Open-access Ferramentas de avaliação de infecção em feridas agudas e crônicas: revisão de escopo

RESUMO

Objetivo:  Mapear as ferramentas disponíveis na literatura para avaliação de infecção em feridas.

Método:  Trata-se de uma revisão de escopo conduzida a partir do Joana Briggs Institute Manual for Evidence Synthesis, nas bases de dados da Biblioteca Virtual em Saúde, PubMed, Scopus, Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature e do repositório de literatura acadêmica, Google Acadêmico. A pergunta de pesquisa foi elaborada com base no acrônimo PCC (População/Conceito/Contexto), resultando na seguinte formulação: “Quais ferramentas disponíveis na literatura avaliam infecção em feridas?”.

Resultados:  A análise incluiu 32 ferramentas de avaliação de infecção em feridas. Dessas, foram identificadas 26 que utilizam sinais e sintomas clínicos de infecção distribuídas entre escalas, listas de verificação, sistemas de classificação e formulários de preenchimento. Além dessas, foram identificados 5 dispositivos eletrônicos, e 01 software.

Conclusão:  A diversidade de instrumentos destaca a complexidade do manejo de infecção em feridas, enfatizando a necessidade de discutir sua aplicabilidade, benefícios e limitações para selecionar o melhor instrumento baseado em evidências.

DESCRITORES
Cicatrização; Avaliação de risco; Infecção dos ferimentos; Técnicas e procedimentos diagnósticos; Enfermagem

ABSTRACT

Objective:  To map the tools available in the literature for assessing wound infection.

Method:  This is a scoping review conducted from the Joana Briggs Institute Manual for Evidence Synthesis, in the databases of the Virtual Health Library, PubMed, Scopus, Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature and the academic literature repository, Google Scholar. The research question was developed based on the acronym PCC (Population/Concept/Context), resulting in the following formulation: “Which tools available in the literature assess wound infections?”

Results:  The analysis included 32 wound infection assessment tools. Of these, 26 using clinical signs and symptoms of infection distributed across scales, checklists, classification systems, and completion forms were identified. In addition to these, 5 electronic devices and 01 software were identified.

Conclusion:  The diversity of instruments highlights the complexity of wound infection management, emphasizing the need to discuss their applicability, benefits, and limitations to select the best evidence-based instrument.

DESCRIPTORS
Wound Healing; Risk Assessment; Wound Infection; Diagnostic Techniques and Procedures; Nursing

RESUMEN

Objetivo:  Mapear las herramientas disponibles en la literatura para evaluar la infección de heridas.

Método:  Se trata de una revisión de alcance realizada desde el Joana Briggs Institute Manual for Evidence Synthesis, en las bases de datos de la Biblioteca Virtual en Salud, PubMed, Scopus, Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature y el repositorio de literatura académica, Google Scholar. La pregunta de investigación se desarrolló con base en el acrónimo PCC (Población/Concepto/Contexto), dando como resultado la siguiente formulación: “¿Qué herramientas disponibles en la literatura evalúan la infección de la herida?”

Resultados:  El análisis incluyó 32 herramientas de evaluación de infecciones de heridas. De estos, se identificaron 26 que utilizan signos y síntomas clínicos de infección distribuidos en escalas, listas de verificación, sistemas de clasificación y formularios de llenado. Además de estos, se identificaron 5 dispositivos electrónicos y 01 software.

Conclusión:  La diversidad de instrumentos resalta la complejidad del manejo de las infecciones de heridas, enfatizando la necesidad de discutir su aplicabilidad, beneficios y limitaciones para seleccionar el mejor instrumento basado en evidencia.

