Open-access Percepção dos profissionais de unidade neonatal sobre a participação dos pais no cuidado ao prematuro*

RESUMO

Objetivo:  Descrever a participação dos pais no cuidado ao recém-nascido prematuro na perspectiva dos profissionais da Unidade de Terapia Intensiva Neonatal.

Método:  Estudo descritivo e qualitativo, realizado em março de 2025 com 26 profissionais da equipe multiprofissional atuantes em duas Unidades de Terapia Intensiva Neonatal localizadas em Maceió, Alagoas. O estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Alagoas, sob Parecer n° 7.182.417.

Resultados:  A partir da leitura das entrevistas, emergiram duas categorias: “Entre o medo e a descoberta” e “Executando cuidados e promovendo o vínculo”. Os profissionais relataram a inserção dos pais na rotina da unidade para reduzir o medo e ampliar os benefícios ao bebê, principalmente com o método canguru.

Conclusão:  O medo e a incerteza dificultam a inserção dos pais nos cuidados. O acolhimento, a orientação e o incentivo às práticas pela equipe podem ajudar a superar. Políticas de humanização são necessárias para assegurar a corresponsabilidade no cuidado.

DESCRITORES
Recém-Nascido Prematuro; Unidades de Terapia Intensiva Neonatal; Família; Pessoal de Saúde

ABSTRACT

Objective:  To describe parents’ participation in the care of premature newborns from the perspective of professionals working in the Neonatal Intensive Care Unit.

Method:  A descriptive qualitative study conducted in March 2025 with 26 professionals from the multidisciplinary team working in two Neonatal Intensive Care Units located in Maceió, Alagoas. The study was submitted to the Research Ethics Committee of the Universidade Federal de Alagoas, under Opinion 7,182,417.

Results:  From the analysis of the interviews, two categories emerged: “Between fear and discovery” and “Providing care and promoting bonding”. Professionals reported the inclusion of parents in the unit’s routine to reduce fear and expand benefits for the infant, especially through the kangaroo method.

Conclusion:  Fear and uncertainty hinder parents’ inclusion in care. Welcoming, guidance, and encouragement of care practices by the healthcare team may help overcome these barriers. Humanization policies are necessary to ensure shared responsibility in care.

DESCRIPTORS
Infant, Premature; Intensive Care Units, Neonatal; Family; Health Personnel

RESUMEN

Objetivo:  Describir la participación de los padres en el cuidado de recién nacidos prematuros desde la perspectiva de los profesionales de la Unidad de Cuidados Intensivos Neonatales.

Método:  Estudio descriptivo y cualitativo, realizado en marzo de 2025 con 26 profesionales del equipo multidisciplinario que trabajan en dos Unidades de Cuidados Intensivos Neonatales ubicadas en Maceió, Alagoas. El estudio fue presentado al Comité de Ética en Investigación de la Universidada Federal de Alagoas, bajo el Dictamen 7.182.417.

Resultados:  A partir de la lectura de las entrevistas, surgieron dos categorías: “Entre el miedo y el descubrimiento” y “Brindar cuidados y promover el vínculo”. Los profesionales informaron que la inclusión de los padres en la rutina de la unidad redujo el miedo y aumentó los beneficios para el bebé, especialmente con el método canguro.

Conclusión:  El miedo y la incertidumbre dificultan la participación de los padres en el cuidado. La acogida, la orientación y el fomento de estas prácticas por parte del equipo pueden ayudar a superar este obstáculo. Las políticas de humanización son necesarias para garantizar la corresponsabilidad en el cuidado.

DESCRIPTORES
Recien Nacido Prematuro; Unidades de Cuidado Intensivo Neonatal; Familia; Personal de Salud

INTRODUÇÃO

O nascimento prematuro é um evento que impõe desafios significativos à família e aos profissionais de saúde, especialmente quando o recém-nascido (RN) necessita de cuidados intensivos em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTINs). Diante da complexidade desse cenário, cresce a valorização de práticas que promovam o envolvimento ativo dos pais no cuidado ao filho prematuro, reconhecendo-os como parte fundamental no processo de recuperação e desenvolvimento da criança(1).

