Open-access Estratégias para o enfrentamento de fake news na saúde: uma abordagem complexa sob a perspectiva da enfermagem*

RESUMO

Objetivo:  Desvelar as estratégias para o enfrentamento de fake news no contexto da saúde e da enfermagem sob a perspectiva dos profissionais de enfermagem.

Método:  Pesquisa qualitativa, cujos referenciais teórico e metodológico foram, respectivamente, a Teoria da Complexidade e a Grounded Theory. Participaram 25 profissionais de enfermagem de um hospital público e de uma Clínica da Família da cidade do Rio de Janeiro. Foram empregadas entrevistas semiestruturadas entre 2021 e 2023.

Resultados:  Os significados desvelados pelos profissionais de enfermagem consideraram a complexidade do combate às fake news, evidenciando que a disseminação dessas informações ocorre por múltiplas vias e está inserida em dinâmicas sociais, políticas e tecnológicas. Os resultados sinalizaram a importância do desenvolvimento de mecanismos institucionais de checagem e promoção de campanhas educativas como estratégias para minimizar os impactos das fake news no cuidado em saúde.

Conclusão:  A perspectiva complexa do estudo sinaliza que o enfrentamento das fake news na saúde e na enfermagem exige abordagens multidimensionais que combinem educação, regulamentação e valorização da ciência na construção do conhecimento confiável.

DESCRITORES
Enfermagem; Saúde; Desinformação; Profissionais de Enfermagem; Gestão do Conhecimento

ABSTRACT

Objective  To unveil strategies for tackling fake news in the context of health and nursing from nursing professionals’ perspective.

Method:  This qualitative research, whose theoretical and methodological frameworks were, respectively, Complexity Theory and Grounded Theory, involved 25 nursing professionals from a public hospital and a Family Clinic in the city of Rio de Janeiro. Semi-structured interviews were conducted between 2021 and 2023.

Results:  The meanings revealed by nursing professionals considered the complexity of tackling fake news, highlighting that the dissemination of this information occurs through multiple channels and is embedded in social, political, and technological dynamics. The results indicated the importance of developing institutional fact-checking mechanisms and promoting educational campaigns as strategies to minimize the impacts of fake news on healthcare.

Conclusion:  The study’s complex perspective indicates that tackling fake news in health and nursing requires multidimensional approaches that combine education, regulation, and the valuing of science in the construction of reliable knowledge.

DESCRIPTORS
Nursing; Health; Disinformation; Nurse Practitioners; Knowledge Management

RESUMEN

Objetivo:  Revelar las estrategias para hacer frente a las fake news en el contexto de la salud y la enfermería desde la perspectiva de los profesionales de enfermería.

Método:  Investigación cualitativa, cuyos marcos teórico y metodológico fueron, respectivamente, la Teoría de la Complejidad y la Grounded Theory. Participaron 25 profesionales de enfermería de un hospital público y de una Clínica de Familia de la ciudad de Río de Janeiro. Se realizaron entrevistas semiestructuradas entre 2021 y 2023.

Resultados:  Los significados revelados por los profesionales de enfermería pusieron de manifiesto la complejidad de la lucha contra las fake news (noticias falsas), evidenciando que la difusión de esta información ocurre por múltiples vías y está insertada en dinámicas sociales, políticas y tecnológicas. Los resultados señalaron la importancia del desarrollo de mecanismos institucionales de verificación y la promoción de campañas educativas como estrategias para minimizar los impactos de las noticias falsas en la atención de la salud.

Conclusión:  La perspectiva compleja del estudio señala que la lucha contra las noticias falsas en la salud y la enfermería exige enfoques multidimensionales que combinen educación, regulación y valoración de la ciencia en la construcción de conocimiento confiable.

DESCRIPTORES
Enfermería; Salud; Desinformación; Enfermeras Practicantes; Gestión del Conocimiento

INTRODUÇÃO

Na perspectiva pós-moderna, a compreensão ontológica do ser privilegia uma realidade multifacetada, concebida como dinâmica e em constante transformação. Nesse sentido, a linguagem assume um papel central na construção da realidade, de modo que qualquer pretensão de alcançar a verdade objetiva se configura como um metadiscurso(1,2). Assim, emergem novas formas narrativas e metodológicas, condizentes com os desafios dos novos tempos, nas quais as fake news, apesar de serem mecanismos usualmente utilizados nos embates políticos, passam a incidir também sobre as narrativas que permeiam o contexto da saúde pública(3).

Nos últimos anos, observou-se a expansão das fake news nos movimentos antivacina(4), o que impactou o retorno de doenças consideradas, até então, erradicadas. São publicações em redes sociais (posts), áudios e vídeos que viralizam na internet e validam a percepção enganosa de que a vacina é dispensável. Um marco importante nesse processo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, foi a pandemia de COVID-19, que evidenciou as fake news como fenômeno global de importância para a saúde pública(5).

Atualmente, a dinâmica de acesso e a disseminação de informações que visam à construção e utilização de conhecimentos são influenciadas pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). As TICs estabelecem, de igual modo, formas novas e definidoras de padrões e condutas de conhecimentos que afetam o processo de trabalho e serviços de saúde, uma vez que alcançam as ações das pessoas que acessam tais serviços(6).