DESCRIPTORES
Cicatrización de Heridas; Medición de Riesgo; Infección de Heridas; Técnicas y Procedimientos Diagnósticos; Enfermería

INTRODUÇÃO

O tratamento de feridas infectadas representa um desafio para os profissionais de saúde devido à complexidade envolvida em seu manejo. Esse processo inclui o entendimento dos fatores biopsicossociais e ambientais que interferem no cuidado de indivíduos com feridas agudas e crônicas. Além disso, é necessário um conhecimento amplo dos diversos fatores que influenciam o processo de cicatrização, as opções de tratamento disponíveis, que variam conforme a acessibilidade e a disponibilidade de recursos, e a necessidade de acompanhamento periódico desses pacientes(1, 2, 3).

A presença de uma ferida, especialmente as crônicas, como lesões por pressão, úlceras neuropáticas, diabéticas e vasculares, impacta negativamente a qualidade de vida dos pacientes. Essas lesões costumam causar dor, limitações e isolamento social, interferindo nas atividades da vida diária(3). Podem evoluir para complicações graves, como osteomielite e sepse, podendo, inclusive, evoluir para óbito. Além disso, acarretam altos custos para o sistema de saúde devido a tratamentos e hospitalizações prolongadas em alguns casos(1, 2).

Apesar das recomendações e diretrizes existentes para o tratamento e gerenciamento de feridas de diversas etiologias, não há consenso na literatura sobre a melhor prática a ser aplicada de forma sistematizada e padronizada na assistência. Muitos profissionais ainda lidam com a variabilidade na aplicação das melhores evidências e enfrentam dificuldades em identificar e avaliar a gravidade das infecções de maneira consistente(4, 5). Na prática clínica, o manejo das infecções em feridas é, em grande parte, baseado nas experiências e conhecimentos dos profissionais de saúde, muitas vezes sem especialização na área de tratamento de feridas(4, 6).

A identificação da infecção ocorre tradicionalmente por meio da observação clínica e visual das feridas, sem uma sistematização e padronização na avaliação. O diagnóstico de infecção é complexo, pois as características da ferida variam de acordo com a etiologia e as morbidades do paciente, o que dificulta a identificação do processo infeccioso em alguns casos, principalmente nas feridas crônicas, que podem se apresentar de forma sutil ou até mesmo assintomática(6, 7). A falta de ferramentas estruturadas que auxiliem nessa identificação e na tomada de decisão resulta em uma abordagem, muitas vezes, subjetiva e dependente da vivência do profissional de saúde(8, 9).

Na literatura, há poucos estudos epidemiológicos sobre a prevalência e incidência de feridas infectadas, principalmente no Brasil. A maioria dos trabalhos existentes no contexto brasileiro aponta resultados pontuais, geralmente restritos a níveis institucionais, sem um sistema de monitoramento específico e integrado às redes de saúde, além de apresentar alta variabilidade, dependendo da região do país, do tipo de estudo e da etiologia da ferida analisada(7).

O uso de ferramentas pode ser uma estratégia adotada nas unidades que tratam de feridas como forma de padronizar seu gerenciamento e tratamento, permitindo uma avaliação mais objetiva e sistematizada. Isso auxilia e direciona o profissional na avaliação de forma estruturada, por meio de instrumentos validados e confiáveis, principalmente no que tange à identificação e avaliação de infecções em feridas(7, 8). Sabe-se que o uso inadequado e indiscriminado de antimicrobianos pode levar à resistência microbiana. Logo, o uso de ferramentas para essas condições permite a identificação precoce de infecções e o tratamento oportuno(9).

Sendo assim, a avaliação precisa e eficaz para a identificação de infecção em feridas é fundamental para garantir o tratamento adequado e a prevenção de complicações adicionais. Conforme exposto, a utilização de ferramentas para a avaliação de infecção em feridas serve como um subsídio para auxiliar os profissionais de saúde na identificação adequada da infecção, na tomada de decisões para o tratamento oportuno e seguro, no gerenciamento eficaz e eficiente da lesão, bem como em uma avaliação sistematizada e organizada(7, 10, 11).

