Open-access Vivências de pessoas idosas em Instituições de Longa Permanência à luz da teoria da Modernidade Líquida

RESUMO

Objetivo:  Conhecer as vivências das pessoas idosas no processo de institucionalização.

Método:  Estudo qualitativo, a partir de entrevistas com 30 pessoas idosas residentes em três Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) de um município do interior do estado de São Paulo, Brasil. A análise foi realizada com base na técnica de análise temática, à luz da teoria da Modernidade Líquida, de setembro a dezembro de 2024.

Resultados:  A partir da análise dos dados foram formuladas quatro temáticas: Institucionalização por incapacidade de cuidado e como processo imposto pela família; Perdas decorrentes da institucionalização; Sofrimento e desconforto na convivência institucional; A instituição como espaço de cuidado, segurança e reconstrução do pertencimento.

Conclusão:  As vivências das pessoas idosas institucionalizadas expressaram a complexidade do cuidado na contemporaneidade, marcado por experiências ambivalentes entre proteção e sofrimento. Os achados indicaram a necessidade de qualificar as práticas assistenciais, investir na capacitação das equipes e fortalecer políticas públicas que promovam cuidado humanizado, autonomia e permanência da pessoa idosa no contexto social, sempre que possível.

DESCRITORES
Instituição de Longa Permanência para Idosos; Idoso; Humanização da Assistência; Acontecimentos que Mudam a Vida; Institucionalização

ABSTRACT

Objective:  To get to know the experiences of older people in the process of institutionalization.

Method:  This is a qualitative study based on interviews with 30 older people residing in three Long-Term Care Facilities for Older People (LTCF) in a municipality in an inland city of the state of São Paulo, Brazil. The analysis was conducted using thematic analysis techniques, in light of the theory of Liquid Modernity, from September to December 2024.

Results:  Based on the data analysis, four themes were formulated: Institutionalization due to inability to provide care and as a process imposed by the family; Losses resulting from institutionalization; Suffering and discomfort in institutional living; The institution as a space of care, security, and reconstruction of belonging.

Conclusion:  The experiences of institutionalized older people expressed the complexity of care in contemporary times, marked by ambivalent experiences between protection and suffering. The findings indicated a need to improve care practices, invest in staff training, and strengthen public policies that promote humane care, autonomy, and the continued presence of older adults in their social context, whenever possible.

DESCRIPTORS
Homes for the Aged; Aged; Humanization of Assistance; Life Change Events; Institutionalization

RESUMEN

Objetivo:  Conocer las experiencias de los ancianos en el proceso de institucionalización.

Método:  Este es un estudio cualitativo basado en entrevistas con 30 ancianos que residen en tres residencias de larga estancia para ancianos en un municipio del interior del estado de São Paulo, Brasil. El análisis se realizó utilizando técnicas de análisis temático, a la luz de la teoría de la modernidad líquida, desde septiembre hasta diciembre de 2024.

Resultados:  A partir del análisis de datos, se formularon cuatro temas: Institucionalización debido a la incapacidad de brindar cuidados y como un proceso impuesto por la familia; Pérdidas resultantes de la institucionalización; Sufrimiento e incomodidad en la vida institucional; La institución como espacio de cuidado, seguridad y reconstrucción de la pertenencia.

Conclusión:  Las experiencias de los ancianos institucionalizados pusieron de manifiesto la complejidad de los cuidados en la actualidad, marcado por vivencias ambivalentes entre la protección y el sufrimiento. Los halazgos indicaron la necesidad de mejorar las prácticas de atención, invertir en la capacitación del personal y fortalecer las políticas públicas que promuevan una atención humana, la autonomía y la presencia continua de los adultos mayores en su contexto social, siempre que sea posible.

DESCRIPTORES
Hogares para Ancianos; Anciano; Humanización de la Atención; Acontecimientos que Cambian la Vida; Institucionalización

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, intensificou-se a preocupação com o acelerado processo de envelhecimento populacional observado mundialmente. No Brasil, estima-se que, em 2060, as pessoas idosas representarão 25,5% da população(1,2), configurando novo perfil epidemiológico. Assim, destaca-se que as transformações decorrentes do envelhecimento tendem a elevar a vulnerabilidade, reduzir a capacidade funcional e favorecer o surgimento de múltiplas doenças, além de intensificar conflitos interpessoais e problemas socioeconômicos. Esses fatores podem comprometer as condições de vida e saúde, evidenciando a necessidade de preparação adequada dos serviços e políticas para atender às demandas desse grupo(1,2).

