RESUMO
Objetivo: Analisar o custo afetivo do trabalho em policiais militares da região metropolitana do Rio de Janeiro.
Método: Estudo transversal, realizado com 446 policiais militares, de ambos os sexos, de 5 batalhões da polícia militar do Rio de Janeiro. Utilizou-se um questionário sociodemográfico, laboral e de condições de saúde e a Escala de Avaliação do Custo Humano no Trabalho. Os dados foram organizados, processados e analisados com o auxílio do Programa Statistical Package for the Social Sciences, versão 13.1.
Resultados: O custo afetivo do trabalho foi considerado de grave a crítico entre os policiais militares, sendo observada associação estatisticamente significativa entre a avaliação do custo afetivo grave e licença médica em virtude de transtorno bipolar (p = 0,035), alterações cognitivas de percepção (p = 0,009), atenção (p = 0,053) e memória (p = 0,015), idade (p < 0,001), tempo de trabalho (p < 0,001) e sono (p < 0,034).
Conclusão: É essencial promover um ambiente saudável, conscientizar sobre a importância da saúde mental e buscar ajuda profissional quando necessário. Garantir a saúde mental dos policiais é fundamental para sua felicidade e qualidade de vida, e bom desempenho da sua função, com consequências positivas para a sociedade, corroborando a necessidade urgente de intervenções e suportes contínuos nesta área.
DESCRITORES
Saúde ocupacional; Polícia; Enfermagem; Angústia Psicológica
ABSTRACT
Objective: To analyze the affective cost of work for military police officers in the metropolitan region of Rio de Janeiro.
Method: Cross-sectional study carried out with 446 military police officers, of both sexes, from 5 military police battalions in Rio de Janeiro. A sociodemographic, work and health conditions questionnaire and the Human Cost at Work Assessment Scale were used. Data were organized, processed, and analyzed using the software Statistical Package for the Social Sciences, version 13.1.
Results: The affective cost of work was considered serious to critical among military police officers, with a statistically significant association being observed between the assessment of serious affective cost and medical leave due to bipolar disorder (p = 0.035), cognitive changes in perception (p = 0.009), attention (p = 0.053) and memory (p = 0.015), age (p < 0.001), working time (p < 0.001), and sleep (p < 0.034).
Conclusion: It is essential to promote a healthy environment, raise awareness about the importance of mental health, and seek professional help when necessary. Ensuring police officers’ mental health is critical to their happiness and quality of life, and to their ability to perform their duties effectively. This has positive consequences for society, underscoring the urgent need for ongoing interventions and support in this area.
DESCRIPTORS
Occupational Health; Police; Nursing; Psychological Distress
RESUMEN
Objetivo: Analizar el costo afectivo del trabajo en los policías militares de la región metropolitana de Río de Janeiro.
Método: Estudio transversal realizado con 446 policías militares, de ambos sexos, de 5 batallones de la policía militar de Río de Janeiro. Se utilizó un cuestionario sociodemográfico, laboral y de condiciones de salud, así como la Escala de Evaluación del Costo Humano en el Trabajo. Los datos se organizaron, procesaron y analizaron con la ayuda del programa Statistical Package for the Social Sciences, versión 13.1.
Resultados: El costo afectivo del trabajo se consideró de grave a crítico entre los policías militares, observándose una asociación estadísticamente significativa entre la evaluación del costo afectivo grave y la baja médica por trastorno bipolar (p = 0,035), alteraciones cognitivas de la percepción (p = 0,009), la atención (p = 0,053) y la memoria (p = 0,015), la edad (p < 0,001), el tiempo de trabajo (p < 0,001) y el sueño (p < 0,034).
Conclusión: Es esencial promover un entorno saludable, concienciar sobre la importancia de la salud mental y buscar ayuda profesional cuando sea necesario. Garantizar la salud mental de los policías es fundamental para su felicidad y calidad de vida, así como para el buen desempeño de su función, con consecuencias positivas para la sociedad, lo que corrobora la urgente necesidad de intervenciones y apoyos continuos en esta área.
DESCRIPTORES
Salud Laboral; Policia; Enfermería; Distrés Psicológico
INTRODUÇÃO
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) lançaram um apelo urgente pela adoção de medidas efetivas que enfrentem as preocupações relacionadas à saúde mental dos trabalhadores, diante do impacto expressivo que essas questões exercem sobre o ambiente laboral. Segundo o Relatório Mundial de Saúde Mental da OMS, publicado em 2022, em 2019 cerca de 1 bilhão de pessoas viviam com transtornos mentais e 15% dos trabalhadores adultos foram afetados por problemas psicológicos que prejudicaram seu desempenho no emprego(1).
