Open-access Fixação do paciente pediátrico no transporte aeromédico em aeronave de asa rotativa: relato de experiência profissional

RESUMO

Objetivo:  Relatar a experiência de elaboração de um protocolo de cuidados para a fixação do paciente pediátrico durante o transvoo em aeronave de asa rotativa.

Método:  Relato de experiência profissional. O protocolo foi elaborado no serviço aeromédico de urgência e emergência de Santa Catarina, orientado pelo Guia para a Construção de Protocolos Assistenciais do Coren/São Paulo. A fundamentação teórica baseou-se em revisão integrativa e consulta a documentos de órgãos oficiais nacionais e internacionais, bem como do Conselho Federal de Enfermagem. Realizou-se validação interna com oito enfermeiros de voo do serviço.

Resultados:  O protocolo estruturou os cuidados de fixação do paciente pediátrico em três momentos assistenciais: pré-voo, transvoo e pós-voo, apoiando a tomada de decisão clínica e a segurança durante o transporte.

Considerações Finais:  O protocolo desenvolvido padronizou as práticas de fixação do paciente pediátrico no serviço aeromédico, promovendo a segurança e o suporte à tomada de decisão clínica durante o transvoo, minimizando o risco de agravos durante o transporte e fortalecendo a prática profissional no âmbito do atendimento aeromédico.

DESCRITORES
Aeronave; Resgate Aéreo; Emergências; Pediatría; Guias como Assunto.

ABSTRACT

Objective:  To report on the experience of developing a care protocol for pediatric patients fixation for the transflight in rotary-wing aircrafts.

Method:  Professional experience report. The protocol was developed within the aeromedical urgency and emergency service of Santa Catarina, guided by the Guide for the Construction of Care Protocols of Coren/São Paulo. The theoretical framework was based on an integrative review and consultation of documents from national and international official agencies, as well as the Brazilian Federal Nursing Council. Internal validation was carried out with eight flight nurses from the service.

Results:  The protocol structured the care for securing the pediatric patient into three care phases: preflight, transflight, and postflight, supporting clinical decision-making and safety during transport.

Conclusion:  The developed protocol standardized the practices for pediatric patients fixation in aeromedical services, promoting safety and supporting clinical decision-making during transflight, minimizing the risk of complications during transport, and strengthening professional practice in the field of aeromedical services.

DESCRIPTORS
Aircraft; Air Ambulances; Emergencies; Pediatrics; Guidelines as Topic.

RESUMEN

Objetivo:  Relatar la experiencia de elaboración de un protocolo de cuidados para la inmovilización del paciente pediátrico durante el vuelo en aeronaves de ala giratoria.

Método:  Relato de experiencia profesional. El protocolo fue elaborado en el servicio aeromédico de urgencias y emergencias de Santa Catarina, orientado por la Guía para la Elaboración de Protocolos de Atención de Coren/São Paulo. La fundamentación teórica se basó en una revisión integrativa y en la consulta de documentos de organismos oficiales nacionales e internacionales, así como del Consejo Federal de Enfermería. Se llevó a cabo una validación interna con ocho enfermeros de vuelo del servicio.

Resultados:  El protocolo estructuró los cuidados de inmovilización del paciente pediátrico en tres momentos asistenciales: pre-vuelo, durante el vuelo y post-vuelo, apoyando la toma de decisiones clínicas y la seguridad durante el transporte.

Consideraciones Finales:  El protocolo desarrollado estandarizó las prácticas de inmovilización del paciente pediátrico en el servicio aeromédico, promoviendo la seguridad y el apoyo a la toma de decisiones clínicas durante el vuelo, minimizando el riesgo de complicaciones durante el transporte y fortaleciendo la práctica profesional en el ámbito de la atención aeromédica.

DESCRIPTORES
Aeronaves; Ambulancias Aéreas; Urgencias médicas; Pediatría; Guías como Asunto.

INTRODUÇÃO

O transporte aeromédico consiste no resgate ou remoção de indivíduos acometidos por situações graves de saúde, realizado por meio de aeronaves de asa fixa ou rotativa, integradas ao sistema de atendimento pré-hospitalar e à central de regulação médica de urgências(1).

