Open-access Validação clínica do Subconjunto Terminológico da CIPE® para pessoas com doença renal crônica em hemodiálise

RESUMO

Objetivo:  Validar clinicamente os enunciados de diagnósticos/resultados e intervenções de enfermagem do Subconjunto CIPE® para pessoas com doença renal crônica em hemodiálise.

Método:  Estudo de validação clínica, com indivíduos de idade igual ou superior a 18 anos, doentes renais crônicos, em tratamento dialítico há pelo menos três meses. A pesquisa ocorreu em três etapas: Aplicação do Processo de Enfermagem à prática clínica, abrangendo cinco etapas essenciais – avaliação, diagnóstico, planejamento, implementação e evolução de Enfermagem; Estruturação dos estudos de casos; e Identificação da prevalência dos DE/RE e IE elencados a partir dos estudos de casos. Os dados foram analisados utilizando-se a análise de classe latente.

Resultados:  Os achados evidenciaram três classes latentes distintas: baixo (Classe 1), médio (Classe 2) e alto risco (Classe 3). Os indicadores apresentaram elevados valores de sensibilidade (72,0% a 91,0%) e especificidade (83,0% a 92,0%), confirmando a validade clínica do subconjunto e a consistência do modelo para discriminar diferentes perfis de pacientes em hemodiálise.

Conclusão:  O estudo validou clinicamente um subconjunto de 23 diagnósticos/resultados e 169 intervenções de enfermagem, demonstrando aplicabilidade na prática assistencial.

DESCRITORES
Pesquisa em Enfermagem Clínica; Estudo de Validação; Terminologia Padronizada em Enfermagem; Diálise Renal; Insuficiência Renal Crônica

ABSTRACT

Objective:  To clinically validate the nursing diagnoses/outcomes and interventions statements of the CIPE® Subset for individuals with chronic kidney disease undergoing hemodialysis.

Method:  Clinical validation study, with individuals aged 18 years or older, with chronic kidney disease, undergoing dialysis for at least three months. The research took place in three stages: Application of the Nursing Process to clinical practice, encompassing five essential steps - Nursing assessment, diagnosis, planning, implementation, and progress notes; Structuring of case studies; and Identification of the prevalence of ND/NO and NI listed from the case studies. Data were analyzed using latent class analysis.

Results:  The findings revealed three distinct latent classes: low (Class 1), medium (Class 2), and high (Class 3) risk. The indicators showed high sensitivity (72.0% to 91.0%) and specificity (83.0% to 92.0%) values, confirming the clinical validity of the subset and the consistency of the model for discriminating different profiles of patients undergoing hemodialysis.

Conclusion:  The study clinically validated a subset of 23 nursing diagnoses/outcomes and 169 interventions, demonstrating their applicability in care.

DESCRIPTORS
Clinical Nursing Research; Validation Study; Standardized Nursing Terminology; Renal Dialysis; Renal Insufficiency, Chronic

RESUMEN

Objetivo:  Validar clínicamente las declaraciones de diagnóstico/resultados y las intervenciones de enfermería del subconjunto CIPE® para personas con enfermedad renal crónica sometidas a hemodiálisis.

Método:  Estudio de validación clínica, con individuos de 18 años o más, con enfermedad renal crónica, sometidos a tratamiento de diálisis durante al menos tres meses. La investigación se llevó a cabo en tres etapas: Aplicación del proceso de enfermería a la práctica clínica, que comprende cinco pasos esenciales – evaluación, diagnóstico, planificación, implementación y evaluación de Enfermería; Estructuración de estudios de caso; e Identificación de la prevalencia de diagnósticos/resultados de enfermería e intervención de enfermería enumerados en los estudios de caso. Los datos se analizaron mediante análisis de clases latentes.

Resultados:  Los hallazgos revelaron tres clases latentes distintas: riesgo bajo (Clase 1), riesgo medio (Clase 2) y riesgo alto (Clase 3). Los indicadores mostraron altos valores de sensibilidad (72,0% a 91,0%) y especificidad (83,0% a 92,0%), lo que confirma la validez clínica del subconjunto y la consistencia del modelo para discriminar diferentes perfiles de pacientes de hemodiálisis.

Conclusión:  El estudio validó clínicamente un subconjunto de 23 diagnósticos/resultados de enfermería y 169 intervenciones de enfermería, demostrando su aplicabilidad en la práctica clínica.