O ambiente de trabalho dos policiais militares impõe uma elevada carga emocional, marcada por exigências organizacionais rígidas, estrutura hierarquizada e constante exposição a situações de risco, o que favorece o sofrimento psíquico e o adoecimento emocional. Tais condições podem ser comparadas às enfrentadas por profissionais da saúde pública, que também convivem com sobrecarga de trabalho, medo, sensação de desamparo e exaustão emocional. Esses fatores, comuns a ambos os contextos, evidenciam a necessidade urgente de políticas institucionais que promovam suporte psicológico contínuo, ambientes de trabalho saudáveis e lideranças capacitadas para lidar com os impactos emocionais do trabalho(2).
Embora as diretrizes institucionais recomendem práticas eficazes para atender às necessidades dos trabalhadores, sobretudo no que se refere à saúde mental, o tema ainda é tratado como tabu em muitos ambientes laborais. Essas diretrizes orientam ações de acolhimento e cuidado que visam promover o bem-estar psicológico dos colaboradores, mas muitas vezes não são colocadas em prática. O silêncio que cerca os transtornos psíquicos revela tanto o estigma que associa sofrimento à fraqueza quanto a dificuldade das instituições em implementar ações efetivas de acolhimento. Além disso, modelos de gestão centrados na produtividade, o despreparo das lideranças e o receio de represálias por parte dos trabalhadores dificultam o enfrentamento do problema. Nesse contexto, é fundamental promover uma cultura organizacional baseada no cuidado, com acesso a apoio psicológico, capacitação de gestores, práticas laborais saudáveis e programas de reintegração que respeitem os limites dos trabalhadores. Tais medidas são essenciais para romper o ciclo de invisibilidade que ainda marca a relação entre saúde mental e trabalho e representam formas eficazes de atender às necessidades dos trabalhadores de maneira humana, respeitosa e preventiva(3).
No contexto laboral do policial militar, também denominado agente de segurança pública, esse profissional lida com demandas únicas em sua rotina, estruturadas por desafios organizacionais que podem desencadear diversos tipos de adoecimento, com reflexos diretos na saúde mental. Evidências demonstram que esses trabalhadores apresentam baixa qualidade de vida geral, com forte associação entre capacidade laboral precária e piora dos componentes físicos e mentais da saúde. Além disso, fatores como consumo excessivo de álcool e idade mais jovem estão relacionados a uma menor saúde mental, revelando a vulnerabilidade desse grupo ocupacional. Tais achados refletem como a natureza estressante da atividade policial, marcada pela violência, riscos constantes e longas jornadas, contribui para a deterioração da saúde e reforça a necessidade de estratégias de promoção da qualidade de vida e de prevenção do adoecimento(4).
Destacam-se exigências que colocam os policiais em constante tensão subjetiva: a necessidade de manter controle emocional em situações de alto risco, sem que haja espaço legítimo para expressão de fragilidades; o papel de protetor da sociedade, que se contrapõe à exposição contínua à violência e à ameaça à própria vida; a rigidez hierárquica da estrutura militar, que convive com a exigência de decisões autônomas em campo; e a cobrança por lealdade institucional, frente à sensação recorrente de desamparo quando o profissional adoece. Soma-se a isso a pressão por resultados operacionais, muitas vezes em contextos de escassez de recursos humanos e materiais. Essas contradições, estruturadas e persistentes, configuram um cenário organizacional que, longe de oferecer suporte, frequentemente contribui para o sofrimento psíquico e a cronicidade do adoecimento mental entre os agentes de segurança pública(5).
Considerando essa perspectiva, destaca-se a elevada carga emocional envolvida na atividade policial, em que o custo afetivo representa o dispêndio emocional decorrente de respostas afetivas, sentimentos e estados de humor. Esse aspecto do custo humano no trabalho é particularmente intenso em profissões com estruturas organizacionais hierarquizadas, como é o caso da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ)(6).
Corroborando essa afirmativa, um estudo identificou que o trabalho pode afetar negativamente a saúde mental dos trabalhadores, evidenciando quadros de estresse crônico, sintomas de ansiedade e depressão, sensação constante de vulnerabilidade, dificuldades de acesso a serviços especializados em saúde mental, distúrbios do sono, fadiga persistente e elevado risco de burnout. Tais efeitos estão diretamente associados à sobrecarga emocional e à percepção de desamparo por parte das instituições(7). Apesar da ampla literatura disponível sobre os aspectos da saúde mental de policiais militares, ainda se observam lacunas de conhecimento nesse campo, especialmente no que se refere aos fatores individuais e laborais relacionados ao adoecimento, bem como aos fatores protetivos e às intervenções possíveis(8).