Entre abril e maio de 2024, foi realizada uma pesquisa preliminar na literatura, que não identificou revisões de escopo ou sistemáticas voltadas ao mapeamento de ferramentas para avaliação de infecção em feridas. Também não foram encontrados registros de estudos em andamento nas plataformas PROSPERO, Open Science Framework (OSF) ou Figshare. A ausência de estudos que ofereçam uma visão abrangente e sistematizada sobre as ferramentas disponíveis evidencia uma lacuna significativa na literatura e justifica a realização desta pesquisa.

Essa lacuna na literatura, aliada ao impacto significativo das infecções em feridas nos indivíduos e nos sistemas de saúde – como maior tempo de hospitalização, aumento de custos com o tratamento, risco de complicações graves e mortalidade(1, 2, 3) –, ressalta a relevância clínica e assistencial do tema. Este estudo, inédito e essencial, tem como objetivo mapear as ferramentas disponíveis na literatura para avaliação de infecção em feridas.

MÉTODO

Tipo de Estudo

Trata-se de uma revisão de escopo conduzida com base no Joana Briggs Institute Manual for Evidence Synthesis(12) e nas recomendações de relato do checklist Prisma Extension for Scoping Reviews (PRISMA – ScR)(13), a fim de garantir rigor metodológico, clareza e organização. O protocolo desta revisão foi cadastrado no OSF, sob DOI 10.17605/OSF.IO/57C2E. O estudo foi desenvolvido de acordo com as seguintes etapas: elaboração da pergunta de pesquisa, levantamento dos estudos relevantes, seleção, extração dos dados e apresentação dos resultados.

Questão de Pesquisa

A formulação da pergunta de pesquisa foi baseada no acrônimo PCC (População/Conceito/Contexto), sendo a população (P) “indivíduos com feridas”, o conceito (C) “ferramentas de avaliação de infecção em feridas” e o contexto (C) “feridas infectadas”. Com essa combinação mnemônica, definiu-se a seguinte questão norteadora: Quais ferramentas disponíveis na literatura avaliam infecção em feridas?

Critérios de Elegibilidade

Os critérios de inclusão para esta revisão de escopo abrangeram todos os manuscritos disponíveis na íntegra que respondessem à questão de pesquisa e estivessem alinhados ao objetivo do estudo. Para ampliar os resultados das buscas, não houve restrição quanto ao delineamento metodológico, período de publicação ou idioma. O contexto desta revisão foi amplo, sem restrição quanto ao cenário de assistência ou qualquer área específica de conhecimento. Foram considerados artigos publicados em periódicos e publicações da literatura cinzenta, como trabalhos de conclusão de curso, teses e dissertações.

Adotaram-se como ferramentas de avaliação de infecção para este estudo quaisquer constructos, instrumentos e tecnologias que visassem avaliar infecção em feridas. Quanto à etiologia, foram consideradas lesões com cicatrização por segunda intenção, tanto agudas (como queimaduras, feridas cirúrgicas e corto-contusas) quanto crônicas (como lesões por pressão, úlceras vasculares, neuropáticas e diabéticas). Foram excluídas da avaliação as feridas tumorais, por apresentarem uma patogênese específica e diferenciada das demais lesões.

Estratégia de Busca

A estratégia de busca foi construída com base nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH), utilizando os operadores booleanos AND e OR para otimizar a recuperação de informações relevantes. As combinações foram elaboradas em conjunto com um bibliotecário, considerando as especificações de cada base de dados, a fim de abranger a máxima amplitude possível dos tópicos de interesse, garantindo, assim, uma coleta de dados robusta e abrangente, conforme visualizado no Quadro 1.

Quadro 1
Estratégia de buscas nas bases de dados – Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2024.

As bases de dados selecionadas incluíram o Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), Scopus, a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e o PubMed, devido à capacidade destas de reunir trabalhos de diversas áreas da saúde e da enfermagem, oferecendo uma ampla variedade de indexações. Essa escolha garantiu uma cobertura abrangente e diversificada da literatura disponível. Além disso, foi incluída a literatura cinzenta, conforme recomendado pela JBI, por meio do Google Acadêmico. As buscas ocorreram no período de 1º a 17 de maio de 2024.

