RESUMO
Objetivo: Compreender os motivos atribuídos pelos adolescentes à tentativa de suicídio a partir de suas narrativas.
Método: Investigação qualitativa, fundamentada na história oral de vida. Participaram 12 adolescentes atendidos em oito Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil no município de São Paulo. As entrevistas ocorreram entre agosto e dezembro de 2024, e os dados foram analisados conforme a análise temática de conteúdo de Bardin.
Resultados: Identificaram-se as seguintes circunstâncias associadas às tentativas de suicídio: dificuldades na regulação emocional; luto; conflitos familiares, especialmente com mães solo; negligência emocional; violências física, psicológica e sexual; bullying; discriminação por identidade de gênero, orientação sexual e origem geográfica; isolamento; baixa autoestima; autolesão; e sintomas depressivos e ansiosos.
Conclusão: Os adolescentes relataram sofrimento marcado por luto, violência, discriminação e vulnerabilidade emocional. As tentativas refletem ausência de suporte e pertencimento. Ouvir os adolescentes permite identificar a importância para a escuta qualificada e políticas públicas intersetoriais que mitiguem as vulnerabilidades psicossociais presentes em suas trajetórias.
DESCRITORES
Tentativa de Suicídio; Adolescente; IntervençãoPsicossocial; Pesquisa Qualitativa
ABSTRACT
Objective: To understand the reasons attributed by adolescents to suicide attempts based on their narratives.
Method: Qualitative research, based on oral life history. Participants were 12 adolescents attending eight Child and Adolescent Psychosocial Care Centers in the city of São Paulo. The interviews took place between August and December 2024, and data were analyzed according to Bardin’s thematic content analysis.
Results: The following circumstances associated with suicide attempts were identified: difficulties in emotional regulation; grief; family conflicts, especially with single mothers; emotional neglect; physical, psychological, and sexual violence; bullying; discrimination based on gender identity, sexual orientation, and geographic origin; isolation; low self-esteem; self-harm; and depressive and anxious symptoms.
Conclusion: Adolescents reported distress marked by grief, violence, discrimination, and emotional vulnerability. Their attempts reflect a lack of support and belonging. Listening to these adolescents allows us to identify the importance of qualified listening and intersectoral public policies that mitigate the psychosocial vulnerabilities present in their lives.
DESCRIPTORS
Suicide, Attempted; Adolescent; Psychosocial Intervention; Qualitative Research
RESUMEN
Objetivo: Comprender las razones que los adolescentes atribuyen a los intentos de suicidio a partir de sus narrativas.
Método: Investigación cualitativa basada en la historia de vida oral. Participaron 12 adolescentes que asistían a ocho Centros de Atención Psicosocial Infantojuvenil de la ciudad de São Paulo. Las entrevistas se realizaron entre agosto y diciembre de 2024, y los datos se analizaron según el análisis de contenido temático de Bardin.
Resultados: Se identificaron las siguientes circunstancias asociadas a los intentos de suicidio: dificultades en la regulación emocional; duelo; conflictos familiares, especialmente con madres solteras; negligencia emocional; violencia física, psicológica y sexual; acosoescolar; discriminación basada en identidad de género, orientación sexual y origen geográfico; aislamiento; baja autoestima; autolesiones; y síntomas depresivos y ansiosos.
Conclusión: Los adolescentes reportaron un sufrimiento marcado por el duelo, la violencia, la discriminación y la vulnerabilidad emocional. Sus intentos reflejan una falta de apoyo y pertenencia. Escuchar a estos adolescentes nos permite identificar la importancia de una escucha cualificada y de políticas públicas intersectoriales que mitiguen las vulnerabilidades psicosociales presentes en sus vidas.
DESCRIPTORES
Intento de Suicidio; Adolescente; Intervención Psicosocial; Investigación Cualitativa
INTRODUÇÃO
A adolescência é um período vulnerável ao desenvolvimento de problemas de saúde mental, especificamente de pensamentos e comportamentos suicida. Nos últimos anos, observou-se aumento global na prevalência desses comportamentos entre adolescentes(1). Destaca-se o número expressivo de tentativas de suicídio não notificadas que não chegam ao sistema de saúde, o que revela subnotificação preocupante(2).
Os fatores de risco para a tentativa de suicídio em adolescentes incluem identidades minoritárias sexuais, depressão, desigualdades sociais, perda de familiares, embates familiares, negligência emocional, violências, problemas escolares, ser vítima de bullying, entre outros(2,3,4,5,6,7,8,9,10). Tentativa de suicídio prévia é um fator de risco importante, pois aumenta o risco de letalidade em novos atos, e adolescentes sem oferta de cuidado tendem a repetir a tentativa de suicídio com menos de um ano(2,3,4,5,6,7,8,9,10). A coocorrência entre autolesão não suicida e tentativas de suicídio configura uma preocupação emergente em saúde pública(11,12). Embora distintos, esses comportamentos têm em comum a manifestação intensa do sofrimento psíquico(11), em que a exposição à dor física ao longo do tempo pode aumentar o desejo de pôr fim à própria vida(12). Pesquisas sobre a perspectiva dos adolescentes em relação à tentativa de suicídio e às suas necessidades específicas ainda são escassas(6,7), quando comparadas a pesquisas com enfoque em fatores de risco(2,11,12,13,14,15,16,17,18,19,20,21,22).
