Open-access Liderança Coaching e empoderamento estrutural dos enfermeiros do Atendimento Pré-Hospitalar móvel e fixo

RESUMO

Objetivo  Analisar a correlação entre a Liderança Coaching exercida pelos enfermeiros do Atendimento Pré-Hospitalar (APH) móvel e fixo com o empoderamento estrutural desses profissionais.

Método  Estudo analítico e descritivo com 79 enfermeiros do pré-hospitalar móvel e fixo. Utilizaram-se os questionários: Caracterização dos sujeitos; Questionário de Autopercepção do Enfermeiro no Exercício da Liderança; e Questionário de Condições de Eficácia no Trabalho II (CET-II). Empregaram-se a análise descritiva e a análise inferencial com o uso do teste de Spearman para determinar as correlações entre as dimensões do instrumento, adotando-se nível de significância de 5%.

Resultados  A Liderança Coaching influencia positivamente o empoderamento dos enfermeiros atuantes no contexto do APH evidenciado pela correlação fraca entre escores totais dos instrumentos aplicados na pesquisa (R = 0,376; p-valor = <0,001). “Comunicação” correlacionou-se com todos os domínios do CET-II, a incluir o “Escore total” do instrumento.

Conclusão:  É importante que as organizações de APH móvel e fixo invistam na liderança dos seus enfermeiros, a partir da utilização do modelo de Liderança Coaching, tendo em vista especialmente que ela tem uma influência positiva sobre o empoderamento do enfermeiro.

DESCRITORES
Liderança; Empoderamento; Enfermagem em Emergência; Enfermeiras e Enfermeiros; Serviços Médicos de Emergência

ABSTRACT

Objective  To analyze the correlation between Coaching Leadership exercised by mobile and fixed pre-hospital care (APH) nurses and the structural empowerment of these professionals.

Method  Analytical and descriptive study with 79 mobile and fixed pre-hospital nurses. The following questionnaires were used: Characterization of subjects; Nurse Self-Perception Questionnaire in the Exercise of Leadership; and Work Effectiveness Conditions Questionnaire II (CET-II). Descriptive analysis and inferential analysis were used with Spearman’s test to determine the correlations between the dimensions of the instrument, adopting a significance level of 5%.

Results  Coaching Leadership positively influences the empowerment of nurses working in the APH context, as evidenced by the weak correlation between the total scores of the instruments applied in the research (R = 0.376; p-value = <0.001). “Communication” correlated with all domains of CET-II, including the “total score” of the instrument.

Conclusion  It is important that mobile and fixed APH organizations invest in the leadership of their nurses, based on the use of the Coaching Leadership model, especially considering that it has a positive influence on nurse empowerment.

DESCRIPTORS
Leadership; Empowerment; Emergency Nursing; Nurses; Emergency Medical Services

RESUMEN

Objetivo  Analizar la correlación entre el liderazgo coaching ejercido por los enfermeros de la Atención Prehospitalaria (APH) móvil y fija con el empoderamiento estructural de estos profesionales.

Método  Estudio analítico y descriptivo con 79 enfermeros de la atención prehospitalaria móvil y fija. Se utilizaron los siguientes cuestionarios: Caracterización de los sujetos; Cuestionario de Autopercepción del Enfermero en el Ejercicio del Liderazgo; y Cuestionario de Condiciones de Eficacia en el Trabajo II (CET-II). Se emplearon el análisis descriptivo y el análisis inferencial con el uso de la prueba de Spearman para determinar las correlaciones entre las dimensiones del instrumento, adoptando un nivel de significación del 5%.

Resultados  El liderazgo coaching influye positivamente en el empoderamiento de los enfermeros que trabajan en el contexto de la APH, como lo demuestra la débil correlación entre las puntuaciones totales de los instrumentos aplicados en la investigación (R = 0,376; p-valor = <0,001). La “comunicación” se correlacionó con todos los dominios del CET-II, incluida la “puntuación total” del instrumento.

Conclusión  Es importante que las organizaciones de APH móviles y fijas inviertan en el liderazgo de sus enfermeros, a partir del uso del modelo de Liderazgo Coaching, teniendo en cuenta especialmente que tiene una influencia positiva en el empoderamiento del enfermero.