No contexto brasileiro, o principal suporte às pessoas idosas costuma ser fornecido pela família, que desempenha papel central no cuidado e apoio às necessidades delas. Entretanto, as transformações socioeconômicas, a redução do tamanho e da estrutura das famílias, a sobrecarga de tarefas cotidianas e a escassez de recursos materiais ou emocionais, muitas vezes, limitam a capacidade de prestar cuidados adequados. Diante dessas dificuldades, tem-se aumentado consideravelmente a procura por Instituição de Longa Permanência para idosos (ILPI), a qual surge como alternativa para garantir atenção e segurança necessária às pessoas idosas(3).

A institucionalização, embora constitua alternativa de cuidado importante, é revestida de desafios que envolvem diferentes dimensões da autonomia e independência. A pessoa idosa que vive em uma ILPI encontra-se afastada de vínculos familiares e das relações nas quais construiu a história de vida dela. Além disso, pode apresentar algum grau de limitação nas atividades da vida diária e, por isso, demanda cuidados contínuos0(4).

A rotina rígida e a padronização dos cuidados limitam as escolhas das pessoas idosas, reduzem a capacidade de tomada de decisão e, consequentemente, de exercer preferências quanto à organização do cotidiano. Neste contexto, passam a depender da disponibilidade da equipe para executar as decisões, quando ainda são capazes de tomá-las, revelando dependência social e institucional(4). Essas consequências estão associadas a pior qualidade de vida, maior risco de tristeza, isolamento e sofrimento psicológico(5).

Pessoas idosas institucionalizadas apresentam elevada dependência funcional em atividades de vida diária, principalmente relacionadas à higiene pessoal(6). A solidão, frequentemente vivenciada por elas, causa impactos negativos à saúde(7). Há, também, relação da institucionalização com maior nível de depressão, ansiedade e baixa autoestima, o que agrava as condições de saúde preexistentes, dificulta o gerenciamento de doenças crônicas e prejudica os hábitos alimentares(8).

Além das transformações demográficas e epidemiológicas, é fundamental compreender a institucionalização da pessoa idosa no contexto das transformações sociais da contemporaneidade. À luz da teoria da modernidade líquida de Zygmunt Bauman, observa-se que as relações humanas se tornaram progressivamente mais frágeis, instáveis e utilitárias, marcadas pela lógica do descarte(9).

Nesse cenário, a velhice, frequentemente associada à improdutividade, à dependência e à perda de valor social, passa a ocupar lugar de invisibilidade e marginalização. Bauman descreve ainda a “cegueira moral” como fenômeno característico da modernidade líquida, na qual o sofrimento do outro deixa de provocar indignação ética e mobilização social. Essa perspectiva contribui para compreender por que situações de negligência, abandono e institucionalização compulsória das pessoas idosas são frequentemente naturalizadas, tanto no âmbito familiar quanto nas esferas institucionais e estatais. Assim, a institucionalização deixa de ser apenas uma resposta às limitações funcionais e passa a expressar, também, reflexo das fragilidades dos vínculos sociais na sociedade contemporânea(9,10).

Apesar do crescente número de estudos sobre o envelhecimento e sobre ILPI, observa-se que grande parte da produção científica se concentra em aspectos epidemiológicos, funcionais e organizacionais dessas instituições, sendo que aspectos das dimensões subjetivas permanecem ainda pouco explorados, especialmente quando se trata da perspectiva da própria pessoa idosa, o que limita a construção de práticas assistenciais mais sensíveis e centradas na pessoa(3,4,5,6,7,8).

Diante desse panorama, buscou-se dar voz às pessoas idosas que vivem em ILPI, visando ampliar o conhecimento sobre as dimensões subjetivas desse processo e, assim, contribuir para construção de práticas de cuidado mais sensíveis, humanizadas e alinhadas às necessidades dessas pessoas. Neste contexto, formulou-se a seguinte pergunta de pesquisa: Quais são as vivências das pessoas idosas no processo de institucionalização em ILPI? Logo, objetivou-se conhecer as vivências das pessoas idosas no processo de institucionalização.