O processo de hospitalização de um bebê na UTIN é uma vivência estressante para os pais, o que pode ocasionar emoções relacionadas ao medo e à solidão diante do distanciamento e despreparo. No entanto, quando existe o suporte de uma equipe multiprofissional, esse sentimento pode ser substituído pela autoconfiança(2).

Nesse contexto, o papel da equipe é atuar como mediadora entre o ambiente técnico e a dimensão emocional dos pais. A forma como os profissionais acolhem, orientam e integram a família ao cuidado impacta diretamente a qualidade da experiência vivida pelos pais durante a internação do filho. Essa premissa constitui o cerne do Cuidado Centrado na Família, modelo assistencial que reconhece a família como parceira essencial no processo de cuidado e recuperação do RN(3). No entanto, apesar dos avanços nas políticas de humanização, ainda persistem barreiras institucionais, culturais e comunicacionais que limitam a efetiva participação dos pais no cuidado neonatal(4).

As práticas de assistência neonatal que trabalham com a inclusão e aproximação da família no dia a dia do RN durante a etapa de internação em unidade hospitalar têm sido propagadas com o intuito de fortalecer a afetividade e o desenvolvimento infantil. No Brasil, tem-se o método canguru como uma das estratégias de cuidado humanizado aos RNs graves ou potencialmente graves, englobando planos de intervenções biopsicossociais focados na atenção ao bebê e sua família(5).

Entretanto, estudo ainda demonstra que o despreparo das mães em cuidar do RN que permaneceu por longo tempo internado em unidades neonatais pode impactar o cuidado pós-alta da criança. Diversos pais afirmam sensações de hesitação, temor e despreparo diante de ações de rotina relacionadas ao filho, como troca de fraldas. Isso demonstra que as orientações passadas por profissionais repercutem diretamente na saúde do bebê no ambiente doméstico(6).

Na rotina assistencial, observa-se que a equipe multiprofissional de uma UTIN, incluindo o enfermeiro, precisa de fundamentos técnicos científicos e de capacitação para potencializar a qualidade dos cuidados aos RNs e familiares. No processo do cuidado, é fundamental que o profissional compreenda a relação mãe-bebê como positiva para a preservação e reabilitação da saúde do RN, assim como as necessidades dos pais, com o intuito de oportunizar uma assistência individualizada(7).

Assim, o presente estudo busca responder ao seguinte questionamento: como você, enquanto profissional atuante em UTIN, observa a participação dos familiares no cuidado ao RN prematuro, considerando as sete medidas padrão neuroprotetoras?”. Torna-se relevante não apenas para qualificar as práticas assistenciais, mas também para subsidiar políticas públicas voltadas à humanização do cuidado e à promoção da saúde integral da criança e de sua família, com vistas a contribuir para a construção de um modelo de cuidado centrado na família e na corresponsabilidade. Propõe-se, portanto, descrever a participação dos pais no cuidado aos RNs prematuros na perspectiva dos profissionais na UTIN.

MÉTODO

Tipo de Estudo

Trata-se de estudo descritivo, de perspectiva qualitativa, realizado com a equipe multiprofissional atuante em UTIN à luz do Modelo de Cuidado Desenvolvimental de Altimier e Phillips(8). Esse modelo foi aplicado na construção do roteiro de entrevistas para coleta de dados, na análise e na discussão dos dados, focando no eixo de participação dos pais. O modelo apresenta uma estrutura que orienta a prática clínica em UTIN para a neuroproteção, a partir de sete medidas para o cuidado desenvolvimental, representadas por uma flor de lótus. Essas medidas envolvem o ambiente de cura, a otimização da nutrição, a minimização da dor e do estresse, a proteção da pele, a salvaguarda do sono, o posicionamento e o manuseio, e a parceria com as famílias, sendo a díade mãe-bebê o centro dessa flor. O estudo seguiu as recomendações do COnsolidated criteria for REporting Qualitative research.

Local, População e Critérios de Seleção

Este estudo foi realizado em duas UTINs de dois hospitais-escola, que juntas totalizam 36 leitos, com atendimento pelo Sistema Único de Saúde, ambos localizados em Maceió, Alagoas, Brasil. Foram incluídos no estudo os profissionais da equipe multiprofissional que prestam assistência direta no cuidado ao RN, como: médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e técnicos de enfermagem; e que atuassem no mínimo por um ano.

