada con vulnerabilidades sociales y conductuales, lo que requiere acciones intersectoriales y prácticas de enfermería centradas en la continuidad de la atención y el fortalecimiento de las políticas públicas para combatir el VIH.

DESCRIPTORES
VIH; Terapia Antirretroviral Altamente Activa; Hospitalización; Cumplimiento de la Medicación; Factores de Riesgo

INTRODUÇÃO

A infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) e a síndrome da imunodeficiência adquirida (aids) permanecem como importantes problemas de saúde pública mundial. Até 2023, mais de 42,3 milhões de pessoas haviam morrido em decorrência da aids, sendo cerca de 630 mil apenas nesse ano, em grande parte por infecções oportunistas associadas à não adesão à terapia antirretroviral (TARV)(1).

Com o intuito de enfrentar esse cenário, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (UNAIDS) propôs a meta “95-95-95”, alinhada ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nº 3, que busca eliminar a epidemia até 2030(1). Apesar dos avanços alcançados, o Brasil ainda não atingiu integralmente essas metas, tendo conquistado apenas o terceiro marco, relacionado à supressão viral(2).

Entre 2007 e 2023, o país registrou 489.594 casos de HIV, dos quais 19,1% ocorreram na região Sul e 42.456 no Rio Grande do Sul(2). Este estado mantém historicamente elevadas taxas de incidência e mortalidade, o que evidencia a necessidade de fortalecer a rede de atenção à saúde, especialmente na articulação entre a Atenção Primária à Saúde (APS) e os Serviços de Atenção Especializada (SAE), fundamentais para o acompanhamento longitudinal e o suporte terapêutico contínuo.

A TARV constitui o principal recurso terapêutico para controle da infecção pelo HIV, reduzindo a morbimortalidade, prevenindo hospitalizações e interrompendo a cadeia de transmissão por meio do conceito “Indetectável = Intransmissível (I = I)” (3). Contudo, a interrupção ou adesão irregular ao tratamento ainda representa um obstáculo significativo, influenciada por vulnerabilidades sociais, barreiras de acesso, estigma e uso de substâncias psicoativas(4,5,6).

A maioria dos estudos sobre adesão à TARV concentra-se em pessoas acompanhadas em nível ambulatorial, sendo escassas as investigações que abordam a realidade de pacientes hospitalizados, grupo que apresenta maior gravidade clínica e enfrenta desafios adicionais na continuidade do cuidado(4,7,8).

Dessa forma, este estudo tem como objetivo identificar os fatores associados à interrupção da terapia antirretroviral em pessoas vivendo com HIV internadas em um hospital de médio porte do Rio Grande do Sul, contribuindo para o aprimoramento das práticas assistenciais e das políticas públicas voltadas à manutenção do tratamento e à integração entre os níveis de atenção.

MÉTODO

Desenho do Estudo, Período e Local

Pesquisa quantitativa, do tipo coorte retrospectiva, que analisou prontuários eletrônicos de pessoas hospitalizadas com HIV admitidas no período de 1º de janeiro de 2022 a 31 de janeiro de 2024 e acompanhadas desde a internação até a alta hospitalar ou óbito, investigando a interrupção da TARV como desfecho. A descrição metodológica desta pesquisa foi orientada pelas diretrizes do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE).

A pesquisa foi realizada em uma unidade de internação clínica de um hospital-escola situado no estado do RS, Brasil. A escolha do cenário deu-se em razão de a instituição ser referência no atendimento às pessoas com doenças infectocontagiosas. A instituição possui caráter público e filantrópico, sendo referência para 33 municípios da macrorregião Centro-Oeste do RS. Essa macrorregião abrange uma população estimada em mais de 500 mil habitantes. Com relação à unidade de desenvolvimento do estudo, ela é composta por 34 leitos, sendo 15 masculinos, 15 femininos e quatro de isolamento.

População, Critérios de Inclusão e Exclusão

A população foi composta por pessoas com diagnóstico de HIV admitidas na unidade de internação no período de 1º de janeiro de 2022 a 31 de janeiro de 2024. Esse período foi estabelecido porque, durante os anos de 2020 a 2021, a unidade tornou-se referência para o atendimento de pessoas com COVID-19. Dessa forma, buscou-se minimizar os efeitos da pandemia nos dados obtidos e analisados.