DESCRIPTORES
Investigación en Enfermería Clínica; Estudio de Validación; Terminología Normalizada de Enfermería; Diálisis Renal; Insuficiencia Renal Crónica

INTRODUÇÃO

A Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem (CIPE®) desempenha papel essencial na documentação das ações do enfermeiro na prática clínica, garantindo padronização, organização e maior precisão nos registros assistenciais. Esse recurso favorece uma comunicação clara e eficaz entre os profissionais de saúde, além de facilitar a documentação da assistência prestada(1). A CIPE® possibilita o desenvolvimento de Subconjuntos Terminológicos, que reúnem enunciados de diagnósticos/resultados (DE/RE) e intervenções de enfermagem (IE), direcionados a grupos específicos de pacientes(2).

Assim, pode-se definir a CIPE® como um sistema de comunicação especializado e representativo da prática de enfermagem, com alcance local e global, contribuindo para a aplicação eficaz do Processo de Enfermagem (PE). Essa linguagem constitui uma estratégia eficiente para a coleta, o armazenamento e a análise de dados em enfermagem, favorecendo o fortalecimento e a valorização da profissão. Destaca-se que, para aprimorar a estruturação dos Subconjuntos Terminológicos e aumentar sua eficácia, torna-se essencial validá-los no contexto clínico(1).

Para uma melhor estruturação dessa tecnologia e para torná-la mais eficaz, é fundamental a aplicação de um modelo teórico ou conceitual que sirva de base à prática clínica. Entre os principais modelos teóricos, destaca-se o das Necessidades Humanas Básicas (NHB), que constitui o alicerce da prática de enfermagem, permitindo compreender o ser humano de forma integral e multidimensional. Propostas originalmente por Wanda Horta, essas necessidades são classificadas em psicobiológicas, psicossociais e psicoespirituais, refletindo as dimensões física, relacional e existencial do cuidado. No contexto da Doença Renal Crônica (DRC) e da terapia hemodialítica, as NHB são frequentemente comprometidas, exigindo uma abordagem assistencial centrada no indivíduo(3).

Segundo dados do último boletim epidemiológico sobre DRC no Brasil, estima-se que cerca de 10% da população apresenta algum grau de comprometimento renal. Em 2023, foram registrados mais de 187 mil atendimentos na Atenção Primária à Saúde relacionados à DRC, com predominância entre indivíduos de 50 a 79 anos(1-3). O aumento expressivo nas internações por essa condição, de 84.337 em 2010 para 140.648 em 2023, evidencia a sobrecarga nos serviços de saúde e a complexidade clínica dos pacientes em hemodiálise(4). Esse cenário reforça a necessidade de intervenções fundamentadas em modelos que considerem a integralidade do ser humano, como o das NHB, e de ferramentas que padronizem a linguagem profissional, como os Subconjuntos Terminológicos da CIPE®.

Estudos prévios já realizaram a construção da terminologia e a validação do conteúdo de um subconjunto terminológico da CIPE® para pessoas com doença renal crônica em hemodiálise, à luz do modelo das NHB. Sua elaboração surgiu da necessidade de padronizar os registros da prática de enfermagem e aprimorar a qualidade da documentação assistencial em serviços de hemodiálise(5,6).

Nesse sentido, o método brasileiro encoraja a validação clínica dos subconjuntos, a fim de garantir sua aplicabilidade e confiabilidade na prática assistencial. A validação clínica possibilita verificar se os enunciados desenvolvidos refletem adequadamente as condições reais das pessoas com DRC em hemodiálise, assegurando que os DE/RE e IE sejam eficazes no contexto clínico. Além disso, esse processo permite ajustes necessários, aprimorando a precisão das terminologias utilizadas e favorecendo um cuidado mais direcionado e seguro(7).

O estado da arte sobre a utilização da CIPE® no cuidado às pessoas em hemodiálise demonstra que ainda há uma lacuna quanto à validação clínica de subconjuntos terminológicos específicos para essa população. A enfermagem em nefrologia demanda instrumentos padronizados que possibilitem uma comunicação eficaz entre profissionais, além de melhorar a precisão diagnóstica e a implementação de intervenções direcionadas. No entanto, observa-se ausência de estudos que avaliaram a aplicabilidade e a confiabilidade dos enunciados da CIPE® em pessoas com DRC em hemodiálise, o que dificulta sua integração na prática clínica e na documentação sistematizada do cuidado(8-10).

Diante dessa lacuna, esta pesquisa busca preencher tal necessidade ao validar clinicamente um subconjunto terminológico para pessoas com doença renal crônica em hemodiálise, oferecendo embasamento científico que fortaleça a tomada de decisão dos profissionais e contribua para a segurança e qualidade da assistência prestada, justificando a realização do presente estudo.