A partir desses argumentos iniciais, torna-se necessário produzir novos conhecimentos para qualificar as abordagens teóricas e práticas de cuidado de adolescentes sobreviventes de tentativa de suicídio. O relato de experiências vividas permite articular teoria e prática, contribuindo para romper com processos de invisibilidade e exclusão. Assegurar a existência de diversas adolescências e reconhecer seu contexto histórico são um dos caminhos impulsionadores de mudanças significativas na práxis e práticas no campo do cuidado na adolescência.
Este estudo apresenta narrativas de adolescentes sobre os eventos que culminaram no sofrimento psíquico e nas tentativas de suicídio em uma metrópole do sudeste brasileiro. Trata-se de um tema que nos faz repensar o cotidiano de trabalho para enxergar o adolescente que atendemos em singularidades, saberes e vivências.
Espera-se, ademais, contribuir para sensibilizar pesquisadores, profissionais e gestores que atuam no campo do cuidado da juventude sobrevivente de tentativa de suicídio, de modo a responsabilizá-los e implicá-los com a ética, para que, a partir das necessidades de cuidado e dos fatores de risco de tentativa prévia de suicídio para a efetivação do ato, sejam traçadas novas saídas, que expandam as possibilidades de se procurar outras soluções e modos de viver diante das vicissitudes e limitações impostas pela vida. Este artigo busca compreender os motivos atribuídos pelos adolescentes à tentativa de suicídio a partir de suas narrativas.
MÉTODO
Tipo de Estudo
Investigação qualitativa, de caráter exploratório, cujo objetivo foi compreender a história de vida e as motivações na percepção dos adolescentes para a tentativa de suicídio. A história oral temática foi o referencial teórico adotado, por permitir o aprofundamento de informações relacionadas à temática central(23). Neste estudo, a história oral foi construída a partir da experiência de tentativa de suicídio em adolescentes atendidos em Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS ij).
Local de Estudo
A localização dos participantes ocorreu a partir de oito CAPS ij (cinco CAPS ij tipo II e três CAPS ij tipo III) pertencentes à Coordenadoria Regional de Saúde Sudeste de São Paulo, no município de São Paulo, Brasil. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a região em questão tem uma população superior a dois milhões de pessoas, sendo 12,1% adolescentes(24). Trata-se de um conjunto de territórios marcados por vulnerabilidade social. Os pesquisadores possuem aproximação com os territórios por atividades de práticas da graduação, residência e projetos de extensão com os cursos da área da saúde. O estudo seguiu as recomendações do COnsolidated criteria for REporting Qualitative research.
Participantes do Estudo
O grupo de participantes foi composto por 12 adolescentes entre 14 e 19 anos que passaram em atendimento no CAPS ij e tiveram tentativa de suicídio no período entre 2020 e 2023. O critério de inclusão foi ter a tentativa de suicídio notificada no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e registrada no prontuário. O critério de exclusão foi ter realizado tentativa de suicídio há menos de um mês, por considerar que o tema da pesquisa poderia suscitar emoções durante a vivência da crise suicida. Do total de 67 adolescentes, 21 não atenderam o contato telefônico; 17 não conseguiram ser contatados por mudança de telefone/endereço; dez familiares responsáveis recusaram a participação dos adolescentes; quatro adolescentes estavam em acolhida noturna no CAPS ij por tentativa de suicídio há menos de um mês; e duas adolescentes recusaram participar pois não desejavam relembrar o contexto de vida no período em que apresentaram a tentativa de suicídio. Cabe destacar que o lócus do estudo foi o CAPS ij, para que, a partir do levantamento dos dados do SINAN e pelo intermédio do vínculo dos profissionais, os pesquisadores pudessem fazer o convite aos responsáveis menores de 18 anos e aos maiores de 18 anos. O vínculo dos profissionais foi considerado a partir do fato de serem referências técnicas dos casos e de terem maior aproximação com os adolescentes e seus familiares, além de serem os coordenadores dos Projetos Terapêuticos Singulares.
Protocolo do Estudo
De modo a conhecer os adolescentes, foram adotadas as recomendações da história oral(23) para a elaboração das entrevistas semiestruturadas. De maneira geral, as perguntas abordaram o histórico de adoecimento, que levou à tentativa de suicídio dos adolescentes, suas percepções e necessidades de cuidado. O roteiro de entrevista foi construído pela pesquisadora principal e validado pela equipe de pesquisa em reunião. As entrevistas foram conduzidas por pesquisadores doutores e mestres na área das ciências da saúde, além de graduandos de enfermagem que haviam cursado a disciplina teórico-prática de enfermagem em saúde mental. Todos possuíam treinamento prévio na realização de entrevistas em pesquisa qualitativa e foram acompanhados pela pesquisadora responsável. O treinamento prévio e o acompanhamento ocorreram por meio de reunião mensal, com duração de uma hora, sobre os temas da pesquisa, abordando os adolescentes no que tange à linguagem, aspectos éticos, além de emoções dos entrevistadores e participantes, com interlocução entre a literatura pertinente sobre o tema, abordagem metodológica e experiência prévia. Não houve menção de dificuldades por parte dos entrevistadores. Este método permitiu a imersão em um campo íntimo e subjetivo da memória de cada participante para a construção de um panorama mais amplo a partir das histórias de vida compartilhadas.