Seleção dos Estudos

Após a pesquisa nas bases de dados, os resultados encontrados foram transferidos para o software Mendeley, onde foram realizadas a identificação e a remoção das duplicatas. Após a remoção dos trabalhos duplicados, procedeu-se à seleção dos artigos por meio da leitura dos títulos e resumos, com base nos critérios pré-estabelecidos no estudo. Os trabalhos pré-selecionados foram submetidos à leitura na íntegra para verificação da sua permanência e pertinência.

As informações dos documentos selecionados para análise foram extraídas por dois revisores, de maneira independente, com o uso de planilhas do Microsoft Excel®. Um terceiro revisor participou da validação das informações e da discussão para o estabelecimento de consenso entre os autores, quando necessário. O fluxo do processo de seleção dos manuscritos é mostrado em forma de diagrama, conforme as recomendações do PRISMA-ScR.

Extração dos Dados

A extração de dados foi definida e adaptada de acordo com o manual do JBI, a fim de selecionar as seguintes informações relevantes: ano de publicação, fonte de extração da ferramenta ou título do manuscrito, visto que alguns trabalhos foram extraídos da mesma fonte, tipo de ferramenta de avaliação de infecção, etiologia da ferida e as principais características de infecção avaliadas pelas ferramentas.

Apresentação dos Dados

Os dados extraídos foram apresentados em forma de quadro, com base nos dados categorizados. Foi realizada uma apresentação narrativa das informações, considerando o objetivo desta revisão de escopo. Para evidenciar as características clínicas mais comuns identificadas nos dados encontrados, elaborou-se uma nuvem de palavras utilizando-se o site Word Art. Esse recurso visual facilita a compreensão dos achados com maior frequência de aparecimento nos estudos.

Aspectos Éticos

Esta revisão de escopo foi construída exclusivamente com base em literatura secundária disponível publicamente, sem envolver dados primários ou informações de identificação de indivíduos. Portanto, de acordo com as diretrizes éticas vigentes, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, tampouco solicitação de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

De acordo com as estratégias de busca previamente estabelecidas, a pesquisa foi conduzida nas bases de dados e repositório acadêmico selecionados, resultando nos seguintes achados: 89 artigos na BVS, 112 na CINAHL, 193 na PubMed, 40 na Scopus e 6.720 no Google Acadêmico, totalizando 7.154 manuscritos. Em seguida, realizou-se a exclusão dos duplicados utilizando o software Mendeley, o que resultou na remoção de 44 documentos, deixando um total de 7.110 artigos para a leitura dos títulos e resumos.

Após a leitura e análise dos títulos e resumos, foram selecionados 116 manuscritos para leitura na íntegra, com base nos critérios de elegibilidade e na pergunta de pesquisa. Desses, 32 artigos foram finalmente incluídos na análise e discussão, conforme descrito no fluxograma do processo de busca e seleção apresentado na Figura 1.

Figura 1
Diagrama de fluxo PRISMA-ScR do processo de seleção das publicações da revisão. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2024.

Após a análise dos artigos selecionados, foi confeccionado o Quadro 2, compilando as informações principais encontradas nos manuscritos selecionados, a fim de facilitar a apresentação clara e concisa dos dados. O quadro foi organizado e separado por ano de publicação, fonte ou título do manuscrito, tipo de ferramenta encontrada, nome da ferramenta, etiologia da ferida, características de infecção avaliadas pela ferramenta e país(es) dos estudos.

Quadro 2
Caracterização das publicações incluídas na revisão - Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2024.

Para ajudar na identificação das principais características das infecções nos estudos analisados, foi criada uma nuvem de palavras, ilustrada na Figura 2. Essa representação visual destaca os principais sinais e sintomas clínicos de infecções em feridas. Os dados apresentados refletem as informações mais prevalentes encontradas nos trabalhos avaliados.