DESCRIPTORES
Liderazgo; Empoderamiento; Enfermería de Urgencia; Enfermeras y Enfermeros; Servicios Médicos de Urgencia

INTRODUÇÃO

A atuação do enfermeiro no serviço de urgência e emergência é de grande relevância, haja vista que esse profissional está diretamente em contato com o paciente, desde o primeiro momento (no local da cena) por via do Atendimento Pré-Hospitalar (APH) móvel, na qualidade do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), perpassando pelo pré-hospitalar fixo que compreendem as Unidades de Pronto Atendimento (UPA), até o hospital que acolhe e presta cuidados intra-hospitalares às necessidades agudizadas de saúde. Todos esses cenários de cuidado demandam do enfermeiro atitudes, habilidades, conhecimentos técnico-científico, além da observância de aspectos éticos relacionados à urgência e emergência(1).

No Brasil, a Rede de Atenção às Urgências e Emergências (RUE) tem como finalidade desenvolver ações de promoção, prevenção e vigilância à saúde, bem como atendimentos e cuidados aos usuários em condições agudas. Diante desse cenário, o processo de trabalho na urgência demanda um dinamismo significativo por parte dos profissionais em resposta às altas demandas, aos eventos inesperados, à capacitação profissional constante, à sinergia e à intercomunicação na equipe, tanto no pré, como no intra-hospitalar, para a promoção de um atendimento seguro e com qualidade(2).

Assim, considerando-se essa dinamicidade, os enfermeiros desempenham papéis imprescindíveis nesse atendimento, principalmente no emprego da liderança na sua prática profissional. É por intermédio dessa competência que tal profissional alcança melhores resultados para pacientes e equipes e promove a interlocução com os demais serviços e setores de saúde(3,4). Logo, percebe-se que a liderança do enfermeiro nesse contexto busca favorecer as dimensões do seu processo de trabalho(5).

Editorial recente(6), de um periódico internacional de enfermagem em emergências, apresenta reflexão sobre a liderança enquanto competência fundamental para a prática do enfermeiro no setor de emergência e sublinha que, para sua efetiva mobilização, esse profissional deve atualizar-se constantemente e associar à liderança o uso de outras competências e de ferramentas gerenciais. Sendo assim, para que o enfermeiro possa exercer essa competência, o referido profissional deverá transpor alguns desafios como a sobrecarga de trabalho e de demanda, valendo-se assim de estratégias para superação dos mesmos. Para tanto, o texto aponta que além da liderança, o enfermeiro requer domínio de uma ampla gama de ferramentas como: pensamento estratégico, resolução de problemas, inteligência emocional, colaboração, formação de equipe e tomada de decisão.

Corroborando esse editorial, estudo etnográfico com enfermeiros do serviço pré-hospitalar sueco afirma que, a partir da sua responsabilidade e da sua liderança, o enfermeiro tem um papel primordial de elucidar os valores dos liderados, incentivando-os a desenvolverem suas próprias qualidades, promovendo, consequentemente, ambiente de prática favorável na equipe de enfermagem(7).

Diante da magnitude da liderança para atuação do enfermeiro na urgência, aponta-se o modelo da Liderança Coaching como uma referência para o exercício dessa competência pelos enfermeiros. Conceitualmente, a Liderança Coaching baseia- se no processo coaching que consiste em uma competência a partir da qual o líder busca influenciar a equipe para alcance dos objetivos, na mesma medida que possibilita o desenvolvimento dos seus liderados. Para tanto, esse modelo fundamenta-se em quatro dimensões do processo coaching, a citar: “Comunicação”, “Dar e receber feedback”, “Dar poder e exercer influência” e “Apoio à equipe”(4,8).

