Open-access Desenvolvimento atrasado do lactente: análise de conteúdo de uma proposta de diagnóstico de Enfermagem*

RESUMO

Objetivo:  Analisar o conteúdo do diagnóstico de Enfermagem “Desenvolvimento atrasado do lactente”.

Método:  Estudo metodológico, abordando-se a fase de análise de conteúdo, valendo-se de uma abordagem mista. A primeira etapa foi um estudo de concordância, quantitativo; a segunda, um estudo de consenso qualitativo. As duas etapas foram realizadas com proficientes. Para análise, empregou-se o teste Binomial, o valor p igual ou superior a 0,05 com ponto de corte de 0,85. O nível de significância adotado foi de 5%.

Resultados:  O diagnóstico proposto obteve elevada concordância entre os juízes quanto à sua estrutura (título, definição, características definidoras, fatores relacionados, populações em risco e condições associadas), com mais de 85% de aprovação. Algumas características foram reformuladas para alinhamento com a NANDA-I, aprimorando a clareza e a aplicabilidade clínica.

Conclusión:  A validade de conteúdo foi satisfatória, mostrando-se relevante, clara e aplicável à prática de Enfermagem. Sua adoção pode favorecer a detecção precoce de atrasos no desenvolvimento infantil e subsidiar intervenções multiprofissionais, especialmente em contextos de vulnerabilidade.

DESCRITORES
Diagnóstico de Enfermagem; Deficiências do Desenvolvimento; Estudos de Validação

ABSTRACT

Objective:  To analyze the content of the nursing diagnosis “Delayed infant development.”

Method:  Methodological study addressing the content analysis phase, using a mixed approach. The first stage was a quantitative agreement study; the second was a qualitative consensus study. Both stages were carried out with proficient individuals. For analysis, the Binomial test was used, with a p value equal to or greater than 0.05 and a cutoff point of 0.85. The level of significance adopted was 5%.

Results:  The proposed diagnosis obtained high agreement among the judges regarding its structure (title, definition, defining characteristics, related factors, at-risk populations, and associated conditions), with more than 85% approval. Some characteristics were reformulated to align with NANDA-I, improving clarity and clinical applicability.

Conclusion:  The content validity was satisfactory, proving to be relevant, clear, and applicable to nursing practice. Its adoption may favor the early detection of delays in child development and support multidisciplinary interventions, especially in vulnerable contexts.

DESCRIPTORS
Nursing Diagnosis; Developmental Disabilities; Validation Study

RESUMEN

Objetivo:  Analizar el contenido del diagnóstico de enfermería «Retraso en el desarrollo del lactante».

Método:  Estudio metodológico, abordando la fase de análisis de contenido, utilizando un enfoque mixto. La primera etapa fue un estudio de concordancia cuantitativo; la segunda, un estudio de consenso cualitativo. Las dos etapas se llevaron a cabo con expertos. Para el análisis, se utilizó la prueba binomial, con un valor p igual o superior a 0,05 y un punto de corte de 0,85. El nivel de significación adoptado fue del 5%.

Resultados:  El diagnóstico propuesto obtuvo una alta concordancia entre los jueces en cuanto a su estructura (título, definición, características definitorias, factores relacionados, poblaciones en riesgo y condiciones asociadas), con más del 85% de aprobación. Algunas características se reformularon para alinearlas con la NANDA-I, mejorando la claridad y la aplicabilidad clínica.

Conclusión:  La validez del contenido fue satisfactoria, mostrándose relevante, clara y aplicable a la práctica de la enfermería. Su adopción puede favorecer la detección temprana de retrasos en el desarrollo infantil y respaldar intervenciones multiprofesionales, especialmente en contextos de vulnerabilidad.