Considerando a complexidade da atividade militar apontada na literatura(9) e visando identificar lacunas sobre o custo humano no trabalho de policiais militares, foram realizadas buscas bibliográficas na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e National Library of Medicine (Pubmed/NLM), de artigos publicados no período de 2016 a 2021, em inglês e português, a partir da palavra-chave custo humano e dos descritores policial, saúde do trabalhador, condições de trabalho, riscos ocupacionais e desgaste profissional; e mesh terms police e occupational diseases. Foram selecionados para análise 36 artigos, dentre as 251 publicações identificadas, porém, nenhuma pesquisa abordou o contexto de trabalho de policiais militares no Rio de Janeiro e o custo humano associado, apesar de alguns estudos tratarem da saúde mental deste grupo de trabalhadores. Três artigos da área de Enfermagem focaram em policiais; entretanto, nenhum deles utilizou o Inventário do Trabalho e Riscos de Adoecimento (ITRA), que foi empregado no presente estudo, o que justifica a realização da presente pesquisa que visa preencher esta lacuna identificada.
Diante desse cenário, e considerando o contexto que envolve o comprometimento emocional do policial militar em seu ambiente de trabalho, o estudo teve como objetivo analisar o custo afetivo do trabalho em policiais militares da região metropolitana do Rio de Janeiro.
MÉTODO
Desenho do Estudo
Trata-se de um estudo de corte transversal, embasado nas diretrizes do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) para a redação do manuscrito.
Local do Estudo
A pesquisa foi realizada nos Batalhões da Polícia Militar (BPM) que apresentavam os maiores enfrentamentos armados na Região Metropolitana I do estado do Rio de Janeiro, de acordo com os altos índices de criminalidade apresentados no Simpósio Nacional de Vitimização Policial no Estado do Rio de Janeiro, realizado pela Polícia Militar em 2019.
População e Critérios de Seleção
O número de participantes foi determinado levando em consideração a quantidade total de 44.336 de policiais militares no estado do Rio de Janeiro. Foram critérios de seleção ser policial militar, de ambos os sexos, das posições hierárquicas: Praças (soldados, cabos, sargentos e subtenentes) e oficiais (tenentes, capitães, majores, tenentes-coronéis e coronéis), distribuídos entre 5 BPM do estado do Rio de Janeiro.
Todos os policiais das unidades militares selecionadas que estavam presentes durante a coleta de dados foram considerados para participação, desde que atendessem aos critérios de aptidão A (sem restrições de saúde) e aptidão B (com algumas restrições de saúde e sem restrição ao porte de arma) e estivessem aptos a responder às perguntas dos questionários. Militares inativos, de férias ou com aptidão C (problemas de ordem psíquica ou outro problema de saúde mais sério, com restrição ao porte de arma por tempo determinado), foram excluídos.
Definição da Amostra
Para o cálculo amostral, empregou-se o software EPI-INFO na sua versão 7.2.2.16, com margem de erro de 5,0%, nível de confiança de 95,0%, estimativa de proporção de 50,0% e taxa de perda de 20,0%. A amostra estratificada foi de n = 417. No entanto, outros policiais manifestaram interesse em participar do estudo durante a coleta de dados e foram incluídos na amostra, pois atendiam os critérios de inclusão. Participaram do estudo 446 policiais militares.
Os batalhões foram denominados de A, B, C, D e E para garantir o anonimato, e os participantes foram assim distribuídos por batalhão: A (n = 108); B (n = 104); C (n = 98); D (n = 54) e batalhão E (n = 82).
Instrumento de Coleta de Dados
O instrumento de coleta foi composto por um questionário sociodemográfico e a Escala de Avaliação do Custo Humano no Trabalho (EACHT). O questionário com perguntas sobre o perfil sociodemográfico, de saúde e trabalho tinha as seguintes variáveis: sexo, idade, possuir filhos, posição hierárquica, unidade de atuação, tempo de serviço na instituição militar, condições de saúde pré-existentes, licença com afastamento médico e quantidade de horas de sono. Não houve teste piloto deste instrumento.
