Open-access Diversidade social, parentalidade e promoção do desenvolvimento infantil: reflexões ao cuidado de enfermagem

RESUMO

Objetivo:  Elencar elementos reflexivos sobre o cuidado da criança frente aos dilemas contemporâneos envolvendo a parentalidade e a diversidade social para promoção do desenvolvimento infantil e suas implicações para a enfermagem.

Método:  Estudo reflexivo sob a perspectiva teórica da sabedoria prática, amparada na compreensão de saberes práticos que envolvem escolhas diante de contingências do cotidiano.

Resultados:  Foram elencados elementos reflexivos sobre escolhas parentais e possíveis dilemas contemporâneos sobre diversidade social relativas ao cuidado exercido por alguém de outra cor de pele, outra orientação sexual, outra religião e figuras masculinas. Saberes práticos relacionados às escolhas e supostas resistências parentais às aptidões de outras pessoas para o cuidado da criança sugerem ampliar as reflexões sobre as implicações na parentalidade e na promoção do desenvolvimento infantil.

Conclusão:  A sabedoria prática contribui para analisar e ponderar aspectos do cuidado, trazendo elementos importantes para a enfermagem auxiliar as escolhas parentais que abrangem a diversidade social na infância, considerando evitar discriminação, preconceitos e hostilidades, para valorizar as oportunidades de promoção do desenvolvimento infantil pleno.

DESCRITORES
Cuidado da criança; Desenvolvimento infantil; Cuidadores; Poder Familiar

ABSTRACT

Objective:  To list reflective elements on child care in the face of contemporary dilemmas involving parenting and social diversity to promote child development and its implications for nursing.

Method:  Reflective study based on the theoretical perspective of practical wisdom, supported by the understanding of practical knowledge involving choices in the face of everyday contingencies.

Results:  Reflective elements were listed on parental choices and possible contemporary dilemmas regarding social diversity related to care provided by someone of another skin color, another sexual orientation, another religion, and male figures. Practical knowledge related to parental choices and supposed resistance to other people's abilities to care for children suggests that reflections on the implications for parenting and the promotion of child development should be expanded.

Conclusion:  Practical wisdom contributes to analyzing and considering aspects of care, bringing important elements for nursing to assist in parental choices that encompass social diversity in childhood, considering the avoidance of discrimination, prejudice, and hostility, to value opportunities to promote full child development.

DESCRIPTORS
Child Care; Child Development; Caregivers; Parenting

RESUMEN

Objetivo:  Enumerar elementos reflexivos sobre el cuidado infantil ante los dilemas contemporáneos que involucran la parentalidad y la diversidad social para promover el desarrollo infantil y sus implicaciones para la enfermería.

Método:  Estudio reflexivo desde la perspectiva teórica de la sabiduría práctica, apoyada en la comprensión del conocimiento práctico que implica elecciones frente a las contingencias cotidianas.

Resultados:  Se enumeraron elementos reflexivos sobre las opciones parentales y los posibles dilemas contemporáneos en torno a la diversidad social relacionada con el cuidado brindado por alguien de otro color de piel, otra orientación sexual, otra religión y figuras masculinas. El conocimiento práctico relacionado con las elecciones y la supuesta resistencia parentales a las capacidades de otras personas para cuidar a los niños sugiere ampliar las reflexiones sobre las implicaciones para la parentalidad y la promoción del desarrollo infantil.

Conclusión:  La sabiduría práctica contribuye a analizar y considerar aspectos del cuidado, aportando elementos importantes para que la enfermería pueda auxiliar en las decisiones de los padres que contemplen la diversidad social en la infancia, considerando evitar la discriminación, los prejuicios y la hostilidad, para valorar las oportunidades de promover el pleno desarrollo infantil.

DESCRIPTORES
Cuidado del Niño; Desarrollo Infantil; Cuidadores; Responsabilidad Parental

INTRODUÇÃO

Os cuidados ofertados às crianças por seus cuidadores primários são cruciais para promover o desenvolvimento infantil, com ênfase na interação responsiva que proporciona afeto e aprendizado, principalmente durante os primeiros anos de vida(1). Em nossa realidade, os cuidados primários são ofertados principalmente no âmbito familiar, pelas mães, pais ou pessoas que exercem a função parental. A avaliação da eficácia das intervenções parentais no desenvolvimento infantil aponta que ações de promoção são particularmente importantes nos primeiros três anos de vida, quando o cérebro em desenvolvimento é mais sensível às experiências e ao ambiente(1).