As entrevistas ocorreram de modo online, por meio do Google Meet®, apenas com áudio dos adolescentes e vídeo dos entrevistadores. Apenas uma entrevista foi presencial na sala de estar no domicílio do adolescente. A escolha pelo modo remoto foi determinada pelos adolescentes que referiram vergonha. Foi solicitada autorização prévia para gravar a entrevista, com o objetivo de transcrever o material coletado, assim como a leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, para os maiores de 18 anos, e do Termo de Assentimento Livre e Esclarecido, para os menores de 18 anos. As entrevistas totalizaram seis horas e 24 minutos.
Análise dos Dados
As entrevistas foram transcritas com auxílio do site Transkriptor e validadas pela equipe da pesquisa. A análise do conteúdo das entrevistas foi guiada pelo método da análise temática de conteúdo(25), em que se empreenderam leituras minuciosas e exaustivas para: familiaridade com o material empírico; identificação de temas recorrentes e relevantes nas narrativas; congruências nas experiências e atravessamentos; e elaboração das categorias para descrição das experiências singulares desse grupo social com a tentativa de suicídio. Os dados foram interpretados a partir das vivências dos adolescentes, da interpretação dos pesquisadores e da articulação com a literatura nacional e internacional sobre o tema.
Aspectos Éticos
Todos os procedimentos adotados na pesquisa obedeceram aos critérios e diretrizes de Ética na Pesquisa com Seres Humanos, conforme a Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde. A presente pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética da Universidade Federal de São Paulo, sob Processo nº 5.879.480, e à Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, e recebeu parecer favorável, através do Processo nº 6.156.289.
RESULTADOS
Os casos se distribuem em seis territórios distintos, com faixa etária entre 14 e 19 anos. A maioria deles possuía ensino médio incompleto, e dois completaram os estudos. Nove eram naturais de São Paulo, sendo um da região Norte e outro da região Nordeste. Dez viviam com a mãe; um vivia com o pai; e outro vivia com a avó. Nove foram educados por mães solo. No período correspondente à tentativa de suicídio, os adolescentes mencionaram não ter outras atividades extracurriculares além do turno escolar e a média de três a oito horas diárias no uso de telas, com acesso as redes sociais e jogos. Metade (seis) dos participantes foi internada no hospital; desses participantes, três ficaram na Unidade de Terapia Intensiva, e os demais não tiveram cuidados hospitalares (Quadro 1).
Caracterização sociodemográfica e do contexto das tentativas de suicídio de adolescentes – São Paulo, SP, Brasil, 2025.
Realizou-se uma análise que enfatiza o que há de comum nesse conjunto de histórias. Em seguida, verificaram-se os pontos fundamentais como: fatores interpessoais e dificuldade para manejar as emoções de raiva e frustração; relação com perdas e lutos de pessoas referenciais; parentalidade e embates familiares; e história de múltiplas violências incluindo o bullying. O desafio foi apresentar as diversas faces de um problema multicausal e a relevância das características concomitantes que se associam a ele.
Dificuldades Para Manejar as Emoções de Raiva e Frustração
A falta de habilidades emocionais para manejar as emoções abre espaços para que os adolescentes se deparem com a impossibilidade de elaborar a raiva e a frustração diante dos limites e das injustiças nas situações cotidianas. Os sintomas de ansiedade e de depressão aparecem entrelaçados com situações desafiadoras no cotidiano das relações com professores, familiares e amigos. Entretanto, o desconhecimento e o desejo impulsivo de controlar as crises os fizeram exercer a autolesão não suicida, se isolar e ter comportamentos suicidas.
2021 foi o ano que voltou às aulas na escola. Eu me cortava. A escola já sabia dessa questão. Em 2022, eu tentei o suicídio. O CAPS entrou em contato com a escola, e foi passada toda a minha situação para eles. Nesse ano, eu passei por uma questão muito difícil com transtorno alimentar. Eu só conseguia me alimentar na direção; eu não conseguia comer na frente de ninguém, e um professor falou que era para chamar atenção. Eu fiquei muito mal, nervoso, frustrado, queria me isolar, socar alguma coisa, era o lugar que eu mais me cortava a não ser em casa, tanto que a maioria das minhas tentativas foram impulsivas. Nas crises, meu corpo começava a suar, perna tremer, via algum gatilho, começava coração acelerar, vontade de chorar, falta de ar. Às vezes, eu perdia o controle, e eu tinha 11 anos, eu não tinha noção do que era (Adolescente 1).
(...) em 2022, foi uma das vezes que eu tentei cometer suicídio. Todo momento que eu tinha parecia ruim, tudo parecia ruim e eu não tinha amigos. Eu não falo nada com ninguém; eu nunca conto nada de trauma; normalmente eu me isolo. Eu sinto que eu estava muito no meu limite nessa época (...)quando você está com depressão, parece que você não consegue se lembrar de nenhum momento feliz. Então, assim, tudo parece ser uma alternativa muito forte. Porque quando você odeia tudo, você não consegue gostar de nada na sua vida. Então, naquela época, eu odiava tudo. Eu sentia muita raiva, eu sentia muita tristeza. Então, assim, eu acho que foi a alternativa, que foi a única que veio na minha cabeça (Adolescente 3).
Luto, Embates Familiares e Sensação de Desamparo
A análise temática indicou a morte de pessoas significativas, discussão e brigas familiares, solidão, e sensação de desamparo. As marcas dessas vivências suscitaram pensamentos e tentativa de suicídio.