Coleta de Dados

A coleta de dados foi realizada em março de 2025, por meio de entrevistas individuais com profissionais de saúde. Optou-se por uma abordagem de amostragem por conveniência, respeitando a disponibilidade dos participantes no período de coleta: a pesquisadora comparecia às unidades duas vezes por semana, e conforme a escala de plantão vigente, apresentava a proposta do estudo e convidava os profissionais a participarem voluntariamente. Todas as entrevistas ocorreram de forma individual, em local reservado, garantindo o sigilo e o anonimato dos participantes.

Considerando a rotina das unidades e a necessidade de reduzir possíveis constrangimentos, as entrevistas foram conduzidas de duas formas: escrita, com entrega do formulário para posterior devolução preenchido pelo profissional; ou gravada, com captura de áudio durante a aplicação do roteiro, previamente apresentado, informado e autorizado pelo profissional. Ambas as formas de entrevista seguiram o mesmo roteiro de perguntas. Utilizou-se como questão disparadora: como você, enquanto profissional atuante em UTIN, observa a participação dos familiares no cuidado ao RN prematuro, considerando as sete medidas padrão neuroprotetoras?

Análise e Tratamento dos Dados

Os dados provenientes dos formulários escritos e das entrevistas gravadas foram organizados em documentos digitais padronizados. As respostas textuais e os registros de áudio foram transcritos literal e integralmente, preservando o conteúdo original. Em seguida, as informações foram estruturadas em quadros e analisadas por meio da análise de conteúdo de Bardin(9). Com a análise das entrevistas, observou-se que não houve perda de conteúdo, independentemente da forma de coleta do dado.

Aspectos Eticos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Alagoas, sob Parecer nº 7.182.417. Todos os profissionais assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, garantindo anonimato e voluntariedade. Para identificação dos participantes, obedecendo também ao critério do anonimato, optou-se por identificá-los com a letra “P”, seguida do número arábico, que foi realizada de forma crescente (P1, P2, P3, e assim sucessivamente).

RESULTADOS

Participaram deste estudo 26 profissionais da equipe multiprofissional, em um universo de 300 profissionais, como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e técnicos de enfermagem. Os principais conteúdos variaram entre o impacto da internação na UTIN, a participação nos cuidados, os sentimentos dos pais, o vínculo e o acolhimento na UTIN, que, no Modelo de Cuidado Desenvolvimental, podem ser relacionados a uma das pétalas do lótus, na parceria com a família, e ao centro, com a díade mãe-bebê. Optou-se por apresentar e discutir os resultados a partir de duas categorias: “Entre o medo e a descoberta” e “Executando cuidados e promovendo o vínculo”.

Entre o Medo e a Descoberta

O período de internação na UTIN é um desafio para os pais e bebês desde o seu início. Assim, o primeiro contato dos pais com o seu bebê ocorre, muitas vezes, na UTI, ambiente diferente e assustador, onde o profissional atua como mediador desse encontro:

Acolhendo e oferecendo o contato inicial (P4); Porque eu acho que o ambiente da UTI, por ser UTI, é um nome que assusta, que deixa a pessoa com medo. Então, cada um tem seu tempo de criação de vínculo com a criança, porque ainda tem aquela questão do bebê ideal e do bebê real (…) ela chega na UTI e ainda precisa estabelecer vínculo, o que contribui aí com o desenvolvimento (P21).

A partir de então, à medida que vão se inteirando do cotidiano e dos processos, aos poucos eles se adaptam ao ambiente, que ainda é novo, à rotina, que ainda é indefinida, e à situação clínica do RN, que é complexa. Por isso, o medo permeia sua estadia ao lado do bebê. Dos profissionais entrevistados, muitos citaram o “receio” que os pais apresentam, como pode ser visto nas falas:

Tem medo do toque (P3). A família tem muito medo. Medo da perda, medo da piora, medo da gravidade, medo até em tocar o RN (P24); A família costuma observar (P23); (…) o primeiro impacto a gente sabe que é bem grande, né? Depois eles vão se ambientando, se acostumando (P22).