A relevância clínica do estudo reside em oferecer subsídios importantes para a assistência de enfermagem a pacientes renais hospitalizados, ao propor um conjunto de termos que reflita com maior fidelidade as necessidades clínicas desses pacientes. Além disso, a validação clínica fortalece a prática baseada em evidências e pode subsidiar protocolos assistenciais, planos de cuidado e o ensino em enfermagem. Ademais, promove a valorização da linguagem profissional e a visibilidade das ações de enfermagem. Logo, este estudo tem como objetivo validar clinicamente os enunciados de diagnósticos/resultados e intervenções de enfermagem do Subconjunto CIPE® para pessoas com doença renal crônica em hemodiálise.

MÉTODO

Desenho e Local do Estudo

Trata-se de um estudo de validação clínica, utilizando a Análise de Classes Latentes (ACL)(11), no qual foram aplicados estudos de caso conduzidos de acordo com as fases estabelecidas pelo Processo de Enfermagem (PE). A investigação foi realizada em um ambulatório de doenças renais situado em um município da região Nordeste do Brasil. Além disso, o estudo fundamentou-se na iniciativa Standards for Reporting Studies of Diagnostic Accuracy (STARD) e em testes diagnósticos, com o objetivo de estabelecer a acurácia dos indicadores(1).

Como base para a validação clínica, utilizou-se o subconjunto terminológico previamente validado em relação ao conteúdo em estudo anterior, composto por 81 enunciados de DE, 242 enunciados de RE e 533 enunciados de IE, à luz da Teoria das NHB(5).

População, Critérios de Seleção e Definição da Amostra

O tamanho da amostra seguiu as recomendações do modelo de classe latente, que prevê uma relação de 5 a 30 participantes por indicador avaliado(11). No presente estudo, adotou-se a proporção de cinco pacientes para cada um dos 46 indicadores avaliados, obtendo-se uma amostra final de 230 participantes.

A amostra foi composta por indivíduos com doença renal crônica, com idade igual ou superior a 18 anos e em tratamento dialítico no serviço há pelo menos três meses, conforme critérios de inclusão estabelecidos. Foram excluídos os pacientes sem capacidade cognitiva para participar da pesquisa, verificada a partir das informações registradas nos prontuários, tais como: evoluções médicas e de enfermagem que descreviam quadros de demência, transtornos neuropsiquiátricos ou comprometimento cognitivo significativo; laudos de avaliação neuropsicológica ou psiquiátrica; e prescrição de medicamentos indicativos de distúrbios cognitivos severos.

A seleção dos participantes foi realizada de forma intencional, com base na triagem dos prontuários e na avaliação clínica prévia conduzida pelo pesquisador responsável. Os pacientes eram convidados a realizar pequenas tarefas cognitivas, como informar nome completo, data de nascimento e reconhecer o local e o momento da entrevista. O objetivo foi garantir que todos os participantes apresentassem plena capacidade de comunicação, compreensão e consentimento, conforme exigido para a aplicação do Processo de Enfermagem e coleta de dados.

Coleta de Dados

Para alcançar o objetivo estabelecido, o estudo foi estruturado e conduzido em três fases distintas: 1º) Aplicação do Processo de Enfermagem à prática clínica, abrangendo cinco etapas essenciais - avaliação, diagnóstico, planejamento, implementação e evolução de enfermagem; 2º) Estruturação dos estudos de caso; 3º) Identificação da prevalência dos DE/RE e IE elencados a partir dos estudos de caso. O estudo foi conduzido entre agosto de 2024 e julho de 2025.

Para orientar a coleta de dados, estabeleceu-se um protocolo que previa o acompanhamento dos participantes em duas etapas: a primeira consistia em uma consulta de enfermagem, seguida por uma segunda consulta destinada à avaliação. Não foi definido intervalo mínimo entre as consultas, uma vez que o protocolo priorizou a flexibilidade no acompanhamento, respeitando a disponibilidade individual e as demandas específicas de cada caso. Essa abordagem visou garantir maior adesão ao estudo e minimizar possíveis perdas amostrais, sem comprometer a qualidade dos dados coletados. Essa etapa ocorreu entre agosto de 2024 e fevereiro de 2025.

Primeira Etapa

Na primeira fase, a coleta de dados, o exame físico e os registros foram realizados pelo pesquisador principal e por sete estudantes de pós-graduação, com o suporte de um instrumento baseado na Teoria das NHB, garantindo uma abordagem estruturada e fundamentada.