O processo de trabalho da enfermagem se relaciona à transitoriedade, à descontinuidade e ao caos dos tempos pós-modernos. Assim, têm-se configurado novos princípios organizacionais que implicam, também, a necessidade de a equipe de enfermagem desempenhar múltiplas funções, de forma descentralizada, com flexibilidade, liderança, assunção de riscos, comunicação efetiva, habilidades relacionais, entre outros(7). Nessa conjuntura, as TICs influenciam o processo de gestão do conhecimento da enfermagem desde o acesso e disseminação de informações entre a equipe até a tomada de decisão no cuidado direto ao paciente(6). Na dinamicidade desse fenômeno complexo, está a realidade das fake news como problema global que afeta todos os setores do tecido social, não sendo diferente para a enfermagem.

Diante do exposto, entende-se que o processo de trabalho da enfermagem pode ser afetado por fake news, devido às suas influências nos elementos que envolvem a realidade laboral desses profissionais, como objeto, agente, instrumento, finalidade, método e produto, acarretando modificações e possíveis prejuízos em todas as suas dimensões de trabalho. Nessa conjuntura, as fake news devem ser consideradas um desafio para a elaboração de estratégias efetivas de orientação em saúde para a população e para a gestão do conhecimento no contexto do trabalho, bem como competência política do enfermeiro(8).

Desse modo, sustenta-se o pressuposto de que os significados atribuídos pelos enfermeiros às fake news podem direcionar suas condutas no enfrentamento desse importante problema de saúde pública e, de fato, influenciar o processo de trabalho da enfermagem a partir da gestão do conhecimento envolvido na dinâmica de acesso, disseminação e consumo de informações verificadas, para a utilização de bases científicas pertinentes no contexto em que exercem o cuidado, sobretudo para a orientação de pacientes que podem consumir e disseminar fake news.

Sob uma perspectiva sistêmica, esta pesquisa contempla o paradigma da complexidade por reconhecer que o conhecimento é um processo relacional, no qual a Teoria da Complexidade considera que o processo de conhecer resulta da articulação entre as dimensões neurobiológicas do cérebro e os elementos socioculturais que conformam a sociedade(1). Assim, não se pode compreender o fenômeno das fake news na saúde e enfermagem sem, contudo, atentar para as perspectivas apresentadas pelos profissionais de enfermagem.

Diante do exposto, o estudo tem como objetivo desvelar as estratégias para o enfrentamento de fake news no contexto da saúde e da enfermagem sob a perspectiva dos profissionais de enfermagem.

MÉTODO

Tipo do Estudo

Pesquisa qualitativa, cujos referenciais teórico e metodológico foram, respectivamente, a Grounded Theory (GT)(9,10) e a Teoria da Complexidade(1). Para a confiabilidade analítica da pesquisa, foram empregadas as diretrizes do Equator, notadamente o guia COnsolidated criteria for REporting Qualitative research.

Critérios de Seleção

Participaram do estudo enfermeiros e técnicos de enfermagem, distribuídos em dois grupos amostrais: 1) profissionais da Atenção Primária à Saúde (Clínica da Família); 2) profissionais da Atenção Terciária à Saúde (hospital). Foram critérios de inclusão ter, no mínimo, um ano de experiência profissional na instituição e na assistência direta ao paciente como enfermeiro ou técnico de enfermagem. No cenário hospitalar, os dados foram coletados com profissionais que trabalhavam em unidades de internação adulta (clínica médica e cirúrgica). Foram excluídos os participantes afastados do trabalho, sob qualquer tipo de licença. Os participantes foram convidados presencialmente, sem abordagem prévia, no cenário do estudo, sob amostragem por conveniência. Não houve recusa ou desistência de nenhum participante.

Local do Estudo

Os dados foram coletados em dois cenários (um hospital universitário federal e uma Clínica da Família), ambos localizados na cidade do Rio de Janeiro. O contexto hospitalar apresenta diversas especialidades clínicas, contendo cerca de 550 leitos. A Clínica da Família escolhida foi inaugurada em dezembro de 2010, unidade com 14 equipes da Estratégia Saúde da Família e que atende aproximadamente 52 mil pessoas. A escolha por dois cenários foi sustentada na hipótese de que o contexto pode influenciar a dinâmica de acesso e disseminação de informações, tanto no que diz respeito ao profissional de enfermagem quanto ao perfil dos pacientes de cada esfera de atenção à saúde.

População

Enfermeiros e técnicos de enfermagem que trabalham no Sistema Único de Saúde, em que o primeiro grupo amostral foi composto por profissionais da Atenção Primária à Saúde atuantes na Clínica da Família, e o segundo grupo amostral foi composto por profissionais da Atenção Terciária à Saúde, atuantes no contexto hospitalar.