Os serviços aeromédicos de emergência por aeronave de asa rotativa são norteados pelas recomendações internacionais da Air Medical Physicians Association, a National Association of EMS Physicians e o American College of Surgeons Committee on Trauma(2). No Brasil, o serviço aeromédico é normatizado pela Portaria nº 2048/2002 do Ministério da Saúde para o exercício da atividade profissional em ambulância tipo E, compreendidas pelas aeronaves de asa fixa e asa rotativa regulamentadas de acordo com as normas da Agência Nacional de Aviação Civil(3). Em relação aos profissionais que atuam no serviço aeromédico, o enfermeiro é o responsável pela assistência e pelo gerenciamento do atendimento pré-hospitalar móvel e inter-hospitalar em veículo aéreo, sendo normatizado pela Resolução nº 660/2021 do Conselho Federal de Enfermagem(4).

O transporte aeromédico por aeronave de asa rotativa abrange todas as faixas etárias, presta atendimento rápido a pacientes em condições agudas potencialmente fatais, emergências cardíacas, neurológicas ou vasculares, trauma grave e lesões acidentais(5,6,7).

Esta modalidade de transporte, realizado para pacientes pediátricos, tem como indicação aqueles gravemente enfermos ou feridos, geralmente identificados pela equipe do serviço de aeromédico no período pré-hospitalar, resultando na triagem para os serviços de emergência terciária(8,9). No contexto pediátrico, as particularidades anatômicas e fisiológicas do paciente pediátrico potencializam a vulnerabilidade ao trauma, como a desproporção entre cabeça e corpo na primeira infância, que eleva a frequência de quedas e o risco de traumatismos, inclusive craniano(10). Ainda, a menor massa corporal e a proximidade entre os órgãos favorecem maior dissipação de energia nos impactos pela flexibilidade esquelética, ampliando a probabilidade de lesões sistêmicas e favorecendo a ocorrência de lesões viscerais sem sinais externos evidentes(10).

Ademais, os pacientes pediátricos são mais vulneráveis à hipotermia quando acometidos por trauma(10). Em relação às vias aéreas, apresentam a língua relativamente maior, cavidade oral menor, aumentando o risco de obstrução da via aérea por corpos estranhos (engasgamento) pelo comportamento exploratório até os três anos, ou mesmo obstrução pelo relaxamento da língua nos casos de inconsciência(10).

Em vista disso, a avaliação clínica de pacientes pediátricos representa um desafio significativo para a equipe do aeromédico. Um estudo de coorte dinamarquês relatou que 6,4% das emergências pediátricas atendidas pelo serviço, inicialmente avaliadas como “não críticas”, necessitam https://www-sciencedirect-com.ez46.periodicos.capes.gov.br/science/article/pii/S1067991X25001579?via%3Dihub#bib0007de cuidados intensivos nas 24 horas https://www-sciencedirect-com.ez46.periodicos.capes.gov.br/science/article/pii/S1067991X25001579?via%3Dihub#bib0008seguintes(5). Diante do exposto, cabe destacar que o transporte aeromédico é fundamental no manejo de situações de urgência e emergência, especialmente em condições com barreiras geográficas ou longas distâncias da ocorrência(11).

No entanto, esse tipo de transporte impõe desafios operacionais e assistenciais, em virtude das condições ambientais de voo, espaço da aeronave, vibrações, ruídos e adaptação para a realização dos procedimentos clínicos em ambiente aéreo(12). Logo, as equipes que atendem/transportam crianças devem estar preparadas com todo o espectro de tamanhos de equipamentos necessários para a fixação de um paciente pediátrico que compreende desde o prematuro (< 500 gramas) até uma criança com 100 kg ou mais(13).

Nesse sentido, a partir da prática profissional enquanto enfermeira de voo do transporte aeromédico, identificou-se uma lacuna relacionada à ausência de padronização da fixação segura do paciente pediátrico em aeronave de asa rotativa. A revisão de literatura realizada confirmou a escassez de protocolos específicos voltados a essa finalidade(14), corroborada pela ausência de diretrizes internacionais que regulem o padrão de cuidado durante o transporte aeromédico(15) e pela variabilidade das práticas de contenção pediátrica identificada na literatura(16). Este estudo tem como objetivo relatar a experiência de elaboração de um protocolo de cuidados para a fixação do paciente pediátrico durante o transvoo em aeronave de asa rotativa.