A EACHT integra o ITRA, inventário validado no Brasil em 2003, adaptado e novamente validado em 2004 e 2006, sendo posteriormente publicado em 2007. A análise fatorial revelou adequação dos dados, com Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) = 0,91, indicando excelente adequação amostral para a aplicação do modelo (valores acima de 0,80 são considerados muito bons). O eigenvalue (autovalor) maior que 2 confirma que o fator extraído explica uma quantidade significativa da variância dos itens, sendo superior ao ponto de corte usual de 1,0. A solução fatorial apresentou variância total explicada de 44,98%, com 50% das correlações entre os itens acima de 0,30, o que reforça a consistência da estrutura fatorial.
A EACHT é composta por cinco fatores, que analisam as demandas relacionadas ao custo humano no trabalho: custo físico (questões de 1 a 10); custo cognitivo (questões de 11 a 20); e custo afetivo (questões de 21 a 30)(10). Para atender ao objetivo deste artigo, realizou-se um recorte da tese de doutorado da primeira autora, sendo analisado o fator que avalia o custo afetivo do trabalho(11).
Trata-se de uma escala do tipo Likert de cinco pontos, que indica o grau de exigência do trabalho, sendo: 1 – nada exigido; 2 – pouco exigido; 3 – mais ou menos exigido; 4 – bastante exigido; e 5 – totalmente exigido. Foi realizada a análise individual de cada item do fator custo afetivo da EACHT por meio da média aritmética e desvio padrão. O risco de adoecimento foi avaliado conforme a orientação dos autores, considerando-se as seguintes médias: acima de 3,70 – avaliação mais negativa, risco grave de adoecimento; entre 3,69 e 2,30 – avaliação moderada, risco crítico de adoecimento; e abaixo de 2,29 – avaliação mais positiva, satisfatória(10).
Coleta de Dados
Inicialmente, estabeleceu-se contato com o Comandante Geral da Polícia Militar por meio da Coordenação de Assuntos Estratégicos – CAEs, a fim de explicar a proposta da pesquisa e solicitar autorização para realizá-la em cada unidade. A partir da apresentação do documento oficial de aprovação emitido pela CAEs, a pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética da instituição proponente e, após sua aprovação, deu-se início à coleta de dados nas diferentes unidades. Desta forma, os militares foram convidados a participar da pesquisa e informados sobre seus objetivos e a importância da colaboração.
A coleta de dados ocorreu de dezembro de 2021 a junho de 2022, seguindo um cronograma previamente combinado com os participantes, em local definido pelos respondentes. Os participantes preencheram os instrumentos e foi estabelecido o prazo para a devolução no próximo plantão. Quando a devolução não aconteceu dentro do prazo previsto, uma nova tentativa foi realizada, havendo a devolução e não havendo perdas.
Análise e Tratamento dos Dados
Para a estruturação e organização do banco de dados, foram empregados os programas Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 13.1. para a plataforma Windows e o Excel 365 com o método de dupla digitação, visando reduzir possíveis equívocos e incongruências. Todas as análises foram conduzidas com um nível de confiabilidade de 95%, sendo consideradas apenas as respostas válidas.
Os dados foram apresentados em tabelas, com suas respectivas frequências absolutas e relativas. As variáveis quantitativas (características sociodemográficas e laborais e as do custo efetivo no trabalho da EACHT) foram apresentadas pelas medidas de centralidade e dispersão. Para verificar a relação estatisticamente significativa foram utilizados o Teste Qui-Quadrado e o Teste Exato de Fisher e, para avaliar a normalidade dos dados, optou-se pelo teste não paramétrico de Kolmogorov-Smirnov nas variáveis numéricas.
Com o intuito de avaliar a diferença entre três ou mais conjuntos de dados que não estavam relacionados, optou-se por utilizar o teste estatístico de Kruskal-Wallis.
Aspectos Éticos
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da instituição proponente seguindo as diretrizes da Resolução n.º 466/2012 e aprovado pelo parecer número 5.137.132. Todos os envolvidos leram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o qual foi assinado, confirmando a participação na pesquisa, e uma via assinada pelo pesquisador foi entregue a cada participante. Cabe ressaltar que a participação na pesquisa foi de livre e espontânea vontade, sendo permitida retirada do consentimento a qualquer momento, assim como a não resposta a qualquer uma das questões, caso o participante não se sentisse à vontade. Portanto, o “n” de cada variável apresentou variação do total amostral.
RESULTADOS
Participaram da pesquisa 446 policiais militares do Estado do Rio de Janeiro. No entanto, algumas questões do formulário não foram preenchidas. Em virtude dessa perda de informações, o “n” difere de acordo com as variáveis. Do total de participantes 86,7% (379) eram do sexo masculino e 13,3% (58) do sexo feminino; quanto ao estado civil 70,8% (311) eram casados(as) ou viviam em união, enquanto 29,2% (128) eram separados, divorciados, viúvos ou solteiros. Com relação ao número de filhos, 64,7% (289) referiram tê-los; destes, a maioria (47,4%, 137) tinha apenas 1 filho.