Três casos narraram a experiência de luto da morte dos avós, com quem constituíam um vínculo afetuoso e eram fontes de segurança e oferta de cuidado. Um dos casos relatou a morte também do melhor amigo por suicídio.
(...) a perda do meu avô. Meu avô cuidou de mim a minha infância inteira. A minha mãe me abandonava em casa para ir para a balada, e eu tinha 8 anos. Eu tive que me virar sozinha, e isso me causou um grande trauma, então essas micro agressões de eu ser abandonada, não ter ninguém para cuidar de mim. Eu estava muito quebrada mentalmente, então nada mais fazia sentido. Era difícil aprender, era difícil levantar da cama (...) eu sempre ficava muito sozinha, muito triste.Eu sempre estava muito triste. Eu sempre tentava falar dos meus problemas, mas o pessoal não ligava muito. Eu só não aguentava mais. Eu não queria mais viver, era muito difícil. Então, eu acho que eu só queria acabar com tudo logo de uma vez (Adolescente 2).
As brigas e embates familiares estiveram presentes em todas as experiências compartilhadas pelos adolescentes. Os embates centraram na figura materna, em que as mães cuidam de modo solitário dos filhos, com exceção de um caso em que o cuidador familiar era o pai. A negligência emocional foi mencionada e atrelada à falta de afeto, diálogo e de companheirismo. As motivações presentes nas brigas e discussões eram sobre a autonomia do adolescente, a sexualidade, a orientação de gênero, o uso de bebida alcoólica e o estigma do adoecimento psíquico do adolescente.
Eu fui criado em uma religião que se chamava Testemunha de Jeová e, por conta disso, acabou criando uma repressão muito grande em cima da sexualidade e tudo atrelado a isso. Então, tipo assim, eu nunca tive uma real conexão com a minha mãe. Existiu sempre uma relação de unilateralidade. E o fato de eu sempre saber que eu sou homossexual, desde que eu me entendo por gente, eu sabia que eu era. Já criou essa questão negativa na minha mãe. Então, é como se eu nunca tivesse tido esse afeto 100% (Adolescente 9).
Um dos motivos pelo que me fez pensar nisso, eu acho que foi por causa da minha família, porque eu me sentia muito rejeitada. Eu sentia que meu pai não me dava tanto afeto; eu me sentia muito mal por conta disso. Eu me sentia muito negligenciada por causa disso. Nessa época, meu pai não falava muito comigo; ele não conversava tanto, não me dava tanto afeto e eu me sentia muito sozinha ali porque meu pai ia trabalhar e eu ficava sozinha em casa. Na escola, eu não conseguia ter nota boa porque eu tinha depressão, e eu não conseguia me concentrar nas lições. Eu não conseguia fazer as coisas (...) naquela época, eu não sabia lidar com a frustração. Eu acabava me cortando várias vezes... comecei com 10 anos (Adolescente 5).
Alguns adolescentes mencionaram que o período da pandemia de COVID-19 tornou ainda mais doloroso o convívio intenso com os familiares dentro de casa. Dois casos mencionaram a interrupção do tratamento em saúde mental para assumir o cuidado com a mãe com depressão e com os irmãos mais novos. Um deles era do grupo de risco para COVID-19, e desenvolveu sintomas de ansiedade social em que, apesar do retorno às atividades presenciais, não conseguia sair de casa, tampouco socializar com outras pessoas.
Eu só sentia uma noção de vazio. Durante o período da quarentena, eu não conseguia sair de casa de jeito nenhum. Eu não podia sair (...) eu tenho asma, eu estava num grupo de risco. Não me deixavam sair de casa de jeito nenhum para fazer nada, e foi nessa de ficar muito tempo trancado em casa que eu simplesmente não consegui. Depois que acabou a quarentena, eu fiquei quase dois anos sem ver ninguém pessoalmente. Toda vez que eu ia para a escola, eu não conseguia olhar na cara de ninguém, nem conversar com ninguém. Eu faltava direto, tanto que eu repetia o primeiro do ensino médio por conta disso (Adolescente 8).
Alguns adolescentes atribuíram a timidez e a característica de ser reservado à falta de pertencimento no ambiente escolar, em que se isolavam por não terem colegas próximos. Três adolescentes mudaram de cidade, o que contribuiu para o estranhamento e a dificuldade para se relacionar com colegas e com professores.
Quando eu era criança, eu não me enturmava muito, era bem fechadão, na minha mesmo; não conversava com muita gente, não tinha muitos colegas na escola (...) era uma sensação de vazio. Eu me sentia perdido; já me mutilei algumas vezes para ver se o sentimento de angústia acabava ou melhorava... eu me sentia melhor, mas não era por muito tempo, era temporário. No dia que eu tentei o suicídio, eu estava com insônia, não conseguia dormir, no outro dia, minha cabeça estava muito ruim e eu pensei se eu ficar para sempre daquele jeito, que eu não ia conseguir dormir (Adolescente 6).