Nesse contexto de superação do contato inicial e da condição materna, que ainda inspira atenção, a mãe se envolve no cuidado ao seu bebê e é incluída em uma nova unidade, onde se adapta aos horários de dieta e assistência ao seu bebê. Pouco a pouco, elas começam a se envolver se aproximar do RN:

Elas têm receio, a gente pergunta se já sabe trocar a fraldinha, mas elas têm receio de mexer, porque a maioria deles estão monitorizados, aí elas ficam sem saber como vai manusear o bebê (P17); (…) mães com medo de terem tocado o bebê… a gente vai, conversa, estimula o toque, estimula este contato com o bebê (…) é um desafio (P20).

Em todo o processo de internamento, independentemente do tempo de permanência na UTIN, destaca-se a importância da informação e dos benefícios da estadia dos pais junto ao bebê, tendo em vista que esse momento de internação também ocorre em um período de sensibilidade e fragilidade materna. Muitas vezes, esse é um marco para o estabelecimento de vínculo, e quanto mais informação estiverem disponíveis e mais por dentro eles estão das necessidades e cuidados que seu filho recebe, mais ameno se torna este momento:

Informando sobre a doença e tirando dúvidas (P6); São pessoas extremamente ansiosas, carentes de informações e atenção. Ficam mais tranquilas e participam dos processos de cura sempre que são mais informados e acolhidos (P7); A maioria dos familiares se mantém presente, procura notícias e tem interesse em fazer a posição canguru (P9); (…) eu percebo mais na questão da amamentação, porque ela fica mais vinculada ao seu bebê, mas o pai é mais aquele de só olhar, observar (P12).

Assim, conforme essa interação vai acontecendo, familiares e equipe se juntam em prol do cuidado ao RN, de forma a fortalecer a confiança, a participação e o engajamento na melhora do mesmo:

Existe uma trajetória de aprendizado e mergulho junto com a equipe nos cuidados com o bebê — trajetória essa muito individual, em que a família está inserida nos cuidados e tem livre acesso aos seus filhos (P8); Participam em sua maioria de forma interativa dos cuidados com o RN, oferta de dieta, posição canguru, recebendo informações sobre o quadro clínico (P10).

Um outro aspecto descrito pelos participantes foi em relação ao vínculo, tendo em vista a distância que a instabilidade do bebê, a quantidade de dispositivos, a própria incubadora e a necessidade de cuidados intensivos podem gerar. As mães ficam distantes dos cuidados que estariam ofertando aos seus bebês nesse período e, por isso, acabam tendo uma dificuldade de se visualizarem como mães naqueles momentos:

Elas falam muito que, às vezes, elas acham que o filho não pertence a ela. Quando a gente coloca na posição canguru, muitas vezes já escutei: “É a primeira vez que eu estou sendo mãe do meu filho, que o meu filho pertence a mim” (P11); (…) eles ficam temerosos de ver o bebê dentro da incubadora. Mas é o mesmo bebê que eles teriam em casa com eles; o problema é que aqui precisa dos cuidados da gente, mas o bebê continua sendo deles (P25).

A construção do vínculo, tão importante para o crescimento e o desenvolvimento infantil, acaba ocorrendo com relativo atraso, sendo galgada a passos menores, devido à necessidade de superação de receios, dúvidas e angústias:

A posição canguru, né, tanto o pai quanto a mãe (…) a interação de tocar no bebê, conversar. Por se tratar de RN prematuro, algumas vezes eles ficam com medo, mas aí incentivo (…) porque é bom pros RNs, né? Pro desenvolvimento deles (P18).

Uma das primeiras barreiras para a participação dos pais nos cuidados e na construção de vínculo com o RN na UTI é a condição clínica, tendo em vista sua instabilidade e a necessidade de cuidados intensivos, como pode ser visto na fala:

No começo, elas ficam receosas. Porque ou eles estão no respirador ou a questão da intercorrência - muitas vezes tem intercorrência do bebê dessaturar, e aí elas acabam relacionando a instabilidade do bebê ao canguru, mas é realmente porque é o bebê mais grave (P1).

Outros profissionais reforçam o que foi relatado anteriormente:

E depois eles vão se adaptando àquele cuidado, e eles acabam perdendo o medo, se acostumam com aquele barulho, com aquela queda de saturação, quando eles começam a entender aquela situação (P2).