A parentalidade é entendida como o conjunto de estratégias realizadas pelos cuidadores com função parental, com a finalidade de promover o desenvolvimento da criança, garantir sua segurança e proporcionar os estímulos adequados(2).

Os cuidadores parentais têm muitas tarefas para exercer o cuidado e compreender informações que podem ser complexas, novas, específicas ou incertas, sendo essencial contar com pessoas de referência que possam apoiar os conhecimentos e práticas parentais sobre o desenvolvimento infantil e seus benefícios para o cuidado integral da criança(3).

No cuidado das crianças, também são de extrema importância os cuidadores não parentais, incluindo familiares, babás e educadores de creches, que podem ser cuidadores primários ou secundários(4). A promoção do desenvolvimento integral da criança inclui aspectos de socialização, envolvendo a aprendizagem da convivência entre pares e na comunidade, formas de interação, empatia, respeito e alteridade, otimizando as trajetórias de desenvolvimento das crianças(5).

Nesse processo, é necessário atentar para o pertencimento ao grupo, a exposição à diversidade e às interações sociais plurais. Os cuidados parentais e não parentais podem conter implicações das questões de diversidade social, abrangendo a discriminação referente ao racismo(6), hostilidade relacionada à diversidade por orientação sexual(7), obstáculos para aceitação de diferentes religiões(8) e dificuldades para maior envolvimento da figura masculina nos cuidados infantis(9), as quais têm sido apontadas em diferentes contextos sociais pelas suas repercussões no desenvolvimento das crianças. Particularmente, as instituições de educação infantil devem garantir estimulação social e cognitiva em um ambiente seguro e com qualidade nas ações ofertadas(10).

Diante de evidências científicas que destacam a importância dos cuidados ofertados às crianças, com ênfase na interação responsiva e no papel da parentalidade positiva, e também perante dilemas contemporâneos em lidar com o diferente, a discriminação e a intolerância, bem como a necessidade de incrementar ações inclusivas, este estudo busca discutir aspectos relativos à parentalidade e diversidade social e seus possíveis desdobramentos à promoção do desenvolvimento infantil. Assim, o objetivo é elencar elementos reflexivos sobre o cuidado da criança frente aos dilemas contemporâneos envolvendo a parentalidade e a diversidade social para promoção do desenvolvimento infantil e suas implicações para a enfermagem.

REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO

Estudo reflexivo sob a perspectiva da sabedoria prática(10), em busca de compreender saberes práticos envolvendo a parentalidade e a diversidade social em prol da promoção do desenvolvimento infantil. Nesse sentido, traz-se para reflexão o cuidado com foco na diversidade social em relação ao cuidado da criança exercido por alguém de outra cor de pele, outra orientação sexual, outra religião e ou por figuras masculinas.

No presente estudo, a perspectiva da sabedoria prática é abordada para o cuidado de enfermagem em saúde da criança, ressaltando a importância de estar em consonância com realidades contextualizadas e compartilhadas entre cuidadores parentais e profissionais, e em busca de valorizar experiências, escolhas e tomadas de decisão para compreensão e ampliação do cuidado em saúde(11).

A sabedoria prática é um conceito originário da filosofia prática, no âmbito dos conhecimentos aristotélicos sobre as racionalidades dos saberes(10). O plano da sabedoria prática envolve uma especificidade contingente, ou seja, lida com a eventualidade, as incertezas, os acontecimentos e as experiências humanas, reconhecendo que os aspectos interligados não são perenes, causais e universais(10). Nessa vertente, constitui um espaço de saber com vazão para emergir os interesses comuns ou divergentes, os valores e as possibilidades de interação e diálogo.

A perspectiva teórica da sabedoria prática envolve os saberes práticos ligados aos processos de escolha (conseguir escolher, precisar escolher, necessitar saber e encontrar o bem em cada situação vivenciada) e ao conceito de contingente como sua essência(10). Assim, trata-se também de um conjunto de saberes que lidam com menos certeza e determinação, e buscam construir a compreensão de aspectos da vida, das experiências e das escolhas diante das diversas contingências do cotidiano.