Eu sinto que eu estava muito no meu limite nessa época. Eu tenho depressão desde os 11 anos e ansiedade desde os 9 (...) eu não tinha amigos na época da pandemia porque eu não conhecia ninguém. Fazia pouco tempo que eu tinha sido transferida... eu não conhecia ninguém, eu não sabia falar com ninguém, eu tinha muito medo de falar com as pessoas (...) tinha um menino que eu conhecia, e eu pedi para ele pedir para a professora se eu podia entrar no grupo dele, porque eu tinha vergonha. Ele foi lá para falar com ela. Ela virou e começou a gritar comigo no meio da sala, falando se eu era retardada, se eu não sabia pedir, se eu tinha algum problema mental. Naquela época, eu odiava tudo. Eu tinha muita ansiedade para estudar. Eu sentia muita raiva, eu sentia muita tristeza. Eu acho que foi a única alternativa que veio na minha cabeça (Adolescente 3).
Múltiplas Experiências de Violência, Baixa Autoestima e a Sensação de ser um Fardo
As experiências de vida dos adolescentes tecem um emaranhado de situações de violência praticada por familiares que culminaram em sintomas depressivos, esvaziamento de sentido para viver e a sensação de ser um fardo. O bullying, uma das violências escolares, a transfobia e a xenofobia vivenciados pelos adolescentes no âmbito escolar deixaram marcas na autoimagem corporal e baixa autoestima, culminando no isolamento social, e a retroalimentação desses traumas suscitou as ideias suicidas e a tentativa de suicídio.
Eu sofri bullying. Eu sempre fui uma criança extremamente “bulinada”. Eu era extremamente magro e ainda tinha problema na vista. Eu uso óculos desde 1 ano de idade, e ainda tinha que ir para a escola com um tampão no olho. E foi seguindo na creche, na préescola, até chegar no primeiro ano, acabou piorando ainda mais, porque eu sofri violência física dos meus colegas. Eu fui empurrado da escada, quebraram meus óculos, me jogaram na lama em um dia frio (Adolescente 8).
Chama-se atenção para a realidade em que os adolescentes mencionaram ideação suicida, esgotamento do corpo, angústia e choro frequente na infância oriundo das violências físicas, psicológicas e sexuais sofridas. Duas adolescentes sofreram maus-tratos físicos por avó, tia e mãe. Dois adolescentes mencionaram terem sido vítimas de violência sexual por agressores familiares.
Acho que eu tinha uns 7 anos. Quando eu me dei conta mesmo, foi com 12 anos... eu chorava o tempo inteiro, a todo momento eu estava me machucando para tentar passar, e isso foi piorando devido ao tratamento da minha avó; ela me batia, me xingava. Eu também sofria abuso da minha prima, abuso da minha tia. Desde criança, eu tive aquele sentimento de que eu fui um erro... a gravidez da minha mãe. Eu cresci com essa mentalidade, porque tudo o que eu fazia estava errado. Na minha cabeça, eu não merecia nada menos do que a morte (Adolescente 4).
Eu sofri abuso sexual quando eu tinha 8 anos. Não chegou a ser questão de penetração com genitália, mas foi com as mãos do abusador. Foi uma coisa bem rápida, eu consegui sair daquela situação, mas eu trato isso até hoje. Foi uma coisa bem marcante e, em 2008, eu tinha 4 anos, eu sofri violência física e psicológica na escolinha que eu estudava... denúncias de polícia e tudo mais. Foram coisas bem marcantes. Todas as violência me marcaram, e eu sinto... fisicamente, mentalmente, isso me moldou e, principalmente, quando você tem muita confiança em alguém, você vai se abrir, o que é muito difícil. Você vai se abrir com uma pessoa e você percebe que ela não deu importância nenhuma e ainda meio que diminuiu o que você está sentindo... você se sente pior ainda. Você fala: “Meu deus, por que eu abri a boca?” (Adolescente 7).
DISCUSSÃO
As experiências de vida dos adolescentes apresentaram caminhos singulares, assim como as formas idiossincráticas de sofrimento psíquico e as razões atribuídas para a tentativa de suicídio. Ao mesmo tempo, as experiências vividas estão centralizadas em uma geração que compartilha a faixa etária cronológica e o sofrimento psíquico, frutos de contexto socioeconômico, histórico e cultural de territórios marginalizados em um município no sudeste brasileiro. Importante também considerar o contexto pandêmico trazido em muitas das falas. Por isso, as trajetórias de vida trazem indicações de como foi adoecer, conviver com o adoecimento psíquico, as situações estressantes desde a infância e a tentativa de suicídio nesta realidade. É importante mencionar que as nuances da percepção das emoções transmitidas pela linguagem corporal não puderam ser observadas na totalidade pelas entrevistas terem ocorrido na modalidade online, o que pode ter impactado o aprofundamento das narrativas apreendidas pelos entrevistadores, especialmente de temas sensíveis para os adolescentes.
É relevante atentar para o sofrimento psíquico e tentativa de suicídio em menores de 13 anos(14), o que corrobora esta investigação, na qual adolescentes realizaram as primeiras tentativas de suicídio aos 11 anos. Os adolescentes mencionaram experiências de preconceito e exclusão social a partir da orientação sexual e identidade de gênero; esse dado corrobora as evidências científicas que demonstram que estudantes de minorias sexuais e de orientações de gênero apresentam mais chances de tentar o suicídio quando comparados a cisgênero e heterossexuais(14).
Esta investigação não aborda diretamente a interseccionalidade, mas o número expressivo de participantes que se autodeclararam como pardos e negros. Supõe-se que os fatores de risco e o mecanismo para a tentativa de suicídio podem ser diferentes entre os grupos étnico-raciais(14,15). A discriminação étnico-racial(15) é um dos fatores de risco para ideação e tentativas de suicídio entre jovens negros.