Coleta de Dados

Para a caracterização dos participantes, foi utilizado formulário com questões sociodemográficas. Para o corpus analítico, foram empregadas entrevistas semiestruturadas, presenciais e individuais (pesquisadora principal e entrevistado), gravadas em dispositivo eletrônico. O roteiro de perguntas direcionadoras foi elaborado após pesquisa bibliográfica e devido ao aprofundamento temático. As perguntas direcionadoras foram: o que você compreende por fake news? Como você percebe esse fenômeno no contexto da saúde e da enfermagem? O que pode ser realizado, no âmbito da enfermagem, para o enfrentamento de fake news na saúde? Perguntas circulares foram empregadas à medida que os participantes apresentavam respostas que indicassem a necessidade de aprofundamentos. Os participantes foram orientados a responder às perguntas no tempo que considerassem pertinente, com possibilidade de interromper a entrevista caso considerassem necessário. Como a coleta de dados ocorreu em paralelo ao processo analítico, característica da GT, não foi realizado teste piloto.

Os dados foram coletados entre novembro de 2021 e outubro de 2023, nos cenários da pesquisa, em datas e horários indicados pelos participantes e em ambiente reservado. A coleta foi realizada pela pesquisadora principal (LSC), que é enfermeira, mestre e, à época, doutoranda em enfermagem, sem vínculo com o cenário da pesquisa e sem quaisquer conflitos de interesse com a instituição ou com os profissionais. A pesquisadora principal possui competência com a técnica de coleta e referencial metodológico, a partir de treinamentos junto ao pesquisador orientador (IRS), bem como em pesquisas anteriores.

As entrevistas tiveram duração média de 30 minutos. Por considerar a natureza do método, em que os significados apresentados pelos participantes da pesquisa devem emergir de processos indutivos e dedutivos(10) no decurso da entrevista, sobretudo a partir de perguntas circulares, as entrevistas não foram devolvidas aos participantes para acréscimos ou ajustes.

A coleta de dados foi interrompida a partir da saturação teórica, sob a perspectiva dos autores da GT, mediante processo de coleta e análise simultâneos de dados. Assim, no decurso analítico, os pesquisadores discutiram o processo de identificação dos conceitos/categorias e subcategorias, com densidade teórica capaz de permitir a compreensão da realidade investigada(9,10). Esse processo é favorecido pela utilização de memorandos (anotações reflexivas de campo), recursos analíticos empregados durante e após as entrevistas(9).

Os memorandos permitem direcionar possíveis novas perguntas em entrevistas posteriores, de modo que não houve a necessidade de repetição de entrevistas(9). Ademais, tais recursos permitiram reflexões sobre o desenvolvimento dos conceitos, de modo que auxiliaram na compreensão e consenso sobre a saturação teórica dos dados, devidamente discutida entre os pesquisadores.

Análise dos Dados

Os dados foram analisados por todos os autores, que eram doutorandos e doutores em enfermagem, além de professores universitários. As entrevistas foram submetidas à análise seguindo as etapas de codificação da GT na perspectiva corbiniana(9), que são aberta, axial e integração. Na codificação aberta, os dados foram segmentados em partes distintas e minuciosamente examinadas, cuja comparação visou captar similaridades entre os dados iniciais (códigos preliminares). A partir da análise comparativa dos códigos preliminares, esses foram agrupados, o que permitiu a delimitação de códigos conceituais, apresentados como representações abstratas de fatos, objetos ou ações percebidos como significativos pelos pesquisadores. O agrupamento dos códigos conceituais por similaridades originou subcategorias e, mediante densidade analítica e conexões entre elas, foi delimitada a categoria(9,10).

As subcategorias foram ordenadas a partir do modelo paradigmático, que considerou três componentes: 1) condições, que tratam dos fatores que influenciam o desenvolvimento do fenômeno investigado; 2) ações-interações, que tratam das estratégias de desenvolvimento e enfrentamento do problema; 3) consequências, que sinalizam as potenciais reações a partir das estratégias implementadas(9).

Aspectos Éticos

Pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, sob os Pareceres nº 4.970.482, nº 5.036.468 e nº 5.118.815. Os participantes foram esclarecidos quanto à natureza e finalidade da pesquisa, bem como às motivações dos pesquisadores, e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Suas identidades foram mantidas anônimas, pois, ao longo do artigo, foram caracterizadas da seguinte maneira: EH (enfermeiro hospitalar); TEH (técnico de enfermagem hospitalar); EAP (enfermeiro de Atenção Primária); e TEAP (técnico de enfermagem de Atenção Primária). Utilizaram-se os acrônimos seguidos pelo número das suas respectivas entrevistas.

RESULTADOS

Participaram da pesquisa 25 profissionais de enfermagem, dos quais 17 eram enfermeiros, sendo 11 do cenário hospitalar e seis da Clínica da Família, e oito eram técnicos de enfermagem, dos quais seis eram do cenário hospitalar e dois da Clínica da Família. A média de idade dos profissionais inseridos no contexto hospitalar foi de 35 anos. Já no cenário da Clínica da Família, a média de idade foi de 28 anos.

O tempo médio dos profissionais de enfermagem, no cenário hospitalar, foi de 16 anos, para os técnicos de enfermagem, e de 11 anos, para os enfermeiros. Já os profissionais da Clínica da Família, a média foi de dois anos para os técnicos de enfermagem e quatro anos para os enfermeiros. Todos os enfermeiros possuiam, pelo menos, uma pós-graduação. Apenas três eram técnicos de enfermagem.