Os critérios de inclusão foram: prontuários eletrônicos de pessoas com mais de 18 anos, diagnosticadas com HIV e internadas por no mínimo 72 horas. Esse tempo foi considerado com o objetivo de obter as informações mínimas necessárias ao estudo. O seguimento foi realizado desde a admissão hospitalar até a alta ou o óbito. Os critérios de exclusão foram: prontuários não localizados ou que não apresentavam informações suficientes; prontuários nos quais o diagnóstico de HIV foi descartado ou permaneceu inconclusivo durante a hospitalização; e pessoas que iniciaram a TARV durante a internação, uma vez que o estudo foca na interrupção do tratamento antes desse evento. Não foram coletados dados de pessoas reinternadas após o período do estudo.

Considerou-se uma amostra mínima de 188 prontuários, calculada com base no total de internações por HIV na unidade nos últimos cinco anos, adotando-se tolerância de 5% ao erro, grau de confiança de 95% e proporção da característica de interesse de 0,5 (50%), valor conservador escolhido por não se conhecer a prevalência exata das interrupções de terapia nessa população hospitalar.

Coleta de Dados

A coleta de dados ocorreu entre agosto de 2023 e abril de 2024, sendo conduzida pelo autor da pesquisa e por uma coletadora voluntária, ambos previamente treinados para minimizar quaisquer vieses de coleta.

Para a coleta dos dados foi realizada uma busca na base eletrônica de prontuários da instituição, abrangendo todas as pessoas admitidas na unidade de internação durante o período do estudo. Foram identificadas 3.325 internações e, após a exclusão de duplicatas, foram incluídos 3.258 prontuários. Em seguida, procedeu-se à identificação dos prontuários de pessoas que vivem com HIV. Para essa etapa, analisaram-se na íntegra os prontuários para selecionar os que atendiam aos critérios de inclusão do estudo, totalizando 248 prontuários de pessoas que vivem com HIV. Após a aplicação dos critérios de exclusão, obteve-se a amostra final de 208 participantes, sendo que 40 prontuários foram excluídos do estudo (15 por pertencerem a internações com tempo inferior a 72 horas, 14 por não apresentarem informações suficientes para as variáveis estudadas e 11 por terem iniciado o uso da TARV durante a hospitalização). O fluxo amostral detalhado também é apresentado visualmente na Figura 1.

Figura 1
Fluxograma do número de pessoas elegíveis para o estudo (n = 208) – Santa Maria, RS, Brasil, 2022–2024.

Instrumento de Coleta de Dados e Variáveis

O instrumento foi elaborado com base nas recomendações do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em adultos do Ministério da Saúde (MS) do ano de 2018 e foi composto pelas variáveis sociodemográficas sexo (masculino/feminino), cor da pele (branca e preta/parda), escolaridade (menos de oito anos de estudo e mais de oito anos de estudo), classe econômica. A estratificação da classe econômica foi realizada de acordo com a classificação já utilizada pela instituição onde o estudo foi realizado, que categoriza a renda mensal familiar dos participantes da seguinte forma: Classe A: renda mensal superior a R$ 11.262, Classe B: entre R$ 8.641 e R$ 11.261; Classe C: entre R$ 2.005 e R$ 8.640; Classe D: entre R$ 1.255 e R$ 2.004; Classe E: entre R$ 0,00 e R$ 1.254. Incluíram-se também orientação sexual (homossexual, heterossexual e bissexual), estado civil (solteiro e casado) e parceria fixa (sim ou não). Quanto aos fatores de vulnerabilidade social e comportamental, foram incluídas as seguintes variáveis dicotômicas (sim ou não): transtorno relacionado ao consumo de tabaco, transtorno relacionado ao consumo de álcool, pessoas em situação de rua, uso de drogas e/ou álcool, e privação de liberdade.

A variável clínica foi aids (sim ou não). Para a classificação dessa variável, adotaram-se os critérios do MS. O caso foi considerado como aids quando havia registro explícito do diagnóstico no prontuário ou quando atendia a critérios laboratoriais (LT-CD4+ <200 células/mm3 ou carga viral >1.000 cópias/mL(3)) e/ou clínicos compatíveis (piora do quadro associada a infecções oportunistas). Na ausência de dados laboratoriais, prevaleceu o critério clínico e/ou o registro do CID, de modo a reduzir a perda de casos.