DESCRIPTORES
Diagnóstico de Enfermería; Discapacidades del Desarrollo; Estudios de Validación

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento infantil (DI) abrange o espectro neuropsicomotor e pode ser dividido, resumidamente em domínios, dentre os quais se destacam o cognitivo, o psicossocial e o físico, que estão interligados e se influenciam mutuamente durante a vida do indivíduo(1). Dessa forma, alterações nesses domínios podem levar ao atraso no desenvolvimento. Porém, para que sejam detectadas tais alterações, a criança deve passar por vigilância contínua, a fim de detectar problemas precocemente, ou mesmo acompanhar o atraso quando este já estiver instalado, por meio de instrumentos padronizados e validados(2).

Todavia, a tarefa de identificar e acompanhar crianças com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor depara-se com a complexidade de fatores, como a inexistência de um sistema eficiente de vigilância, a não utilização de instrumentos padronizados e adequados para realização da triagem ou mesmo a não gratuidade de testes que são considerados padrão-ouro na avaliação do atraso do desenvolvimento(3).

O período em que esses fatores influenciarão mais fortemente dependerá, também, de cada fase/etapa designadas de acordo com o ciclo vital da criança e sua idade. Conforme as faixas etárias consideradas pelo Ministério da Saúde (MS), é na fase de lactente, que compreende a idade de 29 dias até 24 meses, que ocorrem as maiores e mais rápidas modificações no DI, em decorrência da maior plasticidade cerebral. Consequentemente, as crianças que estão nessa fase também estão expostas a agravos, como atrasos no DI. No entanto, elas também possuem uma melhor respostas a terapias e estímulos, quando diagnosticadas precocemente(4).

O enfermeiro é um dos profissionais que pode fazer a triagem do DI, através da utilização dos diagnósticos de Enfermagem no intuito de direcionar suas condutas. Contudo, não há um diagnóstico de Enfermagem que trabalhe especificando cada faixa etária e, como elencado acima, há uma faixa etária, em específico, mais sensível a diagnóstico e intervenção para o DI, a fase de lactente. A partir disso, um estudo anterior(5) construiu os elementos estruturais de um diagnóstico de Enfermagem voltado para o atraso no desenvolvimento do lactente. Todavia, ainda não havia realizado a etapa de análise de conteúdo, que é primordial para o processo de validação final do diagnóstico.

Essa análise de conteúdo refere-se a uma das etapas para construção ou validação de diagnóstico de Enfermagem, que tem como objetivo examinar criticamente os seus elementos estruturais, como título, definição, fatores relacionados, características definidoras, populações em riscos e condições associadas, através de critérios psicométricos e participação de juízes especialistas, que garantam que esses componentes estejam coerentes com a prática clínica e com uma linguagem padronizada da Enfermagem, como a da NANDA-Internacional(6).

Vale destacar, ainda, que a utilização de diagnósticos de Enfermagem validados permite a elaboração de planos assistenciais mais eficazes, auxiliando na promoção da saúde infantil e prevenção de agravos. Contudo, para que essa ferramenta seja aplicada de maneira eficiente, é necessário que seu conteúdo seja previamente analisado e avaliado por especialistas, garantindo sua pertinência e clareza na prática clínica.

Diante disso, o objetivo desse estudo foi analisar o conteúdo do diagnóstico de Enfermagem “Desenvolvimento atrasado do lactente”, utilizando uma abordagem mista.

MÉTODO

Desenho do Estudo

Estudo metodológico, abordando-se a fase de análise de conteúdo, valendo-se de uma abordagem mista, com delineamento exploratório sequencial. A primeira etapa foi um estudo de concordância, quantitativo, e a segunda, um estudo de consenso, qualitativo. As duas etapas foram realizadas com proficientes na área. Contudo, na segunda houve um rigor maior ao selecionar esses juízes, sendo considerados, principalmente, aqueles com doutorado e que trabalhassem/pesquisassem na área materno-infantil e/ou taxonomias de Enfermagem. Isso ocorreu pois eles iriam tanto avaliar as discordâncias da primeira etapa, quanto reavaliar itens que julgassem pertinentes.