Do processo analítico, emergiu o conceito/categoria “Estratégias para o enfrentamento de fake news na saúde: uma abordagem complexa sob a perspectiva da enfermagem”, que, sob o emprego do modelo paradigmático, está sustentado nas seguintes subcategorias, assim distribuídas no modelo paradigmático do método: “Operadores de fake news: quem são e como evitálos? (condições)”; “Fontes confiáveis: argumentos de autoridade ou autoridade de argumentos?”; “Conhecer para intervir: elementos de identificação de fake news (ações-interações)”; “Maneiras de combater fake news (consequências)”. Cumpre destacar que os trechos de depoimentos utilizados no decurso do artigo são meramente ilustrativos da contextualização dos resultados, pois os dados brutos (entrevistas) são mais amplos que seus fragmentos.

Operadores de Fake News: Quem São e Como Evitá-Los?

Esta subcategoria sinaliza, sob a perspectiva dos profissionais de enfermagem, os operadores de fake news (aqueles que elaboram e/ou disseminam e/ou consomem notícias falsas) mais expressivos, que se dividem em dois grupos. O primeiro é constituído por pessoas ou fontes de informações próximas, com as quais há interação, como os próprios pacientes, acompanhantes, familiares e vizinhos.

Os profissionais de enfermagem consideraram que as interações entre os emissores de fake news e os pacientes, quando estabelecem relações de confiança, implicam interferências na prática profissional e, consequentemente, nos cuidados de enfermagem. Para os enfermeiros e técnicos de enfermagem, as influências de fontes informais, mas confiáveis do ponto de vista dos pacientes, resultam em distorções das práticas de saúde e qualidade do cuidado, cujo cenário é percebido como preocupante para os profissionais de saúde investigados, sobretudo por fragilizar a autoridade de seus argumentos, de modo a implicar a desvalorização de práticas seguras de saúde e de cuidados.

Eles escutam o vizinho, o site Google, e desmenti-los não é uma tarefa fácil. (EH11)

A gente percebe o nosso cotidiano com os pacientes e com nossos familiares. Não acho que exista ninguém atualmente que não conheça um familiar que posta, diariamente, nos grupos, fake news. (TEAP16)

E os pacientes são totalmente leigos nos assuntos de saúde. Então, quando eles recebem (fake news) dos vizinhos ou de um parente, eles acabam acreditando e divulgando essas informações erradas. (EH4)

Muitas das vezes, são informações distorcidas do nosso cuidado com nenhuma evidência comprovada, provenientes de um familiar, de um amigo, o que torna essas fake news mais seguras para o paciente. Isso acaba influenciando, porque, como não tem uma relação familiar com ele, tudo que a gente fala é colocado em questionamento. (EAP13)

Porque o paciente vem com uma informação que ele acha que tá certa, porque algum conhecido disse. Muitas vezes, nem é profissional da saúde. Falou, ele (paciente) acha que tá certo. (EH3)

Tem uns que acreditam, mas tem outros que não. Fazem porque a mãe falou, a avó falou [...] você vai administrar o medicamento prescrito, aí vem o paciente recusando a administração porque faz mal, porque ele viu no Google que afeta algum sistema ou porque alguém disse. (EH7)

O segundo grupo percebido pelos profissionais de enfermagem foi formado por personalidades distantes do convívio pessoal dos pacientes e dos próprios profissionais, mas que, de semelhante modo ao grupo anterior, exercem consideráveis influências para o processo de compreensão da realidade, bem como para a construção de significados sobre saúde daqueles que consomem e divulgam fake news. Nessa conjuntura, identificaram lideranças políticas, artistas e digitais influencers como elementos desse grupo.

Cabe também destacar a percepção dos participantes sobre a politização da informação em saúde, cujo foco pode estar relacionado ao campo de interesses de quem produz e divulga fake news, com potenciais comprometimentos da confiança das instituições e profissionais de saúde.

Na (pandemia de) COVID-19, teve posts e mensagens de lideranças falando acerca de assuntos dos quais eles não tinham conhecimento nenhum. (TEH3)

Por exemplo, ultimamente, com relação à vacina, algumas pessoas propagam informações que contradizem a sua eficácia, desestimulando a população a se vacinar. Está muito interligado com a política também, eu acho e, com isso, prejudica as políticas de saúde. (EH6)

E também tem uma questão política, por exemplo, do governo, disparando informações que não são verdadeiras para benefício próprio. (EH8)

A gente recebe um paciente dizendo que viu um vídeo no YouTube®de uma pessoa tal. Muitas vezes, a pessoa que está dando aquela informação lá nem é profissional. (EAP18)

Infelizmente, a gente tem uma população que não tem muito estudo, que não entende o processo saúde- doença e tudo que vê na internet acredita e acaba disseminando. Elas deixam se levar por influencers que aparecem na mídia. Por exemplo, artistas, políticos que eles possuem admiração. Quando pessoas nesta posição acabam falando algo que desconhecem, eles possuem o papel de influenciar pessoas leigas. (TEH3)

Os profissionais de enfermagem reconhecem que os operadores de fake news estabelecem tais interações de forma expressiva no ambiente virtual a partir das mídias sociais. Os significados atribuídos pelos participantes a essas plataformas são relacionados aos perigos que oferecem, especialmente em decorrência da dinâmica que assumem nos processos de divulgação e acesso de fake news.