Baseado nesse modelo de liderança no APH, dois artigos brasileiros(4,9), desenvolvidos no Estado de Goiás, revelaram que os enfermeiros ao desempenharem a Liderança Coaching promovem transformações positivas no seu espaço de trabalho como a satisfação dos seus liderados e, da mesma forma, possibilitam a prestação de cuidado com qualidade e segurança para a população atendida por esse serviço. Nota-se, dessa maneira, que a liderança no APH promove uma otimização no ambiente e na organização do processo de trabalho da enfermagem, de maneira a garantir que os enfermeiros tenham poderes para desenvolverem suas práticas em um escopo mais completo e, assim, oferecerem atendimento de alta qualidade.

Portanto, de acordo com esse tipo de liderança, um bom líder tem a capacidade de: construir relações de confiança e ambientes de trabalho mais profícuos; estimular a autonomia dos seus profissionais; compartilhar o poder e obter, por conseguinte, maior excelência no atendimento e segurança do paciente. A competência da liderança na enfermagem tem grande influência sobre a prática profissional, especialmente quando se analisa o empoderamento estrutural. Enfermeiros líderes menos empoderados estruturalmente apresentam maiores chances de tornarem-se mais frustrados ao tentarem melhorar a sua prática profissional e inovar no atendimento ao paciente(10,11).

Revisão integrativa(12), publicada em expressivo periódico internacional, evidencia que a Liderança Coaching ainda é uma área emergente da pesquisa em enfermagem. Ademais, os autores do trabalho sinalizam que o desenvolvimento de pesquisas baseada no referencial da Liderança Coaching pode resultar em subsídios para que os serviços de saúde invistam nas dimensões do processo coaching, de maneira a construir o empoderamento dos enfermeiros e, por conseguinte, oportunizar as competências necessárias para que esse profissional desenvolva seu trabalho nos mais altos níveis.

Os achados de novos trabalhos na temática estabelecem-se como uma oportunidade de explorar mais os benefícios, os desafios e as maneiras pelas quais a Liderança Coaching pode ser implementada para apoiar enfermeiros em seu desenvolvimento e sua prática. Sendo assim, ao analisar o contexto do APH fixo e móvel, ainda são incipientes as pesquisas que explorem as interfaces desse modelo de liderança estabelecidas pelos enfermeiros com outras variáveis(4,9), a exemplo do empoderamento(13). Para o presente, adotou-se o empoderamento estrutural de Kanter, que compreende o poder como capacidade de fazer as ações e mobilizar e empregar recursos necessários para atingir as metas organizacionais(10).

Como hipótese, o presente artigo buscou testar se a autopercepção dos enfermeiros acerca da Liderança Coaching correlaciona-se com empoderamento estrutural, tendo em vista o contexto do APH móvel e fixo. Diante do exposto, o presente artigo buscou analisar a correlação entre a Liderança Coaching exercida pelos enfermeiros do APH móvel e fixo com o empoderamento estrutural desses profissionais.

MÉTODO

Tipo de Estudo

Trata-se de um estudo descritivo, analítico, com vistas a examinar a relação entre as variáveis da Liderança Coaching e o empoderamento estrutural dos enfermeiros atuantes no APH móvel e fixo. Ainda, a presente pesquisa seguiu as recomendações do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)(14) para subsidiar a comunicação dos achados e das etapas percorridas.

Local de Estudo

O cenário do estudo correspondeu à RUE presente em uma capital metropolitana da região sudeste do país. Cabe destacar, outrossim, que a organização dos serviços de APH (móvel e fixo) nesse município está constituída pela central do SAMU, seis bases descentralizadas, além das nove UPA. Considerando-se essas últimas unidades, foram enviados e-mails para as coordenações gerais e de enfermagem e três das nove UPA não responderam aos e-mails para realização da coleta de dados.

Sujeitos da Pesquisa

No momento da realização da pesquisa, o total de enfermeiros das unidades (SAMU e UPA) era de 258 profissionais, tanto no âmbito assistencial quanto do gerenciamento. Estabeleceu-se a amostra por conveniência, ou seja, não probabilística com os enfermeiros que realizavam ações assistenciais ou atividades gerenciais nas unidades analisadas, dentro dos critérios de inclusão estabelecidos.