Assim, pode-se observar, conforme a fala dos profissionais, que o choque inicial que o ambiente da UTIN exerce sobre os pais vai se tornando menos impactante conforme o período de internação. Os pais se mantêm em vigilância aos sintomas do bebê, mas a parceria com a equipe de saúde oportuniza que este momento seja contornado de forma mais amena, quando, aos poucos, eles são inseridos no cuidado e, ainda mais importante, informados durante o processo de internação.

Executando Cuidados e Promovendo o Vínculo

Com suas rotinas diárias, as mães acabam ficando mais presentes ao lado do leito do bebê, devido ao processo de extração de leite para alimentá-lo e à possibilidade de internação hospitalar, considerando os benefícios da presença para o RN:

Nossa maior aproximação é com as mães, que permanecem como acompanhantes no hospital e comparecem rotineiramente para a ordenha de leite humano e posicionamento canguru. E a equipe tem reconhecido cada vez mais a importância disso. Mas acho que é preciso avançar muito ainda no quesito participação dos cuidados (P14); A família é incluída no tratamento – imunoterapia e contato pele a pele (P5).

A participação nos cuidados é relativa, variando de mãe para mãe. Mas vale ressaltar que, conforme a equipe reforça a importância da participação não apenas nos cuidados e na extração de leite, mas também na sua presença na unidade, já faz diferença para a saúde do bebê:

Eu percebo que, se a gente instruir a importância deles participarem mais dos cuidados com o bebê, eles identificam a importância da presença deles e têm mais interesse em vir cuidar junto (P19).

As oportunidades de participação nos cuidados com o bebê podem ser diversas, desde o toque e o posicionamento canguru até a troca de fraldas. Esses cuidados variam entre os específicos de uma unidade neonatal, como a oferta de dieta por sonda, e os próximos do cuidado familiar, como a troca de fraldas:

Às vezes, acontece de, tipo assim, a gente estar oferecendo a dieta, e a gente pede pra eles segurarem a seringa naquele momento da dieta. Mas isso é raro na UTI. A participação deles é mesmo toque terapêutico e posição canguru (P2).

Nesses momentos de participação, também surgem novas possibilidades, tendo em vista o papel que o profissional exerce em relação às orientações que pode oferecer à família em um cuidado mais peculiar:

Eu peço ajuda a ela pra trocar uma fralda, aí eu ensino ela como é que troca uma fralda. Eu tento promover o máximo possível de colocar na posição canguru, de conversar com ela, dela entender que aquele filho é dela (P11); Precisam de orientações quanto às estratégias de favorecer a neuroproteção (P26).

Além do pai e da mãe, que têm livre acesso à unidade e aos seus bebês, outros familiares têm acesso limitado às unidades para visita ao bebê, mas não têm muita participação nos cuidados do bebê:

A família não tem acesso à unidade, apenas os avós ou algum responsável vinculado à família, uma vez por semana, o que impossibilita/dificulta a formação de vínculo/cuidado com a criança (P15); (…) são raros os casos que eu vejo as famílias se envolverem muito… são poucos casos (P13).

A percepção dos profissionais em relação à participação no cuidado é diversa, variando conforme a disponibilidade dos pais, seus receios e a estabilidade clínica do bebê. Destaca-se na fala deles a participação principalmente na colocação do bebê na posição canguru e na extração do leite para oferta nas dietas. Os avós podem visitar os bebês, mas não participam de seus cuidados.

Para alguns profissionais, visualizar essa participação no cuidado ainda é difícil, tendo eles a leitura de que essa participação estaria mais tangível em outras unidades por onde o bebê passa, considerando a continuidade desse cuidado e a instabilidade do bebê:

Na UTI, eu ainda acho muito pouco (…) eu acho que elas só começam a participar mais dos cuidados na canguru. Mas não é o correto, que a gente deveria promover esses cuidados desde a UTI (P11).

Outro desafio se dá no contexto da orientação à família, como colocado:

A maioria é a mãe que se envolve mais com tudo do bebê (…) e tem mães que são mais, às vezes até pela falta de informação, de orientação, que às vezes não tem. Falta, às vezes, essa informação (…) de direito, que às vezes elas têm e não são informadas sobre isso (P14).