Os sete estudantes de pós-graduação envolvidos eram enfermeiros com experiência no uso da CIPE® e do PE, e passaram por treinamento específico e intensivo conduzido pelo pesquisador principal. Esse treinamento incluiu revisão teórica sobre as NHB, aplicação prática do instrumento de coleta e simulações clínicas com foco na identificação de DE/RE e IE segundo a CIPE®. O preparo visou assegurar uniformidade na aplicação do instrumento, fidelidade conceitual ao modelo teórico adotado e qualidade nos registros clínicos, garantindo que os dados refletissem com precisão a realidade assistencial dos pacientes em hemodiálise.

O instrumento de coleta foi estruturado em seções que contemplavam dados sociodemográficos, avaliação, diagnóstico, planejamento, implementação e evolução de enfermagem. Além disso, foram analisados exames laboratoriais e de imagem para complementar a avaliação clínica.

Inicialmente, realizou-se um teste-piloto, previamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, com o objetivo de verificar a adequação do instrumento. Os participantes desse teste não foram incluídos na amostra final, garantindo a integridade dos dados coletados.

Os enunciados de DE/RE foram estabelecidos com base em indicadores clínicos descritos nas definições operacionais do subconjunto terminológico da CIPE®. Para organização e acessibilidade, esses enunciados foram sistematizados em formulário eletrônico no Google Docs.

As etapas de planejamento e implementação foram realizadas em conformidade com os RE estabelecidos para cada DE, conforme definido pelo subconjunto terminológico. As IE propostas foram orientadas para atender às necessidades identificadas, assegurando abordagem personalizada e alinhada aos objetivos do cuidado. Já a etapa de avaliação foi conduzida com foco nos enunciados de DE previamente identificados, permitindo verificar a efetividade das intervenções e a evolução clínica dos participantes.

Segunda Etapa

Na segunda fase, os pesquisadores desenvolveram os estudos de caso, formularam os enunciados de DE/RE e IE e identificaram sua prevalência. Essas informações foram organizadas em planilha do Microsoft Excel®, estruturada em abas separadas, cada uma correspondente a um paciente. Posteriormente, os enunciados foram categorizados conforme as necessidades psicobiológicas, psicoespirituais e psicossociais.

Terceira Etapa

Na fase final, empregou-se a análise de classes latentes para a validação clínica do subconjunto terminológico, com base nos pacientes com DRC em hemodiálise, de modo a verificar padrões clínicos relevantes que sustentassem o subconjunto da CIPE®. Durante essa etapa, foram considerados clinicamente validados os DE/RE e IE identificados nos pacientes, conforme descritos nos estudos de caso, os quais foram incorporados ao subconjunto terminológico.

Análise e Tratamento dos Dados

A análise descritiva incluiu o cálculo de frequências absolutas e percentuais dos enunciados de DE/RE, além do teste de Shapiro-Wilk. Devido ao grande número de enunciados, as IE foram agrupadas conforme a categoria do modelo teórico e discutidas com base na frequência.

Para garantir precisão na organização dos dados, todas as informações foram registradas em planilha eletrônica. No contexto desta pesquisa, foram considerados clinicamente validados os enunciados de DE/RE e IE identificados nos pacientes, documentados nos estudos de caso e presentes no subconjunto terminológico.

Os indicadores clínicos foram mensurados por meio de entrevista e exame físico. Os dados foram analisados com o auxílio dos softwares Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) e R (v. 2.12.1). O método de análise de classes latentes foi utilizado para calcular a sensibilidade e especificidade dos indicadores. O indicador foi considerado estatisticamente significativo se pelo menos um de seus intervalos de confiança fosse >0,5.

As variáveis foram codificadas binariamente (presença = 1; ausência = 0). A modelagem foi conduzida com o software R, utilizando o pacote poLCA. Foram testados modelos com 2 a 5 classes, sendo o modelo com três classes o mais adequado, conforme menor valor do BIC (Bayesian Information Criterion) e entropia ≥ 0,80.

Os perfis latentes identificados foram interpretados com base na frequência condicional dos DE/RE, permitindo reconhecer padrões clínicos distintos, descritos na seção de Resultados. A ACL identificou três grupos clínicos com perfis distintos quanto à expressão dos DE/RE de enfermagem: Classe 1 (baixo risco): pacientes clinicamente compensados, com alta adesão ao tratamento e ausência de sintomas físicos ou emocionais significativos; Classe 2 (médio risco): baixa manifestação de sinais físicos, mas forte prevalência de DE de natureza psicossocial que poderiam interferir na adesão ao tratamento; Classe 3 (alto risco): pacientes críticos multifatoriais, com alta frequência de sintomas físicos, baixa adesão ao tratamento, além de sofrimento espiritual e prejuízos nos laços religiosos.