Foram inclusos na pesquisa os enfermeiros no exercício do cargo há pelo menos seis meses, de modo a garantir que o trabalhador já se sentia ambientado e capaz de avaliar a prática da Liderança Coaching e o empoderamento estrutural (39 profissionais não atendiam a esse critério). No que tange aos critérios de exclusão, não participaram da pesquisa os profissionais da categoria supracitada que se encontravam em uso do direito de férias ou de licença-prêmio (n = 34), ou então afastados por motivos de saúde (n = 10). Cabe apontar que 21 profissionais se recusaram participar da pesquisa, o que totalizou 154 enfermeiros elegíveis para participarem da pesquisa.

Com base nos 154 profissionais, realizou-se o cálculo amostral, adotando-se como parâmetros um erro amostral de 8%, nível de confiança de 95% e uma distribuição da população mais homogênea, totalizando-se o número mínimo de 61 enfermeiros como representação da população. O número de respondentes (79 enfermeiros) foi acima do estabelecido pelo cálculo amostral, O cálculo não foi estratificado para as unidades (APH móvel e fixo), pois buscava-se a análise global do contexto do APH. Ressalta-se, apenas, que foram considerados como perda da amostra: os profissionais que, após duas tentativas, não foram localizados nos seus respectivos plantões e os aqueles que não devolveram os questionários preenchidos ou os tenham devolvido em branco.

Instrumentos Utilizados na Coleta de Dados

Foram aplicados três questionários, sendo eles: a caracterização dos sujeitos que contém os dados sociodemográficos e os relacionados à profissão; o Questionário de Autopercepção do Enfermeiro no Exercício da Liderança (QUAPEEL)(8) e; o questionário, validado transculturamente para o Brasil, de Condições de Eficácia no Trabalho II (CET-II) que analisa o empoderamento estrutural(15).

Os dados sociodemográficos e relacionados à profissão foram: sexo (masculino e feminino); formação (Especialização, Master in Business Administration MBA, Mestrado, Doutorado; Curso complementar – Suporte Básico de Vida etc.); tipo de vínculo empregatício (estatutário, celetista, contrato por tempo determinado e outros); possuir outro vínculo empregatício; já ter assumido cargo gerencial; idade (cálculo da diferença entre as datas de coleta e de nascimento); tempo de formação (diferença entre as datas de coleta e de conclusão da graduação) e; tempo de atuação na unidade (tempo decorrido entre as datas de coleta e de admissão na unidade).

O QUAPEEL, que foi construído e validado no Brasil, dispõe de questões estruturadas e compostas por três partes: a primeira corresponde aos dados sociodemográficos dos sujeitos; a segunda consiste em perguntas relativas aos conhecimentos dos sujeitos sobre a temática da liderança, enquanto a terceira apresenta questões relacionadas às habilidades e às atitudes exercidas pelos líderes na prática da Liderança Coaching por meio da autopercepção do enfermeiro(8). Enfatiza-se que para a presente pesquisa foi utilizada apenas a terceira parte do questionário.

Esse questionário é composto por 20 itens, igualmente subdivididos em quatro domínios: Comunicação; Dar e receber feedback; Dar e exercer influência; Apoiar a equipe para alcance de resultados. O questionário utiliza-se de uma escala Likert, com a seguinte configuração para cada item: Nunca (1); Raramente (2); Nem sempre (3); Quase sempre (4) e; Sempre (5). O item “Não se Aplica” (NA), disposto na escala de Likert, corresponde ao cenário em que o profissional acredita não desenvolver tal ação; para isso, foi atribuído o valor de zero (0). Portanto, a variação do escore do geral do instrumento está entre os valores de 0 a 100, ou seja, os valores que se aproximam de 0 correspondem à menor percepção da prática de Liderança Coaching, ao passo que, nas pontuações perto de 100, maior é a percepção da prática desse tipo de liderança(8).

O Questionário de Condições de Eficácia no Trabalho II (CET-II), versão adaptada transculturamente, foi empregado com o objetivo de analisar o empoderamento estrutural no ambiente de trabalho dos enfermeiros do APH(15). O instrumento original teve sua concepção e desenvolvimento por pesquisadores canadenses, tendo como referencial teórico o empoderamento de Kanter(16).