Local e Período

O estudo ocorreu de forma remota. A primeira etapa ocorreu entre novembro de 2018 a janeiro de 2019, de maneira assíncrona, através de contato via e-mail. A segunda etapa foi realizada entre outubro de 2020 a janeiro de 2021, e ocorreu tanto de forma assíncrona, também por e-mail, como síncrona, pela plataforma Google Meet.

População, Amostra e Critérios de Seleção

Nas duas etapas, a captação dos juízes/expertises ocorreu por meio de busca na Plataforma Lattes do Currículo Lattes de pesquisadores, disponível no portal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) utilizandose os seguintes termos: análise de conceito; diagnósticos de enfermagem; crescimento e desenvolvimento infantil; saúde da criança; análise de conteúdo e validação de conteúdo e por meio de amostragem de rede ou bola de neve (snowball), durante a qual foi solicitada indicação de outro pesquisador que pudesse atender aos critérios de elegibilidade deste estudo e o convite era feito através do e-mail de cada juiz.

A fim de considerar tal juiz apto para realizar a avaliação, foram aplicados os critérios de Fehring(7), de forma adaptada, e consideradas também as recomendações de Lopes et al.(8), que mencionam o equilíbrio dos participantes quanto à experiência clínica e o conhecimento teórico. Logo depois da seleção, estes foram convidados e divididos por perfil: o primeiro, formado por enfermeiros clínicos com experiência de pelo menos cinco anos trabalhando na área de saúde da criança e desenvolvimento infantil; e o segundo, formado por juízes com experiência com o diagnóstico de enfermagem e taxonomia da NANDA Internacional (NANDA-I).

Dessa forma, para análise de concordância (1ª etapa), o tamanho amostral foi definido por meio do cálculo que considera a proporção esperada de sujeitos em relação a uma variável dicotômica e a diferença máxima aceitável dessa proporção. O cálculo possui a fórmula: n = Zα2.P.(1-P)/d2, em que Zα refere-se ao nível de confiança no intervalo, adotado em 95%, correspondendo ao valor tabelado de 1,96; P é a proporção de indivíduos que concordam com a pertinência do componente do diagnóstico de enfermagem, sendo considerada de 85%; e d é a diferença de proporção considerada aceitável, que será em 15%, incluindo um intervalo de 70 a 100%. Desse modo, o cálculo final foi determinado por n = 1,962.0,85.0,15/0,152, sendo concluído um número amostral de 22 juízes(8).

Para este momento, foram recrutados 135 enfermeiros, no primeiro contato. Obteve-se o retorno de 36 juízes, sendo que dentre estes, cinco recusaram a participar do estudo por motivos acadêmicos e profissionais e nove, embora inicialmente tenham aceitado, não devolveram a avaliação dentro do prazo estabelecido, sendo, portanto, excluídos da amostra. Assim, a amostra final foi composta por 22 enfermeiros juízes.

Já a segunda etapa do estudo foi denominada como análise de consenso, pois se buscou seguir princípios metodológicos característicos desse tipo de abordagem(9). A exemplo da definição dos critérios para seleção dos avaliadores, já mencionados acima, adotou-se ainda, a estratégia de discussão em grupos com o objetivo de alcançar consenso entre os participantes acerca dos itens do diagnóstico. O processo envolveu rodadas sucessivas de feedback e discussão coletiva, nas quais os comentários e sugestões dos juízes foram considerados para a revisão e aperfeiçoamento dos itens propostos, caracterizando, assim, uma etapa de validação por consenso entre especialistas.

A amostragem foi não-probabilística, através do grupo focal (GF). Neste tipo de abordagem, determina-se o número de juízes entre seis e 15. Foram recrutados 61 enfermeiros, no primeiro contato, e obteve-se o retorno de 15 juízes, sendo que oito recusaram-se a participar do estudo por motivos acadêmicos e profissionais. A amostra final foi constituída por sete enfermeiros juízes.