Os saberes práticos e suas interfaces com os conhecimentos técnico-científicos referem-se a um movimento de reconstrução e articulação de diferentes aspectos que compõem um tema ou uma situação, e que podem auxiliar o processo das escolhas humanas(10). No caso dos cuidados à saúde e desenvolvimento infantil e sua relação com a parentalidade, as escolhas parentais são muito importantes. Para tanto, são vitais a comunicação, a linguagem, a escuta e o diálogo entre os sujeitos, para fomentar boas escolhas de cuidado e refletir criticamente sobre as preocupações e dilemas de percepções e perspectivas, e que contribuam para ter mais clareza rumo às boas práticas.

No campo da promoção do desenvolvimento infantil, os profissionais podem fundamentar-se na sabedoria prática, ou seja, atentar para as experiências dos cuidadores parentais e suas escolhas frente às necessidades do cuidado de suas crianças, implicando em responsabilidade por atitudes cuidadoras pertinentes.

PARENTALIDADE E PROMOÇÃO DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL: UM OLHAR PARA A DIVERSIDADE SOCIAL

O conjunto de experiências que a criança vivencia nos primeiros anos de vida compõe um repertório de grande relevância na formação do cérebro e na construção de aprendizagens e habilidades motoras, cognitivas, emocionais e sociais. Assim, todas as interações e ambientes devem atuar sinergicamente com cuidados e estímulos adequados para proporcionar um bom desenvolvimento(1).

Os horizontes do cuidado parental e não parental exercem papel significativo para a vida das crianças e, particularmente, as situações de quem cuida da criança e do ambiente em que ela se insere nos primeiros anos de vida necessitam compor o diálogo com as famílias e favorecer boas escolhas parentais. Quando o cuidado da criança é visto na perspectiva de proporcionar o seu desenvolvimento pleno, também ganham relevância os cuidados não parentais desempenhados por outras pessoas. Nesse caminho, são importantes as oportunidades de convivência com alguém de outra cor de pele, outra orientação sexual, outra religião ou figuras masculinas.

No tocante aos aspectos sobre a cor da pele e desenvolvimento infantil, estudo discute o papel parental na abordagem dos preconceitos(6). Aponta que as crianças podem começar a exibir preconceitos raciais em fases iniciais do desenvolvimento infantil, sendo necessário prevenir e diminuir os aspectos que possam envolver prejulgamentos. Questões de discriminação relacionadas ao racismo podem ser uma barreira aos cuidados de saúde. Estudo encontrou que atitudes parentais raciais com negação do privilégio dos brancos foram negativamente relacionadas com a simpatia das crianças pelas vítimas negras, abordando as formas potenciais de moldar a simpatia e compaixão das crianças com base na raça(12). Bebês que cresceram em comunidades mais diversas mostraram uma capacidade mais aprimorada de reconhecer rostos de outras etnias, em comparação com aqueles que viveram em comunidades menos diversas(13). Assim, a exposição a uma variedade de rostos desde tenra infância sugere desempenhar um papel crucial na aceitação da diversidade racial ao longo da vida.

Em relação aos aspectos sobre orientação sexual, as questões envolvendo a diversidade sexual podem desencadear um conjunto de atitudes de hostilidade, marginalização e exclusão. No cuidado das crianças, é importante o debate sobre orientação sexual, parentalidade e bem-estar das crianças(7). Estudo enfatiza que não devem ser realizadas suposições com base na orientação sexual das pessoas, se são mais adequadas do que outras para cuidar das crianças(7).

Outro aspecto a destacar refere-se aos obstáculos para aceitação de diferentes religiões, com a intolerância religiosa podendo afetar negativamente o desenvolvimento e a autoestima humana(8). Atentar para as conexões entre religião e atitudes culturais específicas, por exemplo em relação aos imigrantes, ateus e grupos religiosos minoritários, ganha importância para a inclusão de abordagens interdisciplinares e centradas na pessoa(8). A forma como as famílias e as escolas abordam a convivência com diferentes religiões pode influenciar na aceitação ou rejeição de crenças distintas, e a maneira como os educadores lidam com a diversidade religiosa contribui para a promoção de uma convivência respeitosa(14,15).