No Brasil, a adaptação e a validação transcultural desse instrumento foi realizada pelo grupo de pesquisadores do Paraná, com a finalidade de avaliar o trabalho do enfermeiro em diferentes cenários, com relação às condições de empoderamento estruturais. Reitera-se que o presente questionário é amplamente utilizado pelos pesquisadores da área e, no processo de validação transcultural, obteve alfa de Cronbach de 0,88, representando elevada consistência interna entre as respostas(15).

O CET-II está estruturado em 20 itens, divididos em seis dimensões: Oportunidade; Informação; Suporte; Recursos; Poder formal e Poder informal. Há ainda um constructo que engloba uma perspectiva mais ampla do empoderamento, contendo dois itens para analisar o empoderamento global, mas que não foram aplicados na presente pesquisa, pelo fato de analisar apenas as seis dimensões referidas anteriormente(16).

A mensuração do questionário CET-II é feita por uma escala do tipo Likert, cuja pontuação varia de 1 (nenhum/nenhuma) a 5 (muito/muita), enquanto valores entre 2 e 4 representam valores intermediários. Os itens de cada um dos componentes são somados e, na sequência, calculada uma média, com vistas a fornecer uma pontuação que varia entre 1–5 para cada dimensão, como mencionado anteriormente. A soma das dimensões poderá variar de 6 a 30, sendo que valores entre: 6-13 significam baixos níveis de empoderamento; 14–22 significam níveis moderados de empoderamento e; 23-30 altos níveis de empoderamento(15,16).

Coleta e Análise Dos Dados

Um grupo constituído por um docente pesquisador e quatro alunas foi responsável por entregar os questionários para os sujeitos que consentissem participar da pesquisa. Para tanto, previamente foi realizado o contato com os coordenadores administrativos e de enfermagem das unidades em questão para que fossem entregues os questionários aos enfermeiros pessoalmente, bem como o agendamento do recolhimento dos instrumentos.

Os dados coletados por intermédio dos questionários foram duplamente digitados em planilhas e confrontados, assegurando-se, dessa forma, não haver erros de digitação, sendo posteriormente realizadas as análises estatísticas descritiva e de correlação entre as variáveis. Para isso, empregou-se o programa estatístico R versão 4.3.3 para o tratamento dos dados. As variáveis qualitativas foram resumidas em frequências simples e relativas utilizando-se para tanto as porcentagens. Já as variáveis quantitativas foram organizadas por médias, medianas, desvio-padrão (DP), primeiro e terceiro quartis e valores mínimos e máximos.

Inicialmente, foi utilizado o teste de normalidade Shapiro-Wilk, de maneira a possibilitar a avaliação da distribuição das variáveis. Para a análise de correlação entre a autopercepção da Liderança Coaching e o empoderamento estrutural foi aplicada a correlação de Pearson, que pode apresentar-se positiva ou negativamente. Empregou-se o nível de significância de 5% para todos os testes estatísticos (α = 0,05). Complementarmente, as correlações foram interpretadas/avaliadas conforme o tamanho da correlação, positiva ou negativamente, podendo assim apresentar: correlação muito alta (valores maiores que 0,9 até 1,0; ou maiores que –0,9 até –1,0); correlação alta (valores maiores que 0,7 até 0,9; ou maiores que –0,7 até –0,9); correlação moderada (valores maiores que 0,5 até 0,7 ou maiores que –0,5 até –0,7); baixa correlação (valores maiores que 0,3 até 0,5 ou valores maiores que –0,3 até –0,5) e; correlação insignificante (valores acima de 0,0 até 0,3 ou maiores que 0,0 até 0,3)(17).

Aspectos Éticos da Pesquisa

A pesquisa foi apreciada e aprovada pelos Comitês de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, sob o número 5.904.124 (em 20 de fevereiro de 2023), e da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, sob número 6.063.014 (em 16 de maio de 2023), de maneira a atender às determinações da Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Além disso, todos os participantes foram orientados sobre a pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes de aplicarem os questionários.