Mas isso se dá, muitas vezes, pelo grau de instrução daquela mulher/família:

Recebemos mães/famílias de diferentes contextos… desde bebês que foram planejados até gravidez indesejada (…) com melhor e pior graus de instrução e renda (P16).

Os profissionais apontam a necessidade de um olhar mais atencioso para as mães dos bebês, que se tornam mães acompanhantes de internação na unidade e têm toda uma rotina para a extração manual de leite à beira-leito a cada três horas, o que pode ser cansativo emocional e fisicamente. Alguns profissionais ainda enxergam uma participação mais restrita nos cuidados, enquanto outros relatam uma interação e troca maiores nos cuidados da mãe com seu filho. Por último, reforça-se sobre o papel da orientação para essa mãe/pai no contexto do cuidado, sendo importante o alinhamento da linguagem para a sua percepção.

DISCUSSÃO

O nascimento prematuro do bebê faz com que a maternidade também ocorra prematuramente, não havendo tempo para a mulher assimilar e ajustar as representações do bebê que chegou, sendo necessário que ela se adapte a essa nova realidade. Após a separação não planejada, a mãe encontra à sua espera na UTIN um bebê frágil, magro e cercado por equipamentos, o que era diferente do que havia imaginado(10).

A internação na UTIN é um desafio para os pais, pois compromete a dinâmica familiar e distancia os pais dos cuidados primários ao RN, gerando insegurança e impotência. Desenvolver a parentalidade cercada por ruídos, luzes constantes e pessoas estranhas, de fora de seu convívio, pode acabar transformando essa vivência(11) e, por isso, ela pode ser permeada por diversos sentimentos, como frustração, culpa e sensação de distanciamento materno(12). Isso corrobora o que foi dito pelos profissionais da pesquisa a respeito do medo da família sobre a internação em UTIN.

A necessidade de internação do bebê faz com que haja a mudança do papel de cuidador principal, sendo este assumido pelos profissionais de saúde, o que pode gerar nos pais os sentimentos de estresse, ansiedade e depressão(13). Dessa forma, esse processo dificulta a formação do vínculo entre pais e bebês, como mencionado por P11, quando citou que as mães se sentem mais próximas quando colocam o bebê em posição canguru. A presença dos familiares na UTIN promove a interação entre mãe e bebê, o que traz impactos sobre o cérebro do recém-nascido pré-termo (RNPT). O contato pele a pele é tido como o melhor ambiente para o RN, pois cria um ambiente sensorial com interações benéficas para ambos, ajudando também a minimizar a dor e a promover o vínculo, além de facilitar a termorregulação(8).

A ausência de informações sobre o estado clínico do bebê também pode distanciar as mães do seu filho, aumentando o nível de estresse e de ansiedade parental. Sendo assim, é primordial que os profissionais da unidade atuem como apoio, auxiliando-as a observar e a entender os sinais que o seu filho dá durante os momentos de interação de ambos(14).

Com o passar do tempo entre a interação mãe-equipe e a rotina da unidade, é perceptível a mudança no comportamento materno, o que pode ser associado à superação dos sentimentos iniciais, ao acolhimento da equipe e à sensação de segurança, que ajuda a fortalecer o vínculo entre profissionais, familiares e crianças(12). Entretanto, a instabilidade clínica do bebê, somada à possibilidade de ele não resistir ao internamento, faz com que haja ainda sentimentos de medo, insegurança e angústia. O sentimento pode ser ampliado a depender da condição de saúde da criança(10).

Vale ressaltar que as políticas públicas garantem a participação dos pais nos cuidados com a criança no período de internação, desde o período de gestação, parto e pós-parto, com o pré-natal do parceiro e o direito ao acompanhante de livre escolha, bem como o livre acesso e permanência ao RN na unidade neonatal(15). Não menos importante, as informações recebidas sobre o estado de saúde de seu bebê podem ajudá-los a compreender o processo de internação e, posteriormente, a assumir os cuidados em domicílio de forma mais segura(14).

A participação dos pais nos cuidados é capaz de reduzir o impacto do internamento na UTIN para o desenvolvimento do RN, sendo um dos pilares do cuidado desenvolvimental. O contato pele a pele é uma medida que auxilia o alívio da dor, traz a sensação de segurança para o binômio, facilita a amamentação e reduz o estresse. Já a separação dos pais é capaz de afetar o desenvolvimento do RNPT e o estabelecimento do vínculo(16).