MÉTODO

Estudo de abordagem qualitativa, a partir de entrevistas com pessoas idosas residentes em ILPI, conduzido conforme as diretrizes do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ). Os resultados foram compilados com base na Análise Temática (AT), proposta por Brawn e Clarke(11).

O projeto foi submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa com Seres Humanos da instituição proponente e obteve parecer favorável nº 6.741.923, CAAE 78071324.4.0000.5413. As pessoas idosas foram informadas sobre o desenvolvimento do estudo, em conformidade com a Resolução 510/2016 da Comissão Nacional de Ética e Pesquisa (CONEP) e, quando de acordo, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

A pesquisa foi realizada em município do interior do estado de São Paulo, Brasil. Foram pesquisadas três ILPI. O município conta com população de 101.409 habitantes, sendo que 19.543 são pessoas idosas, ou seja, aproximadamente 19% da população geral.

As Instituições foram denominadas A, B e C, as quais se caracterizam como associação civil, de natureza jurídica, filantrópica e sem fins lucrativos, recebem recursos municipais e estaduais, assim como ajuda da população local. Mantêm registro no Conselho de Idosos Municipal e Estadual e contam com 76, 44 e 47 residentes, respectivamente. Os critérios para admissão nessas instituições ocorrem por determinação judicial, justificada por abandono familiar, demanda espontânea ou por intervenção do Conselho Municipal do Idoso, sendo que alguns dos residentes têm idade inferior a 60 anos, o que ocorre por dependência para as atividades de vida diária e falta de rede de apoio social ou familiar para garantir a sobrevivência na comunidade. Atualmente, há fila de espera para o acolhimento de novas pessoas idosas nessas instituições.

Os critérios de inclusão na pesquisa foram: estar institucionalizado há, no mínimo, seis meses, ter 60 anos ou mais, e capacidade de comunicação e cognitiva preservadas, avaliadas a partir do Miniexame do Estado Mental (MEEM). Foram excluídas as pessoas idosas com diagnóstico de demência e aquelas que, no momento da entrevista, encontravam-se hospitalizadas ou indispostas por algum problema de saúde. O MEEM foi aplicado à totalidade das pessoas idosas em etapa anterior do estudo. Entre aquelas que atenderam aos critérios estabelecidos, realizou-se sorteio para seleção dos participantes. O convite inicial foi feito por um profissional da ILPI com vínculo prévio com a pessoa idosa; mediante concordância, o pesquisador era apresentado e procedia à realização da entrevista. Nos casos de recusa, procedeu-se a novo sorteio.

Os dados foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas, pelo primeiro autor, enfermeiro, mestre, que exerce atividades profissionais indiretamente nas instituições, pois atua no serviço municipal de vigilância sanitária do local da pesquisa. O entrevistador não tinha relacionamento com os participantes e explicou as motivações para a pesquisa antes da coleta de dados. Além disso, recebeu treinamento prévio para condução das entrevistas. Seguiu-se roteiro com dados de identificação (sexo, idade, tempo de residência na ILPI e questões abertas sobre os motivos de estar residindo na ILPI, o que mudou na vida após ir para a ILPI, o significado de estar institucionalizado, como é o cotidiano nesse local).

As entrevistas foram áudio gravadas, realizadas no período de setembro a dezembro de 2024, nas três ILPI, sem a presença de outros participantes ou pesquisadores. Ademais, tiveram duração média de 30 minutos e foram encerradas quando se observou saturação dos dados, ou seja, no momento em que houve repetição dos dados e a coleta de novas informações não trouxe acréscimos ao objeto de estudo(12). Ressalta-se que não foi necessário realizar entrevistas repetidas, que não houve entrevista piloto, e que o primeiro autor realizou notas de campo após cada entrevista. As entrevistas foram transcritas na íntegra, imediatamente após sua realização, pelo próprio entrevistador responsável por sua condução e não houve devolução das transcrições e resultados aos participantes. O material empírico foi organizado manualmente com o auxílio do Microsoft Word®.