A teoria da interseccionalidade(26) oferece uma estrutura para a compreensão das categorias sociais, como sexo, raça/etnia, status socioeconômico, identidade de gênero e orientação sexual, cruza para refletir múltiplos atributos individuais e contextos sociais que influenciam a saúde e os comportamentos de risco. Tais desigualdades interseccionais associadas a circunstâncias psicossociais agravam o risco para a tentativa de suicídio na juventude(14).
Destaca-se que metade dos adolescentes que tentaram o suicídio não buscaram imediatamente atendimento hospitalar e, posteriormente, receberam cuidados por detecção dos sintomas depressivos e ansiosos que estavam causando prejuízo em suas vidas. Estudo de coorte com adolescentes finlandeses identificou que, para cada tentativa registrada no ambiente hospitalar, duas meninas (proporção de 1:2) e seis meninos (proporção de 1:6) relataram ter tentado suicídio sem contato com o hospital(2). Esse resultado aponta para o número oculto de tentativa de suicídio entre adolescentes e contribui para refletir sobre o papel dos profissionais de saúde para se aproximar dos adolescentes e detectar precocemente os sinais e sintomas do comportamento suicida.
De fato, o desafio está na transição do atendimento de emergência hospitalar para os CAPS ij com os adolescentes após a tentativa de suicídio, bem como no encaminhamento entre a Atenção Primária e o CAPS ij quando a tentativa é identificada nesses serviços. A complexidade dos contextos envolvendo o ato exige a discussão dos casos para que haja corresponsabilidade no cuidado, com práticas profissionais de acolhimento, escuta empática e vínculo com os adolescentes(6,7,13).
As horas empreendidas no uso de telas é uma preocupação significativa. Entretanto, os adolescentes não relataram comportamentos de dependência e cyberbullying, mas é digno de atenção o fato de o algoritmo estimular o consumo de postagens envolvendo depressão e tentativa de suicídio e a deepweb com postagens explícitas sobre métodos de tentativa de suicídio(2,20). Autopsia psicológica com adolescentes que morreram por suicídio na Noruega e na Coreia identificou a dependência das mídias sociais(2,20). Os aspectos positivos e negativos do uso das mídias sociais estão interligados à saúde mental dos adolescentes(27). Futuras pesquisas qualitativas podem aprofundar essa discussão e explorar os conteúdos consumidos nas principais plataformas digitais pelos adolescentes com comportamento suicida.
Em relação aos sinais de alerta de pensamentos suicidas, apenas um adolescente reportou a escrita de uma carta de despedida, e os demais tentaram comunicar situações conflituosas vivenciadas no ambiente escolar e entre os colegas, mas não foi reconhecido como um pedido de ajuda pelos familiares e nem por professores. Possivelmente, é difícil identificar sinais de risco de suicídio, o que pode estar relacionado aos adolescentes se sentirem incompreendidos e não expressarem seus pensamentos ou opiniões(3,6,9). Por outro lado, advoga-se sobre a conformação de seguir as normas sociais de respeito à autoridade dos pais, semelhante à cultura coreana(3).
As tentativas de suicídio ocorreram devido à presença de emoções negativas persistentes ao longo dos anos e motivadas por um impulso de se livrar da turbulência emocional(8,11,17,20,22). A incapacidade de compreender a origem das emoções como raiva, desespero, angústia, tristeza e de não ter estratégias para regulá-las quando surgiam contribuiu para a tentativa de suicídio(4,8,22). A tentativa de suicídio é o esforço desesperado para ter o controle do comportamento e das emoções diante da realidade imposta aos adolescentes.
A coocorrência de autolesão não suicida e tentativa de suicídio desvela fragilidades emocionais significativas, à medida que a dor física reduz o medo do indivíduo sobre o suicídio e a morte(3,11,12,13,17,19). Na presente investigação, a autolesão não suicida não surgiu acompanhada de pensamentos suicidas, mas os comportamentos repetidos gradualmente levaram ao surgimento de tentativas de suicídio. Revisão sistemática com meta-análise identificou a coocorrência entre autolesão não suicida e tentativa de suicídio em 10% dos casos(12). A autolesão não suicida pode representar um período prodrômico de risco aumentado para tentativas de suicídio(12).
Os transtornos de humor, principalmente a depressão, estão diretamente associados à tentativa de suicídio entre adolescentes(3,9,15,17). A manifestação dos sintomas de depressão e de ansiedade oriundos de eventos estressantes na vida fez com que os adolescentes se sentissem como um peso e um fardo para seus familiares, levando-os, de modo impulsivo, a interromper suas vidas(3,7,8,9,15,16). Entre os sintomas depressivos mencionados pelos adolescentes, destacam-se a tristeza, o choro, a sensação de vazio, o pessimismo, a desesperança e a insônia. Os sintomas ansiosos emergiram a partir de dor no peito, dificuldade para respirar e sudorese.
Os adolescentes mencionaram o divórcio dos pais quando eram crianças, além de ausência paterna na educação e criação(4,6,7,8,9,10,16). A configuração familiar majoritariamente de mães solo e avós explica o trauma de perda dos avós. Nesse sentido, identificou-se a dor do inconformismo pela perda dos avós, que lhes dispensavam carinho e amparo, eram responsáveis por sua educação e criação, e a falta de apoio para elaborar o luto(3,7,20) e para reinvestir em outras pessoas o tempo e o cuidado anteriormente dedicados a eles. Tais fatores compuseram os fundamentos para que o esgotamento da dor e a sensação de fragilidade aflorassem no cotidiano desses jovens.