MÉTODO

Tipo do Estudo

Trata-se de um estudo do tipo relato de experiência profissional, o qual descreve a elaboração de um protocolo assistencial de enfermagem voltado para a fixação de pacientes pediátricos durante o transporte aeromédico em aeronave de asa rotativa.

Local

O protocolo foi desenvolvido e implementado no serviço aeromédico de urgência e emergência, no contexto do Serviço Móvel de Urgência (SAMU) de Santa Catarina, onde é denominado de “Arcanjos”. O Arcanjo opera com dois helicópteros – asa rotativa modelo esquilo arcanjo 01 com base em Florianópolis e a outra aeronave arcanjo 03 com base no aeroporto de Blumenau. Os arcanjos de asa rotativa apresentam diferentes configurações, quanto à tripulação e ao tipo de operação, e podem ser classificados como de alto risco ou alta complexidade. Com base na ocorrência, a tripulação da aeronave pode compor: dois pilotos (duplo comando), tripulante operacional, médico e enfermeiro de voo. Em operações de alto risco ou de alta complexidade, poderá ser embarcado o sexto tripulante operacional resgatista.

População

O protocolo elaborado abrange pacientes pediátricos, atendidos pelo serviço aeromédico de urgência e emergência.

Coleta de Dados

A elaboração do protocolo foi orientada pelo Guia para a Construção de Protocolos Assistenciais do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo(17). Esse guia orienta a construção de protocolos em etapas sequenciais, compreendendo: definição do tema e escopo do protocolo, levantamento bibliográfico e revisão das evidências científicas, elaboração do conteúdo e fluxogramas, validação interna com os profissionais envolvidos e implementação no serviço.

Para a fundamentação teórica, realizou-se uma revisão integrativa de literatura, nas bases de dados Medical Literature Analysis and Retrieval System Online, Cumulative Index to Nursing and Allied, Scopus, Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde, Embase; Base de Dados de Enfermagem e Scientific Electronic Library Online, onde utilizaram-se os Descritores de Ciências da Saúde e Medical Subject Headings: “Ambulância aérea”, “Serviço aeromédico”, “Paciente pediátrico”, “Helitransportados”, “Helicóptero de emergência”, “Ambulância aérea”, “Resgate aéreo”, “Atendimento de emergência pré-hospitalar”. A busca compreendeu o período de 2010 a 2022, resultando inicialmente em 412 artigos. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, leitura de títulos e resumos e texto na íntegra, a amostra foi composta por quatro estudos que abordavam sobre o transporte aeromédico em pacientes pediátricos e aspectos relacionados à segurança.

Complementarmente, foram consultados documentos normativos do Ministério da Saúde e órgãos oficiais nacionais e internacionais, bem como Resoluções do Conselho Federal de Enfermagem, com o objetivo de incorporar recomendações legais e técnico-assistenciais que orientam a prática profissional em serviços aeromédicos. Embasado nas evidências científicas e normativas identificadas, o protocolo foi estruturado contemplando cuidados de fixação do paciente pediátrico em três momentos: cuidados pré-voo, cuidados no transvoo relacionados à fixação do paciente pediátrico e cuidados no pós-voo.

A etapa de validação interna do protocolo foi realizada junto a oito enfermeiros de voo atuantes no serviço aeromédico de urgência e emergência de Santa Catarina. Após a validação interna, o protocolo foi implementado no serviço aeromédico como instrumento orientador da prática assistencial, sendo utilizado no transporte aeromédico de pacientes pediátricos, com o objetivo de padronizar as condutas de fixação e apoiar a tomada de decisão clínica durante o atendimento. O presente relato de experiência detalha a construção do protocolo especificamente, não detalhando as etapas de validação interna e implementação no serviço aeromédico de urgência e emergência.