A análise dos dados foi realizada por meio da análise temática AT que consiste em método de análise qualitativo que se propõe a compreender os padrões oriundos dos dados por meio da identificação de temas. O método permite grande flexibilidade, uma vez que os temas são extraídos dos próprios dados, o que para os autores se trata de um processo criativo e reflexivo, sendo a subjetividade do pesquisador entendida como recurso necessário, pois eles não emergem passivamente dos dados. Destaca-se, entretanto, que a abordagem de codificação e desenvolvimento dos temas deve ser rigorosa e sistemática, considerando a necessidade de fluidez e reflexibilidade do pesquisador, o que precisa ocorrer com conhecimento teórico e transparência(11).

Acrescenta-se que a elaboração dos temas ocorre por meio de sucessivas aproximações com os dados e descreve-se a análise temática em seis fases, as quais não precisam ser consideradas linearmente, mas é necessária a exaustividade na interação com os dados, para que sejam geradas percepções ricas e complexas(13).

A primeira fase da análise temática visa aproximação da profundidade e amplitude do conteúdo. Assim, após a transcrição na íntegra das entrevistas, os seis autores realizaram leituras repetidas e independentes do material, buscando familiarização com o corpus e registrando impressões preliminares. A segunda fase envolve a produção de códigos iniciais a partir dos dados, sendo que estes representam um conteúdo semântico ou latente que se refere ao segmento ou elemento mais básico do dado, buscando identificar aspectos interessantes e significativos do texto. Nesta etapa, dois pesquisadores procederam à geração inicial dos códigos a partir da leitura linha a linha das entrevistas e, na sequência, os códigos foram revistos, agrupados e refinados, por meio de reuniões online com os demais autores. Na fase três, denominada procura por temas, os códigos foram organizados em temas potenciais, os quais foram discutidos coletivamente e reavaliados quanto à sua coerência interna (homogeneidade) e distinção entre si (heterogeneidade externa). Na fase quatro, momento de revisitar e refinar os temas, elaborou-se um mapa temático, buscou-se explicitar a essência de cada tema, visando assegurar a representatividade de forma consistente do conjunto de dados. Na sequência, os temas foram definidos e nomeados, na busca de identificar a essência de cada um e verificados os subtemas, assegurando que representassem consistentemente o conjunto dos dados. Na última fase, realizou-se a análise final e a escrita do relatório. Neste relatório, os excertos das falas dos participantes foram selecionados e incorporados à narrativa analítica, visando ilustrar e sustentar a interpretação constituída coletivamente pela equipe(11,13).

Para manter o anonimato, as entrevistas foram codificadas de acordo com a letra designada para a instituição (A, B e C), seguida da ordem numérica de realização de 1 a 12.

RESULTADOS

Foram realizadas trinta entrevistas com pessoas idosas institucionalizadas. Das doze entrevistas realizadas na instituição A, cinco foram do sexo feminino e sete do sexo masculino, o tempo de residência da maioria dos entrevistados era entre 1 e 5 anos e a média de idade entre 75 e 89 anos. Na instituição B, foram realizadas nove entrevistas, sendo seis participantes do sexo masculino e três do sexo feminino. A maioria dos entrevistados era residente entre 1 e 5 anos e tinha a média de idade entre 60 e 74 anos. Na Instituição C, foram realizadas nove entrevistas, sendo quatro pessoas do sexo masculino e cinco do sexo feminino. A maioria dos entrevistados residia na instituição há mais de 10 anos e tinha a média de idade entre 75 e 89 anos, conforme Quadro 1.

Quadro 1
Perfil sociodemográfico das pessoas idosas institucionalizadas – São Paulo, Brasil, 2025.

A partir da análise dos dados obtidos por meio das entrevistas, foi possível a formulação de quatro temáticas: Institucionalização por incapacidade de cuidado e como processo imposto pela família; Perdas decorrentes da institucionalização; Sofrimento e desconforto na convivência institucional; A instituição como espaço de cuidado, segurança e reconstrução do pertencimento, conforme se apresentam a seguir.