A garantia da participação nos cuidados junto ao RNPT é um outro dado relevante para melhores desfechos. Em unidades com programas de cuidado parental, observou-se que houve redução do estresse familiar, aumento de taxas de aleitamento materno e melhores resultados de desenvolvimento neurológico e ganho de peso para o bebê. Com a participação ativa nos cuidados, foi evidenciada também aquisição de conhecimento sobre higiene e autoconfiança materna para o cuidado com o seu filho(17).

Além disso, também pode ser citado o acesso às informações sobre o internamento do RN, que reduzem sentimentos negativos vivenciados pelos pais nesse período, fazendo com que se sintam participantes e preparados para o cuidado com o seu filho(18). Autores que avaliaram o estresse parental de pais de bebês em UTIN evidenciaram que, quando cientes dos cuidados recebidos pelos seus filhos, houve um menor índice de estresse associado ao período de internação, incitando que, nesse período, os pais precisam de apoio, suporte e orientação por parte da equipe(19).

Ademais, pesquisadores referiram também a importância de suporte às mães sobre como interagir com esse bebê, e não apenas sobre a condição clínica. Essas informações podem ajudar na redução da insegurança materna e no aumento de percepções positivas e do bem-estar. Outro fator benéfico é o método canguru, que fortalece a consciência do papel materno e estimula a comunicação precoce, contribuindo com as percepções favoráveis do período de internamento(20).

As principais formas de participação das mães no cuidado ao bebê prematuro são a presença física, o acompanhamento dos cuidados exercidos pela equipe, a busca de informações sobre o bebê, os cuidados com a higiene e alimentação, o toque, segurar o bebê no colo e o posicionamento canguru(21). Os profissionais entrevistados neste estudo afirmaram participar principalmente em relação ao posicionamento canguru, à oferta da dieta e à presença na unidade.

A inclusão dos pais no cuidado ao prematuro em UTIN ainda é um desafio, como descrito por muitos autores(5,12,15). Entretanto, cabe à equipe multiprofissional da unidade atuar como intermediário para o estabelecimento de vínculo e de aproximação entre pais e bebê, contribuindo para a construção de um cuidado que fará com que a transição para a alta seja mais tranquila para a equipe e para a família(22). Um dos eixos do cuidado desenvolvimental é a função da equipe de saúde de capacitar e promover essa participação, contribuindo para as práticas do modelo que tem o potencial de minimizar as consequências do internamento em UTIN(17).

CONCLUSÃO

A partir da perspectiva dos profissionais, a participação dos pais nos cuidados ao RN prematuro na UTIN é um processo complexo e dinâmico. Inicialmente, o medo e a incerteza dificultam o vínculo e a inserção nos cuidados. Essas barreiras são superadas pela atuação da equipe multiprofissional por meio de acolhimento, orientação contínua e incentivo a práticas como o método canguru, que transformam o medo em confiança.

No cerne do Modelo de Cuidado Desenvolvimental, apesar da relação direta com um dos sete eixos apresentados, a participação dos familiares é transversal a outras “pétalas” da “flor de lótus” que o representa, com o enriquecimento do ambiente sensorial e interacional do RNPT, a redução da dor e do estresse por meio do conforto, da amamentação e da redução da resposta à dor, a promoção da termorregulação, o contato pele a pele e o incentivo à amamentação.

Entretanto, persistem desafios, como a instabilidade clínica do RN, a participação limitada de familiares e influências socioeconômicas e institucionais. Conclui-se, assim, a necessidade de políticas de humanização que priorizem uma comunicação qualificada e apoio emocional, incluindo os pais como corresponsáveis desde a admissão. Essa abordagem é essencial para construir vínculos familiares estáveis e assegurar cuidados sustentáveis após a alta hospitalar.

  • Apoio financeiro
    A autora principal é bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (FAPEAL), Processo n° E:60030.0000000952/2024.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo faz parte de uma pesquisa de dissertação que ainda não foi publicizada em sua totalidade.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Ivone Evangelista Cabral

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Dez 2025
  • Aceito
    22 Abr 2026
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