Quanto à presença ativa da figura masculina no cuidado infantil, implicações no que se refere a ajudar meninos a compreender que o cuidado não é uma responsabilidade exclusiva das mulheres e meninas é muito importante, além de possibilitar apreender que os homens podem ser cuidadores, o que contribui para a construção de relações afetivas mais equilibradas(16). Desse modo, a desconstrução de estereótipos promove uma visão mais igualitária e colaborativa entre homens e mulheres(16).

A figura paterna que deseja ser mais envolvida no cuidado das crianças pode enfrentar barreiras culturais, falta de recursos e um apoio inadequado, destacando a necessidade de desmistificar a imagem da paternidade tradicional. Assim, muitos homens continuam a ser socializados com a expectativa de se tornar o provedor financeiro, e a mãe é vista como a principal responsável pela criança(17). O cuidado das crianças visto como uma função secundária pode perpetuar os papéis tradicionais de força e autoridade, e esse estigma pode gerar insegurança e dificultar o envolvimento parental paterno no cuidado pleno das crianças(18).

Na educação infantil, a figura masculina é vista como benéfica, pois promove uma formação plural, além de desempenhar um papel crucial no desenvolvimento integral da criança, especialmente relacionado à construção de identidade e desenvolvimento de habilidades cognitivas e socioemocionais(19). Nesse sentido, ampliar o potencial de envolvimento de figuras masculinas no cuidado cotidiano da criança contribui para estimular uma abordagem transformadora de gênero(9).

As oportunidades que proporcionam atitudes intergrupais de gênero das crianças têm implicações para o comportamento entre pares, a exemplo do estudo com crianças entre 4 e 5 anos de idade de diversas origens (mexicanas, chinesas, dominicanas e afro-americanas), em que as atitudes positivas em relação ao mesmo sexo foram associadas ao conhecimento dos estereótipos de gênero e, em contraste, atitudes em relação a outros gêneros foram associadas à versatilidade cognitiva (flexibilidade de estereótipos, consistência de gênero), e atitudes de outro gênero previram comportamento preconceituoso(20). A aprendizagem precoce sobre as categorias de gênero sugere moldar as atitudes das crianças pequenas, com consequências para o comportamento intergrupal na infância(20).

Nas situações de cuidados não-parentais na infância, quando o exercício do cuidado é realizado por alguém de outra cor de pele, outra orientação sexual, outra religião e ou figura masculina, há que ter atenção para a relação entre cuidadores parentais e não parentais. Nesse sentido, é fundamental haver prioridade para interações e ambiente de cuidado, para que contribuam para o desenvolvimento infantil, descolados das características pessoais e sociais. Portanto, há necessidade de um olhar para o envolvimento com a criança, os potenciais de contribuir para o seu desenvolvimento, e as percepções e fatos sobre impactos futuros. Também é importante atentar para ciclos globais de pobreza, desigualdades e exclusão social, que geram dificuldades para atingir os potenciais de desenvolvimento humano(21).

Tais aspectos ganham importância na compreensão da sabedoria prática, envolvendo as percepções e escolhas parentais e o cuidado pleno das crianças, com o fortalecimento das iniciativas de interações positivas criança-ambiente e de promoção do desenvolvimento na primeira infância.

Promover ambientes equitativos e inclusivos para as crianças, bem como as abordagens que incentivam atitudes positivas para lidar com a diversidade são essenciais, porque configuram oportunidades de viabilizar a socialização, o desenvolvimento de conexões e um sentimento de pertencimento(22). Cabe enfatizar a necessidade de uma boa composição dos primeiros ambientes de cuidado das crianças, com relações sociais oportunas, ferramentas pertinentes para analisar a profundidade e a amplitude das relações, e redes sociais ao longo do desenvolvimento(23). Assim, a categorização social vai sendo construída, e tem suas raízes em sistemas perceptivos, conceituais e sociais que emergem desde tenra idade e passam por importantes mudanças de desenvolvimento na infância com possíveis repercussões ao longo da vida(24).