Figura 2
Nuvem de palavras dos sinais e sintomas frequentes nas publicações. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2024.

Os achados desta revisão identificaram 32 ferramentas para avaliação de infecção em feridas, com publicações variando de 1995 a 2023, sendo 13 trabalhos publicados nos últimos 5 anos. A maioria das ferramentas encontradas avalia a infecção de forma qualitativa, por meio dos sinais e sintomas clínicos, correspondendo a 26 instrumentos(9, 14, 15, 16, 17, 18, 20, 21, 22, 23, 26, 28, 29, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 40, 41, 42). As demais avaliam por meio de recursos tecnológicos mais sofisticados, como equipamentos e dispositivos eletrônicos, totalizando 5 ferramentas, e apenas 1 utiliza software para avaliação da lesão e infecção(19, 24, 25, 27, 30, 39).

As ferramentas que avaliam a infecção por meio dos sinais e sintomas apresentados pela ferida são constructos tradicionais, que se apresentam de diversas formas, variando entre formulários, escalas, sistemas de classificação, checklists, acrônimos, cartilhas explicativas e algoritmo, podendo ser impressas em papel para preenchimento a caneta ou em plataformas digitais. Tais ferramentas avaliam a infecção por meio da observação direta da pele, leito da lesão e da pele perilesional. Os sinais e sintomas de infecção avaliados variam conforme as especificidades de cada constructo e da etiologia da ferida avaliada(9, 14, 15, 16, 17, 18, 20, 21, 22, 23, 26, 28, 29, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 40, 41, 42).

Os instrumentos que avaliam infecções em feridas por meio de recursos tecnológicos incluem equipamentos que utilizam imagens por emissão de pósitrons combinadas com tomografia computadorizada, avaliação quantitativa da carga microbiana por meio de imagens de imunofluorescência, softwares para registro, monitoramento e análise de feridas (incluindo sinais e sintomas de infecção), sensores para avaliação do odor como indicador preditivo de infecção e, ainda, o uso de smartphones para auxiliar na identificação de complicações em feridas, como infecções(19, 24, 25, 27, 30, 39).

Entre as ferramentas tradicionais que avaliam infecção com base em sinais e sintomas clínicos, destacam-se o Clinical Signs and Symptoms Checklist (CSSC), Therapeutic Index for Local Infections (TILI), Infection Management Pathway, Wound Infection Continuum - International Wound Infection Institute (WIC- IWII), World Union of Wound Healing Societies (WUWHS) e os acrônimos ASEPSIS, WIRE, NERDS e STONES, WIfI, IWGDF/IDSA System(9, 21, 26, 29, 36, 37, 41, 42). Outros instrumentos também foram identificados nos estudos analisados, embora não possuam nomes específicos(14, 15, 16, 17, 18, 23, 28, 32, 34, 40). Os sinais e sintomas clássicos de infecção mencionados na maioria dessas ferramentas incluem dor, calor, edema, eritema, exsudato purulento e odor(9, 14, 15, 16, 17, 18, 20, 21, 22, 23, 26, 28, 29, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 40, 41, 42).

Apenas os acrônimos NERDS e STONES definiram a quantidade de sinais e sintomas necessários para classificar a infecção em uma ferida(9). Nenhuma outra ferramenta especificou a quantidade de características clínicas que devem estar presentes na lesão para o diagnóstico de infecção(9, 21, 26, 29, 36, 37, 41, 42). Conforme apontado pelas ferramentas tradicionais, nenhum sinal ou sintoma único determina de forma confiável a presença ou ausência de infecção em uma ferida. Assim, a combinação de múltiplos sinais e sintomas indicativos de infecção deve ser utilizada para um diagnóstico clínico mais preciso e seguro(9, 29).