Aspectos Éticos

Por se tratar de um relato de experiência profissional, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), em conformidade com a Resolução CNS nº 510/2016.

RESULTADOS

A experiência resultou na elaboração de um protocolo assistencial voltado para a fixação segura do paciente pediátrico durante o transvoo em aeronave de asa rotativa. Este foi estruturado a partir de evidências científicas, normativas nacionais e internacionais e da prática assistencial do serviço aeromédico, sendo validado internamente por enfermeiros de voo.

O protocolo estruturou os cuidados de fixação do paciente pediátrico em três momentos assistenciais: pré-voo, transvoo e pós-voo. Essa organização possibilita sistematizar condutas, reduzir a variabilidade da prática clínica e apoiar a tomada de decisão da equipe em cenário de alta complexidade.

Cuidados No Pré-Voo

Os cuidados pré-voo compreendem a explanação das atribuições dos profissionais enfermeiros e médicos, bem como modelos de aeronaves e a composição das tripulações.

Compete ao enfermeiro a checagem do funcionamento dos equipamentos, da disponibilidade e validade de materiais, bem como a reposição dos insumos utilizados durante o atendimento, assegurando a prontidão assistencial para o transporte aeromédico pediátrico. Cabe ainda participar, juntamente com o médico, da tomada de decisão quanto ao transporte, realizar o preenchimento e a evolução dos pacientes atendidos e, ao final do atendimento, proceder à limpeza dos equipamentos e ao encaminhamento dos materiais para desinfecção(3,4).

À equipe médica compete a checagem do funcionamento dos equipamentos e da disponibilidade dos materiais na mochila, a reposição dos insumos utilizados, o preenchimento das evoluções dos pacientes após cada ocorrência e a prescrição das medicações controladas administradas durante o atendimento(4).

Quanto aos modelos das aeronaves, incluem-se o Modelo Esquilo (HB – 350 B1), prefixo PT, denominado “Helicóptero Arcanjo 01”’ com capacidade para transportar seis pessoas, sendo dois pilotos, um tripulante operacional, um médico, um enfermeiro e um paciente, não dispondo de kit aeromédico. O Modelo Esquilo (AS- 350 B2), prefixo PR- BNU, denominado “Helicóptero Arcanjo 03”, possui capacidade semelhante, com a diferença de contar com o kit aeromédico disponível para o atendimento.

Cuidados No Transvoo Relacionados À Fixação do Paciente Pediátrico

Durante o acionamento, são obtidas informações referentes à história clínica, idade e possíveis patologias da criança. A equipe realiza a checagem da disponibilidade dos equipamentos para realização de manobras de extração da vítima, testa o funcionamento de cada aparelho e prepara a aeronave com materiais e equipamentos, organizando-os de forma a não comprometer a assistência durante o transvoo. Em conjunto com o médico, procede-se à organização dos equipamentos, materiais e medicações, estabelecendo uma disposição que favoreça o acesso rápido e seguro, proporcionando uma remoção segura da criança(3).

Em relação aos equipamentos disponíveis, o serviço conta com a maca rígida de transporte e Kendrick Extrication Device (KED) adulto e pediátrico. A configuração de peso e sugestão de uso padronizadas visam o conforto da criança a ser transportada. Ressalta-se que há crianças cujas estaturas não condizem com a idade cronológica, sendo avaliada, no momento do atendimento, a adequação do tamanho do equipamento utilizado(4). A maca rígida utilizada como dispositivo de apoio ao transporte apresenta capacidade de suporte até 180 kg e possibilita a fixação segura do paciente pediátrico, além de permitir a realização de exames e procedimentos sem necessidade de remoção imediata do dispositivo. Dispõe de cintos de segurança nas cores preto, vermelho, verde e amarelo(4).

O KED adulto ou pediátrico consiste em um colete de imobilização dorsal associado à prancha rígida, sendo indicado para vítimas de traumas que se encontram sentadas, configurando-se como uma opção no transporte de crianças no serviço pré-hospitalar. A prancha rígida de imobilização é dimensionada para o transporte de pessoas com até 180 kg. Ambos dispositivos possuem estrutura radiotransparente, alças em nylon com engates rápidos, pegadores manuais, faixa para proteção do queixo e testa, almofadas e tirantes de engate rápidos nas cores padrão (amarelo, verde, vermelho), permitindo sua utilização durante a realização de exames quando necessários(4) (Figura 1).