A internet, o Instagram®, que é surreal, é muito perigoso, e o WhatsApp®, que é mais surreal ainda. (EH24)

Principalmente as redes sociais. O Instagram®, o Twitter® (“X”), acho que propagam muitas fake news. (EH23)

Nos últimos tempos, as fake news ganharam força por conta do WhatsApp®, né?! (TEAP20);

Notícias falsas estão sendo repassadas [...] através das redes sociais. (TEH12)

Fontes Confiáveis: Argumentos de Autoridade ou Autoridade de Argumentos?

Os profissionais de enfermagem atribuem significados que sinalizam confiabilidade para fontes oficiais de instituições consolidadas, como Ministério da Saúde, Secretarias Municipais de Saúde e nas Normas Técnicas oriundas desses contextos. Reconhecem a confiabilidade de fontes jornalísticas, sobretudo aquelas que corroboram as fontes governamentais.

O reconhecimento das fontes confiáveis significadas pelos profissionais de enfermagem está centrado no argumento da autoridade que tais fontes representam. Nesse sentido, valorizam órgãos especializados, como Fundação Oswaldo Cruz e Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Ademais, os participantes sinalizaram a importância da facilidade de acesso à informação a partir de mídias sociais utilizadas pelos órgãos governamentais e especializados.

Eu acredito que deve buscar as informações das Normas Técnicas, que são divulgadas pela Secretaria de Saúde, ficar atenta às redes da prefeitura, participar das capacitações que são oferecidas. (EAP17)

Eu acho que, hoje em dia, está tudo muito fácil. Até o próprio Ministério da Saúde, a Anvisa tem Instagram®para desmentir as informações nas redes. Então, esses órgãos entraram nas redes para educar. Eu tento entrar através desses órgãos. (EH6)

O Ministério da Saúde, para mim, é uma fonte segura. Às vezes, quando é uma notícia de saúde que passou nos jornais, que eles dizem, né?! Procurar a fonte jornalística mais segura. (EH11)

Eu acho que são os órgãos do governo, o Ministério da Saúde, a Fiocruz. Para mim, são eles que têm um grupo de especialistas que vão estudar e conseguir passar as medidas corretas. (TEAP20)

Em perspectiva descentralizada, os profissionais de enfermagem atribuíram confiabilidade às fontes que se constituíram nas interações do cotidiano laboral, tais como chefias/lideranças de enfermagem e demais enfermeiros. Entretanto, revelaram, também, certo grau de ceticismo em relação à busca por informações junto a profissionais que, embora por eles reconhecidos como referências de conhecimento, nem sempre foram percebidos, de forma inequívoca, como fontes seguras de informação.

A gente busca de alguma forma. Quando tem alguma coisa diretamente relacionada ao hospital, a gente pergunta à chefia. Pelo menos, eu pergunto. (TEH5)

Eu considero os conhecimentos do enfermeiro como fontes importantes. (TEAP16)

Então, eu acho que elas devem desconfiar, a princípio, e depois, sempre escutar as pessoas que são referências naquela área, quem estuda o assunto. Os enfermeiros podem ser fontes confiáveis. (EH2)

Também foram elencadas pelos participantes como fontes seguras de informação aquelas consideradas veículos tradicionais de comunicação, como rádio, televisão e jornais, cuja confiabilidade está na autoridade do argumento que os enfermeiros e técnicos de enfermagem compreendem que é estabelecida a partir do compromisso e da capacidade de investigação desses veículos.

Buscando em canais de notícias fidedignas, como os jornais que já possuem um processo de comprovar a informação. (EH25)

Meios mais tradicionais de informação como jornais, mesmo que online, mas que tragam o nome e a referência de onde saiu aquela informação. (EH14)

Na internet, você posta o que você quer. O jornalismo, na televisão, precisa, de fato, de embasamento para passar aquela informação para você. Além de noticiar, ele vai no local, ele faz as perguntas. Existe um processo de investigação. (EH26)

Sempre busco informações nas bases de dados e também de telejornais, porque eles já possuem mecanismos de checagem da informação. Depois da pandemia de COVID-19, acho que se intensificou ainda mais. (EAP19)

Para os enfermeiros entrevistados, são fontes confiáveis de informações aquelas relacionadas diretamente à ciência, a partir de bases de dados especializadas, como LILACS, BDENF, PubMed, além de ferramentas mais genéricas, como o Google®. Nesse contexto, significam as revistas científicas como fontes confiáveis para abordagens específicas, como discussão de casos.