Coleta de Dados

Após aceitarem participar no estudo, cada juiz recebeu, via e-mail, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e o questionário para avaliação elaborado na fase de análise de conceito, com os elementos do diagnóstico proposto “Desenvolvimento atrasado do lactente”, contendo título, definição, características definidoras, fatores relacionados, populações em risco e condições associadas. Para o estabelecimento do consenso entre os juízes, com o intuito de nortear os indicadores a serem analisados no instrumento, foi utilizada a relevância como um dos critérios de psicometria propostos por Pasquali (1999)(10), sendo estabelecida uma escala do tipo Likert com 5 opções de respostas, onde os itens 1, 2 ou 3 são classificados como inadequados/irrelevantes; já os itens 4 e 5 são considerados adequados/relevantes.

No intuito de estabelecer o consenso entre os juízes de forma coletiva, foram realizadas reuniões via plataforma Google Meet, estabelecendo-se a metodologia do GF. Foram realizados dois encontros, com duração de duas horas cada. O grupo foi conduzido por um mediador, um dos pesquisadores do estudo, e os dois momentos foram gravados para posterior registro e análise. Esses mesmos juízes já haviam avaliado o instrumento, previamente, de forma individual, e os dados da avaliação prévia foram apresentados ao GF pelo mediador e discutido por ambos. Todos os questionamentos e sugestões foram discutidos até a obtenção do consenso, sendo este considerado quando a maioria do grupo concordava com a síntese da discussão sobre cada questionamento e sugestão realizada pelo mediador.

Análise e Tratamento dos Dados

Os dados foram compilados no programa Excel® 2016 e, após, para a tabulação, cálculo das médias e testes estatísticos, foi utilizado o programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 25.0.

A análise estatística de concordância, segundo cada item do instrumento, foi realizada por meio da adequação do ajustamento das proporções dos juízes que concordaram com a pertinência do instrumento. Para tanto, empregou-se o teste Binominal, sendo pertinente o valor p igual ou superior a 0,05 com ponto de corte de 0,85. Para essa análise, o nível de significância (α) adotado foi de 5%.

Aspectos Éticos

Foram cumpridos os preceitos da Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde que trata da pesquisa com seres humanos. O projeto foi registrado na Plataforma Brasil e aprovado pelo CEP/UNILAB, protocolo no. 5.032.639.

RESULTADOS

Para o estudo de concordância, os enfermeiros apresentaram taxa de retorno dos instrumentos de 16,2%. Destes, 95,5% (n = 21) eram do sexo feminino, 59,1% (n = 13) trabalhavam em Instituição de Ensino Superior, 63,3% (n = 14) com titulação de doutor e 36,4% (n = 08) com especialização na área de saúde da criança. Sobre a atuação na linha de pesquisa em saúde da criança, 77,3% (n = 17) mencionaram que já haviam atuado e/ou atuavam e 45,5% (n = 10) apresentavam expertise na área de diagnóstico de enfermagem.

As variáveis idade e tempo de formação apresentaram distribuição assimétrica (p < 0,05), indicando que a mediana da idade foi 33,50 (±8,78) anos, sendo a idade mínima 27 anos, e a máxima de 59 anos. Quanto ao tempo de formação, a mediana foi de 10 (±7,21) anos, sendo o tempo mínimo de cinco anos e máximo de 35 anos.

Já no estudo de consenso, todas as participantes eram do sexo feminino. Quanto à titulação, duas (28,6%) enfermeiras possuíam especialização na área de desenvolvimento infantil, uma em neonatologia e todas (100%) eram doutoras. Além disso, o tempo de formação variou entre 10 e 20 anos. Todas estavam trabalhando como docentes em universidades de diversos estados, como Ceará, Paraíba, Bahia, Piauí, Goiás e São Paulo e trabalhavam temas relacionados à saúde da criança e/ou taxonomias de Enfermagem.

Os resultados acerca da avaliação de conteúdo e consenso dos elementos do diagnóstico proposto serão organizados em tabelas pelos seguintes tópicos: avaliação de título e definição, avaliação da população em risco e condições associadas, avaliação das características definidoras e avaliação dos fatores associados.