Os policiais militares foram questionados quanto aos motivos de licenças médicas. Nesta questão, havia a possibilidade de marcar mais de um diagnóstico, portanto, os dados estão apresentados em valores absolutos, a partir do número de participantes, com os respectivos diagnósticos: crise de ansiedade (n = 81), depressão (n = 64), síndrome do pânico (n = 21) e transtorno bipolar (n = 17).
Quando questionados se alguma vez já pensaram em suicídio, 15% (66) dos participantes responderam afirmativamente. Vale destacar que sete participantes não responderam ao questionamento. No que diz respeito às alterações cognitivas, 193 policiais responderam afirmativamente, sendo que 110 afirmaram ter apresentado alterações de memória, 63 alterações na atenção e 20 alterações de percepção.
A Tabela 1 apresenta média, desvio padrão e classificação de risco dos itens que compõem o fator custo afetivo do trabalho da EACHT.
Itens do fator custo afetivo do trabalho da Escala de Custo Humano do Trabalho segundo média, desvio padrão e classificação de risco para policiais militares do Estado Rio de Janeiro (n = 446) – Rio de Janeiro, Brasil, 2023.
Os itens estão apresentados em ordem decrescente a partir das médias. As respostas mais negativas foram em relação a “Ter controle das emoções” (μ = 4,06 ± 1,15), indicando risco grave para o adoecimento; e “Ter custo emocional” (μ = 3,67 ± 1,20), com risco crítico para o adoecimento. A resposta mais positiva foi em relação a “Ser obrigado a sorrir” (μ = 1,86 ± 1,20), indicando que os policiais avaliam que não são obrigados a sorrir, sendo este um fator positivo no contexto de trabalho. O desvio padrão foi maior que 1,00 em todas os itens do fator, indicando variabilidade nas respostas.
A Tabela 2 apresenta a associação entre o fator custo afetivo e as variáveis: já pensou em suicídio, motivo de licença médica, alterações cognitivas, idade, tempo na PMERJ e horas de sono por dia. Elegeram-se as variáveis que, de acordo com a literatura, podem influenciar a relação entre o contexto de trabalho e o custo humano no trabalho. Dentre as variáveis analisadas, foi observada associação estatisticamente significativa entre a avaliação do custo afetivo grave e licença médica em virtude de “transtorno bipolar”; e alterações cognitivas relacionados à “Percepção” e “Memória”. Foram também identificadas diferenças estatisticamente significativas nas três variáveis numéricas “Idade”, “Tempo na PMERJ” e “Horas de sono por dia” indicando que essas variáveis estavam associadas com os níveis de custo afetivo do trabalho entre os policiais militares.
Associação entre o fator custo afetivo e variáveis sociodemográficas, laborais e condições de saúde (n = 446) – Rio de Janeiro, Brasil, 2023.
DISCUSSÃO
Os resultados desta tese corroboram estudos anteriores que indicam o predomínio de policiais militares do sexo masculino, com idade entre 30 e 40 anos, casados ou em união estável, e com um a dois filhos. Esse perfil demográfico evidencia a importância do contexto conjugal e familiar para a compreensão dos impactos da atividade profissional sobre a vida pessoal desses trabalhadores(11,12).
Nesse sentido, tais características influenciam diretamente as decisões reprodutivas, as quais têm revelado uma tendênciade redução no número de filhos entre policiais militares, fenômeno frequentemente associado às especificidades da profissão. Ademais, o aumento da mortalidade entre policiais no estado do Rio de Janeiro, com um crescimento de 45,5% em 2021, totalizando 64 óbitos, intensifica o temor de deixar filhos órfãos, impactando negativamente o planejamento familiar(13).
Esses aspectos, somados ao elevado custo afetivo da profissão, manifestam-se em sintomas como ansiedade, medo e depressão, comprometendo tanto a saúde mental quanto as relações interpessoais desses profissionais(14).
O ambiente de trabalho exerce influência significativa na motivação dos profissionais e no risco de adoecimento, conforme evidenciado em estudos com diferentes categorias laborais, como policiais militares, profissionais da saúde e educação. A carga horária excessiva, condições inadequadas e a ausência de treinamento adequado são fatores comuns que contribuem para problemas de saúde física e mental, ainda que a intensidade e a repercussão desses fatores variem conforme o setor de atuação. A sobrecarga mental e emocional pode advir de jornadas prolongadas, falta quase total de pausas para descanso, alta responsabilidade, limitações técnicas e materiais, elevada demanda e, frequentemente, baixa remuneração. Essas condições, aliadas às pressões organizacionais, podem gerar um impacto negativo na relação dos profissionais com os usuários e aumentar o risco de adoecimento, demandando uma análise cuidadosa das especificidades de cada ambiente laboral para o desenvolvimento de estratégias eficazes de prevenção e promoção da saúde(15-17).