As relações familiares marcadas por conflitos(3,7,8,9,13,15,18) contribuem para a vivência de sentimentos dolorosos, aumentando a vulnerabilidade ao suicídio. Arranjos familiares desprovidos de implicação subjetiva e comunicação na relação com os adolescentes proporcionam a abertura para a exibição sistemática de violências, ao não aceitarem as diferenças entre os membros familiares. Isso pode levar à percepção de abandono, insegurança, frustração por não se sentir pertencente ao seio familiar e à presença de crises existenciais(3,4,8,18). O exercício da maternidade solo, o acúmulo dos papeis tradicionais atribuídos à mulher(28) e a responsabilidade de prover financeiramente podem ser circunstâncias que fazem com que as mães não atendam às necessidades psicossociais percebidas pelos adolescentes.
É digno de nota que alguns jovens mencionaram a vivência em ambientes depressivos, citando o adoecimento psíquico da mãe, em que estavam em uma situação prejudicial por não terem outras pessoas que dispensassem cuidado. A depressão materna pode aumentar a vulnerabilidade ao suicídio em adolescentes, pois os faz sentir-se responsáveis por seus pais(16,18,27) e assumir o próprio cuidado(3,18). A depressão materna não tem associação direta e nem unilateral, tampouco pode sozinha explicar as razões para a tentativa de suicídio entre adolescentes. Entretanto, esta realidade aponta para o desamparo social em que tanto adolescentes quanto suas mães estão aprisionados em suas próprias angústias.
Diferentemente do reportado em Portugal, Coreia e Japão(3,6,9), não foram mencionados rompimentos amorosos associados ao sofrimento psíquico e à tentativa de suicídio. Apenas um adolescente mencionou a vivência de relacionamento amoroso abusivo, o que faz pensar que este fator de risco pode ser mais comum entre adultos jovens que tentam o suicídio.
O atravessamento pelo sofrimento psíquico repercutiu no rendimento escolar(3,9), uma vez que os adolescentes não tinham energia para ir à escola e/ou apresentavam falta de concentração, o que resultava em menor desempenho escolar. Por outro lado, havia uma pressão interna em torno do desempenho escolar para não frustrar as expectativas de professores e familiares, principalmente entre os jovens que anteriormente eram estudantes com notas excelentes. A proximidade do fim do ensino médio se torna particularmente estressante em relação a exames e notas para entrada na universidade(27). Uma das repercussões observadas pelo período de confinamento oriundo da pandemia de COVID-19 foi a ansiedade social, em que os sentimentos persistentes de preocupação levaram ao isolamento dentro de casa e à evasão escolar(27). Futuras pesquisas devem aprofundar essa possível correlação de modo longitudinal.
Os problemas de relacionamento com professores e amigos foram mencionados pelos adolescentes. De fato, a dificuldade de permanecer nos contextos sociais sem ter a sensação de pertencimento(9,27) é um fator importante para as tentativas de suicídio. A rejeição e a humilhação sofrida por colegas e/ou professores fazem com que os adolescentes tenham dificuldades para estabelecer relações diretas com as pessoas(4,8,27,29,30). Por outro lado, circunstâncias de adaptação à nova cidade e à nova escola(7) e o traço de personalidade de timidez e introversão(6,7,8) contribuem para que os adolescentes se sintam tão solitários que o isolamento social se torne doloroso, sendo assumido por eles como uma condição real e não como um acontecimento modificável. Adolescentes vítimas de bullying têm comprometimento no seu bem-estar psicológico pela vivência no ambiente escolar hostil(4,13,19).
Investigação brasileira com professores da rede pública de educação(30) identificou que os educadores se mostram sensíveis às particularidades de seus alunos. Entretanto, a magnitude das demandas que remetem às violações e/ou falta de acesso a direitos, ao atravessamento de múltiplas violências e à escassez de estratégias intersetoriais para contemplar as vulnerabilidades sociais faz com que os educadores adotem mecanismos defensivos de distanciamento em relação à vida dos alunos, atentando-se estritamente aos processos acadêmicos ao se depararem com os processos de vulnerabilização que afetam a vida dos adolescentes.
As formas de bullying se configuraram com insultos, ofensas, zoação, apelidos pejorativos, humilhação, exclusão, discriminação, intimidação e hostilidade em relação à imagem corporal, traços de comportamento, modos de falar e de expressar com base na orientação sexual, identidade de gênero e adolescentes oriundos das regiões Norte e Nordeste do Brasil. Dois adolescentes mencionaram a forma física, em que apanharam e foram empurrados. Os adolescentes se sentiram oprimidos e se isolaram em espaços como biblioteca e sala de informática para se protegerem. Todas as formas e vivências de bullying foram significativas para a sensação de tristeza, desesperança e aumento do risco para a tentativa de suicídio(6,7,19). Possivelmente, uma das repercussões do sofrimento oriundo do bullying se concentra no emagrecimento ou aumento significativo do peso em pouco tempo e na insatisfação com a imagem corporal(22), presentes nas histórias de vida dos adolescentes desta investigação.