Os instrumentos também identificaram que alguns sinais e sintomas são mais específicos e sensíveis como preditores de infeção do que outros. Além disso, certos sinais podem manifestar-se de forma sutil ou até mesmo não aparecer, dependendo do tipo de ferida e das condições clínicas do paciente(9, 34, 37, 41). Os trabalhos demonstraram ainda que os sinais de inflamação – calor, eritema, edema e dor – podem estar presentes em feridas infectadas, sendo considerados como sinais clássicos de infecção(9, 14, 15, 16, 19, 20, 23, 24, 27, 30, 31, 32, 33, 34, 36, 39, 40).

Outras ferramentas analisadas possuem, em sua composição, um item ou domínio que avalia infecção, entre outras características, embora não tenham sido projetadas especificamente para esse propósito. Entre essas ferramentas estão o RESVECH 2.0, DESIGN-R, Harikrishna Periwound Skin Classification (HPSC), Wound Trend Scale (WTS), Sessing Scale, os mneumônicos DMIST e SWAT, além de outras ferramentas sem nome específico. Os sinais e sintomas clínicos de infecção mais frequentemente identificados incluem: exsudato purulento, odor fétido, eritema, edema(16, 20, 22, 31, 33, 35, 38).

No que se refere às ferramentas que avaliam quantitativamente a carga microbiana presente no leito da lesão e sua concentração, destacam-se o dispositivo MolecuLight e o aparelho Panasonic Healthcare DU-AA01NP-H. Esses dispositivos permitem a avaliação da infecção a beira leito de forma menos invasiva e rápida(24, 30). Além disso, o equipamento AromaScan, auxilia no monitoramento do progresso da ferida e na identificação de possível infecção com base no padrão de odores detectados. Sensores de polímeros condutores, por sua vez, apresentam mudanças na resistência elétrica quando expostos a mistura de produtos químicos voláteis(39).

O uso de smartphones, também encontrado no mapeamento das ferramentas desta pesquisa, pode ser empregado para auxiliar na avaliação de complicações em feridas operatórias, como ISC (Infecção de Sítio Cirúrgico) ou OSC (Ocorrência de Sítio Cirúrgico), incluindo seroma, celulite, hematoma, deiscência e abscesso(25). Quanto à tomografia computadorizada, essa tecnologia mostrou-se como uma possibilidade de identificação de infecção em estruturas mais profundas da ferida(27).

Em relação à distribuição geográfica das ferramentas, foram identificadas 18 no continente americano, sendo 7 no Brasil, 4 no Canadá e 7 nos Estados Unidos(9, 14, 15, 17, 18, 19, 23, 24, 24, 25, 26, 28, 31, 32, 34, 37, 38, 40). Na Ásia, foram encontradas 6 ferramentas: 1 no Vietnã, 2 no Japão, 2 na China e 1 na Malásia(16, 20, 22, 30, 35). Na Europa, foram localizadas 8 ferramentas, distribuídas entre Alemanha (2), Holanda (2), Reino Unido (3) e Portugal (1)(9, 21, 29, 33, 36). Nos demais continentes, não foram identificados trabalhos publicados nesta revisão de escopo.

Dentre as dez ferramentas clínicas tradicionais, específicas para avaliação de infecção por meio de sinais e sintomas, 6 são do continente europeu(9, 21, 29, 36) e 4 do continente americano(9, 26, 37). As demais apresentam algum item ou domínio de avaliação de infecção, mas não são específicas para este fim(14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 22, 23, 28, 31, 32, 33, 34, 35, 38, 40). Nenhum dos estudos brasileiros mapeados nesta revisão avalia exclusivamente o processo infeccioso em feridas(14, 17, 18, 19, 23, 28, 34).

DISCUSSÃO

O mapeamento das evidências disponíveis na literatura revela que as ferramentas de avaliação de infecção em feridas apresentam diferentes aplicabilidades, com predomínio de instrumentos baseados em abordagens tradicionais, que avaliam a infecção por meio de sinais e sintomas clínicos observados nas lesões. Esse achado está alinhado às principais diretrizes internacionais, que recomendam a análise das características da ferida para o diagnóstico de infecção. Tal abordagem destaca-se por ser prática, acessível, rápida e viável para aplicação em diferentes cenários clínicos, além de apresentar boa validade e confiabilidade, possibilitando um diagnóstico precoce(9, 14, 15, 16, 17, 18, 20, 21, 22, 23, 26, 28, 29, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 40, 41, 42,).