Nesta pesquisa, os principais motivos de licença médica traduzem o sofrimento psíquico da categoria e têm como consequências as patologias. Neste caso, a capacidade da organização do trabalho militar de fragilizar os indivíduos e propiciar descompensações psicológicas, quando o trabalhador esgotou todos os recursos de origem psicoafetiva e intelectual para responder às demandas de trabalho(18). Realidade não restrita aos policiais militares, dados da Previdência Social do Brasil afirmam um aumento de 29%, nos anos 2019 e 2020, na concessão de auxílio-doença previdenciário, com destaque para as doenças relacionadas às desordens mentais e comportamentais, que são a terceira maior causa de afastamentos laborais incapacitantes no Brasil(19).
Especificamente em relação ao trabalho do policial militar, o contato direto ou indireto com eventos violentos que resultam em morte ou ameaça dela, lesão grave e violação sexual acarreta vivências traumáticas para os envolvidos, que, por sua vez, podem desencadear diversos adoecimentos psicoemocionais e outras condições, sobretudo transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão, abuso de substâncias, problemas sociais, sentimento de frustração com o trabalho e aumento da procura por serviços médicos(20).
O custo afetivo no trabalho caracteriza-se pela demanda emocional em resposta a reações afetivas, sentimentos e estado de humor(10). Na avaliação dos policiais militares deste estudo, o custo afetivo do trabalho realizado por eles oferece um risco crítico de adoecimento, destacando-se entre os itens mais negativamente avaliados ter controle das emoções, ter custo emocional e ser obrigado a lidar com a agressividade dos outros, sendo o primeiro avaliado como grave. No contexto de trabalho dos policiais militares, é evidente que, além de enfrentarem diversas demandas no ambiente de trabalho, a violência faz parte do seu cotidiano, sendo um dos motivos pelos quais há uma grande manifestação de emoções na realização de suas atribuições.
Em meio a esse contexto caótico, a aceitação da violência nas cidades é percebida por meio de um processo repetitivo, que se manifesta nas práticas policiais enraizadas ao longo dos anos. Além disso, é importante ressaltar a importância de abordar o problema a partir do sentimento de medo, que desempenha um papel fundamental no aumento da violência(21). Nessa lógica, o agente de segurança pública ocupa uma posição de elo causador da violência do Estado, invertendo-se o seu real desempenho profissional em função do que poderá advir de sua (re)ação pautada numa atitude violenta oriunda do temor, ocasionado pela adversidade do contexto social, como as condições de trabalho, treinamento, acompanhamento psicológico e adequação da carga horária.
Abster-se diante desse cenário implica em um sério perigo para a sociedade. Isso ocorre porque ignorá-lo é abrir espaço para que um policial com problemas psicológicos possa, durante momentos de tensão, cometer abusos e agir de forma agressiva. De fato, o distúrbio mental enfraquece a habilidade de raciocínio desses profissionais, já que afeta a capacidade de utilizar recursos que possibilitam encontrar soluções que não envolvam agressão e violência presentes no dia a dia da profissão(22).
Ainda na perspectiva do custo afetivo no trabalho, a atuação policial nas ruas envolve lidar com diversas demandas emocionais, como interagir com infratores, criminosos, vítimas e a comunidade em geral, o que requer habilidade para expressar diferentes sentimentos. A identidade profissional é essencial nesse cenário, permitindo ao policial adotar estratégias para expressar emoções conforme a situação.
No entanto, é importante destacar que os policiais lidam diariamente com públicos diferentes, cada um com necessidades emocionais específicas, tornando o controle emocional ainda mais desafiador, pois devem demonstrar empatia e solidariedade às vítimas, autoridade e firmeza aos suspeitos e criminosos, e profissionalismo ao lidar com a população em geral(23). Isso nos leva a pensar que uma das responsabilidades mais importantes e desafiadoras da polícia é manter a violência sob controle sem se deixar afetar por ela.