A base de dados da saúde mesmo. O LILACS, BDENF, PubMed são as que dão mais respaldo pra gente mesmo, e não o Google®. (EAP14)

Eu acredito que o enfermeiro tem que se basear em informações de fontes seguras, como as bases de dados, as bibliotecas virtuais e revistas científicas. (EH04)

Buscar artigos nas bases de dados, como o LILACS e BDENF, que concentram ali acervo de revistas científicas. (EH06)

Também temos acesso aos artigos, então, sempre que há discussão de casos, buscamos as revistas científicas, as bases de dados. (EAP17)

Conhecer Para Intervir: Elementos de Identificação de Fake News

Para os participantes do estudo, fake news apresentam indícios em sua estrutura que permitem identificar a sua natureza mentirosa. Dessa maneira, algumas ações foram apontadas, como a necessidade de se verificar a fonte da informação e confrontá-la com outras fontes consideradas seguras.

Conforme o exposto, para os profissionais de enfermagem, as fake news podem apresentar, no conjunto de seus dados informativos, uma parte verdadeira que é associada com uma parte falsa. Nesse sentido, mencionam a autoria, o canal de comunicação em que a notícia é veiculada e o método utilizado como indicadores que garantem a confiabilidade da informação acessada e disseminada.

Essas notícias são como telefones sem fio. Possuem uma mínima parte de verdade, mas quem vai repassando vai sempre aumentando com mentiras. (EH8)

Às vezes, é citada uma coisa, e isso, na área da saúde, acontece muito. As pessoas veem que algo está sendo estudado, e já misturam os dados de outros estudos, e distorcem a informação. (EH22)

Então, observar o autor daquela matéria, procurar em mais de uma fonte. Se for vídeo, observar a qualidade do vídeo, se ele foi editado. (EH23)

Acreditando que pesquisar, observar quem foi a pessoa que escreveu aquela informação. Verificar se ela é uma profissional que realmente conhece sobre aquele assunto. (TEH21)

Além disso, ter muita atenção ao ler essas informações falsas, normalmente, sempre vem com um título sensacionalista, com um nome conhecido que deixa a gente sempre na dúvida. (EAP15)

Eu acho que elas devem, a princípio, desconfiar. Depois, sempre escutar as pessoas que são referências naquela área, quem estuda o assunto. (EH2)

Entretanto, os entrevistados, apesar de sinalizarem esses elementos de identificação, consideraram que as fake news são informações de difícil reconhecimento, como demonstram os trechos a seguir:

Quando vemos as notícias nas redes, fica difícil você distinguir o que é mentira ou verdade naquela informação, porque, cada dia que passa, elas estão mais bem elaboradas. (EH1)

Às vezes, a gente fica com dúvida quando se depara com essas informações falsas. Porque, hoje em dia, os recursos também estão bem avançados (TEAP20)

Eu não vou dizer que é uma tarefa fácil. Nem sempre, à primeira vista, a gente consegue identificar. (EAP19)

Maneiras de Combater Fake News

Esta subcategoria contempla os dados apresentados pelos participantes do estudo nas ações que, segundo eles, resultam no combate à disseminação de fake news na saúde, mesmo no contexto de trabalho da enfermagem, em especial junto aos pacientes. Para tal finalidade, os dados revelaram a importância da educação em saúde como principal estratégia utilizada pelos profissionais.

Os recursos apontados pelos depoentes apresentam diferentes possibilidades de enfrentamento de fake news, sobretudo aquelas centradas na orientação e em recursos visuais, a partir da elaboração de cartilhas com foco nos problemas de saúde.

Eu acho que a única maneira é orientar pacientes e acompanhantes. É o que a gente tem feito aqui trazendo uma pessoa que trabalhe naquela área para explicar. (TEH07)

Acho que as cartilhas informativas podem ser uma opção. Acredito que essa educação sobre informações falsas é interesse de todo mundo. (EH2)

Orientação diariamente dos pacientes, dos acompanhantes. E acho importante que essas ações de educação envolvam toda comunidade, os agentes de saúde, o representante comunitário, as escolas. (TEAP16)

Eu normalmente tenho conversado, orientado quando encontro pacientes ou familiares que acreditam em notícias que são propagadas falsamente nas redes sociais. Nem sempre eles escutam, mas o meu papel de orientar, eu faço. (EH1)

Eu acho que educação em saúde, que é uma coisa que é muito presente, inclusive na Atenção Primária, também. Acho que a gente falar e informar as pessoas, levar conhecimento às pessoas. Acredito que seja uma ferramenta fundamental basicamente para se combater fake news. (EAP15)

Outro recurso pedagógico sinalizado está na necessidade de campanhas de conscientização com o objetivo de combate aos mitos e tabus que contribuem para a propagação e reiteração de fake news.

Eu acho que deveria ter campanhas de conscientização em relação ao compartilhamento dessas informações, porque essas informações acabam tendo essa magnitude toda porque há pessoas que compartilham. (EH4)

Acho que campanhas dentro do hospital para poder conscientizar os pacientes em relação a certos cuidados. Eu penso que, sempre que possível, deve haver ações de educação: podem ser palestras, rodas de conversas [...] acho que a gente deve se aproximar desse paciente, tentando entender as dúvidas e elucidar ponto a ponto, como eu faço quando me deparo com situações de falta de informação. (TEH3)

Uma ação interessante que eu acho que pode ser feita, igual é feita na vacinação, são as campanhas de conscientização, porque pode sensibilizar e alertar as pessoas que fake news geram problemas. (EAP14)

Os enfermeiros da área hospitalar mencionaram, como estratégia de enfrentamento de fake news, o desenvolvimento e a valorização de perfil de checagem de informações nas redes sociais, com destaque para o Workplace®.