Os sinais clínicos desempenham um papel fundamental no monitoramento da evolução de feridas infectadas, sendo elementos-chave para orientar decisões terapêuticas e avaliar a resposta ao tratamento(8, 10, 29, 31, 33). As ferramentas de avaliação permitem a organização desses sinais de forma sistematizada, promovendo um acompanhamento estruturado e mais eficiente(7, 9, 11). A análise criteriosa dos sinais clínicos auxilia os profissionais de saúde a identificar alterações precoces no estado da lesão, possibilitando ajustes oportunos nas intervenções terapêuticas e contribuindo para a melhoria dos desfechos clínicos(8, 10).

A maioria das ferramentas que avaliam infecção com base em sinais e sintomas clínicos inclui os sinais cardinais da inflamação: dor, calor, edema e eritema. Isso se justifica pelo fato de que o processo inflamatório está presente em feridas infectadas, tornando esses sinais também indicadores relevantes de infecção. Sabe-se que não são específicos de infecção se avaliados isoladamente, mas devem ser considerados como preditivos de infecção em feridas que apresentam essas características sem uma causa identificada. De acordo com algumas ferramentas, os sinais e sintomas de infecção ainda se classificam em sinais clássicos, sutis e sistêmicos(8, 9, 14, 20, 21, 26, 29, 41, 42).

Ferramentas tecnológicas para a avaliação de infecção em feridas são menos frequentes na literatura, possivelmente devido ao custo elevado e à disponibilidade limitada(24, 27, 30, 39). No entanto, essas tecnologias podem ser particularmente úteis em contextos que exigem maior precisão e agilidade. Os estudos revisados sugerem a necessidade de mais pesquisas para consolidar o uso dessas tecnologias na prática clínica. Apesar disso, elas já demonstram potencial para oferecer um diagnóstico rápido, seguro e menos invasivo, favorecendo o tratamento em tempo oportuno e o manejo efetivo da infecção(9, 19, 24, 25, 27, 30, 39).

Quanto aos tipos de feridas avaliadas, observa-se que há diversidade de etiologias, abrangendo tanto feridas agudas quanto crônicas, o que possibilita sua aplicação em diversos contextos de cuidado, como atenção básica, domiciliar e hospitalar(9, 21, 26, 29, 36, 37, 41, 42). Esse achado é semelhante aos resultados de Cardinelli et al.(11), que também identificaram instrumentos de avaliação aplicáveis a diferentes etiologias e cenários clínicos.

A literatura apresenta uma ampla gama de instrumentos para a avaliação de feridas infectadas, que variam desde ferramentas abrangentes, capazes de avaliar múltiplas lesões, até outras mais específicas para determinadas etiologias(9, 14, 15, 16, 17, 18, 20, 21, 22, 23, 26, 28, 29, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 40, 41, 42). Conhecer esses instrumentos e suas particularidades é essencial para que os profissionais de saúde possam adaptar os cuidados de forma mais precisa, segura e eficaz(11).

A utilização de ferramentas para avaliação de feridas tem se mostrado uma tecnologia capaz de melhorar a qualidade do atendimento aos pacientes, uma vez que orienta a prática clínica no tratamento e gerenciamento dessas lesões com base nas melhores evidências, além de seu uso permitir uma padronização da análise das feridas, reduzindo a subjetividade na avaliação. Embora a literatura aponte esses instrumentos como uma possibilidade de melhoria da qualidade dos cuidados, há poucos estudos publicados que comprovem a efetividade de seu uso rotineiro e sistematizado na prática clínica(11, 43).