Dessa forma, devem-se considerar os efeitos simbólicos, práticos e políticos tanto na esfera social quanto no dia a dia do profissional de Segurança Pública, que precisa desenvolver estratégias tanto físicas quanto psicológicas para lidar com a realidade de sua atividade, que envolve a violência direcionada a si mesmo e aos outros(20). Esta atividade interfere na vida particular, o rigor militar e a exposição à violência moldam a forma de se relacionar. Essa influência vai além dos relacionamentos, passando a nortear o caráter do profissional, dessa forma exibindo-se a dimensão que a profissão pode ter na vida do policial(24).
A ausência de suporte institucional no enfrentamento da violência laboral, associada ao risco iminente de morte e às crescentes pressões organizacionais, configura um cenário propício ao sofrimento psicológico dos policiais militares. Essa condição, somada ao desgaste físico e à vulnerabilidade emocional, pode desencadear respostas comportamentais inadequadas durante situações críticas e operações de alto risco(25).
Nesse sentido, um estudo realizado com policiais militares de Minas Gerais revelou que 14,8% dos participantes apresentaram sintomas significativos de depressão e burnout. Esses quadros de adoecimento emocional estiveram fortemente associados a fatores como estresse ocupacional, insatisfação com o trabalho, percepção negativa da saúde mental e baixa resiliência, evidenciando o impacto negativo das condições laborais e das cobranças institucionais e sociais sobre a saúde mental desses profissionais(26).
Apesar de não ter relação estatística significativa, 15% de policiais já pensaram em suicídio, Nesse aspecto, pesquisa realizada em instituição policial-militar do Sul do Brasil identificou 14 casos entre os anos 2012 e 2016(27). A ampla fadiga experimentada diariamente no ambiente profissional dos policiais é o principal fator que leva à deterioração tanto mental quanto física, podendo levar ao suicídio como uma maneira de pôr fim ao seu próprio tormento(28).
Em concordância com esses resultados, uma revisão integrativa que procurou identificar os temas mais relevantes relacionados à saúde mental dos policiais na literatura, no período de 2012 a 2018, possibilitou contextualizar os estudos sobre esse tema. Ficou claro que, apesar de realizadas em diferentes países, as pesquisas apontam o estresse, o TEPT, a depressão, a ansiedade, o esgotamento profissional e o suicídio como os principais problemas de saúde estudados(29). Nesse aspecto, o TEPT está relacionado como uma das principais causas que levam ao suicídio, sendo explicado pela constante exposição a eventos traumáticos durante o cumprimento de suas obrigações(30).
A busca por ajuda de profissionais especializados é crucial para identificar sinais e fatores que possam indicar transtornos mentais, evitando ações drásticas ou a negação da existência do problema. A falta de suporte em saúde mental é alarmante, especialmente diante das mudanças nas relações sociais, que podem aumentar a pressão e desencadear crises(31).
Embora os policiais militares enfrentem rotinas de alta exposição a riscos, violência e estresse intenso, o acesso constante a armamento reforça uma cultura institucional de invulnerabilidade, na qual expressar fragilidade psicológica representa ameaça à carreira. Essa configuração intensifica o estresse ocupacional e dificulta a comunicação de sintomas psiquiátricos — muitos optam por ocultá-los por medo de prejuízo à reputação, retaliações ou falta de confidencialidade. A rigidez hierárquica e a ausência de espaços institucionais de diálogo agravam essa negação do sofrimento emocional, reduzindo o uso de serviços de saúde mental e impedindo o acesso efetivo a tratamento, perpetuando um ciclo de adoecimento não diagnosticado ou tratado formalmente(32).
O cotidiano desses profissionais, conforme revisão integrativa publicada em 2024, evidencia que a profissão policial é uma das mais estressantes, com alta incidência de doenças psíquicas relacionadas ao trabalho(25). Fatores como hierarquia rígida, ausência de folgas, turno irregular, pressão operacional, e exigências emocionais crônicas tornam esses trabalhadores vulneráveis ao adoecimento mental(32). Estudos também apontam que os afastamentos por transtornos psiquiátricos (como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático) são recorrentes, reforçando a relevância de políticas institucionais de cuidado(25). Tais elementos destacam a urgência de intervenções capazes de romper o ciclo de silenciamento emocional que compromete a saúde mental desses profissionais.
Os resultados indicam que o custo afetivo enfrentado pelos policiais militares está associado ao adoecimento emocional, incluindo transtornos do humor, alterações cognitivas relacionadas à percepção e memória, além de dificuldades de sono. O ambiente de trabalho, especialmente quando o quartel está situado em áreas de alta incidência de confrontos armados, impõe demandas emocionais intensas e contribui para o desenvolvimento desses quadros clínicos. Tais condições afetam significativamente a saúde mental dos profissionais, refletindo em licenças médicas por transtornos como o bipolar, prejuízos cognitivos e variações relacionadas à idade e ao tempo de serviço(25).