As classes foram definidas a partir da presença de combinações específicas de sinais e sintomas/indicadores clínicos. A sensibilidade indicou a capacidade do modelo de identificar corretamente os pacientes pertencentes a cada classe, enquanto a especificidade avaliou o quanto o modelo evitou classificar como pertencentes à classe indivíduos que não se enquadravam nela.

Aspectos Éticos

O presente estudo foi conduzido em conformidade com os princípios éticos de voluntariedade, anonimato e confidencialidade, atendendo às diretrizes da Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta pesquisas envolvendo seres humanos. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa de uma instituição federal de ensino superior, conforme parecer nº 7.753.717. Para assegurar a participação voluntária e esclarecida, todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), garantindo o cumprimento das normativas éticas e científicas aplicáveis.

RESULTADOS

A amostra foi composta por 230 indivíduos em tratamento hemodialítico devido à doença renal crônica, distribuídos entre ambos os sexos, sendo 41% do sexo feminino e 59% do masculino. A maioria apresentava idade igual ou superior a 60 anos (86%), enquanto apenas 14% tinha menos de 60 anos. Em relação à escolaridade, predominou o ensino médio incompleto (58%). Quanto ao estado civil, 69% eram casados e, no que se refere à condição socioeconômica, 44% relataram renda igual ou superior a dois salários mínimos. Observou-se que todos possuíam alguma comorbidade associada, sendo a hipertensão arterial a mais prevalente (91%), seguida pelo diabetes mellitus (81%).

No que diz respeito ao subconjunto original, foram implementados 23 enunciados de DE/RE e 169 IE, com média de cinco enunciados de DE/RE por estudo de caso, variando entre um mínimo de dois e um máximo de 12.

A Tabela 1 apresenta as medidas de acurácia diagnóstica para cada indicador clínico, organizadas segundo as necessidades humanas psicobiológicas. Incluem-se: Sensibilidade (Se%) e seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%), bem como Especificidade (Es%) com seus IC95%. Esses valores demonstram que o modelo de Análise de Classes Latentes gerou estimativas robustas para a validação clínica desses indicadores.

Tabela 1
Frequência e medidas de acurácia diagnóstica dos indicadores clínicos por necessidades humanas psicobiológicas – Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2025.

As medidas de acurácia dos indicadores clínicos, referentes às necessidades humanas psicossociais e psicoespirituais, estão apresentadas na Tabela 2.

Tabela 2
Frequência e medidas de acurácia diagnóstica dos indicadores clínicos por necessidade humana psicossociais e psicoespirituais - Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2025.

A análise dos resultados evidencia que o estudo alcançou excelente desempenho na validação clínica das intervenções, conforme apresentado na Tabela 3. As três classes latentes apresentaram valores de sensibilidade e especificidade elevados, todos acima de 80%, com intervalos de confiança estreitos, o que reforça a robustez estatística e a consistência dos achados.

Tabela 3
Exemplos de IE agrupadas por classe latente, com medidas de desempenho diagnóstico - Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2025.

A Classe 1 concentrou a maior frequência da amostra (36,8%), refletindo o perfil predominante de pacientes em seguimento regular e com boa adesão terapêutica. A Classe 2 representou 41,5% da população estudada, confirmando a relevância das intervenções educativas e de autocuidado para esse grupo. Já a Classe 3, embora menos prevalente (21,7%), apresentou os maiores índices de acurácia, indicando a precisão do modelo em identificar casos complexos e de maior gravidade.

Esse desempenho global sugere que o instrumento utilizado possui elevada aplicabilidade clínica, contribuindo para maior resolutividade no cuidado de pessoas em hemodiálise. Em razão do número limitado de páginas, a Tabela 3 apresenta exemplos de IE agrupadas por classe latente, com suas respectivas medidas de desempenho diagnóstico.

DISCUSSÃO

Os achados deste estudo demonstram que a aplicação da ACL com efeitos aleatórios foi eficaz na validação clínica dos indicadores da CIPE®, permitindo a identificação de padrões diagnósticos com elevada sensibilidade, especificidade e acurácia global. Essa abordagem estatística reforça a confiabilidade dos indicadores clínicos observáveis e sua capacidade de discriminar perfis latentes distintos, contribuindo diretamente para a qualificação da prática diagnóstica em enfermagem.