Considerou-se, ainda, a forma de admissão hospitalar (eletiva ou urgente), coinfecção (tuberculose/HIV), carga viral (indetectável, baixa e alta). A carga viral foi categorizada em: indetectável, até 200 cópias/mL (sem risco de transmissão sexual); baixa, entre 200 e 1.000 cópias/mL (risco quase nulo de transmissão sexual); alta, superior a 1.000 cópias/mL (risco relevante de transmissão sexual)(2); e os LT-CD4+ (LT-CD4+ maior de 201 células/mm3 e LT-CD4+ menor de 200 células/mm3). Além disso, foram considerados o histórico de internações anteriores (sim ou não) e o desfecho da internação (alta hospitalar ou óbito). Ressalta-se que o instrumento foi compartilhado com um comitê de cinco especialistas na temática do HIV e epidemiologia, sendo avaliado e validado quanto ao seu conteúdo e semântica por meio do cálculo do Índice de Validade de Conteúdo (IVC), com o intuito de aprimorá-lo. Itens com IVC inferior a 0,80 foram revisados ou removidos.

A amostra foi estratificada em dois grupos, considerando a variável interrupção do tratamento, que foi analisada com base no critério de tempo. O MS define a interrupção como a ausência de retirada da medicação por período superior a 28 dias após a data prevista para a última dispensação, associada ao afastamento do acompanhamento ambulatorial(3). Ressalta-se que essa variável estava disponível no prontuário do paciente, pois o SAE do município compartilha essa informação com o hospital.

Em relação ao histórico terapêutico, foram consideradas as seguintes variáveis: histórico de interrupção anterior da TARV (sim ou não), número de esquemas da TARV (primeiro, segundo e terceiro ou mais esquemas), unidade de retirada da medicação (ambulatorial ou Serviço de Atendimento Especializado/Centro de Testagem e Aconselhamento – SAE/CTA), motivo da busca pelo diagnóstico (infecções oportunistas, sintomatologia ou testagem rápida) e tempo de distância da unidade de retirada da medicação (inferior a 30 minutos e superior a 31 minutos).

Para estruturar a variável tempo de deslocamento até a unidade de retirada da medicação, utilizou-se o endereço de residência e a unidade de referência da pessoa. Para estimar o tempo, a variável foi mensurada na ferramenta Google Maps, levando em consideração o trajeto por meio de transporte coletivo. Especificamente, foi utilizado o tempo médio estimado de deslocamento em condições normais de tráfego, evitando a flutuação do trânsito real, que é difícil de padronizar retrospectivamente.

A estratificação do tempo de deslocamento (≤30 minutos e ≥31 minutos) foi definida considerando as características geográficas e de mobilidade do município, nas quais deslocamentos acima de 30 minutos representam uma barreira de acesso frequentemente observada nos trajetos urbanos. Assim, o ponto de corte reflete tanto evidências da literatura sobre barreiras geográficas ao acesso aos serviços de saúde quanto a realidade local de deslocamento urbano(4,7).

Análise dos Dados

Elaborou-se um banco de dados em planilha do Excel® (Microsoft, versão 10, EUA), com dupla digitação, seguida por uma validação para minimizar o viés de aferição e garantir a fidedignidade dos dados. Após a validação da planilha e realização de correções, os dados foram transferidos para um banco definitivo, o qual foi importado para análise no software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 20.0.

Para a análise dos dados, utilizou-se estatística descritiva para caracterização da amostra. Para as variáveis categóricas, foram apresentadas frequência absoluta (n) e relativa (%). Para as variáveis numéricas, a normalidade da distribuição foi verificada por meio do teste de Kolmogorov-Smirnov. Variáveis com distribuição normal foram descritas pela média e desvio padrão (DP±), enquanto variáveis com distribuição assimétrica foram apresentadas pela mediana e pelo intervalo interquartil.

A associação entre as variáveis categóricas foi avaliada por meio dos testes Qui-Quadrado de Pearson e Teste Exato de Fisher, quando apropriado, ou seja, quando as premissas do Qui-Quadrado não eram atendidas, como células com contagens esperadas menores que cinco, por exemplo. Foi considerado um nível de significância estatística de 5% (p < 0,05).