Nesta pesquisa, verificou-se que policiais mais jovens e com menos tempo de serviço relataram o custo afetivo do trabalho como grave ou crítico, indicando maior vulnerabilidade psicossocial. Esses resultados diferem daqueles observados em outro estudo, realizado com policiais militares de Sergipe, que associou má qualidade do sono e comprometimento da qualidade de vida principalmente a profissionais mais jovens, com mediana de 40 anos e até sete anos de serviço(33). Esse trabalho identificou impactos nas dimensões biológica, psicológica, relacional e econômica, revelando que a privação de sono compromete substancialmente a saúde mental desses profissionais. As divergências entre os estudos podem refletir particularidades regionais e operacionais das corporações, reforçando a importância de considerar tais variáveis ao analisar o adoecimento no trabalho policial.
Embora as condições de trabalho no serviço policial militar sejam exigentes e frequentemente desgastantes, certos componentes do custo afetivo do trabalho são percebidos de modo menos negativo. Em uma análise completa, itens como não se sentirem obrigados a sorrir ou elogiar pessoas foram avaliados com as menores médias, sinalizando que essas demandas emocionais são vistas como menos penosas. Adicionalmente, muitos policiais relatam forte senso de pertencimento à corporação, orgulho institucional e satisfação ao desempenhar tarefas punitivas em nome do Estado, o que sugere uma dimensão emocional positiva mesmo diante de adversidades e estresse contínuo(6). Esses achados alinham-se a este estudo e mostram que, mesmo em ambientes com elevados níveis de estresse ocupacional, muitos policiais militares apresentam níveis médios a altos de engajamento no trabalho, com destaque para entusiasmo, dedicação e orgulho na função métrica, o que reforça que certos aspectos afetivos do trabalho podem gerar resiliência emocional, em vez de sofrimento significativo.
Os resultados desta pesquisa confirmam que a execução de tarefas externas durante as rondas ostensivas e o confronto direto com a criminalidade são indicadores significativos de esgotamento emocional entre os policiais. Essas atividades expõem os policiais a altos níveis de violência e risco, contribuindo para um estresse considerável. Além disso, essas funções são frequentemente realizadas em condições laborais precárias, exacerbando o impacto negativo no bem-estar dos policiais.
Os problemas afetivos neste ambiente de trabalho são alarmantes e têm se tornado mais frequentes. Fatores como estresse, pressão por resultados, competição acirrada e desequilíbrio entre vida profissional e pessoal podem estar contribuindo para o surgimento de problemas emocionais, inclusive os identificados nesta pesquisa, como ansiedade, depressão e transtorno bipolar.
Como limitação da pesquisa, pode ser considerado o tipo de estudo transversal que não permite afirmações de causa e efeito entre as variáveis investigadas. Sendo assim, sugere-se o delineamento de estudos longitudinais para compreensão do fenômeno ao longo do tempo.
O estudo contribuiu para reflexões sobre a importância da prevenção de problemas mentais no local de trabalho exigindo a colaboração entre as organizações e os trabalhadores. É essencial promover um ambiente saudável, conscientizar sobre a importância da saúde mental e buscar ajuda profissional quando necessário. Garantir a saúde mental dos policiais é fundamental para sua felicidade e qualidade de vida, corroborando a necessidade urgente de intervenções e suportes contínuos nesta área.
CONCLUSÃO
A análise do custo afetivo do trabalho de policiais militares da região metropolitana do Rio de Janeiro obteve avaliação crítica para a maioria dos fatores apresentados, sendo a resposta mais negativa, com avaliação de risco grave para o adoecimento, aquela relativa a ter controle das emoções, seguida de ter custo emocional, com risco crítico para o adoecimento. A análise de associação indicou que a avaliação do custo afetivo grave esteve relacionada à licença médica em virtude de transtorno bipolar e alterações cognitivas de percepção e memória. Também houve associação entre idade, tempo de trabalho na PM e horas de sono, indicando que policiais mais jovens, com menos tempo de trabalho e menos horas de sono apresentaram avaliação grave para o custo afetivo no trabalho. Outro dado que merece destaque é o fato de que 15% dos policiais já pensaram em suicídio. A natureza do trabalho do policial militar expõe esse profissional ao dispêndio emocional, problemas afetivos e alterações de humor, que podem ter como consequências problemas psiquiátricos e alterações cognitivas, levando a adoecimentos, afastamentos e mesmo a pensamentos suicidas.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.
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