Figura 1
Equipamentos para o transporte. Florianópolis, SC, Brasil, 2025.

Ao realizar a imobilização da criança para o transvoo no ked de tamanho apropriado, o uso de manta térmica é considerado indispensável para controle de temperatura corporal. A sequência da fixação prioriza inicialmente a cabeça, seguida do tronco e dos membros. Na posição anatômica, os espaços vazios são preenchidos com coxins, ou por meio da elevação do tronco da criança quando indicado. Destaca-se que a fixação deve ser realizada de modo a garantir estabilidade e segurança, sem comprometer os movimentos respiratórios (Figura 2).

Figura 2
Fixação do paciente pediátrico com Kendrick Extrication Device. Florianópolis, SC, Brasil, 2025.

O apoio para o deslocamento com a maca rígida finaliza a sequência da segurança no transvoo, considerando as lesões e/ou a condição clínica apresentada, permitindo assistência adequada durante o transporte. O equipamento dispõe de cintas de fixação do tipo tira-aranhas, contribuindo para maior estabilidade da criança durante o voo.

A criança não deve ser transportada no colo de um adulto durante o transvoo, em virtude dos riscos de queda ou trauma, especialmente em situações de turbulência ou manobras da aeronave. A fixação da criança no banco da aeronave possibilita melhor observação clínica por parte da equipe, incluindo a avaliação da tonalidade da pele, ocorrência de crise convulsiva, êmese ou alterações comportamentais, além de viabilizar a realização de compressões torácicas até a necessidade de pouso de emergência.

A decisão de interromper a imobilização, quando necessária para a segurança do paciente, deve ser devidamente documentada, com descrição detalhada do motivo. Ressalta-se que a imobilização não deve impedir a ventilação, a abertura das vias aéreas ou a realização de manobras de reanimação. Em situações específicas, pode ser mais adequado transportar a criança em sua própria cadeirinha de contenção veicular, quando esta se mostra mais segura. Crianças que reagem intensamente às tentativas de imobilização podem apresentar maior risco de agravamento de lesões vertebrais; nesses casos, estratégias alternativas são consideradas, como distração ou orientação para permanência imóvel, sem contenção rígida(3,10).

Antes do transvoo, as prioridades de cuidado do paciente devem ser avaliadas e sistematizadas, incluindo a revisão de todos os equipamentos necessários, a realização de uma fixação segura e o registro de enfermagem de forma objetiva e clara de quaisquer intercorrências ocorridas durante o pré-voo(3,4). Diante dos riscos inerentes ao transvoo, os cuidados relacionados à fixação do paciente pediátrico são essenciais para evitar o agravamento do quadro clínico. A fixação da criança ao banco da aeronave favorece a segurança do paciente e possibilita à equipe a identificação precoce de alterações clínicas, como crise convulsiva, êmese ou mudança na coloração da pele. A associação dos tirantes do ked, das tiras-aranhas da maca rígida e dos cintos da aeronave proporciona maior estabilidade, minimizando movimentos bruscos durante o transvoo e contribuindo para a integridade física e psíquica do paciente pediátrico(4).

Durante o transvoo, o médico e o enfermeiro posicionam-se ajoelhados no assoalho da aeronave em razão do espaço físico reduzido e da limitação de mobilidade. Dessa forma, procedimentos de suporte avançado de vida, como intubação orotraqueal, compressões torácicas, desfibrilação cardíaca e drenagem torácica, são previstos previamente ao embarque.