Esses resultados estão alinhados com estudo que mapeou evidências sobre a validação clínica de subconjuntos terminológicos da CIPE® e identificou que, embora a maioria das pesquisas ainda esteja em fase inicial, há crescente reconhecimento da importância da validação clínica como etapa essencial para consolidar a linguagem padronizada na prática assistencial(1).

Além disso, outro estudo destaca que a validação clínica contribui para a melhoria da qualidade do cuidado, ao permitir que os termos utilizados reflitam com maior precisão as necessidades reais da clientela(12). No presente estudo, a associação entre indicadores e classes latentes possibilitou não apenas validar os termos, mas também agrupar intervenções específicas por perfil clínico, representando um avanço metodológico em relação a investigações anteriores, que se concentraram majoritariamente na validação de conteúdo ou semântica.

No domínio das necessidades psicobiológicas, os enunciados de DE/RE e IE apresentaram elevada consistência clínica e robustez, conforme evidenciado pelos altos índices de sensibilidade, especificidade e intervalos de confiança estreitos. Tais achados estão em consonância com estudo metodológico que validou o subconjunto CIPE® para pessoas em hemodiálise, no qual a maioria dos DE/RE e IE concentrou-se nas necessidades psicobiológicas, representando mais de 70% dos enunciados validados(5).

Resultados semelhantes foram observados em pesquisas voltadas à validação de intervenções específicas, como o manejo do excesso de líquidos, que apresentaram altos índices de validação, reforçando a aplicabilidade clínica no cuidado a pacientes em terapia renal substitutiva. Dessa forma, a predominância das necessidades psicobiológicas nos achados desta investigação confirma a centralidade dos aspectos fisiológicos no processo de cuidado a pacientes em hemodiálise, determinantes para a manutenção da segurança clínica e da adesão ao tratamento(13).

Ainda nesse domínio, destacaram-se diagnósticos que traduzem complicações respiratórias, metabólicas e cardiovasculares, como “Dispneia” e “Desequilíbrio de eletrólitos”, cuja validação reforça a importância do monitoramento contínuo e de intervenções direcionadas à estabilidade clínica. Outros enunciados, como “Ingestão Nutricional, Prejudicada”, “Constipação” e “Sono, Inadequado”, evidenciam a relevância de cuidados voltados às dimensões nutricional, gastrointestinal e do repouso, frequentemente comprometidas em virtude das restrições alimentares, da uremia e de sintomas associados. Também se destacam “Fadiga”, “Risco de Infecção”, “Integridade da pele, Prejudicada”, “Hipertensão Arterial”, “Anemia Crônica” e “Febre”, que representam condições de alta prevalência em hemodiálise e demandam estratégias de prevenção, educação em saúde e adesão ao tratamento(14).

O diagnóstico “Memória, Prejudicada” pode refletir alterações cognitivas decorrentes da cronicidade e impactar a adesão às orientações, exigindo maior suporte educativo. Também se destacou o “Desempenho Sexual, Prejudicado”, frequentemente negligenciado na prática clínica, mas que interfere na autoestima, nos relacionamentos interpessoais e na qualidade de vida. Por fim, o diagnóstico “Não adesão ao tratamento hemodialítico”, cuja compreensão ultrapassa a mera frequência às sessões, envolvendo aceitação, motivação e enfrentamento da condição crônica. O reconhecimento desses aspectos amplia a perspectiva de cuidado e reforça a integralidade da assistência de enfermagem às pessoas em hemodiálise(15-17).

No âmbito das necessidades psicossociais, verificou-se a validação de enunciados com consistência clínica moderada, embora menos prevalentes em relação aos psicobiológicos. Esse achado aproxima-se de outros estudos que destacaram a presença relevante, ainda que minoritária, de DE/RE vinculados às necessidades psicossociais, representando aproximadamente 20% dos enunciados validados em subconjuntos terminológicos(5).

Destacaram-se diagnósticos como “Processo Familiar, Prejudicado”, “Lazer, Prejudicado” e “Conforto, Prejudicado”, que refletem as limitações impostas pela rotina dialítica e pelos sintomas associados, comprometendo o convívio familiar, o bem-estar e a qualidade de vida. Somam-se a esses “Autoestima Negativa” e “Negação do Tratamento”, que revelam dificuldades emocionais e de aceitação da cronicidade, bem como “Letramento em Saúde, Prejudicado” e “Capacidade Laboral, Diminuída”, que evidenciam repercussões sociais e educacionais da doença, com impactos diretos na autonomia do autocuidado e na produtividade. Esses achados reforçam a necessidade de intervenções educativas acessíveis, suporte psicológico e estratégias que favoreçam a reorganização do cotidiano e a reinserção social.