Eu penso que deve ter uma fonte segura, uma plataforma, sei lá, onde seja possível você replicar a informação e, no final, ela dizer se é verdadeira ou não. (EH6)

Vejo que poderia ser criado no público algo como Workplace®. É similar ao Facebook®, porém com intuito de disseminar ações, informações seguras na instituição. Acho uma ideia interessante que poderia ser utilizada como estratégia, pois seria como uma rede social do hospital e que daria para gerenciar as informações pelos profissionais. (EH08)

Ademais, os participantes ressaltaram a educação permanente como estratégia importante junto aos profissionais de enfermagem, a partir da realização de cursos ou palestras, com intuito de capacitá-los mediante conhecimentos e atitudes, a fim de transladar tais conhecimentos aos pacientes.

Acho que nós profissionais precisamos de cursos de capacitação, cursos ou palestras que elucidem dúvidas dos assuntos que usualmente são apontados nas fake news. (EH4)

Essas capacitações são importantes porque nos dá segurança. Nos faz ter uma reflexão do nosso cotidiano de trabalho; traz novas trocas. Isso faz com que a gente se sinta mais preparado para enfrentar essas notícias quando o usuário nos traz. (EAP17)

Portanto, do conjunto dos princípios/subcategorias, emergiu a teoria substantiva, pautada na complexidade, que sinaliza a multidimensionalidade para o enfrentamento das fake news na saúde, a partir da perspectiva da enfermagem. O objetivo é reconhecer as conexões entre os operadores das fake news, as fontes de informação e suas implicações simbólicas, entre argumentos de autoridade e autoridades do argumento, bem como as maneiras múltiplas de combater as notícias falsas na saúde.

DISCUSSÃO

O contexto de onde emergem fake news influencia tanto ou mais do que a própria informação falsa divulgada. Nesse sentido, lideranças políticas e sanitárias devem assumir o compromisso com políticas públicas e estratégias mobilizadoras para um conhecimento capaz de romper a lógica pautada na pós-verdade, mediante inclinações limitadas ao campo das emoções(8,11). Tal realidade é fortalecida por bolhas virtuais, impulsionadas por tecnologias de comunicação, como WhatsApp®, Facebook®, Instagram®, “X”® e tantas outras. Em conjunto, tais mídias estimulam interações restritas às perspectivas comuns aos grupos de pertencimento virtuais, de modo a reiterar o processo não dialético de conhecimento em grupos restritos(4,11,12).

Na perspectiva da complexidade(1), a relação de interdependência entre grupo e integrantes não se estabelece apenas pelo princípio hologramático, no qual o todo contém as partes e as partes representam o todo. Para o pensamento complexo, a dinâmica de interação entre essas dimensões faz emergir, sobretudo, o princípio do circuito-recursivo, cujos atores são produtores e produtos de si mesmos. Assim, a reiteração do pensamento comum que reifica as fake news está pautada na qualidade das interações entre as partes e o todo, cuja relação de confiança exerce reciprocidade entre ambos, conformando-se em fator preponderante às ações motivadoras para o consumo e compartilhamento de fake news(13).

A interação entre conceitos e princípios desta pesquisa corrobora o princípio do circuito-recursivo, por estabelecer sobre os emissores de fake news um efeito de produto-produtor, pois, ao mesmo tempo em que emitem notícias falsas, são também consumidores-dependentes delas(1). Nesse processo cíclico, a literatura científica reitera que, no contexto da saúde, tratando-se de fake news, o discurso de autoridade prevalece sobre a autoridade do discurso(14), razão pela qual instituições de saúde e de pesquisa, assim como os próprios enfermeiros, devem estabelecer estratégias que permitam alcançar projeções de valorização da ciência(15). Para tanto, tais atores devem ser compreendidos como autoridades epistêmicas, facilitadoras do acesso à informação para a construção do conhecimento(16,17), que visa, entre outros objetivos, o enfrentamento das fake news na ciência e na saúde(18).

Esta pesquisa corrobora o que tem sido abordado na literatura científica sobre a magnitude das influências dos atores (lideranças e instituições), que conformam a perspectiva da autoridade do discurso sobre a disseminação e/ou combate de fake news. Todavia, o nível de conhecimento científico das pessoas que consomem e compartilham fake news também é um fator interveniente nessa realidade(19), de modo a reiterar a necessidade de melhores investimentos na formação científica do enfermeiro(20). Nessa conjuntura, tem-se que o enfermeiro, ao longo de sua formação, deve ser preparado para desenvolver competências de liderança, entre as quais está a condição precípua de mobilizar esforços para um propósito comum, sob uma lógica capaz de motivar, pelo exemplo, o que inclui a valorização da ciência. Assim, tem-se que é papel do enfermeiro se manter informado e atualizado sobre as matérias que poderão influenciar os seus processos decisórios, o que envolve a necessidade de vigilância epistêmica e proficiência científica para saber interpretar dados e decodificar informações que se supõem científicas(21).