A base da capacidade humana de formar categorias sociais úteis ocorre na infância, possibilitando orientar inferências que as crianças fazem a partir das características e relações sociais partilhadas(21). Para as crianças, a categorização social pode ajudar a simplificar e compreender o seu ambiente social, mas tem consequências prejudiciais sob a forma de estereótipos, preconceitos e discriminação(24). Nesse caminho, a educação infantil é considerada uma das formas de combater preconceitos relacionados à diversidade e de promover uma melhor inclusão, desde que os ambientes proporcionem estimulação social e cognitiva qualificadas(10). Globalmente, estratégias qualitativas e inclusivas na educação infantil têm sido recomendadas para atingir as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, incluindo os direcionados à promoção do desenvolvimento da criança(22).

No presente estudo, os elementos reflexivos de destaque envolvem as perspectivas que o cuidado parental pode ter na promoção do desenvolvimento infantil, em que uma gama de experiências parentais e não parentais é muito relevante, sendo vitais os aspectos que perpassam por escolhas, considerações, argumentações e saberes reflexivos. As dimensões das escolhas referentes à diversidade social podem conter obstáculos e desafios ou terem abertura para romper com a intolerância, a discriminação e os preconceitos. Nesse caminho, cabe privilegiar o diálogo entre os sujeitos envolvidos para ampliar os entendimentos e ressignificar o cuidado da criança e o seu desenvolvimento, que são relevantes para o cuidado em saúde e de enfermagem nesse campo.

Assim, esta reflexão não pretende abordar ou debater definições específicas para a diversidade étnica-racial-cultural, religiosa, de gênero e orientação sexual. A perspectiva é refletir sobre o cuidado de enfermagem em face aos desafios envolvendo tais aspectos para a promoção do desenvolvimento humano na infância.

Contribuições para a Área da Enfermagem

Os apontamentos em relação ao cuidado da criança exercido por outras pessoas trazem aspectos contemporâneos importantes para repensar o cuidado de enfermagem envolvendo a atenção à saúde na primeira infância. O processo de cuidar das crianças, permeado por escolhas parentais, engloba a temática da diversidade social, sendo importante dar espaço às reflexões sobre as interfaces com as oportunidades do desenvolvimento integral da criança e a expansão da sabedoria prática.

Cuidar da saúde das crianças junto aos cuidadores parentais requer competências para expandir as articulações com os saberes práticos(11). A temática da diversidade social no cuidado da criança implica abranger e ultrapassar o êxito técnico, alcançando atitudes compreensivas no processo de cuidar e reconstruindo os entendimentos sobre as situações que as famílias vivenciam e como lidam com os recursos disponíveis na comunidade.

A escolha parental sobre quem vai cuidar da criança é de certo modo voluntária, mas se houver mais informações, diálogo conjunto e abertura para expandir os pensamentos, provavelmente haverá mais possibilidades para embasar as escolhas. Nesse caminho, implica dar mais abertura para lidar com o diferente e repensar aspectos preconceituosos e discriminatórios. Portanto, é necessário criar esferas de diálogo compreensivo para as diversas demandas e construir um passo a passo de vivência intercultural e plural.

O cuidado de enfermagem em saúde da criança diante da referida temática necessita de ações que canalizem para a sabedoria prática, ou seja, que estejam atentas para entender atitudes e experiências, dar visibilidade às opiniões e dimensões ocultas, pormenorizar desejos, interesses, carências, esperanças e escolhas, bem como examinar as possibilidades de romper barreiras. Assim, volta-se para o desafio ético de enfermeiras/os para com o valor que a ação de saúde tem para os cuidadores parentais e suas crianças, construindo atitudes cuidadoras que incluam o sujeito como partícipe(11).

O foco na diversidade, equidade e inclusão requer buscar transformações sociais e culturais para o cuidado, para reconhecer os marcadores identitários (gênero, orientação sexual, raça/cor de pele, etnia, religião, classe social, territorialidade, geração, deficiências, neurodiversidade, entre outros), respeitar as diferenças e trabalhar em prol das necessidades de saúde, da equidade e dos direitos humanos. Nos primeiros anos de vida, as interações das crianças com o ambiente físico e social, incluindo família, escola e comunidade, desempenham um papel determinante nas trajetórias de desenvolvimento, com implicações em longo prazo para a sua saúde, bem-estar e potencial futuro(5).