Também foi realizada uma análise multivariada conduzida por meio da regressão de Poisson com variância robusta, com o objetivo de identificar os fatores associados à interrupção da terapia antirretroviral. Antes da construção dos modelos, a multicolinearidade entre as variáveis preditoras foi verificada utilizando o Fator de Inflação da Variância (VIF), com valores aceitáveis abaixo de 5. As variáveis foram inseridas em blocos temáticos sucessivos: sociodemográfico (Bloco 1), vulnerabilidades sociais e comportamentais (Bloco 2) e histórico clínico/terapêutico (Bloco 3). As variáveis com valor de p < 0,20 na análise bivariada foram consideradas para inclusão no modelo inicial de cada bloco, critério recomendado pela literatura científica para maximizar a chance de inclusão de variáveis relevantes no modelo multivariado(9). A permanência no modelo final foi definida com base na significância estatística (p < 0,05) e relevância epidemiológica.

O modelo conceitual deste estudo postula que a interrupção da TARV é influenciada por vulnerabilidades sociais, comportamentais, e histórico clínico/terapêutico. O desfecho principal, interrupção da TARV, foi definido conforme os critérios do MS. Para a construção do modelo causal, foram consideradas potenciais variáveis confundidoras, amplamente evidenciadas na literatura como influenciadoras do desfecho de interrupção da TARV, incluindo carga viral, LT CD4+, diagnóstico de aids, desfecho da internação, forma de admissão hospitalar e interrupção prévia e coinfecção tuberculose-HIV(1,3,4,7,8). O impacto dessas variáveis confundidoras foi ajustado nas análises multivariadas para melhor estimar a associação entre os fatores de interesse e a interrupção da TARV.

Este estudo possui algumas limitações inerentes ao seu desenho retrospectivo. Primeiro, a dependência de registros em prontuários pode levar a um viés de informação (subnotificação), já que a qualidade e completude dos dados dependem do registro clínico. Segundo, o estudo foi realizado em um hospital de referência que concentra casos mais graves, o que pode gerar um viés de seleção e limitar a generalização dos resultados para outras populações de pessoas com HIV. Por fim, o uso de dados secundários impede o estabelecimento definitivo de causalidade.

Aspectos Éticos

O estudo foi conduzido conforme as diretrizes éticas nacionais e internacionais, sendo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Franciscana sob o parecer nº 5.828.312. Quanto ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, este foi dispensado, visto que os dados foram obtidos por meio de prontuários eletrônicos.

RESULTADOS

Foram elegíveis 248 prontuários de pessoas vivendo com HIV hospitalizadas no período do estudo. Destes, 40 foram excluídos (15 por internações inferiores a 72 horas, 14 por informações insuficientes e 11 por início de TARV durante a hospitalização). Assim, a amostra final foi composta por 208 prontuários, sendo 82 (39,4%) com interrupção da TARV e 126 (60,6%) sem interrupção.

A média de idade dos participantes foi de 39,6 anos (DP ± 13,2; variação 18–89), sendo que 82 (39,4%) apresentaram interrupção da TARV. O tempo médio de interrupção foi de 14,2 meses (DP ± 8,0; mediana 12; intervalo 5–47 meses).

Na análise bivariada, observou-se associação significativa entre a interrupção da TARV e sexo masculino, cor preta/parda, menor escolaridade (<8 anos), classe econômica E, renda individual e ausência de parceria fixa (p < 0,001), conforme Tabela 1. As demais variáveis sociodemográficas não apresentaram associação estatisticamente significativa.

Tabela 1
Características sociodemográficas das pessoas que vivem com HIV hospitalizadas, segundo interrupção da TARV (n = 208) – Santa Maria, RS, Brasil, 2022–2024.

A interrupção da TARV apresentou associação estatisticamente significativa com fatores de vulnerabilidade social, comportamental e clínica. Entre as variáveis comportamentais, observou-se maior prevalência de interrupção entre pessoas que faziam uso de tabaco (86,6%), consumiam álcool (87,8%), utilizavam outras drogas (74,4%) e viviam em situação de rua (42,7%) (p < 0,001). Não foi identificada associação significativa com a variável privação de liberdade (p = 0,378).