Institucionalização por Incapacidade de Cuidado e como Processo Imposto pela Família

As pessoas idosas entrevistadas apontaram que a institucionalização ocorreu a partir do momento em que se tornaram dependentes para as atividades de vida diária e em que condições, como a falta de apoio, estrutura familiar, condições financeiras, além do fato de morar sozinho, impediram-nos de continuar em seus lares. Neste contexto, alguns foram institucionalizados conscientes da necessidade, enquanto outros se sentiam contrariados, enganados, com sentimento de falta de voz e, por vezes, magoados, pois a decisão de institucionalização ocorreu pelos familiares. Ademais, existiam pessoas idosas que, embora não desejassem, aceitaram a permanência, por reconhecer que a família não conseguia atender às necessidades deles, conforme se observa nas falas a seguir.

Então, eles não podiam fazer o almoço, café na hora, aí trouxeram eu. (2B)

Ah, eu fiquei sozinho, perdi a esposa. Você fica sozinho e elas me pegaram e trouxeram para cá. E, eu não... por mim, eu não tinha vindo. (A1)

É, o meu sobrinho que trouxe eu, eu não sabia também. (B4)

Você fica sentido por causa que eles mentiram para mim, sabe. Aí, mentiram para mim. Que vinha trazer eu no médico. Tinha que ter falado a verdade. (C2)

Daí, eu vim aqui porque, para o senhor ver, nós tínhamos que pagar a cuidadora do meu salário. Como é que ia fazer? (5C)

Eu morei 8 anos com as minhas irmãs, daí, elas não estavam mais dando conta [...] eu tenho meu limite agora, elas esgotaram de fazer tudo, por isso que eu vim para cá [...]. (A9)

Perdas Decorrentes da Institucionalização

A vida da pessoa idosa institucionalizada expressa-se por perda da autonomia e independência; ruptura com a identidade e com o lar; cotidiano com rotinas mecanizadas e empobrecidas; sentimento de confinamento e não pertencimento. O desejo de estar na própria casa e ter autonomia para realizar as atividades do cotidiano, de acordo com a própria vontade foi uma manifestação presente no discurso das pessoas idosas, o que gera descontentamento e tristeza por viverem institucionalizados. Nesta perspectiva, apontaram para monotonia do cotidiano da ILPI, descrevendo rotina permeada pela inatividade e falta de significado. Revela-se, assim, que a pessoa idosa percebe a redução do protagonismo e das possiblidades de escolhas, bem como a ruptura com a identidade e o lar.

Acho que fica preso. É que eu não saio para lugar nenhum quase. (B8)

Se eu estivesse na minha casa, aí eu comeria aquilo que eu quero. Porque em casa, a gente faz o que a gente quer. Se eu pudesse ficar na minha casa, eu ficava. (A2)

Eu não considero aqui minha morada, eu não sinto aqui como minha morada [...] (C8)

Ah, está passando. Você levanta...eles dão banho...você toma café...você almoça, você toma café...E....toma café de novo, almoça...A janta...viu? E depois vai dormir. (A1)

Sofrimento e Desconforto na Convivência Institucional

Quanto aos sentimentos decorrentes da institucionalização, as falas mostraram o sofrimento emocional marcado pela solidão e pelo distanciamento dos familiares; ambientes coletivos com fatores estressores e falta de privacidade; convivência difícil com outras pessoas idosas; e baixa identificação com o ambiente institucional. Alegaram que na ILPI existiam pessoas muito diferentes e doentes, com transtornos mentais, de difícil convivência, o ambiente era barulhento e que o fato de ficar em três no quarto era constrangedor e sufocante, o que levava ao distanciamento, percepção de inadequação e falta de pertencimento ao local.

É triste. Ficar longe da família. Porque se eu falar para o senhor que é boa coisa, não é. Tem vez que ando triste, choro, eu tenho que chorar, sabe. (B6)

Cara, eu falo a verdade, eu estou aqui, mas não estou contente, sabe? (A4)

É uma instituição de idosos doentes. Então... Devido a isso ser difícil, pessoas difíceis. Então, eu não presto atenção no ambiente. (2C)

Tem alguns que têm problema mental, é difícil. Não que eu não goste deles. Não dá certo. (B7)

Aí, a maior parte do tempo eu fico lá dentro. Não me dou muito com jeito, é um griteiro, uma bagunça. Também, é tudo meio maluco, griteiro, bagunça, choradeira, uma xingação. (A2)

É que eu estou em três no quarto. Você sabe o que é. Três no quarto. Eu fico maluco sem ar. (A5)