Pacientes em hemodiálise frequentemente vivenciam impactos emocionais, como ansiedade, fadiga e comprometimento da autoimagem, elementos que influenciam diretamente sua qualidade de vida. A análise de agrupamentos latentes aplicada a doenças crônicas mostrou que subgrupos de pacientes podem ser diferenciados pela severidade dos sintomas psicossociais, indicando a importância de intervenções direcionadas também a essas necessidades(18).

Assim, a inclusão de enunciados psicossociais validados amplia a perspectiva do cuidado, indo além da dimensão fisiológica e fortalecendo a integralidade da assistência(19). Embora em número reduzido, a validação de enunciados relacionados às necessidades psicoespirituais representa um avanço no reconhecimento da dimensão espiritual no cuidado à pessoa em hemodiálise(20).

No âmbito psicoespiritual, o diagnóstico “Sofrimento Espiritual” evidenciou o peso da dimensão existencial no enfrentamento da doença renal crônica. A dependência de uma terapia contínua e invasiva pode intensificar sentimentos de vazio, perda de sentido e vulnerabilidade, dificultando a adesão e o enfrentamento. A validação desse enunciado aponta para a necessidade de práticas de enfermagem que incorporem a espiritualidade no cuidado, valorizando crenças, valores e recursos internos do paciente como estratégias de fortalecimento da resiliência e promoção do cuidado integral e humanizado.

Em estudo de validação clínica com pacientes em tratamento conservador, diagnósticos como “Sofrimento Espiritual” e “Vínculo Religioso, Prejudicado” foram confirmados como relevantes, mostrando que a dimensão espiritual exerce papel importante no enfrentamento da doença renal crônica(16). Mesmo que a proporção desses enunciados seja pequena, sua incorporação ao plano assistencial revela sensibilidade da CIPE® para abranger o cuidado integral e humanizado, contemplando a experiência existencial dos pacientes(5,8,21).

Os achados deste estudo apresentam convergências e contrastes relevantes quando comparados à validação clínica de subconjuntos terminológicos da CIPE® voltados para pessoas com DRC em tratamento conservador. A primeira diz respeito à predominância de DE/RE e IE relacionados à adesão ao tratamento, ao controle da pressão arterial e ao manejo nutricional. Embora esses elementos também estejam presentes no cuidado de pacientes em hemodiálise, o presente estudo evidenciou especificidades adicionais, como o sofrimento espiritual, a segurança emocional e a sobrecarga clínica decorrente das intercorrências dialíticas. Além disso, a estratificação dos participantes por classes latentes permitiu identificar padrões assistenciais distintos, o que não foi observado nos estudos com pacientes em tratamento conservador. Esses contrastes reforçam a importância de adaptar os subconjuntos terminológicos às realidades clínicas específicas, garantindo maior precisão na identificação das NHB e na personalização das intervenções de enfermagem(9).

Portanto, os resultados obtidos neste estudo não apenas validam clinicamente os indicadores da CIPE®, como também ampliam sua aplicabilidade ao propor uma estratégia de estratificação diagnóstica e de intervenção por perfil clínico. Tal proposta representa uma contribuição inovadora para a prática baseada em evidências e para o fortalecimento da linguagem profissional da enfermagem.

A presente análise demonstrou a aplicabilidade da Teoria das NHB, aliada à ACL, como método robusto para a identificação de padrões diagnósticos em pacientes em tratamento hemodialítico. A adoção de um modelo com três classes latentes possibilitou a estratificação clínica dos pacientes em níveis distintos de complexidade, oferecendo subsídios estatísticos relevantes para o planejamento personalizado do cuidado.

As elevadas medidas de sensibilidade e especificidade observadas em diversos indicadores clínicos reforçam sua capacidade discriminativa. Os indicadores associados à oxigenação, regulação vascular, nutrição e eliminação apresentaram maior consistência na Classe 3, evidenciando que aspectos fisiológicos críticos tendem a concentrar-se em pacientes com maior comprometimento assistencial. Por outro lado, os indicadores dos domínios psicossociais, emocionais e espirituais mostraram desempenho adequado, especialmente na Classe 2, demonstrando que tais manifestações não são exclusivas de quadros graves e requerem atenção transversal na prática de enfermagem.