Entre os fatores clínicos, a interrupção da TARV esteve associada à presença de diagnóstico de aids (86,6%), carga viral elevada (95,1%) e contagem de LT-CD4+ inferior a 200 células/mm3 (89,0%) (p < 0,001), internações de caráter urgente (81,7%). O histórico de internações anteriores também apresentou associação significativa, sendo observado em 79,3% daqueles que interromperam o tratamento (p < 0,001). Em relação ao desfecho da internação, a interrupção foi mais prevalente entre os pacientes que evoluíram para óbito (65,9%), em comparação com os que receberam alta hospitalar, diferença estatisticamente significativa (p < 0,001). A coinfecção tuberculose/HIV não apresentou associação significativa com a interrupção da TARV (p = 0,092), conforme exposto na Tabela 2.

Tabela 2
Fatores de vulnerabilidade e condições clínicas associadas à interrupção da TARV em pessoas vivendo com HIV hospitalizadas (n = 208) – Santa Maria, RS, Brasil, 2022–2024.

Quanto ao histórico terapêutico, a interrupção da TARV demonstrou associação estatística com o número de esquemas de TARV (com maior frequência de interrupção no terceiro ou maior quantidade de esquemas realizados), e a unidade de retirada da medicação (SAE/CTA) (Tabela 3). Adicionalmente, a interrupção foi mais prevalente entre pessoas que buscaram o diagnóstico de HIV devido a infecções oportunistas ou sintomatologia, e aqueles que demoravam mais de 31 minutos para se deslocar até a unidade de retirada da medicação.

Tabela 3
Histórico terapêutico entre pessoas vivendo com HIV hospitalizadas, segundo interrupção da TARV (n = 208) – Santa Maria, RS, Brasil, 2022–2024

Na análise multivariada por Regressão de Poisson com variância robusta (Tabela 4), as variáveis mantidas como significativamente associadas à interrupção da TARV foram: sexo masculino (RP = 1,58; IC95%: 1,42–1,71), transtorno relacionado ao uso de álcool (RP = 1,46; IC95%: 1,10–1,97), uso de outras drogas (RP = 1,98; IC95%: 1,36–2,54), situação de rua (RP = 1,38; IC95%: 1,12–1,78), tempo de deslocamento >31 minutos (RP = 1,67; IC95%: 1,13–1,89), histórico de interrupções anteriores (RP = 1,52; IC95%: 1,27–1,91) e diagnóstico tardio (RP = 1,30; IC95%: 1,09–1,67). Esses resultados indicam que fatores de vulnerabilidade social e dificuldades de acesso estão fortemente associados à descontinuidade do tratamento.

Tabela 4
Modelo de Regressão de Poisson com variância robusta para os fatores associados à interrupção da TARV entre pessoas vivendo com HIV hospitalizadas (n = 208) – Santa Maria, RS, Brasil, 2022–2024.

DISCUSSÃO

Este estudo identificou uma prevalência de 39,4% (n = 82) de interrupção da TARV entre pessoas vivendo com HIV hospitalizadas. Resultados semelhantes foram observados em um estudo de coorte realizado na China (47,1%)(10) e em pesquisa conduzida em Ribeirão Preto/SP (39,3%)(11), o que demonstra consistência nos achados, mesmo que em diferentes contextos geográficos e institucionais. Tais resultados reforçam que, mesmo diante de avanços terapêuticos e políticas de acesso universal, a interrupção da TARV permanece um desafio expressivo no contexto hospitalar.

Além disso, estudo espanhol evidenciou que a interrupção da TARV aumenta o risco de hospitalização (2,92 vezes) e óbito (2,15 vezes), reforçando a relevância do problema(12).Tais resultados podem estar relacionados a fatores como gravidade clínica, presença de comorbidades, uso de substâncias psicoativas e desarticulação da rede de atenção à saúde, frequentemente apontados pela literatura como determinantes da interrupção do tratamento durante a hospitalização(11,13).