RESULTADOS

O número de enfermeiros participantes da pesquisa no período da coleta dos dados foi de 79 profissionais, o que correspondeu ao percentual de 48,17% dos participantes elegíveis. No que tange às perdas da amostra: 22 enfermeiros não foram localizados nos seus respectivos plantões, após duas tentativas sem sucesso e; 53 profissionais não preencheram ou devolveram os questionários em branco. Os dados correspondentes à caracterização dos enfermeiros quanto às variáveis sociodemográficas ou relacionadas à profissão estão dispostos nas Tabelas 1 e 2.

Tabela 1
Caracterização dos enfermeiros das unidades de APH (móvel e fixo) quanto às variáveis: sexo, formação (especialização, MBA, mestrado, doutorado, curso complementar), tipo de vínculo, possuir outro vínculo empregatício e experiência em cargo gerencial – Belo Horizonte, MG, Brasil, 2023 (N = 79).
Tabela 2
Caracterização dos enfermeiros das unidades de APH (móvel e fixo) quanto às variáveis: idade, tempo de formação e tempo na instituição – Belo Horizonte, MG, Brasil, 2023 (N = 79).

Nota-se pela Tabela 1 que há um número expressivo de enfermeiras (n = 61; 77,22%). A maior parte dos profissionais que participaram da pesquisa sinaliza possuir especialização (n = 70; 88,61%), ter vínculo empregatício estatutário (n = 35; 44,30%), possuir outro vínculo empregatício (n = 40; 50,63%) e não ter experiência em cargo gerencial (n = 49; 62,02%). Já na Tabela 2 observa-se que em média: a idade dos profissionais foi de 41,1 anos de idade (DP = 8,12); o tempo de formação foi de 13,66 anos (DP = 7,32) e; o tempo na instituição foi de 5,95 anos (DP = 1,32).

A Tabela 3 corresponde às análises de correlação entre os domínios dos instrumentos aplicados no presente estudo. Embora tenha se evidenciado uma correlação baixa entre o escore total do QUAPEEL e do CET-II e entre os domínios do instrumento, nota-se que a Liderança Coaching influencia o empoderamento dos enfermeiros atuantes no contexto do APH, fato esse constatado a partir de uma quantidade significativa de correlações ente o escore total do QUAPEEL com os domínios do instrumento que mensura o empoderamento estrutural (informação, suporte, recursos e poder formal).

Tabela 3
Correlação da prática da Liderança Coaching e do empoderamento estrutural dos enfermeiros das unidades de APH – Belo Horizonte, MG, Brasil, 2023 (N = 79).

Em uma análise mais pormenorizada dos domínios do QUAPEEL, a “comunicação” foi que apresentou correlação com todos os domínios do CET-II, a incluir o Escore total do instrumento, o que demonstra a relevância dessa competência para a liderança do enfermeiro nesse cenário. Em sequência, “dar e receber feedback” foi o segundo constructo a influenciar o empoderamento estrutural, não apresentando correlação entre esse domínio do QUAPEEL e poder informal presente no CET-II somente. “Dar e exercer influência” foi o domínio com menor correlação com os constructos do instrumento de empoderamento estrutural, uma vez que apresentou correlação apenas com o poder formal, denotando assim uma competência a ser aprimorada pelos profissionais.

DISCUSSÃO

Em relação à caracterização dos participantes, a maior parte dos profissionais foi composta por enfermeiras que possuíam especialização, além de ter as médias de: 41,1 anos de idade; 13,66 anos de tempo de formação e 5,95 anos de tempo na instituição. Esses achados se aproximam com os três estudos nacionais que aplicaram o QUAPEEL no contexto do APH(4) e o CET-II no contexto da urgência/emergência hospitalar(18,19).

Já o resultado relacionado a possuir outro vínculo empregatício foi divergente ao encontrado em um estudo desenvolvido em um SAMU no Distrito Federal, cuja porcentagem foi maior para pessoas sem um segundo vínculo empregatício(20). Não possuir experiência em cargo gerencial e ter vínculo empregatício estatutário resultou em um percentual próximo ao de dois estudos no contexto da urgência e emergência nacional, sendo um no estado de Goiás(9) e o outro na região metropolitana de Belo Horizonte(18).