Avaliação de Título e Definição

Para análise de conteúdo, foram enviadas uma opção de título do diagnóstico e três definições construídas previamente durante a análise de conceito, e as opções de justificativa e de sugestão, caso considerassem necessárias. Ressalta-se que, na etapa de análise de conceito foi realizada leitura minuciosa dos artigos selecionados para construção das definições.

Na Tabela 1, encontra-se o julgamento quanto à adequação do título do diagnóstico de enfermagem proposto e sua respectiva definição final escolhida pelos juízes.

Tabela 1
Avaliação da adequação do título e definição para o diagnóstico de enfermagem proposto – Redenção, CE, Brasil, 2022.

É possível observar que houve grande concordância nos dois elementos apresentados. Ainda assim, as expertises da análise de consenso sugeriram algumas modificações quanto a escrita para ser melhor aceita pela taxonomia NANDA-I durante a sua submissão. Dessa forma, o título passou a ser “Desenvolvimento Atrasado do Lactente” e a definição: “Lactente apresenta ausência de dois ou mais marcos nas áreas do desenvolvimento, caracterizadas por alterações cognitivas, comunicação/linguagem e pessoal/social”, justificando-se por ser mais completa ao trazer os domínios que poderão ocorrer o atraso. Vale destacar que todas essas alterações foram acatadas por se tratar de profissionais com ampla experiência nessa área e que estavam avaliando em conjunto, sendo consenso entre todos essas modificações.

Avaliação da Adequação das Populações em Risco e Condições Associadas

A seguir, na Tabela 2 são apresentados os indicadores que compuseram as populações em risco e condições associadas por meio da análise de conceito, segundo o julgamento mediante o índice de concordância dos juízes quanto ao critério da relevância.

Tabela 2
Índice de concordância dos juízes quanto à relevância dos indicadores das populações em risco e condições associadas – Redenção, CE, Brasil, 2022.

Considerando que a hipótese nula seja representada pelos valores de concordância entre os juízes iguais a 85%, o indicador das populações em risco relacionado às condições genéticas é significativo com relação a não concordância entre os juízes, e assim, deve ser retirado. Ainda sobre esse indicador, um juiz sugeriu separar os seus componentes (sexo masculino e etnia não-branca) em grupos diferentes, não os associando com condições genéticas.

Os demais indicadores tiveram índice de concordância maior que 85% entres os juízes e o valor de p> 0,05 pelo teste binomial, e assim, foram aprovados pelos juízes. Contudo, houve algumas sugestões, como: nos “Fatores sociais” foi sugerido acrescentar a eles os elementos, condições ambientais, moradia, água, abastecimento e presença de fossas sépticas e esgotos. Em “condições neonatais”, sugerido acrescentar alto perímetro cefálico. Nas condições obstétricas, inseriu o termo Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), além da exposição pelo vírus HIV no lactente. Já na análise de consenso, as expertises mantiveram as respostas. Frisaram, ainda, a importância de cada elemento ter seus componentes associados. Além da modificação do termo “etnia não-branca” para “população negra” dentro dos fatores genéticos. Não concordando, portanto, em seu desmembramento, como sugerido anteriormente.

No que concerne às Condições Associadas, o indicador desnutrição infantil obteve concordância entre os juízes maior que 85%, sendo sugerido a retirada do termo “infantil”. Além disso, os indicadores, procedimentos, atraso no crescimento, malformação, deficiência de vitamina B12, distúrbios alimentares e infecções obtiveram índice de concordância menor que 85%. Contudo, para o teste binomial, estes devem ser mantidos.

Já o indicador distúrbios maternos obteve concordância menor que 85% entre os juízes e valor de p < 0,05 no teste binomial e, portanto, deve ser retirado. Um juiz sugeriu sua retirada pelo fato desse indicador não ser considerado forte quanto à relação com o atraso do desenvolvimento. Em relação ao indicador distúrbios alimentares obteve índice de concordância menor que 85% e valor de p > 0,05, indicando que não há significância estatística e que deve ser mantido. Um juiz sugeriu que este indicador deve ser revisado juntamente com o indicador desnutrição, pois este último se insere dentro dos distúrbios alimentares. O indicador infecções obteve um índice de concordância menor que 85% e valor de p > 0,05, indicando que não há significância estatística e que deve ser mantido. Foi sugerido sua reformulação para infecções não-tratadas. Ainda foi sugerido acrescentar como fatores deste indicador: ZIKA vírus, HIV, sífilis e rubéola.