Há implicações para o ensino, pesquisa e prática de enfermagem com a construção de competências de cunho interpessoal e intercultural, fundamentada em conhecimentos científicos, estratégias ativas e avanços permeados por novas situações e pelo encontro com o diferente, fundamentais na formação e educação permanente de enfermeiras/os, que necessitam de um arcabouço sólido para lidar com seres humanos, suas necessidades de saúde e características singulares, e para o trabalho em grupo e em equipes interprofissionais. Estudo destaca a necessidade de incorporar aos currículos de enfermagem os princípios de diversidade, equidade e inclusão, bem como a compreensão ampliada de como o preconceito interfere no cuidado e na promoção da saúde, buscando a desconstrução de preconceitos por meio da educação reflexiva(25).

O cuidado de enfermagem com destaque ao seguimento pré-natal e de puericultura, em consulta, visita domiciliar e grupos educativos, comporta muitos elementos para a atenção integral à saúde da criança junto aos cuidadores parentais para a parentalidade positiva. Há também a relevância de enfatizar as ações intersetoriais entre saúde, educação e proteção social, que são setores de importantes interfaces para viabilizar a boa gestão do cuidado em contribuição ao desenvolvimento humano.

O cuidado profissional ofertado nesses encontros para a atenção à saúde infantil possibilita um conjunto de interações com as famílias. Para interações efetivas e responsivas às vivências das famílias, propõe-se que as boas práticas devem incluir a compreensão de que crenças e escolhas parentais são indispensáveis ao cuidado de enfermagem em saúde da criança, como parte de um repertório que busca obter o diferente e o diverso e dar vazão para emergir os saberes das experiências, interesses comuns ou divergentes, tensões, possibilidades e expectativas.

Assim, no âmbito da promoção do desenvolvimento infantil, esclarecer e fortalecer as escolhas parentais envolvendo as temáticas da diversidade, equidade e inclusão fazem parte do cuidado, para que sejam mais vinculadas à importância do desenvolvimento pleno das crianças com aprendizado e experiências diversas e multiculturais desde os primeiros anos de vida, e que as percepções parentais migrem de um rol de saberes de invisibilidade para expandir seus saberes práticos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo destacou elementos exploratórios e reflexivos sobre escolhas parentais vinculadas ao cuidado da criança, apontando dilemas contemporâneos sobre a diversidade social em situações relativas ao cuidado exercido por alguém de outra cor de pele, outra orientação sexual, outra religião e figura masculina. As reflexões sobre saberes práticos foram enfatizadas para a promoção do desenvolvimento infantil, ressaltando a importância da enfermagem em lidar com experiências parentais, suas escolhas e supostas resistências às aptidões de outras pessoas para cuidar da criança.

A temática da diversidade social envolvendo as pessoas que exercem o cuidado da criança abrange desafios e oportunidades em busca do desenvolvimento pleno das crianças, que promovam a socialização, o desenvolvimento de conexões e o sentimento de pertencimento. Assim, é preciso colocar mais valor nas habilidades socioemocionais, cognitivas, de atenção, memória, capacidade de resolução de problemas e juízo crítico, necessárias ao longo da vida.

O cuidado de enfermagem em saúde da criança diante de aspectos referentes à diversidade social necessita expandir e buscar conhecer valores e caminhos para uma convivência humana satisfatória, evitando discriminação, preconceitos, hostilidade e conflitos, repensando e reconstruindo as relações, as ações e os compromissos. Portanto, no cuidado integral à saúde da criança, conhecer crenças e escolhas e incrementar a comunicação constituem um imperativo dos tempos contemporâneos. Pesquisas são necessárias para compreender as percepções dos cuidadores parentais e identificar o impacto de características sociais de cuidadores de crianças na promoção do desenvolvimento infantil.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

  • Apoio financeiro
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) – Código de Financiamento 001 – e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) do Brasil.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Ivone Evangelista Cabral

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    29 Maio 2025
  • Aceito
    18 Set 2025
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