Identificou-se no presente estudo que o maior número de enfermeiros não apresentava experiência em cargos gerenciais. Diante disso, salienta-se que o enfermeiro emergencista, especialmente, quando já possui experiências no âmbito da gestão, consegue responder e se adaptar efetivamente aos desafios atuais e futuros das práticas do gerenciamento do cuidado(6).

Na presente pesquisa, evidenciou-se que o escore total do QUAPEEL obteve correlação fraca positiva com praticamente todos os constructos e com o escore total do CET-II (R = 0,376; p-valor = <0,001). Salienta-se que, dessa maneira, o papel dos estilos e modelos liderança do enfermeiro favorecem o empoderamento desses profissionais.

Acerca dessa relação, dois artigos recentes(20,21), no contexto da urgência e emergência, expressam o potencial dessa competência, nos diferentes modelos e estilos, sobre os elementos do empoderamento estrutural. O estudo realizado na Jordânia observou que as práticas de liderança clínica mostraram ter uma relação positiva significativa com o empoderamento estrutural (r = 0,65; P < 0,01)(21); por sua vez, enfermeiros do departamento de emergência do Nepal, que exerciam a liderança colaborativa para empoderar suas equipes, obtiveram maior adesão e melhores respostas aos treinamentos sobre atendimento inicial ao trauma(22).

As experiências dos liderados na enfermagem podem ser afetadas diretamente pela forma como o enfermeiro exercita sua liderança e estabelece condições de trabalho favoráveis para o desenvolvimento da sua equipe. Sob essa ótica, revisão sistemática brasileira(23) apresenta evidências de como a liderança impacta no empoderamento estrutural, consequentemente influenciando na satisfação no trabalho, engajamento e aumento da qualidade da assistência prestada(23).

Embora o escore total do QUAPEEL não tenha apresentado correlação com o domínio “Oportunidade” do CET-II, revisão integrativa acerca do empoderamento no contexto da urgência e emergência sinaliza que, para o alcance da autonomia no trabalho e para melhores níveis de autoeficácia pelas oportunidades, é fundamental que os enfermeiros estejam alicerçados em modelos positivos de liderança como a ressonante e a clínica(13). Ademais, o aumento de oportunidade desse profissional na RUE pode ser percebido pela Enfermagem de Práticas Avançadas, o que representa o crescimento e o papel ampliado do enfermeiro no APH brasileiro(24).

Evidenciou-se a partir da Tabela 3 como a “comunicação” na autopercepção do enfermeiro é um componente expressivo no modelo de Liderança Coaching, posto que influencia significativamente no seu empoderamento. A comunicação dos enfermeiros líderes é crucial para construir boas relações e empoderar os membros da equipe. Para tanto, ela deverá alicerçar-se nos pilares da comunicação: um diálogo de apoio, em vez de impositivo; o compartilhamento das visões e valores do líder e; a comunicação e o suporte das práticas baseadas em evidências(25).

Sob a lógica do liderado, dois trabalhos(4,9) que analisaram a percepção de técnicos de enfermagem sobre o exercício da Liderança Coaching pelos seus coordenadores no contexto APH móvel, a “comunicação” foi o segundo domínio com a maior média, correlacionando-se com o menor tempo de formação(4) e com a satisfação no trabalho(9). A comunicação na Liderança Coaching, segundo revisão integrativa recente(12), tem um impacto significativo no suporte individual dos profissionais de enfermagem liderados, o que reflete no desenvolvimento de novas competências desses profissionais que os possibilite enxergar novos caminhos para o trabalho em equipe(12).

“Dar e receber o feedback” do instrumento QUAPEEL apenas não se correlacionou com o poder informal, domínio do CET, o que demonstra a relevância desse instrumento no processo do empoderamento. Nesse sentido, dois estudos convergem para esse resultado(12,26). O primeiro analisa a liderança dos enfermeiros de prática avançada e revelou que essa competência, quando baseada no processo coaching, promove o empoderamento e a melhoria de seu desempenho do grupo, motivo pelo qual fica evidente a necessidade de os enfermeiros valorizarem os mecanismos de feedback(26).