Já durante a análise de consenso, foi mantida a maioria dos elementos e modificado apenas a “má formação”, para ser incluída dentro dos distúrbios congênitos; a “Deficiência de vitamina B12”, deveria ser inserida nos “Distúrbios alimentares” e este modificasse a nomenclatura para “Distúrbios nutricionais”.

Avaliação dos Fatores Relacionados e Características Definidoras

Na Tabela 3, são apresentados os Fatores Relacionados (FR) e Características Definidoras (CD), segundo o julgamento mediante o índice de concordância dos juízes.

Tabela 3
Índice de concordância dos juízes quanto aos fatores relacionados e as características definidoras – Redençã, CE, Brasil, 2022.

Quanto aos Fatores Relacionados, é possível perceber que todos os itens apresentaram uma concordância maior que 85% entre os juízes. Apenas ao elemento “Maus-tratos” foi sugerido para ser retirado dos FR e inserido nas Populações em Risco, sendo, portanto, acatado. Já durante a análise de consenso, todas as expertises reafirmaram a importância de permanecer com os mesmos FR e inserir um novo, sendo intitulado “Utilização de fórmula na criança menor de seis meses”.

Nas características definidoras, apesar de todos os elementos terem sido bem avaliados na validação de concordância, ainda assim, foi sugerida a unificação de alguns por se assemelharem, a exemplo de “Ausência de habilidades na comunicação verbal”, que foi retirado por já estar contemplado em “Atraso na linguagem”; também os elementos “Problemas socioemocionais” e “deficiência comportamental” foram retirados, por pertencerem a outros elementos.

Já na validação de consenso, recomendou-se a renomeação de todas as características definidoras, com o objetivo de adequálas a estrutura e terminologia utilizadas nos diagnósticos de Enfermagem, facilitando a compreensão e aplicabilidade na prática clínica. Assim, os termos “Atraso cognitivo” e “Atraso na aprendizagem” foram unificados sob a denominação “Capacidade cognitiva prejudicada na aquisição da aprendizagem”. Da mesma forma, “Atraso cognitivo” e “Atraso na resolução de problemas” foram consolidados em “Dificuldade cognitiva na resolução de problemas”. O termo “Atraso na linguagem” recebeu a especificação de faixa etária, passando a ser descrito como “Atraso na linguagem do lactente”. As expressões “Atraso na linguagem receptiva” e “Atraso na linguagem expressiva” foram reformuladas para “Lactente expressa dificuldade na linguagem receptiva” e “Lactente expressa dificuldade na linguagem expressiva”, respectivamente. Além disso, os termos “Atraso psicossocial” e “Problemas de socialização” passaram a ser denominados como “Dificuldade na interação social” e, por fim, “Comportamento desafiador” passou a ser chamado “Apresenta comportamento não aceitável ou desejado socialmente”. Contudo, este último foi sugerido sua retirada, por não apresentar relação com as crianças na faixa etária de até 2 anos. No primeiro momento também atingiu uma pontuação baixa. Sendo, portanto, acatado.

Os juízes ou expertises eram, em sua maioria, do sexo feminino e com título de doutor. Percebeu-se que a taxa de retorno maior foi dos enfermeiros que atuavam na área de saúde da criança. Porém, na realização da procura por esses profissionais, buscou-se equilibrar aqueles que possuíam experiência na área de saúde da criança e na área das taxonomias de Enfermagem. Dessa forma, a avaliação dos elementos do diagnóstico proposto se torna mais precisa, contextualizada e coerente, além de assegurar que eles estejam alinhados à prática assistencial e à linguagem padronizada da Enfermagem(11).