O protocolo estabelece que o transvoo do paciente pediátrico sem ventilação mecânica deve ser realizado pela porta esquerda da aeronave, com entrada na posição cefálica até a completa acomodação caudal. A escolha pela porta esquerda nessa situação justifica-se pela configuração interna da aeronave, que favorece o posicionamento da cabeceira do paciente voltada para a equipe assistencial, permitindo melhor acesso às vias aéreas e à monitorização durante o voo. Após a entrada, procede-se à fixação dos cintos de segurança e à ancoragem da prancha rígida, juntamente com os equipamentos necessários, conforme a idade e o peso da criança. Em crianças com peso aproximado de 7 kg e idade inferior a 1 ano, o protocolo preconiza o uso do KED pediátrico. Para crianças com idade superior a um ano e peso acima de 7 kg, o protocolo indica o uso do dispositivo adulto, associado à prancha rígida para o deslocamento até a aeronave(4).

Para os pacientes pediátricos em ventilação mecânica, o protocolo orienta que a entrada no transvoo ocorra pela porta direita da aeronave, da posição caudal até a completa entrada cefálica. Essa conduta justifica-se pela necessidade de posicionar o paciente com a extremidade cefálica próxima aos equipamentos de ventilação, facilitando o acesso e o controle dos dispositivos durante o voo. Cabe destacar que a escolha da porta de acesso pode requerer adaptações conforme o local de pouso e as condições do terreno, sendo necessário avaliar, em cada situação, se o paciente deverá ser introduzido na aeronave com a cabeça ou os pés na direção da entrada. Após a acomodação, realiza-se a fixação dos cintos de segurança e a ancoragem da prancha rígida no banco da tripulação, bem como a instalação dos equipamentos de monitorização. Nesses casos, o uso do KED, adulto ou pediátrico, associado à prancha rígida, favorece a segurança no deslocamento e o suporte para acomodação dos equipamentos de ventilação e monitorização, reforçando a estabilidade do paciente durante o transvoo(4).

Cuidados No Pós-Voo

No pós-voo, são registradas e repassadas, tanto pelo médico quanto pelo enfermeiro, todas as informações e intercorrências ocorridas antes, durante e após a chegada da criança ao destino de tratamento. Procede-se à reposição dos insumos e equipamentos utilizados durante a remoção do paciente pediátrico, bem como à limpeza e à desinfecção do interior da aeronave e dos dispositivos de fixação empregados no transvoo, assegurando a prontidão do serviço para novos acionamentos(3,4).

No protocolo elaborado consta, ainda, um fluxograma assistencial para o atendimento do paciente pediátrico, com a descrição das etapas correspondentes a cada fase do cuidado durante o transporte aeromédico (Figura 3).

Figura 3
Fluxograma de acionamento para atendimento do paciente pediátrico. Florianópolis, SC, Brasil, 2025.

DISCUSSÃO

O transporte aeromédico de pacientes pediátricos em aeronave de asa rotativa configura-se como uma prática de alta complexidade assistencial, na qual a segurança do paciente depende diretamente da adequação dos dispositivos de fixação e da organização da assistência prestada durante todas as etapas do voo. Estudos internacionais evidenciam que a variabilidade nas práticas de imobilização e fixação durante o transporte aéreo pode aumentar o risco de eventos adversos, especialmente em pacientes pediátricos com condições clínicas instáveis ou em ventilação mecânica(16,18).

Nesse contexto, a experiência relatada demonstra que a elaboração de um protocolo assistencial específico para a fixação do paciente pediátrico contribuiu para a padronização das condutas e para a redução da variabilidade da prática clínica no serviço aeromédico. A organização dos cuidados ocorreu em três momentos: pré-voo, transvoo e pós-voo, que favoreceu o planejamento antecipado, a mitigação de riscos e a continuidade do cuidado, aspectos considerados essenciais em cenários caracterizados por restrições físicas, vibração, ruído e limitação de acesso ao paciente durante o voo(2,7).

No pré-voo, a definição de critérios para checagem de equipamentos e seleção de dispositivos de fixação, conforme idade, peso, estatura e condição clínica da criança, mostrou-se fundamental para a segurança do transporte. A literatura aponta que a inadequação do dispositivo de contenção ao perfil do paciente pediátrico está associada a maior instabilidade durante o deslocamento e dificuldade na realização de intervenções emergenciais(19). Assim, a sistematização dessa etapa contribui para a antecipação de demandas assistenciais e para a tomada de decisão clínica mais assertiva.