Já o segundo trabalho, uma revisão integrativa(12), ressaltou o feedback na liderança coaching como um facilitador para o empoderamento dos enfermeiros. Com isso, as organizações de saúde e seus profissionais podem ter um alto desempenho e atender aos padrões e aos protocolos institucionais(12). É necessário que os enfermeiros estejam capacitados e despendam o tempo adequado/apropriado para feedback, especialmente quando for abordar aspectos como o erro. Destarte, o líder deve ser capaz de ofertar o apoio necessário e promover a cultura da não punição, além de analisar as falhas de forma sistemática(25).

O poder formal, conforme o referencial de empoderamento estrutural, compreende os aspectos relacionados à posição hierárquica que um indivíduo possui dentro de uma organização(10). Esse constructo do instrumento CET-II foi o único que se correlacionou com a dimensão da Liderança Coaching “dar e exercer influência”, conforme observado na Tabela 3.

A influência do enfermeiro é uma habilidade a ser estimulada nos profissionais das unidades do APH estudadas, tendo em vista os resultados das correlações. Esse achado evidencia que a capacidade de inspirar e motivar equipes, aliada à competência de comunicação eficaz e tomada de decisão rápida são fundamentais para garantir a qualidade da assistência e a segurança do paciente nesse contexto dinâmico e desafiador que compreende a urgência e a emergência(6,24).

Embora a dimensão “Apoiar a equipe para o alcance dos resultados” tenha apresentado menor correlação com os domínios do CET-II, estudo recente(5) da rede de urgência e emergência de um município no interior paulista apontou a necessidade de o enfermeiro líder na construção de credibilidade para obter o apoio de todos os níveis de atuação, assim como em todos os cenários. Considerando-se que o SAMU e as UPA se inserem no contexto da REU, para empoderar-se, o enfermeiro precisa, no exercício de sua liderança, compreender as políticas internas e externas, analisar criticamente as demandas que surgem e reconhecer o espaço e as oportunidades de liderança a terceiros(5).

A limitação da pesquisa esteve relacionada, principalmente, ao número de profissionais que não foram encontrados em seus plantões para serem convidados a participarem da pesquisa. Mesmo assim, essa limitação não impactou fortemente nas análises estatísticas e tampouco minimizou a relevância e o caráter inovador da pesquisa ao apresentar uma investigação acerca da liderança dos enfermeiros não somente o contexto do APH móvel, como também as Unidades de Pronto Atendimento Fixo, na qualidade das UPA. Além disso, a realização do estudo possibilitou ainda analisar a correlação de duas variáveis que têm uma relevância para a prática profissional do enfermeiro da urgência e emergência.

As contribuições da presente pesquisa demonstram a importância da prática da Liderança Coaching no empoderamento dos enfermeiros atuantes no contexto do APH móvel e fixo, com destaque para a correlação positiva entre a “comunicação” e todos os domínios do empoderamento estrutural. Esse achado tem implicações diretas na prática profissional, pois sugere que o desenvolvimento de habilidades comunicativas pelos enfermeiros pode fortalecer sua capacidade de influenciar e liderar a equipe de maneira mais eficaz, melhorando a organização e os resultados do cuidado. Além disso, a relação obtida entre “dar e receber feedback” e o empoderamento estrutural reforça a necessidade de práticas de avaliação e de apoio contínuo entre os profissionais.

CONCLUSÃO

Os achados do presente artigo demonstram que a Liderança Coaching exercida pelos enfermeiros do APH móvel e fixo apresenta uma correlação positiva com o empoderamento estrutural. Esse aspecto foi observado pela correlação entre os escores totais dos instrumentos utilizados na pesquisa, bem como pelas inúmeras correlações entre os domínios do QUAPEEL e CET-II. Dessa maneira, tais descobertas orientam estratégias de capacitação focadas em elementos e competências tais como a comunicação e o feedback, o que repercute positivamente na qualidade do atendimento, na satisfação dos pacientes e no desenvolvimento profissional contínuo dos enfermeiros no APH.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Lilia de Souza Nogueira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    24 Jan 2025
  • Aceito
    29 Out 2025
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