Partindo para a análise de conteúdo, o título e a definição do diagnóstico proposto foram bem aceitos pelos juízes na análise de concordância. No entanto, para as expertises, durante a análise de consenso, sugeriram modificar a forma de escrevêlos, para que se assemelharam à nomenclatura da taxonomia de Enfermagem, especialmente a utilizada pela NANDA-I, a qual o diagnóstico será proposto. Isto ocorreu no intuito de padronizar essa escrita, pois a partir disso, poderá contribuir para a comunicação eficaz dos profissionais e continuidade do cuidado(12).

As populações em risco se referem a grupos de pessoas que compartilham características que levam cada uma delas a ser suscetível a determinada resposta humana. No diagnóstico proposto foram elencados cinco grupos das populações em risco com seus respectivos componentes. Um deles com maior discordância entre os juízes foram os “Fatores genéticos”, que abrange o sexo masculino e população negra. Todavia, ele foi mantido, por existir estudos que demonstram que esse tipo de sexo apresenta maior probabilidade de atraso do desenvolvimento(13). Além disso, a população negra também deve ser colocada como um fator que está diretamente relacionado ao atraso no desenvolvimento, devido aos desafios significativos enfrentados por essa população, como racismo, desigualdades sociais e acesso limitado aos serviços essenciais(14,15).

A seguir, está apresentado no Quadro 1 todos os elementos estruturais do diagnóstico de enfermagem Desenvolvimento Atrasado do Lactente, após a fase de análise de conteúdo pelos enfermeiros juízes.

Quadro 1
Elementos estruturais do diagnóstico de enfermagem Desenvolvimento Atrasado do Lactente, após a fase de análise de conteúdo pelos enfermeiros juízes – Redenção, CE, 2025.

DISCUSSÃO

O diagnóstico de Enfermagem proposto apresentou alta concordância quanto à pertinência dos seus componentes entre os juízes, sendo classificados como relevantes, obtendo um percentual de concordância superior a 85% em quase todos os itens, o que sustenta a validade de conteúdo do presente diagnóstico. Assim, esse resultado evidencia que esses elementos estão alinhados com a prática clínica e com os conhecimentos teóricos sobre o desenvolvimento infantil, em especial na fase de lactente.

Já nos “Fatores sociais”, também pertencente às Populações em risco, foram acrescentados como pertencente a eles, às condições ambientais, de moradia, água, abastecimento e presença de fossas sépticas e esgotos, pois se sabe que a ampliação do acesso ao saneamento básico é um fator determinante para a redução de danos à saúde da criança(16). Dessa forma, podemos considerar que os lactentes que vivem em condições ambientais e de moradia desfavoráveis, com ausência de tratamento e abastecimento de água, e ausência de fossas sépticas, vivem em condições de risco para o atraso do desenvolvimento(17). Dessa forma, sua inclusão, validadas pelos especialistas como pertinentes, reforça a aplicabilidade do diagnóstico em contextos diversos, especialmente em regiões com menor acesso a recursos diagnósticos mais complexos.

Nas Condições associadas, foi elencada uma lista ampla agrupadas com componentes pertencentes a eles, sendo identificadas como múltiplas situações em que o enfermeiro necessita de outros profissionais para intervir de modo a obter resultado favorável, ou seja, são as condições que não são independentemente modificáveis pelo enfermeiro, contudo, é necessário conhecê-las. No presente estudo, foram elencadas condições como distúrbios genéticos, neurológicos e metabólicos, as quais são importantes no comprometimento do neurodesenvolvimento infantil e que, apesar de não serem modificáveis diretamente pela Enfermagem, constituem alertas clínicos para o rastreamento precoce e sistematização do cuidado por esses profissionais(4). Além disso, a literatura afirma que diagnósticos de enfermagem validados são ferramentas facilitadoras para o acompanhamento adequado dessas condições, permitindo que o enfermeiro possa atuar de forma coordenada e em parceria com outros profissionais(18).