A aplicação dessas tecnologias no manejo de pacientes com feridas pode apresentar benefícios significativos, logo, é necessária uma minuciosa avaliação para escolha adequada, a depender do contexto em que as lesões são gerenciadas e o objetivo da avaliação. Além disso, é fundamental compreender como utilizar essas ferramentas corretamente, para evitar seu uso inadequado e, consequentemente, avaliações equivocadas(11, 43).

No que diz respeito à avaliação de infecção, o consenso do International Wound Infection Institute (IWII), formulado em 2022, apresenta ferramentas específicas para a identificação de infecções em feridas de diversas etiologias. Algumas dessas estão em fase de validação psicométrica, enquanto outras já foram validadas para uso clínico. Além disso, elas incluem a análise de fatores de risco para infecção(9).

No contexto brasileiro, uma revisão de escopo mapeou 51 instrumentos disponíveis na literatura para avaliação de feridas, dos quais apenas oito foram adaptados e validados para uso no Brasil. No entanto, nenhum desses instrumentos é específico para infecções em feridas. A maioria das ferramentas traduzidas para o português foca na avaliação do processo de cicatrização, na classificação das lesões e no preparo adequado do leito da ferida para otimizar o tratamento(11).

Além da variedade de instrumentos disponíveis, é crucial considerar a validade e a confiabilidade das ferramentas de avaliação. Não existe uma ferramenta considerada “padrão-ouro” para a identificação de infecções em feridas, pois essa escolha depende do tipo de lesão, do cenário de avaliação e dos recursos disponíveis. Ademais, a equipe de saúde deve ser devidamente treinada e habilitada para utilizar as ferramentas de avaliação de infecções de forma segura e eficaz. Independentemente do instrumento escolhido, sabe-se que uma ferramenta confiável e validada auxilia no cuidado de pacientes com infecções em feridas, prevenindo complicações e promovendo uma melhor tomada de decisão(9, 11, 43).

Apesar dos avanços na ciência e tecnologia aplicada ao cuidado com feridas, ainda há uma lacuna significativa na sistematização de avaliação e validação de ferramentas específicas para identificar infecções em feridas. Essa revisão de escopo busca contribuir para preencher essa lacuna ao mapear as ferramentas existentes, proporcionando um panorama abrangente de suas características. Além disso, a pesquisa evidencia a falta de instrumentos validados no contexto brasileiro para avaliação de infecção.

Os resultados desta revisão fornecem uma base para futuras investigações clínicas e estudos metodológicos voltados à criação e validação de ferramentas, fortalecendo a prática baseada em evidências. Ao sistematizar os dados, esta revisão busca auxiliar os profissionais de saúde na escolha de métodos apropriados para diagnosticar e manejar infecções em feridas, promovendo a padronização dos cuidados e, consequentemente, melhores desfechos clínicos para os pacientes.

CONCLUSÃO

A diversidade de ferramentas para avaliação de infecção em feridas disponível na literatura reflete a complexidade e multidimensionalidade do gerenciamento de feridas infectadas. Esses instrumentos variam desde formulários simples para preenchimento manual e avaliação global da lesão, abrangendo diferentes aspectos como a presença de sinais e sintomas clínicos de infecção, até o uso de equipamentos mais avançados e tecnológicos para análise de carga microbiana e exames de imagens.

As ferramentas de avaliação mais utilizadas na prática clínica baseiam-se em sinais clínicos, e não existem instrumentos validados no Brasil para identificar especificamente infecções em feridas. Este estudo sugere o desenvolvimento de ferramentas adaptadas à realidade brasileira e a realização de mais pesquisas para validar a confiabilidade, os benefícios e as limitações desses instrumentos na prática assistencial.

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  • Apoio financeiro “O presente trabalho foi realizado em parte com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - Brasil (CNPq) processo: 401923/2024-0 (versão em língua espanhola)”

Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Marcia Regina Martins Alvarenga

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    28 Nov 2024
  • Aceito
    06 Fev 2025
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