A Instituição Como Espaço de Cuidado, Segurança e Reconstrução do Pertencimento

As pessoas idosas entrevistadas valorizavam o apoio institucional, uma vez conseguiam melhorias na saúde e no bem-estar a partir dos cuidados ofertados; a instituição proporcionava tranquilidade e proteção frente à falta de suporte e de condições das famílias, o que se revelou em vivências marcadas por abandono, conflitos e sofrimento; eles construíram novos vínculos e sentimento de pertencimento ao ambiente; com isso, adaptavam-se e sentiam satisfação com a rotina institucional. Observou-se, assim, que a instituição era considerada como um caminho de proteção e cuidado, oferecia segurança, estabilidade, pois contava com importantes recursos para manter a sobrevivência, como alimentação na hora certa, cuidados de higiene, roupa lavada, medicamentos, distração como rádio e televisão, além da atenção que recebiam dos funcionários.

Melhorou bastante, pois aqui tenho alimentação correta, durmo tranquilo, tem que ficar aqui que é melhor. (A12)

Ah...O tratamento deles, viu? Ah...excelente, viu? (A1)

Gosto de eles servir a gente aqui na hora certa. É bom. Então, comida, roupa lavada. (B3)

Para a saúde, também melhorou bastante. Muitas coisas boas. Excelente. (A9)

Eu fico aqui ouvindo rádio na cadeira de rodas e também vejo televisão. Tudo que vem eu gosto. Nada incomoda eu. (C5)

Eu não tenho família. A minha família são as pessoas aqui do abrigo. (B2)

Porque eu não tinha paz, eu vivia numa agonia terrível. Eu não conseguia dormir à noite. E minha filha chegava bêbada. Ficava pensando: o que vai acontecer hoje? (C4)

Aqui é minha casa agora, quando morava com meu irmão e cunhada, eles saiam e deixavam sozinha dentro de casa com sede e com fome. (B6)

Ah, eu morava com minha filha e não me dava bem, achava tudo difícil para mim, por isso, pensei vou morar no Asilo, vim e gostei. Para mim, é melhor do que em casa [...] (A9)

DISCUSSÃO

Nas vivências das pessoas idosas institucionalizadas, observou-se que a entrada na instituição ocorria em diferentes circunstâncias, predominantemente associadas a processo de fragilização funcional e insuficiência de suporte familiar. A dependência para realizar as atividades de vida diária, somada à sobrecarga familiar e à escassez de recursos, constitui conjunto de fatores que frequentemente culmina na institucionalização(14). Muitas vezes, esse processo não foi participativo, configurando-se como uma decisão familiar mediada por limites concretos na capacidade de cuidado. Embora possa representar uma solução prática para a família, a institucionalização foi vivida pelas pessoas idosas como imposição, acompanhada de frustração, mágoa e sensação de perda da autonomia(15).

Nesse contexto, a autonomia destacou-se como dimensão relevante na compreensão das vivências relatadas. Para além da capacidade funcional, trata-se de um princípio ético que sustenta a dignidade humana. Quando a decisão pela institucionalização ocorre sem a participação da pessoa idosa, instaura-se ruptura com a autodeterminação que pode repercutir na identidade e na forma como o sujeito percebe o lugar no mundo. Nesse sentido, o processo de institucionalização não se restringe à mudança de residência, mas envolve a reconfiguração de papéis sociais, reorganização do cotidiano e redimensionamento da identidade. Assim, faz-se necessário que os profissionais que atendem a essas pessoas tenham claro o significado de autonomia e como facilitá-la de forma eficaz(16).

A institucionalização representa grande impacto na vida da pessoa idosa, visto que proporciona aos residentes limites claramente definidos e regras que reorganizam o cotidiano. Envolve, inicialmente, processo de desapropriação de papéis, perda de autodeterminação e falta de privacidade e, na sequência, reconstrução gradual de novos papéis, a maioria deles minuciosamente regulados por normas da instituição. Tal processo pode ser interpretado como uma transição forçada entre modos de existência, na qual a identidade anteriormente construída é parcialmente desarticulada para dar lugar a uma identidade institucional. Com a perda da autodeterminação, alguns se sentem frustrados e descontentes(17).