O abuso físico e psicológico perpetrado por familiares foram os eventos traumáticos que se constituíram como uma série contínua de traumas ao longo dos anos, sendo o catalisador para o sofrimento psíquico(7,10,13,15). Adolescentes que sofrem abuso físico e emocional dos pais apresentam três vezes mais chance de tentar o suicídio(10). A negligência emocional é a forma mais significativa de maus-tratos na infância, correlacionados com sintomas depressivos, pensamentos e tentativa de suicídio(15). Uma parcela significativa de adolescentes mencionou a ocorrência de negligência emocional, e em um dos casos, o adolescente teve acolhimento noturno no CAPS ij por esta realidade.
Ouvir as próprias experiências subjetivas dos adolescentes após a tentativa de suicídio permitiu compreender que a sensação de abandono e de se sentir incompreendido se constituiu como trauma que exponenciou o desejo de morrer diante das violências e adversidades nas relações interpessoais, impedindoos de pedir ajuda. Constata-se, portanto, que os profissionais de saúde devem empreender esforços para ouvir os adolescentes com atenção e sem julgamento antes de consultar outras fontes, para que se sintam seguros em compartilhar as razões para a tentativa de suicídio no contexto de suas vidas. O cuidado centrado nos fatores protetores para o suicídio e estratégias para lidar com os momentos de dor psicológica intensa podem ser caminhos seguros para o processo de recuperação e prevenção de novas tentativas de suicídio.
Entre as limitações do estudo, mencionam-se a dificuldade em localizar os adolescentes e a impossibilidade de realizar as entrevistas com os adolescentes presencialmente, o que pode ter limitado, em parte, o estabelecimento de um vínculo de confiança dos participantes com os pesquisadores, com possível prejuízo no aprofundamento das entrevistas.
Esta pesquisa sobre a tentativa de suicídio na adolescência destaca aspectos relevantes que podem contribuir para a prática do enfermeiro em todos os níveis de atenção à saúde e em diversos contextos, tanto para a detecção precoce dos sinais de alerta para a tentativa de suicídio quanto para futuras intervenções de prevenção a novas tentativas, considerando a singularidade de cada adolescente e suas necessidades de cuidado. Acrescenta-se, ainda, a necessidade de o enfermeiro atuar conjuntamente com a equipe interprofissional em saúde e incluir família e rede intersetorial, principalmente educação, no cuidado das necessidades de saúde dos adolescentes, uma vez que o mapeamento dos adolescentes escolares em risco para o suicídio é uma estratégia de prevenção de suicídio relevante no território.
A intersecção entre as circunstâncias psicossociais envolvendo as tentativas de suicídio de adolescentes converge para o deslocamento da patologização da vida de modo individual para a urgência de práticas de cuidado em articulação intersetorial e interprofissional, que considerem os contextos de vida e os determinantes psicossociais da crise, a fim de garantir os direitos de proteção e segurança endereçados aos adolescentes. Neste sentido, impõe-se o debate crítico para a reorientação estratégica das políticas públicas de saúde mental infantojuvenil para intervenções precoces e com práticas interprofissionais para o rastreio da negligência emocional, apoio a conflitos familiares, desenvolvimento de resiliência e mediação de vulnerabilidades sociais e relacionais envolvendo os serviços da saúde, assistência social, segurança pública, educação, arte e cultura(6,7,30). Os Fóruns Intersetoriais da Saúde Mental Infantojuvenil dentro dos territórios e o Programa Saúde na Escola podem ser iniciativas para garantir a implementação das políticas públicas de saúde mental infantojuvenil, além do fortalecimento do trabalho interprofissional e intersetorial, voltados ao comportamento suicida. A implementação dessas estratégias pode garantir a continuidade do cuidado do adolescente após a tentativa de suicídio e mitigar novas tentativas de suicídio.
CONCLUSÃO
Os adolescentes participantes do estudo relataram suas vivências, experiências e motivos atribuídos para a tentativa de suicídio, demarcando a falta de habilidades socioemocionais para gerenciar situações estressantes, a depressão e a ansiedade como pano de fundo para a sensação de vazio, a ocorrência de autolesão não suicida e a tentativa de suicídio como alternativa para solucionar os problemas. Luto, embates familiares, histórico de depressão materna, negligência emocional, violência física e sexual perpetrada por familiares os deixaram vulneráveis para a tentativa de suicídio. Ter sofrido bullying, dificuldades de estabelecer amizade com colegas por mudança de cidade e de escola, conflitos com colegas e professores, e baixo rendimento escolar estiveram circunscritos na experiência de vida dos adolescentes e entrelaçados à baixa autoestima, insônia, insatisfação com a imagem corporal, sensação de abandono, isolamento social, sensação de ser um fardo e falta de pertencimento.
Os resultados apontam para a necessidade de os adolescentes se conectarem com outras pessoas, de desenvolverem estratégias de regulação emocional adequadas após a tentativa de suicídio, para que possam cuidar da saúde mental com maior autonomia e segurança, e de haver programas de prevenção ao suicídio nos serviços de saúde e nas escolas. Futuras pesquisas devem se concentrar em grupos de adolescentes de alto risco para o comportamento suicida, como pertencentes às populações LGBTQIAPN+, negros, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, imigrantes, em medidas socioeducativas e em acolhimento institucional, ampliando o debate crítico sobre a implementação das políticas públicas voltadas ao público juvenil e ao trabalho intersetorial e interprofissional no cuidado de adolescentes após a tentativa de suicídio.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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