O agrupamento de intervenções por classe latente contribui diretamente para a prática assistencial, ao permitir a associação entre perfil clínico e plano de cuidado individualizado. A composição das intervenções por classe sugere que pacientes da Classe 1 se beneficiam de ações educativas e preventivas; os da Classe 2 demandam intervenções de apoio emocional, controle sintomático e fortalecimento do autocuidado; e os da Classe 3 exigem planos complexos e interdisciplinares para manejo intensivo de complicações clínicas e sofrimento psicossocial.

Assim, os resultados reforçam o potencial da abordagem multidimensional na construção de DE/RE e IE, evidenciam a capacidade da ACL em gerar conhecimento clínico aplicável e apontam caminhos promissores para a consolidação da prática baseada em evidências dentro dos sistemas classificatórios da CIPE®.

No que diz respeito às limitações do estudo, a seleção de uma população específica pode ter reduzido a abrangência dos achados, tornando sua generalização mais desafiadora. Além disso, o fato de o estudo estar restrito a uma única região e contexto introduziu uma característica cultural singular, que deve ser considerada atentamente na análise dos resultados, garantindo maior precisão na interpretação dos achados.

A implementação do subconjunto terminológico validado para pessoas em hemodiálise exige uma abordagem estruturada e integrada à rotina dos profissionais de enfermagem. Primeiramente, é fundamental promover treinamentos contínuos para capacitar enfermeiros na correta utilização dos enunciados de DE/RE e IE da CIPE®. A realização de workshops e simulações clínicas pode contribuir para consolidar o raciocínio clínico necessário à identificação dos indicadores específicos dos diagnósticos desse subconjunto e para a tomada de decisões assertivas.

Outro aspecto essencial para a implementação bem-sucedida do subconjunto terminológico é a criação de protocolos assistenciais baseados nas definições validadas. A incorporação desses termos nos manuais de conduta em hemodiálise pode garantir maior uniformidade nas práticas de enfermagem e reduzir variações na condução dos casos clínicos. Além disso, os critérios de validação podem servir como base para auditorias internas, permitindo monitorar a adesão às melhores práticas e identificar oportunidades de melhoria no cuidado prestado.

Por fim, a realização de estudos multicêntricos constitui um passo estratégico para ampliar a aplicabilidade do subconjunto validado em diferentes instituições de saúde. A replicação do modelo assistencial em outros serviços de hemodiálise permitirá avaliar sua eficácia em diversos contextos, reforçando sua utilidade na prática clínica. Para garantir a continuidade da atualização, recomenda-se que os profissionais envolvidos participem de redes de colaboração científica, onde possam compartilhar achados e contribuir para a evolução do subconjunto terminológico da CIPE®.

A implementação eficaz desse subconjunto representa um avanço significativo na padronização da linguagem especializada da enfermagem em hemodiálise, fortalecendo a tomada de decisão dos profissionais, aprimorando a segurança do paciente e garantindo uma assistência mais qualificada aos usuários.

CONCLUSÃO

A pesquisa evidenciou a validação clínica de um subconjunto composto por 23 DE/RE e 169 IE da CIPE®, direcionado ao cuidado de pessoas com DRC em tratamento hemodialítico. Os achados deste estudo demonstram que a aplicação da ACL constitui uma abordagem metodológica robusta para a validação clínica de subconjuntos terminológicos da CIPE®, especialmente em contextos marcados pela complexidade assistencial, como o cuidado ao paciente em hemodiálise.

A identificação de três classes latentes permitiu diferenciar perfis clínicos distintos, com elevados níveis de sensibilidade, especificidade e acurácia global, reforçando a validade dos indicadores observáveis para fins diagnósticos. Com isso, este estudo contribui para a consolidação da linguagem padronizada da enfermagem, fortalece a prática baseada em evidências e oferece subsídios para a construção de protocolos assistenciais mais precisos, seguros e individualizados.

A aplicabilidade prática do subconjunto é ampliada ao possibilitar a identificação precoce de riscos, o planejamento de intervenções específicas e o monitoramento contínuo dos resultados de enfermagem. Recomenda-se que futuras pesquisas explorem sua implementação em diferentes contextos assistenciais, como a atenção primária, unidades de terapia intensiva e serviços de transplante renal, além de investigar seu impacto na qualidade do cuidado, nos desfechos clínicos e na gestão dos serviços de saúde.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Marcia Regina Cubas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    21 Ago 2025
  • Aceito
    03 Nov 2025
  • Corrigido
    28 Jan 2026
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