Diante do exposto, é possível inferir que o enfrentamento da desinformação envolve a própria complexidade na gestão do conhecimento, como a capacidade para consumir, decodificar, comunicar e avaliar a informações científicas que visam gerar conhecimentos, cujas consequências poderão refletir comportamentos que afetam a saúde. Portanto, faz-se necessário, também, saber a dinâmica e a procedência das informações consumidas(17), bem como a assunção da necessidade de proficiência tecnológica e científica para o acesso, consumo e disseminação de informações verdadeiras.

Algumas ações podem compor a vigilância no combate à desinformação ocasionada por fake news no âmbito da saúde. Os dados desta pesquisa corroboram, também, indicativos de vigilância epistêmica da informação, pois, no jornalismo, por exemplo, a garantia da integridade da informação cabe ao próprio contexto jornalístico, seja pelo profissional, pelo veículo de divulgação ou por associações relacionadas ao compromisso com a veracidade das notícias na imprensa. Entretanto, outras medidas podem fazer a diferença, como a verificação da data da informação divulgada(22), pois o espaço temporal pode fazer com que a informação obsoleta configure uma fake news quando divulgada como conjunto de dados atuais. Ademais, a velocidade com que as fake news se espalham é maior que a dinâmica de estratégias para combatê-las, dentre as quais estão as agências de checagem jornalísticas, que funcionam de acordo com a demanda dos usuários, que sinalizam a necessidade de verificar essas notícias(23).

A utilização de recursos tecnológicos em ações de educação em saúde configura, também, importante estratégia para o combate à desinformação. Todavia, cabe ressaltar a importância de os profissionais de enfermagem buscarem esses recursos e disponibilizar informações coerentes, de qualidade, fundamentadas cientificamente(24). Para tanto, o processo de comunicação da ciência, especialmente no âmbito da saúde, deve ser uma competência a ser, constantemente, desenvolvida pelos profissionais de enfermagem(20).

Tratando-se das fontes, os resultados desta pesquisa são corroborados por evidências que sinalizam a natureza das fontes de informações como elemento que integra a multidimensionalidade dos acessos e disseminação de fake news na saúde, a partir das mídias sociais. Em estudo realizado pela Iowa State University com estudantes universitários, demonstrou-se que a maioria (69%) dos participantes conseguiu determinar com sucesso a veracidade das publicações sobre saúde em mídias sociais. Porém, destacou que, entre os elementos que direcionaram a capacidade de julgamento dos estudantes, estão principalmente a credibilidade conferida à fonte, à aparência e ao estilo do design das postagens(19).

Em uma perspectiva complexa, a disseminação de fake news na saúde deve ser compreendida sob análise de conjuntura que seja capaz de destacar as nuances contextuais que envolvem elementos socioeconômicos e culturais(25). Tal entendimento é corroborado por pesquisa realizada com 5.307 entrevistados, em seis países da África Subsaariana, cujos dados destacaram que, embora parte expressiva das fake news sobre saúde seja disseminada acidentalmente, há uma parte considerável de indivíduos que compartilham propositalmente tais informações. Porém, o mais significativo desses dados está nos determinantes individuais, os quais sinalizaram que pessoas mais velhas, do sexo masculino, mais propensas a assumirem riscos, são os atores mais inclinados à prática de compartilhamento de informações falsas sobre saúde(25).

Os dados desta pesquisa são, portanto, corroborados pela literatura, notadamente em relação à multidimensionalidade que envolve o consumo e a disseminação de fake news na área da saúde, a partir da importância do contexto, das fontes e da reiteração das notícias(8,16,19,24). Todavia, eles se destacam por apresentar uma perspectiva complexa da enfermagem sobre a temática, especialmente por ser esta a profissão que ocupa o maior número de postos de trabalho no setor de saúde em todos os sistemas do planeta, bem como por ser estratégica para o combate à desinformação na área(8).

As limitações da pesquisa estão relacionadas ao campo epistêmico, posto que a natureza dos participantes inseridos somente no contexto público de saúde pode, por exemplo, conformar-se em significados específicos sobre fake news nas áreas da saúde e da enfermagem.

CONCLUSÃO

Os significados desvelados pelos profissionais de enfermagem consideraram a complexidade do combate às fake news na saúde e na própria enfermagem, evidenciando que a disseminação dessas informações ocorre por múltiplas vias e está inserida em dinâmicas sociais, políticas e tecnológicas. Para os enfermeiros e técnicos de enfermagem, independentemente do cenário de atuação, há desafios significativos ao lidar com pacientes influenciados por fontes não confiáveis, sejam elas familiares, redes sociais ou figuras públicas. Ademais, os resultados desta pesquisa alcançaram o objetivo do estudo, ao sinalizarem a importância do desenvolvimento de mecanismos institucionais de checagem e da promoção de campanhas educativas como estratégias essenciais para minimizar os impactos das fake news no cuidado à saúde.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

  • Apoio financeiro
    Fundação Carlos Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro - E-26/SEI-260003/014794/2022.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Cristina Lavareda Baixinho

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    28 Mar 2025
  • Aceito
    26 Jan 2026
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