O tempo médio de interrupção identificado (14,22 meses; DP ± 8,04) também reflete na gravidade desse fenômeno. Estudo brasileiro demonstra que períodos prolongados de descontinuação estão associados à falha virológica, elevação da carga viral e redução das chances de alcançar a indetectabilidade(14), agravando o risco de hospitalizações e o impacto econômico sobre os sistemas de saúde(15).

Em consonância com a literatura, o sexo masculino demonstrou ser um preditor independente de interrupção da TARV (RP = 1,58; IC 95%: 1,42–1,71), resultado corroborado por estudos nacionais e internacionais(16,17). A menor adesão entre homens pode refletir padrões de masculinidade que dificultam o autocuidado e o vínculo com os serviços de saúde.

Embora outras variáveis, como cor da pele, baixa escolaridade e baixa renda, tenham apresentado associação na análise bivariada, essas não mantiveram significância no modelo ajustado, sugerindo que seus efeitos podem não estar diretamente relacionados a interrupção da TARV.

A situação de rua (RP = 1,38; IC 95%: 1,12–1,78) emergiu como um fator de grande impacto na interrupção do tratamento. A falta de moradia configura-se como uma barreira estrutural substancial para a continuidade da TARV, estando associada a maior risco de hospitalização e morbimortalidade nessa população(18). A literatura aponta que a ausência de local seguro para armazenamento de medicamentos, o acesso irregular aos serviços e a priorização de necessidades básicas representam desafios significativos à adesão(19). Esses achados reforçam a necessidade de políticas intersetoriais que integrem assistência social, saúde e habitação.

O estudo confirmou que transtornos relacionados ao consumo de álcool (RP = 1,46; IC 95%: 1,10–1,97) e ao uso de outras substâncias psicoativas (RP = 1,98; IC 95%: 1,36–2,54) são independentemente associados à interrupção da TARV. Achados semelhantes em outras pesquisas(20,21) reforçam a necessidade de ações integradas de saúde mental e redução de danos no cuidado a pessoas que vivem com HIV. O uso de substâncias interfere diretamente na rotina medicamentosa e na adesão terapêutica, além de estar associado ao estigma e à marginalização social, fatores que exigem abordagens acolhedoras e não punitivas por parte das equipes de saúde.

O tempo de deslocamento superior a 31 minutos até o local de retirada dos medicamentos (RP = 1,67; IC 95%: 1,13–1,89) esteve associado à interrupção da TARV. Esse achado reforça barreiras estruturais, como a distância geográfica e a baixa capilaridade dos serviços de dispensação(22). Torna-se essencial otimizar a logística de distribuição e ampliar a cobertura territorial dos SAE/CTA, garantindo o acesso equitativo à TARV.

Além disso, o histórico prévio de interrupção da TARV (RP = 1,52; IC 95%: 1,27–1,91) foi um forte preditor de nova descontinuação. A reincidência do abandono terapêutico evidencia a necessidade de estratégias personalizadas de seguimento, identificação precoce e apoio pós-alta hospitalar(6).

O presente estudo identificou associação entre a interrupção da TARV e marcadores clínicos de gravidade, como carga viral elevada, contagem de linfócitos T CD4+ inferior a 200 células/mm3, internação hospitalar em caráter de urgência e ocorrência de óbito. Esses achados corroboram a literatura existente, que associa falha virológica e imunossupressão avançada a piores prognósticos(3,5,8,23).

Quanto à coinfecção TB/HIV, embora tenha se mostrado prevalente, não apresentou associação estatisticamente significativa (p = 0,092) com a interrupção da TARV. Esse resultado sugere que, embora a coinfecção agrave o quadro clínico, outros fatores, tais como adesão prévia e gravidade podem mediar essa relação. Ainda assim, a elevada prevalência de coinfecção observada reforça a tuberculose como um importante agravo no contexto do HIV, demandando intensificação das estratégias de rastreamento e integração do cuidado(24,25,26).

Essa discrepância sugere, com base na experiência acumulada na prática clínica e na condução desta pesquisa, que a elevada quantidade de baciloscopias de escarro positivas no grupo em interrupção pode refletir a gravidade dos casos desacompanhados pelo serviço de referência. Nesses cenários, a interrupção da TARV pode já ter resultado em imunossupressão avançada, aumentando a vulnerabilidade a infecções oportunistas ativas, como a tuberculose(25). Trata-se de um sinal de alerta para falhas no rastreamento, vinculação e permanência dessas pessoas nos serviços de saúde, o que contribui para a evolução clínica desfavorável e necessidade de hospitalizações(26). A elevada prevalência da coinfecção nesse estudo reforça a tuberculose como um grave problema no Brasil, exigindo investimentos urgentes em estratégias de rastreamento, prevenção e cuidado integrado, sobretudo entre pessoas vivendo com HIV.