Durante o transvoo, a padronização da aplicação dos dispositivos de fixação, priorizando a estabilidade, a manutenção das vias aéreas e a possibilidade de monitorização contínua, encontra respaldo nas recomendações internacionais para o transporte aeromédico pediátrico. As especificidades anatômicas e fisiológicas dessa população, com maior proporção cefálica, flexibilidade do esqueleto e maior vulnerabilidade a hipotermia, exigem estratégias de imobilização que garantam a segurança sem comprometer a ventilação ou o acesso às vias aéreas(10).

O uso do KED associado a prancha rígida, conforme descrito no protocolo, mostrou-se compatível com essas recomendações, ao permitir estabilidade adequada e suporte às intervenções necessárias durante o voo. Outro aspecto relevante refere-se à possibilidade de utilização de dispositivos alternativos de contenção, como cadeirinha veicular, em situações específicas. Evidências apontam que, quando adequadamente fixados, esses dispositivos podem representar uma alternativa segura no transporte aeromédico, especialmente em crianças que apresentam intensa reação a imobilidade rígida(16).

No pós-voo, a padronização do registro das informações assistenciais e da reorganização operacional do serviço contribui para a continuidade do cuidado e para a segurança do paciente, além de favorecer a rastreabilidade das condutas adotadas. A literatura destaca que registros sistematizados são essenciais para a comunicação entre equipes e para a avaliação da qualidade da assistência em serviços de urgência e emergência(3).

Destaca-se, ainda, o papel do enfermeiro de voo como profissional central na organização da assistência e na gestão dos recursos durante o transporte aeromédico. A atuação do enfermeiro na checagem de equipamentos, na aplicação dos dispositivos de fixação e na tomada de decisão compartilhada com a equipe médica está em consonância com as normativas do Conselho Federal de Enfermagem, que reconhecem sua responsabilidade tanto assistencial quanto gerencial no atendimento pré-hospitalar e inter-hospitalar em veículo aéreo(4). Estudos apontam a importância do preparo dos profissionais de saúde, pois realizar procedimentos que salvam vidas de crianças sem as ferramentas ou o treinamento adequado representa um desafio significativo para a equipe(20,21).

Diante do exposto, o protocolo contribui para a padronização da fixação do paciente pediátrico durante o transvoo, fortalecendo a autonomia profissional e subsidiando a tomada de decisão clínica em cenário de alta complexidade, no qual o tempo e o espaço impõem limitações importantes à assistência. Como limitação do estudo, destaca-se a escassez de publicações científicas voltadas especificamente para a prática da enfermagem na fixação do paciente pediátrico durante o transvoo aeromédico.

Como contribuição para a área da saúde, o protocolo elaborado descreve os principais cuidados de fixação durante o transvoo de pacientes pediátricos, reunindo informações essenciais para a segurança do paciente e apresentando potencial de aplicabilidade em outros contextos aeromédicos.

CONCLUSÃO

O transporte aeromédico de pacientes pediátricos em aeronave de asa rotativa expõe os pacientes a riscos inerentes que podem interferir significativamente em seu estado de saúde, exigindo medidas preventivas e terapêuticas sistematizadas para minimizar as complicações durante o deslocamento. A experiência relatada evidencia que a elaboração de um protocolo de cuidados voltado para a fixação do paciente pediátrico contribui para qualificar a assistência, ao sistematizar condutas e reduzir a variabilidade do cuidado em um contexto de alta complexidade. O protocolo desenvolvido padronizou as práticas de fixação do paciente pediátrico no serviço aeromédico Arcanjo, promovendo a padronização, a segurança e o suporte à tomada de decisão clínica durante o transvoo, reduzindo o risco de agravos secundários durante o transporte e fortalecendo a prática profissional no âmbito do atendimento aeromédico.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Conforme preconizado pela Ciência Aberta, o link do repositório no qual os dados de pesquisa foram depositados: https://repositorio.ufsc.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/247267/PGCF0174-D.pdf?sequence=1.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Ivone Evangelista Cabral

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    01 Fev 2026
  • Aceito
    17 Maio 2026
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