Os Fatores relacionados foram considerados relevantes e bem aceitos nas duas avaliações, apenas o componente “Maus tratos” foi redirecionado para as condições associadas, por se tratar de uma exposição a um determinado evento, portanto, não fazendo parte dos FR. Além de ter sido acrescentado um novo elemento, “Utilização de fórmula na criança menor de seis meses”, sua inclusão vai de encontro a um estudo de revisão bibliográfica, onde demonstrou em seus resultados, artigos que evidenciaram que bebês em aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade tiveram um desenvolvimento neuropsicomotor melhor do que as amamentadas até os quatro meses, ou mesmo as que não amamentaram no primeiro ano de vida(19). Outros fatores também merecem destaque, como “Conhecimento inadequado dos cuidadores” e “alterações no padrão de sono”, pois são reconhecidos pela literatura como modificadores ambientais do desenvolvimento. A partir deles, reforça-se o papel do enfermeiro na realização de atividades de educação em saúde e apoio às práticas parentais responsivas, no intuito de intervir ou mesmo prevenir a existência do atraso no desenvolvimento(20).

No que tange às Características Definidoras (CD), do diagnóstico “Desenvolvimento Atrasado do lactente”, trazem um conjunto de sinais que estarão presentes quando a criança apresentar atraso no desenvolvimento. Na presente proposta, foram definidas, ao final, sete CD referentes a diferentes domínios, como: cognição, linguagem e pessoal-social. Foi necessária, durante a análise de consenso, a reformulação terminológica, seguindo a padronização da NANDA-I, com intuito de facilitar a comunicação entre os profissionais e operacionalizar o diagnóstico em diferentes contextos assistenciais. Além disso, a existência de múltiplas CD aumenta a acurácia diagnóstica, de acordo com Fehring(7), fortalecendo, assim, planos assistenciais mais direcionados.

Dessa forma, as CD, que trazem relação com cognição e linguagem (capacidade cognitiva prejudicada na aquisição da aprendizagem e resolução de problemas, Atraso na linguagem do lactente e Lactente, expressam dificuldades na linguagem receptiva e expressiva) estão alinhadas com a literatura internacional, pois esta recomenda a observação sistemática dos marcos do desenvolvimento referentes a esses domínios com a finalidade de detectar precocemente o seu atraso(21). Além disso, é necessário se atentar para a vigilância também dos aspectos psicossociais, como no caso da CD “Dificuldade na interação social”, pois a partir de sua identificação, essa criança poderá enfrentar desafios referentes à compreensão, respostas sociais e comunicação eficaz, aspectos encontrados em crianças com transtornos do neurodesenvolvimento(22).

Portanto, ao identificar essas CD, permitirá ao enfermeiro a possibilidade de desenvolver intervenções voltadas para a promoção do desenvolvimento dessas habilidades em parceria com uma equipe multiprofissional.

As limitações do presente estudo referem-se à análise realizada apenas com profissionais da área de saúde da criança e/ou taxonomias de Enfermagem, o que pode limitar a diversidade de perspectivas acerca do diagnóstico proposto. Por outro lado, aumenta a especificidade sobre o tema. Outra limitação é referente à ausência de aplicação prática em contextos clínicos reais, sendo necessária futuramente a sua validação com público-alvo, visando fortalecer a aplicabilidade do diagnóstico na assistência de Enfermagem.

CONCLUSÃO

O diagnóstico de Enfermagem proposto “Desenvolvimento Atrasado do Lactente” apresentou validade de conteúdo satisfatória, com elevada concordância entre os juízes quanto aos seus componentes, incluindo título, definição, fatores relacionados, características definidoras, populações em risco e condições associadas. A reformulação da nomenclatura das características definidoras de acordo com a linguagem da NANDA-I atrelada a evidências científicas, permite que esse diagnóstico se configure como uma ferramenta aplicável, útil e sensível à prática clínica de enfermagem. Além de possibilitar a contribuição do reconhecimento precoce de atrasos no desenvolvimento em uma faixa etária sensível como a do lactente.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Marcia Regina Cubas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Set 2025
  • Aceito
    02 Mar 2026
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