A busca tardia pelo diagnóstico do HIV (RP = 1,30; IC 95%: 1,09–1,67) também se associou à interrupção da TARV, refletindo menor engajamento inicial com os serviços e maior complexidade clínica(27). Iniciar precocemente a TARV continua sendo uma das medidas mais efetivas para reduzir morbimortalidade e transmissão.

A internação hospitalar deve ser reconhecida como uma oportunidade estratégica para o resgate do vínculo e a reengajamento terapêutico. O fortalecimento da articulação entre hospitais, APS e SAE/CTA é essencial para garantir continuidade do cuidado. Estratégias como busca ativa, telemonitoramento, acompanhamento multiprofissional e planos de alta individualizados têm demonstrado potencial na melhoria da adesão(7). A enfermagem, por seu papel contínuo e próximo ao paciente, tem posição central na construção de vínculos, identificação de riscos e implementação de planos de cuidado personalizados. O cuidado integral deve incluir o resgate da dignidade, da identidade e da autonomia das pessoas vivendo com HIV, favorecendo o autocuidado e a adesão.

Como limitação desta pesquisa, destaca-se o uso de registros secundários, o que pode gerar incompletude de dados. Os resultados não são generalizáveis para toda a população brasileira, pois o estudo foi conduzido em um hospital de referência no Rio Grande do Sul, com provável concentração de casos mais graves.

Entre as contribuições, o estudo inova ao analisar fatores de interrupção da TARV em população hospitalizada, um tema ainda pouco explorado, fornecendo subsídios teóricos e operacionais para o planejamento do cuidado de enfermagem e gestão da adesão terapêutica. Futuras pesquisas devem aprofundar as barreiras à adesão sob a perspectiva dos usuários e avaliar o impacto de intervenções intersetoriais voltadas a grupos vulneráveis.

Para mais, os achados deste estudo dialogam com o ODS 3 e com a meta UNAIDS 95-95-95, ao evidenciar lacunas no alcance da adesão plena ao tratamento entre pessoas vivendo com HIV hospitalizadas. O fortalecimento das estratégias de cuidado contínuo, interprofissional e centrado no usuário é fundamental para alcançar a supressão viral sustentada e reduzir a mortalidade associada ao HIV.

CONCLUSÃO

A interrupção da terapia antirretroviral em pessoas vivendo com HIV hospitalizadas esteve associada a fatores como sexo masculino, uso de álcool e outras substâncias psicoativas, situação de rua, histórico prévio de interrupções, diagnóstico tardio do HIV e maior tempo de deslocamento até a unidade de dispensação da medicação. Esses achados reforçam a natureza multifatorial da adesão ao tratamento e a necessidade de intervenções integradas que considerem dimensões sociais, comportamentais e clínicas.

Destaca-se a importância de fortalecer o acompanhamento durante a internação e garantir a continuidade do cuidado após a alta, por meio da articulação entre os diferentes níveis da rede de atenção à saúde. Embora a coinfecção TB/HIV tenha se mostrado prevalente, não apresentou associação estatisticamente significativa com a interrupção da TARV, o que indica a necessidade de estudos adicionais sobre sua influência nesse contexto.

Os resultados contribuem para o avanço das metas UNAIDS 95-95-95 e para o alcance do ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), ao evidenciar pontos críticos que demandam políticas públicas e estratégias inovadoras voltadas à ampliação da adesão, à redução das interrupções e à melhoria dos desfechos clínicos e sociais das pessoas que vivem com HIV. Futuras pesquisas devem aprofundar a compreensão dos determinantes da adesão e avaliar intervenções que promovam cuidado contínuo e equitativo, fortalecendo o compromisso global com o fim da epidemia.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Marcia Regina Cubas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    28 Ago 2025
  • Aceito
    28 Fev 2026
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