O cotidiano institucional, conforme expresso nas falas dos entrevistados, frequentemente envolve práticas que violam a dignidade e os diretos das pessoas idosas, as quais acabam sendo naturalizadas e percebidas como necessárias para manutenção do funcionamento da instituição. Essa naturalização contribui para que a pessoa idosa seja vista mais como um objeto de trabalho do que como um ser humano dotado de singularidade, o que favorece a perda da subjetividade(18).

No contexto da institucionalização, destacou-se forte sentimento de não pertencimento, que se manifesta como exclusão, rejeição e isolamento. Esses sentimentos fragilizam a autoestima, comprometendo a realização pessoal, o alcance do bem-estar e, em alguns casos, favorecendo o surgimento de sofrimento psicológico e doenças mentais(19). O não pertencimento, nesta perspectiva, expressa uma ruptura com os vínculos sociais que conferiram sentido à existência anterior à institucionalização.

Os achados deste estudo, que evidenciaram a institucionalização como processo frequentemente imposto, permeado por perdas, sofrimento emocional e fragilização da identidade, dialogaram diretamente com os pressupostos da modernidade, conforme discutida por Zygmunt Bauman. Na modernidade líquida, as relações sociais tornaram-se mais vulneráveis, efêmeras e pragmáticas, o que impacta diretamente a forma como a sociedade lida com a velhice e dependência. À medida em que as relações sociais se tornam mais frágeis e descartáveis, o cuidado com o outro, especialmente com aquele que demanda tempo, paciência e responsabilidade, tende a ser percebido como um fardo, e não como um compromisso ético(9,10).

Nesse contexto, o conceito de “adiaforização da conduta humana” contribui para compreender a banalização do sofrimento das pessoas idosas institucionalizadas. A adiaforização, segundo Bauman, refere-se ao deslocamento de determinadas ações do campo da responsabilidade moral, permitindo que decisões como a institucionalização sem participação da pessoa idosa sejam tomadas sem que gerem culpa ou reflexão ética profunda(10). Assim, decisões como a institucionalização sem participação da pessoa idosa passam a ser justificadas como necessárias ou inevitáveis, sem que haja reflexão ética e aprofundamento sobre suas consequências subjetivas. Isso se expressou nas falas dos participantes que relataram ter sido enganados, privados de escolha e afastados abruptamente do convívio familiar.

Além disso, a lógica do consumismo, da produtividade e da performance, centrais na modernidade líquida, entra em choque direto com as necessidades do envelhecimento, que demandam cuidado contínuo, escuta, tempo e investimento emocional. Aquele que não corresponde à lógica da eficiência passa a ser socialmente deslocado para espaços de segregação funcional. Assim, a pessoa idosa, ao não corresponder mais aos ideais de autonomia plena e eficiência, passa a ser percebida como um corpo excedente, o que contribui para naturalização da exclusão do espaço familiar e social, reforçando os sentimentos de não pertencimento identificados neste estudo(9,10).

Assim, o processo de institucionalização traz para a pessoa idosa muitos desafios. O período de adaptação torna-se quase que insuportável, trazendo sentimentos de tristeza e abandono, podendo levá-la à depressão(20). Em muitas instituições, a carência de estrutura física e recursos humanos, aliada a uma assistência puramente protecionista, com pouco incentivo às potencialidades da pessoa idosa e à liberdade de escolha dela, pode aumentar o grau de dependência, isolamento e de perspectiva para uma vida ativa e com qualidade(21).

Entretanto, as ILPI desempenham importante papel diante das múltiplas necessidades apresentas pelas pessoas idosas, que nem sempre contam com suporte adequado para manutenção da saúde e da vida, assim como foi observado na fala dos entrevistados que consideram que na instituição encontraram melhores condições de sobrevivência, quando comparado com as vivências anteriores de escassez de recursos financeiros ou de apoio familiar. Contudo, essa função protetiva não elimina as vulnerabilidades que atravessam o contexto institucional. As pessoas idosas residentes apresentam demandas múltiplas e complexas, exigindo cuidado contínuo, qualificado e interdisciplinar. Neste cenário, principalmente aquelas de caráter filantrópico, enfrentam limitações estruturais, financeiras e organizacionais que repercutem diretamente na qualidade do cuidado ofertado(22).

A literatura aponta que a carência de qualificação dos profissionais nas ILPI constitui fator central nesse processo, contribuindo para precarização do cuidado e comprometimento da qualidade de vida dos residentes. Além disso, a insuficiência de formação específica e de educação permanente pode favorecer o adoecimento dos próprios trabalhadores que lidam com demandas complexas e crescentes, muitas vezes, sem o suporte adequado(23,24).

No Brasil, embora existam políticas públicas robustas, como o Estatuto da Pessoa Idosa, ainda se observa a insuficiência de ações concretas do Estado na oferta de cuidados à população idosa. Como consequência, as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) de gestão privada têm crescido no país, muitas vezes, operando sem a devida regulamentação(25,26).

Diferentemente do que aponta o presente estudo e outros sobre as deficiências das ILPI no Brasil, cita-se, como exemplo, o que foi constado na Áustria, pois, no geral, a qualidade de vida em lares de pessoas idosas é elevada, superando, em alguns aspectos, pessoas idosas que vivem no domicílio com características sociais e de saúde semelhantes, mesmo considerando a necessidade de melhoria nos cuidados relacionados à autonomia(27).

Nesse país, as pessoas idosas recebem auxílio financeiro de acordo com o grau de dependência, priorizando o cuidado domiciliar com apoio de cuidadores informais. Ademais, é respeitado o desejo da pessoa idosa em ser institucionalizado ou não(28). O suporte dado à pessoa idosa e, consequentemente, as melhores condições de vida, também são observados em países como Finlândia, Noruega, Suécia e Dinamarca, visto que foram realizados investimentos elevados em serviços de cuidado(29).

Resgata-se, assim, que a melhoria da qualidade de vida das pessoas idosas depende de investimentos efetivos que resultem na implementação de políticas públicas, iniciando pelas existentes, assegurando ações que promovam autonomia, participação social e valorização da subjetividade e identidade pessoal. A valorização da subjetividade reconhece que os seres humanos são vulneráveis. Esta categoria inclui pessoas idosas e familiares, bem como os profissionais de saúde que prestam cuidados em ILPI(30).

Por fim, reconhece-se que embora o presente estudo traga contribuições para reflexões acerca das necessidades de pessoas idosas institucionalizadas, apresenta-se como limitação o fato de ter sido realizado em três ILPI de um único município, o que limita a generalização dos achados para outras localidades, já que estrutura, práticas de cuidado, políticas locais e condições dos residentes podem variar. Além disso, por se tratar de abordagem de questões sensíveis que se relacionam com a sensação de abandono, conflitos e sofrimento, algumas pessoas idosas podem ter optado por não revelar aspectos dolorosos das vivências delas.

CONCLUSÃO

O presente estudo, ao dar voz às pessoas idosas institucionalizadas, evidenciou que a institucionalização ocorre, predominantemente, em contextos de incapacidade para o cuidado no domicílio e insuficiência de suporte familiar, sendo frequentemente vivida como processo imposto e marcado por perdas, especialmente de autonomia, vínculos e subjetividade. Ao mesmo tempo, revelou-se como espaço de proteção e acesso a condições básicas de sobrevivência, configurando experiência ambivalente, situada entre sofrimento e cuidado, perda e segurança.

Os resultados deste estudo permitiram afirmar que a institucionalização da pessoa idosa não pode ser compreendida apenas como consequência da dependência funcional ou da insuficiência de políticas públicas, mas também como expressão de um modo de organização social que fragiliza vínculos, relativiza responsabilidades e banaliza o sofrimento humano. Tal ambivalência reflete os limites e as possibilidades das ILPI no contexto brasileiro.

Diante disso, reforça-se a necessidade de fortalecimento das políticas públicas e das redes de apoio que ampliem alternativas ao cuidado institucional, bem como a qualificação das práticas nas ILPI, com ênfase na promoção da autonomia, na escuta ativa e no cuidado centrado na pessoa. Investir na formação dos profissionais e na construção de ambientes institucionais humanizados constitui passo essencial para assegurar vivências mais dignas às pessoas idosas.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

  • Apoio financeiro
    O presente trabalho contou com apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por meio da Fonte 001, conforme as normas da instituição de fomento.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Marcia Regina Martins Alvarenga

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    28 Jan 2026
  • Aceito
    25 Mar 2026
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